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sexta-feira, 18 de março de 2022

A gente é a língua que a gente fala


Às vezes a gente não se dá conta, mas o mal-estar fica ali, triangulando entre cérebro, estômago e boca: quer dizer que falamos errado? O idioma que aprendemos no berço não passa de uma versão bastarda de certa língua para sempre estrangeira?

Me refiro ao estrago que a brigada de guardiães da "norma curta" faz à nossa autoestima cultural e à qualidade do ensino de português em nossas escolas. Sim, esta é uma continuação da coluna anterior, que tratou da ótima "Gramática da Norma de Referência" de Vieira e Faraco.

Para as patrulhas da norma-padrão, armadas de canetas vermelhas, o português brasileiro é um coitado sem modos e cheio de vícios que não consegue largar, por mais cascudos que a gente aplique em sua cabeça dura.

Usar "a gente" no lugar de "nós", como fiz na primeira linha da coluna e voltei a fazer na frase anterior, é um dos sinais da suposta deterioração da língua que esses puristas extemporâneos (século 21, oi!) gostam de apontar.

Na vida real, a gente adora falar "a gente". Sim, a gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer, mas "a gente" é uma coisa que a gente quase sempre quer dizer. Porque a gente não tem cara de babaca —ou tem?

Verdade que, quando está escrevendo, a gente costuma se policiar. Ninguém quer perder ponto na prova, caramba. Às vezes escapa um "a gente" escrito, mas não era pra escapar. A gente sabe que no fundo está errado, que isso de "a gente" é um troço informal, tipo uma gíria, que não cabe na norma culta, certo?

Errado. Ou melhor, a carga de informalidade de "a gente" é obviamente maior que a de "nós". O que não faz sentido é tentar expulsar da norma culta tudo o que é informal, como se só coubesse nela o livresco, o empertigado, o que fica distante da fala e se mete arranhando por ouvidos e almas.

Isso revela imensa ignorância sobre o que é uma língua e em especial sobre o português brasileiro, dono de uma história que merece respeito. Abaixo, uma seleção de usos cultíssimos de "a gente" com o sentido de "nós" colhidos em textos clássicos de nossa literatura (século 19, oi!):

"Mas há ideias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam."

"Dinheiro, mesmo quando não é da gente, faz gosto ver."

"Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos..."

"A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro."

"A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringrir deslavadamente."

"A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica, e verdadeiramente não as esquece nunca."

"– O mar está de desafiar a gente – disse-me a voz de Escobar, ao pé de mim."

A esta altura muita gente terá identificado o autor desses trechos; talvez já o tivesse feito antes mesmo de topar com o bandeiroso Escobar. Trata-se de Machado de Assis.

As três primeiras frases são, respectivamente, dos contos "Uns braços" e "Anedota pecuniária" e do romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas"; as quatro últimas, de "Dom Casmurro".

Acho que, com a ajuda do maior escritor nascido neste paisão falante de português, a gente já pode declarar burra e antipatriótica a perseguição movida pelos patrulheiros contra "a gente".


Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

domingo, 14 de novembro de 2021

Portugueses se preocupam com YouTube, não com o sotaque do Brasil


Calma, creio que não há motivo para alarme. Ou talvez deva falar no plural: alarmes. O primeiro alarme soou em Portugal. Várias crianças começaram a falar português do Brasil, por causa da exposição continuada a vídeos de um youtuber brasileiro, durante a pandemia, e os pais afligiram-se.

Os filhos dizem grama em vez de relva, geladeira em vez de frigorífico e usam a conjugação perifrástica com o verbo no gerúndio (estou vendo) e não no infinitivo (estou a ver).

Se o problema é as crianças falarem outra variante do português, então não há problema: aprenderam gramática e vocabulário, ficaram a saber mais sobre a sua língua e abriram a sensibilidade ao português brasileiro —uma sensibilidade que os brasileiros nem sempre têm em relação ao português europeu, tanto que até quando pretendem caricaturá-lo recorrem a uma expressão que, em 47 anos de vida, nunca ouvi um português usar: ora pois.

O segundo alarme soou no Brasil. O caso seria mais uma prova de altivez linguística e de discriminação antibrasileira em Portugal. Ora, quando se apoquentam por seus filhos dedicarem demasiada atenção a um youtuber brasileiro, os pais portugueses não estão preocupados por ele ser brasileiro, estão preocupados por ele ser youtuber. Se os garotos tivessem começado a falar com sotaque por demasiada exposição a palestras sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade, creio que os pais não se inquietariam.

Por outro lado, se as crianças tivessem passado a falar com sotaque de São Miguel, por terem visto demasiados vídeos de youtubers açorianos, julgo que os pais se inquietariam de novo —até porque teriam dificuldade em entender os filhos. As diferenças entre a variante portuguesa e brasileira, que são enriquecedoras, costumam ser vistas como um incômodo. Em ocasiões como esta, há sempre quem defenda que mais vale admitir que são duas línguas diferentes. Seria ótimo para mim. Posso, de um dia para o outro, enriquecer o meu currículo dizendo que falo outro idioma. Serei poliglota instantâneo sem estudar nada, que é o meu modo favorito de obter qualificações.

O meu livro de português do sexto ano tinha aquele poema da Cecília Meireles: "Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta."

Se o português do Brasil é outra língua, eu descubro agora, como o Monsieur Jourdain, que a falo desde criança. 


Texto de Ricardo Araújo Pereira, na Folha de São Paulo 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

'Miúdos' que falam 'brasileiro' em Portugal


reportagem publicada nesta quarta (10) no Diário de Notícias de Lisboa acrescenta uma página de comédia –agridoce, mas engraçada– ao novelão dos encontros e desencontros entre as variedades de português faladas aqui e em Portugal.

"Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro’", anuncia o título com alarme. O subtítulo explica: "Dizem grama em vez de relva, autocarro é ônibus, rebuçado é bala, riscas são listras e leite está na geladeira em vez de no frigorífico".

O curioso fenômeno que faz os miúdos soarem como pequenos brasileiros tem explicação mais simples do que aquele abordado pelo escritor português Valter Hugo Mãe no romance "A Máquina de Fazer Espanhóis". Afinal, a língua no presente caso é a mesma –ou não?

A reportagem resume assim o problema do deslocamento linguístico: "Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento –à conta de muitas horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros".

Sim, a raiz do fenômeno está naquilo que "a maioria das crianças portuguesas vê nos ecrãs de tablet, computador ou telemóvel". Luccas Neto, 36 milhões de seguidores, é citado como o principal desencaminhador linguístico de tuguinhas.

Como António, 4 anos, que "começou a dar sinais há já algum tempo. Ao princípio, a família até achava alguma piada à forma como ele falava (...). Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se e foi dando sinais, porque o menino não conseguia dizer os r’s nem os l’s".

Claro que há muito alarmismo e superficialidade nessa abordagem –como é habitual quando o jornalismo, espelhando o senso comum, trata de temas linguísticos–, para não falar do antibrasileirismo que parece andar em alta na cultura portuguesa. De todo modo, recomenda-se pôr a questão em perspectiva.

Será que pais brasileiros deixariam de se preocupar se, num hipotético –e impensável– caso reverso de imperialismo cultural via Youtube, seus herdeiros em idade pré-escolar começassem a engolir vogais e a chamar a camisa do Flamengo ou do Corinthians de camisola?

Não acho justo acusar a reportagem do DN de xenofobia, embora ela exale sem dúvida um nacionalismo rançoso. O texto até busca algum equilíbrio por trás do ar assustado.

Seu maior mérito nesse sentido é dar voz à linguista Catarina Menezes, que relativiza o problema. "Quando eu era menina havia o mesmo pânico social com os livros do tio Patinhas, que era traduzido em português do Brasil", lembra.

A professora propõe ver no caso uma oportunidade de ampliar a consciência das novas gerações sobre a linguagem, debatendo as diferenças com naturalidade em sala de aula, "porque aí também existe uma interculturalidade que não existia".

Bingo. Como a que há na Inglaterra diante da influência avassaladora do inglês americano. Português europeu e português brasileiro são duas vertentes da mesma língua –uma falada por 10 milhões de pessoas, a outra por uma multidão mais de 20 (vinte!) vezes maior. Um amigo meu diz, com alguma maldade, que "sem o Brasil o português seria uma espécie de búlgaro".

Estamos diante de um fato que não se pode abafar, com sua história complexa –o imperialismo sempre inclui a volta do cipó de aroeira– e suas oportunidades de inseminação cultural. Aos interessados no tema, recomendo a leitura do texto integral do DN, que está aberto a não assinantes.


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Que país é esse no espelho?


​Quando me despedi aqui da lusofonia, semana passada, provoquei uma resposta simpática do historiador, escritor e político português Rui Tavares em sua coluna no jornal Público.

Rui achou que eu estivesse encenando “uma daquelas despedidas lusófonas, de quem sai do bar à espera que os amigos lhe digam ‘não vá, fica aqui com a gente, bebe mais uma’”.

Beber mais uma, bebo com prazer, mesmo porque nenhuma visão autonomista do português brasileiro pode apagar o fato de que ele sempre será... português, pois é.

Se nesse sentido a lusofonia é inescapável, como mito de unidade cultural e bloco geopolítico ela anda bem estropiada, e suspeito que tenha contribuído para agravar um grave problema brasileiro.

O transtorno dismórfico corporal leva pessoas bonitas a se verem como um compêndio de defeitos, com riscos potencialmente sérios à sua saúde. O Brasil sofre de transtorno dismórfico linguístico.

Somos um país que se olha no espelho da língua e odeia o que vê. Não é por outra razão que vive tentando fazer harmonização facial com injeções de anglicismo.

As raízes profundas do problema se alojam em nossa condição original de colônia portuguesa, quando éramos falantes de segunda linha de um idioma imposto de fora.

Imposto, além do mais, com um desprezo pela educação que se destaca na história colonial. Nosso primeiro censo, de 1872, flagrou uma população de dez milhões —dos quais 85% eram analfabetos.

Só em fins daquele século o português se imporia como majoritário entre nós, superando a língua geral brasileira. Hoje mal falamos dessa língua, mas como a falávamos!

Derivada do tupi antigo e com variantes dividas em dois grupos, um no norte e um no sul, foi nossa mãe pela maior parte da história. Está praticamente morta —sua variedade amazônica, o nheengatu, sobrevive à míngua em São Gabriel da Cachoeira (AM).

Vitorioso, o português guarda cicatrizes do tempo em que era só a língua do poder. Quando se dá à margem do ensino, o espalhamento de um idioma por uma população que não o tem como nativo é chamado pelos linguistas de “transmissão irregular”.

Em casos extremos isso leva à crioulização, à criação de uma nova língua, como em Cabo Verde. Em casos moderados, a língua permanece a mesma mas se fende em duas modalidades, a escolar e a popular, que se olham sobre um abismo. É o caso do Brasil.

Alvo de preconceito e marca de exclusão social, o português popular brasileiro nunca se aproximou de uma posição de prestígio institucional. É do jogo.

Contudo, teve tempo de sobra e condições sociais propícias para penetrar em nossa alma pelas frestas, quando o vigia estava distraído.

Hoje a norma culta —sobretudo a oral— dos brasileiros com alto índice de escolaridade é dramaticamente diferente da norma-padrão de nossas gramáticas escolares, retrato congelado e às vezes até cômico da língua que se ensinava em Portugal no século 19.

Como se vê, nosso problema está no espelho. Se a maioria dos portugueses concordaria com a afirmativa de que os brasileiros falam e escrevem “errado”, multidões de brasileiros também pensam assim. A imprensa vive cheia de seus suspiros lamentosos.

Não sabem que língua é aquilo que a gente fala, e que dicionários e gramáticas vêm depois. Eis nosso transtorno dismórfico linguístico e a importância crucial de uma visão autonomista do português brasileiro. Questão de saúde pública. Mas primeiro, claro, a gente tira o Bolsonaro.


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

terça-feira, 18 de maio de 2021

A alma portuguesa de Rubem Braga


Em recente coluna, lembrei a lição de Rubem Braga contra a discriminação dos portugueses à maneira de falar dos brasileiros. Alguns leitores ficaram com a impressão de que o Braga era antilusitano. E ainda por cima preconceituoso, ao dizer que Portugal, com o tempo, adotou a prosódia dos camponeses e dos pescadores. Nada mais falso.

Se pudesse, ele passaria o tempo na roça, cultivando pés de milho, ou, com seu vasto conhecimento de ventos e correntes, pescando em alto-mar. Rubem devia seu sobrenome à cidade de Braga, uma das mais antigas de Portugal. Sabia de cor os sonetos de Camões e fez uma adaptação em prosa de "Os Lusíadas". Considerava um decassílabo camoniano —"A grande dor das coisas que passaram"— o mais belo verso da língua portuguesa, porque construído com as palavras mais simples. O poeta caolho foi o mestre de estilo do Sabiá da Crônica.

Também aprendeu com Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Tinha predileção pelos romances históricos de Alexandre Herculano. Gostava de ler manuais de mecânica, agricultura e jardinagem e, com o mesmo prazer, os sermões do padre Antônio Vieira, as narrativas marítimas de Diogo do Couto, os tratados de Francisco Manuel de Melo, autor da "Carta de Guia de Casados", autoajuda do século 17 sobre a vida conjugal. O curioso é que, na entrada da sua cobertura em Ipanema, pendurou um azulejo com a frase "Aqui mora um solteiro feliz".

Na cabeceira da cama ficavam o "Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro", de Mauro de Salles Villar, e o "Rifoneiro Português", de Pedro Chaves. Neste, colheu antigos provérbios que passou a citar em textos e conversas com amigos, tendo motivo ou não: "Alegrai-vos, tripas, que aí vai vinho", "Bravo, seu Zé Nabo", "É na cara dos pobres que os barbeiros aprendem".

Um deles se ajusta a nossos tempos sombrios: "El-Rei não manda chover, manda marchar".


Texto de Alvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Lusofonia, adeus!



Olá, meu nome é Sérgio e eu já acreditei no mito da lusofonia. Embaraçoso, eu sei. Defendia o acordo ortográfico e tudo. Essas coisas costumam ter raízes fundas na história da gente.

Lembro que lia Fernando Pessoa e sentia que o sujeito, além de frequentar o café A Brasileira no Chiado (onde ainda se encontra em forma de estátua), poderia ter tido um heterônimo brasileiro se quisesse.

Era tão grande minha identificação que, ao publicar em 2016 o livro “Viva a Língua Brasileira!”, usei o homem para me declarar contrário à ideia do português brasileiro como idioma autônomo –ideia amparada por um caminhão de argumentos linguísticos, à espera apenas de uma decisão política.

A defesa que o livro faz da língua falada aqui é cada dia mais atual, mas já não creio na miragem de uma comunidade internacional em que nossas diferenças fossem encaradas como riqueza e não como defeitos.

Eu via beleza naquilo. Pregava uma língua brasileira “sem submissão ao jeito lusitano, mas ao mesmo tempo sem esperneios de independência que pudessem transformar (que horror!) a poesia de Fernando Pessoa em terra estrangeira”.

Transformar a poesia de Fernando Pessoa em terra estrangeira me parece inevitável hoje. Se o “acordo” ortográfico serviu para algo, foi para deixar isso claro.

Já implantado no Brasil de cabo a rabo, seria ridículo que o revogássemos, além de um desperdício de dinheiro. Mas convém tratar como reforma brasileira o que não passou de desacordo, gasolina na fogueira do antibrasileirismo em Portugal –onde a nova ortografia foi rejeitada em peso pela sociedade– e motivo de confusão na África.

Com receio de estar reagindo com o fígado depois de ler na Folha sobre a discriminação sofrida por alunos brasileiros em escolas portuguesas, achei melhor consultar quem é mais sábio do que eu –no caso, dois dos principais linguistas do país.

Carlos Alberto Faraco trabalhou para fazer o acordo funcionar, como coordenador da comissão brasileira do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP). “É uma comunidade ilusória, perdida em picuinhas”, reconhece hoje.

No livro “Português ou Brasileiro?” (Parábola), de 2001, Marcos Bagno faz uma denúncia bem fundamentada do entulho lusófilo que deixa a língua-padrão ensinada nas escolas brasileiras tragicamente distante da vida real.

“Eu defendo a autonomia do português brasileiro com argumentos de ordem fonética e morfossintática”, declara, dizendo-se “muito triste mesmo” com os relatos de preconceito em Portugal.

Está claro que o português não deseja se tornar uma língua sem centro, com 270 milhões de falantes e algumas variedades nacionais. Chega de perder tempo.

Mesmo porque temos pela frente um trabalho gigantesco de pesquisa, sistematização, faxina e reforma do ensino, se quisermos tornar a língua falada no Brasil –português brasileiro ou brasileiro só– um espelho menos distorcido para 210 milhões de falantes.

Nossa esquizofrenia linguística leva o sentimento antibrasileiro que está em alta em Portugal a dar as caras também por aqui o tempo todo, até em artigos de gente que, tida como esclarecida, não se envergonha de suspirar por um passado linguístico mítico –lusófilo, claro– e lamentar nossa “decadência”.

Trata-se de uma doença cultural antiga que a miragem da lusofonia, por vias tortas, só fez agravar. Mas agora estou curado. Viva a língua brasileira!


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

terça-feira, 11 de maio de 2021

A língua falada no Brasil

 

"Você infelizmente ainda fala esse português inapropriado, esse português brasileiro. Você precisa aprender a falar direito". Foi o que ouviu em Lisboa uma estudante brasileira de sua professora portuguesa, revela uma reportagem de Giuliana Miranda na Folha.

Trata-se de conflito antigo, quase institucionalizado, envolvendo os dois países. Rubem Braga —de acordo com o testemunho de Rachel de Queiroz numa crônica— soube como ninguém enfrentar e refutar esse preconceito linguístico. Braga estava sentado num café em Paris, tentando seduzir uma bela moça de origem lusa, quando falou um brasileirismo e foi corrigido: "Em Portugal não dizemos assim".

Os encantos da rapariga evaporaram. Braga fechou a cara para desfiar sua teoria. Citou a Escola de Sagres, a Era dos Descobrimentos, Vasco da Gama e a armada de Cabral, "que veio inventar o Brasil". Na visão dele, enquanto a colônia cresceu, Portugal se esvaziou, perdendo a fina flor da fidalguia e do clero. No rasto do ouro de Minas, para cá vieram os que melhor escreviam, os que melhor falavam —"a própria inteligência". A pá de cal foi a invasão napoleônica, a mudança total da corte, trazendo a biblioteca real, que nunca mais voltou.

Nessa altura da história, tiveram de inventar a palavra "soidade", segundo Rubem Braga, porque Portugal havia perdido a língua, a original, a dos clássicos, a de Luís de Camões: "O país ficou falando até hoje um dialeto de camponeses e pescadores".

"Quer uma prova?", perguntava o cronista, franzindo as sobrancelhas e fremindo o bigode. "Recite 'Os Lusíadas' ao ritmo do atual falar português. Não dá! Fica tudo de pé quebrado! Camões metrificou o poema no ritmo do falar de então, que veio a ser o nosso!".

Comedora de vogais e de sílabas, a professora portuguesa hoje manda a estudante brasileira pôr um lápis na boca para treinar a fala porque acredita que a dicção dela é ruim.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 6 de maio de 2021

O cagaço e o cagaço do general

 

“Pazuello faltará a CPI por testar positivo para cagaço”, proclamou o Sensacionalista. Vi muita graça nisso, uma reação que, infelizmente, vem se tornando cada vez mais rara neste tempo lúgubre que o país atravessa.

Parte do humor está, claro, no contraste entre um general encagaçado e as ideias antigas de bravura associadas aos militares —já estropiadas a esta altura, é verdade, por tantas demonstrações de servilismo de altos oficiais a um capitão tresloucado que um dia o Exército excretou.

O maior mérito cômico da frase é da palavra cagaço, uma escolha vocabular feliz. Se Pazuello tivesse testado positivo para medo ou covardia, sinônimos de salão, a piada perderia a maior parte do efeito.

Cagaço é um tabuísmo ou palavrão —dos mais domesticados, próximo da linguagem infantil— de boas credenciais vernaculares. Sua certidão de nascimento foi lavrada em 1873 num cartório luso, o “Grande Diccionario Portuguez” de Domingos Vieira, e sua família tem raízes que se perdem na bruma dos tempos.

Cagar, verbo que dispensa definição, é algo que se faz em português desde o século 13, mas começamos tarde. Em latim, “cacare” era ato corriqueiro, mais cotidiano que o dia-sim-dia-não proposto por outro que parece encagaçado diante da CPI.

Como tantos fatos da vida, aquilo era algo que os romanos tinham aprendido com os gregos. A caca dos filhos de Zeus se chamava “kakke”, no que pouco se afastava da raiz indo-europeia “kakka-” —e aí chegamos à pré-história da matéria, ao tolete em estado fóssil.

O indo-europeu (ou protoindo-europeu) é uma língua imemorial que os linguistas do século 19 criaram de trás para a frente, isto é, construíram como hipótese a partir de semelhanças de difícil explicação entre línguas dispersas pelo mundo —no caso, do irlandês “caccaim” ao armênio “k’akor”.

Faz sentido que essa conversa mergulhe num sopão pré-histórico. Comer e descomer, além de se reproduzir, são os atos mais básicos não apenas dos humanos, mas de todos os organismos vivos. O resultado, batendo no ventilador da história, só podia ir longe.

Se a associação entre a evacuação intestinal e o medo, o pavor, reside numa evidente parelha (fisio)lógica de efeito e causa, a sonoridade gozada da palavra —que muitos supõem ter origem numa onomatopeia, numa imitação de som natural— não deve ser subestimada.

Cagão, cagarolas e caguincha são alguns dos mais expressivos sinônimos de medroso entre as dúzias que o Houaiss lista, do maricas favorecido pelo presidente ao timorato dos eruditos, passando pelos populares frouxo e banana e pelos clássicos poltrão e mofino.

Nem preciso dizer que a longa história da caca e seus bons serviços prestados à linguagem foram insuficientes para tornar essas palavras aceitáveis no discurso educado.

Por mais que uma frase como “ele gosta de cagar regras” seja corriqueira a ponto de dispensar sobrancelhas arqueadas na maioria dos ambientes sociais, recomenda-se enfaticamente não empregá-la numa redação do Enem ou numa entrevista com o arcebispo.

Refletindo sobre essas escatologias linguísticas, me ocorre uma curiosidade de rádio-relógio: que o pirilampo foi caga-lume em português por cerca de dois séculos, antes de tomar um banho de bons modos e virar vaga-lume.

Ao poético inseto luminoso eu acho que a mudança caiu bem. Mas não teria graça nenhuma se um dia a falta de brio e coragem ficasse conhecida como vagaço.


Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Linguisticamente (final)

 Na semana passada falei de como o olhar da linguística —e em especial da sociolinguística— é iluminador e iluminista num país tão desigual.

Falta entender por que sua mensagem, mais consistente que a da gramática normativa, é mal compreendida pelo público. Acredito que isso se deva a uma guerra cultural —ou seja, diálogo de surdos— semelhante à que sequestrou o debate político.

Em 20 anos como colunista de língua, recebi muitas mensagens de leitores “normativos” furiosos com minhas abordagens históricas: “Papo furado, só quero saber se é erro ou não!”

Igualmente coléricas foram as mensagens de leitores com formação sociolinguística sempre que eu recomendava modos de não perder ponto na prova: “Está provado que não existe erro, estude mais!”

Há alguns dias saiu no blog da Companhia das Letras um interessante artigo de Caetano Galindo, professor de linguística da Universidade Federal do Paraná e um dos maiores tradutores brasileiros.

Após dizer que sabe serem inevitáveis as mudanças linguísticas e tal, Galindo pede licença para “dar vazão ao lado ‘tio mal-humorado’” e faz uma lista cômica de usos contemporâneos que lhe arranham os ouvidos.

O clímax: “Mas pouca coisa me deixa mais de olho virado que ‘ser sobre’. Tipo ‘não é sobre masculinidade, é sobre empatia’”. Galindo tem minha solidariedade.

Não só na intolerância específica ao modismo do “ser sobre” —decalque mal aclimatado de uma construção do inglês que na língua brasileira seria algo como “ter a ver com”—, mas no espírito todo do seu artigo.

A capacidade de abordar temas complexos sob múltiplos pontos de vista anda em falta nas conversas em geral e nas que tratam da língua em particular.

A língua é um patrimônio coletivo do qual cada falante se apropria de modo profundamente pessoal. Há muitos discursos possíveis sobre ela, além do linguístico —o poético, o educacional, o afetivo, o lúdico etc.

Seria um debate produtivo aquele que permitisse a manifestação de vários pontos de vista, não para equalizá-los (há muita bobagem que deve ser refutada), mas para propiciar novas sínteses.

Supor que apenas um grupo tenha o que dizer sobre as palavras é como decretar o corpo humano propriedade exclusiva dos fisiologistas, mandando calarem a boca os coreógrafos, os desenhistas, os esportistas e os amantes.

A crítica de Galindo ao “ser sobre” não é linguística, é cultural. Vinda de um tradutor que recita de cor o “Finnegans Wake”, tem o valor extra de excluir a xenofobia.

Dirige-se a um país que tem dado mostras seguidas de baixa autoestima linguística, problema inseparável da educação capenga, da alfabetização precária e de pífios índices de leitura.

A língua culta da vida real —não confundir com a língua padrão dos normativos— é fundamental. Tratar um artefato cultural tão sofisticado apenas como imposição de classe e veículo de preconceito é ver metade do problema.

Em vez de interditar o debate sobre a língua que escrevemos, martelando o clichê “erro não existe”, que tal nacionalizá-la de verdade, espanar teias de aranha, entulhos lusófilos, cafonices juridiquentas, regrinhas arbitrárias?

As futuras gerações de brasileiros merecem um instrumento mais afinado e funcional —e menos dependente de estrangeirismos mal assimilados, menos entrópico e desleixado, mais bem escrito— com o qual pensar o mundo.


Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Palavras soltas, e um pássaro preso, na prosa de Luis Fernando Verissimo

Propuseram certa vez a Antonio Candido que escrevesse um manifesto para defender a livre repetição de palavras. Quem redige nessa maldita língua sabe: é considerado feio usar o mesmo vocábulo numa frase, ou mesmo em duas frases seguidas.

Para evitar a repetição de “palavra” e “escreve”, pois, se apelou para “vocábulo” e “redige” na frase acima —e, nesta aqui, se pôs “apelou” para evitar “escreveu”: pronto, se escreveu “escrever” quatro vezes na mesma frase, duas delas em seguida. Que horror.

Quando foi a Yale fazer pós-graduação, Roberto Schwarz teve de escrever ensaios em inglês. No primeiro deles, recorreu a um dicionário e salpicou seu texto com sinônimos. Seguidor da norma culta, queria evitar a perniciosa repetição de palavras.

Ao lhe devolver o ensaio, o professor lhe disse que estava ótimo. Mas acrescentou: “Vejo que o senhor usa ‘elegant variations’, que aqui abandonamos no século 17”. Pois é. Também na França jornalistas e escritores repetem palavras adoidado.

Vide Chateaubriand. Não o do filé, o outro. Lá, a de um texto, sua beleza, não está em evitar a reprise de palavras. Aqui, não. Ter um vocabulário vasto é marca de distinção: “que texto!”, se exclama a propósito de qualquer bobagem rebuscada.

Na imprensa, a situação vem melhorando. Ninguém usa “edil” para evitar a repetição de “vereador”, como era de praxe há poucas décadas; ou “petiz” no lugar de “criança”. Mas nas crônicas culinárias há quem insista em escrever “redonda” em vez da insubstituível —e simplória— “pizza”.

Ao ouvir a proposta do manifesto antirrepetitivo, Antonio Candido sorriu: “Ah, a sinonímia opulenta!”. Pensava, talvez, em Ruy Barbosa, que, entre tantos danos feitos ao idioma, advogava a untuosidade lexical, delirava em ver triunfar as nulidades. E tome “Oração aos Moços” e bacharelices quetais, todas pesadamente pré-modernas.

A Águia de Haia —note-se que não se repetiu o nome do filólogo enfezado— empilhou 38 sinônimos (barregã, hetaira, michela, quenga, zambeira etc.) para não conspurcar seu textículo com “prostituta”—ainda que as messalinas, pelo jeito, não lhe saíssem da cabeça. Freud explica?

Polido, como era do seu feitio, Antonio Candido agradeceu, mas não quis fazer o contramanifesto, apesar de simpático à ideia. Argumentou que não era escritor, não tinha autoridade para tanto. E sugeriu um nome para escrevê-lo: Luis Fernando Verissimo.

Peraí, Veríssimo? É um bom escritor, é claro, mas de um gênero menor, a crônica, que ele desovava e desova com abundância algo mecânica nos jornais. É mais um profissa da escrita que um artista raro,
bafejado por musas sublimes.

Para não variar, Antonio Cândido tinha razão. O texto ágil e a popularidade de Verissimo eram, são, suficientes para se insurgir contra variações elegantes e sinonímia opulenta. Quanto a ser cronista, Alencar, Machado, Bilac, Drummond e Mário de Andrade também o foram.

O tal manifesto não saiu. Ele faria boa figura no recém-lançado “Verissimo Antológico – Meio século de Crônicas, ou Coisa Parecida” (Objetiva, 709 págs.). A ênfase deve ser posta em “qualquer coisa”: a editora Daniela Duarte excluiu as crônicas que comentavam as notícias do dia. Seria preciso, afirma ela, “explicar a piada” em notas de rodapé.

Para Manuel Bandeira, esse embaraço é próprio da crônica. O poeta disse que, num livro, a crônica é um pássaro morto. Seu lugar é o céu da imprensa, onde voa livre e, vista de relance, maravilha por um instante e logo é esquecida. Num livro, apodrece, cheira mal.

“Verissimo Antológico”, então, reproduz um sem-número de relatos ficcionais. São passeiozinhos meio borgianos, todos sem gravidade, descompromissados, agradáveis e inócuos. Neles sobressai a graça da crônica, ainda que ele não escreva propriamente sobre o dia a dia.

Há no livro, porém, um pássaro vivíssimo, o artigo “Bird”, apelido de Charlie Parker, o músico de jazz. Ele não era uma ave livre, e sim um “yard bird”, um pássaro de quintal —gíria para os frequentadores de prisões. Viciado, Parker passou parte da vida preso em cadeias e hospitais.

Verissimo, que também é músico de jazz, pega o leitor pela mão e explica tintim por tintim a arte de Charlie Parker. Claramente, ela o emociona, lhe diz coisas que estão muito além das banalidades do cotidiano.

Suas explicações são técnicas e abrangentes, chegando a compará-lo a Bach, Flaubert e William Blake. O artigo é prodigioso. E não repete uma única palavra.


Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

'Me corrige', pede o pronome

Me parece cada vez mais claro que o pronome átono em início de frase, como o que acabo de cometer, será o último dos últimos tabus normativos a ser quebrado pelo inexorável abrasileiramento da língua que se entende e se pratica como nossa norma culta.
É claro que me refiro à língua escrita. Sabe-se que, falando, a maior parte dos brasileiros iniciaria assim esta frase: "Se sabe que...". Isso inclui pessoas de alta escolaridade e não exclui situações em que a comunicação prevê certa cerimônia.
Já nos anos 1920, no poema "Pronominais", Oswald de Andrade brincava com esse descompasso: "Dê-me um cigarro/ Diz a gramática/ Do professor e do aluno/ E do mulato sabido./ Mas o bom negro e o bom branco/ Da Nação Brasileira/ Dizem todos os dias/ Deixa disso camarada/ Me dá um cigarro".
O poeminha de Oswald é a mais famosa defesa literária do pronome átono como abre-alas, mas não a única. Desde o modernismo, que tinha entre suas bandeiras aproximar a língua dos livros da que se falava nas ruas, muitos escritores fazem questão de contrariar os sábios nesse quesito.
Ao incorrer em suposto crime de lesa-gramática, têm como móvel a busca da coloquialidade e como defesa a liberdade autoral. No entanto, o que passa como natural em romances, crônicas leves e depoimentos desencanados na internet não é admitido de modo algum em textos mais formais. Cem anos depois, o tal crime insiste em não prescrever.
(Saiba, caro leitor, que a abertura desta coluna —um pronome átono inaugurando não apenas a frase, mas o texto inteiro!— só pôde chegar até você porque o colunista brigou por ela, jogando na mesa a grave carta da metalinguagem. A regra de qualquer jornal digno desse nome é tratar o pronome átono em início de período como erro clamoroso, e ponto final.)
No livro "Oficina de Texto" (Vozes), um guia de redação sensatamente equilibrado entre tradição e modernidade, o linguista Carlos Alberto Faraco e o romancista Cristovão Tezza, colunista da Folha, escrevem o seguinte: "Resta praticamente uma única regra universal na colocação de pronomes da língua-padrão escrita: jamais comece uma sentença com pronome átono".
Logo em seguida reconhecem que talvez esse não seja bem o único mandamento restante. Para poupar dor de cabeça com revisores e corretores de provas, dizem, vale a pena seguir também a regra "bastante duvidosa" das tais palavras atrativas, como "que", "quando" e "não", que sempre puxariam o pronome átono para junto de si: "Não se sabe", "Quando me dei conta..." etc. 
No mais, Faraco e Tezza dão ao leitor a bússola de colocação pronominal que julgo definitiva: "Prefira a forma que soar melhor". Se você é brasileiro e não se chama Michel Temer, isso exclui quase certamente a mesóclise (insiste e corrigir-te-ei), além de limitar a lusitana ênclise, isto é, o pronome átono que vem depois do verbo: "Dê-me isso". Nossa inclinação é naturalmente proclítica.
O gramático Manuel Said Ali (1861-1953) foi um pioneiro defensor da colocação de pronomes à moda da casa, contra o lusocentrismodominante em sua época e ainda hoje presente na gramática normativa.
Argumentava que "a pronúncia brasileira diversifica da lusitana; daí resulta que a colocação pronominal em nosso falar espontâneo não coincide perfeitamente com a do falar dos portugueses".
Tudo isso é lindo, mas convém ter sempre em mente o último tabu. Me faça o favor de contrariar sua fala e escrever "Faça-me o favor", a menos que queira marcar uma posição. Se prepare, nesse caso, para as consequências.

Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A língua que nos separa

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana. 
Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.
Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente...
Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.
Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.
Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.
Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.
“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.
O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”. 
Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Com 310 mil palavras de cinco países, VOC é um monumento da lusofonia

Depois de uma coluna cética sobre a promessa de futuro lusofônico corporificada no Acordo Ortográfico de 1990, semana passada, aqui vai uma com o sinal oposto. Não que eu seja ciclotímico: a realidade é que é.
Na última sexta-feira (12), na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, foi apresentada a primeira versão realmente abrangente do VOC (Vocabulário Ortográfico Comum) da língua portuguesa, com cerca de 310 mil palavras de cinco países submetidas a critérios lexicográficos unificados: Brasil, Portugal, Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste.
A falta de perspectiva histórica que, por definição, caracteriza o noticiário convencional e o burburinho das redes sociais pode explicar a repercussão pífia de um fato cultural tão relevante.
A cargo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que tem representantes dos principais membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o VOC é uma obra em andamento há alguns anos –e ainda aberta.
O vocabulário nacional de São Tomé e Príncipe está pronto, mas depende da aprovação das autoridades locais para se somar à base comum. O de Angola deve estar disponível ano que vem e o da Guiné-Bissau mal começou a ser elaborado.
A Guiné Equatorial não conta como desfalque. O país aderiu à CPLP em 2014, depois de instituir por decreto o português como idioma oficial (ao lado de espanhol e francês), mas não fala nossa língua. Sua lusofonia é uma aspiração.
Disponível no endereço voc.cplp.org, o VOC é um instrumento de trabalho e um parque de diversões para amantes do português. Clicando na bandeira de cada país, direcionamos a busca ao seu vocabulário nacional. O símbolo do instituto leva à base comum.
E como fica o Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) da ABL (Academia Brasileira de Letras), o primeiro a consolidar um repertório de palavras em conformidade com o Acordo de 1990?
Revisado, o Volp está incorporado ao Vocabulário Ortográfico Comum e ganhou com isso. Submetido aos critérios rigorosos de um corpo técnico que a ABL não tem, foi purgado de deslizes embaraçosos.
Entre estes está o vocábulo "elefoa", absurdo feminino de "elefante" que nenhum lexicógrafo reconhece e que, além do território dos erros infantis, só existia no Volp.
Outro exemplo de bobagem –esta mais grave, por ter arrastado nossos principais dicionários– é a interpretação de certas palavras compostas como locuções, o que lhes subtrairia os hifens.
Com uma leitura idiossincrática do texto do Acordo, o Volp criou pesadelos em frases como "Maria vai com as outras porque é maria vai com as outras". Aleluia: o Vocabulário Ortográfico Comum devolve os hifens a "maria-vai-com-as-outras", "bumba-meu-boi", "deus-nos-acuda" etc.
Um dos representantes brasileiros no Instituto Internacional da Língua Portuguesa, o linguista Carlos Alberto Faraco divide em duas partes a relevância do trabalho: a união das bases brasileira e portuguesa e a constituição de vocabulários nacionais que não existiam –de Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste.
"Esse vasto acervo poderá servir de base para a escrita de um novo dicionário geral da língua, o que será um passo fundamental", comemora. "Aos poucos vai se consolidando o conceito de língua pluricêntrica para o português."


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O falante decide: de 'judiar' a 'denegrir', PC acerta tanto quanto erra

No livro "Meu Menino Vadio" (ed. Intrínseca), relato seco e corajoso de sua experiência como pai de um menino autista, o jornalista carioca Luiz Fernando Vianna condena o emprego depreciativo que a palavra "autista" ganhou na política brasileira.
"Tornou-se comum políticos –inclusive um ex-presidente da República– chamarem seus opositores de 'autistas', acusando-os de estarem dissociados da realidade", anota. "Também já fizeram isso intelectuais, artistas, jornalistas, uma presidente do Supremo Tribunal Federal."
O problema com isso? "Em primeiro lugar, é um uso mentiroso. Em segundo lugar, significa estigmatizar uma parte da população que precisa ser incorporada à vida social, e não rotulada como incapaz de fazê-lo", argumenta Vianna. "Se hoje evitamos adjetivos como 'retardado' e 'mongoloide', devemos poupar de agressão semelhante as pessoas com autismo."
Se o tal uso não é propriamente mentiroso, mas metafórico, o segundo argumento me convence no ato. Vasculho a memória para descobrir se eu mesmo usei algum dia a palavra "autista" com esse sentido. Talvez sim, não me lembro bem. O que garanto é que não o farei de novo.
Trata-se, como se vê, de uma daquelas controvérsias que costumamos agrupar sob um amplo guarda-chuva no qual, em letras garrafais, está escrito "PC –politicamente correto".
Amplo demais, o guarda-chuva presta um desserviço ao debate. Abriga preocupações muito diversas e sugere que, diante delas, temos dois caminhos: aceitar ou repudiar todas. Em bloco. Não é uma dicotomia inteligente.
Rejeitar como "coitadismo" a totalidade dos argumentos PC é menosprezar o papel da língua, reflexo da sociedade, na perpetuação de vilezas. Nenhum uso está acima da crítica.
Aceitar de saída todos esses argumentos é ignorar que a língua, arena política onde o pau quebra, pertence à sociedade que a fala e não a um ou outro grupo. Toda crítica está sujeita à crítica.
Enquanto a coletividade não chega a uma conclusão (debates eternos não estão descartados), a decisão cabe ao indivíduo. Senhor da sua fala, ele não precisa esperar o veredito da sociedade para fazer sua escolha política e moral.
Examino o verbo "judiar" (maltratar). Tem óbvio ranço antissemita, embora haja dúvida sobre seu sentido original: referência aos maus-tratos que os judeus infligiram a Jesus ou aos que eles sofrem desde então? De uma forma ou de outra, decido cortá-lo do meu vocabulário.
Agora examino "denegrir". Racista? Procuro algo que sustente a tese. O que se suja fica escuro, encardido, fuliginoso, e o resto parece coincidência cromática. Nem todo charuto é um símbolo fálico, como provam o elefante branco e a febre amarela. No meu tribunal íntimo, absolvo a palavra.
Somos convocados a tomar decisões desse tipo o tempo todo. O que é ótimo.
O PC comete abusos e se expõe ao descrédito quando, por exemplo, insiste em eufemismos ridiculamente rebuscados para palavras funcionais ou tenta censurar dicionários, como se estes inventassem o vocabulário que apenas retratam.
No entanto, a reflexão permanente que ele propõe tem o mérito de nos deixar ligados. Os problemas sociais não serão resolvidos na língua e pela língua, mas negar que ela esteja incluída no pacote é desconhecer sua natureza.


Texto de Sergio Rodrigues, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 24 de março de 2017

Temer é cafona em Lisboa: abismo na lusofonia é menor do que parece

Por ter lançado um livro chamado "Viva a Língua Brasileira!" (Companhia das Letras), às vezes sou confundido –tanto aqui quanto em Portugal– com um autonomista, alguém que prega a total independência linguística do "brasileiro". Será que já temos um idioma próprio?
Há linguistas que defendem tal ideia, mas não acredito nela. Como o título do livro foi calculado para provocar, uma medida de confusão e perplexidade faz parte do jogo, mas declaro com solenidade que a ideia de ver Fernando Pessoa transformado em poeta de uma língua estrangeira é repulsiva para mim.
Que nosso jeito de falar e escrever merece mais respeito, merece. Abraçar com orgulho a "língua brasileira", entendida como nossa variedade do português, tem imenso valor num cenário em que a gramática normativa ainda tende a condenar em nome de um lusitanismo espectral traços há muito consolidados por aqui, inclusive entre falantes cultos.
Um exemplo: no Brasil, todo mundo chega "em casa", quem chega "a casa" é tuga. Lutar contra esse fato é cuspir no espelho como um Narciso às avessas, para usar o chavão rodriguiano. Pena que todo um sistema de ensino faça exatamente isso. Até o melhor dicionário da língua, o Houaiss, faz isso (a regência "chegar em" é registrada como brasileirismo informal no pé do verbete).
Tudo indica que a fenda gramatical entre o português brasileiro e o europeu está se alargando. No entanto, não é menos curioso observar que certos traços defendidos por linguistas como típicos da nossa variedade se fazem presentes do outro lado do Atlântico também.
Há indícios de que grande parte dos usos engessados que os gramáticos conservadores prescrevem aqui, e que chamamos de "lusitanismos", não são menos engessados em Portugal. A mesóclise de Michel Temer é cafona ("possidônia", à moda lusa) em Lisboa também.
Quem aponta essa e outras semelhanças é o escritor e acadêmico português Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdã, em ensaio publicado no livro "Gramáticas Brasileiras - Com a palavra, os leitores" (Parábola), que reúne apreciações críticas sobre diversas gramáticas lançadas no Brasil nos últimos anos.
Venâncio se debruça sobre a "Gramática Pedagógica do Português Brasileiro", de Marcos Bagno. Defensor da ideia de que já falamos "uma língua plena, e não uma 'modalidade' ou 'variedade' de uma língua chamada genericamente português", Bagno é o mais destacado dos autonomistas. Alguns dos argumentos com que sustenta essa ideia são desmontados pelo colega.
Sim, o Brasil mistura tratamentos na segunda e na terceira pessoa do singular: "Você esqueceu o que eu te disse?". Portugal adora misturar as mesmas pessoas, só que no plural: "Estão todos vós no meu coração".
Sim, a fala brasileira corta caminho eliminando preposições e reconfigurando a sintaxe em "a comida que eu gosto" e "aquele tipo de pessoa que você tem até medo dela". A fala portuguesa, garante Venâncio, não fica atrás.
Há outros casos em que as semelhanças são maiores do que se pensa. Se nenhum deles obscurece o fato de que existem diferenças entre nós, todos ampliam nossa consciência sobre a evolução de um idioma complexo. "Aliados mais que potenciais", como diz o intelectual português, não devem ser desprezados, quaisquer que sejam seus passaportes.


Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O livro do ano que você não leu

Lamentei não encontrar em nenhuma lista de livros do ano aquele que é, sem dúvida, um dos mais importantes lançamentos de 2016 no Brasil: "História Sociopolítica da Língua Portuguesa" (Parábola Editorial), de Carlos Alberto Faraco.
Professor aposentado da Universidade Federal do Paraná, da qual foi reitor, Faraco é um dos expoentes da sociolinguística brasileira. Isso quer dizer que se situa no campo oposto ao dos gramáticos normativos. Está interessado em compreender a língua pelo que ela é e não por aquilo que um comitê de sábios –quase todos portugueses– um dia decretou que deveria ser.
A sociolinguística é o saber dominante nas faculdades de letras há décadas, mas fora delas vive cercada de mal-entendidos. A incompreensão de sua mensagem –que é culturalmente vital e arejada, em oposição ao beletrismo lusófilo– é em parte um mal autoinfligido. Quando o rigor analítico dá lugar ao ativismo populista, abre-se a porta para a confusão.
Ao contrário do que grande parte da população imagina, a sociolinguística não hostiliza os falantes da norma culta nem defende o vale-tudo gramatical. O problema é que, tendo ouvido cantar um galo distante, seus militantes de rede social fazem exatamente isso.
O novo livro de Faraco é uma boa demonstração do que um olhar sociolinguístico rigoroso consegue elucidar sobre a língua. Entre ensaios acadêmicos e títulos didáticos e paradidáticos, o autor tem uma obra vasta, mas nunca havia empreendido um esforço de tamanho fôlego.
Com 400 páginas, "História Sociopolítica da Língua Portuguesa" é um livro de grande concisão. Tanto pelo que abrange cronologicamente, desde a ocupação da Península Ibérica pelos romanos, quanto pela multiplicidade de pontos de vista que convoca e examina ao longo do caminho.
Não me consta que algum dia tenha sido sequer tentada uma consolidação tão abrangente de estudos históricos sobre nossa língua. Só a bibliografia ocupa 18 páginas em letra miúda.
Mitos de raízes profundas são arrancados sem dó. Um exemplo de cascata em que eu acreditava: a de que a língua geral dos bandeirantes, um idioma mestiço de base tupi, foi extinta pelo Marquês de Pombal com uma canetada. Observa Faraco que uma crença como essa trai a "excessiva confiança que a cultura de raiz ibérica costuma pôr em textos legais".
As razões para que o idioma do colonizador tenha se imposto de forma tão categórica sobre as línguas gerais brasileiras –que eram duas, a paulista e a amazônica– são bem mais complexas. Tão complexas que não cabem aqui. Que fique a lacuna como estímulo à leitura do livro.
Não se trata de uma história pop, cheia de peripécias e colorido humano, como as que os canadenses Jean-Benoît Nadeau e Julie Barlow lançaram recentemente sobre o francês e o espanhol. Mesmo relatando episódios em que um floreio narrativo cairia bem, Faraco é um acadêmico de sobriedade invencível.
A boa notícia é que o livro passa longe do jargão. Ninguém precisa ser linguista para acompanhar a história de um dos idiomas mais importantes do mundo desde o nascimento até os desafios que enfrenta hoje –entre eles, os baixos índices socioeconômicos dos países que o falam e o fato de Brasil e Portugal ainda lutarem para vencer resistências paroquiais e coordenar ações comuns.


Texto de Sergio Rodrigues na Folha de São Paulo.