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domingo, 16 de maio de 2021

Paulo Gustavo foi Cazuza, Renato, Cacilda e Leila, e por isso viva Paulo Gustavo

 

Artistas não são mais nem menos importantes do que médicos, políticos, garis ou professores. Mas sua profissão consiste em espelhar aquilo que reconhecemos como humano, em nos irmanar no gozo e na aflição. Daí o luto coletivo que experimentamos quando um deles nos deixa.

Eu ainda era criança quando um derrame cerebral tirou a vida de Cacilda Becker. A inconformidade com a morte de uma mulher daquela envergadura, aos 48 anos, no auge de sua potência, suscitou o brado "viva Cacilda Becker!".

Caetano Veloso o lançou, em meio a vaias, no Festival da Canção de 1968, e ainda hoje o repetimos como afirmação tanto da imortalidade da atriz quanto da arte.

Dentre todos os acasos funestos que vez por outra nos assombram, nenhum se compara ao trágico desaparecimento de Leila Diniz, aos 27 anos, vítima de acidente aéreo.

Leila era todas as mulheres do mundo: a namorada, a mulher e a mãe, eternizada na barriga imensa exposta pelo biquíni. Leila foi o Carnaval e a praia, o amor carnal e o romântico. Não há teoria, palavra ou prece que dê conta de tão absurda ausência. Todos os que a amaram morreram, um pouco, com ela.

Leila encarnou a revolução de costumes que, finda a ditadura, eu e os meus poríamos em prática, não fosse a aparição de um vírus hediondo. Quando completei 18 anos, a Aids se abateu sobre o planeta, transformando o sexo em risco e paranoia.

A peste levou Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, em 7 de julho de 1990. No mesmo dia, a Legião Urbana fez um show, no Jockey Club do Rio, para 60 mil espectadores. Eu estava entre eles e testemunhei a homenagem de Renato Russo ao amigo e colega.

"Eu vou falar de mim. Eu tenho mais ou menos 30 anos. Eu sou do signo de Áries. Eu nasci no Rio de Janeiro. Eu gosto da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Eu gosto de beber pra caramba de vez em quando. [...] Eu gosto de meninas, mas eu também gosto de meninos. Todo mundo diz que eu sou meio louco. Eu sou um cantor numa banda de rock'n'roll. Eu sou letrista e algumas pessoas dizem que eu sou poeta."

"Agora eu vou falar de um carinha. Ele tem 30 anos. Ele é do signo de Áries. Ele nasceu no Rio de Janeiro. Ele gosta da Billie Holiday e dos Rolling Stones. Ele é meio louco. Ele gosta de beber pra caramba. Ele é cantor numa banda de rock. Ele é letrista. E eu digo, ele é poeta."

Renato já sabia, ali, ser portador do HIV. Seis anos depois, seria a sua vez de partir.

Assim como com Cacilda e Leila, parte de Dado e de Bonfá, dos Paralamas, dos Titãs, do Barão, dos 60 mil presentes e de todos os que viveram aquela hora, feneceu com os dois.

Felipe Pinheiro não era astro de rock, não possuía a nobreza de Cacilda nem a divindade mundana de Leila.

Ator, roteirista e escritor, Felipe foi o grande parceiro de palco de Pedro Cardoso e o meu maior amigo. Ele fez parte do movimento apelidado de besteirol, o BRock das artes cênicas, e morreu em 1993, com a idade de Cristo.

A morte dele marca o fim da minha mocidade. Considero contemporâneos todos aqueles que a ele assistiram. Os que não ou eram velhos demais para entendê-lo ou jovens demais para entrar na sessão de meia-noite de "Bar Doce Bar", no Teatro Cândido Mendes.

Não tenho como traduzi-lo e, até hoje, sinto uma falta incurável dele. Para os que quiserem conhecer a inteligência vira-lata desse espírito do meu tempo, aconselho a leitura da compilação de seus textos, editada pela e-galáxia, no recém lançado "O Demitido".

morte de Paulo Gustavo se reflete em todas as ausências aqui descritas. Para os herdeiros do besteirol, Porchat, Adnet, Gregorio, Majella, Lobianco, Ingrid, Mônica, Caruso, Katiuscia, Raphael e Tabet, Paulo é o que Felipe foi para mim.

Sua partida marca a entrada deles na maturidade, na consciência da brevidade da vida e da fragilidade humana.

Para a legião urbana de fãs que conquistou, Paulo foi Cazuza e foi Renato, o ídolo pop do pedaço, o senhor de mil Jockeys. Para o teatro, a despedida de Paulo é o vazio de Cacilda em cena. Para os meninos que gostam de meninos e meninas, para o marido, Thales, e os filhos, Romeu e Gael, Paulo foi e sempre será Leila.

Para o Brasil, que deveria tê-lo vacinado, sua morte é o retrato triste de um país que desistiu de ser alegre e cordial.

Dona Déa Lúcia, obrigada por esse filho. Ele era mesmo fascinação.

Viva Cacilda Becker, viva Leila, viva Cazuza e Renato, viva Felipe Pinheiro e, para sempre, viva Paulo Gustavo!

P.S.: Carlito Carvalhosa, amigo imenso, artista imenso, o sujeito mais doce e inteligente, mais delicado e amado, a alma mais nobre que eu já conheci, acaba de partir. Não tenho palavras para dizer do orgulho de tê-lo conhecido. Levo comigo a sua eterna presença.


Texto de Fernanda Torres, na Folha de São Paulo

sábado, 27 de agosto de 2016

A beleza e a arte não constituem nenhuma garantia moral

Gostei muito de "Francofonia", de Alexandr Sokurov.
Um jeito de resumir o filme é este: nossa civilização é um navio cargueiro avançando num mar hostil, levando contêineres repletos dos objetos expostos nos grandes museus do mundo.
Será que o esplendor do passado facilita nossa navegação pela tempestade de cada dia? Será que, carregados de tantas coisas que nos parecem belas, seremos capazes de produzir menos feiura?
Ou, ao contrário, os restos do passado tornam nosso navio menos estável, de forma que precisará jogar algo ao mar para evitar o naufrágio?
Essa discussão já aconteceu. Na França de 1792, em plena Revolução, a Assembleia emitiu um decreto pelo qual não era admissível expor o povo francês à visão de "monumentos elevados ao orgulho, ao preconceito e à tirania" –melhor seria destrui-los. Nascia assim o dito vandalismo revolucionário –que continua.
Os guardas vermelhos da Revolução Cultural devastaram os monumentos históricos da China. O Talibã destruiu os Budas de Bamiyan (séculos 4 e 5). Em Palmira, Síria, o Estado Islâmico destruiu os restos do templo de Bel (de quase 2.000 anos atrás). A ideia é a seguinte: se preservarmos os monumentos das antigas ideias, nunca teremos a força de nos inventarmos de maneira radicalmente livre.
Na mesma Assembleia francesa de 1792, também surgiu a ideia de que não era preciso destruir as obras, elas podiam ser conservadas como patrimônio "artístico" ou "cultural" –ou seja, esquecendo sua significação religiosa, política e ideológica.
Sentado no escuro do cinema, penso que nós não somos o navio, somos os contêineres que ele carrega: um emaranhado de esperanças, saberes, intuições, dúvidas, lamentos, heranças, obrigações, gostos. Tudo dito belamente: talvez o belo artístico surja quando alguém consegue sintetizar a nossa complexidade num enigma, como o sorriso de "Mona Lisa".
Os vândalos dirão que a arte não tem o poder de redimir ou apagar a ignomínia moral. Eles têm razão: a estátua de um deus sanguinário pode ser bela sem ser verdadeira nem boa. Será que é possível apreciá-la sem riscos morais?
Não sei bem o que é o belo e o que é arte. Mas, certamente, nenhum dos dois garante nada.
Por exemplo, gosto muito de um quadro de Arnold Böcklin, "A Ilha dos Mortos", obra imensamente popular entre o século 19 e 20, que me evoca o cemitério de Veneza, que é, justamente, uma ilha, San Michele.
Agora, Hitler tinha, em sua coleção particular, a terceira versão de "A Ilha dos Mortos", a melhor entre as cinco que Böcklin pintou.
Essa proximidade com Hitler só não me atormenta porque "A Ilha dos Mortos" era também um dos quadros preferidos de Freud (que chegou a sonhar com ele).
Outro exemplo: Hitler pintava, sobretudo aquarelas, que retratam edifícios austeros e solitários, e que não são ruins; talvez comprasse uma, se me fosse oferecida por um jovem artista pelas ruas de Viena.
Para mim, as aquarelas de Hitler são melhores do que as de Churchill. Pela pior razão: há, nelas, uma espécie de pressentimento trágico de que o mundo se dirigia para um banho de sangue.
É uma pena a arte não ser um critério moral. Seria fácil se as pessoas que desprezamos tivessem gostos estéticos opostos aos nossos. Mas, nada feito.
Os nazistas queimavam a "arte degenerada", mas só da boca para fora. Na privacidade de suas casas, eles penduraram milhares de obras "degeneradas" que tinham pretensamente destruído. Em Auschwitz, nas festinhas clandestinas só para SS, os nazistas pediam que a banda dos presos tocasse suingue e jazz –oficialmente proibidos.
Para Sokurov, o museu dos museus é o Louvre. Para mim, sempre foi a Accademia, em Veneza. A cada vez que volto para lá, desde a infância, medito na frente de três quadros, um dos quais é "A Tempestade", do Giorgione. Com o tempo, o maior enigma do quadro se tornou, para mim, a paisagem de fundo, deserta e inquietante.
Pintado em 1508, "A Tempestade" inaugura dois séculos que produziram mais beleza do que qualquer outro período de nossa história. Mas aquele fundo, mais tétrico que uma aquarela de Hitler, lembra-me que os dois séculos da beleza também foram um triunfo de guerra, peste e morte –Europa afora.
É isto mesmo: infelizmente, a arte não salva.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Em peça de John Logan, Rothko acerta suas contas com o público e com Deus

Baltazar era rei da Babilônia, e ordenou um banquete. Taças de ouro, roubadas do templo dos hebreus, cobriam a mesa. Cortesãos e concubinas bebiam o vinho dessas taças, e "louvavam os deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra".
A história está na Bíblia (Daniel 5), e assim prossegue. No meio do banquete, dedos de mão humana surgiram do alto e inscreveram palavras hebraicas na parede.
"Mene, mene, tequel, parsim". Chamado pelo rei, o profeta bíblico traduz: "Deus contou os dias do teu reinado e determinou seu fim. Foste pesado na balança e achado em falta".
Naquela mesma noite Baltazar foi morto pelos exércitos de Dario.
A passagem bíblica é citada na peça "Vermelho", de John Logan, que reestreia em São Paulo no Tuca.
Antonio Fagundes é o pintor americano Mark Rothko (1903-1970), e seu filho Bruno Fagundes interpreta Ken, seu jovem ajudante. Sem perder por um minuto a atenção do espectador, a peça se limita a esses dois personagens, que dialogam sobre a arte e a morte (Rothko deu fim à própria vida cortando os pulsos).
No mesmo dia de seu suicídio, a Tate Gallery de Londres recebeu uma das maiores obras do pintor abstrato. Tratava-se de uma série de painéis encomendada pelo arquiteto Philip Johnson, por uma quantia que hoje seria equivalente a mais de US$ 2 milhões.
A obra serviria para decorar o chiquérrimo restaurante Four Seasons, num edifício projetado por Johnson e Mies van der Rohe, o Seagram Building. A peça de John Logan acompanha o trabalho e os pensamentos de Rothko enquanto cuida de atender à encomenda. Ele esbraveja o tempo todo contra Ken, o jovem assistente; a simpatia e o carisma de Antonio Fagundes nos impedem de detestá-lo.
Há a considerar que Rothko também diz muitas verdades. "Vocês hoje em dia", reclama o pintor, acham tudo "legal". A televisão torna tudo feliz, tudo é muito divertido, temos o direito constitucional ao entretenimento permanente...
Ele imita o otimismo americano dos anos 1950. "Como você está? Legal. Como foi seu dia? Legal. Como você se sente? Legal. O que achou do quadro? Legal. Vamos jantar? Legal..."
Rothko explode. (Traduzo da versão em inglês, na peça está melhor.) Não, nada está "legal". Coisa nenhuma está "legal"!
O mau humor do mestre expressionista se revela também numa discussão com seu ajudante. Rothko não se contenta quando este pronuncia, simplesmente, a palavra "vermelho". Afinal, há o vermelho da ferrugem, do rosto de quem se envergonha, do sangue coagulado...
Os dois personagens trocam ferozmente seus próprios exemplos daquela cor. "Papai Noel", diz o jovem. "Satanás", responde Rothko.
Só que o negro vai tomando conta dos quadros do pintor. Buscando, por meio de finas camadas de tinta superposta, criar uma pulsação, uma latência de cores e mais cores, a pintura de Rothko provavelmente só funciona bem se vista ao vivo, com iluminação própria. Nas reproduções, vemos grandes retângulos imprecisos, bonitos na superfície de seus tons, mas talvez algo estáticos e decorativos.
Ele pensava nos quadros quase como pessoas vivas, que "falam", que interpelam o espectador automático e desumanizado, pronto a achar tudo "legal".
"Quero estragar o apetite de todo filho da puta que estiver no restaurante", gaba-se Rothko ao pensar na sua encomenda de muitos milhões de dólares.
A contradição se torna clara, entretanto. Toda a missão agônica e espiritual daqueles painéis não resistiria ao comercialismo do projeto e aos próprios interesses financeiros de Rothko.
Não conto mais da peça, que de todo modo vive no detalhe dos diálogos, nos muitos matizes e tons da interpretação, e nos maravilhosos efeitos de luz a cargo de Ney Bonfante. Mas fico pensando se os quadros de Rothko, num restaurante finíssimo, não teriam servido como as palavras de Deus escritas na parede, durante o festim de Baltazar: "Os dias de teu reino estão contados, foste pesado na balança e achado em falta".
Dentro ou fora das paredes de um restaurante, toda grande arte está exposta à indiferença, ao turismo, à procura de status, ao comércio e à ostentação.
Talvez, para que a arte signifique alguma coisa, cada espectador tenha de encará-la como um aviso: "Estás em falta". Sem sentir essa falta, vale mais a pena olhar para o cardápio do restaurante.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A arte que pode(ria) nos salvar

A abertura da Olimpíada foi mesmo algo grandioso, sob muitos aspectos. O bom gosto e a sensibilidade do grupo que concebeu e dirigiu o espetáculo são dignos de eterno registro, sobretudo no que diz respeito à adoção de temas brasileiros e de obras de nobres artistas brasileiros de diversos períodos e matizes.
Como já afirmei um sem-número de vezes neste espaço, os textos dialogam, as obras de arte dialogam, e esse diálogo forma a intertextualidade: para que se compreenda uma obra, é necessário que se conheçam e compreendam as obras com as quais aquela obra dialoga.
Um caso concreto: quando começaram a emergir vários edifícios, que "subiam" e "desciam" concomitantemente ao surgimento de pessoas, que andavam sobre esses edifícios e pulavam de um a outro, ouviram-se acordes de "Construção", de Chico Buarque, apresentada sem letra.
Na gravação de Chico, de 1971, o belo arranjo de "Construção" foi feito por Rogério Duprat (1932-2006). Esse arranjo dialoga com a melodia e a letra da canção, criando sons que lembram e intensificam os ruídos que se ouvem numa grande cidade e acentuando o destino trágico do operário.
É imperativo destacar o caráter metalinguístico do espetáculo, no qual uma linguagem se valeu de outra para a sua descrição e assim sucessivamente. O subir e descer dos prédios com as pessoas a acompanhar esse subir e descer e a pular de um prédio a outro foi "explicado" pela canção "Construção", cuja letra, por sua vez, "explica" o que envolve a construção de um edifício e de um texto (o próprio texto) e, sobretudo, o que vive (e não vive e sonha) quem constrói esse edifício.
Construída com versos alexandrinos (de doze sílabas poéticas) e esdrúxulos (que terminam numa proparoxítona), a letra de "Construção" forma um grande mosaico, já que seus versos alternam o "esqueleto" e a palavra final, numa combinação que gera "um desenho mágico".
E o grande Drummond, com o mais que antológico e atualíssimo poema "A Flor e a Náusea", que, por sinal, já citei mais de uma vez neste espaço e que foi dito magnificamente pela grande Fernanda Montenegro na abertura dos Jogos Olímpicos? "O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera", dizem os versos de Drummond.
Aí vem a inevitável pergunta: qual é a parcela de brasileiros (letrados ou iletrados, da nossa Bélgica ou da nossa Índia, como bem lembrou Juca Kfouri) capazes de entender todas essas referências, que integram a realidade de todos nós? O que faz a escola em relação a isso?
O que fazemos com toda essa beleza, caro leitor? Que lições tiramos desse e de outros mágicos desfiles de obras e fatos do nosso lado criativo, talentoso, brilhante? Quanto disso chega ao nosso dia a dia? O que dizer do contraste que há entre a nobreza de Paulinho da Viola a entoar sublimemente o nosso hino e a boçalidade nossa de cada dia?
Que desperdício de talento, Deus meu! Como diz Caetano (outro que desfilou sua nobre arte na sexta) em "Vamo Cumê", "Quem vai... e fazer desta vergonha uma nação?".
Em tempo: um puxão de orelhas nos criadores do espetáculo, por não incluírem a imagem de Vinicius de Moraes durante "Garota de Ipanema", da qual é coautor. Imperdoável.
Não vejo salvação fora da educação e da arte, da nobre arte, que, por sinal, temos de sobra. Que encontremos o caminho para que a nossa nobre arte nos salve! É isso.


Texto de Pasquale Cipro Neto, na Folha de São Paulo

domingo, 17 de julho de 2016

Crítico de teatro Sábato Magaldi morre aos 89 anos

Crítico de teatro Sábato Magaldi morre aos 89 anos

Autor foi peça chave na leitura de Nelson Rodrigues
Um dos maiores críticos de teatro brasileiro, Sábato Magaldi morreu nessa quinta-feira, por volta das 23h, aos 89 anos, em São Paulo. De acordo com o jornal O Estado de S.Paulo, o escritor estava internado desde sábado no hospital paulista Samaritano, diagnosticado com choque séptico e comprometimento pulmonar.
Magaldi era membro da Academia Brasileira de Letras, ensaísta, crítico e autor livros que já se tornaram referência na área teatral. Nascido em 9 de maio de 1927, mineiro de Belo Horizonte, o autor tornou-se bacharel em Direito. O velório será realizado nesta sexta-feira, das 12h às 15h, no Crematório Embu das Artes, em São Paulo.
Peça chave na leitura de Nelson Rodrigues
Os estudos de Sábato Magaldi sobre a obra de Nelson Rodrigues são incontornáveis para quem tem - e também para quem não tem - planos de encenar peças do autor. É possível arriscar que todas as recentes montagens dos textos de Rodrigues foram guiadas pela divisão formal, em categorias, estabelecida por Magaldi, autor de um ensaio seminal sobre a presença do mito na dramaturgia do autor pernambucano (carioca por adoção).
Em seu livro Teatro da Obsessão, Magaldi chama a atenção, por exemplo, para a antológica montagem de Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno (1981) por Antunes Filho e o Grupo Macunaíma, feita sob o impacto da leitura do historiador e mitólogo romeno Mircea Eliade: a emergência de uma nova vida após o caos, o aniquilamento, a destruição do núcleo familiar. Nunca antes, na história do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues fora visto dessa maneira, sendo quase sempre reduzido a um dramaturgo vulgar, sem vínculos com a tradição teatral erudita.
Pois é justamente a análise de Os Sete Gatinhos em Teatro da Obsessão que estabelece uma conexão inaudita entre Nelson Rodrigues e Édipo Rei de Sófocles, ao destacar o sacrifício do patriarca - ritualístico, em sua essência - para que a unidade familiar seja preservada. Classificada entre as "tragédias cariocas" do autor por Magaldi, Os Sete Gatinhos era tratada antes de Magaldi como um manual de perversões sexuais. Eram, enfim, desprezados a dimensão psicológica e o conteúdo mítico da peça.
Magaldi dividia o teatro de Nelson Rodrigues em três categorias: peças míticas, psicológicas e tragédias cariocas. Ao prefaciar o Teatro Completo de Nelson Rodrigues, o crítico explica que adotou o critério cronológico para facilitar ao leitor a tarefa de entender os procedimentos dramáticos do autor, mostrando como a irrupção no território mítico com Álbum de Família (1945) levou Rodrigues a evocar a tragédia grega e mergulhar no inconsciente primitivo.
Dois anos antes de Álbum de Família, a estreia da polêmica Vestido de Noiva (1943), sob a direção de Ziembinski, definiria o marco zero das "peças psicológicas" do autor, segundo a divisão formal de Magaldi. Nela, a fronteira entre a memória e alucinação é tênue, como observa o crítico, o que deu ao dramaturgo a oportunidade de mostrar seu desprezo - ele que era jornalista - pela realidade.
Ao agrupar as tragédias cariocas, talvez o núcleo com as peças mais populares de Rodrigues (A Falecida, Boca de Ouro, O Beijo no Asfalto, Toda Nudez Será Castigada, entre outras), Magaldi escreveu o ensaio definitivo sobre ele, equiparando-o em ao teatro de Shakespeare.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 24 de março de 2016

Igreja das Dores vai abrigar o primeiro museu de arte sacra de Porto Alegre

Igreja das Dores vai abrigar o primeiro museu de arte sacra de Porto Alegre

Lançamento oficial do projeto ocorre em piquenique noturno no dia 31 de março

A Igreja Nossa Senhora das Dores, a mais antiga de Porto Alegre, se prepara para um novo marco em sua história: abrigar o primeiro museu de arte sacra da capital gaúcha. A inauguração do espaço deve acontecer somente a partir de 2019, mas os trabalhos para torná-lo real já estão sendo realizados.
Depois que for aberto ao público, o espaço será um memorial da cultura e do patrimônio histórico dentro da própria igreja. A ideia é criar um percurso museológico, apresentando aos visitantes materiais que contem tanto a história do local, quanto a da cidade.

O projeto prevê duas salas: uma localizada na Capela da Pompéia (que hoje permanece fechada) para exposição permanente e interativa, e outra, no subsolo, para mostras temporárias e projeções de vídeo. Além das programações elaboradas, serão expostos mais de dois mil itens que já fazem parte do acervo da igreja, mas que não ficam ao acesso da população.
Entre esses artigos que serão revelados com o memorial estão peças litúrgicas, flâmulas, estandartes, estatuária em gesso e madeira do século XIX. Também haverá telas, medalhas, livros, partituras, fotos e papéis.
Atualmente, o projeto - que foi aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura do estado e pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, no final do ano passado - está em fase de captação de recursos e deve começar a sair do papel em 2017, quando a execução da obra terá início. A partir de então, estão previstos mais dois anos de ações até que tudo esteja pronto.
Para já apresentar a proposta aos porto-alegrenses, ocorre na próxima semana, no dia 31 de março, um piquenique noturno nas escadarias da Igreja Nossa Senhora das Dores (Riachuelo, 630). A atividade, que integra a programação do aniversário de 244 anos da Capital, começa às 19h e terá a presença da banda Isla Quintana e do grupo Acapoeira-RS. O público está convidado a levar cangas, comidas, bebidas e participar dessa celebração à cultura local.

Reprodução do Correio do Povo

sábado, 31 de outubro de 2015

"Legião Urbana - 30 anos" chega a Porto Alegre em dezembro

"Legião Urbana - 30 anos" chega a Porto Alegre em dezembro

O ator André Frateschi se junta aos remanescentes Dado Villa-Lobos e Bonfá
Três anos após a sua última apresentação ao vivo, num espetáculo tributo que teve a presença do ator Wagner Moura como vocalista do grupo, a Legião Urbana volta aos palcos para uma turnê pelo país. Em Porto Alegre, o show acontece dia 11 de dezembro no Pepsi on Stage (Severo Dullius, 1995), às 22h. Os ingressos estão à venda entre R$ 240 (inteira) e R$ 125 (promocional) no primeiro lote. 

O projeto “Legião Urbana – 30 Anos”, além de comemorar o aniversário de três décadas do álbum de estreia com um relançamento cheio de raridades, colocará Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá juntos na estrada,  e promete emocionar os fãs. 

O show será dividido em duas partes: na primeira, o disco “Legião Urbana” será executado na sua ordem original. Na segunda parte, alguns dos clássicos da banda também serão incluídos no repertório, junto com cantores e cantoras convidados. Irão acompanhar Dado e Bonfá no palco: Lucas Vasconcellos (guitarra), Mauro Berman (baixo) e Roberto Pollo (teclado). Quem vai dividir os vocais com o público será o ator e cantor André Frateschi.

Sem chance de um retorno definitivo e permanente, essa será, provavelmente, uma das raras oportunidades de assistir ao legado do Legião Urbana ao vivo, apresentado pelos seus próprios criadores. 

O projeto

No começo deste ano, Dado e Bonfá receberam da EMI a proposta de lançar uma edição especial do primeiro disco homônimo da banda, produzido em 1985. Surgia então o projeto “Legião Urbana – 30 Anos”, que além de trazer o álbum original remasterizado, irá ganhar um CD extra, contendo algumas pérolas e raridades do grupo. 

As três musicas que o então trio brasiliense gravou em 1983, ainda com Renato Russo cantando baixo e cantando, por exemplo, estão nesse material bônus. O lançamento está previsto para o final do ano.

O processo de mexer com todas essas fitas, de ver aquelas fotos e, principalmente, de ouvir aquelas primeiras versões das suas músicas exatamente como elas foram criadas, despertou a vontade do Dado e do Bonfá de estarem juntos tocando de novo. 

Desse interesse surgiu uma segunda ideia: chamar alguns amigos e tocar o primeiro disco na íntegra. Mas, para evitar erros ou mal-entendidos, sempre deixando claro que não existe possibilidade alguma de “volta” da Legião Urbana.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Nua, atriz expurga males da sociedade de consumo

Nua, atriz expurga males da sociedade de consumo

Christiane Tricerri estreia monólogo 'A Merda', do italiano Cristian Ceresoli
Personagem marcada pela feiura e por uma grande necessidade de aceitação despeja na plateia suas cicatrizes
BARBARA GANCIADE SÃO PAULO

"A Merda" de Christiane Tricerri lava a alma. Ela está nua em cena no monólogo, que estreia em São Paulo nesta quinta-feira (9). E vem fervendo. Empoleirada sobre um pedestal, em 60 minutos sua personagem se vale de uma frenética associação de ideias para provocar estímulos nada banais na plateia.
A nossa ignorância, a repulsa, as revelações mais escandalosas, do tipo que provocam o riso histérico para aplacar o desconforto, e as memórias coletiva e individual mais inóspitas que sua personagem furibunda e tão contemporânea faz questão de esbofetear na nossa cara.
Capaz de você sair do teatro de pernas bambas, como quem desce da montanha-russa mais radical do parque da Universal, de Orlando.
Tricerri está ainda mais vigorosa e peituda do que de costume, sua performance consegue criar empatia entre o espectador e a espécie de aberração que está ali feito um gárgula a vociferar sobre os detalhes mais desagradáveis da existência.
Trata-se de uma mulher marcada pela feiura, pela manipulação ensejada pelo trinômio mercado, governo e machismo e pelo desejo de não passar a vida em branco.
A personagem deseja ser... apresentadora de TV, claro. Na sua cabeça, vai montando o diálogo que terá durante o teste com a equipe da emissora que a chamar.
São três atos tragicômicos. Nessa gigantesca colcha de retalhos de cicatrizes, nós somos capazes de perceber no desespero da personagem a nossa própria inquietação.
A ação se passa na Itália, as referências são inúmeras, Tricerri canta estrofes da malfadada letra do hino da Itália da unificação, de autoria de Goffredo Mameli, que convoca os italianos a recuperarem o espírito vitorioso dos antigos romanos, conclamando que vistam o elmo de Cipião, o centurião que derrotou Aníbal, o Grande, na Antiguidade.
Foram 600 anos de derrotas, ocupações e sangue derramado depois de Cipião.
A ação se dá na contemporaneidade. O que significa que a personagem, mesmo jovem, deva ter sentido os respingos dos anos de chumbo das Brigadas Vermelhas, na década de 70, e depois ainda testemunhado os escândalos da Operação Mãos Limpas, nos anos 90, o banqueiro do Vaticano enforcado numa ponte londrina, o escândalo da Loja Maçônica P 2 em que 972 empresários e políticos foram indiciados pelo poder público, sendo um deles um tal de Silvio Berlusconi, que depois acabou se tornando primeiro-ministro da Itália (1994-2011).

LÁ COMO CÁ

Haja merda, não é mesmo?
E é aí que está a genialidade do texto do piemontês Cristian Ceresoli e a sacada da atriz, produtora e diretora Christiane Tricerri em trazer o monólogo "A Merda" para o palco quase sem adaptação.
A merda acaba sendo sempre a mesma. Compare: o futebol e a TV são os pilares ao redor dos quais giram os rituais da família, a glória do hino de Mameli permanece tão congelada no futuro quanto o nosso "gigante adormecido em berço esplêndido".
E, tanto lá como cá, há uma legião de jovens pirando na solidão dos seus quartinhos miseráveis, mas que vomitariam tudo o que a personagem de Tricerri joga no colo da plateia. Porque sou feia, pratiquei felação no fanho aleijado lá da escola; porque tenho coxas deformadas, deixei que abusassem de mim, e assim por diante.
A deglutição da sua própria carne, a digestão transformadora e a evacuação redentora de material que lhe foi tão inútil e incômodo, que esteve ali presente o tempo todo quase como um testemunho perverso do seu fracasso, do fracasso da Itália e, por fim, da humanidade, é a realização de uma fantasia.
É a eliminação do obstáculo material que está ali a nos impedir de realizar o sonho. "Cagando pelo cu, pelo cu" (a frase é repetida com sabor infantil para cutucar o fígado da plateia) é um ato libertador.
Estamos falando da verdadeira revolução pretendida pelo cineasta Pier Paolo Pasolini --que criticava o "genocídio cultural" da sociedade de consumo moderna. Aquela que talvez só veja encantamento na aceitação de que tudo é merda.

A MERDA
QUANDO dia 9/7, às 18h; qui. a sáb., às 20h30; até 15/8
ONDE Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 7,50 a R$ 25
CLASSIFICAÇÃO 18 anos

Reprodução da Folha de São Paulo

sábado, 25 de abril de 2015

Estômago, libido e submissão

Em 1998, o filme "Nova York Sitiada" antecipou parte do que aconteceria com o mundo a partir de 2001: 1) novo e descentralizado tipo de jihadismo, treinado pela CIA em sua origem, causa grande tragédia numa metrópole americana; 2) em pânico justificado, cidadãos exigem reação do governo; 3) opta-se pelo caminho militar/policialesco, que estimula a intolerância étnica/religiosa e avança sobre direitos civis.
Tanta acuidade histórica, no entanto, não gerou uma obra esteticamente relevante. Talvez porque as boas ideias do roteiro, escrito pelo ganhador do prêmio Pulitzer Lawrence Wright, precisassem ser traduzidas pelo esquematismo hollywoodiano de Bruce Willis e companhia. Uma coisa é o que se diz, outra é como se diz. Embora as duas dimensões se misturem em algum nível na arte, é na segunda que está a possibilidade de transcender o que já se sabe assistindo ao noticiário ou lendo os especialistas.
De certo modo, foi esse o desafio que Michel Houellebecq enfrentou em seu livro "Submissão" (Alfaguara, R$ 39,90, 256 págs.). Como "Nova York Sitiada", o romance tenta antecipar o que seria um futuro próximo para a questão islâmica. Só que, em vez da América, o palco é a Europa. E, em vez de bombas e violência ruidosa, a trama fala de uma guerra sutil de valores que culmina com a eleição de um presidente francês muçulmano em 2022.
Como exercício literal de futurologia, o livro força um pouco a barra. Estima-se que o Islã represente entre 4% e 10% da população da França. Dado o baixíssimo grau de integração dessa comunidade no país, e mesmo com projeções demográficas favoráveis a ela nas próximas décadas, imaginar um resultado eleitoral do gênero daqui a sete anos –considerando o atentado ao "Charlie Hebdo", ocorrido na semana do lançamento do romance – soa como busca previsível por polêmica.
Houellebecq, no entanto, está longe de ser um mero provocador. Como sempre em sua obra, temas já mastigados pela histeria das manchetes servem como base para voos mais ambiciosos. "Submissão" não fala propriamente do futuro. Talvez não fale nem de Islã, ao menos de modo específico e redutor. Seu centro é o mesmo de livros como "Extensão do Domínio da Luta" ou "O Mapa e o Território": os impasses no modo como se vive hoje no Ocidente.
Assim, trechos sobre uma Sorbonne regida por preceitos religiosos, ou sobre a volta do patriarcado absoluto, ou sobre o que pode haver de comum entre toda sorte de fantasias totalitárias, à direita ou à esquerda, laicas ou não, expõem a fragilidade de nossas ilusões humanistas diante da atual crise representativa –e da desigualdade, e do vazio deixado por trabalho bovino e consumismo vulgar.
Sob esse aspecto, o livro acaba tendo a mesma pertinência de "Nova York Sitiada". A discussão por trás do enredo é necessária. Idem o exercício de suas previsões, independentemente do acerto delas. A diferença é que, ao contrário da visão edulcorada de Hollywood, que dilui o tema das liberdades num discurso de boas intenções, Houellebecq o explora até os limites do niilismo.
Pode não parecer algo agradável de ler, mas há alguma chance de se encontrar integridade artística aí. É fácil condenar os males de uma variante extrema de fascismo para quem já está convencido a respeito. Difícil é mostrar como tais engrenagens podem ser mais discretas e eficientes, e que corremos o risco de sucumbir a elas por covardia, carreirismo ou qualquer motivo abaixo do radar da grande teoria política.
Em "Submissão", o processo é descrito com uma voz distante, nunca despida de um carisma contraditório, fundado no humor misantropo e num certo prazer do protagonista em ser repulsivo. É o que faz o livro avançar e florescer em meio a recursos quase proibidos na ficção atual, como longos diálogos didáticos e longas digressões filosóficas.
Ao final dessa distopia fatalista, sem nostalgia de tempos mais heroicos e felizes, e muito menos do que restou da civilização de bem-estar social, o narrador escolhe seguir os apelos do estômago e da libido. Não deixa de ser um horizonte moral. Pode-se achá-lo mesquinho, mas Houellebecq o defende com brio literário –de cabeça erguida, sem concessões.


Texto de Michel Laub, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Retrato do artista quando...

Retrato do artista quando...

Em seu novo livro, Sarah Thornton, autora do best-seller 'Sete Dias no Mundo da Arte', perfila de Damien Hirst a Beatriz Milhazes para definir o que faz um artista hoje
SILAS MARTÍENVIADO ESPECIAL A MIAMI

"Quando entro no ateliê de um artista, sinto uma energia estranha", diz Sarah Thornton. "É como outro planeta."
No burburinho do lounge VIP da feira Art Basel Miami Beach, longe dos artistas e esbarrando nos colecionadores, a autora do best-seller "Sete Dias no Mundo da Arte" tenta me explicar o que motivou a escrita de seu mais novo livro.
Depois de dissecar com acidez os bastidores desse universo em "Sete Dias", a jornalista canadense, que escreve sobre arte para revistas como a "The Economist" e a "New Yorker", passou os últimos sete anos visitando ateliês de artistas visuais no mundo todo - de Beatriz Milhazes, no Rio, a Ai Weiwei, em Pequim- fazendo uma única pergunta.
"Queria saber o que é um artista real, autêntico, crível", diz Thornton. "É impossível explicar como um artista ascende à fama global olhando só para seu trabalho. Era preciso ver como eles navegam pelo mundo da arte, como tratam colecionadores e críticos, como tiram selfies com os fãs. Tudo isso é parte da obra."
Ou seja, Thornton acredita ter descoberto no jogo de aparências que domina a arte contemporânea uma chave para entender sua real essência.
Estruturado como um roteiro cinematográfico, "O Que É um Artista?", livro que sai no Brasil pela editora Zahar em abril, retrata 33 artistas em cenas, entre prosaicas e bizarras, ao redor do mundo, da abertura de uma retrospectiva de Jeff Koons, em Londres, a uma conversa com a mulher de Ai Weiwei, em Pequim, quando o artista estava preso.
Thornton, que é também socióloga, não chegou a uma resposta definitiva para a sua pergunta. Mas as tentativas de descrever o papel de um artista visual na sociedade contemporânea encheram mais de 400 páginas com ponderações e provocações.
Em alguns casos, o diálogo virou briga. Infeliz com seu retrato no livro, a artista norte-americana Cady Noland decidiu processar a autora.
Outros, como Damien Hirst, alvo de várias entrevistas no livro, preferiram não mais falar com ela, tentando barrar a ida de Thornton à sua retrospectiva em Doha, há dois anos, o maior gesto do artista para conquistar um novo mercado diante da queda de seus preços em países desenvolvidos.

MITOS E DÓLARES

Essa dimensão mercadológica, aliás, não fica de fora do radar de Thornton, mas ela amplia a ideia de quanto vale um artista ou uma obra para enquadrar também o que considera a moeda mais valiosa da indústria da arte.
"O que está em jogo nesse mundo é a credibilidade", diz a autora. "É a forma como os artistas contemporâneos comandam um séquito que faz com que alcancem preços tão altos. Não há meios objetivos para mensurar a qualidade do que fazem. Artistas precisam de mitos, porque dão mais energia, ímpeto e poder à obra."
Um mito poderoso, na opinião de Thornton, é a aura de inimigo do Estado que envolve Ai Weiwei, artista e ativista político chinês que está impedido de deixar seu país desde 2011, quando foi agredido pela polícia e passou três meses atrás das grades acusado de crimes como evasão fiscal e difusão de pornografia.
"Ele me disse que um artista é um inimigo das sensibilidades generalizadas, o que é uma ideia muito bonita", diz Thornton, sobre Weiwei. "Se fosse um cara no Brooklyn me falando isso, pareceria uma alucinação, porque o máximo que pode acontecer ali é apagarem seu perfil no Instagram. Mas ele vive sem liberdade de expressão."
Em contraponto, artistas histriônicos, como Damien Hirst e Jeff Koons, que viraram celebridades zombando do mercado com obras achincalhadas pela crítica, renderam retratos mais impiedosos.
"Talvez tenha me irritado mais com o Koons, mas ele me deixou escrever o que eu queria. Ele não parece real, só que é o jeito dele. De qualquer forma, não estou interessada nas máscaras rasas que eles usam, e sim na vida pública como um todo", diz Thornton. "O livro gira em torno dessas personalidades antagônicas."
Nesse ponto, nada parece mais contrastante que o retrato de Hirst como um bad boy de meia idade, incapaz de falar uma frase sem a palavra "fuck", e seu encontro em Nova York com a diva da performance Marina Abramovic, que manteve a pose esotérica, falando do artista como o "oxigênio da sociedade", enquanto discorria sobre moda.
Thornton também faz um retrato diferente de Beatriz Milhazes. No ateliê da artista no Jardim Botânico, no Rio, a autora enxerga além dos arroubos hedonistas e ultracoloridos de sua pintura e a descreve com uma postura ultradisciplinada, de exímia criadora de quadros ao mesmo tempo "barrocos e turbulentos" mas com grande "rigor estrutural".
Minutos antes de me encontrar em Miami, Thornton, aliás, estava no lançamento de um catálogo de Milhazes perto dali. Voltou com uma cópia autografada do livro e postou um selfie com a artista.
"Há um vício entre críticos que insistem em ver só as obras", diz. "Mas não sei como fingem não ver o que acontece ao redor. É impossível ignorar a presença do artista."

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Encontrado manuscrito de obra inédita de Lope de Vega

Encontrado manuscrito de obra inédita de Lope de Vega

Análise métrica se encaixa com a utilizada pelo dramaturgo por volta dos anos 1613 e 1614

Uma cópia manuscrita da comédia inédita "Mujeres y criados", escrita há quatro séculos pelo dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega e que acreditava-se perdida, foi descoberta na Biblioteca Nacional da Espanha (BNE), anunciaram nesta quarta-feira os especialistas.

"O manuscrito localizado, uma cópia do século XVII, não havia sido relacionado a esta obra de Lope de Vega até o momento", informou em um comunicado o BNE e a Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), à qual o grupo de pesquisa pertence.

A obra foi identificada graça ao trabalho de Alejandro García Reidy professor da Universidade americana de Syracuse e membro do grupo PROLOPE da UAB, responsável por investigar e editar este mestre da literatura espanhola.

"A análise métrica se encaixa perfeitamente com a utilizada pelo dramaturgo por volta dos anos 1613 e 1614 e do copista que transcreveu o manuscrito em 1631, identificado com Pedro Valdes", explicou Reidy.

Reprodução do Correio do Povo

terça-feira, 5 de novembro de 2013

China forja mercado de arte

China forja mercado de arte
Por David Barboza, Graham Bowley e Amanda Cox
Pequim

Em um leilão noturno da casa China Guardian, em maio de 2011, "Eagle Standing on a Pine Tree" (Águia sobre um pinheiro), pintura a nanquim feita em 1946 por Qi Baishi, um dos mestres da arte chinesa do século 20, foi arrematada por um preço surpreendente: US$ 65,4 milhões. Nunca antes uma pintura chinesa tinha atingido valor tão alto em um leilão. No final do ano, a venda da tela teve implicações globais, ajudando a China a superar os Estados Unidos como o maior mercado mundial de arte e leilões.
Dois anos depois, porém, a obra-prima de Qi Baishi ainda está parada num depósito em Pequim.
O autor do lance vencedor se negou a pagar pela tela porque a autenticidade dela foi questionada.
"O mercado se encontra em uma fase muito dúbia", disse Alexander Zacke, especialista em arte asiática que comanda a casa de leilões internacionais on-line Auctionata. "Ninguém leva muito a sério os resultados na China."
De fato, ao mesmo tempo em que o mundo da arte reage com assombro ao boom do mercado chinês, uma revisão feita pelo "New York Times" ao longo de seis meses constatou que muitas das vendas não chegaram a se concretizar. São transações que teriam gerado até um terço da receita chinesa de leilões nos últimos anos.
Fato igualmente problemático é que o mercado está inundado de obras falsificadas, com frequência produzidas em massa, e virou campo fértil para a corrupção, na medida em que executivos de empresas subornam autoridades com obras de arte.
A explosão de compradores de arte foi alimentada pelo consumismo antes reprimido dos novos-ricos. Há duas décadas, a China praticamente não tinha nenhum mercado para esse setor. Apesar disso, no ano passado, a receita divulgada dos leilões no país subiu 900% em relação a 2003, chegando a US$ 8,9 bilhões -embora tenha caído 24% em relação a 2011. Já nos EUA, a receita do mercado de leilões em 2012 foi de US$ 8,1 bilhões.
Os compradores chineses geralmente se interessam por trabalhos chineses tradicionais, alguns de mestres do século 15 e outros de artistas modernos que optaram por trabalhar no estilo antigo.
Essa própria reverência ao passado cultural contribui para o aumento das obras falsificadas. Os artistas na China são ensinados a imitar os velhos mestres chineses, produzindo cópias de alta qualidade. Essa tradição coincidiu com a demanda do mercado de arte, no qual reproduções -que muitos artistas possuem a habilidade necessária para criar- frequentemente são oferecidas como se fossem artigos genuínos.
"Esse é o desafio do momento", disse Wang Yannan, presidente e diretor da China Guardian, a segunda maior casa de leilões do país. "A primeira pergunta que cada chinês se faz é se a obra é falsificada."
Escândalos que vieram a público expõem a extensão das falsificações e semeiam dúvidas quanto ao mercado mais amplo. Três anos atrás, veio à tona que uma pintura a óleo atribuída ao artista do século 20 Xu Beihong e vendida por mais de US$ 10 milhões tinha sido produzida 30 anos após a morte do artista por um estudante, durante um exercício de sala de aula em uma das principais academias de arte da China.
Ainda mais constrangedora foi a decisão tomada pelo governo em julho passado de fechar um museu particular em Hebei por suspeitas de que quase tudo em seu acervo fosse falsificado -40 mil artefatos, incluindo um vaso de porcelana da dinastia Tang.
"Sempre existiram falsificadores no mercado, mas é uma questão de proporção", comentou Robert D. Mowry, ex-curador de arte asiática na Universidade Harvard e hoje consultor da Christie's.
O setor de leilões e o governo dizem que estão se esforçando para combater os abusos, mas enfrentam a dificuldade de uma brecha na lei, que exime as casas de leilões de responsabilidade quando uma obra leiloada é falsificada.
O problema da falsificação ajuda a explicar o número crescente de casos em que pagamentos não são realizados. Nos últimos três anos, um estudo feito pela Associação de Leiloeiros da China sobre as casas de leilão chinesas constatou que mais ou menos metade das vendas de obras de arte de valor superior a US$ 1,5 milhão -que representam uma parte importante do mercado- não foi completada porque o comprador deixou de pagar o preço acordado. (No caso das grandes casas de leilão americanas, segundo vários especialistas, o índice de não pagamento por obras de valor equivalente é mínimo.)
"Isso tem algo a ver com o ambiente geral", disse a presidente da associação, Zhang Yanhua. "Como vocês sabem, a China ainda está se esforçando para construir a obediência às leis."
Para especialistas, outras explicações possíveis para a onda de inadimplência e de pagamentos feitos com atraso incluem casos em que pessoas se arrependeram dos lances que fizeram ou simplesmente fizeram lances altos para elevar o valor de obras de um artista particular que elas colecionam.
Mesmo levando em conta que os relatórios de receita nem sempre refletem a realidade, a alta nas aquisições de arte nos últimos dez anos foi meteórica. Bancos chineses, estatais e grandes empresários continuam a investir no boom. Obras de arte viraram uma espécie de nova moeda na China, e tantas pessoas colecionam arte que os leilões com frequência recebem multidões. Mais de 20 programas de televisão na China oferecem dicas para quem coleciona arte e quer identificar relíquias culturais.
Diante desse interesse enorme, os marchands chineses estão correndo para a Europa e os Estados Unidos para recomprar relíquias chinesas que estão fora do país.
Houve também uma série de furtos de antiguidades chinesas em museus. Surgiu um mercado negro de artefatos, com chamados ladrões de túmulos escavando tesouros enterrados que possam vender.
O interesse em reparar os pontos fracos do mercado pode ter contribuído para a decisão recente da China de afrouxar as regras que dificultam o acesso das casas de leilão ocidentais ao mercado chinês.
Agora a Sotheby's tem uma joint venture com uma empresa estatal, e a Christie's ganhou uma licença neste ano para se tornar a primeira casa internacional de leilões a operar independentemente na China. São novidades que podem ajudar a fomentar a competição e a elevação dos padrões no mercado

Preço em alta

A manipulação de preços é frequente no mercado chinês de arte. Colecionadores e investidores, possivelmente um fundo de investimento em arte que tenha investido muito em um artista específico, fazem lances altos sobre uma obra, com o objetivo de empurrar para cima o valor de seu estoque inteiro. De acordo com especialistas, às vezes as próprias casas de leilão fazem lances falsos. Os chineses têm um nome para esse processo de empurrar preços para cima: "refogar".
Enquanto alguns colecionadores se importam profundamente com suas obras de arte, muitos compradores, segundo especialistas, são investidores interessados em lucrar com a revenda de uma obra de arte. Uma pintura de Qi Baishi, "Fish and Shrimp" (Peixe e camarão), foi vendida quatro vezes em leilões ao longo de dez anos até dezembro passado. Seu preço subiu de US$ 30 mil em 2002 para US$ 794 mil, caindo no ano passado para US$ 552 mil.
As oportunidades de revenda são uma prioridade para muitos compradores. Em um leilão em Pequim em setembro, quatro homens de Guangzhou compraram várias pinturas no valor de dezenas de milhares de dólares. Um deles comentou: "A maioria das pessoas que você vê aqui não tem um emprego de verdade. É o nosso caso, somos revendedores. Compramos as obras e as revendemos a pessoas instruídas e ricas".
Analistas dizem que a revenda de obras de arte contribui para o problema de inadimplência do mercado. Antes de um leilão, um comprador pode encontrar um colecionador interessado numa obra. Ele pode fazer lances e arrematar o trabalho, mas negar-se a pagar por ele se seu trato com o colecionador não se concretizar.
E há os problemas de pagamento que surgem porque o mercado de arte chinês é jovem, economicamente falando, e seus compradores adquiriram seu dinheiro recentemente. "Ainda existe uma grande diferença entre Oriente e Ocidente no entendimento dos leilões -sobre se elevar uma placa de oferta num leilão constitui ou não um contrato legalmente válido", disse Philip Tinari, do Centro Ullens de Arte Contemporânea, em Pequim. "Alguma jovem atriz compra um lote de pinturas num leilão, sai do local e fala 'não quero os números 13, 11, 7, 6 e 5'. Acontece o tempo todo."
Mesmo com as fraudes e falsificações, muitos colecionadores e investidores dizem que o mercado vale a pena. Mas o artista, crítico e curador Jiang Yinfeng disse que as pessoas que têm pouca experiência podem sofrer em um mercado tão superaquecido. "Alguns de meus amigos usam suas próprias casas como garantia para comprar obras de arte", contou. "Outros contraem empréstimos com juros altos."
Um dos fatores que tem movido o mercado de arte na China é o costume de dar presentes, algo que leva autoridades provinciais a chegarem em massa a Pequim durante o Festival de Meados de Outono, em setembro, levando obras de arte, bebidas e outros objetos como presentes para dar a altos funcionários governamentais.
A arte pode ser usada também em esquemas de suborno mais complexos. Em alguns casos, um funcionário governamental recebe uma obra de arte com instruções para oferecê-la em leilão. Depois, um empresário a utilizará como moeda de propina, comprando a obra a um preço inflado.
Em muitos casos, a autenticidade da obra dada de presente não vem ao caso, porque o comprador pretende gastar muito de qualquer maneira. E, se o esquema fosse descoberto, o valor mínimo da obra falsificada significaria que o castigo seria menor.
O uso de arte para pagar propinas a funcionários governamentais é algo tão corriqueiro que os chineses cunharam um termo para descrever esse tipo de corrupção estética: é o "yahui", ou "suborno elegante".
Em 2009, quando as autoridades detiveram Wen Qiang, o vice-chefe de polícia da cidade de Congqing, por proteger uma quadrilha criminosa, descobriram que ele tinha uma coleção de arte surpreendentemente grande e cara. Wen teria recebido mais de cem obras como presente. Ele foi executado por seus crimes no ano seguinte.
"Quem está presente no mercado de leilões?" perguntou Li Yanjun, especialista e autenticador de obras de arte na Universidade Oriental de Pequim. "Funcionários do governo. Eles se escondem e mandam outras pessoas fazer lances por eles ou então compram todas as obras."

Antiguidade nova em folha

O rastro dos bronzes, pinturas e antiguidades falsificados percorre a China inteira. Em Jingdezhen, no sudeste do país, oficinas produzem belíssimas reproduções de porcelanas das dinastias Ming e Qing. Em Yanjian, na região central da província de Yenan, elas aplicam amônia sobre bronze para induzir a corrosão, de modo que um sino ou recipiente usado em rituais com vinho possa se fazer passar por artefato escavado em um túmulo. Em Pequim, Tianjin, Suzhou e Nanjing, pintores e calígrafos reproduzem as pinceladas de mestres reverenciados.
Em todo o país, pintores copiam obras de mestres como Qi Baishi e Fu Baoshi. "Já vi 700 a 800 pessoas numa oficina de pintura, com uma divisão de trabalho muito clara, reproduzindo as obras de Qi Baishi", diz Zhang Jinfa, autenticador profissional de obras de arte.
Um estudo feito no ano passado estimou que 250 mil pessoas em 20 cidades chinesas podem estar produzindo falsificações.
Milhares de pessoas em Jingdezhen, centro de produção de porcelana na antiguidade, trabalham criando obras de argila segundo moldes antigos. Mais adiante na linha de produção, pintores mergulham seus pincéis em tinta e copiam sobre as cerâmicas os contornos de flores ou desenhos chineses tradicionais.
A tradição da cópia na China reflete mais que uma simples atitude de reverência diante do passado: é o reconhecimento de que a beleza foi captada de uma forma que merece ser emulada. Diferentemente do Ocidente, onde se admira o chamado "choque do novo", a China valoriza a tradição. Suas obras mais vendidas com frequência homenageiam obras criadas centenas de anos atrás e se parecem com elas.
Nas escolas de arte, alunos praticam o "lin mo", ou imitação dos grandes mestres. A falsificação e a fraude não fazem necessariamente parte da tradição, embora pintores famosos como Zhang Daqian, morto há 30 anos, tenham se divertido ludibriando os especialistas.
"Zhang Daqian achava que estava no mesmo nível que os velhos mestres", explicou Maxwell K. Hearn, diretor do departamento de arte asiática do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. "Assim, a verdadeira prova dos nove era ver se seria capaz de copiar as obras deles."
Uma história que ilustra a abordagem irreverente de Zhang à cópia diz respeito a uma viagem que ele fez em 1967 para ver uma exposição das obras de Shitao, pintor do século 17, no Museu de Arte da Universidade de Michigan. Os guias lhe mostraram, orgulhosos, os trabalhos do pintor célebre, morto mais de dois séculos antes. Eles se espantaram quando Zhang começou a rir e apontou para várias obras na parede, dizendo: "Eu fiz esse! E também aquele!".

Colaboraram Jo Craven McGinty, Dong Yiyi e Stephanie Yifan Yang