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terça-feira, 4 de julho de 2023

O humorista David Baddiel não acredita em Deus, mas gostaria que ele existisse


Gosto daqueles manuais de boas maneiras que aconselhavam os cavalheiros a nunca falarem de religião ou política. Então penso: metade dos problemas deixaria de existir se essa regra fosse seguida em público.

Não sigo. Parcialmente. Falo de política com regularidade, para mal dos meus pecados. Mas, em matéria religiosa, minha boca é uma tumba.

Questão de pudor. Deus é um assunto tão pessoal como certas matérias do coração. Não discuto os meus amores. Não discuto os amores dos outros.

O humorista David Baddiel discorda. Depois de nos dar o seu "Jews Don’t Count" —ou judeus não contam, em português—, um ensaio primoroso sobre a exclusão dos judeus das lutas antirracistas contemporâneas, Baddiel se ocupa da religião com "The God Desire: On Being a Reluctant Atheist" —algo como o desejo de Deus: ser um ateu relutante.

Pretender encontrar aqui um tratado de base teológica, como alguns críticos tentaram, é um erro e um absurdo. Baddiel é um humorista, repito, e as perguntas que ele faz valem pelas perplexidades que evocam e pela graça que transportam.

Começa com um conselho: se tiverem um filho com medo da morte, nunca lhe digam que é como um longo sono do qual nunca se desperta. Eles estarão a criar uma pessoa insone.

Foi isso que aconteceu com Baddiel: a mãe tentou consolá-lo com um exemplo prosaico. O resultado é que, todas as noites, a criança marchava para o leito coberta de terror.

(Uma confissão: aconteceu o mesmo comigo, embora minha mãe seja considerada inocente. Eu mesmo tratei de fazer essa comparação fatal.)

É esse terror que explica o desejo de Deus, embora não no caso do autor. Baddiel se declara ateu. Mas a primeira crítica do livro vai para ateus célebres —os ateus machões, escreve ele, como Christopher Hitchens, Richard Dawkins etc.— que riem desse desejo.

O fato de Deus não existir, argumenta Baddiel, não significa que o desejo também não existe, que não seja real, que não seja de fato significativo.

O desejo de Deus revela traços importantes da nossa humanidade —a busca de consolação, de ordem ou de sentido— que seria demais desprezar como uma mera fraqueza vinda de mentes débeis.

Quando os ateus machões tratam as pessoas religiosas como bebês medrosos ou ignorantes, eles se esquecem, ou pelo menos fingem desconhecer, que todos nós somos bebês medrosos ou ignorantes na aventura da existência.

A grande diferença, acrescento eu, é que alguns conseguem disfarçar melhor que outros. Ou, então, procuram outras saídas para aliviar o próprio peso de sua mortalidade.

Além disso, e olhando para a sua própria identidade como judeu, não lhe parece contraditório que a descrença em Deus conviva com a crença na importância da religião, dos seus ritos, dos seus preceitos.

Ao longo da história, foi precisamente esse patrimônio religioso que permitiu a sobrevivência dos judeus em meio às condições mais adversas.

Se isso não é um argumento favorável à existência de Deus, é seguramente um argumento favorável à existência e à continuidade da religião judaica.

O livro de David Baddiel é uma meditação divertida e sincera sobre as perplexidades de um ateu —alguém que, apesar de não conseguir acreditar em Deus, até gostaria que ele existisse em alguma capacidade.

Claro que, usando de uma lente muito mais rigorosa, algumas dessas perplexidades relatadas começam a estalar.

Um exemplo: se é o medo da morte que explica o desejo de Deus, como justificar esse desejo em pessoas que não temem particularmente o fim?

Talvez admitindo que o medo da morte nem sempre é a razão da fé. O próprio Baddiel, aliás, encarna essa possibilidade: apesar do seu medo, e até do seu desejo para que Deus existisse, a fé está-lhe vedada.

Outro exemplo, dessa vez formulado pela mente do próprio autor: se é o desejo que explica a crença na existência de Deus, o que dizer daquelas pessoas que acreditam nessa existência, embora preferissem que Deus não existisse, de fato?

Infelizmente, Baddiel não aprofunda essa possibilidade disteísta, cujo potencial cômico é imenso. Afinal, haverá coisa mais divertida do que odiar o deus em que se acredita?

Pensando melhor, talvez haja sim: odiar um deus em que não se acredita, o que acaba por se tornar a atitude típica dos ditos machões ateus.

O fato de David Baddiel não cair justamente nessa armadilha, olhando para a fé com um misto de muita curiosidade, imaginação e simpatia, já o põe vários níveis acima de sábios e estudiosos que são muito mais eruditos.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo


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David Baddiel

domingo, 10 de abril de 2022

Banditismo evangélico corrói na surdina instituições republicanas


Eis que a farsa já pode receber o nome de fraude, de banditismo. Banditismo evangélico. Eis que escrevo aqui cheia de raiva desses evangélicos —é que minha mãe, à espera da morte neste exato momento, na inconsciência ou semiconsciência, em um leito de hospital, está muito provavelmente tentando se comunicar com o Deus dela, o Deus do embuste cristão-evangélico.

Até mesmo ela, criada nos bancos duros da Assembleia de Deus desde criança, até ela reconhecia há tempos que a promessa evangélica de paraíso carrega uma nódoa de falsidade, indecência, exploração e trapaça —desiludida com a Assembleia, mudou-se para a Metodista e depois para a Batista. Passou a criticar todas elas. Recolheu-se na sua própria fé octogenária, na sua própria Bíblia, na sua própria harpa de hinos, enfurnada em casa durante a pandemia.

Eis que, enquanto ela aguarda senão pelo Deus que a leve embora desse mundo que já lhe era insuportável, enquanto repousa num leito fatal e frio, eis que minha raiva se avoluma, num velório que não contará com nenhum desses falsários pastores evangélicos. Penso em proibir a presença deles, pois se até minha mãe já percebia a aberração em que se transformou o ethos das igrejas evangélicas no Brasil.

Agora mesmo essas igrejas, que já vinham tão desmoralizadas pela prática de coerção de seus fiéis por dinheiro (antigamente chamado dízimo), em troca da falsa promessa de felicidade em outro mundo, essas igrejas amargariam a derrocada final se o país tivesse governo, regramento e Justiça decente.

Que nada. O banditismo grassa de norte a sul, faz negócios no balcão da promiscuidade entre política e religião evangélica. A recente revelação de que o demitido ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, fazia tráfico de influência com recursos públicos da pasta já não seria o bastante para indiciá-lo por crime? Indiciar a ele e a seu superior imediato, o fascista Jair Bolsonaro.

O tráfico, segundo o tal pastor, atendia a solicitação direta de Bolsonaro. "Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim", disse Ribeiro sobre a prática espúria.

O tráfico consistia em intermediar, na base da propina em dinheiro ou barras de outro, liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) para municípios por meio de representantes evangélicos, numa rede de negociatas liderada por dois pastores da Assembleia de Deus, Gilmar Santos e Arilton Moura.

Crime de tráfico de influência está no Código Penal, no artigo 332: "Solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função".

Sobre a pena que pune esse crime, o mesmo artigo diz: "Reclusão, de dois a cinco anos, e multa. Parágrafo único. A pena é aumentada da metade, se o agente alega ou insinua que a vantagem é também destinada ao funcionário".

O banditismo evangélico vai corroendo na surdina as instituições republicanas, cagando em cima de uma Constituição supostamente laica. Ora, o ethos político e o ethos moral são diferentes, ressaltam os estudiosos do tema, "e não há fraqueza política maior do que o moralismo que mascara a lógica real do poder". Mascarados, criminosos, bandidos. Pois esses moralistas, esses fascistas vestidos de pastores serão vetados!

Enquanto minha mãe se põe a morrer, toda pequena, encolhida e ainda crente, lá no seu leito final, minha raiva se avoluma como uma onda —consigo inclusive ouvir o mar se derramando na praia de Boa Viagem, Recife, eu sentada ao lado dela no culto enfadonho da Assembleia de Deus do bairro. Por vezes os pastores gritavam alucinados lá no púlpito, incorporando algum espírito ou bebendo o sangue de Cristo, diziam, assustando as criancinhas como eu. Um inferno. Falsários, criminosos.

Mas minha mãe cantava lindamente, à capela, muito afinada, entre as pregações e orações da liturgia aterradora. Eu admirava aquela mulher que sabia de cor os hinos, única hora em que a p*a do culto valia a pena, em que o sofrimento dela parecia se dissipar.

Tentou de tudo para que os filhos se convertessem ao credo dela. Não conseguiu. Mas não lamentava —sabia, decepcionada, da fraude, do crime. Espero que ela suba aos céus dela cantando um hino.

Não oro, não rezo, não acredito em nada. Deus para mim tem outro nome: "Propofol", alívio, esquecimento, anestesia contra a dor desse mundo brutal. Hoje derramam-se por aqui apenas essas lágrimas do mar triste do meu coração, do mesmo sal da antiquíssima Boa Viagem.

Perder mãe é ver perder-se um pouco de todo o resto. Naquela infância evangélica, ao menos um pai ateu nos esperava em casa, fazia o contraponto. Amém.


Texto de Marilene Felinto, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Resisto às labirintites da religião, mas a alma segue seu próprio caminho

Dentre as alegrias do cinema mudo, há quem se lembre dos "Keystone Cops", policiais amalucados que, a qualquer alarme, partiam correndo em todas as direções ou se apinhavam em calhambeques explosivos, para maior descrédito de sua autoridade.
Também os seguidores de são Francisco de Assis saem desabalados sem maior motivo no filme de Roberto Rossellini lançado há pouco na coleção de cinebiografias da Folha.
Começa a chover: peregrinando sem rumo, os fradezinhos pulam nas poças d'água como se fossem crianças. Chega a primavera, resolvem colher flores para enfeitar a mísera capela que construíram; espalham-se então com a pressa de quem vai apagar um incêndio.
São, todavia, amigos do fogo, que também brinca com eles. Exageram na quantidade de lenha utilizada em suas pobres atividades culinárias; o burel de um frade começa a queimar-se também. Não há porque reclamar disso, intervém são Francisco: o fogo é nosso irmão, "belo e jocundo, vigoroso e forte".
Passagem mais assustadora na vida do santo é comentada por Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Com uma séria doença nos olhos, Francisco tem de cauterizá-los com um tição em brasa. Até nesse momento ele brinca: "Irmão fogo, Deus o fez belo, forte e útil; peço-lhe que seja gentil comigo".
O livro de Chesterton sobre são Francisco sai agora em nova tradução no Brasil, pela editora Mundaréu, e faz excelente companhia para o filme de Rossellini. Como sempre, o autor inglês não recua diante dos mais improváveis paradoxos e dedica o melhor de sua extraordinária inteligência para iluminar as simplicidades do santo.
Assim, no episódio da brasa aplicada ao olho, Chesterton assinala o quanto havia de irônico, e mesmo de cortês, na relação de são Francisco com o mundo real. Mesmo na máxima pobreza, são Francisco reteve alguns farrapos da vida de luxo que tivera na juventude.
É que não abandonou as maneiras da corte: pede licença, pede desculpas, faz reverências ao mais humilde animal.
A diferença, diz Chesterton, é que, se na corte existe um rei e cem cortesãos, na vida de são Francisco ele era um só cortesão circulando no meio de cem reis. Suas gentilezas com o fogo, a lua, a água ou os pássaros não representavam, entretanto, um mero "amor à natureza".
Bem ao contrário: a natureza, como entidade algo abstrata e sentimental, era coisa que ele desconhecia. Para Chesterton, o santo era precisamente alguém que via as árvores —cada árvore—, e não a floresta.
Donde, talvez, tanta correria, tanta pressa em chegar mais perto. Como na criança que não deixa nunca de perguntar, numa viagem, se "já estamos chegando", a pressa é elemento inseparável de todo espírito de entrega.
São Francisco saiu correndo atrás de um mendigo a quem não pôde atender no momento exato —e é essa celeridade, notada no começo do livro de Chesterton, que dá um tom de comédia, entretanto terna e serena, ao filme de Rossellini.
Dois dos seguidores de são Francisco são verdadeiros patetas. Jogam lenha na panela, por exemplo, em vez de jogá-la ao fogo; ou então cortam viva a perna de um porco, achando que seus gritos de dor são expressões de alegria por estar contribuindo para saciar a fome de alguém.
No filme, os franciscanos fazem jus ao título de "jograis de Cristo", ou, se quisermos traduzir, os saltimbancos, os comediantes de Cristo. Na cena final, todos devem separar-se para espalhar os ensinamentos do mestre. São Francisco manda que girem em círculos até ficarem tontos e que sigam o caminho que cada cabeça apontar no momento em que caírem no chão.
O mais tolo dos frades é o que mais tempo demora a sentir vertigem. Velho cabeça-dura, também resisto às labirintites da religião. Mas a alma, esta segue seu próprio caminho.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Religião é benéfica para tratamento psiquiátrico, diz associação


"É mole? Vou ao médico tratar da depressão e ele me manda rezar!". A recomendação que gerou surpresa na médica e professora universitária Maria Inês Gomes, 67, agora tem aval da Associação Mundial de Psiquiatria.
No mês passado, a entidade aprovou documento declarando a importância de se incluir a espiritualidade no ensino, pesquisa e prática clínica da psiquiatria. A SBP (Sociedade Brasileira de Psiquiatria) ainda não se posicionou sobre o assunto.
A proposta, obviamente, não é "receitar" uma crença religiosa ao paciente, mas conversar sobre o assunto.
O indexador de estudos científicos PubMed, do governo americano, lista mais de mil estudos sobre o tema.
Os recursos espirituais avaliados nesses trabalhos variam bastante, desde acreditar em Deus ou um poder superior, freqüentar alguma instituição religiosa ou mesmo participar de programas de meditação e de perdão espiritual, mas a grande maioria conclui que há correlação entre espiritualidade e bem-estar.
O maior impacto positivo do envolvimento religioso na saúde mental é entre pessoas sob estresse ou em situações de fragilidade, como idosos, pessoas com deficiências e doenças clínicas.
Não se trata, claro, da prova científica da ação de Deus –uma hipótese dos pesquisadores é que religiosidade sirva, por exemplo, para reforçar laços sociais, reduzindo a incidência de solidão e depressão e amenizando o estresse causado por doenças ou perdas.
Três meta-análises (revisões científicas) já realizadas sobre o tema indicam que, após controle de variáveis como estado de saúde da pessoa, a frequência a serviços religiosos esteve associada a um aumento médio 37% na probabilidade de sobrevida em doenças como o câncer. O desafio é entender exatamente como isso acontece.
Uma das explicações propostas é a ativação do chamado eixo "psiconeuroimunoendócrino", em que uma emoção positiva seria capaz de alterar a produção de hormônios que, por exemplo, reduziriam a pressão arterial.
"O impacto da religião e espiritualidade sobre a mortalidade tem se mostrado maior que a maioria das intervenções, como o tratamento medicamentoso da hipertensão arterial ou o uso de estatinas", afirma Alexander Moreira-Almeida, professor de psiquiatria da Universidade Federal de Juiz de Fora.
Um outro estudo recente publicado na revista "Cancer", da Sociedade Americana de Câncer, revisou dados obtidos com mais de 44 mil pacientes e concluiu que são os aspectos emotivos da espiritualidade e da religiosidade aqueles que mais trazem benefícios para a saúde física e mental de pacientes com a doença. O mesmo não acontece quando o paciente se dedica a meramente estudar ou pesquisar sobre a religião.

EFEITO NEGATIVO

Ao mesmo tempo, segundo Almeida, as crenças religiosas também podem atuar de modo negativo, quando enfatizam a culpa e a aceitação acrítica de ideias ou transferem responsabilidades.
"Piores desfechos em saúde são observados quando há uma ênfase na culpa, punição, intolerância, abandono de tratamentos médicos. A existência de conflitos religiosos internos ao indivíduo ou em relação à sua comunidade religiosa também está associada a piores indicadores de saúde."
Por essa razão, é importante que os profissionais tenham em conta a dupla natureza da religião e espiritualidade, segundo Kenneth Pargament, professor de psicologia clínica na Bowling Green State University (Ohio).
"Elas [religião e espiritualidade] podem ser recursos vitais para a saúde e bem-estar, mas eles também podem ser fontes de perigo", diz ele, que esteve no Brasil neste mês falando sobre o assunto no início do mês no Congresso Brasileiro de Psiquiatria.
Ele lembra que, por muitos anos, psicólogos e psiquiatras evitaram a religião e a espiritualidade na prática clínica. Entre as razões, estaria a antipatia pela religião que sempre houve entre os ícones da psicologia, como Sigmund Freud.
Para Pargament, é importante a compreensão de que a religião e a espiritualidade são entrelaçadas no comportamento humano e que os profissionais precisam estar preparados para avaliar e abordar questões que surjam no tratamento.
"Para muitas pessoas, a religião e a espiritualidade são recursos-chave que podem facilitar o seu crescimento. Para outros, são fontes de problemas que precisam ser abordadas durante o tratamento. Isso precisa ser compreendido pelos profissionais de saúde."
Entre as técnicas que estão sendo estudadas para essa abordagem estão programas, por exemplo, para ajudar pessoas divorciadas a lidar com amargura e raiva, ou vítimas de abuso sexual e mulheres com distúrbios alimentares.
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ESTUDOS SOBRE FÉ, ESPIRITUALIDADE E SAÚDE

Religião, espiritualidade e saúde física em pacientes com câncer
> Publicação: 2015, no periódico "Cancer"
> Resumo: A meta-análise congregou resultados obtidos com mais de 32 mil pacientes para concluir que a saúde física dos pacientes com câncer melhora com a experiência de religiosidade ou de espiritualidade. Isso ocorre mais pela relação emotiva do que por aquela mais racional com a religião/espiritualidade.

Caminhos distintos entre Religiosidade, Espiritualidade e Saúde
> Publicação: 2014, no periódico "Circulation"
> Resumo: Os autores do estudo propõem separar os efeitos na saúde física que poderiam ser atribuídos à religião e os que poderiam ser atribuídos à espiritualidade. A proposta é que a religião poderia fomentar hábitos saudáveis, enquanto a espiritualidade traria melhor equilíbrio emocional

Doenças mentais, religião e espiritualidade
> Publicação: 2013, no periódico "Journal of Religion and Health"
> Resumo: A meta-análise analisou 43 estudos do período entre 1990 e 2010 e viu que 72% deles mostram resultados positivos entre a dimensão espiritual/religiosa e a saúde física, especialmente para demência, depressão e dependência química. A Esquizofrenia e o transtorno bipolar não são afetados


Reportagem de Claudia Colucci, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Estreia de cineasta em longa capta inquietude da mudança

CRÍTICA CINEMA/DRAMA


Estreia de cineasta em longa capta inquietude da mudança


Sem sociologia barata, 'Aliyah' retrata obsessão de traficante para emigrar
PEDRO BUTCHERCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Alex (Pio Marmaï), jovem de família judia que mora em Paris, quer largar a vida de pequeno traficante de drogas e tentar a sorte em Israel. A chance aparece quando um primo lhe conta que vai abrir um restaurante em Tel Aviv.
Para se juntar ao primo, Alex precisa de duas coisas: passar por entrevistas realizadas pelo governo israelense, para comprovar seu comprometimento com o judaísmo (processo conhecido como "aliyah", que dá título ao filme e envolve testes básicos de hebraico e conhecimentos de cultura judaica) e levantar € 15 mil para entrar na sociedade do restaurante.
Uma das condições básicas para obter o visto de residência em Israel é não ter antecedentes criminais. Para juntar os € 15 mil, no entanto, ele precisa intensificar a atividade de traficante –e torcer para não ser pego.
Mas essa questão dramática (Alex será ou não será pego?) está longe de ser o principal fio de tensão do longa-metragem de estreia de Elie Wajeman. "Aliyah" não é um filme de suspense, apesar de o suspense fazer parte da teia de emoções que envolvem essa decisão obstinada de Alex.
Não serão o irmão problemático, vampiresco, que lhe chantageia emocionalmente e lhe rouba o dinheiro (interpretado pelo cineasta Cédric Kahn) nem a nova e sincera paixão pela jovem Jeanne (Adèle Haenel) que demoverão Alex de sua decisão, profundamente questionada pela família e pelos amigos.
Não há dado preciso que justifique a escolha de Alex por Israel. Não sabemos bem o que pesa mais para ele (o desejo de viver lá ou a vontade de deixar a França).
Mas entendemos seu desejo, que é o desejo de tantos: uma inquietude que, muitas vezes, não tem explicação e que torna os movimentos migratórios uma das forças mais incontroláveis da humanidade, para desespero das instituições de controle.
Elie Wajeman, estreante na direção de um longa (exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2012), conduz com correção esse mergulho na alma do personagem, sem psicologismos ou sociologia baratos.
O filme pode não ter revelado um gênio, mas traz, sem dúvidas, um diretor com controle sobre as ferramentas de linguagem e sobretudo um bom diretor de atores. Uma estreia respeitável e um nome a se ficar de olho, enfim.

ALIYAH
DIREÇÃO Elie Wajeman
ELENCO Pio Marmaï, Cédric Kahn, Adèle Haenel
PRODUÇÃO França, 2012, 16 anos
QUANDO estreia nesta quinta (23)
AVALIAÇÃO bom 


Reprodução da Folha de São Paulo

sábado, 29 de novembro de 2014

Vilarejo do Nepal inicia sacrifício de animais apesar de protestos

Vilarejo do Nepal inicia sacrifício de animais apesar de protestos

Quase 300 mil foram decapitados ou degolados em festival em 2009
Hinduístas do Nepal iniciaram o sacrifício de centenas de animais nesta sexta-feira em um vilarejo remoto do país em homenagem à deusa Gadhimai, apesar dos protestos de uma ONG. O vilarejo de Bariyapur, perto da fronteira com a Índia, será o maior matadouro do mundo durante os dois dias do ritual, com o sacrifício de vários animais, de búfalos a ratos. "É (um evento) festivo, todos estão entusiasmados", afirmou o sacerdote Mangal Chaudhary no templo dedicado à deusa Gadhimai, onde acontecem os sacrifícios.

Após três horas de viagem para chegar ao local, o camponês Sita Ram Yadav afirmou que o ambiente era parecido ao de um carnaval, com a presença de milhares de fiéis. "Eu ofereço uma cabra a Gadhimai para que proteja a minha família. Se você acredita nela, atende os seus desejos". A festa começou à meia-noite e conta com um grande dispositivo policial: 1,2 mil agentes para vigiar a multidão. 

Os defensores dos animais acusam as autoridades do templo de "aproveitar-se da crença das pessoas" para levar o dinheiro dos fiéis, com o alto preço de entrada ou de estacionamento.

A denúncia foi feita por Manoj Gautan, presidente da Rede de Proteção do Bem-Estar Animal do Nepal, que está em Bariyapur para protestar contra o ritual. Quase 300 mil animais foram decapitados ou degolados na edição anterior do festival, em 2009.

Para exigir a proibição da festa, a ONG iniciou uma campanha que conta com o apoio da atriz britânica Joanna Lumley e da francesa Brigitte Bardot, que escreveu a Gautan para pedir o fim do que chamou de uma "tradição cruel".

Reprodução do Correio do Povo

sábado, 15 de novembro de 2014

Número de protestantes aumenta em países latinos

Número de protestantes aumenta em países latinos

Apesar de papa, Igreja Católica perde fiéis
DE SÃO PAULO

A escolha do argentino Jorge Bergoglio como papa Francisco não mudou o cenário de crescimento do número de protestantes e queda no de católicos na América Latina, segundo estudo do Centro Pew Research divulgado nesta quinta-feira (13).
Segundo o levantamento, 69% da população da região é católica, 19% protestante e 8% seguem outras religiões. Outros 4% disseram que não têm religião ou não seguem nenhuma denominação.
A pesquisa mostra que a maior parte dos protestantes na região teve formação católica. Apenas 9% dos entrevistados foram doutrinados no protestantismo, enquanto 84% no catolicismo.
Nos últimos anos, a migração do catolicismo para o protestantismo foi maior na Nicarágua, seguida por Uruguai e Brasil. Guatemala e Honduras têm a maior parcela de protestantes (41%), um ponto a mais que a Nicarágua.
Na América do Sul, onde a presença da Igreja Católica é maior, o Brasil é o país com a maior proporção de protestantes, com 26%, e o Paraguai tem a menor, com 8%.
A maioria dos novos protestantes está filiada a denominações de origem pentecostal, como a Assembleia de Deus e a Igreja Universal do Reino de Deus.
Entre os principais motivos para a mudança, está a busca por um contato mais próximo com Deus e a maior atração que o tipo de culto do protestantismo oferece.
Também há uma grande parcela dos católicos que seguem a vertente carismática.
O distanciamento da hierarquia católica dos fiéis é uma das principais críticas do papa Francisco, que assumiu no ano passado o comando do Vaticano.
A pesquisa foi feita com 30 mil pessoas em 18 países latino-americanos e em Porto Rico. As amostragens foram ponderadas de acordo com a representação de cada país na população geral.

CONSERVADORES

A maioria dos protestantes latinos rejeita o casamento gay e o aborto, sendo que em 12 territórios a parcela supera os 80%. Só no Uruguai as medidas são aceitas pela maioria da população geral.
Embora sejam contrários a essas questões polêmicas, protestantes em dez países desaprovam a influência de religiosos na política. No Brasil, ela é aprovada por 55% dos evangélicos.


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Igreja atrai rebanho jovem e urbano


Igreja atrai rebanho jovem e urbano

Por MICHAEL PAULSON

LOS ANGELES - Um australiano musculoso e bronzeado, de 32 anos, com a palavra "faith" ("fé") tatuadas no bíceps, caminhou até o palco de um antigo teatro burlesco e gritou para o mar de braços esticados e celulares erguidos: "Vamos conquistar esta cidade juntos!".
Jovem, diversificada e devota de Jesus, a plateia do Belasco Theater havia saído de toda a cidade, e de todo o país, com a intenção de ajudar uma megaigreja pentecostal australiana a estabelecer seu primeiro posto avançado na Costa Oeste dos Estados Unidos, como parte do seu avanço mundial.
A igreja Hillsong tornou-se um fenômeno aproveitando -e inclusive moldando- as tendências de crescimento do cristianismo evangélico e da cultura jovem cristã. Seu sucesso já seria bastante incomum numa época em que as religiões estão em baixa na Europa e na América do Norte, onde o laicismo prevalece. Mas a Hillsong é surpreendente por ter como público-alvo os cristãos das grandes cidades, onde a fé parece fora de moda, e ainda assim ter seus cultos lotados.
Energizada por uma próspera e lucrativa gravadora que domina a música gospel contemporânea, a Hillsong tem uma vasta abrangência -segundo estimativas, contabiliza 100 mil pessoas nos seus templos a cada fim de semana, 10 milhões de seguidores nas redes sociais e 16 milhões de álbuns vendidos, com músicas bombando em igrejas do Uzbequistão a Papua-Nova Guiné.
Fundada há 30 anos, a Hillsong tem templos em Amsterdã, Barcelona, Berlim, Cidade do Cabo, Copenhague, Kiev, Londres, Nova York, Paris, Estocolmo, Austrália e, agora, Los Angeles.
"Sem dúvida alguma, são os produtores mais influentes de músicas de louvor", disse Fred Markert, líder no Colorado da organização cristã Jovens Com Uma Missão. Mas seus críticos, e há muitos, ridicularizam a Hillsong, tachando-a de cristianismo para hipsters, sugerindo que sua teologia é rasa, que seu entusiasmo por celebridades é inapropriado (Justin Bieber está entre seus fãs) e que suas posturas (oposição ao aborto e uma posição obscura sobre a homossexualidade) são opacas. "O que diferencia a Hillsong é a minimização do real conteúdo do Evangelho e uma apresentação bem mais difusa da espiritualidade", disse R. Albert Mohler Jr., do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky.
Para jovens cristãos em cidades onde a Hillsong possui templos, a entidade tornou-se um ímã, combinando a produção de um show de rock, a energia de uma casa noturna e a comunhão de uma megaigreja. Muitos fiéis se dizem atraídos pela música, mas ficam nos cultos para manter contato com outros jovens cristãos e porque acreditam que as igrejas podem ajudar a transformar as cidades por meio da oração e dos serviços sociais.
"Quero fazer parte de algo maior do que eu", disse Tricia Hidalgo, 29, que contou ter ouvido pela primeira vez as músicas da Hillsong na igreja que frequentava quando criança em Ontario, na Califórnia, e que largou o curso de magistério para se mudar para a Austrália e frequentar a escola bíblica da Hillsong.
Agora, Hidalgo é voluntária na igreja de Los Angeles.
A Hillsong é exemplo de um fenômeno crescente no cristianismo global: grandes igrejas com "marcas" fortes, dominando metrópoles laicas.
"Historicamente os evangélicos eram pessoas do campo, e as cidades eram os lugares onde morava o pecado", disse Ed Stetzer, do instituto LifeWay Research, de Nashville, que estuda práticas cristãs nos Estados Unidos. "Mas as cidades também são os lugares onde as pessoas estão."
A Hillsong, fundada por Brian Houston e sua mulher, Bobbie, é antiaborto e considera pecaminosas as relações sexuais entre gays. Mas, recentemente, seus líderes moderaram o tom.
Nos EUA, a Hillsong é uma igreja independente. Na Austrália, está associada às Igrejas Cristãs Australianas, que por sua vez são afiliadas às Assembleias de Deus. Por um período, Houston comandou a denominação.
Em 2000, Brian demitiu seu pai, Frank Houston, que estava colaborando com outra igreja, depois que Frank admitiu ter molestado um garoto décadas antes. Um dos filhos de Brian, Joel, é diretor de criação da Hillsong e pastor na filial de Nova York. Outro filho, Ben, é o pastor da Hillsong em Los Angeles -é ele que tem a palavra "fé" tatuada no braço.
Os cultos são normalmente realizados em casas de show com pouca luz. Há filas para entrar. Tom Wagner, um etnomusicólogo da Universidade de Edimburgo, disse que a música da Hillsong se caracteriza por uma orquestração rica, mas com harmonias simples.
"Eles são muito bons em compor músicas que pegam", disse. "Sabem o que funciona."


Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Por que a religião não é saída?


Por que a religião não é mais uma saída? Afirmei há algumas semanas nesta coluna ("O Impasse Conservador", de 11 de agosto) que a religião não era mais saída. Muitos leitores me perguntaram o que eu queria dizer com isso.
No contexto do pensamento conservador é muito comum associar tradições religiosas à defesa do hábito como instrumento contra os excessos do "racionalismo político" herdeiro da Revolução Francesa e sua "engenharia social".
Muitos conservadores (mas, evidentemente, não todos) são religiosos ou defendem uma adesão religiosa de alguma forma. Entendem que a vida pautada por alguma tradição religiosa responde a uma necessidade profunda do ser humano e que, portanto, o anticlericalismo iluminista francês atrapalha o homem quando o faz pensar que a religião seria atraso de vida ou coisa de gente estúpida ou ignorante.
Voltaire, por exemplo, típico iluminista do século 18 francês, via a religião como uma superstição das trevas. A crítica de Voltaire se aplicaria bem ao caso do Estado Islâmico no Iraque e seus horrores como cortar cabeças e clitóris.
Sei que muitas pessoas inteligentes são religiosas e que não se pode afirmar definitivamente nada sobre a existência de figuras como o Deus israelita, que o cristianismo abraçou na figura de Cristo. Vejo muitas das tradições religiosas do mundo como grandes exemplos de sabedoria. Nem tudo é o Estado Islâmico em religião.
Como dizia Chesterton, autor inglês do início do século 20, não há problema em deixar de acreditar em Deus; o problema é que normalmente passa-se a acreditar em qualquer bobagem como história, política, ciência, ou, pior, em si mesmo, como forma de salvação. Eu acho que não há salvação para o homem.
Existe também a literatura mística que descreve experiências diretas de Deus e que é marcada por grandes transformações na vida dessas pessoas, muitas vezes de modo enriquecedor. Sou um leitor apaixonado dessa tradição.
Mas, então, por que digo que a religião não é saída? Antes de tudo para mim, pessoalmente. Não nasci com o órgão da fé, como dizia o filósofo Cioran no século 20. Mas, de modo mais amplo, entendo que as religiões no mundo contemporâneo ou se acomodam aos ditames da sociedade de mercado e viram mais ou menos produtos dela (e acabam ficando meio inócuas), ou entram em choque com o mundo contemporâneo e caem na tentação fundamentalista.
Existem tipos de religião. Um deles é a "nova era", forma de espiritualidade ao portador, com alto poder de consumo e baixíssimo comprometimento, do tipo "budismo light". Vai bem com vinho branco no calor. Também há o tipo de religião nas redes sociais --vai bem com Coca Zero.
Outro é a adesão "dura", que muitos chamam de fundamentalismos. Podem ter viés político, como no Oriente Médio, ou os católicos comunistas da América Latina (que reclamam do capitalismo e viram MST), ou moral, como no caso dos evangélicos. Ou mesmo os católicos "praticantes".
Há também os sensíveis e cultos, que podem deixar qualquer ateu chocado com como são mais inteligentes do que os ateus militantes (um tipo basicamente chato).
Há também os que creem em "transes", do kardecismo doutrinário, meio sem graça, aos cultos afro-brasileiros, mais interessantes e "coloridos". Claro, há também os conversos às religiões orientais, que, na maioria das vezes, têm baixo comprometimento ou viram monges de adesão "dura".
Há também os que entendem que as religiões falam todas a mesma coisa: amor, generosidade, compreensão. A ideia é boa, mas não é verdade. Na prática, as religiões não falam a mesma coisa. Por exemplo, um judeu e um cristão podem concordar sobre como a guerra é ruim, mas é melhor que não discutam sobre se Jesus é ou não o messias.
No mundo contemporâneo, uma religião, para ser bem-comportada, tem que se submeter à lógica do Estado democrático laico, como diria John Stuart Mill no início do século 19. Por isso, deve "baixar a bola" e entrar na competição do "mercado de sentido da vida" e jamais questionar a sociedade laica. Se o fizer, cai na tentação fundamentalista. Um beco sem saída.

Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Conheça o imã gay da Europa

Um imã muçulmano francês homossexual está espalhando a mensagem da religião e da tolerância na Europa. Além de inaugurar uma mesquita simpática aos gays em Paris, ele também casou recentemente um casal de lésbicas na Suécia.
Ludovic Mohamed Zahed come uma salada de camarão enquanto conta sua história em um restaurante de Estocolmo. A viagem para a Suécia foi longa e ele parece um pouco cansado.
Nascidos na Argélia, os pais de Zahed se mudaram para a França quando ele ainda era criança. Quando foi para a escola pela primeira vez, a professora perguntou se ele era menino ou menina. Ele era uma criança delicada, magra, tímida e afável. Zahed se lembra de ouvir seu pai dizer que ele era um "veado", uma menininha chorosa. Então, seu pai se calou. Ele nunca mais olhou para Zahed nem falou mais com ele.
Zahed se perguntou qual era a missão que ele tinha vindo fazer na Terra. Quem era ele? Estava cheio de dúvidas quanto a si mesmo. Em busca de respostas, ele foi a uma mesquita aos 12 anos.
O Islã, Zahed aprendeu, fornecia respostas para todas as perguntas. O Alcorão é um livro sobre o qual não pode haver dúvidas. Allah supera toda resistência. Como muçulmano, você é um estudante do Islã e sua missão na vida é louvar a Deus.
Zahed leu o Alcorão e se tornou um membro de uma irmandade salafista. Ele rezava cinco vezes por dia e apreciava as respostas que recebia bem como o apoio. Zahed decidiu que queria se tornar um imã, um estudioso do Islã, e que queria estudar em Meca.

Camaradagem

A camaradagem entre os salafistas significava tudo para ele. Os jovens rezavam lado a lado e formavam um muro que protegia a todos. Zahed se sentia realizado na companhia. Ele rezava com devoção e até sentia que havia momentos em que ele sentia o significado de estar iluminado. Isso é Deus, ele pensou.
Um de seus irmãos na fraternidade se chamava Jibril. Ele tinha olhos pretos, pele escura e cabelos grossos e brilhantes. Zahed dormia ao lado dele, com a testa encostada na sua. Eles diziam um ao outro: "Uhibbuk fi-Allah" ("eu te amo por Alá").
Aos 17 anos, Zahed dormia em um quarto com Jibril e ficou acordado à noite observando-o. Ele amava Jibril por Alá, mas de uma forma que também era diferente de seu amor por outros salafistas.
Ele então falou com Jibril e com seus outros irmãos muçulmanos sobre esse desejo. Jibril disse que não poderia ser assim.
Pouco tempo depois, a família de Zahed se mudou para Marselha. Ele estudou para as provas de admissão na universidade, raspou a barba e parou de rezar, voltando-se para as festas e drogas. Ele também teve um relacionamento com um homem que o traiu e depois foi infectado por HIV. Olhando para trás hoje, ele diz que estava perdido naquela época.

Saindo do armário

Ele chamou seus pais em seu quarto e contou a eles que era gay. Sua mãe chorou, seu pai olhou para ele novamente pela primeira vez em muito tempo e disse: "nós sabíamos". Sua mãe não conseguiu parar de chorar, o que fez com que seu pai dissesse: "ele tentou mudar durante os últimos 15 anos, então temos de aceitá-lo". Ele então sorriu para o filho.
Até hoje, Zahed não entende totalmente o que aconteceu para fazer seu pai mudar de ideia.
Zahed estudou psicologia e antropologia e começou a trabalhar para uma organização de ajuda. Aos 30, ele fez uma viagem a trabalho para o Paquistão e refletiu pela primeira vez na vida se era uma boa pessoa ou não. Pouco tempo depois, no quarto do hotel, caiu de joelhos e começou a rezar.
Ele também começou a ler o Alcorão novamente. Ele não encontrou nenhuma sura que condenasse a homossexualidade. O que ele encontrou, contudo, foram inúmeros poemas homoeróticos na literatura árabe clássica. Ele então fundou a HM2F, uma associação para gays e lésbicas muçulmanos na França.
Há dois anos, quando ficou sabendo que nenhum imã enterraria um transexual muçulmano que havia morrido na França, Zahed fundou uma mesquita em Paris. Ele queria que fosse um lugar onde todas as pessoas pudessem encontrar um imã que as tratasse com dignidade, fizesse enterros e casamentos e oferecesse a elas uma sensação de pertencimento, independentemente de elas amarem homens ou mulheres. Ele também encontrou um parceiro e os dois foram casados por um imã amigo.

Uma voz de tolerância

Hoje, Zahed está com 37 anos. Ele viaja pelo mundo dando aulas sobre a homossexualidade no Islã. Está na Suécia para realizar uma cerimônia de casamento de um casal de lésbicas.
Sua viagem foi paga pela 7-Eleven, e o casamento aconteceu na manhã seguinte à que ele chegou, na frente de uma franquia da loja de conveniência, enfeitada com flores. O sol brilhava, o perfume das flores enchia o ar e Zahed sorriu.
Mas na noite anterior, Zahed havia confessado que estava preocupado com seu próprio casamento, uma vez que seu marido tinha saído de casa de mudança poucos dias antes. Ele diz que seu pai disse ao telefone: "casais se separam. Isso é normal, meu filho. Não tem nada a ver com a sua homossexualidade". Foi a primeira vez que o pai de Zahed usou a palavra "homossexualidade".
A vida de Zahed não é perfeita. Ele está doente, sente falta de seu marido e não encontrou as respostas para tudo na vida. Ainda assim, pelo menos agora ele sabe quem é. Zahed conseguiu uma aproximação com sua família e encontrou sua fé. Talvez os melhores momentos de sua vida ainda estejam por vir.
Durante a cerimônia de casamento na Suécia, ele deu sua bênção e cantou as primeiras suras do Alcorão. Elas terminam com as palavras: "Mantenha-nos no caminho certo. O caminho daqueles a quem agraciaste. Não daqueles a quem Tua ira derrubou nem daqueles que se perdem."
O casal começou a chorar. Zahed olhou para as pessoas reunidas e disse: "vocês podem aplaudir --ou fazer o que quiserem". 

Reportagem de Takis Würger, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: Eloise De Vylder

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Mundo árabe acompanha trágico êxodo de sua população cristã


Pela primeira vez em quase 2.000 anos, praticamente não existem mais cristãos na cidade antiga de Mossul, no norte do Iraque, um dos primeiros locais de implantação do cristianismo. Esse é só mais um passo em uma tragédia que nada nos últimos 30 anos parece conseguir deter: a extinção dos cristãos nessa parte do Oriente Médio que viu surgir o segundo grande monoteísmo.
Esse desaparecimento vem ocorrendo em meio à indiferença e à impotência, sobretudo da União Europeia. Uma parte da História está sendo apagada, carregada pela tormenta desse século, em um Oriente Médio sujeito a uma crise aguda de declínio político-religioso.
As notícias de Mossul, que costumava abrigar uma comunidade de 5.000 a 25 mil cristãos, são mais do que entristecedoras. A cidade, assim como todos os antigos vilarejos assírios-caldeus das cercanias, caiu nas mãos do "Estado Islâmico" --o "califado" decretado pelos jihadistas que se apropriaram de parte do Iraque e da Síria.
Os jihadistas desenharam um "N" --de "nassarah", cristãos em árabe-- em cada casa visada. Através de panfletos e alto-falantes, os milicianos deram algumas horas aos cristãos para escolherem: converter-se ao islamismo, pagar um imposto especial para não-muçulmanos ou ir embora. As casas foram "confiscadas".
Os cristãos fugiram de Mossul e dos vilarejos dos arredores. No último posto de controle antes do Curdistão vizinho, os jihadistas "pegaram dinheiro, joias, telefones e até as bolsas de roupas e de comida", contaram os refugiados ao enviado especial do "Le Monde". O Vaticano acredita que os jihadistas tenham incendiado o arcebispado siríaco de Mossul.

Com exceção do Líbano, a região inteira está perdendo suas minorias cristãs

Por generosidade do povo das montanhas, pelo senso tradicional de hospitalidade ou por solidariedade de ex-perseguidos, os curdos, muçulmanos sunitas, têm acolhido os cristãos do Iraque. Irbil, a capital do governo regional do Curdistão do Iraque (GRC), é provavelmente a última cidade do Levante onde se constroem igrejas.
De passagem por Paris, Fouad Hussein, diretor de gabinete do presidente do Curdistão do Iraque, Massoud Barzani, observou que o GRC não recebia nenhuma ajuda por sua hospitalidade --seja da ONU, do Vaticano ou da União Europeia.
O exílio dessas famílias de Mossul é o último episódio do drama vivido pela população cristã do Iraque, uma das mais antigas da região. Segundo várias estimativas, o Iraque contaria com quase um 1,5 milhão de cristãos no final dos anos 1980 (entre 20 milhões de habitantes).
Os anos de embargo da ONU levaram muitos deles a imigrar. Em 2003, no momento da intervenção norte-americana, eles não passavam de 800 mil. Considerados "pró-americanos", eles seriam o alvo privilegiado de atos de violência cometidos em nome da luta contra o ocupante. E hoje, eles são quantos? Talvez ainda algumas dezenas de milhares.
Com exceção do Líbano, é toda a região que tem perdido suas minorias cristãs, vítimas da ascensão do islamismo político, das guerras que devastam o mundo árabe, forçadas ao exílio pelas dificuldades econômicas e por um clima político marcado pela intolerância e pelo fanatismo.
Os árabes cristãos não são as únicas vítimas desse expurgo religioso: é todo o mundo árabe que está sendo amputado.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Francisco é o primeiro papa a visitar igreja evangélica pentecostal


Francisco é o primeiro papa a visitar igreja evangélica pentecostal

Pontífice pede desculpas por perseguição a fiéis ocorrida durante o fascismo na Itália
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O papa Francisco tornou-se, nesta segunda-feira (28), o primeiro líder da Igreja Católica a fazer visita a uma igreja evangélica pentecostal --ramo do protestantismo considerado grande "competidor" dos católicos na disputa por novos fiéis no mundo.
Francisco viajou de helicóptero à cidade de Caserta, no sul da Itália, e foi à Igreja Evangélica da Reconciliação, cujo prédio ainda está em obras. O papa também se reuniu privadamente com o pastor evangélico Giovanni Traettino, amigo de longa data.
No sábado (26), o papa já tinha estado em Caserta para celebrar uma missa em honra à padroeira santa Ana, evento que reuniu aproximadamente 200 mil católicos.
Falando nesta segunda a cerca de 350 fiéis na igreja evangélica, o pontífice pediu desculpas pela perseguição católica aos pentecostais durante o regime fascista na Itália (1922-1943), quando a prática de sua fé era proibida.
"Entre os que perseguiam e denunciavam pentecostais, quase como se fossem pessoas loucas tentando destruir a raça [humana], havia também católicos", discursou.
"Eu sou o pastor dos católicos e peço o seu perdão por aqueles irmãos e irmãs católicos que não compreenderam e foram tentados pelo Diabo", acrescentou o papa.
Francisco também citou o ineditismo da visita. "Alguém vai se surpreender: O papa foi visitar os evangélicos?'. Mas ele foi ver seus irmãos."
O papa defendeu ainda a "unidade na diversidade" dentro do cristianismo. "O Espírito Santo cria diversidade na igreja. A diversidade é bela, mas o próprio Espírito Santo também cria unidade, para que a igreja esteja unida na diversidade: (...) uma diversidade reconciliadora."
O protestantismo pentecostal é uma corrente surgida nos EUA, no início do século 20, com ênfase na experiência direta de Deus por meio dos dons do Espírito Santo, como os de curar e de falar línguas desconhecidas.
Antecessores de Francisco no papado, como João Paulo 2º, já haviam pedido perdão pela perseguição a protestantes históricos depois da Reforma, a partir do século 16.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 16 de julho de 2014

China intensifica repressão a cultos

China intensifica repressão a cultos

POR ANDREW JACOBS

PEQUIM - Enquanto esperava o marido e o filho de sete anos em um McDonald's na cidade de Zhaoyuan, na província de Shandong, leste da China, Wu Shuoyan foi abordada por membros de uma seita cristã que tentaram convencê-la de forma agressiva a aderir à sua fé.
Após Wu se recusar a dar seu número de telefone, vários membros do grupo a espancaram até a morte, um ato brutal filmado com um telefone celular e amplamente divulgado na internet.
Embora a indignação chinesa inicialmente enfocasse os numerosos transeuntes que não ajudaram a mulher naquele dia, em maio, a mídia nacional posteriormente tentou redirecionar o clamor popular para o que o governo chama de "cultos malignos" -as duas dezenas de seitas religiosas ilegais frequentemente demonizadas pelas autoridades como coercitivas e perigosas.
Nas duas semanas seguintes ao assassinato, publicações sob controle estatal produziram uma série de artigos detalhando os supostos comportamentos predatórios da Igreja de Deus Todo-Poderoso, que é a do grupo culpado pelo ataque. A agência de notícias Xinhua informou que as autoridades haviam detido cerca de 1.500 membros do culto, mas aparentemente muitos deles tinham sido presos em 2012.
"Cultos religiosos recrutam e controlam os seguidores, inventando e disseminando superstições e heresias", declarou o Ministério de Segurança Pública no mês passado. Defensores de direitos humanos e alguns líderes religiosos dizem que a atual campanha contra cultos é equivocada e muitas vezes viola a lei chinesa.
No caso do Falun Gong, uma prática de meditação cujos membros chegaram a totalizar milhões, o mero fato de ter algum livreto do grupo é motivo para tratamento brutal por parte da polícia e prisão.
Teng Biao, advogado de defesa que representa membros do Falun Gong, disse que as detenções mais recentes têm motivação política. "Essas ações são para erradicar um grupo inteiro de seguidores, não apenas os que cometeram crimes", afirmou ele. Talvez o que mais assuste a liderança chinesa seja a determinação do grupo da Igreja de Deus Todo-Poderoso para dar fim ao "Grande Dragão Vermelho", uma referência ao Partido Comunista no poder.
Apesar de sua reputação por proselitismo coercitivo que críticos descrevem como lavagem mental, os membros da igreja não se notabilizam pela violência. Especialistas sugeriram que o assassinato recente foi obra de um indivíduo insano.
Durante uma confissão transmitida pela CCTV, o homem apontado como mentor do ataque, Zhang Lidong, disse que a vítima era um "espírito maligno" que merecia morrer. "Nós não tememos a lei, pois temos fé em Deus", afirmou.
Alguns especialistas dizem que a Deus Todo-Poderoso, também conhecida como Luz do Oriente, pode ter 1 milhão de membros na China. Membros da seita fundada em 1989 por Zhao Weishan acreditam que Deus voltou à Terra como uma mulher chinesa. Após a seita ser banida em 1995, Zhao supostamente fugiu para os EUA.
Líderes de muitas igrejas cristãs condenam a seita por seus ensinamentos e métodos de recrutamento. No entanto, certos líderes religiosos chineses temem que campanhas contra grupos heterodoxos atinjam todas as congregações malvistas pelo Partido Comunista.
No passado, os advogados que se ofereciam para representar os acusados de atuar em seitas eram perseguidos.
O advogado Wang Quanzhang ficou preso vários dias no ano passado depois que um tribunal o acusou de perturbar o julgamento de um réu ligado ao Falun Gong.
"As pessoas não deveriam ser presas por causa de suas crenças", opinou Wang. "Mas se houver prova, por exemplo, de que alguém de fato matou ou feriu outra pessoa, então deve haver um processo legal."


Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

terça-feira, 10 de junho de 2014

Cresce hostilidade contra igrejas cristãs na China

Cresce hostilidade contra igrejas cristãs na China
Por IAN JOHNSON

WENZHOU, China - Por quase um ano, o orgulho da crescente população cristã em Sanjiang, subúrbio no norte da cidade, era uma igreja cuja torre de 55 metros se destacava contra um promontório rochoso. Wenzhou, conhecida como a "Jerusalém da China" devido às várias igrejas espalhadas pela cidade, era notória pelas relações descontraídas entre igreja e Estado. Funcionários municipais elogiavam a igreja como um projeto exemplar.
Mas, nesta primavera, o governo ordenou que a igreja fosse demolida, sob a alegação de que ela violava regras do zoneamento urbano. Após o fracasso das negociações, tratores e picaretas derrubaram as paredes da igreja em 28 de abril. Depois, sua torre.
"As pessoas ficaram estupefatas", comentou uma frequentadora da congregação, que pediu para ser identificada apenas por seu nome em inglês, Mabel, por temer represálias do governo. "Elas perderam totalmente a fé nas autoridades religiosas locais."
Essa área urbana no leste da China, com 9 milhões de habitantes e situada entre montanhas acidentadas e um litoral recortado, virou o centro de uma batalha nacional com o Partido Comunista, cada vez mais desconfiado do cristianismo e dos valores ocidentais que ele representa.
Desde março, pelo menos uma dezena de congregações na província de Zhejiang receberam ordens de demolir as igrejas ou retirar suas cruzes, escalada significativa de uma campanha do partido para restringir a influência de uma religião em rápida expansão na China.
O governo afirmou que as igrejas violavam restrições de zoneamento urbano. No entanto, um documento interno do governo deixa claro que as demolições fazem parte de uma estratégia para reduzir a exposição pública do cristianismo. A declaração diz que o governo visa regular "pontos religiosos excessivos" e atividades religiosas "demasiadamente populares", porém especifica apenas uma religião, o cristianismo, e um símbolo, a cruz.
"A prioridade é tirar as cruzes de locais com atividade religiosa ao lado de vias expressas e rodovias nacionais e de províncias", cita o documento. "Gradualmente e em lotes, retirem as cruzes do alto para a fachada dos edifícios."
A demolição da igreja de Sanjiang atraiu atenção nacional porque era oficialmente aprovada e também devido ao fato de que o secretário do partido na província, aliado do presidente Xi Jinping, teve um papel em sua destruição. O caso provocou a reação até de círculos religiosos controlados pelo governo.
Gao Ying, reitor do Seminário Teológico Yanjing, em Pequim, disse: "A Igreja de Sanjiang era uma congregação legalmente registrada e merecia um tratamento melhor". Mayfair Yang, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, comentou: "À medida que se fortalece, o cristianismo incomoda outras religiões".
Essas outras religiões estão ganhando cada vez mais apoio do Partido Comunista. Em março, Xi elogiou o budismo por suas contribuições para a China. Em uma visita à cidade natal de Confúcio no ano passado, ele pegou dois livros sobre confucionismo e, em uma reviravolta em relação ao longo antagonismo do partido, deu um aval raro: "Eu preciso ler esses livros com muita atenção".
Embora as igrejas na China se mantenham principalmente com recursos privados -a de Sanjiang foi construída com US$ 5,5 milhões de doações-, pontos religiosos tradicionais vêm se expandindo com forte apoio governamental.
O governo também mudou sua visão sobre práticas religiosas nativas. Uma década atrás, o Partido Comunista condenou a quiromancia e o feng shui como "superstições feudais". Agora, ambos são protegidos por programas do governo que apoiam "o patrimônio cultural intangível" do país.
Alguns membros do governo consideram o cristianismo um vestígio colonial que não se coaduna com o controle do partido sobre a vida política e social.
Aparentemente, os problemas da igreja começaram em outubro, quando Xia Baolong, aliado próximo do presidente Xi, visitou a região. Ao que consta, Xia se perturbou ao ver um edifício de uma religião estrangeira dominando a linha do horizonte. Conforme relatos de membros da igreja, no mês seguinte veio a ordem para que retirassem a cruz.
O acordo em 2011 para a construção da igreja foi assinado pela congregação e pelo comitê local de assuntos religiosos. Diante do clamor atual, esse comitê, que representa o governo, agora afirma que tudo não passou de um problema interno do governo e que a igreja ficou maior do que o planejado. No entanto, funcionários municipais e membros da congregação opinam igualmente que essa violação foi estimulada pelo governo.
Um funcionário do comitê de assuntos religiosos reconheceu que "funcionários municipais disseram que a igreja podia ser maior, mas isso provavelmente foi um erro".
O governo da província anunciou em maio que prendeu dois funcionários municipais de Wenzhou e que estava investigando outros três. Ao que consta, eles são acusados de terem aprovado a localização e o tamanho da igreja.