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domingo, 10 de setembro de 2023

Sinais exalados


Uma cena neobrasileira. À beira da piscina do condomínio, o pacato vizinho, membro da classe médica, comenta à boca pequena: "Vejam o que fizeram com o homem...é a máfia!" Todos se conhecem, mas o silêncio que se segue é constrangedor. Antes, aparentemente, concordariam, não mais. O "homem" é o ex-mandatário, a "máfia" abrange entidades republicanas como o Supremo Tribunal Federal, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal. No noticiário desfilam acusações gravíssimas, que a alma condominial, cognitivamente dissonante, suprime para metaforizar a República como Don Corleone.

Esse episódio corriqueiro, mas recorrente, é pretexto para observar a vida no seu acontecer específico e tentar trazer à luz aspectos originais do fenômeno da desorientação política, sem o automatismo das categorias normalmente usadas nas ciências históricas. A singularidade da vida pessoal comporta situações e manifestações irredutíveis às objetivações das estruturas sociais. Ignorância, ódio e interesses de classe são influentes fatores coletivos, porém é preciso voltar-se diretamente para a subjetividade enquanto vida histórica na recusa protofascista de enxergar a realidade.

Protofascismo não é exatamente nazifascismo instalado, e sim uma cesura social que penetra como estado de espírito no modo civilizatório. Na prática, uma síndrome análoga às afecções fronteiriças da personalidade que os psicanalistas conheceram como neurose de caráter e hoje se generaliza como "borderline". Um mal-estar ancorado em detalhes e pequenas causas. Sabe-se que, antes da Grande Guerra, os oficiais do exército inglês desprezavam Hitler, não porque fosse nazifascista, mas porque tinha sido cabo na vida militar e pintor de paredes na civil.

Raciocínio semelhante vale para o antilulismo figadal, aversão a um torneiro mecânico sem diploma superior. A confusão entre sindicalismo e revolucionarismo foi sempre má-fé interpretativa das elites. Igualmente, o argumento das pedaladas fiscais para o impeachment de Dilma, agora desmontado como razão de marmelo, foi fraseologia técnica para encobrir a urdidura parlamentar e a indignação senhorial pela PEC das Domésticas. Já o antipetismo entranhado na classe médica tem origem corporativista na vinda de profissionais cubanos.

Hoje como no passado, esquerdismo e comunismo são bichos-papões ideológicos de uma cidadania infantilizada. A subjetividade de largas frações de classes sociais orienta-se por preconceitos, firulas mesquinhas, não por fatores racionais. São sinais exalados de ruínas morais e ignorantismo chapado. Fanatismo não é, assim, insulto banal, mas justa caracterização da consciência protofascista. Não enxergar o real à frente, reduzindo o mundo a um clichê, é a sua lei suprema.


Texto de Muniz Sodré, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Por que os psicopatas genocidas não usam máscara?


Sempre me perguntam: “Será que os brasileiros ficarão melhores depois que a pandemia terminar?”

Sinceramente, não sei como responder. Gostaria de dizer que sim, que a tragédia que estamos vivendo provocou uma profunda transformação e seremos melhores no mundo pós-pandemia.

Mas, pelo que observo ao redor, não tenho muita esperança.

Sabe aquele amigo que só te procura quando precisa de algum “favorzinho”? E que quando recebe um sonoro não, reage indignado: “Nossa, como você é egoísta. São só cinco minutinhos. O que custa?”. E que, apesar de mais de 540 mil mortes, repete como um fanático negacionista que a Covid é só uma gripezinha?”

Conhece aquela amiga que só liga para reclamar que o restaurante favorito dela fechou e que está exausta de tanto procurar uma cozinheira? E se faz de vítima porque engordou dez quilos e o marido não quer mais transar? E se vangloria de ter tomado a Pfizer e “não a porcaria da vacina comunista”?

E o vizinho que grita “mito” quando todos estão batendo panelas? E entra no elevador sem máscara e te xinga de cagão pois acha frescura e mimimi cumprir as recomendações da ciência? E ainda faz festas barulhentas para atormentar os vizinhos?

Ou a cunhada que posta vídeos no grupo da família no WhatsApp exibindo a bunda no espelho: “A bundinha continua durinha apesar dos brochas e maricas”? E dissemina fake news sobre “a mamadeira de piroca” e discursos velhofóbicos: “Os velhos têm que morrer mesmo. Vai ser até bom para a previdência. Eles são um peso para o Brasil”?

E por aí vai. Eles se tornaram piores com a pandemia? Ou sempre foram assim?

Os psicopatas genocidas e seus cúmplices saíram do armário. Tiraram as máscaras e passaram a exibir a “pior versão de si mesmos”: egoístas, mesquinhos, mentirosos, covardes, desumanos, asquerosos, insensíveis, intolerantes, ignorantes, inúteis, tóxicos, destrutivos, preconceituosos, abusivos, violentos e sádicos. Eles fazem mal para a saúde e gozam com a dor dos brasileiros.

Estou fazendo uma “faxina ampla, geral e irrestrita” na minha vida e deletando todos os egoístas, inúteis, vampiros, parasitas e sanguessugas que só reclamam, odeiam e destroem; que se acham o centro do universo e só se preocupam com o próprio umbigo; e que não sabem escutar, compreender e cuidar de quem mais precisa.

Você com certeza conhece algum vampiro, não é mesmo? Se quiser falar sobre a “faxina pandêmica” que precisa fazer para se proteger dos que sugam a sua saúde física e emocional, prometo que não conto para ninguém.

Felizmente, tive a sorte de conhecer mulheres e homens maravilhosos que se tornaram parceiros no meu projeto de vida: construir uma bela velhice e lutar contra a velhofobia no Brasil. Eles escolheram ser “a melhor versão de si mesmos”: cuidam de muita gente; alimentam a alegria, o amor e a saúde dos amigos e familiares. Não gastam tempo com bobagens, reclamações e brigas, e buscam ter uma vida com significado. Eles me provaram que, apesar da proliferação dos psicopatas genocidas, existem brasileiros que valorizam a reciprocidade, o reconhecimento, a compreensão, o cuidado, a generosidade, o caráter e o propósito de vida. Eles me ensinaram a arte de “escutar bonito”.

Em um momento de tristeza, sofrimento e desesperança, sou grata por ter amigos e amores com quem posso compartilhar o meu mantra: “Unidos venceremos! Tamojuntos!”


Texto de Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Partido grego é acusado de ataques racistas e assassinatos

O relatório de 697 páginas do gabinete do procurador-geral parece um thriller. Mas ele trata de coisas que a população grega antes consideraria inconcebíveis. Ele pinta um quadro de um partido neonazista que ataca de forma aberta e vigorosa o sistema democrático, de uma forma não vista na Europa há décadas.

De forma direta ou indireta, o relatório acusa 69 membros ou simpatizantes do partido político Chrysi Avgi, ou Amanhecer Dourado –entre eles 16 membros do Parlamento grego– de participação em homicídio ou tentativa de homicídio, lesões corporais sérias, crimes de ódio violentos, roubo, chantagem ou incêndio criminoso. O procurador-geral Isidoros Dogiakos descreve em detalhes meticulosos as estruturas de uma organização criminosa que está sendo dirigida de dentro do Parlamento grego.

Oito parlamentares do partido atualmente estão detidos aguardando julgamento, incluindo o porta-voz e ideólogo-chefe do partido, Ilias Kasidiaris, além do chefe do partido, Nikos Machaloliakos. Outros três parlamentares estão atualmente sob prisão domiciliar, enquanto cinco outros estão proibidos de deixar o país. Os investigadores esperam levar o caso a julgamento no início do ano que vem.

'Todas as características de uma organização criminosa'

A determinação com que as autoridades da Justiça grega agora estão perseguindo os extremistas é nova. Por algum tempo, os políticos e a polícia davam de ombros diante dos ataques perpetrados contra estrangeiros, gays e críticos como sendo ações isoladas de indivíduos confusos. Mas a crescente brutalidade dos ataques levou a uma mudança de pensamento, com o momento da virada ocorrendo com o assassinato de um rapper antifascista, Pavlos Fyssas, há um ano.

O Amanhecer Dourado "exibe todas as características de uma organização criminosa", concluíram os investigadores em seu relatório. Particularmente característica é "a estrutura militar, a hierarquia absoluta", assim como a "obediência cega" aos comandos dados pela liderança do partido, declara o relatório, obtido recentemente pela "Spiegel". Nele, os investigadores dizem estar "certos" de que nenhum desses atos violentos teria ocorrido "se não tivessem sido ordenados e apoiados pela organização criminosa/partido, especialmente pelo seu alto comando".

Como exemplos, 11 atos de violência particularmente cruéis estão listados. Além de homicídios e tentativas de homicídio, eles incluem ataques a estrangeiros e ativistas de esquerda.

Em junho de 2012, por exemplo, os investigadores declaram que um grupo de bandidos do Amanhecer Dourado atacou uma casa em Perama, um subúrbio de Atenas, onde estavam quatro trabalhadores egípcios da indústria pesqueira. Os bandidos de direita feriram gravemente um dos homens e forçaram os outros a fugir. Um ano depois, eles atacaram membros comunistas de um sindicato trabalhista na mesma cidade. Em Vainia, na ilha de Creta, bandidos armados com madeira espancaram vários paquistaneses em seus lares.

Tropas de assalto moldadas segundo a SA nazista

Em grande parte, "tropas de assalto" do Amanhecer Dourado executam esses ataques de uma forma que lembra a SA nazista. Seus membros costumam usar uniformes negros e capacetes e também carregam bastões ou porretes semelhantes. Os investigadores do gabinete do procurador-geral também descobriram que as tropas de assalto recebem treinamento especial, comparável ao dado às "unidades de elite das forças armadas". Michaloliakos, o líder do partido, que é chamado de "Führer" dentro deste, em uma clara referência a Hitler, gosta de descrever as tropas de assalto como seu "exército disciplinado" e "coluna de ferro".

Grupos extremistas de direita violentos também existem em outros países europeus, mas o que diferencia o Amanhecer Dourado é o fato dele agora estar representado no Parlamento nacional há dois anos. Antes das eleições parlamentares gregas de 2012, o partido era uma organização pequena não levada a sério politicamente. Em outubro de 2009, ele obteve parcos 0,29% dos votos. Com tão poucos votos, por que alguém se importaria quando o "Führer" do Amanhecer Dourado proclamou abertamente sua admiração pelo Nacional-Socialismo?

O relatório dos investigadores alega que Michaloliakos disse no início de 2011: "Eu tenho um grande respeito pelo que a Alemanha de Hitler representava". Sete meses depois, ele teria dito: "Se precisarmos, nós sujaremos nossas mãos". Os investigadores também alegam que o líder do partido ameaçou um publisher contrário, dizendo: "Se houver justiça, então ele será pulverizado. Ele e seus filhos judeus".

Na época, entretanto, ninguém estava prestando atenção suficiente.

Então veio a crise da dívida. Os europeus intervieram com duras medidas de austeridade e, somadas ao aumento dramático do desemprego, os neonazistas se tornaram cada vez populares. Muitos votos de protesto dados ao partido vieram dos conservadores e de pessoas que sofreram em consequência da crise. Em junho de 2012, o Amanhecer Dourado entrou pela primeira vez no Parlamento, obtendo 18 cadeiras. Mesmo hoje, o partido ainda obtém 15% de apoio nas pesquisas.

Ataques crescentes

De repente, os neonazistas se tornaram políticos eleitos. Eles também realizaram o que prometeram. "Usando a proteção fornecida pela imunidade parlamentar", escreveram os investigadores, o Amanhecer Dourado começou a organizar combates de rua. O número de ataques cometidos por suas tropas de assalto e gangues de motociclistas cresceu rapidamente.

Os investigadores do gabinete da promotoria pública apontaram que os membros do Parlamento exerciam um papel especial nos eventos. Eles davam diretamente as "ordens ou aprovação final para as ações" por meio de células locais do partido. O relatório declara que os parlamentares fizeram repetidas vezes aparições como "líderes das tropas de assalto durante as ações violentas ou ilegais". Como exemplo, eles citam Rafina, onde, segundo reportagens na imprensa, os neonazistas realizaram uma "caminhada" pelo mercado municipal, batendo em comerciantes estrangeiros e destruindo bancas. Depois, o parlamentar Kostas Barbarousis alegou: "Nós impusemos a ordem".

Os promotores também alegam que os parlamentares aparecem com frequência nos tribunais e delegacias de polícia para "ajudar os infratores presos". Eles também se deixavam voluntariamente ser filmados, algo que agora volta para assombrá-los. Além de armas, os investigadores apreenderam vídeos, gravações de televisão, fotos e mensagens de texto. Os investigadores também estão analisando o conteúdo de grampos telefônicos e o depoimento de testemunhas.

Uma abordagem altamente organizada

O assassinato em setembro de 2013 de Fyssas, o cantor de esquerda, fornece um exemplo da abordagem altamente organizada dos criminosos de direita. Os investigadores descobriram que eles estavam observando o rapper famoso enquanto ele assistia uma partida de futebol em um bar em Pireu, junto com amigos. Os extremistas alertaram suas tropas de assalto por mensagem de texto e quando Fyssas e seus amigos deixaram o bar à meia-noite, "um grupo de 30 pessoas uniformizadas com bastões de madeira" aguardava por ele, segundo o relatório. Xingamentos e uma briga ocorreram em seguida, terminando no homicídio. "Enquanto dois ou três membros do Amanhecer Dourado batiam e seguravam Pavlos Fyssas, Georgios Roupakias o apunhalou duas vezes no coração e uma vez na perna", alega o relatório.

A polícia prendeu Roupakias, que prontamente reconheceu ser membro do Amanhecer Dourado. Uma testemunha alegou posteriormente que uma "ordem central do parlamentar Ioannis Lagos" foi dada para membros do partido "eliminarem" o músico, "assim que o encontrarem". O relatório alega que o ataque ocorreu com conhecimento do porta-voz do Amanhecer Dourado e com permissão de seu "Führer".

O fato de os neonazistas poderem desencadear sua ira por tanto tempo até as autoridades agirem também é um produto dos laços estreitos entre as forças de segurança do Estado e os políticos. Kasidiaris, o porta-voz do partido, por exemplo, gosta de conversar com o governo quando precisa de conselhos políticos. Os neonazistas até mesmo buscaram conselhos de Takis Baltakos, um ex-assessor do primeiro-ministro, sobre posições de votação de assuntos controversos. Ele também teve apoio do político quando a procuradoria-geral deu início à investigação do Amanhecer Dourado.

'Sem evidência, não há nada'

Durante uma reunião com Baltakos, Kasidiaris chamou o gabinete do procurador-geral de marionete do governo e também compartilhou comentários pejorativos sobre o promotor-chefe do caso. Baltakos concordou e o tranquilizou, segundo o relatório, dizendo que "sem evidência, não há nada". O significado pode muito bem ter sido: não se preocupe, você não tem nada a temer do governo. Baltakos também insultou o primeiro-ministro a certa altura na conversa. Kasidiaris gravou as conversas e posteriormente as tornou públicas.

Os extremistas de direita também desfrutam de grande apoio entre as forças de segurança. Nos locais de votação especiais para policiais, o partido obteve uma votação acima da média nacional, com até 20% dos votos em alguns locais. Muitos funcionários públicos eram membros do partido e participavam das atividades de direita do Amanhecer Dourado durante seu tempo livre.

Enquanto isso, um relatório do Escritório de Investigação Interna, que foi entregue ao gabinete do procurador-geral, documenta a ligação estreita entre policiais e extremistas em 130 casos. Os exemplos mostram que, em muitos lugares, a polícia sistematicamente se recusou a aceitar queixas prestadas por estrangeiros e que ela às vezes era paga pelo Amanhecer Dourado para agir assim. O documento também mostra como policiais insultavam racialmente refugiados, davam as costas durante ataques contra eles ou até mesmo participavam deles fora de seu horário de trabalho. No presídio de Amygdaleza, um funcionário, trabalhando em prol do Amanhecer Dourado, até mesmo documentava o espancamento dos presos estrangeiros. A "Spiegel" também obteve a lista desse e outros crimes semelhantes, que é tanto longa quanto perturbadora.

O procurador-geral agora espera fazer com que o Amanhecer Dourado seja extinto. O líder do partido e seus fiéis negam as alegações e falam em conspiração. Em uma entrevista dada na detenção, o porta-voz do partido, Kasidiaris, alegou recentemente que o relatório da investigação não fornece evidências, "absolutamente nada". Ele então descreveu o Amanhecer Dourado como "um partido que respeita a democracia".

Mas como um investigador rebateu, "verdadeiros democratas não precisam de armas".

Reportagem de Manfred Ertel, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato.

sábado, 11 de maio de 2013

Na Alemanha, cresce o número de seguranças particulares ligados à extrema direita



Apesar de as equipes do Borussia Dortmund e Schalke --da primeira divisão do futebol alemão-- terem sobrevivido ilesas a uma partida crucial no Signal Iduna Park no ano passado, um torcedor do clube tradicional da região do Ruhr teve menos sorte e acabou no hospital com uma concussão, costelas fraturadas e lesão na mandíbula.

O torcedor do Schalke sofreu seus ferimentos durante uma briga no banheiro do estádio. A polícia diz acreditar que o agressor seja um segurança do estádio de Dortmund que teria postado conteúdo de extrema direita na internet.

O suspeito nega a agressão, e os banheiros são uma das poucas áreas do estádio sem câmeras de segurança. Portanto, é a palavra dele contra a da vítima e, no final, caberá a um tribunal determinar a culpa.

Dado os rumores de que entre os seguranças da arena em Dortmund há extremistas de direita há muitos anos, o Borussia, o time campeão alemão, não viu outra opção após o ataque ao torcedor do Schalke a não ser conferir os certificados emitidos pela polícia para os seus seguranças.

Mas o incidente em Dortmund é sintomático de um problema maior que aflige os serviços de segurança da Alemanha. Uniformes, camaradagem masculina e oportunidade para exercer o poder tendem a provocar uma atração mágica sobre os neonazistas e outros extremistas de direita.
Além disso, é fácil demais ser contratado em um setor que é extremamente sensível. As autoridades do setor tomam as decisões de contratação, e a agência de inteligência doméstica alemã --o Escritório para a Proteção da Constituição, que opera nas esferas federal e estadual e é responsável pelo monitoramento de atividade extremista-- não costuma realizar nenhuma checagem de segurança.

Situação perigosa

Afinal, há uma demanda por músculos. O setor passa por um boom, com seguranças patrulhando eventos esportivos, concertos, shopping centers, parques de diversão e casas noturnas. Atualmente, há quase tantos seguranças particulares quanto policiais. Segundo a Associação Alemã dos Serviços de Segurança Particulares (BDSW), o setor emprega cerca de 180 mil pessoas, enquanto o volume de negócios no setor mais que dobrou desde meados dos anos 90.

As agências domésticas de inteligência são as mais bem posicionadas para avaliar quantos seguranças têm ligações com a extrema direita. Um relatório aponta que os serviços secretos no Estado alemão de Brandemburgo, no leste, observaram que "pessoas com laços com a cena de extrema direita cada vez mais buscam emprego ou abrem empresas no setor de segurança".

A situação está se tornando perigosa. O mesmo relatório publicado pelos serviços de inteligência de Brandemburgo tratou do "potencial significativo de conflito" gerado pela presença de seguranças neonazistas em lugares como albergues para pessoas que pedem asilo. Até mesmo os donos de algumas empresas de segurança ganharam notoriedade. A prefeitura de Walsrode, por exemplo, multou a empresa de segurança GAB em 1.200 euros após seus seguranças se tornarem agressivos em uma partida de futebol para a qual foram contratados para manter a paz. Entre os donos da empresa estão ex-Hells Angels e operadores de bordéis.

Em Wetterau, no Estado de Hessen, no oeste, dois seguranças contratados para a abertura de um novo museu da cultura celta foram identificados como ex-dirigentes do Partido Nacional Democrático (NPD) de extrema direita. Então, em dezembro, a empresa de varejo online Amazon contratou seguranças junto à empresa Hensel European Security Services (HESS) que apareciam para trabalhar vestindo roupas da grife Thor Steinar, que é popular entre os neonazistas. Patrick Hensel, o dono da HESS, argumentou que nunca lhe ocorreu que sua empresa compartilhava o nome do vice de Hitler, Rudolf Hess, e anunciou que o mudaria.

Em outro incidente, os seguranças de uma festa em um campus universitário em Dresden, em 2012, foram identificados como extremistas de direita. Verificou-se que um conhecido neonazista responsável pelo portal de internet "Irmandade Ariana" estava anunciando serviços de segurança --apesar de a Saxônia ser o único Estado alemão onde a inteligência costuma checar os candidatos a empregos no setor de segurança.

Necessidade de reforma

Mas tudo o que as regulamentações do setor exigem dos candidatos ao setor de segurança é informação fornecida pelo Registro Criminal Central Federal. As regulamentações mais abrangentes só se aplicam a cargos específicos, como seguranças de aeroportos e de reatores nucleares.

Diante dos desdobramentos recentes, vários políticos estão pedindo reformas. "As autoridades que emitem licenças para cada setor precisam ampliar sua cooperação com as agências de segurança domésticas dentro da estrutura legal existente ou precisamos mudar a lei, transferindo a responsabilidade para o Ministério do Interior", diz Hans-Peter Uhl, porta-voz de política doméstica do grupo conservador democrata-cristão no Parlamento federal, o Bundestag.

Michael Hartmann, um especialista em políticas domésticas do Partido Social Democrata de centro-esquerda, também acredita que uma "revisão rigorosa da 'integridade' dos seguranças é necessária, dado quão estreitamente eles trabalham com a polícia em grandes eventos".

Nem mesmo a Associação Alemã dos Serviços de Segurança Particulares faz objeções a controles mais rígidos.
"Checagem cuidadosa por parte das autoridades que emitem licenças é a única forma de os candidatos extremistas serem peneirados desde o início", disse Oliver Arning, da BDSW.


Reportagem de Andreas Ulrich, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor:
 George El Khouri Andolfato

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Deputado neonazista tenta atacar prefeito de Atenas e fere menina de 12 anos


Após seu partido - o neonazista Amanhecer Dourado - ser proibido de distribuir alimentos somente para gregos na praça Syntagma, o deputado Yorgos Germenis tentou atacar nesta quinta-feira o prefeito de Atenas, Yorgos Kaminis, e acabou ferindo uma menina de 12 anos na ação.

Segundo as testemunhas, o deputado Yorgos Germenis, baixista de um conhecido grupo de "black metal", entrou em mercearia social, onde era distribuído velas de Páscoa às crianças, e tentou atacar o prefeito, mas foi impedido pelos seguranças.
As mesmas testemunhas ressaltaram que, antes de ser expulso do local pelos seguranças, o deputado neonazista ainda tentou sacar sua arma. Em comunicado, a direção do partido negou os fatos, enquanto um porta-voz da polícia local explicou à Agência Efe que o caso já está sendo investigado.
"A democracia vencerá. A lógica da força bruta que vimos hoje em duas ocasiões, incluindo o incidente envolvendo o deputado, não passará impune", afirmou o prefeito de Atenas após o ataque.
A tensão entre a Prefeitura da capital grega e o Amanhecer Dourado se intensificou depois que a Polícia, por ordem da própria Prefeitura, proibisse um ato da formação na praça Syntagma, na qual o partido neonazista pretendia distribuir comida só para gregos para celebrar a Quinta-Feira Santa Ortodoxa.

Os integrantes do Amanhecer Dourado, ignorando os avisos da polícia, iniciaram a distribuição dos alimentos na praça citada, mas acabaram sendo coibidos pelas forças de segurança, que recorreram ao uso de gás lacrimogêneo para dispersar os neonazistas.

Após o incidente, Kaminis afirmou que essa proibição tinha sido uma "vitória da sociedade democrática" e lembrou que o partido neonazista não tinha de permissão para realizar o ato.

Em resposta a proibição, o partido neonazista convocou seus militantes para se reunir em sua sede central para dar continuidade a distribuição de alimentos "só para os gregos", uma ação que foi duramente criticada pelos religiosos ortodoxos da capital russa.

Notícia da AFP, no UOL.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Nazistas prosperam livremente em partes da Alemanha Oriental



A Alemanha prometeu reprimir extremistas de direita após a exposição de uma célula terrorista de extrema direita, no ano passado. Mas nas zonas rurais do Estado da Saxônia, no Leste, os neonazistas permanecem bem estabelecidos nos conselhos locais e continuam a intimidar as pessoas à vontade, sem nenhum impedimento por parte da polícia.
Maio de 2012, Saxônia: na cidade de Bautzen, dois homens agrediram um estudante colombiano, chutando-o e xingando-o. Em Hoyersweda, extremistas de direita cercaram o escritório de um membro do Bundestag, o parlamento alemão, quebrando janelas e atacando um funcionário. Em Limbach-Oberfrohna, neonazistas atacaram um centro de educação alternativa. Em Geithain, um dispositivo explosivo foi detonado em frente à Pizzeria Bollywood, um restaurante de propriedade de um paquistanês.
"O inferno é assim", disse Kerstin Krumbholz, 50, sentada em sua sala em Geithain, uma pequena cidade situada na Saxônia, no Leste da Alemanha. Espalhados sobre a mesa diante dela, estão artigos de jornais sobre neonazistas, propagandas e cartazes que registram o terrorismo de extrema direita que atormenta sua vida cotidianamente. "As pessoas que moram nas cidades não têm ideia do que está acontecendo aqui no interior", diz Krumbholz.
Ela e seu marido se mudaram para Geithain há 19 anos. Eles moravam em Leipzig, que fica em torno de 40 quilômetros de Geithain, mas quiseram que seus filhos crescessem em um ambiente seguro, livre de criminalidade e drogas, e longe dos perigos de uma cidade grande. Lutz Krumbholz é limpador de chaminés profissional, enquanto Kerstin Krumbholz cuida da contabilidade da companhia, e eles compartilham as responsabilidades da educação dos filhos.
Antes, Kerstin Krumbholz não sabia muito sobre o extremismo de direita, nada além do que escutava no noticiário. Coisas como um incêndio na casa que abriga aqueles que pedem asilo ou a entrada do Partido Nacional Democrático (NPD) em alguma câmara legislativa estadual.
Mas aquelas coisas tinham pouco a ver com suas próprias vidas -até que um neonazista feriu o filho dela de uma maneira tão grave que o menino quase morreu. Um extremista de direita atacou Florian, então com 15 anos de idade e membro da turma punk, num posto de gasolina em maio de 2010, fraturando seu crânio. Florian hoje vive com uma placa de titânio na cabeça e mudou-se de Geithain.
Sua mãe não era uma pessoa politizada antes do ataque a Florian, mas agora ela estuda blogs e fóruns na Internet de extrema direita, participa de manifestações e fundou um grupo chamado Iniciativa para que Geithain tenha a Mente Aberta. Krumbholz transformou a batalha contra os neonazistas no trabalho de sua vida –mas é uma batalha perdida aqui nesta zona rural da Saxônia.
"O que está acontecendo na Saxônia é um escândalo"
Sete meses se passaram desde que veio à tona que as autoridades alemãs por anos não souberam da existência de uma célula terrorista de extrema direita que se autodenominava "Nacional Socialismo Subterrâneo" (NSU) que assassinou 10 pessoas, na maior parte, imigrantes turcos, em uma onda de homicídios nacional que foi de 2000 até 2007. Quando este grupo, baseado em Zwickau, Saxônia, foi exposto, os políticos declararam sua intenção de reprimir e extirpar o problema da extrema direita, mas nada de concreto foi feito. "O que está acontecendo na Saxônia é um escândalo", diz Hajo Funke, cientista político em Berlim. Não há outro Estado alemão onde os neonazistas tiveram tanta influência, diz ele, acrescentando que o governo regional estava se recusando a agir contra eles.
Os membros da Iniciativa para que Geithain tenha a Mente Aberta reuniram-se hoje na prefeitura. Krumbholz convidou para o encontro Mohammad Sayal, o proprietário da Pizzeria Bollywood, restaurante local atacado no final de semana anterior. Sayal descreveu a violência que sofreu por parte dos neonazistas nos cinco meses desde que abriu seu restaurante. Na primeira noite mesmo, eles destruíram suas vitrines. Em maio, um grupo de 10 deles apareceu na frente do restaurante, usando máscaras e facas. Eles chutaram a porta, jogaram uma pedra na janela e gritaram "Seu estrangeiro de merda, vamos te pegar. Se você não sair daqui, vamos chutar você". Uma semana depois, um explosivo destruiu o restaurante.
Os assassinatos cometidos pelo NSU permaneceram sem resolução por tanto tempo em parte porque tanto as autoridades quanto o público assumiram que os assassinos vinham do mesmo segmento da sociedade que suas vítimas. Em Geithain, também, muitas pessoas alegam que não foram radicais de direita que atacaram o restaurante de Sayal, mas sim outros paquistaneses, reagindo a discordâncias por dinheiro ou brigas de família.
Neonazistas no conselho da cidade
Na Alemanha Oriental comunista, Geithain era o centro administrativo do distrito rural a sua volta. Esta foi uma região carvoeira, mas hoje apenas cerca de 6.000 moradores vivem em Geithain. A praça da cidade foi agradavelmente reformada desde a unificação, mas suas ruas permanecem vazias. Os jovens em busca de trabalho mudam-se para Leipzig, ou diretamente para o Oeste. Os partidos políticos estabelecidos reduziram sua presença aqui, enquanto os extremistas de direita expandiram sua influência, especialmente desde que o neonazista Manuel Tripp, membro do NPD, entrou para o conselho da cidade, em 2009.
Tripp, 23, estudou em Leipzig e transmite uma imagem de homem que cuida de seus eleitores. O povo de Geithain pode entrar em contato com ele a qualquer hora do dia, por meio de sua página na Web. Ele envia tweets sobre as reuniões do conselho da cidade e publica o "Geithain Mouthpiece", um jornal local com artigos sobre a falta de médicos no Leste da Alemanha, ou sobre o festival anual de caça. Ele trabalha em defesa do zoológico e, junto com outros de seu partido, organiza torneios de futebol e acampamentos onde as crianças podem caminhar pelo campo usando uniformes militares.
Suas verdadeiras motivações, contudo, surgem quando faz declarações que violam a constituição alemã, por exemplo: "O socialismo nacional não pode ser eleito ou implorado. Só pode ser alcançado pelo caminho da revolução". Tripp é uma figura importante na rede de grupos militantes de extrema direita "Free Network"(FN).
A FN surgiu de um grupo de neonazistas, a "Liga de Proteção da Pátria da Turíngia", que também inclui três terroristas do NSU. O ramo da FN da Saxônia é liderado por Maik Scheffer, que também é vice-líder do partido NPD no Estado. Scheffler tem um histórico criminal por dano corporal grave e por posse ilegal de arma.
Junto com Tripp, Scheffler conseguiu, no espaço de apenas alguns anos, estabelecer estruturas neonazistas firmemente enraizadas na região rural entre as cidades de Chemnitz e Leipzig. Ao mesmo tempo, os Kameradschafen estão expandindo sua influência. "Membros da FN estiveram repetidamente por trás de atos de terrorismo na Saxônia", diz Kerstin Köditz, do Partido da Esquerda, que analisa as tendências da extrema direita.
O Estado da Baviera está querendo banir a filial "FN Sul", mas aqui na Saxônia -o mesmo Estado onde o trio de assassinos do NSU pôde ficar por mais de 10 anos sem serem incomodados- o governo está fazendo corpo mole. O ministro do Interior da Saxônia, Markus Ulbig, da União Democrática Cristã, de centro direita (CDU), considera a FN nada mais do que um "portal da Internet", uma espécie de Facebook para nazistas. E o governador Stanislaw Tillich, também do CDU, afirmou que a Saxônia não tem um problema significativo com o extremismo de direita.
"Vai se ferrar, seu turco"
Enquanto Kerstin Krumbholz e outros membros da iniciativa antinazista estão discutindo a violência de extrema direita na cidade de Geithain, uma espécie diferente de reunião está ocorrendo na frente do posto de gasolina Total, nos limites da cidade. Aqui, os jovens estão jogando conversa fora e acelerando os motores dos carros, ouvindo rock neonazista alto e bebendo cerveja. Com o avanço da hora, chegam outros, alguns fazendo a saudação nazista. Se um cliente do posto olhar para eles um pouco mais demoradamente, eles gritam: "Merda de judeu porco, vou te chutar daqui!"
Na escola de ensino médio de Geithain, os extremistas de direita são tidos como os bacanas, os rebeldes. As crianças que rejeitam os neonazistas são recebidas no pátio da escola com "Heil Hitler" ou "Vai se ferrar, seu turco". Algumas das garotas usam filtro solar para desenhar suásticas em sua pele, quando viajam com a escola.
Qualquer um que se oponha a essa ideologia é intimidado e perseguido. Quando o jornalista investigativo alemão Günter Wallraf fez uma leitura em Geithain em abril, os neonazistas gritaram "Mandem Wallraff para a África!", na rua na frente da prefeitura, e fizeram ameaças ao prefeito de Geithain e a um político do Partido da Esquerda. Um padre local respondeu aos extremistas de direita com uma carta aberta e, na manhã seguinte, encontrou os muros de sua igreja cobertos de pichações.
Os neonazistas divulgam online os nomes de seus adversários, com endereços e retratos. Os grupos extremistas de direita que se opõem ao movimento "Antifa", ou antifascistas, são chamados de "Antiantifa". Pois o grupo local antiantifa publicou que as pessoas de esquerda em Geithain podem esperar "medidas disciplinares, telefonemas e danos aos carros". Os neonazistas também anunciaram o ataque a Florian Krumbholz online, usando um vídeo como chamada de violência contra ele: "Os esquerdistas têm nomes, eles têm endereços. Vamos marchar e mostrar nossa força". Poucas semanas antes do ataque, na Sexta-feira Santa de 2010, neonazistas picharam a garagem da família de Krumbholz com "Morte à Frente Vermelha" e "Vamos pegar você, Florian".
O ataque no posto de gasolina durou apenas alguns segundos. As gravações das câmeras de segurança mostram o atacante atingindo Florian no peito, depois socando sua testa. O atacante, Albert R., recebeu apenas uma sentença muito leve em seu julgamento inicial, apesar de ter um histórico criminal considerável. O caso foi para uma corte de recursos, onde ele recebeu uma sentença mais pesada.
Cidadãos sentem-se abandonados pela polícia
Enquanto isso, Albert R. já está enfrentando um inquérito por outro crime: ele e dois amigos são acusados de atacarem um grupo de jovens e jogarem gás lacrimogêneo na cara deles. R. atacou uma das vítimas com uma garrafa de cerveja.
Muitas pessoas aqui se sentem abandonadas pelas autoridades. Nos últimos anos, delegacias de polícia foram fechadas e distritos policiais foram fundidos, e o Ministério do Interior da Saxônia planeja mais cortes. Os registros na polícia criminal do Estado revelam uma atitude de resignação e indiferença entre os policiais.
Um desses registros descreve um ataque por extremistas de direita violentos contra um prédio comercial em Colditz, cidade vizinha a Geithain, há quatro anos. As transcrições das chamadas de emergência mostram que a polícia na Saxônia Ocidental começou a receber ligações dos cidadãos preocupados no final da tarde. À noite, já tinha recebido mais de uma dúzia de chamadas.
19h49, ligação de uma mulher:
- Algo vai acontecer em Sophienplatz, em Colditz".
- O que está havendo?
- Tem um monte de homens mascarados aqui.
- E daí?
- Estão chutando tudo até quebrar.
19h51, ligação de um homem:
- Há mais de 50 pessoas aqui em Sophienplatz, Colditz, usando máscaras.
- E por que o senhor está ligando?
- Porque esses caras aqui estão chutando um prédio, batendo nas coisas, jogando explosivos.
20h04, chamada de uma mulher:
-Eles destruíram tudo em Sophienplatz. E eles também queriam colocar fogo em alguma coisa aqui no clube de jovens, pelo menos foi o que ouvi.
- Bem, se você observar danos, você pode vir para a delegacia de polícia a qualquer momento para dar queixa.
20h43, chamada de uma mulher:
- Olha, liguei antes e preciso da polícia aqui. Já pedimos a vocês para enviar alguém.
- Sim, mas não há ninguém disponível.
- Por favor, por favor, envie alguém.
20h44, chamada de um homem:
- Eles bateram nas janelas quatro vezes já.
- E o que o senhor espera que eu faça? Devo ir e ficar na frente das janelas, ou o que?
Poucas pessoas ousam confrontar os neonazistas em Colditz. Uwe L., por exemplo, vendedor de aparelhos eletrônicos, fez uma tentativa ao fundar a "Aliança Contra a Extrema Direita", que organizava shows. Mas os neonazistas atacaram sua loja várias vezes, quebraram as vitrines, destruíram as paredes, danificaram seu carro e ameaçaram seu filho. L. Desistiu. "Eu não teria sobrevivido, financeira e psicologicamente", diz ele.
"Os neonazistas já controlam tudo"
O NPD também tem assentos no conselho da cidade de Colditz. Extremistas de direita estão envolvidos em uma associação que apoia o ensino médio. Eles também ajudam a administrar um clube de futebol e um clube de canoagem. O clube de jovens local é dirigido pelo filho do prefeito, junto com um famoso neonazista. Os pais aparecem nos festivais usando camisetas com lemas como "Viagem cênica de trem para Auschwitz". Frank Hammer, que trabalha para uma organização chamada "Aconselhamento móvel contra o extremismo de direita", diz: "As coisas estão calmas nesta região. Mas apenas porque os neonazistas já controlam tudo".
Quando Geithain celebrou seu 825º aniversário em junho, a prefeita Romy Bauer (CDU) deu aos neonazistas permissão para montarem uma barraca no festival. Tripp e seus colegas distribuíram pedaços de bolo, instalaram uma roda da fortuna e marcharam na frente da parada. Se ela tivesse se recusado a dar licença, a violência poderia ter irrompido durante o festival, disse Bauer. A prefeita também recusou-se a participar na manifestação contra a extrema direita organizada pela Iniciativa para que Geithain tenha a Mente Aberta.
Os que tentam combater o extremismo de direita na Saxônia reclamam de falta de apoio. Kerstin Krumbholtz tem dificuldades para encontrar pessoas dispostas a participar de sua iniciativa, que no momento tem apenas oito membros. Quando organizaram um festival contra o extremismo de direita no ano passado, conta Krumbholz, eles não encontraram uma única padaria em Geithain disposta a vender-lhes bolo para o evento.
Após o fim do encontro da iniciativa, Krumbholz acende um cigarro com as mãos trêmulas, na rua na frente da prefeitura. Memórias do ataque contra seu filho ainda a perseguem. Ainda assim, até hoje, nenhum dos vizinhos levantou o assunto com ela. Não houve uma palavra de simpatia, nem uma palavra de remorso. Todos em Geithain, diz Krumbholz, agem como se o ataque nunca tivesse ocorrido.
Krumbholz seca as lágrimas e pensa alto: "As pessoas têm que morrer para alguma coisa mudar por aqui?"

Tradutor: Deborah Weinberg




Reportagem de Maximilian Popp, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL