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domingo, 1 de outubro de 2023

Ucranianos morrem para satisfazer elite americana pró-guerra


Há mais de 70 anos, as guerras travadas pelos EUA seguem um mesmo padrão: cada vez que uma nova guerra é proposta, o bombardeio de propaganda midiática e estatal é tão grande que a maioria do público se une em apoio.

Inevitavelmente, esse apoio vai se erodindo. Enquanto o conflito se arrasta, as promessas vão deixando de ser cumpridas e as previsões de uma vitória fácil são desmentidas pela realidade; a população começa a perceber que a guerra foi um erro, repensa o apoio e começa a exigir o seu fim.

Assim foi no Vietnã, no Iraque, no Afeganistão, na Síria e na Líbia. Aos poucos, esse padrão lamentável se repete na Ucrânia. Enquanto um terço da população americana se dizia favorável a apoiar a Ucrânia nos meses seguintes à invasão russa, uma pesquisa recentemente realizada pela CNN traz um cenário diferente: "Maioria dos americanos são contra mais ajuda à Ucrânia na guerra com a Rússia".

Já o presidente Joe Biden segue comprometido com a manutenção do envolvimento dos EUA no conflito, tendo em agosto solicitado ao Congresso o envio de um novo pacote de US$ 24 bilhões —além dos mais de US$ 100 bilhões que os EUA já empenharam na manutenção desse conflito.

A participação no conflito na Ucrânia também obedece a outro padrão histórico nos EUA a respeito de guerras: não há diferença nenhuma entre os establishments republicano e democrata.

Todos os democratas —desde Bernie Sanders, senador independente de Vermont, à congressista "de esquerda" Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York— vêm sendo unânimes em seu apoio à política de Biden de envio de bilhões e bilhões de dólares para fabricantes de armas como Raytheon e Boeing (o chamado complexo industrial-militar), para a CIA e para o notoriamente corrupto sistema político ucraniano.

O mesmo é verdade quando se trata dos setores tradicionais do Partido Republicano, que vem apoiando Biden de forma igualmente fervorosa, postura que pode ser exemplificada pelo líder do Senado, Mitch McConnell, político conservador tradicional e histórico no partido. Não se ouve nenhuma sinalização, por superficial que seja, no sentido de resolver o conflito diplomaticamente.

Mas, se é possível identificar a repetição de velhas dinâmicas, há desta vez uma novidade: o surgimento de uma ala populista e, ao menos pretensamente, antiguerra no Partido Republicano, liderada pelo ex-presidente Donald Trump, que vem sendo o único setor na política dos EUA a se colocar contra esse conflito desde o princípio.

Cerca de 70 republicanos, na Câmara e no Senado —de modo geral, os que se colocam como alinhados a Trump— vêm manifestando sua oposição ao envolvimento na guerra, um número que só deve crescer à medida que mais e mais americanos comecem a se opor ao envio de mais recursos.

Essa estranha dinâmica política dos EUA pode ser vista no posicionamento dos candidatos presidenciais. Dois dos candidatos concorrendo à esquerda de Biden se opõem veementemente ao envio de mais armamentos e recursos para a Ucrânia: o desafiante democrata Robert F. Kennedy Jr. e o ativista e candidato independente Cornel West.

Por outro lado, os candidatos republicanos tradicionais, como o antigo vice de Trump, Mike Pence, e a governadora e ex-embaixadora na ONU Nikki Haley, apoiam fervorosamente a política de Biden.

Não é só na opinião pública que se pode perceber mudanças: a realidade da guerra em si mudou radicalmente desde a invasão russa. Desde o início de 2023, cerca de 20% do território ucraniano vem sendo ocupado pela Rússia, inclusive a península da Crimeia, ocupada pela Rússia desde 2014.

Para manter o apoio da opinião pública nos EUA e na Europa, "especialistas" insistiram que os ucranianos provavelmente reconquistariam grande parte de seu território neste ano. Porém, o que se vê é o oposto: "as linhas de frente na Ucrânia não mudaram quase nada no último inverno", reporta o New York Times, acrescentando que, "apesar de nove meses de conflito sangrento, menos de 1.300 km2 de território mudaram de lado desde o início do ano".

Enquanto o Ocidente estava soterrado em propaganda inspiradora sobre os bravos ucranianos ansiosos por lutar por sua liberdade, mais e mais homens ucranianos vêm tentando fugir do país desesperadamente para evitar uma guerra em que sabem que podem ser mortos.

O presidente do país, Volodimir Zelenski, luta não com um exército de voluntários, mas com um exército de conscritos. Ou seja: dezenas de milhares de jovens ucranianos que nunca quiseram participar da guerra foram mortos só neste ano em troca de nenhum benefício estratégico.

Os apoiadores da guerra nos EUA já nem se preocupam mais em fingir que essa é uma guerra virtuosa, visando defender a democracia: já se fala, cada vez mais abertamente, que a Ucrânia não está sendo salva, mas destruída, mas que isso deve ser apoiado assim mesmo porque ajuda no objetivo de enfraquecer a Rússia.

Em outras palavras, essa guerra é igual a todas as outras em sua dimensão mais importante: uma quantidade enorme de pessoas sem nenhum poder é levada a lutar e morrer, tudo para satisfazer os objetivos de uma parcela mínima das elites americanas, para quem a quantidade de mortos e os rastros de destruição não passam de uma nota de rodapé inconveniente.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Ucrânia proíbe filmes e músicas de artistas 'pró-rússia'

CENSURA

Ucrânia proíbe filmes e músicas de artistas 'pró-rússia'

DA AFP - A Ucrânia proibiu, no sábado (8), a veiculação de obras de uma dúzia de artistas, incluindo o francês Gérard Depardieu, acusados de apoiar os rebeldes pró-russos no leste do país ou a anexação da Crimeia por Moscou.
Desta forma, passam a ser proibidas as transmissões de rádio e televisão que incluam estes artistas, anunciou o Ministério da Cultura da Ucrânia.
A proibição afeta não só filmes atuais, mas também os da era soviética, como os de Mikhail Boiarski.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ucrânia pode ter usado bomba que se fragmenta, diz 'NYT'

Ucrânia pode ter usado bomba que se fragmenta, diz 'NYT'

Banida em vários países, arma teria sido empregada contra alvos civis em conflito com rebeldes em Donetsk
Forças Armadas negam; ONG diz haver indícios de que separatistas também podem ter usado esse armamento
ANDREW ROTHDO "NEW YORK TIMES", EM DONETSK

O Exército ucraniano parece ter usado munição de fragmentação em diversas ocasiões contra Donetsk.
Teria empregado assim uma arma de uso proibido em boa parte do mundo contra esta cidade controlada pelos rebeldes, cuja população excede 1 milhão de habitantes. A conclusão se baseia em indícios físicos recolhidos no local e entrevistas com testemunhas e vítimas.
Esse tipo de bomba, conhecida como "cluster", se estilhaça quando detonada, aumentando o poder de ferimento. Seu uso é proibido em 86 países (o Brasil não faz parte dessa lista).
Os locais atingidos por disparos de foguetes em 2 e 5 de outubro mostram sinais claros de uso de munição de fragmentação, disparada de territórios controlados pelo Exército.
Os dois ataques causaram ferimentos a pelo menos seis pessoas e mataram um funcionário suíço da Cruz Vermelha Internacional que trabalhava em Donetsk.
Se confirmado, o uso de bombas "cluster" pelo governo pró-Ocidente da Ucrânia pode complicar os esforços para reunificar o país, já que os moradores do leste estão cada vez mais amargurados com as táticas empregadas pelo Exército para expelir os rebeldes pró-Rússia.
Os dois ataques de outubro ocorreram quase um mês depois que o presidente Petro Poroshenko assinou um acordo de cessar-fogo com representantes dos rebeldes.
Além disso, em relatório divulgado na segunda-feira (20), a ONG Human Rights Watch afirma que os rebeldes provavelmente também usaram munições de fragmentação no conflito, uma informação que o "New York Times" não conseguiu comprovar de forma independente.
"É bastante claro que munições de fragmentação estão sendo usadas indiscriminadamente em áreas povoadas, especialmente em ataques contra Donetsk", afirmou Mark Hirzay, pesquisador de armas na HRW.
As Forças Armadas ucranianas negaram ter empregado munição de fragmentação. Também declararam que os rebeldes tinham acesso a poderosos sistemas de foguetes russos, capazes de disparar esse tipo de arma.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não existe solução militar para a Ucrânia, diz ONU

O secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon afirmou nesta terça-feira (2) que não existe uma solução militar para a crise na Ucrânia. Ban alertou o ocidente contra os perigos de uma ação militar, no momento na qual a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quer reforçar a sua presença no leste europeu.
"A União Europeia (UE), os norte-americanos e a maior parte dos países ocidentais estão discutindo muito seriamente entre eles o seu modo de proceder diante a presença russa na Ucrânia", afirmou ele durante sua visita na Nova Zelândia. "Precisam entender que não existe solução militar. Um diálogo político para uma solução política e o caminho mais seguro", afirmou ele.
O alerta do secretário-geral é voltado aos 28 chefes de Estado da Otan que devem adotar na cúpula de quinta e sexta-feira próximas um plano de reações em resposta à intervenção russa na crise ucraniana.   
Por sua vez, a ministra italiana das Relações Exteriores, Federica Mogherini, concorda com o representante da ONU de que a solução política para a crise na Ucrânia é a única viável. "Na Ucrânia não existe solução se não for política nesta crise. É o que não apenas a Itália, mas toda a UE e a Otan sempre disseram", afirmou ela a margem de um encontro com a Comissão das Relações Exteriores do Parlamento Europeu acrescentando que "é no que estamos trabalhando nestes dias e nestas horas".
A chanceler italiana confirmou que amanhã a UE deve preparar um novo pacote de sanções contra a Rússia. "Amanhã a comissão preparará o pacote das novas sanções européias contra a Rússia e a decisão será tomada na sexta-feira".  
Para a ministra italiana as relações de seu país com a Rússia deveriam ser revistas pois Moscou não é mais um parceiro estratégico para a UE. "Moscou continua sendo um ator político importante nos desafios regionais, é inegável, mas não é mais um parceiro estratégico para a UE. Espero porém que no futuro mude e queira voltar a ser um nosso parceiro", disse a Mogherini.   
A Rússia é acusada de intervir militarmente em território ucraniano, e ajudar os separatistas pró-russos no leste do país onde acontecem confrontos contra os militares do governo.

Reprodução do UOL Notícias - ANSA.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Milícias fogem do controle na Ucrânia

Milícias fogem do controle na Ucrânia

Cresce violência entre grupos no leste do país

Por ANDREW ROTH

KARLOVKA, Ucrânia - Num bosque isolado na parte oriental da Ucrânia, um grupo de 120 homens que se autodenominam o Batalhão de Donbass ocupou um acampamento de férias de crianças para se preparar para a guerra. O objetivo era transformar um grupo díspar de maquinistas, corretores de ações e estudantes em combatentes armados que pudessem enfrentar em pé de igualdade os militantes anti-Kiev que se espalharam pelo leste do país nos últimos dois meses.
"Será que ainda não ficou claro que o único jeito de liderar é ter uma arma?", disse em meados de maio Sergey, um jovem desajeitado de 25 anos que empunhava um fuzil de assalto AK-47 pela primeira vez. Sergey tinha acabado de deixar seu trabalho como jornalista no centro de informações pró-revolução em Kiev, a capital, para vir ao leste do país e treinar sob a liderança de vários veteranos do Exército, alguns dos quais tinham servido na invasão soviética do Afeganistão.
Algo que antes parecia ser um elemento secundário na campanha da Ucrânia contra as milícias rebeldes chegou ao centro das atenções em 23 de maio, quando um tiroteio entre o Batalhão de Donbass e uma milícia pró-russa deixou pelo menos sete mortos ao sul de Donetsk, a maior cidade da região. Não há consenso em torno das origens do choque. Antes de os disparos terminarem, Semyon Semenchenko, o líder do batalhão, afirmou que seus combatentes foram emboscados perto de um posto de checagem rebelde em Karlovka, vilarejo a 45 minutos de carro de Donetsk. Mas moradores locais e combatentes pró-Rússia disseram que Semchenko comandou o ataque ao posto e se viu cercado quando chegaram reforços inimigos.
A batalha mostrou o potencial devastador de violência entre as milícias, algumas delas contando com pouco treino formal, que pode continuar mesmo que cessem os enfrentamentos entre o Exército ucraniano e os rebeldes. O Batalhão de Donbass tinha assistido a pouca ação até então e era conhecido por ter atacado uma delegacia de polícia na cidadezinha de Velyka Novosilka. Mas os níveis de violência subiram recentemente, e centenas de partidários de Kiev entraram para a recém-restaurada Guarda Nacional, unidades militares formadas às pressas com combatentes inexperientes que se descobrem na linha de frente do conflito.
A presença dessas novas unidades em muitos casos alimenta o sentimento de revolta no leste do país. Em 11 de maio, o grupo foi acusado de matar a tiros vários ativistas pró-Rússia desarmados. O episódio reforçou algo que é dito comumente nesta região: que a parte ocidental da Ucrânia está enviando assassinos pagos para subjugar a parte oriental.
Ainda não se sabe como o Batalhão de Donbass é financiado. Semenchenko, 40, afirmou que o grupo não tem vínculos com o governo e que sobrevive de doações. Indagado sobre o perigo de o conflito se alastrar, à medida que mais milícias adquirem armas e se organizam, Semenchenko disse que governo perdeu controle sobre o próprio país.
"Melhor uma guerra civil do que aquilo que eles têm à nossa espera."
Após o enfrentamento em Karlovka, o corpo de um homem grisalho, usando colete à prova de balas, estava deitado atrás de um poste de concreto. Nas proximidades, ainda ardiam as brasas de um restaurante incendiado. Combatentes pró-Rússia disseram que o restaurante foi queimado depois de combatentes pró-Kiev tomarem posições em seu interior. Horas após o ataque, ainda não havia policiais presentes.
Num posto de checagem a alguns quilômetros de distância, onde estavam dezenas de militantes pró-Rússia fortemente armados, uma van branca se aproximou. De dentro dela, outro corpo foi atirado na rua.
Não foi possível falar com Semenchenko ou outros membros de sua milícia naquela noite, mas as pessoas que controlam a conta do grupo no Facebook negaram boatos de que ele tivesse sido capturado ou morto.
Mais de um mês antes, quando a milícia foi formada, Semenchenko disse que seus homens não estavam preparados para enfrentar militantes em Slovyansk ou em outros redutos de apoio à Rússia. "Não vou levar meus soldados para lutar se eles não estão prontos", disse na época. Mas outros no grupo pareciam estar ansiosos para entrar em ação. "Sacrificamos a Crimeia sem que fosse disparado um único tiro", comentou o veterano militar Andrey Gobzhelyan, 45. "Desta vez vamos ter que atirar."


Reportagem do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo