quarta-feira, 29 de julho de 2026


Ganha velocidade no mundo, principalmente em países mais desenvolvidos, os debates e as legislações em torno do direito à morte digna. As âncoras que têm sustentado argumentos para a liberação da prática giram ao redor de sofrimentos humanos incompatíveis com uma existência digna, dores profundas que inviabilizam quaisquer prazeres conhecidos e a falta de qualidade de vida diante intempéries.

Não quero aqui, nem tenho essa pretensão, esbarrar em questões que dizem respeito à autonomia individual, adulta e consciente —ou registrada consciente, em algum momento, à família ou em mecanismos legais—, de se decidir sobre o próprio destino, de escolher o fim da própria jornada.

Meu interesse está menos na decisão final do que no caminho que levou até ela. Se o meio, os preconceitos, as não-aceitações, as faltas de oportunidade e até de cuidados médicos, científicos e sociais não impactariam em um desistir da vida ou mesmo de ser influenciado para a escolha da morte.

Alguns viventes, e conheço vários que podem servir de exemplo, com pouca caminhada de existência já são circundados por questionamentos sobre o potencial e o sentido de seu viver. A sentença de incompatibilidade para o desfrute terreno se projeta a partir de uma perspectiva vinda de experiências tidas como normais ou comuns a respeito de interações com o outro, de aspectos físicos, sensoriais e cognitivos e de funcionamentos fisiológicos.

À medida que esses indivíduos crescem, maiores serão os enfrentamentos de suas condições com o meio e com as pessoas. Vasculhe suas lembranças e procure se, em algum momento, não tenha dito internamente, ao se deparar com um indivíduo com uma deficiência grave, uma doença degenerativa ou síndrome rara: "eu jamais conseguiria viver sem andar (sem ouvir, dependente de outros, acamado, com perdas permanentes de movimentos ou com ganhos frequentes de novas dores, com essa aparência)".

É legítimo e defendo o direito de cada um decidir o melhor momento "de ir embora da festa". Mas não posso deixar de problematizar que alguns nunca foram convidados para a festa e não sabem sequer o gosto de docinhos e o sabor alegre de uma valsa.

Até que ponto a falta de condições próximas a um viver ideal nas diferenças, com acessibilidade e acessos, respeito, medicamento, humanidade e oportunidades, não seria a força necessária para empurrar o êmbolo com o elixir mortal para dentro de si?

A decisão é porque não há condições mínimas de seguir a trajetória ou por que a trajetória apresentou condições cuja morte passou a ser a opção? É a possibilidade de alívio diante de um tormento, uma falta de expectativas ou foram negligenciadas possibilidades que levaram ao tormento?

Deficiências e doenças terminais, deficiências e condições adquiridas com a idade precisam de diferenciação clara para que não se legitime questões físicas, sensoriais ou intelectuais como potenciais óbvios e abertos para o direito à morte em vez de receberem investimentos e apoio para vidas independentes.

Reforçando, a íntima decisão deve sempre prevalecer e ser respeitada, mas que estejamos atentos para que ela também seja livre, autônoma e realmente um aceno para o fim, não um recurso de desistência.


Reprodução de texto de Jairo Marques na Folha de São Paulo

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