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terça-feira, 27 de junho de 2023

Banqueiro de 34 anos vai faturar R$ 2,5 bilhões com baixa renda


Sete a cada dez brasileiros deixam de ir a algum lugar porque sentem que "não é pra eles". Essa sensação de não ter dinheiro suficiente para frequentar um bom restaurante ou entrar em um shopping de luxo é a mesma que impede 45 milhões de brasileiros de ir a um banco, apesar de movimentarem R$ 800 bilhões na economia.

"É desse público que o Will Bank vai atrás", diz o fundador Felipe Felix. Aos 34 anos, ele afirma que o faturamento de seu banco deve chegar a R$ 2,5 bilhões com uma base de cinco milhões de clientes. Todos ingressaram no sistema bancário via cartão de crédito e hoje fazem até investimentos.

Os bancos preferem não atender a baixa renda, mas vocês ganham muito dinheiro com esse público. Qual é a fórmula? Para eles não vale a pena porque esse cliente gasta pouco, R$ 800 por mês no nosso caso. A estrutura de custo operacional não permite que um banco [tradicional] aprove esse cliente —que precisaria ter ao menos um título de capitalização, um consórcio ou uma poupança [para isso]. As fintechs surgiram, num primeiro momento, para atender clientes insatisfeitos com o banco tradicional. Ou seja, ninguém está disposto a bancarizar esse cliente potencial.
No Will Bank, a porta de entrada é o cartão de crédito. Cerca de 70% dos nossos clientes são multiplicadores, usam o cartão para comprar algo e pagar em 30 dias, fazer capital de giro. O Nordeste concentra 60% de nossos clientes, região onde vive 40% da população desbancarizada do país. Um terço desses clientes nunca teve um cartão de crédito. A gente está chegando em um cliente que ninguém consegue chegar.

São quantos clientes? A gente tem 40 milhões de pedidos [de cartões de crédito] e quase 5 milhões emitidos. Quando ele é aprovado, abre-se uma conta digital. Em 2022, foram R$ 12 bilhões transacionados via cartão e mais R$ 30 bilhões em contas digitais.

Seu produto parece ser o mesmo dos bancos tradicionais. O que é diferente? Veja. Por que 80% da população coloca dinheiro na poupança? A justificativa é que a população não é educada para tomar opções de investimentos melhores. Bem, a realidade é que a alternativa à poupança é muito complexa: CDB, LCA, LCI, debêntures. Há uma barreira para o cliente tomar uma decisão [de investimento diferente] e o mercado financeiro não tem iniciativa para mudar essa realidade. Cria produtos para o mercado financeiro, não para as pessoas.
Fizemos uma pesquisa para entender nosso cliente, o porquê de ele escolher a poupança. Descobrimos que a sensação que o fator dinheiro gera nas pessoas é muito negativa. Não só pela falta, mas porque elas têm medo. É tentando vencer esse medo que a gente atua.

Medo de que exatamente? A pesquisa mostrou que 71% das pessoas têm medo de ir a alguns lugares por conta da questão financeira. Pense no Banco Safra. Não é qualquer pessoa que vai chegar ali e entrar para abrir uma conta. Mudar esses gatilhos não racionais que todos temos em algum nível é o que buscamos.
Nossos clientes disseram que o Will Bank foi o primeiro que confiou neles ao dizer sim. É uma questão de constrangimento. Pense em uma família que nasceu de pais que não foram aprovados no banco. Isso é muito ruim, começa-se a se construir uma estrutura na qual as pessoas acreditam que aqueles produtos não são para elas. O crédito deveria estar a serviço das pessoas, e não o contrário.
Isso tem de mudar, mas a gente precisa entender os mecanismos que impedem as pessoas de tomar a decisão [de buscar crédito]. A oferta até já existe, mas as pessoas acreditam que não é para elas.

Como vocês mudaram isso? Nossa pesquisa mostra que as mulheres têm vergonha de pedir empréstimo. Os homens sentem tristeza. A experiência digital [via aplicativo ou site] então ajuda. As pessoas acham que não podem ter dívida com ninguém quando, às vezes, é um passo necessário para alavancarem seus negócios. São variáveis emocionais.
Basicamente, o que percebemos no mercado financeiro é que o produto, em si, tem uma diferença marginal. O investimento não deixa de ser um CDB como o do Itaú. A questão é como ele é apresentado.
No nosso CDB não falamos de rendimento em percentagem de CDI, por exemplo. Quanto da população sabe o que é o CDI? Dizer para esse cliente ‘saia da poupança e invista em 100% do CDI não ajuda. Agora é mais fácil dizer ‘saia da poupança, pegue R$ 1 mil e ganhe R$ 150'. Nossos produtos são títulos pré-fixados que facilitam o entendimento.
Outro exemplo. O sistema [financeiro] faz campanha contra, mas a gente reconhece um comportamento que nosso público tem: o compartilhamento de um cartão de crédito. Um cartão com um limite dividido entre cinco pessoas às vezes é capaz de fazer uma transformação. O Brasil é formado mais por essas pessoas.

Por que entrou nesse mercado? Sou nordestino e foi trabalhando no Avista que percebi a existência de 45 milhões de desbancarizados, que movimentam R$ 800 bilhões [na economia], um problema gigantesco que ninguém estava disposto a resolver. Hoje vamos chegar a R$ 2,5 bilhões em receitas com esse negócio.

Por que o banco tem esse nome? Há muitos Willians, Williana no país. Will é abreviação de um nome. Então, é como se nosso cliente estivesse falando com uma pessoa.

RAIO-X
QUEM É O BANQUEIRO

Idade: 34
Formado em Engenharia Naval pela Universidade de São Paulo, Felipe Felix fez mestrado em Economia na Fundação Getúlio Vargas. Sua carreira foi consolidada no mercado financeiro, passando pelo Banco Original antes de se juntar ao grupo Avista cartões onde atuou como CFO [diretor financeiro]. Fundou o Will Bank há seis anos. Recentemente, foi escolhido como empreendedor Endeavor.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Grécia, últimos capítulos

QUANDO a esquerda grega venceu a eleição, em janeiro, era razoável deduzir que estava aceso o pavio curto de uma explosão. Era difícil imaginar uma história que não terminasse em desmoralização do Syriza ou na retirada da Grécia da zona do euro. Ontem, parecia esse mesmo o fim da história.
O primeiro-ministro grego dizia que não vai governar sob "austerity in perpetuity" (como traduziam as agências de notícias: austeridade perpétua). Caso os gregos votem "sim" no referendo de domingo, Alexis Tsipras diz que se vai: "Se os gregos querem um primeiro-ministro humilhado, há um monte deles por aí. Não serei eu". As autoridades europeias diziam que a vitória do "não" era o fim da picada do país no euro.
Na prática, os gregos votam se aceitam ou não os termos do programa econômico sem o qual o governo da Grécia não terá fundos para pagar suas despesas, externas ou domésticas. Tal plano nem ao menos foi fechado, dada a interrupção das conversas, mas é uma variante com 5% de desconto daquilo que vem sendo engolido pelos gregos desde 2012, pelo menos, corte de gastos públicos, aumento de impostos e reformas ditas "liberais". O comum dos gregos não vai saber no que está votando, mas vai decidir se vai apanhar de um modo ou outro, na eurozona ou fora dela.
Dado o sistema de poder que sustenta a eurozona, era praticamente impossível que o establishment europeu aceitasse os termos do Syriza (perdão de dívida, menos arrocho, menos "reformas"). Haveria revoltas em países pobres que comeram esse pão amargo: Portugal, Espanha, talvez Irlanda. A vitória do Syriza animaria esquerdas, pelo menos na Europa do "Sul", e partidos anti-Europa na Europa do "Norte", em especial de direita braba. Colocaria os governos de centro (esquerda ou direita) da Europa inteira em maus lençóis, pois "um outro mundo" pareceria possível. Obrigaria a Alemanha aceitar uma política econômica que sempre rejeitou, a abrir mãos de princípios que impôs desde que aceitou a criação da eurozona (em resumo grosso, política macroeconômica ortodoxa e sob seu controle, na prática).
Talvez a política e a manha chata dos gregos do Syriza inventassem uma solução intermediária. No sábado, quase se chegou a um acordo ruim, mas um acordo, que poderia ser revisto em novembro, com exigências menos malucas (ainda malucas) de superavit primário, sem cortes (por ora) adicionais de salários e aposentadorias. Ao que parece, segundo os gregos, o Syriza "rachou", e o caldo entornou.
A Grécia está por um fio, pelo tubo de transfusão de sangue fornecido pelo Banco Central Europeu (BCE), o que mantém vivos os quebrados bancos gregos. Sem os euros do BCE, a banca grega quebra assim que reabrir, com o que se evapora a economia grega --o governo não tem euros para tapar o abismo do buraco bancário. Para que não seja assim, para que sobrevenha apenas tumulto grave, a Grécia terá de adotar e criar um dinheiro novo, conviva ou não com o euro. De um modo ou outro, haverá inflação e a baderna da desconfiança, da quebra de contratos e da incerteza jurídica geral, da fuga ilegal de capitais e moeda forte (pois haverá controles oficiais), afora o colapso final da confiança. Pode passar, ser administrado, mais vai ser ruim, muito ruim.


Texto de Vinicius Torres Freire, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Evolução sofrida

A educação é uma unanimidade nacional. O problema é que não é incomum que o seu debate se resuma a uma questão de vontade (ou à reclamação de uma suposta falta dela entre os políticos).
Por isso, venho tentando empreender uma tarefa arriscada: construir uma narrativa dos avanços e das dificuldades da trajetória brasileira. Um início seguro é olhar os indicadores de desempenho e de esforço.
Quanto ao primeiro, há avanços visíveis nos resultados dos estudantes brasileiros no Pisa (avaliação internacional feita pela OCDE) e no Ideb (indicador do governo federal). Também vem diminuindo a distorção entre idade e série.
Contudo, a evolução é sofrida. Os resultados do mais recente Ideb mostraram que as metas só foram cumpridas para a etapa inicial do ensino fundamental, tendo ficado aquém na etapa final e no ensino médio.
Quanto ao esforço, não há dúvida: é crescente a prioridade da educação pública. O gasto total em relação ao PIB foi de 4,5% em 2005 para 6,4% em 2012, segundo dados oficiais. Quase todo o aumento se deu na educação básica.
Aqui é que a narrativa se complica. O que tem significado no cotidiano escolar esse aumento de recursos? Quais são as dificuldades persistentes e o que avança?
Em qualquer país é demorada a universalização da educação básica. Como o aprendizado também ocorre em casa, é duro fazer as transições, isto é, ensinar aos filhos mais do que seus pais puderam ter na escola. Para isso, recrutar professores entre os mais bem preparados da nação é uma estratégia frutífera.
Mas, num país populoso e tão desigual, a elite é pequena. A escola pública conta com professores oriundos principalmente de classes populares, que tiveram eles mesmos uma formação acidentada.
A professora da UFRJ Daniela Patti, com quem debati esta coluna, destaca que é comum, por exemplo, que professores dos anos iniciais do fundamental tenham falhas de formação para o ensino dos conteúdos de matemática e ciências.
Assim, é chave investir na formação continuada dos profissionais. Por exemplo, a Faculdade de Educação da UFRJ recebeu neste ano verba federal para requalificar educadores de todos os municípios do Rio.
Outra dificuldade é garantir a permanência do estudante na escola, em particular após o fundamental. A partir dos 16 ou 17 anos, há oferta de trabalho, cujas remunerações podem de imediato soar mais recompensadoras que continuar o estudo. Anos depois, tais jovens, que tiveram formação mais longa e melhor que a dos pais, talvez mudem de ideia, percebendo que a formação incompleta limita as chances de progresso.
Por isso, é crucial a oferta da EJA (Educação de Jovens e Adultos). A EJA, porém, tem sofrido com perda de matrículas e falta de prioridade, já que não é avaliada pelo Ideb, algo pelo qual os governos locais têm sido crescentemente cobrados.
O ensino médio sofre ainda de "crise de identidade". Parte dos jovens busca um curso superior, o que exige reforçar, por exemplo, o aprendizado de matemática e ciências. Outra prefere curso técnico, concomitante ou sequencial ao médio regular, que pode ser caminho mais certeiro para a ascensão social. O Pronatec e a expansão das escolas técnicas federais são boas iniciativas. Porém o duplo objetivo dificulta a formatação das políticas públicas.
Há ainda uma multiplicidade de iniciativas, como a expansão da educação infantil, que já atinge quase 80% das crianças de 4 e 5 anos, ou a inclusão de crianças com necessidades especiais, que exige, entre outras ações, formar e contratar intérpretes da Língua Brasileira de Sinais. Isso sem esquecer as iniciativas mais conhecidas, como o Enem e o piso nacional do magistério.
Retomar o crescimento sustentado é crucial para criar perspectivas que tornem a educação um caminho mais promissor de ascensão social. É ele que permitirá elevar os recursos disponíveis por aluno, pois, como proporção do PIB, o gasto do Brasil chegou ao patamar dos ricos.
União, Estados e municípios compartilham dispêndios e responsabilidades num planejamento que deve atender a uma ampla gama de demandas e deficiências. Muita coisa tem sido feita. Mas os ganhos de qualidade, sem descuidar da inclusão educacional, dão-se de geração em geração, exigindo persistência e paciência. Um debate mais bem especificado e pragmático é proveitoso.


Texto de Marcelo Miterhof publicado na Folha de São Paulo

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Montanha-russa

A Rússia é de extremos. O seu capítulo no livro "Padrões de Desenvolvimento Econômico, Estudo Comparativo de 13 Países: América Latina, Ásia e Rússia", escrito por Numa Mazat e Franklin Serrano, traça um panorama de sua trajetória econômica desde o pós-Guerra, marcada pelo comunismo e seu drástico fim.
De 1950 a 1974, houve relativo sucesso na industrialização da antiga URSS, mantendo expansão média da renda per capita de 3,5% anuais.
Para tanto, se recorreu a matérias-primas de baixo custo e à mão de obra advinda da mecanização agrícola e da incorporação das mulheres na força produtiva.
O país criou uma estrutura industrial diversificada e acabou com o desemprego e a pobreza. O modelo se esgotou juntamente com as reservas de mão de obra, o que levou o governo a buscar um novo caminho nas inovações. Porém a organização centralizada se mostrou inapropriada ao desafio.
Além da ausência de pressão dos concorrentes, uma empresa, em vez de ver nas inovações uma fonte de ganho, as tinham como problema burocrático, como ter que realocar a mão de obra tornada redundante por aumentos de produtividade.
Diferentemente dos EUA, onde as Forças Armadas geram tecnologias aproveitadas pelas empresas, na URSS a prioridade de Defesa tornava absolutamente secretos os avanços obtidos. Ademais, processos e produtos tinham que poder ser convertidos para o uso em guerras, tornando-os mais custosos e de menor qualidade. Por exemplo, aviões, tratores e caminhões civis tinham especificações militares.
Na agricultura, os ganhos de produtividades não persistiram em razão da dificuldade de ocupar terras em regiões de frio intenso.
As dificuldades tecnológicas e de segurança alimentar exigiam que a URSS elevasse suas importações de bens de capital, insumos de informática, cereais etc. Para financiá-las, o país direcionou a produção de petróleo e gás para a exportação.
A URSS passou a depender da tecnologia do Ocidente e dos preços internacionais das matérias-primas. Nos anos 80, o choque dos juros americanos e a reversão dos choques do petróleo levaram à crise no balanço de pagamentos.
As reformas da perestroika tentaram combater a ineficiência produtiva dando mais autonomia às empresas, que adotaram o modelo de autogestão e depois foram sendo dominadas por gerentes.
Os resultados foram desastrosos: os conselhos de trabalhadores elevaram a apropriação de renda, reduzindo os investimentos; o Estado deixou de ter as receitas das estatais, o que aumentou o deficit fiscal, o excesso de demanda e os problemas de escassez; as contas externas pioraram etc.
De 1975 a 1991, a renda per capita cresceu em média 0,2% ao ano. O fim da URSS e a transição para um capitalismo liberal pioraram a situação: de 1992 a 1998, o indicador teve queda de 6,9%.
A liberalização de preços trouxe um surto inflacionário, que acabou com o excesso de demanda, mas também derrubou o investimento e o gasto público.
A liberalização financeira --que permitiu até que as firmas não internalizassem as divisas das exportações--, em vez de atrair recursos, levou à fuga de capitais.
A partir de 1995, câmbio fixo e juros altos foram usados para estabilizar a moeda. Todavia, a valorização cambial, a perda de reservas e os efeitos da crise asiática de 1997 levaram à crise russa um ano depois.
É nesse contexto que a partir de 1999 ascendem ao poder governos nacionalistas. Além de ter contado com altas do petróleo, o regime forçou a internalização de 75% das divisas nas vendas externas, acumulou reservas (de US$ 11 bilhões em 1999 para US$ 600 bilhões em 2008), reduziu os juros reais de 20% ao ano para taxas negativas, estatizou banco, taxou as exportações de commodities, entre outras políticas ativistas. De 1999 a 2008, a renda per capita cresceu a 7,2% anuais.
É verdade que as contas externas e fiscais permanecem dependentes dos preços das commodities. A movimentação de capitais continua ampla, podendo deixar o país vulnerável mesmo com superavit corrente. Tais restrições se evidenciaram de novo com a crise internacional a partir de 2008, que trouxe volatilidade ao crescimento.
Ainda assim, embora continue defasada tecnologicamente, a Rússia não tem sinais de desindustrialização, como ocorre em outros países ricos em recursos naturais. Com pontos fortes, limites e contradições estruturais, o modelo nacionalista parece se manter forte.


Texto de Marcelo Miterhof, na Folha de São Paulo

sábado, 24 de maio de 2014

Brasil atinge meta da ONU e reduz mortalidade infantil

Brasil atinge meta da ONU e reduz mortalidade infantil


Índice, que era de 53,7 mortes por mil nascidos vivos em 1990, passou para 17,7 em 2011


O Brasil atingiu a meta assumida no compromisso "Objetivos de Desenvolvimento do 
Milênio" de reduzir em dois terços os indicadores de mortalidade de crianças de até cinco anos. O índice, que era de 53,7 mortes por mil nascidos vivos em 1990, passou para 17,7 em 2011. Os números integram o 5º Relatório Nacional de Acompanhamento, divulgado nesta sexta-feira em Brasília pelo governo.

A meta foi atingida antes do prazo estipulado, que era 2015. A redução de morte materna, no entanto, não teve o mesmo sucesso. O documento admite que o Brasil dificilmente vai cumprir o compromisso de chegar em 2015 com no máximo 35 óbitos maternos a cada 100 mil nascimentos. Para isso, seria necessário praticamente reduzir pela metade os indicadores de 2011. Naquele ano, o número de mortes de mulheres durante a gravidez, o parto ou até 42 dias após o nascimento do bebê era de 63,9 por 100 mil nascimentos.

Embora ainda muito superior ao compromisso assumido, os índices de mortalidade materna no País já foram significativamente maiores. Em 1990, eram 143 por 100 mil nascimentos. O relatório argumenta ainda que o Brasil não é o único país a ter um desempenho nessa área abaixo do que se era esperado.

Objetivos do Milênio são metas estabelecidas em 2000 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e apoiadas por 192 países. Ao todo, são oito pontos:

• Acabar com a fome e a miséria;
• Universalização da educação primária;
• Promoção da igualdade de gênero e autonomia das mulheres;
• Reduzir a mortalidade infantil;
• Reduzir a mortalidade materna;
• Interromper a propagação e diminuir a incidência de HIV/aids;
• Universalizar o tratamento para a doença e reduzir a incidência de malária, tuberculose e outras doenças;
• Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente, incluindo reduzir pela metade a proporção da população sem acesso permanente e sustentável à água potável e parceria mundial para o desenvolvimento.

Mortalidade na infância

O relatório preparado pelo governo mostra que a queda mais significativa registrada na mortalidade na infância ocorreu na faixa entre um e quatro anos de idade. Atualmente, o problema está concentrado sobretudo nos primeiros 27 dias de vida do bebê, o período neonatal. Embora o documento ressalte que o Brasil conseguiu cumprir a meta à frente de uma série de países, o texto admite que o nível de mortalidade até os cinco anos ainda é elevado. A desigualdade regional sofreu uma redução, no entanto, Norte e Nordeste ainda apresentam taxas superiores a 20 óbitos de crianças com menos de cinco anos por mil nascidos vivos. Na Região Sul, são 13 por mil nascidos vivos.

Acesso à água

O relatório também ressalta o alcance integral da meta de reduzir à metade o porcentual da população sem acesso a saneamento. A meta foi atingida em 2012. De acordo com o trabalho, em 1990, 53% da população vivia em moradias com rede coletora de esgoto ou com fossa séptica. Em 2012, o porcentual subiu para 77%. O acesso à água também melhorou nesse intervalo, de 70% para 85,5%.

Pobreza extrema

A meta brasileira para essa área é mais ambiciosa que a mundial. O compromisso era reduzir a pobreza extrema a um quarto do nível de 1990 até 2015. De acordo com o relatório, em 2012, o nível da pobreza extrema era menos de um sétimo do nível de 1990. Pelos cálculos do governo, 3,6% da população vive com menos de R$ 70 mensais.

De acordo com o trabalho, a pobreza extrema entre idosos está praticamente erradicada, graças à inclusão em programas sociais e à política de valorização real do salário mínimo. A desigualdade racial persiste, embora em menor grau. Em 2012, a probabilidade da extrema pobreza entre negros era o dobro da verificada na população branca. Um em cada 20 negros era extremamente pobre. Entre brancos, o risco é de um entre 46.

Educação primária

Em 2012, 23,2% dos jovens de 15 a 24 anos não haviam completado o ensino fundamental. Embora o porcentual ainda seja expressivo, o relatório argumenta que os números brasileiros já foram muito piores. Em 1990, 66,4% dos jovens não haviam completado os anos de estudo. O porcentual de crianças de 7 a 14 anos frequentando o ensino fundamental passou de 81,2% para 97,7%. 


Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Salto do Brasil vem de fatores externos, diz Michael Porter

Salto do Brasil vem de fatores externos, diz Michael Porter
Para economista de Harvard, política econômica é correta, mas tropeça em estatismo e barreiras comerciais
Professor apresentou em São Paulo ranking de desenvolvimento social no qual país lidera entre os Brics
MARIANA CARNEIRODE SÃO PAULO

Um dos mais influentes economistas do mundo, o americano Michael Porter considera até "saudável" a desaceleração brasileira e atribui o avanço recente do país mais à bonança externa do que aos feitos domésticos.
"Talvez o Brasil não devesse estar tão orgulhoso do crescimento, porque parte dele pode ter sido resultado do boom das matérias-primas, e não que tudo estivesse maravilhoso", disse à Folha, em passagem por São Paulo.
Embora considere que a política econômica esteja na direção certa, Porter citou decisões governamentais que, a seu ver, emperram o crescimento, como barreiras comerciais e intervenções em setores escolhidos.
"Entendo que aqui haja uma visão mais à esquerda, porém mesmo em países como Suécia e Dinamarca [com forte presença estatal] se reconhece que proteções concedidas a setores individualmente geram ineficiência."
O economista acredita, contudo, que o Brasil vai se recuperar em alguns anos e afirma que parte do mal-estar atual se deve deve a novas --e crescentes-- expectativas da camada da população que ascendeu da pobreza e agora quer mais.
"Esse é um momento típico de transição", disse. "Recomendo que usem esse período para aclarar as deficiências, não apenas no campo econômico mas também no social", afirmou.
Referência no mundo corporativo, o professor da Harvard Business School é autor de 18 livros, a maioria sobre estratégia e competitividade.
É também estudioso do desenvolvimento econômico, aspecto que o trouxe ao Brasil para apresentar um novo índice, formatado por ele, para medir o sucesso das nações do ponto de vista social.
O Brasil foi classificado em 18º entre os 50 países que compõem o Índice de Progresso Social, iniciativa da fundação Social Progress Imperative (que reúne Deloitte, Cisco e as fundações Skoll e Avina).
A posição deixa o país à frente de seus parceiros de Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul) e em quarto lugar na América Latina, atrás de Costa Rica (12º), Chile (14º) e Argentina (15º).
Para Porter, o Brasil está "muito bem" no ranking, em que países ricos aparecem no topo, e pobres, na lanterna.
O índice, contudo, não inclui dados econômicos, como seus semelhantes --o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), por exemplo.
"Quando se põem dados econômicos ao lado de sociais, não se sabe o que é causa e o que é consequência."
O cálculo tem 52 quesitos, como tolerância étnica (o Brasil é o 1º colocado) e religiosa, respeito a homossexuais e mulheres e segurança (o país é o 46º, sua pior colocação).


Reprodução da Folha de São Paulo

Comentário rápido: Gostei deste índice chamado "Índice de Progresso Social".

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O nível de desenvolvimento de cada nação

Uma parceria só é justa e eficiente quando há equilíbrio na divisão de responsabilidades e benefícios.
O novo Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) passa a impressão de que o governo federal ainda não assimilou essa lógica.
Apesar de contar com Estados, municípios e empresas privadas para investimento e execução de quase metade dos R$ 508 bilhões previstos para os próximos 30 anos, o governo federal tapou novamente os ouvidos para a mais importante reivindicação do setor: a redução da carga tributária imposta.
Em 2012, as empresas de saneamento depositaram cerca de R$ 2 bilhões nos cofres federais na forma de PIS/Pasep e Cofins. A Sabesp respondeu por cerca de um terço desse valor, com R$ 654 milhões. No total de tributos, a Sabesp repassou R$ 1,2 bilhão aos fiscos no ano passado.
Façamos juntos uma reflexão: por que smartphones, películas para cinema e até a subsidiária instalada no Brasil pela Fifa não pagam PIS/Pasep e Cofins e quem trata e fornece água para a população paga?
O grau de desenvolvimento de um país só é aferido de fato pela qualidade de vida da população. Água limpa e esgoto coletado e tratado são fundamentais. Nesse aspecto, o Brasil exibe níveis críticos de subdesenvolvimento. Isso explica o veto do governo federal à visita de uma comitiva da Organização das Nações Unidas que avaliaria a situação do acesso à água e saneamento no país, conforme denúncia publicada no site da entidade.
Em São Paulo, a Sabesp caminha para universalizar o atendimento no interior em 2014 e em todo o Estado até o fim da década. No Brasil, mais da metade da população ainda não é atendida por esgotamento sanitário, segundo dados de 2011 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. A estrutura disponível para tratamento de esgoto é ainda pior: alcança 37,5% do volume coletado. E, em pleno século 21, 18% dos brasileiros ainda não têm acesso a água tratada.
Na última disputa presidencial, tivemos a impressão de que o saneamento, finalmente, passaria a fazer parte das prioridades nacionais. Os principais candidatos, incluindo a hoje presidente Dilma Rousseff, comprometeram-se com a desoneração do setor. Nosso ânimo aumentou quando o Ministério das Cidades informou, no ano passado, que a esperada medida estava a caminho. Mas as expectativas se frustraram.
E o Plansab não é um alento. Embora tenha sido constituído, conforme anuncia o Ministério das Cidades, "a partir de ampla participação cidadã e de diferentes setores da sociedade", o plano ignorou a proposição das empresas de saneamento, personagens-chave desse processo.
Temos uma proposta clara: reverter todo o valor da isenção do PIS/Pasep e Cofins em investimento direto em infraestrutura. Essa alternativa oferece de imediato ganho de tempo e eficiência em prol da universalização do saneamento no país, já que falamos de companhias com conhecimento técnico e projetos de expansão já estruturados, mas que necessitam de fôlego financeiro para colocá-los em prática.
A desoneração pode detonar um ciclo virtuoso no país. Em nada colide com a bem-vinda disposição do governo federal de investir anualmente de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões em saneamento. Menos ainda impede a concessão de linhas de créditos a prefeituras e Estados.
É uma proposta que se soma às demais diretrizes do Plansab. Inclusive incentivaria a ampliação de parcerias entre empresas e municípios para a elaboração dos planos de saneamento requisitados para a transferência das verbas federais. Na atual situação, inúmeros municípios correm o risco de ficar sem o repasse pela falta de experiência na elaboração de planejamento.
Aprovado pelo conselho do Ministério das Cidades, o Plansab aguarda agora a apreciação da presidente Dilma. Esperamos que seja ouvida essa reivindicação. Afinal, o que está em discussão são serviços essenciais à vida e não meros bens supérfluos de consumo.


Texto de Dilma Pena, diretora-presidente da Sabesp - Companhia de Saneamento de São Paulo, publicado na Folha de São Paulo

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Surpresa: Bangladesh reduz pobreza a 31% do país em duas décadas

As senhoras Ashiknur, Hasina, Syhet e Zahanara sabem praticamente tudo sobre a vida de suas vizinhas e suas famílias. Não se trata (ou não só) da típica fofoca de bairro. Elas vão perguntando aqui e acolá. Sabem se alguém em uma casa encontrou trabalho, quanto recebem naquela outra, se nasceu um bebê ou morreu o avô, como a prole vai na escola. A compilação e manipulação eficaz dessa informação é de tremenda utilidade para lutar contra a pobreza. É um combate em que seu país, Bangladesh, protagonizou o que a ONU qualifica de "progresso invejável": os pobres diminuíram de 57% há duas décadas (1991-1992) para os 31% atuais.
Isso os coloca claramente a caminho de cumprir esse capítulo dos Objetivos do Milênio da ONU. Para o êxito contribuíram, explica a organização multilateral, o crescimento econômico de aproximadamente 6% nos últimos anos - promovido em boa medida pelo setor têxtil -, junto com uma maior expectativa de vida e uma taxa de fertilidade decrescente. Os anticoncepcionais estão na ordem do dia nesse país muçulmano.
Bangladesh, que estava entre os últimos da classe, tornou-se um aluno adiantado. É dos países que está obtendo melhores resultados nos chamados Objetivos do Milênio (OdM) que em 2000 os países se propuseram a cumprir até 2015.
Criado em 1971 depois de uma guerra cruel, o americano Henry Kissinger proclamou naquela época: "O lugar é e sempre será um caso perdido". Tinha muitos obstáculos para que dependesse eternamente da ajuda exterior. É tão superpovoado que exporta mão-de-obra e capacetes azuis para todo o mundo. E, situado no imenso delta do Ganges e Brahmaputra, os ciclones causam estragos periodicamente.
Apesar desses antecedentes, a ONU lhe colocou um "progride adequadamente" em seu último relatório sobre os Objetivos do Milênio: "Bangladesh cumpriu alguns dos OdM como paridade na escolarização primária e secundária, redução da mortalidade dos menores de 5 anos (...) e já fez avanços invejáveis em redução da pobreza (...) escolarização primária, redução da mortalidade infantil e materna". Apesar do prognóstico de Kissinger, a ajuda ao desenvolvimento que recebe caiu de 5,6% do PIB no início dos anos 1990 para 1,6% em 2010, segundo o estudo.
Depois de conquistas como essas, dissecadas em grossos relatórios - o dos OdM ocupa 160 páginas -, existem pessoas como Ashiknur e suas três companheiras. Ou esse mapa que elaboraram que disseca 300 lares: quantos são de família, quem é pobre, quem é ultrapobre, onde há latrinas (...). São um dos milhares de comitês de desenvolvimento comunitário que existem em Korail, a maior favela de Dacca. É uma espécie de cidade que compartilham com outros 70 mil moradores (quase tantos quanto Ciudad Real) que vivem em moradias de chapas metálicas que alugam em becos estreitos, onde se encontram uma marmita ao fogo, uma barbearia, um café ou uma mercearia. Elas são a vanguarda de uma complexa estrutura de gestão que desenha e aplica um projeto do Pnud e outras organizações denominado Colaboração para a Redução da Pobreza Urbana.
Durante uma recente visita a Korail, essas mulheres explicavam que foram encarregadas de fazer o primeiro crivo entre as filhas de suas vizinhas para escolher - dentre as meninas de 10 a 14 anos que deixariam a escola por falta de dinheiro - quais devem ganhar uma bolsa para continuarem no colégio. Para decidir, foram perguntar sobre suas notas. Também são elas que propõem quem deve receber um microcrédito para empreender um negócio, que rapazes mandar como aprendizes em comércios ou se convém incluir entre os ofícios a ensinar aos adolescentes o de reparador de telefones celulares (um grande negócio, em vista de que 64% dos bengaleses têm celulares), motorista (ainda um projeto) ou esteticista.
Dois anos depois de entregue a ajuda, a situação do beneficiário é revisada. Por exemplo, se a mulher conseguiu receitas regulares, os filhos estão escolarizados e o marido tem rendas esporádicas, sobem na escala de ultrapobres para simplesmente pobres.
As melhoras que impressionam a ONU foram possíveis porque, apesar das ferozes disputas políticas, os governos investiram em ajudas sociais para os pobres e porque existem poderosas ONGs (o multipremiado Banco Grameen é o mais conhecido fora de suas fronteiras, mas há muitas outras) que "funcionam como empresas" em termos de eficácia, explicava um observador estrangeiro.
Apesar das conquistas, Bangladesh está atrasado em alguns capítulos dos OdM, como redução da fome, criação de emprego ou salários decentes para as mulheres. E a vida na favela de Korail ainda é muito precária. No ano passado as autoridades estiveram prestes a desalojá-los. Mas se plantaram aos milhares no bairro diplomático de Dacca e conseguiram paralisar o despejo maciço.
As ligações de luz e água ainda são ilegais. Várias famílias devem compartilhar cada latrina, não há escola. A conquista de que mais se orgulham esses moradores de Korail é o que conseguiram sozinhos, à margem das cerca de 30 ONGs que trabalham no bairro. É o pavimento simples de cimento que lhes permite caminhar sem se molhar enquanto as águas fecais escorrem de ambos os lados.

Reportagem de Naiara Galarraga, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

IDH é mosca na sopa conservadora

A divulgação de dados sociais e econômicos mais recentes mostra que em 20 anos país progrediu de forma notável

No início de junho, quando o MPL foi às ruas pedir a anulação do aumento da passagem de ônibus, eu não poderia deixar de aplaudir. Era mais do que razoável.

Uma semana depois, quando a PM paulistana transformou o protesto num banho de sangue, as famílias se juntaram a seus filhos e netos para defender a democracia. Palmas para todos.

O que veio um depois é um processo contrário e confuso, cuja origem e consistência aguardam explicações.

As grandes cidades brasileiras foram ocupadas por multidões que criaram um novo ambiente político. Prefeitos, governadores e a presidência da República foram colocados contra a parede. O mesmo aconteceu com o Congresso. A violência e o vandalismo incluíram ataques ao Itamaraty, à prefeitura de São Paulo. Semanas mais tarde, o governador Sérgio Cabral enfrentou situação semelhante – e mais dura.

Protesta-se contra o que e contra quem?

Aplicando uma sociologia automática, a maioria de nossos analistas justifica os protestos a partir de uma analise apocalíptica.

Como se o Brasil fosse a Espanha em desmanche social, ou os Estados Unidos no pior momento da crise do pós-2008, explicou-se a mobilização, o “monstro”, “a rua”, como o movimento necessário num país em atraso insuportável, num momento histórico de tragédia. Só restava ajoelhar e rezar.

O problema é que a divulgação de dados sociais e econômicos mais recentes mostra que em 20 anos país progrediu de forma notável.

Num país que protesta, os dados merecem uma festa.

Falando de fatos objetivos: o Índice de Desenvolvimento Humano avançou 47,5% e saiu do nível "muito baixo" para se acomodar em patamar considerado "alto". A desigualdade caiu, a expectativa de vida aumentou. A qualidade de vida tinha nível muito baixo em 85% das cidades. Esse número é de 0,6% em 2010. Pergunte a um estatístico qual a redução ocorrida. Prefiro uma imagem. Se antes ocupava 86 andares de um edifício de 100 pavimentos, o “muito baixo” agora não ocupa um único patamar inteiro. Deu para notar. Então repito: o que era 86 agora é menos do que 1.

O discurso oficial sobre os protestos talvez pudesse ser inteligível se essas melhoras tivessem ocorrido à margem do Estado, como obra do empreendedorismo de cidadãos abnegados num país de autoridades omissas e desonestas.

Errado.

O progresso ocorreu em 20 anos de regime democrático, o mais amplo e duradouro de nossa história, quando autoridades políticas são eleitas pelo povo e não escolhidas nos quartéis.

As mudanças para melhor ocorridas nos últimos anos se tornaram possíveis com a Constituição de 1988, que criou direitos sociais e definiu o combate à desigualdade e a luta por um sistema de bem-estar como um dever do Estado.

Dizia-se que isso era paternalismo, populismo. Olha a piada.

As ideias da turma do impostômetro, aquela que vive da denúncia do Estado, que quer sua redução de qualquer maneira, ficaram longe das melhorias. Foram inúteis, adereços teóricos à margem do movimento real do país.

Passamos as últimas décadas ouvindo que um Estado com recursos é um estímulo ao desperdício, ao desvio, à corrupção – um entrave ao desenvolvimento.

O grande salto ocorreu quando a receita do Estado subiu, passando de 24% do PIB para 36% hoje. Ao contrário do que dizia a ladainha preferida dos nostálgicos da ditadura e seus tecnocratas, para quem o “Estado não gasta muito nem pouco, gasta mal”, a maior parte dos recursos foi bem empregada.

Claro que houve a corrupção, o desvio. Também ocorreram falhas de visão, planejamentos estúpidos.

Mas é bom colocar o debate no eixo real, sem perder a noção de proporção das coisas.

Este progresso, que coincide com os governos de FHC e Luiz Inácio Lula da Silva, não merece ser debatido em termos de Fla-Flu.

Fernando Henrique foi capaz, sim, de garantir a estabilidade da moeda e condições mínimas para o funcionamento do Estado. Ajudou a consolidar o sistema financeiro, necessário para o desenvolvimento.

Mas o IDH não deu o salto – o que era 86 virou menos que 1 – porque se gastou pouco. Isso Roberto Campos já fizera em 64, com auxílio das baionetas militares.

A mudança ocorreu porque o Estado realizou ações em profundidade para favorecer a distribuição de renda, proteger o salário e os direitos dos trabalhadores, o financiamento do crescimento, o investimento no mercado interno. Se for para usar expressões econômicas, se FHC soube economizar, Lula soube dividir. São missões difíceis e desafiadoras.

Mas o debate não é pura economia.

Quando o mundo veio abaixo, em 2008, o governo brasileiro não reagiu com receitas clássicas de cortar despesas, encolher investimentos e jogar a miséria nas costas do povo. Recusou-se a transformar o Brasil numa Grécia. Rejeitou medidas tradicionais que iriam acelerar a recessão. Comparando a reação do governo FHC às crises e a reação de Lula, um estudo da Organização Internacional do Trabalho, OIT, notou a diferença. No governo do PSDB, tomavam-se medidas que favoreciam o ciclo da atividade de econômica. Crescer quando o mundo crescia, cair quando o mundo caia.

No governo Lula, agiu-se no contra-ciclo. Se havia o risco de recessão, investiu-se no crescimento, para impedir que o país fosse abaixo

O último ano do IDH é 2010, final do mandato de Lula, quando o país crescia a 7% e a maioria das políticas sociais do país de hoje amadureceram.

Falando com clareza: os dados do IDH, que retratam um período que se encerra em 2010, registram uma colossal derrota do pensamento antidemocrático brasileiro. Não sobra nada. E é por isso que, mais do que nunca, este pensamento se volta contra a democracia. Nesse terreno, da liberdade, do confronto de ideia, ele tem dificuldade para vencer. E isso é imperdoável.

Querem interromper a história, para tentar que seja reescrita.

E é esta a questão que se coloca agora.

O país vive um ambiente de protesto e mobilizações radicais como há muito não se via.

Até o governo admite que ocorreram omissões importantes e casos graves de incompetência na definição de políticas públicas. Políticas urgentes – como a saúde pública – só foram definidas com atraso.

O mesmo se pode dizer para a educação e outras melhorias urgentes. Mas é bom tomar cuidado com crises artificiais e pensar quem ganha com isso.

É bonito falar em gestos “simbólicos” que em teoria se destinam a “denunciar o capitalismo,” como quebrar vidraças de bancos. Mas é muito mais efetivo, do ponto de vista do povo, reduzir a taxa de juros e ampliar o crédito popular, por exemplo.

Nós sabemos que a violência policial é uma tragédia que atinge tantas famílias brasileiras. Deve ser apurada, investigada e punida.

O caso Amarildo é uma vergonha sem tamanho.

Mas vamos combinar que no Rio de Janeiro, Estado onde se constroem as UPPs, a primeira resposta coerente de autoridades brasileiras ao crime organizado, o ataque indiscriminado à polícia é uma forma de dar braço às milícias, aos bandidos, aos grandes traficantes, certo?
Tudo isso em nome do que mesmo?

Não é difícil saber o que é melhor – ou menos ruim – para o povo.

Com a baderna estimulada, glamourisada, estamos falando em ações que, cedo ou tarde, irão estimular operações repressivas de maior envergadura. E aí, como aconteceu nos protestos contra o aumento dos ônibus, nós sabemos muito bem quem serão atingidos e prejudicados pela falta de liberdade.

Isso porque o clima de baderna ajuda a tumultuar o sistema político.

A eleição de 2014 está aí, quando o eleitor terá a oportunidade de fazer seu julgamento e suas opções. Os protestos mudaram o jogo e podem mudar muito mais.

Há um movimento subterrâneo em curso, porém.

O que se quer é apagar a redução de 86 para menos que 1 e fingir que ela não ocorreu.

O estímulo direto às manifestações mostra até que ponto a turma do Estado mínimo pode caminhar em seu esforço para barrar um processo que contraria interesses materiais e convicções ideológicas. Pode até fingir-se de anarquista.

A presença ambígua de agentes de vários serviços de informação nas mobilizações ameaça ganhar um caráter perigoso, imprevisível, como acontecia às vésperas da grande derrota democrática de 1964, quando marinheiros, cabos, sargentos foram infiltrados para jogar sua energia contra o governo João Goulart.

Alguns eram reacionários bem treinados, prontos para ajudar a serpente da ditadura em seu veneno. Impediam acordos, soluções negociadas e pactos construtivos. Outros eram jovens radicalizados, estimulados ao confronto direto por uma compreensão errada da conjuntura e suas armadilhas, como aconteceu com tantas lideranças respeitáveis ligadas ao movimento operário e popular.

Os números do IDH mostram para onde o país quer andar. Também apontam um caminho. Só não vê quem não quer.


Reprodução do Blog do Paulo Moreira Leite.

sábado, 20 de julho de 2013

Reaproximação

O ex-presidente Lula notou uma tendência. No "New York Times", escreveu que o PT precisa recuperar as ligações com os movimentos sociais. Não será fácil. Tome como exemplo um segmento específico, combate ao trabalho escravo, área em que a sigla reinava sozinha.
Assim como na política de transferência de renda, o marco inicial dessa ação não é petista. Foi em 1995 que FHC reconheceu oficialmente o problema diante da ONU. Nascia o grupo de fiscalização móvel, eficiente instrumento para libertar trabalhadores.
Mas, tal qual o Bolsa Família, foi sob Lula que a política ganhou corpo e alcance. Já em 2003, o total de pessoas resgatadas saltou para 5.223, mais que o dobro do recorde tucano. Em oito anos, foram 33.287 libertações, seis vezes mais que nos oito anteriores.
Além das operações, foi criada a lista suja de exploradores, permitindo que a circulação de mercadorias de origem escravagista fosse exposta. Bancos cortaram empréstimos. Empresas passaram a romper com fornecedores delituosos. Até o ultracapitalista Walmart aderiu.
No fim da gestão Lula, porém, ocorreu uma tentativa de enfraquecimento da política. A Advocacia-Geral da União fez um acordo inédito para impedir um retorno da Cosan à lista suja. Maior produtora de álcool do país, ela era a estrela da campanha do etanol.
Em 2012, novo susto. Ativistas perceberam uma articulação no governo para ajudar a construtora MRV --estrela do Minha Casa, Minha Vida-- a sair do cadastro. Com uma liminar, a firma acabou não precisando do favor. Nesse caso, o Judiciário foi rápido.
Enquanto isso, em São Paulo, algo novo surgia. O deputado estadual Carlos Bezerra Jr. (PSDB) aprovou uma lei que cassa inscrição estadual de empresa flagrada. Na prática, inviabiliza sua atuação. Para os entendidos, é a ação mais ousada contra o escravismo hoje. E o fim da primazia petista no setor.
Para regulamentar a lei, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, aproveitou um evento do Judiciário e de ONGs sobre o tema. É significativo que, confirmada no programa, a ministra petista Maria do Rosário (Direitos Humanos) não tenha aparecido.
Esse tipo de inversão em área que o PT surfava sozinho não é inédito. Ambientalistas e militantes da causa indígena desembarcaram junto com Marina Silva. Entre os gays, Marta Suplicy foi trocada pelo deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) como porta-voz. Sobre drogas, a nova referência é FHC.
Para a reaproximação que Lula quer, ativistas dirão que o petismo deve rever a opção pelo desenvolvimentismo a qualquer custo e certas alianças "pela governabilidade". Alguém acredita nisso?


Texto de Ricardo Mendonça, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Prosperidade filipina exclui os mais pobres

Prosperidade filipina exclui os mais pobres
Por FLOYD WHALEY

MANILA - Quando está na sua banca de verduras, Lamberto Tagarro fica cercado por reluzentes arranha-céus e carros de luxo. "As Filipinas são o tigre econômico em ascensão na Ásia", disse Tagarro, que ganha o equivalente a US$ 5 por dia. "Mas só os ricos estão subindo."
O país, cujo PIB registrou uma expansão anual de 7,8% no primeiro trimestre de 2013, tem a economia que mais cresce no leste da Ásia: seu mercado acionário está aquecidíssimo, a moeda local é forte e as agências internacionais de avaliação de crédito elevam consistentemente a nota filipina.
Mas a exclusão de Tagarro da recente onda de prosperidade nacional reflete a experiência de muitos filipinos, segundo os últimos dados governamentais sobre pobreza e emprego.
Estima-se que 7 milhões de filipinos, ou cerca de 17% da força de trabalho, tenham partido para o exterior em busca de empregos, segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento. O desemprego no arquipélago subiu de 6,9%, em abril de 2012, para 7,5%, no mesmo mês deste ano. Cerca de 3 milhões de filipinos que desejam trabalhar estão desempregados.
Em seus primeiros três anos no cargo, o presidente Benigno Aquino 3° afastou funcionários públicos graduados acusados de corrupção, reprimiu sonegadores e cortejou agressivamente os investimentos estrangeiros. Mas ele teve menos sucesso no combate à pobreza, que é persistente e generalizada no país. Adversários políticos de Aquino disseram antes das recentes eleições legislativas que ele enriqueceu os ricos e rejeitou os pobres.
As Filipinas continuam tendo um sólido setor de serviços. Recentemente, o país ultrapassou a Índia como principal polo internacional de call centers. No entanto, o país carece da base industrial que tirou milhões de pessoas da pobreza em outros países asiáticos.
Os dados mais recentes sobre a pobreza no país, divulgados em abril, mostram que quase não houve avanços desde 2007. Cerca de 10% dos filipinos vivem na pobreza extrema, incapazes de suprir suas necessidades alimentares mais básicas.
Segundo estimativas governamentais, mais de 9 milhões de famílias filipinas extremamente pobres são incapazes de auferir a renda mensal de 5.460 pesos (US$ 135) necessária para a alimentação. Essa quantia é similar ao preço cobrado pelo ingresso para o último show do Aerosmith em Manila, capital das Filipinas.
Recente levantamento de um instituto de Manila mostrou que 19,2% dos entrevistados -o equivalente a 3,9 milhões de famílias- declaram passar fome.
A pobreza rural é particularmente aguda. O setor pesqueiro, que encolheu, é o mais atingido.
O pescador Joel Cesista, 26, que sustenta a mulher e um filho pequeno, mora a oeste de Manila. Ele não encontrou emprego em fábricas e não tem terras para cultivar, então embarca cerca de duas vezes por mês em um perigoso esforço para encontrar atum a 320 km de distância, no mar do Sul da China, ganhando cerca de US$ 200 numa boa viagem. "Não há trabalho permanente aqui", disse Cesista. "Só temos a pesca."
Quando os gastos superam a produção pesqueira, ele não ganha nada. Muitas vezes, fica satisfeito só por voltar vivo para casa. "Já quase afundamos em tempestades", disse. "Não temos rádio nem ninguém para nos resgatar, exceto outros pescadores."
Desde 2008, com apoio de organizações internacionais, o governo filipino tem um programa de transferência de renda, dando dinheiro às pessoas mais pobres do país em troca de contrapartidas, como a presença dos filhos na escola. O programa, que beneficia quase 4 milhões de famílias, recebe avaliações positivas, mas também está cercado por acusações de corrupção e não demonstrou ter efeito sobre as cifras nacionais de pobreza.
Julita Cabading, 56, esperava receber ajuda. Ela disse que não conseguiu mais trabalho como contabilista porque os patrões preferem contratar pessoas mais jovens e ela não teve condições de arcar com uma formação que melhorasse sua capacitação profissional. Cabading ganha cerca de US$ 3 por dia vendendo jornais e chicletes em Manila. Quando ela se inscreveu para receber o benefício, foi informada de que precisaria esperar até dois meses em casa por uma entrevista.Depois disso, contraiu um empréstimo. Ela caiu em uma armadilha comum, trabalhando em troca de um salário de subsistência para sobreviver e pagar as dívidas.
"As Filipinas estão melhorando", disse Cabading. "Mas isso ainda não chegou até nós."


Reprodução do The New York Times, na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Educação também como melhoria social


Muita gente critica o que seriam leniências do setor público em relação à educação, enfatizando dois pontos. O primeiro é a aprovação ou promoção quase compulsória dos alunos do ensino fundamental. O segundo é a aceitação de abertura de inúmeros cursos superiores.
No primeiro caso, alega-se que tal política não só forma maus alunos, que fracassarão adiante, como também os deseduca socialmente, uma vez que retira dos professores e diretores o poder de puni-los pela reprovação ou retenção.
No segundo caso, a crítica é à enxurrada de maus profissionais no mercado de trabalho, o que prejudica o recrutamento, a produtividade e a competitividade e, em alguns casos, compromete a segurança (engenharias, saúde etc.).
Não nego totalmente esses aspectos. Têm de ser, na medida razoável, considerados e mitigados. Mas é preciso que esses críticos observem os benefícios dessas políticas -que não são triviais e podem, se forem acompanhados de aperfeiçoamentos, sustentar sua continuidade e sua ampliação.
As crianças que estão em escolas públicas são carentes não só de recursos financeiros, como também de condições de habitação, saneamento e alimentação, entre outros. A estrutura social e familiar que as cerca muitas vezes é precária -no sentido de assegurar proteção, afeto, referência moral e autoestima.
Estudar, nesse caso, é um acidente que, tão logo seja possível, será descartado, com apoio de parentes e amigos, em prol de formas mais rápidas (e nem sempre legais) de sobrevivência e ascensão social.
Em resumo, tudo atua para que essas crianças saiam da escola. A escola precisa, então, disputá-las com seu ambiente, para ganhar sua adesão, sua permanência, sua continuidade. A reprovação, certamente, não ajudará nesse desafio.
Para os que treplicarem que é melhor resolver antes a questão social, apresento dois argumentos: a) isso demora; e b) manter mais crianças na escola por mais tempo diminui o problema social a ser resolvido.
Quanto à crítica à proliferação de escolas superiores -à qual eu poderia adicionar pelo menos uma, que é sua utilização como base de sustentação política-, considere-se que elas põem em contato com livros, fotocópias, computadores, professores, colegas, trabalhos, exercícios, discussões, ambientes, dados, informações, formas de convívio, pesquisas e tudo o mais que existe nas comunidades acadêmicas, uma massa de adultos que dificilmente teriam tais experiências.
Alguns deles serão bem-sucedidos, mesmo oriundos de escolas fracas. O mercado os testará sem comiseração. Outros não vingarão em sua área, por seleção do mercado ou porque o curso não lhe interessava como vocação profissional e, sim, como qualificação salarial (que poderão obter).
Talvez sigam em suas profissões de nível médio -mas muito mais qualificados, educados, instruídos. Talvez empreendam -com muito melhor formação. E muitos outros talvez nem concluam seus cursos, ou os concluam de forma muito negligente. Mas todos eles terão lido, assistido a aulas, convivido com universos que, no mínimo, propiciarão parâmetros novos, diferentes do exclusivismo do ócio, da violência e dos vícios.
Também aqui se pode argumentar que a questão social é mais relevante e precedente. Eu respondo com as seguintes questões: pergunte aos familiares e convivas desses adultos se a relação com eles é indiferente à sua condição de estudante; imagine como esses adultos tratarão seus filhos em relação à educação e a comportamentos, interesses e ambições; e imagine essa massa de adultos que afluiu a tais escolas nos últimos anos se sua demanda não tivesse sido atendida.
É uma forma mais complexa de fazer a discussão. Mas vale a pena.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Em meio à riqueza, uma mão-de-obra esquecida (na Alemanha)

Em meio à riqueza, uma mão-de-obra esquecida

Por JUDY DEMPSEY

BERLIM - O baixo índice de desemprego e o crescimento constante, apesar da recessão global, fizeram da Alemanha motivo de inveja entre seus parceiros europeus menos robustos.
Mas, escondida atrás do chamado milagre econômico alemão, existe uma subclasse de empregados mal remunerados cuja renda pouco se beneficiou da estabilidade do país e até encolheu em termos reais na última década.
E, por causa das políticas do governo destinadas a manter os salários baixos para desencorajar a terceirização e incentivar o aprendizado técnico, a renda desses trabalhadores provavelmente não vai aumentar tão cedo.
Isso, por sua vez, significa que eles provavelmente continuarão dependendo dos programas de ajuda do governo para pagar suas contas, o que custa aos contribuintes 11 bilhões de euros por ano.
Essa situação ocorre porque a Alemanha não tem um salário mínimo federal. Mas também tem origens na política recente do país, que favoreceu medidas para conter o desemprego e conquistar apoio dos empregadores.
Enquanto o rendimento líquido máximo dos alemães de renda média-alta, geralmente definidos como os que ganham 3.400 euros por mês (R$ 7.820), aumentou ligeiramente em termos reais de 2001 a 2010, a renda líquida da população de baixa renda, os que ganham 960 euros por mês (R$ 2.208) ou menos, caiu 10%, segundo estudo de Markus Grabka, do Instituto de Pesquisas Econômicas da Alemanha (DIW).
E apesar dos esforços de combate à inflação da Alemanha, que mantiveram a taxa em 1,7% ao ano em média entre 2000 e 2010, mais alemães de baixa renda precisam contar com a ajuda do Estado para pagar as contas.
Em nenhum lugar esse abismo crescente é mais visível que em Berlim-Mitte, o próspero centro da capital, onde centenas de homens e mulheres faziam fila recentemente no departamento de empregos do distrito.
Maria Müller, 63, trabalha em uma clínica em Berlim que cuida de idosos deficientes. "Eu ganho 900 euros brutos por mês", ela disse. "Não tive um aumento de salário desde 2002. Mal consigo sobreviver, apesar de o governo dizer que a economia vai bem."
Segundo o Instituto de Pesquisas do Emprego, 1,37 milhão de pessoas que trabalham em tempo integral, parcial ou são autônomos dependem do Estado para complementar sua renda.
A história de sindicatos fortes na Alemanha permitiu que o Estado se mantivesse fora das negociações salariais. O sistema ainda funciona para setores como a construção, onde um trabalhador não qualificado ganha 11 euros por hora. Mas no setor de serviços alguns ganham apenas 640 euros por mês. O salário mensal médio na Alemanha foi de 2.366 euros (R$ 5.441) em 2010.
A Confederação de Associações de Empregadores da Alemanha diz que a adoção de um salário mínimo aumentaria os custos trabalhistas e o desemprego. Mas economistas dizem que se os salários continuarem baixos o Estado terá de subsidiar esses trabalhadores não qualificados.
"Eu adoraria a ideia de um salário mínimo", disse Thorsten Schulz, um mecânico de 60 anos, enquanto estacionava sua bicicleta.Ele ganha 7 euros por hora, em um trabalho temporário. "Se eu tivesse um emprego com um salário decente, poderia até pegar o ônibus", ele disse.


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Imposto pago não é dinheiro roubado


O Brasil é mesmo um país de contradições. Na manhã da terça-feira 13, um grupo de pessoas acompanhou a contagem do Impostômetro, o marcador gigante instalado pela Associação Comercial de São Paulo no centro da cidade para medir a arrecadação do governo. Neste ano, diz a entidade, atingimos a marca de 1 trilhão de reais 35 dias mais cedo do que em 2010. A cifra foi acompanhada por vaias do grupo de pessoas aglomerado diante do display. Não as culpo. Vende-se, por estas bandas, a ideia de que dinheiro de imposto é dinheiro subtraído da sociedade. Um argumento tão repetido pela mídia (e pela oposição ao governo) que, para muitos, se tornou uma verdade.
Virou quase lugar-comum dizer que o Brasil é um dos campeões mundiais em impostos, e comparar nosso pacote de serviços públicos com os oferecidos por países com carga tributária igual ou maior. Esses argumentos deixam de lado dois detalhes importantes: somos também destaque mundial em desigualdade social, e temos uma massa de desassistidos comparável apenas a países como China e Índia. Ou seja, sai caro, muito caro, para uma nação com tal perfil, oferecer, mesmo precariamente, uma estrutura de amparo universal.
Logo, uma alta arrecadação é algo a ser comemorado, e não lamentado. É sinal de que o governo eleito democraticamente dispõe de mais recursos para atender às necessidades da população que o elegeu. Como alguém em sã consciência pode reclamar da saúde e da educação públicas e querer ir às ruas protestar por menos impostos? Exigir das autoridades o melhor uso possível dos recursos do orçamento é um dever cívico em qualquer país, assim como cobrar o combate permanente à corrupção. Mas imaginar que um governo será capaz de, com menos dinheiro, sustentar a máquina estatal, fazer os investimentos necessários (para ontem) em infraestrutura e melhorar o pacote de serviços à população é simplesmente absurdo!
Em um brilhante artigo publicado recentemente no Valor Econômico, o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, mostrou que a desigualdade social, medida pelo índice Gini, caiu 9,5% entre 2003 e 2009. Sem os gastos em programas de transferência de renda realizados na última década, a melhora teria sido de apenas 1,5%. No mesmo texto, Pochmann levanta uma questão que tem méritos de sobra para tirar o sono dos brasileiros: por que os ricos pagam, proporcionalmente, tão menos impostos?


A reforma tributária pela qual nossos formadores de opinião deveriam se empenhar passa, necessariamente, pela troca de impostos que recaem sobre o consumo – e penalizam os consumidores indistintamente – por uma estrutura mais progressiva. É possível, sim, criar novas (e mais altas) alíquotas de IR para faixas de rendimento mais elevadas, elevar os encargos sobre itens supérfluos e de luxo, taxar grandes fortunas (a exemplo do que faz a Inglaterra e outros países desenvolvidos) e aparelhar melhor a equipe da Receita Federal até que ninguém consiga passar um fim de semana tranquilo em sua mansão no Guarujá sem a certeza de estar em dia com o Leão.
A estrutura social brasileira é perversa sobretudo porque dá àqueles que deixam a base da pirâmide a sensação de estar muito acima da maioria. Ainda que continue a anos-luz de distância do topo, parte da classe média é mortalmente tentada a comprar um discurso que interessa apenas a quem está lá em cima.
Não se iludam: um cofre público mais gordo revela que a economia está em crescimento, e que a inclusão social trouxe mais gente para dividir o fardo de sustentar o País. A alta na arrecadação também pode indicar avanços do Fisco no combate à sonegação – um mal tão danoso à sociedade quanto a corrupção. O combate à evasão tributária deveria ser festejado sobretudo por quem tem sua fatia descontada diretamente no salário, e não conta com recursos de “engenharia financeira” para pagar fugir às obrigações, nem remete recursos a paraísos fiscais…


Texto de André Siqueira, na CartaCapital

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma história de duas classes médias no Brasil

Uma história de duas classes médias no Brasil

Joe Leahy
Em São Paulo

Conversando com Melissa Beeby, você não saberia que o Brasil está passando por seu período mais próspero desde o “milagre econômico” do final dos anos 60 –como o último grande boom do país é conhecido.

Como para outros membros da chamada classe média “tradicional” do Brasil, as coisas se tornaram mais difíceis para Beeby nos últimos anos. Os preços da carne e da gasolina dobraram, os pedágios nas estradas subiram e comer fora ou comprar bens se tornou proibitivamente caro.

“A classe média está basicamente endividada. É assim que as pessoas se viram”, diz Beeby, que dirige The Bridge Restaurant dentro do Centro Brasileiro Britânico, em São Paulo. “As pessoas estão jantando mais em casa e, quando saem, vão para lugares mais simples.”

A história do sucesso do Brasil em retirar milhões de pessoas da pobreza ao longo da última década é uma história de duas classes médias.

Apesar do crescimento econômico não ter sido tão espetacular no Brasil quanto na China e na Índia, a uma média de 4% ao ano entre 2003 e 2010, o equilíbrio da distribuição de renda melhorou mais rapidamente na maior economia da América Latina do que em outros grandes mercados emergentes.

No Brasil, a renda dos lares desde 2003 subiu 1,8 ponto percentual ao ano acima da taxa do crescimento do produto interno bruto, auxiliada por aumentos generosos no salário mínimo e nos benefícios dos programas de bem-estar social. Na China, por sua vez, o aumento na renda dos lares fica 2 pontos percentuais ao ano atrás do crescimento do PIB.

No lado positivo, estimadas 33 milhões de pessoas ascenderam desde 2003 à chamada “nova classe média” ou acima. Hoje, 105,5 milhões de brasileiros, de uma população total de 190 milhões, fazem parte desse grupo, com renda doméstica entre R$ 1.200 e R$ 5.174. Os ricos também estão melhores, ao lucrarem com o mercado de ações, exportação de commodities e boom de consumo.

No lado negativo, dizem os sociólogos, estão aproximadamente 20 milhões de pessoas da chamada classe média “tradicional”, com renda doméstica acima de R$ 5.174. Diferente da Índia, onde a velha classe média se beneficiou com a criação de novas indústrias, como os serviços terceirizados de tecnologia da informação, muitos na classe média brasileira se queixam de aumento de preços, aumento de impostos, infraestrutura saturada e concorrência cada vez maior por empregos.

“Nos últimos 10 anos, a renda dos 50% mais pobres da população cresceu 68% em termos reais per capita, enquanto a renda dos mais ricos cresceu 10%”, diz o professor Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador de um estudo em grande escala sobre a nova classe média brasileira.

Ainda mais surpreendente, a renda média de uma pessoa analfabeta cresceu 37% entre 2003 e 2009, enquanto a de uma pessoa com pelo menos ensino superior incompleto caiu 17%. “Está de cabeça para baixo”, diz o prof. Neri.

As mudanças representam um reequilíbrio histórico da riqueza que aguardava desde 1888, quando o Brasil foi o último país na Europa e nas Américas a abolir a escravidão, diz o prof. Neri.

“As rendas estão crescendo mais (rapidamente) nos grupos tradicionalmente excluídos da sociedade brasileira, como os não-brancos, mulheres, aqueles que vivem no Nordeste, nas favelas ou na periferia das cidades brasileiras”, disse o estudo do FGV.

O processo é movido em parte pelo maior acesso à educação. A nova classe média tem ingressado nas universidades particulares e nas escolas técnicas, começando a competir por empregos com a classe média tradicional.

Consciente de seu apoio entre os pobres, a presidente Dilma Rousseff lançou recentemente um novo programa de bem-estar social, visando retirar mais 16 milhões de pessoas da pobreza absoluta.

Mas esses programas não conquistarão votos entre a classe média tradicional, que está concentrada nos Estados industrializados do Sul e Sudeste do país, especialmente São Paulo. Alguns se queixam de que o governo ajuda os pobres por meio de benefícios e aumentos salariais, e os ricos por meio de empréstimos subsidiados para suas empresas. Isso enche a economia de dinheiro, provocando inflação, que o Banco Central tenta conter por meio de taxas de juros cada vez maiores, penalizando a classe média.

Apesar de muitos na classe média tradicional brasileira concordarem com a redistribuição de renda, eles se preocupam com quanto isso está lhes custando.

Beeby diz que sente a pressão de ambos os lados –como consumidora e como dona de um pequeno negócio. A alta do preço da carne a forçou a aumentar o preço de alguns pratos. “As pessoas que comem aqui também sentiram a diferença. Elas reclamam muito”, ela diz.

Tradução: George El Khouri Andolfato