domingo, 10 de setembro de 2023

Sinais exalados


Uma cena neobrasileira. À beira da piscina do condomínio, o pacato vizinho, membro da classe médica, comenta à boca pequena: "Vejam o que fizeram com o homem...é a máfia!" Todos se conhecem, mas o silêncio que se segue é constrangedor. Antes, aparentemente, concordariam, não mais. O "homem" é o ex-mandatário, a "máfia" abrange entidades republicanas como o Supremo Tribunal Federal, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal. No noticiário desfilam acusações gravíssimas, que a alma condominial, cognitivamente dissonante, suprime para metaforizar a República como Don Corleone.

Esse episódio corriqueiro, mas recorrente, é pretexto para observar a vida no seu acontecer específico e tentar trazer à luz aspectos originais do fenômeno da desorientação política, sem o automatismo das categorias normalmente usadas nas ciências históricas. A singularidade da vida pessoal comporta situações e manifestações irredutíveis às objetivações das estruturas sociais. Ignorância, ódio e interesses de classe são influentes fatores coletivos, porém é preciso voltar-se diretamente para a subjetividade enquanto vida histórica na recusa protofascista de enxergar a realidade.

Protofascismo não é exatamente nazifascismo instalado, e sim uma cesura social que penetra como estado de espírito no modo civilizatório. Na prática, uma síndrome análoga às afecções fronteiriças da personalidade que os psicanalistas conheceram como neurose de caráter e hoje se generaliza como "borderline". Um mal-estar ancorado em detalhes e pequenas causas. Sabe-se que, antes da Grande Guerra, os oficiais do exército inglês desprezavam Hitler, não porque fosse nazifascista, mas porque tinha sido cabo na vida militar e pintor de paredes na civil.

Raciocínio semelhante vale para o antilulismo figadal, aversão a um torneiro mecânico sem diploma superior. A confusão entre sindicalismo e revolucionarismo foi sempre má-fé interpretativa das elites. Igualmente, o argumento das pedaladas fiscais para o impeachment de Dilma, agora desmontado como razão de marmelo, foi fraseologia técnica para encobrir a urdidura parlamentar e a indignação senhorial pela PEC das Domésticas. Já o antipetismo entranhado na classe médica tem origem corporativista na vinda de profissionais cubanos.

Hoje como no passado, esquerdismo e comunismo são bichos-papões ideológicos de uma cidadania infantilizada. A subjetividade de largas frações de classes sociais orienta-se por preconceitos, firulas mesquinhas, não por fatores racionais. São sinais exalados de ruínas morais e ignorantismo chapado. Fanatismo não é, assim, insulto banal, mas justa caracterização da consciência protofascista. Não enxergar o real à frente, reduzindo o mundo a um clichê, é a sua lei suprema.


Texto de Muniz Sodré, na Folha de São Paulo. 

O enigma da esfinge baiana que nos devora


O Brasil descobriu, perplexo, a brutal política de segurança pública adotada pelos governos petistas baianos.

Os conservadores festejam a descoberta e retiram das costas o fardo da responsabilidade exclusiva com a necropolítica direcionada aos negros. Gargalham hasteando suas bandeiras punitivistas encharcadas de sangue e celebram seus companheiros de jornada genocida. Os progressistas enrubescem, ensaiam escapar da induvidosa cumplicidade e forjam explicações negacionistas ou excepcionalistas. Fracassam na tentativa de restaurar a mitologia de que seus governos expressam compromissos democráticos e de superação das iniquidades sociorraciais. 

O enfrentamento do enigma aponta para o perfil racial dos atingidos pela violência de Estado, bem como pela violência das facções criminosas que ocupam territórios desprezados pelo Estado. Também importa considerar a institucionalização da política de segurança pública como intervenção policial letal que se abate sobre comunidades negras marginalizadas, somada à incapacidade estatal de prover a proteção dessas comunidades diante das investidas violentas de grupos criminosos.

O modelo adotado amplifica o acesso e a utilização de armamento e normaliza a violência letal como critério de eficiência policial e criminal.

A Bahia negra governada há cinco gestões pelo Partido dos Trabalhadores expressa o funcionamento da segurança pública herdada do autoritarismo e aperfeiçoada pela transição democrática pós-ditadura civil-militar. Após desbancar o conservador carlismo, o PT baiano optou pela manutenção do modelo herdado e o aperfeiçoou nos seus piores vícios e perversões.

As escolhas políticas incluíram a preservação da genealogia e das práticas institucionais policiais; a adesão à falácia da guerra às drogas; a criação de novas unidades hiperespecializadas em confronto; a apologia ao populismo punitivista; a omissão diante das ilegalidades policiais denunciadas; o ataque aos movimentos defensores dos direitos humanos e do combate ao racismo; e a desqualificação das audiências de custódia, além da sabotagem à instalação das câmeras nos uniformes dos policiais.

Essas políticas materializaram a escalada da violência policial letal, capturada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que colocou a Bahia no pódio desse infame ranking. Em 2022, foram 1.464 pessoas mortas em intervenções policiais. Isto dá uma média de 122 mortos por mês, 28 por semana, 4 por dia, 1 a cada 6 horas. A pesquisa "Pele Alvo: a cor da violência policial", da Rede de Observatórios da Segurança, confirma o público destinatário: majoritariamente homens jovens e negros.

Enquanto não decifrarmos o enigma da esfinge baiana, seguiremos devorados pelo genocídio negro e pela permanente repactuação secular de privilégios entre os segmentos brancos, para além de cores ideológicas e siglas partidárias, unidos sob a bandeira manchada de sangue do "Brasil Tumbeiro".


Texto de Samuel Vida na Folha de São Paulo. Samuel Vida é Ogan de Xangô do Terreiro do Cobre e professor da Faculdade de Direito da UFBA (Universidade Federal da Bahia), é coordenador do Programa Direito e Relações Raciais.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Embaixada de Israel no Brasil declara que Israel não é estado de apartheid


"(...) a embaixada de Israel no Brasil diz, em nota, que o país não é um "Estado de 'apartheid', nem para seus cidadãos árabes, que estão inseridos em todos os campos da sociedade israelense, nem para os palestinos na Cisjordânia".

"No caso da Cisjordânia, por conta dos riscos para a segurança, precisamos agir para garantir a proteção dos cidadãos israelenses, o que em muitos casos afeta a vida dos palestinos que lá residem. O futuro da Cisjordânia é objeto de diálogo entre Israel e a Autoridade Palestina e sua posição legal é de 'território em disputa', a ser discutida bilateralmente", afirma ainda a nota."


Reprodução de parte da coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo. 

domingo, 3 de setembro de 2023

As PMs fazem o que querem


Autorizado pelo ministro Cristiano Zanin, do STF, o ex-comandante da Polícia Militar do Distrito Federal Fábio Augusto Vieira ficou em silêncio durante seu depoimento à CPI do 8 de Janeiro. Chefe da corporação na data dos ataques à praça dos Três Poderes, ele não conseguiu, contudo, esconder a cara de tacho.

Vieira —que está preso— é investigado pelos crimes de abolição violenta do Estado democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e por infringir a lei orgânica e o regimento interno da PM. A Polícia Federal aponta que a PMDF se omitiu em relação aos ataques. Em mensagens de zap, oficiais em postos de comando espalharam desinformação sobre o sistema eleitoral e incitaram as invasões. Um grupo de policiais se escondeu no banheiro em meio à depredação do STF. Eis uma vergonha digna de se contar aos netinhos.

As investigações vão dizer até que ponto o governador Ibaneis Rocha e o ex-secretário de Segurança Pública Anderson Torres tinham conhecimento dos planos de seus subordinados. A sensação é de que hoje as PMs agem —no Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e outros estados— com uma independência sem freios, um modelo próprio e brutal. A insubordinação não isenta de culpa os governadores. Estes quase sempre defendem e incentivam os policiais ou lhes passam a mão na cabeça.

O caso do Rio de Janeiro é exemplar. Um capitão da PM está sendo investigado por autorizar uma operação ilegal, com carro e drone particulares, na Cidade de Deus. O voluntarismo resultou na morte de um adolescente de 13 anos.

Um documento da Defensoria Pública do Rio indica que a PM vem tentando dificultar os registros das câmeras corporais, principalmente quando as ações acabam em mortes. As câmeras são desacopladas dos uniformes e as lentes, obstruídas. Imagens teriam sido manipuladas ou apagadas. Quem manda na polícia?


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo. 

sábado, 19 de agosto de 2023

Morte de Léa Garcia traz ao presente o Brasil exótico de 'Orfeu Negro'


Lata d'água na cabeça, lá vai Léa Garcia. É no alto de uma favela carioca que ela desabrocha em "Orfeu Negro". No papel da serelepe Serafina, equilibra a lata na cabeça, requebra e leva água a barracos esquálidos no topo do morro. Atabaques rufam e cuícas choram.

O filme não se enoja com a miséria. Ao contrário. Celebra a fibra, a alegria, a arte, os mitos e ritos do Brasil negro e pobre. Tudo isso está sintetizado na magnética atuação de Léa Garcia. Ela dá vida a uma
diva livre, a uma libertária e libertina que faz o que quer.

A atriz morreu na terça (15), horas antes de receber um prêmio especial no Festival de Gramado. Não pôde curtir a salva de palmas pelo seu aniversário de 90 anos, a festa por estar num batente iniciado em 1952, no Teatro Experimental do Negro.

Um justo tributo seria passar no cinema uma cópia restaurada de "Orfeu", como a que vi no Grand Action, em Paris. Não só para você se deleitar com Serafina —a moça da pá virada que atiça a mocinha Eurídice e afronta a megera Mira.

Seria bom vê-lo porque "Orfeu" reatualiza problemas nacionais irresolvidos. Como a formação inacabada e deformada; as contradições entre povo preto e elite branca; os mal-entendidos de centro e periferia; o lugar de cada um de nós, nativos, no mundo.

Orfeu vive há mais de 2.000 anos nas "Geórgicas", de Virgílio. Inventor da lira, o músico se apaixona por Eurídice, que morre, e ele vai buscá-la no inferno. Consegue soltá-la, mas não pode olhar para ela até que emerjam das trevas. Orfeu arrisca e, ó fado funesto, Eurídice morre.

Nos anos 1940, Vinicius de Moraes ciceroneou o escritor americano Waldo Frank numa viagem de 40 dias pelo Brasil. Foi com ele a terreiros, bordéis, rodas de samba, palafitas e mocambos. "Saí do Rio um homem de direita e voltei de esquerda", contou o poeta.

A frase de Waldo Frank numa favela ficou-lhe na mente: os negros parecem gregos. Foi ela que o levou a escrever "Orfeu da Conceição". Pediu que João Cabral de Melo Neto a lesse e o pernambucano lhe disse: "Os dois primeiro atos estão ótimos; o terceiro, péssimo".

"Orfeu da Conceição" é, de fato, desigual. Mas retém a guinada que deu gume à adaga de Vinicius: o apreço pela ralé, na forma da música popular e das crenças afro-brasileiras.

Por isso pediu a Tom Jobim que a musicasse. Realista, o garoto de Ipanema perguntou: "Tem um dinheirinho aí?". Léa Garcia integrou o elenco totalmente negro da primeira encenação, de 1956.
Os cenários eram de Niemeyer.

Na época, Marcel Camus se encantara com o Rio. Fora preso pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial e dirigira havia pouco um filme que, por flagrar a ocupação na Indochina, foi proibido no além-mar. Vagamente, "Orfeu Negro" propugna harmonia antitética à guerra colonial que a França travava na Argélia.

Camus açucarou a brasilidade de Vinicius e rebatizou o filme para "Orfeu Negro", título de um ensaio no qual Sartre dizia: "A descida incansável do negro para dentro de si mesmo me faz pensar em Orfeu indo recuperar Eurídice".

Disse mais, Sartre: "Um judeu, um branco entre brancos, pode negar que é judeu e declarar-se um homem entre os homens. O negro não pode negar que é negro nem reivindicar para si a humanidade
abstrata e incolor: ele é negro".

Mesmo feito antes da bossa nova, do cinema novo e de Brasília, o filme mostra um Rio moderno. O Ministério da Educação, de Le Corbusier, aparece de lado, lindo; o Monumento aos Pracinhas está nos andaimes; um bondinho que é um arabesco percorre os Arcos da Lapa.

Musicados por Jobim, os versos de Vinicius exaltam a cidade "a sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar". O povo retinto e reto samba na favela cheia de flores, aves, cabras, até cavalo. De cima, o mar enche os olhos, beija areias do Flamengo, Botafogo e Copacabana.

"Orfeu Negro" ganhou a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de filme estrangeiro. Já a repulsa dos brasileiros a ele começou pelo próprio Vinicius. O poeta o viu no Palácio do Catete, junto com JK, o presidente. Ficou tão nauseado com a falsidade que saiu no meio.

Nem todos no exterior caíram na macumba para turista de Camus. Godard, ainda só um crítico da Cahiers du Cinéma, escreveu: "'Orfeu Negro' é de uma inautenticidade total".

Mas, com olhar agudo, Godard sublinhou a cena em que a Serafina-Léa Garcia leva para a cama um marinheiro chegado à malvada pinga —a câmera mostra os pés deles entrelaçados, e em seguida a mão marota da moça apaga o abajur.

No New York Times, no ano 2000, Caetano Veloso escreveu que "o contraste entre o fascínio que 'Orfeu Negro' gerou no exterior e o desprezo com que foi tratado pelos brasileiros, que se viram retratados como exóticos, é um convite a reflexões sobre a solidão do Brasil".

Reflexões que poderiam passar por Paulo Emílio Salles Gomes: "Não somos europeus nem americanos do norte, mas, destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro pois tudo o é. A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro".

Ou por Sérgio Buarque de Holanda: "Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra".

O Brasil de "Orfeu Negro" projeta luzes e sombras no presente. Como aquele país fantasmagórico ainda pulsa, se bem que tenha mudado muito, o filho de Sérgio Buarque de Holanda, Chico, publicou em 2021 "Copacabana".

No conto, Ava Gardner faz questão "de subir ao morro onde rodaram 'Orfeu Negro', musical a que assistira inúmeras vezes". Lá, a molecada trepa no capô do conversível rabo de peixe e malandros apalpam a bunda da atriz —até que um chefão do tráfico a leva embora numa Harley-Davidson.

"Copacabana" é um retalho da nação na qual evangélicos acossam o candomblé; o samba deu lugar ao rap, ao sertanejo, à sofrência; a luta de classes murchou; traficantes e milícias enquadram favelados; a Parada Gay abraça a Marcha para Jesus; o imperialismo nos vela; Janja ri e Michelle chora.

Senta que o Brasil é manso. Valei-nos Léa Garcia.


Texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

A brasilidade existe nas diferenças entre nós


Há um campo de tensões que chamamos Brasil e que se forma a partir dos povos originários, que já estavam no território mas não eram brasileiros, pois o país ainda não existia; dos primeiros europeus que chegaram para dominar a terra habitada; dos africanos trazidos à força; dos europeus, árabes e asiáticos que aportaram —e aportam— em múltiplas ondas migratórias.

Nas relações de tensão dentro desse campo, deve-se incluir o tesão transformado em violência entre os diferentes corpos, como nos lembra a antropóloga e grande interlocutora da psicanálise Lélia Gonzalez.

Ser brasileiro é ser apenas uma parte desse sistema aberto de relações étnico-raciais. Alguns de nós ouvem: "Você é brasileiro? Não parece?!". Mas, afinal, brasileiro parece com o quê?

O negro, símbolo da mestiçagem, é considerado "a cara" do país, mas é, sintomaticamente, colocado no lugar de cidadão de segunda classe. O indígena é o "exótico" e se não estiver coberto de penas é tido como falso. O branco, que controla as narrativas sobre a formação do Brasil, sonha em ser tudo, menos brasileiro. A ascendência asiática e árabe é usada para desqualificar a brasilidade.

A título de exemplo, lembremos que o Brasil tem o maior número de descendentes de japoneses fora do Japão. São jovens que não falam japonês, dificilmente visitaram o país de seus antepassados e caíram no samba e na feijoada há mais de um século, mas continuam a ser chamados de "japas" pelo fenótipo, não importando se são netos de coreanos, de chineses…

Brasileiro é negro, é índio, é amarelo, é branco?

Até aqui, somos o resultado do que se passou entre todos esses grupos e também o resultado da negação da história e da cultura dos dois primeiros. No caso de indígenas e negros, a ancestralidade precisa ser resgatada em cada detalhe. Para os brancos cabe reconhecer uma história comum que descaracteriza sua ancestralidade. Não se trata de negá-la, mas de retificá-la.

Quando estou na Itália, terra dos meus avós —que só conheci depois de adulta—, os ecos da história da minha família se fazem ouvir, mas não me reconheço italiana. Foi no terreiro de umbanda que batizei minha filha, minha música é MPB e não acho que massa seja a panaceia da culinária. Tive o privilégio de conhecer as pegadas dos que me antecederam até para me dar ao luxo de entender que não me identifico com eles.

Não se passa o mesmo com negros e indígenas. Está em cartaz no Sesc Belenzinho a exposição "Dos Brasis", com belíssima curadoria de Igor Simões, Lorraine Mendes e Marcelo Campos e montagem primorosa. Ali se recupera uma parte da brasilidade negra que não vimos nas décadas em que passamos confinados aos bancos escolares e nas quais nos martelaram uma versão histórica alijada de seus fundamentos. O sistema de relações étnico-raciais que nos compõe sempre foi achatado por uma narrativa pálida e falaciosa.

Saímos da exposição arrebatados pela violência, mas também pela grandeza. Ela está montada de tal forma que as crianças circulam alegremente pelo local sem se dar conta de tudo o que está em jogo. Ali recuperamos traços de uma nacionalidade comum.

Não dá para ser brasileiro sem ter sido atravessado pela exuberância natural dessa terra que foi invadida para fins extrativistas e que só por acidente tornou-se país. O único mérito que poderíamos receber por viver num lugar tão lindo seria por nossa capacidade de preservá-lo. Não é o caso.

Ser brasileiro é um tipo de descentramento, um tipo de vertigem. Se pudéssemos bancar isso, seríamos o país do futuro, pois não há nada que o mundo precise mais do que povos que reconheçam sua incompletude e que se abram à alteridade.


Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo. 

sábado, 5 de agosto de 2023

A matança como espetáculo eleitoral


Um timing perfeito, tão sincronizado que parece coisa ensaiada e pensada nos mínimos detalhes. Depois da operação na Baixada Santista, que deixou pelo menos 16 mortos, deputados da bancada da bala na Alesp cobraram a retirada das câmeras dos uniformes de policiais militares em São Paulo. Nem precisavam cobrar. Desde a campanha eleitoral Tarcísio de Freitas tem se mostrado a favor da medida linha-dura. O governador resiste ao aumento gradual do número de câmaras (são pouco mais de 10 mil para uma corporação com cerca de 80 mil policiais).

A estatística revela queda nas mortes de policiais e de suspeitos após a implementação do Programa Olho Vivo. Os dados derrubam a tese terraplanista de que o crime organizado se aproveita do equipamento para identificar e atacar PMs.

Tido como um quadro técnico do bolsonarismo, Tarcísio classifica as mortes como "efeito colateral". Especialistas em segurança sugerem indícios de chacina, ordenada em resposta ao assassinato de um soldado da Rota. Moradores denunciaram torturas e homicídios. A promessa do MP e da Ouvidoria de investigar o excesso de força no Guarujá esbarra em algumas perguntas. Há imagens da operação? Quantas equipes da PM portavam câmeras? Elas estavam ligadas?

Combater a criminalidade espetacularmente, com fuzil na mão e sangue nos olhos, cala fundo na cabeça do cidadão que não mora na favela, mas se sente indefeso do mesmo jeito. No Brasil não há como repetir a estratégia do ditador Nayib Bukele, que lotou as cadeias de El Salvador e aumentou sua popularidade. Com cerca de 800 mil presos, o país já tem hoje a maior população carcerária da história. Matar é mais fácil e mais barato, e se obtém igual objetivo: votos.

A matança não é exclusividade de São Paulo. Bahia e Rio registraram cerca de 30 vítimas em recentes investidas de suas polícias. Virou moda. Uma moda macabra que não sai de cena.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo. 

Governadores e bandidos


Apesar da polaridade política, há pelo menos um indicador que, concretamente, unifica a governança brasileira. A violência contra presos, criminosos e suspeitos, descontadas as honrosas e episódicas exceções.

Semana sangrenta, parece campeonato.

Desde domingo, a operação da PM na Baixada Santista, em São Paulo, organizada como resposta vingativa ao homicídio de um soldado da Rota, contabiliza (por enquanto) 16 mortos –entre eles, o pedreiro, o indigente, o garçom.

Na quarta-feira, dez pessoas foram mortas a bala em operação da Polícia Civil e da PM no Rio de Janeiro.

Ainda no domingo, na zona rural de Itatim, Bahia, ação da PM deixou oito cadáveres, dois adolescentes. Em 2022, houve apenas um homicídio no município.

Os responsáveis pelas operações não se intimidam. Dizem agir conforme a lei e lamentam as mortes que acontecem em confrontos. A culpa é dos bandidos, que ostentam ou não antecedentes criminais. Se indício de abuso policial surgir, será investigado: é o que se promete e o que nunca se cumpre.

O Brasil se acostumou a maus-tratos e morticínios em favelas e presídios. Os policiais que matam continuam nas ruas. A suspeita justifica tudo.

Bolsonarista de carteirinha, o governador de São Paulo saúda, bravamente, a matança de Guarujá, como dano colateral corriqueiro e compreensível na guerra travada contra o crime.

A Bahia é governada pelo PT desde 2007. O Rio de Janeiro é sempre destaque. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os dois estados concentram mais de 43% dos abatidos.

O país registrou no ano passado uma pequena redução (1%) no número de mortos em intervenções policiais. Mas é muita gente, 6.429 pessoas, 17 por dia, a grande maioria formada por jovens e negros. 

O noticiário da semana mostra, ainda, a constrangedora informação de que na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, estado governado por petistas, os "custodiados" não têm direito a papel higiênico. O item é perigoso. Nele se pode escrever. Pode virar "massa" para ocultar objetos e esconderijos, como nos filmes sobre Alcatraz.

Depois de anos e anos, com avanços e recuos e muita resistência corporativa, tentando estabelecer, bem ou mal, protocolos para a redução do número de mortos em confronto, o enfrentamento ao crime em São Paulo sofre uma perigosa inflexão ideológica sob o comando de Tarcísio.

A homenagem política ao coronel Erasmo Dias, expoente da repressão durante a ditadura militar, faz parte da sinalização. O governador chafurda no mesmo chiqueiro golpista e miliciano do ex-presidente Bolsonaro, defensor perpétuo da tortura e da impunidade do policial corrupto e assassino.

O homem escolhido pelo governador para comandar as polícias paulistas, como mostra reportagem da Folha, não escondia o orgulho de ser matador de "ladrão".

Há caminhos institucionais para a redução da letalidade policial, entre eles a generalização do uso de câmeras nos uniformes. O tempo passa e as referências humanistas e republicanas para o combate da criminalidade vão ficando para trás, como um instrumental fora de moda.

Independentemente da cor ideológica, há governadores que fecham os olhos diante da violência policial sistemática e pandêmica para não criar arestas políticas.

Há governadores que fazem da licença para matar uma política pública.

Em matéria de resultado, para quem mata e para quem morre, a diferença é aparentemente nenhuma.


Texto de Luís Fernando Carvalho Filho, na Folha de São Paulo. 

Rio de Janeiro, o túmulo do silêncio


Esta cidade é o inferno dos introvertidos.

No Rio, uma corrida de Uber não raro termina com o motorista dando conselhos sentimentais para o passageiro (ou vice-versa). Se ficarem presos no engarrafamento, há o risco de um ser chamado para ser padrinho de batismo do filho do outro.

Aqui, já fui chamado para arbitrar um entrevero entre a moça do caixa e a senhora que estava à minha frente na fila do mercado, uma divergência quanto ao valor do troco.

Balancei a cabeça em silêncio e mergulhei de volta na tela do celular, o bastante para ambas praguejarem contra a minha pessoa.

O Rio explode em luz e cores, mas também em sons. Som do samba, som do funk, som do carro de ovo, do carro de ferro-velho, do alto-falante da loja popular, som de gente falando.

Cariocas e residentes do Rio falam pelos cotovelos. As pessoas falam a rodo com desconhecidos, algo estranho para um paulistano com tendência à misantropia.

Não posso reclamar muito, porém. Já namorei uma moça que me interpelou com uma pergunta tonta, do nada, durante uma apresentação de chorinho na Gávea.

Aí, num bar de Santa Teresa, nós dois desandamos a falar com um grupo de estranhos. Fomos todos juntos beber mais um pouco no largo da Prainha.

Introvertido até o segundo gole de cerveja, eu me sinto um pouco menos estrangeiro quando estou num botequim. Por sorte, o Rio os tem aos milhares.

O boteco carioca é o inferno de quem quer beber em silêncio, absorto nos próprios pensamentos. O bebedor silencioso é alvo de irresistível curiosidade.

Todos no bar querem saber quem é, o que faz, de onde vem. O que há de errado com aquela pessoa que não fala?

Eu não ligo, até gosto. Se quisesse beber sozinho, ficava em casa.

Mas tem dias que você só quer almoçar. Foi o caso, nesta semana, em um bar de esquina no Grajaú, bairro da desinibida rodriguiana.

Peguei uma mesa sob o toldo e atrás da televisão. Pedi uma cerveja e o cardápio. E comecei a observar as pessoas.

Ao meu lado, também sozinho, outro homem de meia-idade infernizava a vida de um garçom.

Em tom condescendente, discorria sobre como o limiar do congelamento é a temperatura ideal de serviço de uma cerveja.

"Aqui no Rio a gente chama de canela de pedreiro", dizia. O marrom da garrafa é a perna do trabalhador. A superfície branca de cristais de gelo representa a cal.

Finda a sabatina, o garçom se foi. Pressenti que sobraria para mim.

Na TV, o noticiário mudou para algo sobre Robinho, ex-jogador que está no Brasil para fugir da cadeia por estupro na Itália. O homem ao lado se virou para assistir. Seu o olhar encontrou o meu.

"Não dá mais para fazer mais nada... lei Maria da Penha... não pode mais assoviar para as mulheres..." Eu só queria sumir. Não queria falar com ninguém, muito menos me meter numa briga de bar.

Então o milagre carioca aconteceu: no zap, um amigo me chamou para almoçar em outro lugar. Paguei e deixei o infeliz a falar sozinho.

Nada contra bater papo com desconhecidos, mas é sempre bom ter gente conhecida para te salvar deles.


Texto de Marcos Nogueira, em seu blogue Cozinha Bruta, na Folha de São Paulo. 

terça-feira, 4 de julho de 2023

O humorista David Baddiel não acredita em Deus, mas gostaria que ele existisse


Gosto daqueles manuais de boas maneiras que aconselhavam os cavalheiros a nunca falarem de religião ou política. Então penso: metade dos problemas deixaria de existir se essa regra fosse seguida em público.

Não sigo. Parcialmente. Falo de política com regularidade, para mal dos meus pecados. Mas, em matéria religiosa, minha boca é uma tumba.

Questão de pudor. Deus é um assunto tão pessoal como certas matérias do coração. Não discuto os meus amores. Não discuto os amores dos outros.

O humorista David Baddiel discorda. Depois de nos dar o seu "Jews Don’t Count" —ou judeus não contam, em português—, um ensaio primoroso sobre a exclusão dos judeus das lutas antirracistas contemporâneas, Baddiel se ocupa da religião com "The God Desire: On Being a Reluctant Atheist" —algo como o desejo de Deus: ser um ateu relutante.

Pretender encontrar aqui um tratado de base teológica, como alguns críticos tentaram, é um erro e um absurdo. Baddiel é um humorista, repito, e as perguntas que ele faz valem pelas perplexidades que evocam e pela graça que transportam.

Começa com um conselho: se tiverem um filho com medo da morte, nunca lhe digam que é como um longo sono do qual nunca se desperta. Eles estarão a criar uma pessoa insone.

Foi isso que aconteceu com Baddiel: a mãe tentou consolá-lo com um exemplo prosaico. O resultado é que, todas as noites, a criança marchava para o leito coberta de terror.

(Uma confissão: aconteceu o mesmo comigo, embora minha mãe seja considerada inocente. Eu mesmo tratei de fazer essa comparação fatal.)

É esse terror que explica o desejo de Deus, embora não no caso do autor. Baddiel se declara ateu. Mas a primeira crítica do livro vai para ateus célebres —os ateus machões, escreve ele, como Christopher Hitchens, Richard Dawkins etc.— que riem desse desejo.

O fato de Deus não existir, argumenta Baddiel, não significa que o desejo também não existe, que não seja real, que não seja de fato significativo.

O desejo de Deus revela traços importantes da nossa humanidade —a busca de consolação, de ordem ou de sentido— que seria demais desprezar como uma mera fraqueza vinda de mentes débeis.

Quando os ateus machões tratam as pessoas religiosas como bebês medrosos ou ignorantes, eles se esquecem, ou pelo menos fingem desconhecer, que todos nós somos bebês medrosos ou ignorantes na aventura da existência.

A grande diferença, acrescento eu, é que alguns conseguem disfarçar melhor que outros. Ou, então, procuram outras saídas para aliviar o próprio peso de sua mortalidade.

Além disso, e olhando para a sua própria identidade como judeu, não lhe parece contraditório que a descrença em Deus conviva com a crença na importância da religião, dos seus ritos, dos seus preceitos.

Ao longo da história, foi precisamente esse patrimônio religioso que permitiu a sobrevivência dos judeus em meio às condições mais adversas.

Se isso não é um argumento favorável à existência de Deus, é seguramente um argumento favorável à existência e à continuidade da religião judaica.

O livro de David Baddiel é uma meditação divertida e sincera sobre as perplexidades de um ateu —alguém que, apesar de não conseguir acreditar em Deus, até gostaria que ele existisse em alguma capacidade.

Claro que, usando de uma lente muito mais rigorosa, algumas dessas perplexidades relatadas começam a estalar.

Um exemplo: se é o medo da morte que explica o desejo de Deus, como justificar esse desejo em pessoas que não temem particularmente o fim?

Talvez admitindo que o medo da morte nem sempre é a razão da fé. O próprio Baddiel, aliás, encarna essa possibilidade: apesar do seu medo, e até do seu desejo para que Deus existisse, a fé está-lhe vedada.

Outro exemplo, dessa vez formulado pela mente do próprio autor: se é o desejo que explica a crença na existência de Deus, o que dizer daquelas pessoas que acreditam nessa existência, embora preferissem que Deus não existisse, de fato?

Infelizmente, Baddiel não aprofunda essa possibilidade disteísta, cujo potencial cômico é imenso. Afinal, haverá coisa mais divertida do que odiar o deus em que se acredita?

Pensando melhor, talvez haja sim: odiar um deus em que não se acredita, o que acaba por se tornar a atitude típica dos ditos machões ateus.

O fato de David Baddiel não cair justamente nessa armadilha, olhando para a fé com um misto de muita curiosidade, imaginação e simpatia, já o põe vários níveis acima de sábios e estudiosos que são muito mais eruditos.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo. 


.



.

David Baddiel

terça-feira, 27 de junho de 2023

Banqueiro de 34 anos vai faturar R$ 2,5 bilhões com baixa renda


Sete a cada dez brasileiros deixam de ir a algum lugar porque sentem que "não é pra eles". Essa sensação de não ter dinheiro suficiente para frequentar um bom restaurante ou entrar em um shopping de luxo é a mesma que impede 45 milhões de brasileiros de ir a um banco, apesar de movimentarem R$ 800 bilhões na economia.

"É desse público que o Will Bank vai atrás", diz o fundador Felipe Felix. Aos 34 anos, ele afirma que o faturamento de seu banco deve chegar a R$ 2,5 bilhões com uma base de cinco milhões de clientes. Todos ingressaram no sistema bancário via cartão de crédito e hoje fazem até investimentos.

Os bancos preferem não atender a baixa renda, mas vocês ganham muito dinheiro com esse público. Qual é a fórmula? Para eles não vale a pena porque esse cliente gasta pouco, R$ 800 por mês no nosso caso. A estrutura de custo operacional não permite que um banco [tradicional] aprove esse cliente —que precisaria ter ao menos um título de capitalização, um consórcio ou uma poupança [para isso]. As fintechs surgiram, num primeiro momento, para atender clientes insatisfeitos com o banco tradicional. Ou seja, ninguém está disposto a bancarizar esse cliente potencial.
No Will Bank, a porta de entrada é o cartão de crédito. Cerca de 70% dos nossos clientes são multiplicadores, usam o cartão para comprar algo e pagar em 30 dias, fazer capital de giro. O Nordeste concentra 60% de nossos clientes, região onde vive 40% da população desbancarizada do país. Um terço desses clientes nunca teve um cartão de crédito. A gente está chegando em um cliente que ninguém consegue chegar.

São quantos clientes? A gente tem 40 milhões de pedidos [de cartões de crédito] e quase 5 milhões emitidos. Quando ele é aprovado, abre-se uma conta digital. Em 2022, foram R$ 12 bilhões transacionados via cartão e mais R$ 30 bilhões em contas digitais.

Seu produto parece ser o mesmo dos bancos tradicionais. O que é diferente? Veja. Por que 80% da população coloca dinheiro na poupança? A justificativa é que a população não é educada para tomar opções de investimentos melhores. Bem, a realidade é que a alternativa à poupança é muito complexa: CDB, LCA, LCI, debêntures. Há uma barreira para o cliente tomar uma decisão [de investimento diferente] e o mercado financeiro não tem iniciativa para mudar essa realidade. Cria produtos para o mercado financeiro, não para as pessoas.
Fizemos uma pesquisa para entender nosso cliente, o porquê de ele escolher a poupança. Descobrimos que a sensação que o fator dinheiro gera nas pessoas é muito negativa. Não só pela falta, mas porque elas têm medo. É tentando vencer esse medo que a gente atua.

Medo de que exatamente? A pesquisa mostrou que 71% das pessoas têm medo de ir a alguns lugares por conta da questão financeira. Pense no Banco Safra. Não é qualquer pessoa que vai chegar ali e entrar para abrir uma conta. Mudar esses gatilhos não racionais que todos temos em algum nível é o que buscamos.
Nossos clientes disseram que o Will Bank foi o primeiro que confiou neles ao dizer sim. É uma questão de constrangimento. Pense em uma família que nasceu de pais que não foram aprovados no banco. Isso é muito ruim, começa-se a se construir uma estrutura na qual as pessoas acreditam que aqueles produtos não são para elas. O crédito deveria estar a serviço das pessoas, e não o contrário.
Isso tem de mudar, mas a gente precisa entender os mecanismos que impedem as pessoas de tomar a decisão [de buscar crédito]. A oferta até já existe, mas as pessoas acreditam que não é para elas.

Como vocês mudaram isso? Nossa pesquisa mostra que as mulheres têm vergonha de pedir empréstimo. Os homens sentem tristeza. A experiência digital [via aplicativo ou site] então ajuda. As pessoas acham que não podem ter dívida com ninguém quando, às vezes, é um passo necessário para alavancarem seus negócios. São variáveis emocionais.
Basicamente, o que percebemos no mercado financeiro é que o produto, em si, tem uma diferença marginal. O investimento não deixa de ser um CDB como o do Itaú. A questão é como ele é apresentado.
No nosso CDB não falamos de rendimento em percentagem de CDI, por exemplo. Quanto da população sabe o que é o CDI? Dizer para esse cliente ‘saia da poupança e invista em 100% do CDI não ajuda. Agora é mais fácil dizer ‘saia da poupança, pegue R$ 1 mil e ganhe R$ 150'. Nossos produtos são títulos pré-fixados que facilitam o entendimento.
Outro exemplo. O sistema [financeiro] faz campanha contra, mas a gente reconhece um comportamento que nosso público tem: o compartilhamento de um cartão de crédito. Um cartão com um limite dividido entre cinco pessoas às vezes é capaz de fazer uma transformação. O Brasil é formado mais por essas pessoas.

Por que entrou nesse mercado? Sou nordestino e foi trabalhando no Avista que percebi a existência de 45 milhões de desbancarizados, que movimentam R$ 800 bilhões [na economia], um problema gigantesco que ninguém estava disposto a resolver. Hoje vamos chegar a R$ 2,5 bilhões em receitas com esse negócio.

Por que o banco tem esse nome? Há muitos Willians, Williana no país. Will é abreviação de um nome. Então, é como se nosso cliente estivesse falando com uma pessoa.

RAIO-X
QUEM É O BANQUEIRO

Idade: 34
Formado em Engenharia Naval pela Universidade de São Paulo, Felipe Felix fez mestrado em Economia na Fundação Getúlio Vargas. Sua carreira foi consolidada no mercado financeiro, passando pelo Banco Original antes de se juntar ao grupo Avista cartões onde atuou como CFO [diretor financeiro]. Fundou o Will Bank há seis anos. Recentemente, foi escolhido como empreendedor Endeavor.


Reprodução da Folha de São Paulo. 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Exército mantém cargo de militares citados em relatório da PF; saiba quem é quem


Exército mantém cargo de militares citados em relatório da PF; saiba quem é quem

Força quer esperar desdobramentos na Justiça; promoção ao generalato deve ser dificultada



O comandante do Exército, general Tomás Paiva, decidiu esperar os desdobramentos judiciais antes de tomar medidas administrativas contra os militares da ativa citados em relatório da Polícia Federal sobre os celulares do tenente-coronel Mauro Cid.

A avaliação, segundo interlocutores de Tomás ouvidos pela Folha, é a de que não é possível somente com o relatório analisar a conduta de cada militar. Como resultado, a decisão interna é cooperar com as investigações e agir somente após a repercussão dos casos na Justiça.

Generais afirmam, porém, que os militares investigados deverão ter mais dificuldade para progredir na carreira e chegar ao generalato, já que o caso se tornou um constrangimento para a cúpula militar.

Procurado pela Folha, o Exército afirma que ainda não foi "oficiado sobre as apurações realizadas nas investigações em andamento".

"Somente após ter conhecimento oficial acerca dos fatos citados será possível fazer uma avaliação da situação e a adoção de eventuais medidas administrativas que se façam necessárias", disse a Força em nota.

A Folha identificou 11 militares da ativa no relatório da Polícia Federal. São oficiais que trocaram mensagens com Cid, foram citados por outros militares ou se manifestaram em grupo de WhatsApp.

O documento sobre a existência do grupo de WhatsApp foi revelado pela Folha no sábado (17).

Todos os oficiais foram procurados pela reportagem. O coronel Gian Demario da Silva respondeu que o grupo é antigo e mantém apenas "conversas e opiniões". A defesa de Cid disse que se manifestará somente nos autos. Os demais não se manifestaram.

Veja quem é quem no relatório:

Tenente-coronel Mauro Cid

Ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), estava lotado no Comando de Operações Terrestres. Era responsável pela chefia do Preparo da Força Terrestre. Está preso desde maio, suspeito de adulterar cartões de vacinação do ex-presidente, de sua esposa, Gabriela Cid, e filhas, com o objetivo de viajar aos Estados Unidos.

Os advogados de Cid afirmaram que "por respeito ao Supremo Tribunal Federal, todas as manifestações defensivas serão feitas apenas nos autos do processo".

Tenente-coronel Marcelino Haddad Aquino Carneiro

Formou-se na Aman (Academia Militar das Agulhas Negras) em 2000, mesma turma de Cid, e foi promovido para tenente-coronel em 2020. Ocupa cargo de comando no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva no Rio de Janeiro.

Segundo o relatório da PF, Haddad enviou em 16 de novembro de 2022 a um grupo de WhatsApp do qual Cid faz parte três documentos sobre a possibilidade de as Forças Armadas atuarem como uma espécie de poder moderador.

Segundo os investigadores, os documentos podem ter dado embasamento jurídico para uma tentativa de golpe.

Tenente-coronel Fabiano da Silva Carvalho

Foi colega de Cid e Haddad na Aman. Assumiu no início do mês o comando da 17ª Brigada de Fronteira, em Corumbá (MS).

Ele é apenas citado no relatório da Polícia Federal por ter trocado emails com o advogado Ives Gandra Martins, em 2017, quando escrevia artigo sobre a atuação das Forças Armadas como garantidoras dos Poderes Constitucionais.

Coronel Jean Lawand Junior

Primeiro colocado na turma da Aman de 1996, é supervisor do Programa Estratégico Astros do Escritório de Projetos do Estado-Maior do Exército.

Lawand é o principal interlocutor de Cid nas mensagens destacadas pela Polícia Federal no relatório enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal). Ele insistentemente pede ao então ajudante de ordens para orientar Bolsonaro a dar um golpe contra a democracia: "Convença o 01 a salvar esse país!", escreveu em uma das conversas.

Pelas mensagens trocadas, o Exército decidiu anular a nomeação de Lawand para ocupar cargo na embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

Tenente-coronel Jorge Alexandre Oliveira de Medeiros de Souza

Foi promovido ao atual posto em 2021. Antes, trabalhou na 12ª Região Militar, no Amazonas, quando o general e ex-ministro Eduardo Pazuello comandava a unidade.

Ele fazia parte do grupo "Dosssss!!!", composto majoritariamente por militares da ativa. Jorge Alexandre só enviou duas mensagens entre as destacadas pela PF. Uma é o anúncio de que os oficiais-generais escolhidos por Lula para o comando das Forças tomariam posse em dezembro.

Coronel Gian Dermario da Silva

Formado na Aman em 1996, Gian é atualmente comandante do Centro de Instrução de Operações Especiais, onde são formados os Forças Especiais, considerada a ala mais radical do Exército.

Nas mensagens do grupo "Dosssss!!!", ele afirma que esperava para os próximos dias uma "ação por parte do PR e FA" contra a eleição de Lula.

Gian diz ainda que pretendia dar "muita ênfase" no curso de formação dos Forças Especiais para questões ligadas ao "globalismo/progressismo socialista". Para ele, o Exército sabia como derrotar a esquerda, mas "ficamos amarrados no POLITICAMENTE CORRETO".

Procurado pela Folha, Gian disse que não há nada de mais nas trocas de mensagens. "Esse é grupo muito antigo, de mais de dez anos de conversas e opiniões. Por um acaso o militar está nele. Somente isso", escreveu.

Coronel Anderson Corrêa dos Santos

Assumiu o atual posto em 2020, após ter atuado por mais de um ano no comando do Batalhão de Apoio às Operações Especiais, em Goiânia. Trabalhou no gabinete de intervenção federal do Rio de Janeiro, em 2018.

No grupo de WhatsApp, ele fez poucas intervenções destacadas pela PF. Disse que poderia estar errado, mas "acho que estamos caminhando para uma crise interna muito forte".

"A ruptura institucional já ocorreu a muito tempo. Tudo que for feito agora, da parte do PR, FA e tudo mais, não vai parar a revolução do povo que cansou de tudo isso".

Coronel Rodrigo Lopes Bragança Silva

Foi promovido a coronel em 2022. É oficial de cavalaria, lotado na Escola Preparatória de Cadetes do Exército.

Nas mensagens trocadas no grupo de WhatsApp, Rodrigo incentiva os colegas a assinar uma carta de oficiais superiores ao comandante do Exército Brasileiro. Trata-se de texto apócrifo, de tom golpista e escrito na esteira dos acampamentos antidemocráticos em frente aos quartéis, conforme a a Folha revelou

"E aí, agora todos colocaremos o nome nessa rela aí né?", disse. "Ou seremos leões de Zap", completou.

Tenente-coronel Helio Ferreira Lima

Ferreira Lima trabalhou no GSI (Gabinete de Segurança Institucional) no governo Bolsonaro e retornou ao Exército para comandar a 3ª Companhia de Forças Especiais, em Manaus (AM).

É um dos mais ativos no grupo de WhatsApp. Ele reclama que as Forças Armadas não iriam se comprometer com o governo Lula porque "ficou gostosinho demais sermos só isso".

"Salário garantido, guerreiro com absoluta certeza de não guerrear, uma escapada ou outra ganhando bem por aí … ficou bom demais para queríamos sair desse conforto", escreveu.

Coronel Marcio Nunes de Resende Junior

Formado na Aman em 1996, Marcio foi comandante do 1º Batalhão Logístico de Selva, em Boa Vista (RR). Hoje está no Estado-Maior do Exército.

No grupo, ele endossa o discurso de que houve fraude eleitoral. "Se a gente não tem coragem de enfrentar o cabeça de ovo e uma fraude eleitoral, vamos enfrentar quem???".

Marcio ainda disse que "se o Bolsonaro acionar o 142, não haverá general que segure as tropas. Ou participa ou pede pra sair!!!".

Coronel Felipe Guimarães Rodrigues

Formado na Aman em 1997, Felipe foi comandante do 63º Batalhão de Infantaria em Florianópolis (SC). Hoje, atua como assessor parlamentar do Exército no Senado.

No grupo, manda somente uma mensagem. "Outros bravateiros…não conseguiram deter uma fraude eleitoral clara dentro do território deles !!!", disse, sem deixar claro se a referência era ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ou aos militares que participaram da fiscalização do processo eleitoral.


Reprodução de reportagem de Cézar Feitosa, na Folha de São Paulo.