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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Ao custo de sangue inocente, próximos cem dias serão cruciais para a Síria

O imobilismo político que marcou a reunião em Lausanne, Suíça, deu a impressão que o encontro foi realizado mais para tentar dar satisfação à comunidade internacional do que propriamente focado em busca de conclusões.
O que está em jogo, no momento, é como cada lado procurará manipular a validade das cartas do outro. Russos e americanos estão entrincheirados em suas estratégias e, sobretudo, em suas inflexibilidades.
Enquanto o regime e seus aliados preparam a ofensiva final para conquistar a parte oriental de Aleppo, o eixo EUA-Arábia Saudita, em desvantagem no tabuleiro, demonstra disposição para protelar possíveis soluções políticas à espera da nova administração americana.
Da perspectiva do eixo Moscou-Teerã, o regime retomou o controle dos principais pontos estratégicos do território à exceção da parte oriental de Aleppo, tem total controle sobre a capital Damasco e preservou a unidade das Forças Armadas.
Ademais, Bashar al-Assad segue visto como o principal líder do país. Para russos e iranianos, portanto, a realidade do terreno é que serve de fator determinante para o curso de quaisquer negociações diplomáticas.
Já o bloco antirregime utiliza a importância estratégica de Aleppo para inflar a importância de suas cartas, além de manipular, convenientemente, a composição de quem seriam os grupos armados tipificados, fantasiosamente, de "rebeldes moderados".
O principal impasse entre Moscou e Washington recai, precisamente, sobre a classificação da organização terrorista Jabhat Al-Nusra que, recentemente, alterou o seu nome para Jabhat Fateh Al-Sham.
No fundo, sem a inclusão da organização terrorista Jabhat Al-Nusra —que à cada período transmuta de nome— no grupo denominando de "rebeldes moderados", as cartas de sauditas e qataris, defensores desse posicionamento, se tornam inúteis —paradoxalmente, os americanos os endossam.
Os grupos armados que poderiam, talvez, ser tipificados como "rebeldes moderados" sequer chegariam a 10% da força militar de resistência ao regime.
Além disso, qual seria o conceito utilizado para definir o que é um "rebelde moderado"? Essa "moderação" é comparada a que ou a quem? Esmagadora maioria desses grupos utiliza fortes caracteres e denominações religiosas em suas flâmulas, como o próprio Estado Islâmico e a Al-Nusra —seriam estes "moderados"? Indivíduos radicalizados na ortodoxia do salafismo-wahabita poderiam ser "moderados"? Pois, é essa a matriz de EI e Al-Nusra.
Ao cabo, o encontro de Lausanne revelou o antagonismo existente entre os países presentes.
Os sauditas impõem como pré-condição a saída de Assad. Os americanos reafirmam a necessidade de não haver vácuo de poder, mas sem oferecer proposições concretas. Os iranianos defendem a conservação intacta do regime.
Os egípcios defendem a integridade territorial da Síria e das instituições. Os turcos advogam pela constrição do poder dos curdos e exclusão da Al-Nusra da lista dos "rebeldes moderados". Os russos concordam com parte dos pontos anteriores, mas fazem a ressalva de que o futuro de Assad e de qualquer rearranjo governamental pertencem ao povo sírio.
Desse imbróglio pode se extrair algumas conclusões.
Primeiro, confluência de interesses entre Moscou-Ancara. Segundo, a discrepância de visões entre os dois principais países árabes, Egito e Arábia Saudita. Terceiro, a incapacidade do eixo antirregime de forjar, após cinco anos, uma liderança crível e legitima para o povo sírio.
Os próximos cem dias serão cruciais e podem diluir a força das cartas de um dos lados. Resta saber quem irá determinar o formato do novo status quo —tudo isso, é claro, ao custo de sangue de gente inocente.


Texto de Hussein Kalout, na Folha de São Paulo.

domingo, 2 de agosto de 2015

Turquia ataca o inimigo errado

A mais direta análise sobre os ataques da Turquia ao EI (Estado Islâmico) e, principalmente, às forças curdas no Iraque é de Cengiz Candar, colunista do jornal "Radikal" e do "site" Al-Monitor.
É assim: "Se o governo do AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento, no poder há 12 anos) se engaja em ataques diários contra alvos do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão, considerado terrorista pela Turquia], ao mesmo tempo em que anuncia que tais ataques continuarão, é preciso ser estúpido para não perceber que o objetivo é criminalizar o PKK e marginalizar o HDP, forçando-o a cair abaixo da barreira eleitoral".
Um pouco de memória: HDP é o Partido Democrático do Povo, também curdo, mas legal. Obteve 13% dos votos na eleição de junho, superando a barreira dos 10% e, com isso, tirando do AKP, do presidente Recep Tayyip Erdogan, a maioria absoluta a que se habituara.
Sem maioria, o AKP negocia uma coligação há quase dois meses, sem sucesso, Se ela não for formada logo, haverá nova eleição.
Nelas é que a demonização dos curdos em geral e de seu braço político-eleitoral, o HDP, pode levá-lo a não superar a barreira dos 10% dos votos e, portanto, a ficar de fora do Parlamento –o que, por sua vez, facilitaria a recuperação da maioria absoluta pelo partido de Recep Erdogan.
Essa visão míope e eleitoralista pode até dar certo internamente, mas, em matéria de enfrentamento ao Estado Islâmico –o verdadeiro inimigo da Turquia, dos curdos, dos EUA e da Europa– tende a ser um tiro no pé.
Analisa, por exemplo, Steven Cook, pesquisador-sênior de Estudos de Oriente Médio do Council on Foreign Relations, ao falar do apoio que os Estados Unidos deram aos ataques turcos:
"Washington ficou na estranha posição de dar essencialmente sinal verde para [a Turquia] combater alguns dos mais efetivos lutadores naquele conflito [contra o Estado Islâmico] –os curdos, tanto os do PKK como aqueles de seus primos sírios, as Unidades de Proteção do Povo".
Reforça Dan de Luce, correspondente para Segurança Nacional da revista "Foreign Policy":
"Washington pode estar autorizando Ancara a atacar as únicas forças no terreno que se mostraram efetivas contra o Estado Islâmico."
Além do objetivo eleitoral já citado, deve estar nos cálculos de Erdogan que a efetividade dos curdos iraquianos contra os radicais islâmicos tende a aguçar o apetite dos curdos turcos por mais autonomia ou até independência.
Diz, por exemplo, Tozun Bahcheli, cientista político da Western University (Canadá):
"O governo turco vê os curdos politicamente ativos como uma ameaça ainda maior que o EI, porque põem em risco a integridade territorial turca, ao contrário do EI, com toda a sua horrível ideologia e métodos horrendos".
Os curdos são um grupo étnico sem território próprio e estão (ou estavam até a semana passada) em negociações para um cessar-fogo com o governo turco.
Os ataques recentes ameaçam claramente o processo de paz em andamento há três anos.
Só não ameaçam de fato o verdadeiro inimigo, o Estado Islâmico.


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Governo sanciona lei que permite bloqueio de sites


Governo sanciona lei que permite bloqueio de sites

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - O presidente da Turquia, Abdullah Gül, sancionou ontem lei que permite ao Ministério da Justiça bloquear qualquer site sem necessidade de autorização da Justiça.
Além disso, as operadoras também terão que guardar por dois anos o histórico de navegação de seus usuários.
O texto foi aprovado após denúncias de corrupção contra integrantes do gabinete do premiê Recep Tayyip Erdogan.


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O acordo Lula/Irã era o correto

O reinício, hoje, das negociações em torno do programa nuclear iraniano é um bom momento para reavaliar um dos atos mais criticados (injustamente) da diplomacia brasileira no período Luiz Inácio Lula da Silva/Celso Amorim.
Refiro-me ao chamado "Acordo de Teerã" de 2010, entre Brasil, Irã e Turquia.
A reavaliação é importante porque o vice-chanceler iraniano, Abbas Araghchi, acaba de dizer que o seu país se recusa a enviar parte de seu estoque de urânio para o exterior, ao contrário do que reclamam as potências ocidentais que com ele negociam.
Ora, o Acordo de Teerã previa, expressamente, o envio de 1.200 quilos de urânio pobremente enriquecido para enriquecimento no exterior, para ser depois devolvido ao Irã preparado a um nível tal que lhe permitiria o uso para fins medicinais, mas impossibilitaria a utilização para fazer a bomba.
É bom lembrar que foi o presidente Barack Obama quem, em carta a Lula, considerou "fundamental" a menção aos 1.200 quilos, no acordo que o Brasil então começava a costurar.
A lógica desse item é simples de explicar: retirando de seus estoques os 1.200 quilos, o Irã não teria material suficiente para continuar trabalhando na bomba, se essa for a sua real intenção, como suspeita o Ocidente, mas que Teerã nega uma e mil vezes.
Era o tipo do acordo capaz de agradar a todos: o Irã teria urânio enriquecido em quantidade e nível suficientes para programas pacíficos, e o Ocidente teria a certeza de que não daria para fazer a bomba.
Por que os EUA sabotaram o acordo, mal tinha secado a tinta com que fora assinado, é algo que Washington ainda precisa explicar.
Logo depois que a Folha revelou o inteiro teor da carta de Obama, mostrando que o acordo Brasil/Turquia/Irã seguia literalmente as pautas desejadas pelos Estados Unidos, o Departamento de Estado apressou-se em convocar uma entrevista coletiva, por telefone, de altos funcionários que não deveriam ser nominalmente identificados.
Participei da entrevista e ouvi de um deles que os 1.200 quilos eram a quantidade desejável em outubro do ano anterior, quando houve uma nova tentativa de negociações com o Irã. Mas, em maio, quando do Acordo de Teerã, já seria preciso enviar muito mais ao exterior.
Balela: a carta que Obama enviou a Lula era de abril, um mês antes do acordo, e falava dos 1.200 quilos. Ou os funcionários do Departamento de Estado mentiram ou o presidente estava mal informado.
É possível que hoje, três anos e meio depois, de fato os 1.200 quilos sejam insuficientes. Mas o Irã agora recusa-se a enviar o que quer que seja, o que significa que os negociadores do moderado Hasan Rowhani são mais duros do que o radical Mahmoud Ahmadinejad se revelou diante dos colegas Lula e Recep Tayyip Erdogan, o premiê turco.
Significa que não há chance de um acordo? Não necessariamente.
O otimismo entre os analistas é o mais intenso em anos. Mas significa, sim, que três anos foram jogados fora.


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Turquia anuncia reforma para aumentar direitos da minoria curda


O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, anunciou nesta segunda-feira uma série de reformas que garante mais direitos à minoria curda, como o liberação do ensino da língua da etnia. Ele ainda sugeriu a mudança do piso de representatividade do Parlamento para poder abrigar as minorias.
As medidas foram colocadas para tentar salvar o processo de paz entre o governo turco e os integrantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, em turco), que há quase 20 anos enfrentam a administração central pelo domínio de uma parte do leste do país.
O chefe de governo anunciou que, a partir de agora, será permitido o ensino de línguas e dialetos vinculados aos curdos em escolas particulares, o que era proibido, e a volta do nome em curdo de algumas localidades que o haviam perdido após o golpe de Estado de 1980.
Erdogan ainda apresentou ao Parlamento um projeto de lei que prevê a redução do piso de representatividade dos partidos no Parlamento de 10% para 5% ou até eliminar a barreira. Com isso, o primeiro-ministro prevê a entrada de minorias no Legislativo nas próximas eleições.
Em discurso no Parlamento, ele chamou a série de medidas de "pacote de democratização" e afirmou que o país vive um momento histórico. "O maior desejo do nosso povo é fortalecer nossa paz doméstica, favorecer nossa coesão social e solidariedade e fortificar nossa tranquilidade".

REJEIÇÃO

O conjunto de medidas, no entanto, não foi bem recebido pela oposição e pelos curdos. A vice-líder do Partido Paz e Democracia (BDP, em turco), Gultan Kisanak, afirmou que essas medidas não atingiram as expectativas dos curdos. "Esse pacote não tem a capacidade de superar as barreiras no processo de paz".
O partido pró-curdo foi o primeiro a se manifestar após o lançamento das medidas de Erdogan. Os líderes políticos da etnia já haviam anunciado que rejeitariam a proposta do governo turco. Eles exigem o ensino de sua língua nas escolas públicas e uma referência explícita a sua identidade na Constituição.
A negociação de paz começou no ano passado, após um acordo entre o governo turco e o chefe do PKK, Abdullah Ocalan, para dar fim ao conflito que já deixou 40 mil mortos. O governo acusa os militantes de não cumprir sua parte do tratado.
O PKK anunciou em março um cessar-fogo unilateral e iniciou em maio a retirada de seus combatentes do território turco para o Curdistão iraquiano, mas no início de mês suspendeu a operação, acusando o governo de não respeitar as promessas de reformas.


Reprodução da Folha de São Paulo

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ex-chefe militar turco é condenado à prisão perpétua

Ex-chefe militar turco é condenado à prisão perpétua

Ilker Basbug foi denunciado por encabeçar a rede Ergenekon, considerada “terrorista”

O ex-chefe do Exército turco Ilker Basbug foi condenado à prisão perpétua por envolvimento em uma suposta tentativa de golpe de Estado contra o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan. Assim como Basbug, que liderou as Forças Armadas turcas entre 2008 e 2010, mais 11 pessoas foram denunciadas à prisão perpétua no julgamento da rede Ergenekon, que envolve 275 pessoas, incluindo generais e jornalistas.

O ex-chefe das Forças Armadas foi condenado por encabeçar a rede Ergenekon, considerada “terrorista” pelo tribunal de Silivri, a 50 quilômetros da capital Istambul. Entre os condenados à prisão perpétua, estão o ex-chefe de polícia Sener Eruygur e o ex-chefe militar Hürsit Tolon, o jornalista Tuncay Özkan e o líder do pequeno Partido dos Trabalhadores, Dogu Perinçek.

O jornalista Mustafa Balbay, do jornal de esquerda Cumhuriyet, eleito enquanto estava detido como deputado pelo principal partido da oposição, o Partido Republicano do Povo, foi condenado a 35 anos de prisão. O tribunal absolveu 21 dos 275 acusados, 66 dos quais estão em prisão preventiva. Os demais réus receberam penas entre dois e 117 anos de prisão por participarem da rede que alegadamente pretendia derrubar o governo islamita conservador de Erdogan.

Basbug, de 70 anos, liderou a campanha militar turca contra os rebeldes do PKK durante muitos anos e é agora acusado de liderar um grupo terrorista. Centenas de policiais lançaram gás lacrimogêneo contra cerca de mil manifestantes concentrados junto ao tribunal.

A rede Ergenekon é acusada de tentar realizar um golpe de Estado militar contra Erdogan, no poder desde 2002, semeando o caos no país, com atentados e operações de propaganda. A Turquia foi palco, em junho, de enormes protestos populares que deixaram o governo de Erdogan na maior crise desde que assumiu o poder.


Reprodução do Correio do Povo

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Eleitores viram as costas a premiê turco após episódio da praça Taksim


Para o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, os protestos contra o governo que abalaram a Turquia emergiram trazendo consigo um paradoxo chocante: alguns dos manifestantes votaram nele, a maioria prosperou com a ajuda de suas políticas econômicas e alguns dos intelectuais e colunistas liberais que agora o chamam de ditador ajudaram Erdogan a vencer três eleições seguidas com seus textos.
Para os liberais e a elite urbana da Turquia, grupo que inclui alguns dos manifestantes jovens e de classe média que acamparam no Parque Gezi, na Praça Taksim, a intensa repressão policial --traduzida no uso de gás lacrimogêneo e canhões de água e na detenção de manifestantes, advogados, jornalistas e médicos-- representou a ruptura final e mais dolorosa com Erdogan e seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, pelas iniciais em turco).
"As coisas que aconteceram no Parque Gezi e na Praça Taksim representaram o ponto de ruptura para a esquerda", disse Cengiz Candar, um colunista popular que já apoiou Erdogan por seus esforços para reduzir o poder dos militares e promover a adesão da Turquia à União Europeia.
"Não somos nós que mudamos", acrescentou ele. "Nós continuamos sendo democratas. Nós queremos ampliar as liberdades individuais."
Quando Erdogan chegou ao poder, muitos liberais --ao contrário dos membros da velha elite secular da Turquia, que ficaram preocupados com uma possível agenda islâmica oculta do primeiro-ministro--, se esqueceram das raízes religiosas de Erdogan. Eles interpretaram a fé do primeiro-ministro no contexto da liberdade pessoal e não viam essa característica como uma ameaça à tradição secular da Turquia. Eles o abraçaram devido a seus esforços para promover a adesão da Turquia à União Europeia --processo que atualmente está estagnado-- e para garantir a autoridade civil sobre os militares, cuja influência era muito grande na Turquia.
Os turcos tiveram o apoio de muitos europeus e norte-americanos, incluindo o presidente Barack Obama, que deu as boas-vindas às reformas democráticas implementadas por Erdogan. Agora, muitos desses aliados de primeira hora dizem que Erdogan e o partido dele deram uma guinada decisiva rumo ao autoritarismo, o que obrigou esses aliados a passarem por um período de reflexão.
"Eu era um dos liberais europeus que apoiavam as políticas do AKP", disse Joost Lagendijk, ex-membro do Parlamento Europeu e colunista que vive na Turquia, referindo-se às iniciais em turco do partido de Erdogan. "Havia muita simpatia para com as reformas que eles estavam implementando."
Lagendijk afirmou que nunca compartilhou das ideologias do AKP, mas disse que se sentia atraído pelo pragmatismo inicial de Erdogan e pelo seu apoio às mudanças constitucionais destinadas a garantir as liberdades individuais e a promover os direitos da minoria curda da Turquia.
"Eu apoio a causa verde, eu sou um liberal", disse ele. "Eu não sou conservador nem religioso, mas isso não importa."
Hoje em dia, Lagendijk já teve que se defender das críticas de membros seu próprio grupo liberal, que têm lhe enviando posts via Twitter e e-mails transmitindo sempre a mesma mensagem: nós te avisamos.
Nos últimos anos, Erdogan já havia começado a se afastar de seus partidários liberais ao intimidar a mídia e tentar promover grandes projetos de desenvolvimento urbano sem ouvir a opinião da população. Então, nas últimas semanas, um grupo de manifestantes que tentava evitar a demolição de um parque de Istambul enfrentou uma violenta reação por parte da polícia, fato que desencadeou o movimento de grande porte contra o governo que desafiou a autoridade de Erdogan --cuja resposta à crise confirmou para muitos de seus antigos partidários que ele havia decidido trilhar um caminho que eles não podiam mais apoiar.
Para além de suas promessas democráticas, muitos especialistas dizem que o carisma de Erdogan conquistou muitos liberais anos atrás.
Jenny B. White, antropóloga da Universidade de Boston, passou um tempo na Turquia durante a década de 1990 para pesquisar o surgimento de movimentos islâmicos. Ela acompanhou as viagens de Erdogan pelo país enquanto ele ainda era prefeito de Istambul.
"Depois de alguns eventos, ele ignorava uma mesa cheia de prefeitos barbudos e conversava comigo como se eu fosse a única pessoa do mundo", disse ela. "Esse é um dos aspectos que realmente capturou o apoio das pessoas."
E ela acrescentou: "Os liberais votaram em Erdogan porque quando ele foi eleito, em 2002, ele fez todas aquelas coisas com as quais os liberais apenas sonhavam."
Nem todos da esquerda romperam com Erdogan. Nursuna Memecan, deputada e membro do AKP que é próxima de Erdogan e se identifica como liberal, disse que ela ajudou a organizar reuniões com a presença de alguns dos líderes dos protestos e Erdogan, na esperança de conseguir intermediar um acordo e atrair de volta alguns dos ex-aliados do primeiro-ministro. Mas isso acabou não acontecendo após um acordo preliminar para salvar o parque ter sido repudiado pela maioria dos manifestantes. Depois disso, Erdogan ordenou uma batida policial decisiva no sábado passado para retirar todos os manifestantes do parque.
Referindo-se à ascensão de Erdogan ao poder, Memecan disse: "Os liberais reais o apoiaram. Eles não tinham nenhum preconceito contra ele nem contra a religião dele ou a classe da qual ele veio. A religiosidade de Erdogan não os incomodava."
Outro paradoxo da revolta na Turquia é que muitos dos que agora criticam o posicionamento de Erdogan --um grupo composto por turcos urbanos, seculares e de classe média, em sua maioria-- se beneficiaram com o crescimento da economia que as políticas liberalizantes de Erdogan promoveram.
Merve Alici, 26, trabalha na área de publicidade e participou dos protestos. Ela vem de uma família secular e de classe média alta, mas votou no partido de Erdogan na última eleição, apesar de sua família tê-la alertado que o primeiro-ministro estava se tornando poderoso demais.
Ela disse que sua escolha foi "essencialmente pragmática".
"Primeiro, não houve oposição, e eu gostei como o AKP desafiou o poder do exército", disse ela. "E também tinha a economia. Todo mundo quer estabilidade e prosperidade econômica, e essas eram promessas de campanha de Erdogan."
Ela disse que participou das manifestações na Praça Taksim todos os dias e que, por conta disso, não poderá votar em Erdogan novamente, especialmente depois de ele ter chamado os manifestantes de terroristas e ordenado que a tropa de choque da polícia enfrentasse a multidão.
"Ele é um gênio político e está manipulando a verdade com o propósito de manter seus eleitores fieis a ele", disse Alici. "Ele hostiliza os manifestantes de propósito com suas palavras duras. Eu não sei o que ele está pensando."
Outro ex-defensor de Erdogan que participou dos protestos foi Esen Guler, 39, guitarrista cuja banda tocou na praça.
"Eu votei em Erdogan nas duas últimas eleições pois eu acreditava que ele iria nos conduzir à democracia", disse ele. "Mas o poder subiu à cabeça dele. Erdogan não é mais um político moderado, mas sim um ditador brutal atacando seus conterrâneos."
Trabalhadores municipais têm plantando flores na Praça Taksim e limpado as pichações contra Erdogan. Quando a praça estava tomada por milhares de manifestantes, muitos deles jovens que estavam se expressando politicamente pela primeira vez, os analistas começaram a dizer que a política turca nunca mais seria a mesma. Agora que a praça foi esvaziada pela mão forte da polícia, o significado do que aconteceu ali parece menos claro.
"As feridas ainda estão abertas", disse Candar. "As lições que precisam ser interpretadas ainda estão numa fase inicial. É difícil dizer como é que as coisas podem ser diferentes, mas com certeza elas vão ser diferentes."
Tim Arango, com reportagem de Ceylan Yeginsu, para o The New York Times, reproduzido no UOL
Tradutor: Cláudia Gonçalves

segunda-feira, 17 de junho de 2013

'Todos estão com medo': regime de Erdogan oprime a mídia


Há mais jornalistas presos na Turquia do que em qualquer outro país. O primeiro-ministro Erdogan não tolera crítica e a repressão agressiva contra os jornalistas, normalmente sob acusações questionáveis, tem fomentado um clima de ansiedade e autocensura.
Foram principalmente funcionários de escritório revoltados do distrito bancário de Maslak, em Istambul, que apareceram na segunda-feira, 3 de junho, durante seu intervalo de almoço, na redação do canal de notícias NTV. "Parem de agir como se nada estivesse acontecendo", gritavam, enquanto protestavam contra o que chamaram de "mídia vendida". "Podemos pagar, também", gritaram os cerca de 3 mil manifestantes, zombando dos funcionários da NTV, que conseguiram ignorar completamente os protestos contra o governo que já aconteciam havia três dias. Os manifestantes colaram notas de dinheiro em suas faixas.
Os editores da CNN Turquia também frustraram as expectativas. Enquanto a CNN Internacional mostrou imagens ao vivo dos confrontos dramáticos entre a polícia e os manifestantes, o canal turco exibiu um documentário sobre pingüins. Muitos jornais seguiram o blecaute de notícias. Ainda não stá claro se os jornalistas estavam seguindo instruções do governo ou simplesmente suprimindo as notícias num ato de obediência preventiva.
A liberdade de imprensa e a diversidade de opiniões têm sido ameaçadas na Turquia, não só desde que os protestos atuais começaram há cerca de duas semanas. Depois de anos de perseguição, nenhum outro país no mundo – nem mesmo a China ou o Irã – tem mais jornalistas presos do que a Turquia, que espera ser aceita na União Europeia. É um vergonhoso recorde mundial.
O grupo Repórteres Sem Fronteiras verificou que 36 jornalistas estão atualmente atrás das grades na Turquia. O sindicato dos jornalistas do país afirma que o número de representantes da mídia na prisão é de 62, enquanto a Federação Europeia de Jornalistas diz que são 66.
Ainda assim, o primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan e seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) negam que os jornalistas sejam perseguidos na Turquia. "Alguns desses relatórios negativos são encomendados", afirmou Erdogan na televisão. "Suas fontes estão erradas."

Leis repressivas

Zeynep Kuray só pode rir ironicamente da afirmação de Erdogan, sentada no jardim de uma cafeteria no Bósforo enquanto fala sobre suas experiências com a Justiça turca. Em dezembro de 2011, às 5h, cinco policiais à paisana apresentaram um mandado de busca para o apartamento onde ela vive com a mãe no bairro de Kadiköy, em Istambul.
Kuray, 35, foi apenas uma entre os 36 jornalistas, principalmente curdos, detidos na Turquia naquela manhã. Depois de passar três dias na prisão da polícia de Istambul, o promotor informou que ela era acusada de ser integrante de uma organização terrorista, a comissão de mídia da União das Comunidades do Curdistão (KCK). Ele alegou que a KCK era uma fachada do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que queria criar uma nação curda com forças armadas. Levou oito meses para que a promotoria pública abrisse um processo, o que finalmente permitiu que Kuray ficasse sabendo dos detalhes das acusações contra ela. Segundo o processo, ela havia menosprezado o Estado turco e fomentado a agitação entre os curdos com suas matérias para a agência de notícias curda e para o jornal esquerdista Birgün, de Istambul.
Kuray foi libertada sob fiança no final de abril, mas a maioria de seus colegas jornalistas ainda estão sob custódia. Em seu processo de 800 páginas, que se baseia em provas duvidosas, o escritório da promotoria pública acusa Kuray e outros 45 jornalistas de serem filiados a uma organização terrorista ou de disseminar propaganda para tal organização. O julgamento está em andamento desde setembro de 2012 no prédio do tribunal no complexo da prisão Silivri, 60 quilômetros a oeste de Istambul.
"As leis de contraterrorismo da Turquia são arcaicas e repressoras", diz Christophe Deloire, secretário-geral da organização Repórteres Sem Fronteiras, cujas operações internacionais têm sede em Paris. Nos termos do artigo 7, seção 2 da lei anti-terror do país, disseminar "propaganda para uma organização terrorista" acarreta uma pena de dois a sete anos e meio de prisão. No entanto, considera-se propaganda quando os jornalistas relatam sobre as manifestações no Curdistão, citam curdos que criticam o governo ou até mesmo conversam com eles.
As opções dos advogados de defesa são limitadas nos julgamentos em massa, que envolvem dezenas de réus. Os juízes dos "tribunais com poderes especiais" podem interromper os julgamentos como bem entenderem, e pelo tempo que quiserem. Como resultado, o acusado pode ser mantido em prisão preventiva por três anos ou mais, o que equivale a uma punição preventiva sem sentença.
O caso do correspondente Berlim do jornal esquerdista Evrensel, Hüseyin Deniz, mostra como as acusações podem ser frágeis. Deniz, que trabalhou por muito tempo para jornais curdos, visitou sua mãe doente em Istambul no final de 2011. A polícia o prendeu na mesma manhã que Zeynep Kuray.
Deniz, de 45 anos, já está em prisão preventiva em Kandira há 16 meses. Com uma exceção mensal, ele só pode receber um visitante por semana, que podem falar com ele, por telefone, do outro lado de uma parede de vidro. Segundo a acusação, Deniz fez parte da gestão de um suposto comitê de mídia terrorista. Nessa posição, ele teria participado de um reunião secreta no norte do Iraque. A acusação é baseada numa declaração feita por uma testemunha identificada apenas por um codinome. Mas sua irmã diz que ele estava em Berlim na época da suposta reunião no Iraque, e que os carimbos em seu passaporte provam isso.

Intimidação e autocensura

Ativistas do sindicato dos jornalistas turcos protestaram em frente ao palácio da Justiça em Istambul no início de maio, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Eles empinaram 62 pipas, como um sinal de protesto contra a prisão de 62 jornalistas. Antes do evento, o sindicato reclamou da "enorme pressão e ameaças" provenientes de representantes do governo.
O primeiro-ministro Erdogan normalmente percebe as críticas às políticas de seu governo como ataques pessoais, e ainda não deixou de atacar publicamente determinados jornalistas. Diz-se que ele já pediu que publicações – repetidamente e com sucesso – demitissem editores insubordinados.
Em resposta à publicação de um documento secreto pelo jornal liberal Milliyet, ele delirou: "Se isso é jornalismo, então abaixo ao seu jornalismo." O primeiro-ministro, que está no cargo há 10 anos, também gosta de usar as leis que regulamentam a imprensa para tomar medidas contra os jornalistas. Ele já ordenou três novos processos este ano.
"Os islamitas não querem diversidade na imprensa", diz o notório jornalista investigativo Ahmet ik, de 43 anos. Ele fez uma extensa pesquisa para um livro sobre o movimento islamista Gülen, mas foi preso pouco antes de sua publicação. O autor esquerdista passou mais de um ano na prisão por causa da acusação absurda de que ele fazia parte de uma conspiração militar de direita. Ele e dois colegas escritores foram mantidos em completo isolamento numa ala de alta segurança da prisão em Silivri.
Quando foi libertado sob fiança em março de 2012, disse com raiva: "se os policiais, procuradores e juízes que forjaram essa trama forem presos aqui um dia, a justiça terá sido feita." Ik agora foi acusado de ameaçar e difamar funcionários públicos, crimes pelo qual ele pode pegar até sete anos de prisão.
Quando o Parque Gezi na Praça Taksim estava sendo esvaziado, a polícia disparou de perto um cartucho de gás lacrimogêneo contra sua cabeça. Ik caiu no chão, coberto de sangue. De acordo com os Repórteres Sem Fronteiras, pelo menos 14 jornalistas já foram feridos, algumas gravemente, ao reportar sobre os protestos contra o governo de Erdogan. "Todos os jornalistas na Turquia estão com medo", diz ik, "com medo de serem demitidos e com medo de serem presos". O governo, diz ele, está tentando intimidar e silenciar todos os seus críticos, o que leva à autocensura.

Ignorando a condenação internacional

Sik, que dá aulas de jornalismo na universidade particular Istambul Bilgi, diz que só pode aconselhar seus alunos a trabalhar na profissão uma vez que os meios de comunicação ganharem uma liberdade mais significativa. Dos 20 alunos que concluíram seus cursos, 18 viraram as costas para uma carreira na mídia, diz ele.
Além de enfrentar a perseguição do governo, os jornalistas vêem suas vidas complicadas pelas atitudes paternalistas das publicações e dos editores-chefes. Grandes empresas que têm operações em diversos setores são donas da maioria das organizações da mídia turca. A administração dessas empresas costuma exigir que os jornalistas favoreçam o governo em suas matérias, para melhorar assim suas chances de garantir contratos lucrativos com o governo, por exemplo.
A supressão mais ou menos sistemática dos jornalistas na Turquia é tão óbvia que até mesmo a Comissão Europeia e o Departamento de Estado dos EUA têm manifestado preocupação com a liberdade de imprensa na Turquia. Memet Kilic, um membro do Partido Verde do parlamento alemão, diz: "Erdogan está pisoteando a liberdade de expressão". Mas essas acusações entraram por um ouvido e saíram pelo outro e fracassaram tanto quanto iniciativas mais diplomáticas de intervenção. Quando a chanceler alemã Angela Merkel visitou Ancara no fim de fevereiro, ela disse ter apontado "que gostaríamos que os jornalistas pudessem trabalhar livremente e não fossem mantidos em custódia por tanto tempo."
Erdogan discordou friamente da chanceler durante a coletiva conjunta de imprensa. "Não mais do que um punhado" de jornalistas tinham sido presos na Turquia, disse ele, e "não por causa de seus artigos, mas porque são golpistas, traficantes de armas e terroristas".
Se quisermos acreditar nos promotores turcos, o jornalista investigativo ik também é um golpista perigoso. Ele espera que sua sentença sai até o final do ano, e pode muito bem ser mandado novamente para a prisão. Sua filha de 12 anos pediu para que ele passasse a escrever livros de receitas.
Mas este não é o futuro que ele quer para si mesmo. Em vez disso, ele está trabalhando atualmente num livro sobre o poder judiciário turco.
Reportagem de Michael Sontheimer, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradução: Eloise De Vylder

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Nobel de literatura critica repressão do governo na Turquia


Nobel de literatura critica repressão do governo na Turquia

Orhan Pamuk homenageou manifestantes que percorrem as ruas de Istambul há seis dias


O escritor turco Orhan Pamuk, prêmio Nobel de Literatura em 2006, denunciou a atividade "repressiva" do governo islâmico-conservador de seu país e homenageou os manifestantes, em um texto publicado nesta quarta-feira pelo jornal Hürriyet. Lembrando que o movimento de contestação que agita a Turquia há seis dias partiu de uma ação em defesa das árvores de um parque de Istambul, ameaçadas por um projeto imobiliário do governo, Pamuk condenou a atitude do gabinete do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

"Pretender realizar estas grandes mudanças envolvendo uma praça e um parque que carregam as memórias de milhões de pessoas sem perguntar a opinião dos habitantes de Istambul, e tentar cortar à força suas árvores, é uma grande falha do governo Erdogan", afirmou o escritor. "Esta política insensível é resultado, sem dúvida alguma, da atitude cada vez mais autoritária e repressiva do governo", prosseguiu.

Autor de inúmeros romances sobre a cidade de Istambul, ele prestou homenagem aos manifestantes turcos: "Ver que eles não renunciam facilmente as suas memórias me dá confiança e esperança no futuro". Orhan Pamuk, de 60 anos, é um dos poucos intelectuais turcos a ter reconhecido publicamente, em 2005, o genocídio dos armênios.

Ele foi processado em várias ocasiões em seu país e também fez fortes críticas ao tratamento recebido pela minoria curda por parte do governo de Ancara. Pamuk é o autor turco mais vendido no mundo, com obras traduzidas para mais de 60 línguas. Também foi o primeiro turco a receber o prêmio Nobel de Literatura. 


Notícia do Correio do Povo

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Os projetos faraônicos de urbanismo que desencadearam os tumultos em Istambul


Um pequeno parque com 600 árvores. Foi de lá que partiu o grande movimento de protestos que vem abalando Istambul há uma semana. Para a população, o projeto de urbanização que prevê a eliminação do espaço verde Gezi, um dos raros da megalópole turca, foi a gota d'água, neste momento em que o governo tem lançado cada vez mais obras urbanísticas faraônicas de maneira autoritária.
Situado na emblemática praça Taksim, centro moderno da cidade, ponto de encontro de manifestações da sociedade civil e local histórico – no dia 1o de maio de 1977, dezenas de manifestantes foram mortos ali em circunstâncias ainda não elucidadas - , o parque Gezi deve ceder lugar a réplicas de antigos quartéis militares do império Otomano que abrigariam um centro cultural, um museu da cidade e um shopping center. A chegada de escavadeiras com o intuito de arrancar as árvores, na segunda-feira (27), levou a violentos confrontos entre a polícia e manifestantes; conflitos que teriam resultado em dois mortos e mais de mil feridos em uma semana.

Influência do governo sobre a urbanização

A iniciativa desse polêmico projeto cabe à prefeitura de Istambul, nas mãos do AKP, partido islamita-conservador do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, ex-prefeito da cidade. Oficialmente, o objetivo seria devolver aos pedestres a praça, que por anos foi estrangulada pela circulação de automóveis. Assim, em novembro foram perfurados túneis ali para os carros passarem. Mas vários arquitetos, urbanistas e ambientalistas acreditam que o novo projeto trará mais motoristas para a Taksim. E, acima de tudo, todos veem ali mais um exemplo da influência do governo sobre a urbanização.
"Nos últimos dez anos Istambul vem passando por um boom de projetos urbanísticos, que se acelerou nos dois últimos anos. O primeiro-ministro quer fazer da cidade a vitrine internacional da Turquia", explica Benoît Montabone, geógrafo na Universidade de Rennes e especialista em urbanização turca. "Recep Tayyip Erdogan está tentando se estabelecer como realizador de obras antes da eleição presidencial de 2014. Ele quer reviver a antiga potência otomana".
De fato, o governo tem realizado cada vez mais projetos de visibilidade. Na quarta-feira (29), o primeiro-ministro inaugurou a obra de uma terceira ponte sobre o Bósforo, entre a Europa e a Ásia. Com uma extensão de 1,3 quilômetro, ela deve ser ligada a uma nova estrada periférica, que ameaça 85 mil hectares de florestas protegidas, segundo a câmara dos planejadores urbanos de Istambul. O governo também ordenou a demolição de imóveis antigos, cinemas e teatros, para dar lugar a novos shopping centers, bem como a renovação do bairro central de Tarlabasi, confiada ao grupo Calik, dirigido pelo genro de Erdogan.
O frenesi construtor do governo parece incansável. Além de um terceiro aeroporto de dimensões colossais, Erdogan quer construir em breve uma mesquita, "a maior do mundo", na colina Camlica, que domina toda a cidade. E ele não pretende parar por aí: o primeiro-ministro criou o projeto "maluco", segundo seus próprios termos, de inaugurar para o centenário da República Turca em 2023 um gigantesco canal de 150 metros de largura e 50 quilômetros de extensão, o "Kanal Istanbul". Paralela ao Bósforo, essa via hídrica ligaria o mar de Marmara ao mar Negro e deverá permitir desafogar o tráfego marítimo no estreito. Isso também teria consequências ambientais, uma vez que o traçado do canal pode levar a poluir a água doce dos lagos ao noroeste de Istambul, da qual a cidade depende para seu consumo.

Laços estreitos entre as construtoras e o AKP

Outra ameaça ao meio ambiente é o fato de que esses projetos de infraestrutura vêm acompanhados de amplas operações imobiliárias, que evidenciam os laços estreitos entre as construtoras e o AKP. "Centenas de milhares de casas serão destruídas nos próximos cinco a dez anos, sob pretexto de que elas não estariam dentro das normas antissísmicas", observa Yoann Morvan, pesquisador no observatório urbano de Istambul. "Ao reconstruir cidades satélites em outros lugares, o primeiro-ministro dá trabalho às empresas de obras públicas próximas do governo, sobretudo o órgão paraestatal Toki, ao mesmo tempo em que recompõe os bairros que não lhe eram favoráveis".
Há também centenas de projetos imobiliários privados, da mesma forma que os grandes shopping centers, provas de uma sociedade de consumo cada vez mais rejeitada à medida que crescem as desigualdades.
Por que, então, o movimento de protestos não estourou antes? "Existe um fastio diante de um acúmulo de projetos urbanísticos muito nebulosos, sem consulta à população, que se sente desprovida. Mas, acima de tudo, isso vem ocorrendo em um contexto de abuso autoritário do governo", acredita Elise Massicard, analista política no Instituto Francês de Estudos Anatolianos e pesquisadora associada ao CERI. Na semana passada, a votação de uma lei que restringe o consumo e a venda de álcool suscitou a ira dos meios liberais. Outro motivo de descontentamento foi a proibição da manifestação do Primeiro de Maio na praça Taksim, em virtude das obras.
"Existe uma raiva irreprimível que foi crescendo", confirma Fadime N. Yükseliçi, de 24 anos. "Não queremos que Istambul vire uma bagunça de prédios e shopping centers. Não queremos viver em uma cidade onde as árvores são cortadas sem que os moradores sejam consultados".

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Turquia julga militares israelenses por execução no navio Mavi Marmara em 2010



Turquia inicia julgamento por interceptação de navio em 2010

Quatro militares israelenses são acusados pela morte de 9 ativistas turcos

DE JERUSALÉM

Uma corte de Istambul deu início ontem ao julgamento à revelia de quatro comandantes militares israelenses pela interceptação de um navio com ativistas em 2010, que terminou com a morte de nove turcos.
O incidente gerou grave crise diplomática entre Israel e Turquia e uma onda de revolta contra o cerco à Gaza.
O navio Mavi Marmara, de bandeira turca, fazia parte de uma flotilha que tentava romper o bloqueio marítimo israelense à faixa de Gaza.
Israel alega que os ativistas mortos reagiram com violência à prisão após serem advertidos que não poderiam se aproximar da costa.
A promotoria turca pede prisão perpétua para quatro militares responsáveis pela interceptação, os quais acusa pela morte dos nove ativistas. Entre os acusados está Gabi Ashkenazi, que na época era o comandante das Forças Armadas de Israel.
A britânica Alexandra Lort Phillips, que estava a bordo do navio, foi a Istambul dar seu testemunho à corte.
"Os organizadores da flotilha não foram responsáveis pelas mortes", disse ao jornal turco "Zaman". "Após o ataque, os passageiros tentaram defender o navio."
A Turquia rejeita a alegação de Israel de que seus soldados agiram em legítima defesa e exige um pedido formal de desculpas para normalizar as relações diplomáticas, além de indenização às famílias das vítimas. O governo israelense reagiu com desdém e voltou a descartar um pedido de desculpas.
(MN)


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Região turística turca vira base de rebeldes


Região turística turca vira base de rebeldes

Por JEFFREY GETTLEMAN

ANTAKYA, Turquia - As pessoas daqui a chamam de Toscana com minaretes.
O quadrante sudeste da Turquia, junto à fronteira com a Síria, é uma das regiões mais pitorescas do país, com olivais encobrindo seus campos ondulados, e montanhas sulcadas por córregos cristalinos. Pelas manhãs, idosas descem os morros para pegarem damascos nos mercados. À noite, turistas passeiam por alamedas com calçamento de pedra.
Mas há uma nova uma onda de recém-chegados: sírios, especialmente combatentes. Não é raro ver soldados rebeldes mancando de muletas pela cidade turística de Antakya, e incontáveis apartamentos da região foram transformados em clínicas improvisadas, que ficam lotadas de jovens corpulentos feridos a bala.
Suprimentos médicos, equipamentos militares e combatentes se infiltram todas as noites pelos 890 km de fronteira, fazendo deste charmoso pedaço da Turquia a mais importante base para a crescente rebelião síria.
A guerra civil na Síria virou uma dor de cabeça para a segurança nacional turca. Em 30 de julho, Ancara despachou soldados, blindados e mísseis para a fronteira, embora as autoridades tenham se apressado em descrever a mobilização como "rotineira".
Além do ônus de receber 40 mil refugiados, um posto de fronteira no lado sírio acaba de cair nas mãos de um grupo ligado à rede terrorista Al Qaeda, e cerca de doze combatentes líbios foram recentemente vistos no principal hospital de Antakya, esperando seus "irmãos" feridos.
Houve rumores de que um contingente de combatentes líbios havia acabado de desembarcar no aeroporto local, portando coletes à prova de balas.
Aparentemente, Antakya tem atraído "jihadistas" estrangeiros que chegam à Turquia para travar uma guerra santa na Síria. Um refugiado recém-chegado de Bab al Hawa disse que cerca de 200 jihadistas estrangeiros haviam capturado essa cidade fronteiriça.
Outra zona de fronteira foi dominada no lado sírio por milicianos curdos, deixando os turcos temerosos de que o rápido esfacelamento do governo de Bashar Assad possa estimular ativistas curdos na Turquia.
Questionado recentemente sobre a hipótese de a Turquia bombardear a Síria caso militantes curdos usem o país árabe como base, o primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, disse: "Isso não é nem questão de discussão; é um dado".
Mas o conflito na vizinhança não permite respostas fáceis. Originalmente, o governo turco pediu reformas a Assad. Como ele recusou, a Turquia escancarou suas portas ao Exército Sírio Livre, grupo rebelde obstinado, mas incipiente, cujos líderes operam a partir de um acampamento fortemente vigiado no lado turco da fronteira.
Os turcos tentam sutilmente guiar os acontecimentos na Síria, estimulando a oposição a se unir, recebendo várias reuniões de alto escalão com líderes rebeldes e ajudando os insurgentes a obter armas. Ancara, no entanto, tem receio de se envolver mais profundamente.
"Esta sociedade está colhendo os frutos da prosperidade econômica, e não quer que ela seja destruída por algum envolvimento externo", disse Ilter Turand, professor de relações internacionais na Universidade Bilgi, em Istambul.
De certa forma, os dois vizinhos não poderiam ser mais diferentes, no momento.
A Turquia, democrática, fortemente nacionalista, ordeira e ascendente, versus a Síria, autoritária, profundamente dividida e mergulhando em uma confusa guerra civil.
Antakya é uma cidade turística, conhecida por suas ruínas, suas igrejas e um museu que abriga um dos melhores acervos existentes de mosaicos romanos e arte bizantina.
Os campos ao seu redor são incrivelmente férteis, produzindo azeitonas, cerejas, melões enormes e doces, e uma culinária famosa pelo uso inovador de ingredientes frescos.
Nos fins de semana, a cidade costumava receber sírios que vinham fazer compras. Um agente de viagens que não quis se identificar disse que sua clientela caiu de 2.000 por dia para zero, e que ele acaba de demitir suas três últimas secretárias.
"Esse conflito não nos afetou", afirmou. "Ele acabou conosco."
Sebnem Arsu colaborou com reportagem


segunda-feira, 16 de julho de 2012

O arquiteto-chefe do Império Otomano


O arquiteto-chefe do Império Otomano


Fui à Turquia numa peregrinação arquitetônica. Embora o design e a arte contemporânea estejam em alta por lá, eu ansiava por saber mais sobre o trabalho de Sinan (1490-1588), chefe dos arquitetos e engenheiros civis do Império Otomano. Seus patrões, o sultão Suleyman, o Magnífico, e seus descendentes, eram os homens mais poderosos da Terra.
Os guias costumam compará-lo ao seu contemporâneo Michelangelo, mas Michelangelo fez contribuições espetaculares a alguns poucos prédios em Roma e Florença, enquanto Sinan construiu cerca de 300 estruturas no Leste Europeu e Oriente Médio, das quais centenas continuam em uso.
"Como na [praça] São Pedro, em Roma, seu olho é atraído para a própria cúpula", disse Dogan Kuban, autor de muitos livros sobre arquitetura islâmica. "As cúpulas rasas de Sinan, porém, com sua decoração abstrata pintada, parecem flutuar magicamente. Em vez da estrutura, você contempla o espaço."
Visitei mais de uma dúzia dos seus edifícios em Istambul, uma cidade com quase 3.000 mesquitas, para melhor compreender como a sua experimentação com composições geométricas complexas transformou grossas paredes de pedra em colunas, arcos e abóbadas -e em coisas chamadas trompas e tímpanos- na hora de fazer a transição vertical do piso quadrado das mesquitas para os seus tetos redondos.
A mesquita Sehzade, em Edirnekapi, foi concluída em 1548, no começo da carreira de Sinan. Nas paredes exteriores da mesquita, Sinan organizou habilmente os contrafortes que sustentam a cúpula sobre as colunas. Para criar simetria, ele posicionou portas no centro delas. Mas, dentro da mesquita, as portas faziam os fiéis entrarem e saírem no meio da sala, e não pelo fundo. "Um local sagrado destinado à oração e contemplação se tornou um corredor", disse meu guia, "um erro que ele nunca mais repetiria".
Perto dali fica a mais importante mesquita de Sinan em Istambul. Encomendada por Suleyman para ser a sua própria tumba, e concluída em 1558, a mesquita Suleymaniye está entre os monumentos mais visíveis da cidade. Sinan modulou a altura dos quatro minaretes, reforçando a ilusão de que a mesquita flutua sobre a cidade.
A mesquita Rustem Pasha fica no movimentado mercado de especiarias da cidade. Sinan enfrentou os desafios de construir neste lugar não exatamente pacato elevando todo o complexo acima do nível da rua.
Uma serena praça flutua sobre a algazarra. No interior, os brilhantes azulejos de Iznik, do século 16, criam um jardim de tulipas encarnadas, turquesas e cobalto.
A mesquita Mihrimah Sultan, em Edirnekapi, foi encomendada por Mihrimah, filha de Suleyman. Decoradas com vitrais e vidros translúcidos, as paredes são uma maravilha da alvenaria.
Dizem que Sinan estava apaixonado por Mihrimah, mas, como ela se casou com o grão-vizir de Suleyman, ele se contentou em fazer a mesquita ser a mais luminosa possível, de modo a refletir o nome dela, que significa "sol e lua".
Meu guia, adequadamente chamado Sinan Yalcin, também me contou que, no dia em que um novo sultão era proclamado, seus irmãos eram mortos, para evitar disputas de poder.
A mesquita Sokollu Pasha também é famosa por seus azulejos. A chegada oferece uma vista impressionante do amplo teto que protege a fonte das abluções, em primeiro plano, e a repetição aparentemente infinita de cúpulas e arcos da mesquita.
No outro lado do Bósforo, no lado asiático de Istambul, fica a mesquita Semsi Pasha, versão em miniatura de templos enormes como a famosa Mesquita Azul. Seu discreto interior é uma elegante e comedida evocação do paraíso terrestre.
A três horas de carro de Istambul, em Edirne, ex-capital otomana perto da fronteira com a Bulgária e a Grécia, fica a mesquita Selimiye. Com seus quatro esguios minaretes, ela coroa o centro da cidade. Sinan a considerava a sua obra-prima.
Em 2011, o conjunto foi tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.
À primeira vista, ela parece uma tensa mistura de esferas, cones e cilindros, nas cores bege ou cinza escuros.
Mas a complexidade artística das paredes externas aparentemente impenetráveis se dissolve em um bordado de colunas e arcos de pedra que abraçam um espaço vasto e harmonioso.
Apesar da sua escala impressionante -a cúpula ultrapassa em alguns centímetros a da Hagia Sófia, em Istambul-, nenhum detalhe era pequeno demais para escapar à atenção de Sinan.



sexta-feira, 13 de abril de 2012

Exilados esperam recriar área cristã na Turquia


Exilados esperam recriar área cristã na Turquia

Susanne Güsten
Em Idil (Turquia)


Escalando os escombros daquela que já foi sua cidade natal, Robert Tutus apontou para o local mais adiante na estrada onde ficava a casa de sua família. "Este é o local onde meu pai foi assassinado", ele disse. "Dois homens se aproximaram dele enquanto ele voltava para casa certa noite, e o mataram com uma bala na cabeça."

Seu pai, Sukru Tutus, foi o último prefeito cristão de Azeh, conhecida como Idil em turco, uma cidade no sudeste do país cujo cristianismo remonta os tempos dos Apóstolos.

Um mês após o assassinato, que ocorreu em 17 de junho de 1994, o restante da população cristã da cidade, várias centenas de pessoas na época, reuniu seus pertences e fugiu em busca de asilo na Europa Ocidental, segundo Tutus.

A partida marcou o fim da era cristã em Azeh, que contava com um bispo já no século 2º e foi lar de uma população cristã de vários milhares até o final dos anos 70.

Apenas ruínas espalhadas na encosta restam da cidade deles atualmente, enquanto acima, prédios de concreto em mau estado se erguem para formar a nova cidade de Idil, habitada pelos curdos e árabes locais, assim como por alguns poucos administradores turcos em cargos temporários no leste.

E há Tutus, 42, acampado em um apartamento em um desses prédios, enquanto tenta retomar as propriedades de seu pai e reconstruir sua casa entre as ruínas na encosta. "Esse é o nosso lar, lar do povo siríaco", disse Tutus. "Nós não desistiremos."

O planalto de Tur Abdin, no qual Idil se encontra aninhada entre a planície síria e as cadeias de montanhas do sudeste da Turquia, é o coração histórico da igreja Ortodoxa Siríaca, cujo patriarca residiu aqui até as tensões com a república turca o obrigarem a se mudar para a Síria em 1933.

A região ainda é pontilhada por igrejas siríacas como Mor Gabriel, que foi fundada no ano 397 e é um dos mosteiros em atividade mais antigos do mundo. Mas fora os monges, restam muito poucos siríacos.

Há um século, eles chegavam a 200 mil aqui, segundo a União Siríaca Europeia, uma organização da diáspora. Aproximadamente 50 mil sobreviveram aos massacres de cristãos anatolianos durante a Primeira Guerra Mundial, quando o povo siríaco compartilhou o destino dos armênios. Hoje, não mais que 4.500 cristãos siríacos, que falam um dialeto local da língua aramaica assim como árabe, turco e curdo, permanecem em Tur Abdin.

Em Azeh, que resistiu ao sítio dos vilarejos curdos ao redor por meses em 1915, o esforço final na antiga disputa pelo poder na cidade teve início em 1977, quando o prefeito Sukru Tutus foi derrotado pelas autoridades turcas naquela que seu sucessor, Abdurrahman Abay, hoje reconhece abertamente que foi uma eleição fraudulenta.

"O comandante militar, o juiz, o governador do distrito –eles me encorajaram a concorrer e me ajudaram a vencer", disse Abay, chefe da poderosa tribo curda Kecan, enquanto tomava um chá em Idil. "Após a eleição, eu recebi um telegrama do Egito, de Anwar el Sadat. Ele dizia: 'Eu o parabenizo pela conquista muçulmana de Idil'."

A tomada provocou uma mudança dramática na demografia da cidade, que foi concluída em 1994, com os curdos dos vilarejos vizinhos se mudando para ela, enquanto as famílias siríacas vendiam seus imóveis e se juntavam ao crescente fluxo de emigração cristã de Tur Abdin para a Europa.

Hoje, 80 mil siríacos de Tur Abdin vivem na Alemanha, 60 mil na Suécia e 10 mil cada na Bélgica, Suíça e Holanda, segundo estimativas da União Siríaca Europeia.

Tutus encontrou asilo político na Alemanha, juntamente com sua mãe, seis irmãs e três irmãos, todos, com exceção de um, obtendo de lá para cá a cidadania alemã e se estabelecendo lá.

Uma década depois, ele foi um dos primeiros exilados a aceitar o convite público do governo turco para os siríacos voltarem para casa. Ele foi feito em 2001 sob pressão da União Europeia e repetido em várias ocasiões.

Apesar de ter passaporte alemão, Tutus passa grande parte de seu tempo em Idil, onde está supervisionando a restauração da igreja de Santa Maria e no ano passado fundou uma Associação para a Cultura Siríaca.

"Nossa meta é manter a língua e a cultura siríaca viva em Idil, e lembrar às pessoas que este é o lar dos siríacos", disse Tutus.

Apesar do escritório da associação ter sido atacado com uma bomba incendiária neste ano, Tutus permanece determinado. "Nós queremos que o mundo veja que os siríacos ainda vivem aqui", ele disse.

É um desejo que ele compartilha com centenas de siríacos pioneiros por todo Tur Abdin, que voltaram do exílio na Europa nos últimos anos, em uma tentativa de retomar sua herança e abrir o caminho para o reassentamento cristão na região.

Na aldeia de Kafro, a 50 quilômetros a oeste de Idil, os aldeões que saíam para caminhar sob o sol da primavera, em sua rua pavimentada de pedras no mês passado, se reuniam ao redor de um carrinho de bebê para paparicar seu ocupante. Eles admiravam Nahir Demir de um ano de idade, a primeira criança de sua família nascida em Kafro desde que a aldeia siríaca foi abandonada por ordem do Exército Turco, em 1994.

"Meu pai foi o último a partir", disse Aziz Demir, 45, prefeito da aldeia recém-reconstruída. A ordem para evacuar, ele recordou, ocorreu no auge da luta entre o exército e os rebeldes curdos na região.

Mas quando a permissão para voltar foi emitida em uma breve diretriz burocrática pelo governo turco, em 2001, os siríacos de Kafro voltaram correndo da Europa para reconstruir sua aldeia e reassentar seus filhos em uma terra ancestral que nunca viram.

Uma dúzia de casarões modernos de pedra calcária agora se ergue sobre as ruínas da velha aldeia de Kafro, completas com jardins murados e banheiros com azulejos cor-de-rosa, construídos com as economias de toda uma vida dos siríacos que voltavam após trabalharem muitos anos em fábricas na Alemanha, Suíça e Suécia.

Seis anos após a chegada dos primeiros caminhões de mudança, a população de Kafro é de aproximadamente 50 pessoas e aumentando, apesar dos riscos. Tanto a perspectiva de ensino quanto de emprego é ruim nesta região empobrecida, onde os vizinhos curdos são pastores de ovelhas e vão de mula ao mercado.

"Nós sabíamos que não seria fácil e sabíamos dos riscos", disse Israel Demir, 46, construtor dos casarões e pai do pequeno Nahir, assim como de três filhas adolescentes trazidas de Goppingen, Alemanha, em 2006. "Mas também sabíamos que era nosso dever."

Esse dever, disse Demir, é o de assegurar o futuro do povo siríaco. "Eu sinto uma grande responsabilidade, em relação aos meus filhos e em relação ao meu povo, de proteger nossa terra natal para as futuras gerações", disse Demir em uma entrevista em Kafro, no mês passado.

"Porque eu sei que quando um povo deixa sua terra, seu lar, ele não tem escolha a não ser assimilar. Nós podemos ver que está acontecendo com nossas famílias na Europa e na América. Há o risco de que, em poucas décadas, os siríacos deixem de existir."

Demir pagou um preço pessoal por sua missão no ano passado, quando mal escapou com vida após ser baleado por pastores curdos, enquanto tentava impedi-los de trazer seus rebanhos para pastar nas terras da aldeia.

Mas nem a hostilidade dos moradores locais e nem a falta de apoio das autoridades turcas o deterá, ele disse.

"Eu estou tentando abrir a porta para o retorno de nosso povo", ele disse. "Eu escancarei a porta. Agora os outros devem decidir se seguirão meus passos e passar por ela."

Na aldeia vizinha de Enhil, Fehmi Isler, 50, teve uma visão mais sóbria do futuro enquanto olhava da torre do sino da igreja da aldeia para as dezenas de casas recém-restauradas, uma delas a sua. "Apenas os mais velhos voltarão, aqueles que nasceram e foram criados aqui", ele disse.

Dormente no inverno, Enhil ganha vida na Páscoa com a chegada de 300 a 400 exilados siríacos da Europa Ocidental, que restauraram as casas de suas famílias nos últimos anos para usarem como casas de férias.

"Mas os jovens não virão, e quem pode culpá-los?", disse Isler. "Não há nada para eles aqui, exceto pasto para o gado e carne de vaca."

Isler, que estava em Enhil para enterrar uma tia, que morreu em um asilo de idosos em Augsburg, Alemanha, para atender seu último desejo, disse que seus próprios cinco filhos só vieram uma vez da Alemanha.

"Sem Internet, sem celulares, sem piscina –sem nenhuma chance", ele disse. "E as mulheres curdas gritam com as meninas para demonstrarem modéstia e se cobrirem."

Em Idil, Tutus está igualmente cético a respeito de suas chances de sucesso em persuadir a diáspora siríaca a voltar para Idil. Com a guerra em andamento entre os rebeldes curdos e o Exército turco, é uma batalha morro acima, ele disse.

"Todo mundo fala em voltar, mas é apenas conversa", ele disse. "Eu estou aqui lutando pelo nosso retorno, mas eles permanecem sentados firmemente lá."

Até mesmo a esposa de Tutus, uma siríaca, e seus filhos, com 11 e 7 anos, não virão, preferindo permanecer em Frankfurt após o susto que passaram durante uma visita a Idil. "Houve um apagão e troca de tiros na rua à noite", disse Tutus. "Depois disso, eles se recusam a voltar."


Tradutor: George El Khouri Andolfato