quarta-feira, 12 de maio de 2021

Ler Patricia Highsmith, que faria cem anos, ainda causa um mal-estar

 

Conhecia alguns filmes baseados em histórias de Patricia Highsmith, como o excelente “Pacto Sinistro”, de Hitchcock, mas nunca tinha lido seus livros e aproveitei o centenário de seu nascimento para fazer uma espécie de “intensivão” nessa verdadeira escola de perversidade psicológica.

Sou mais a linha dos detetives clássicos, encarregados de resolver um crime como uma charada ou problema de xadrez.

Há quem diga que as histórias de Agatha Christie ou Dorothy Sayers são profundamente conservadoras: acontece um crime (a perturbação da ordem) e, uma vez encontrado o criminoso, o status quo se restabelece.

A interpretação é um bocado mecânica, a meu ver. O leitor desse tipo de romances não se importa muito em ver o assassino punido; há um famoso caso em que Poirot decide esconder da polícia a solução do mistério. A pessoa assassinada, concluía o detetive, merecera o seu destino.

Natural que seja assim. Para que existam cinco ou dez suspeitos de um assassinato, cada qual com seus motivos, é preciso que a vítima seja altamente detestável. Nenhum leitor lamenta o crime, portanto, nem se sente apaziguado quando o criminoso vai para a cadeia.

A única “desordem” que os policiais clássicos tratam de consertar é de ordem intelectual. Havia quatro penas de pavão na cena do crime; o assassinado usava meias de cores diferentes; o anel roubado tinha sido engolido por seu cachorrinho de estimação. O que aconteceu?

É como uma colagem surrealista, em que o detetive se encarrega de restaurar, não a ordem, mas o sentido da cena.

Os livros de Patricia Highsmith não têm nada disso. Nos que eu li, se aparece um detetive, ele é incapaz de atinar com nada (veja-se “O Talentoso Ripley”, por exemplo).

E, se nas histórias clássicas o criminoso é movido pelo autointeresse (quer dinheiro ou vingança), no mundo de Highsmith o que prevalece é o mal sem maiores explicações.

Em “Resgate de um Cão”, por exemplo, tudo poderia reduzir-se a um golpezinho desimportante. O cachorro de um rico casal nova-iorquino é sequestrado e, por US$ 1.000, seria devolvido. Seria pouco para produzir um romance, mas Patricia Highsmith mantém o interesse (e a repugnância) do leitor construindo um personagem doente, obcecado em destruir a vida do policial que o investiga.

O policial, por sua vez, não é menos obcecado; por alguma razão psicanalítica, ele quer se aproximar ao máximo do casal rico, esquecendo os próprios pais nesse processo.

O famoso Ripley, no primeiro romance da série, vive o mesmo complexo, como se quisesse ser adotado pelos pais de Dickie Greenleaf, seu amigo milionário.

Patricia Plangman adotou o sobrenome de seu padrasto, Stanley Highsmith. Conta que desde pequena alimentava a fantasia de matar o padrasto; quando adulta, o seu comportamento tornou-se famosamente agressivo, com bebedeiras tremendas e uma longa sequência de relacionamentos abusivos.

Ela dizia ser uma lésbica profundamente misógina —mas não odiava apenas as mulheres; a humanidade toda, segundo ela, era composta majoritariamente de débeis mentais.

Preferia criar lesmas e as guardava na bolsa, para apresentá-las aos incautos.Também criador de lesmas é o pacato (?) marido de “Em Águas Profundas” —história quase dostoievskiana de crueldade conjugal.

O escritor russo talvez esteja ainda presente em “O Grito da Coruja”, romance em que, a troco de nada, o protagonista começa a espionar uma jovem que mora sozinha em casa. O namorado da moça, por sua vez, desenvolve a monomania inversa, e passa a perseguir o herói da história.

Há sempre a obsessão de um homem por outro. Em vez de se liberar num relacionamento homossexual, tudo se traduz em pulsão destrutiva.

A psicanálise desse esquema narrativo pode ser banal hoje em dia, mas são histórias escritas nas décadas de 1950 e 1960, no ambiente falsamente normal da classe média americana.

Se a sexualidade se reprime, o assassinato se torna, nesses livros, absolutamente inevitável. O personagem principal não tem outra saída senão matar quem o persegue. As circunstâncias dos livros são muitas vezes implausíveis, mas o crime é cometido com fatalidade de relojoaria.

Highsmith não se preocupa com a resolução de enigmas, com a restauração da ordem, ou com a punição do criminoso; o problema, aqui, é de doença —talvez sem cura.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

terça-feira, 11 de maio de 2021

Paulo Gustavo levava as pessoas a lugares altos e iluminava suas camas

 

Corria o ano de 2012 e eu chutava propaganda política. Gostava de destroçar aqueles cavaletes com o pé e postar nas redes. Pensava estar fazendo humor político.

Estava na Gávea, na praça Santos Dumont, quando encontro o rosto de algum botocado sorridente, com pinta de miliciano, no meio da calçada. Chuto com tanta raiva que atravesso seu sorriso com a sola do meu pé. Tento tirar o cavalete preso na minha perna quando irrompe um sujeito enorme, com relojão de ouro e cabelo acaju.

Logo percebo que o capanga estava ali pra vigiar a propaganda que eu tinha destroçado. Tento argumentar, obviamente sem sucesso, que o anúncio era irregular.

Ele me empurra e eu caio no meio-fio, por cima do cavalete que continuava preso na minha perna. Já não dava nem pra fugir. “Chama a polícia, então, porra!”, ele grita, enquanto me chuta, até que é surpreendido por uma mão em seu ombro.

“Calma, amigo, esse menino é dodói.” A voz soa familiar. É Paulo Gustavo. “Ele tá comigo.” Ao seu lado, Ingrid Guimarães se junta ao coro. “Ele não bate bem, não.”

O sujeito sai de ré, não sem antes me ameaçar de morte se eu voltasse ali. Os amigos me ajudam a me livrar do cavalete. Agradeço a intervenção. “E eu menti?”, diz o Paulo. “Você é dodói, garoto.”

Acho que não foi a única vez em que ele salvou minha vida. Toda vez que me deparo com impulso vândalo, uma indignação difusa, penso nele. Paulo tinha horror ao ativismo vazio.

“Basta! Chega!”, grita sua personagem loira revoltada. “Eu to indignada com o Brasil! Basta! Chega!” Ela repete em looping, e eu penso nele toda vez que tenho vontade de gritar basta. Infelizmente acontece muito. Mas nunca mais chutei um cavalete. O ódio continua, mas tento canalizar de formas mais eficientes.

“Lenny Bruce está morto, mas seu fantasma vive por aí”, canta Bob Dylan, em homenagem ao comediante maldito que morreu aos 40 anos de idade. Nada une Paulo Gustavo a Lenny Bruce, a não ser a profissão e a morte precoce.

Paulo teve a carreira mais bem-sucedida que um comediante pode ter. Ao contrário do Lenny (e de mim), nunca ofendeu ninguém, não usava drogas, mas tem uma parte da música que, hoje, não consigo ouvir sem chorar. “Talvez ele tivesse alguns problemas”, canta Bob Dylan, “mas ele levava as pessoas a lugares altos e iluminava suas camas”.

Humor também pode ser isso: uma luzinha na mesa de cabeceira. Sendo ele mesmo, Paulo fez o brasileiro mais feliz de ser ele mesmo. Paulo fez o brasileiro mais feliz.


Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

A língua falada no Brasil

 

"Você infelizmente ainda fala esse português inapropriado, esse português brasileiro. Você precisa aprender a falar direito". Foi o que ouviu em Lisboa uma estudante brasileira de sua professora portuguesa, revela uma reportagem de Giuliana Miranda na Folha.

Trata-se de conflito antigo, quase institucionalizado, envolvendo os dois países. Rubem Braga —de acordo com o testemunho de Rachel de Queiroz numa crônica— soube como ninguém enfrentar e refutar esse preconceito linguístico. Braga estava sentado num café em Paris, tentando seduzir uma bela moça de origem lusa, quando falou um brasileirismo e foi corrigido: "Em Portugal não dizemos assim".

Os encantos da rapariga evaporaram. Braga fechou a cara para desfiar sua teoria. Citou a Escola de Sagres, a Era dos Descobrimentos, Vasco da Gama e a armada de Cabral, "que veio inventar o Brasil". Na visão dele, enquanto a colônia cresceu, Portugal se esvaziou, perdendo a fina flor da fidalguia e do clero. No rasto do ouro de Minas, para cá vieram os que melhor escreviam, os que melhor falavam —"a própria inteligência". A pá de cal foi a invasão napoleônica, a mudança total da corte, trazendo a biblioteca real, que nunca mais voltou.

Nessa altura da história, tiveram de inventar a palavra "soidade", segundo Rubem Braga, porque Portugal havia perdido a língua, a original, a dos clássicos, a de Luís de Camões: "O país ficou falando até hoje um dialeto de camponeses e pescadores".

"Quer uma prova?", perguntava o cronista, franzindo as sobrancelhas e fremindo o bigode. "Recite 'Os Lusíadas' ao ritmo do atual falar português. Não dá! Fica tudo de pé quebrado! Camões metrificou o poema no ritmo do falar de então, que veio a ser o nosso!".

Comedora de vogais e de sílabas, a professora portuguesa hoje manda a estudante brasileira pôr um lápis na boca para treinar a fala porque acredita que a dicção dela é ruim.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

Jogo uma cadeira do sexto andar

 

Psicanalista é o cara que aprendeu com Freud, desde “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, que os humanos buscam insistentemente um tirano para chamar de seu. Somado a isso, descobriu em “O mal-estar na civilização" o quinhão de resignação que a civilidade cobra para fazer frente à barbárie ordinária.

Saber disso –e da pulsão de morte que o move– o deixaria mais conformado? Ficaria o psicanalista sentado em sua Bergères, circundado por espessa fumaça de charuto, esperando a inconsciência chegar? Tendo atingido o Nirvana dos insights, reciclaria seu sofrimento em frases de auto-superação?

Se assim o fosse, Freud não teria se debruçado incansavelmente sobre as mazelas sociais de sua época.

Contrariando possíveis expectativas, o que de fato ocorre é que “uma parte de mim almoça e janta, outra parte se espanta”, como disse Ferreira Gullar. E o espanto é tamanho, que a fantasia de correr para a janela –o mais perto da rua que se pode estar hoje– e gritar impropérios, urrar de ódio e arremessar coisas não me larga ao longo do dia. Acordo cedíssimo, caminho pelo bairro antes do amanhecer, atendo meus pacientes, escrevo, cuido de meus relacionamentos afetivos, enquanto contabilizo mortes por Covid e por chacina. A paz de espírito convive com o descalabro, o ultraje e o horror, revelando uma situação enlouquecedora.

Assisto estupefata, mas sem surpresa, a um governo que responde à premência da luta pela vida com a maior chacina já vista no Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa é a atual capital da “República das Milícias” (Todavia, 2020), como bem retratou Bruno Paes Manso –obra imprescindível para entendermos os meandros da violência que assola o país. Milícias que agem sob os auspícios de cidadãos que, por ação ou omissão, alimentam os monstros do qual se queixam.

Se a metáfora da tempestade perfeita servir para alguma coisa, lembremos que a pandemia –evento que marca o início simbólico do século 21– é contemporânea do pior governo eleito em nossa trágica história nacional.

O psicanalista Joel Birman, em “Trauma na pandemia do coronavírus" (2021), citando Foucault, nos lembra que o “dispositivo da lepra” foi substituído pelo “dispositivo da peste”, na passagem da Idade Média para o Renascimento. No dispositivo da lepra –de caráter teológico e moral– o doente era banido da cidade por ser portador do Mal. No dispositivo da peste –de caráter científico e higienista– o cidadão é isolado para seu próprio bem, mas não perde a cidadania. No Brasil atual, os dois dispositivos se digladiam e vemos com estupefação a ciência tendo que lutar contra o obscurantismo medieval encampado pelo governo, que atribui a contaminação pelo vírus à pouca fé dos homens e sua cura a remédio ineficazes.

Constato indignada que, se não houve impeachment até o momento, trata-se menos da falta de provas das ações escabrosas do capitão e sua corja, do que da falta de vontade política para levá-lo a cabo. A oposição, cujo cálculo político despreza as mortes e o inenarrável sofrimento da população, aguarda sem constrangimento o momento que melhor lhe aprouver para agir, no caso, as eleições de 2022. As exceções são raras e heróicas.

Vou até a janela e jogo uma cadeira do sexto andar, enquanto grito palavrões contra Bolsonaro, as milícias e todos os que os puseram e os mantém lá.

Não, apenas sento na cadeira e escrevo essas palavras, apostando que a consciência cumpre sua função contra a barbárie. Ainda que não toda, como dizia Lacan, pois igualmente importante é o ato.


Texto de Vera Iaconelli, na Folha de São Paulo

Vivo um pesadelo entre a Masmorra do Bolsonarismo e a Suruba do Eu Sozinho

 

Preciso escrever uma crônica. Toda semana agora é isso. Veja bem, o problema não é a demanda. O problema é o Brasil. Sinto que a inspiração, farta desse pesadelo, me abandonou no acostamento e saiu cantando pneu.

Não sei exatamente onde as boas ideias foram parar, mas estou decidida a reencontrá-las.

Por isso convido você, querido leitor, a um passeio dentro da cabeça de uma cidadã brasileira desprovida de anticorpos contra a Covid-19 no ano de 2021.

Funciona como o quadro Porta dos Desesperados, apresentado por Sérgio Mallandro em seu programa de TV nos anos de 1990. Você escolhe uma porta e abre, sem saber o que irá encontrar.

A primeira porta chamaremos de Festival de Gatilhos. Sou atropelada por um bloco de Carnaval em um dia de chuva, sinto o cheiro de milho verde em uma festa junina de bairro, uma bolinha de frescobol me atinge em cheio na praia do Leme. Me abraçam até minhas costelas estalarem, ai, alguém pisa no meu pé e eu peço desculpas.

A princípio, tudo parece muito agradável, mas viver de lembranças tem um quê de tortura.

Eu não sabia o que era tortura até adentrar a segunda porta, que nos leva à Masmorra do Bolsonarismo.

Aqui, a palavra de ordem —se é que podemos falar em ordem— é morte. Quase meio milhão de mortos.

A maior chacina da história do Rio de Janeiro. Um decreto que facilita o acesso da população às armas.

A CPI da Covid jogando sal na ferida aberta, recapitulando cada passo em direção ao abismo de um chefe de Estado que arrastou consigo uma nação inteira. Chega.

Terceira porta, que seja. Museu de Paranoias. Um vasto acervo de neuroses acumulado ao longo de um ano inteiro trancada, sozinha, em um apartamento. A maioria delas, uma variação do mesmo tema.

Temperei mal a comida ou estou com Covid? Me apaixonei pela pessoa errada ou estou com Covid? Bloqueio criativo ou Covid? Ou os dois?

A quarta porta, por sua vez, é um caminho sem volta para a Suruba do Eu Sozinho. Um lugar bem visitado por quem atravessa essa pandemia em estado de solteirice aguda. As fantasias mais improváveis com aquele vizinho que lembra o Tiago Leifert e outros cenários impublicáveis, dignos de um delírio febril de Pier Paolo Pasolini.

Não sei o que está atrás da quinta porta, mas suspeito que não será minha inspiração. Prometo a você, querido leitor, que seguirei atrás dela. Semana que vem tem mais.


Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 6 de maio de 2021

O cagaço e o cagaço do general

 

“Pazuello faltará a CPI por testar positivo para cagaço”, proclamou o Sensacionalista. Vi muita graça nisso, uma reação que, infelizmente, vem se tornando cada vez mais rara neste tempo lúgubre que o país atravessa.

Parte do humor está, claro, no contraste entre um general encagaçado e as ideias antigas de bravura associadas aos militares —já estropiadas a esta altura, é verdade, por tantas demonstrações de servilismo de altos oficiais a um capitão tresloucado que um dia o Exército excretou.

O maior mérito cômico da frase é da palavra cagaço, uma escolha vocabular feliz. Se Pazuello tivesse testado positivo para medo ou covardia, sinônimos de salão, a piada perderia a maior parte do efeito.

Cagaço é um tabuísmo ou palavrão —dos mais domesticados, próximo da linguagem infantil— de boas credenciais vernaculares. Sua certidão de nascimento foi lavrada em 1873 num cartório luso, o “Grande Diccionario Portuguez” de Domingos Vieira, e sua família tem raízes que se perdem na bruma dos tempos.

Cagar, verbo que dispensa definição, é algo que se faz em português desde o século 13, mas começamos tarde. Em latim, “cacare” era ato corriqueiro, mais cotidiano que o dia-sim-dia-não proposto por outro que parece encagaçado diante da CPI.

Como tantos fatos da vida, aquilo era algo que os romanos tinham aprendido com os gregos. A caca dos filhos de Zeus se chamava “kakke”, no que pouco se afastava da raiz indo-europeia “kakka-” —e aí chegamos à pré-história da matéria, ao tolete em estado fóssil.

O indo-europeu (ou protoindo-europeu) é uma língua imemorial que os linguistas do século 19 criaram de trás para a frente, isto é, construíram como hipótese a partir de semelhanças de difícil explicação entre línguas dispersas pelo mundo —no caso, do irlandês “caccaim” ao armênio “k’akor”.

Faz sentido que essa conversa mergulhe num sopão pré-histórico. Comer e descomer, além de se reproduzir, são os atos mais básicos não apenas dos humanos, mas de todos os organismos vivos. O resultado, batendo no ventilador da história, só podia ir longe.

Se a associação entre a evacuação intestinal e o medo, o pavor, reside numa evidente parelha (fisio)lógica de efeito e causa, a sonoridade gozada da palavra —que muitos supõem ter origem numa onomatopeia, numa imitação de som natural— não deve ser subestimada.

Cagão, cagarolas e caguincha são alguns dos mais expressivos sinônimos de medroso entre as dúzias que o Houaiss lista, do maricas favorecido pelo presidente ao timorato dos eruditos, passando pelos populares frouxo e banana e pelos clássicos poltrão e mofino.

Nem preciso dizer que a longa história da caca e seus bons serviços prestados à linguagem foram insuficientes para tornar essas palavras aceitáveis no discurso educado.

Por mais que uma frase como “ele gosta de cagar regras” seja corriqueira a ponto de dispensar sobrancelhas arqueadas na maioria dos ambientes sociais, recomenda-se enfaticamente não empregá-la numa redação do Enem ou numa entrevista com o arcebispo.

Refletindo sobre essas escatologias linguísticas, me ocorre uma curiosidade de rádio-relógio: que o pirilampo foi caga-lume em português por cerca de dois séculos, antes de tomar um banho de bons modos e virar vaga-lume.

Ao poético inseto luminoso eu acho que a mudança caiu bem. Mas não teria graça nenhuma se um dia a falta de brio e coragem ficasse conhecida como vagaço.


Texto de Sérgio Rodrigues, na Folha de São Paulo

Viver a maternidade na pandemia é como estar na sequência de 'Rambo'

 

A babá eletrônica chia, emitindo um som de balbucio.

Vem aquele pensamento: sou eu ou ele? Por favor, seja a vez dele. Se for, posso me virar para o lado e usufruir daquela última hora de sono. Mas, sim, é a minha vez de acordar às seis da manhã. Começa a maratona diária que é cuidar de dois bebês na quarentena.

Minha maternidade tem exatamente o tempo da pandemia, um pouco mais de um ano. É um mix de vários testes de resistência do Big Brother. A maternidade de primeira viagem. A maternidade de bebês gêmeos. A maternidade na pandemia.

Às vezes, me sinto numa sequência de “Rambo”. “Rambo – Ela Estava Grávida de Gêmeos.” “Rambo - O Inimigo Agora É Outro: A Pandemia.” “Rambo - Eles Começaram a Andar.”

Ao criar dois bebês em quarentena, eu e meu marido desenvolvemos um dialeto próprio. Consiste numa série de códigos que garante uma comunicação eficiente e um pouco mais divertida.

“Desovar”: significa levar um bebê dormindo para o berço.

“A bomba explodiu”: o bebê chorou antes de chegar até o berço.

“Bilhete premiado”: quando o bebê chora de madrugada e não é a sua vez de levantar.

“Barata voa”: os dois bebês começam a chorar ao mesmo tempo.

“Quem sabe faz ao vivo”: o bebê fez cocô durante a troca de fralda e todos assistem ao fenômeno.

“Boa noite, Cinderela”: mamada fora de hora para fazer o bebê dormir.

“Demoníssima Trindade”: quando o bebê faz xixi, cocô e regurgita durante a troca de fralda, tudo ao mesmo tempo.

“Quatro cavaleiros do apocalipse”: a mesma coisa da trindade, com acréscimo de choro.

Alguns pais falam que melhora com o tempo. Outros dizem que piora. Aqui, eles já começaram a andar, escalar e tentar atingir um único objetivo: sofrer um acidente. Mas, por enquanto, só experimentei um pouco mais de um ano de maternidade na pandemia.

Para todas as mães que enfrentam dificuldades de criar filhos em quarentena, meu sincero apoio. Somente nos resta acreditar naquelas palavras mágicas que todos falam, e eu repito tanto para mim mesma, “vai passar”.

Feliz Dia das Mães.


Texto de Flavia Boggio, na Folha de São Paulo

terça-feira, 4 de maio de 2021

Os clássicos estão morrendo?

 

Catástrofe espiritual.

Foi assim que Cornel West, um dos mais destacados intelectuais negros dos EUA, classificou a decisão da Universidade Howard, talvez a mais importante instituição de ensino negra do país, de fechar seu departamento de estudos clássicos.

West, que escreveu um contundente artigo de opinião para o Washington Post, afirma que a noção de crimes do Ocidente se tornou tão central na cultura americana que ficou difícil reconhecer as coisas boas que o Ocidente proporcionou, notadamente os clássicos, que são clássicos justamente porque permitem uma conversação universal, abarcando pensadores de diferentes eras e povos.

Diretores de Howard responderam, no New York Times. Dizem que, ao contrário de universidades brancas de elite, a instituição não tem dinheiro para tudo e teve de estabelecer prioridades. Afirmam que os alunos de Howard não ficarão sem ler Platão, Aristóteles e outros clássicos, apenas que não haverá mais um departamento exclusivo dedicado a esses pensadores.

Os clássicos estão morrendo? Morrer, eles não morrerão. Haverá sempre, nas universidades e fora delas, uma legião de estudiosos que garantirão que nosso conhecimento sobre esses autores não só não regredirá como avançará. Eu receio, porém, que o chamado cânon ocidental será cada vez mais objeto de estudo de especialistas e menos um corpo de referências que todos os cidadãos educados reconheçam.

Isso é ruim, porque, assim como a concordância acerca do que são fatos é fundamental para a ciência e a democracia, um universo de noções comuns em que as pessoas possam se apoiar para dialogar, trocar ideias e identificar-se é vital para a constituição de uma sociedade.

E é preferível que esse universo seja povoado por autores densos, que comportem interpretações complexas e que resistiram ao teste do tempo a que seja determinado pelos modismos simplificadores das guerras culturais.


Texto de Helio Schwartsman, na Folha de São Paulo

Incompetência de Bolsonaro não é assunto que podemos deixar para amanhã

 

Preciso escrever uma crônica. Lá fora, o mundo parece se esfarelar feito empada velha. Não confio em quem diz que não procrastina. Isso só agrava a culpa dos procrastinadores assumidos, fazendo com que procrastinem ainda mais.

Já dizia o meme: não é procrastinação se você está atravessando uma pandemia. Ouso acrescentar uma rabiola: atravessando uma pandemia sob os desmandos da pior liderança mundial no assunto, sem perspectiva de melhora, de vacina e de impeachment —pelo menos a curto prazo.

Ou seja, como brasileira não vacinada, não me faltam justificativas para procrastinar à vontade. Mas minhas tarefas não vão desaparecer magicamente como um ministro da Saúde do governo Bolsonaro.

Então vamos à crônica. Mas, antes, que tal abrir o site Quando Serei Vacinado? só para sentir uma baforada de esperança no cangote? Preencho meus dados e encaro o resultado. Nove meses. Eu não tenho criatividade suficiente para procrastinar por tanto tempo.

Já busquei por réplicas do macacão azul do Senna no Ebay; estudei o regulamento de petanca, um jogo francês semelhante à bocha; li uma reportagem na revista Caras sobre a vasectomia do Luciano Szafir e ensaboei um pacote de macarrão mesmo sabendo que a contaminação de Covid-19 por superfícies é raríssima.

Minha mão ganha vida própria e alcança o celular. Arreganha a janela da vizinha fofoqueira, também conhecida como Instagram. O ralo de tempo com o poder de sucção mais efetivo que já vi. Aqui, me sinto em casa. Ninguém é produtivo.

Observo, paralisada, meu prazo se aproximar como um círculo de fogo. O que nos leva a um terreno bastante visitado pelos procrastinadores, a dúvida “será estafa ou Covid-19?”. Para driblar esse dilema, agendo um PCR para o dia seguinte.

Ah, o dia seguinte.

O céu e o inferno dos procrastinadores. A solução que se transforma em problema, no dia seguinte, e novamente se apresenta como solução, e assim por diante, em um ciclo vicioso e aflitivo.

Preciso concluir essa crônica. Não quero romantizar a procrastinação, seus efeitos podem ser devastadores. Se o presidente parasse de perder tempo com ações contraproducentes, centenas de milhares de vidas seriam poupadas. Sua incompetência para o trabalho é um assunto que não podemos deixar para amanhã.


Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Paixões que pervertem e convertem

 

Em 1957, Lúcio Cardoso (1913-68) pediu emprego numa agência de propaganda. Para ser contratado, teve de submeter-se a uma redação. Foi reprovado. O profissional que o avaliou não sabia quem ele era. Ou talvez soubesse muito bem, razão pela qual achou que ele não serviria —e teria razão. Não seria preciso ler “Crônica da Casa Assassinada”, o romance que Lúcio estava escrevendo naquele ano, para saber que ele não se daria bem entre anúncios de sabão de coco ou palha de aço.

Há anos, em meu livro “Ela é Carioca”, arrisquei que, se o Brasil um dia acordar para Lúcio Cardoso, haverá quem se pergunte sobre onde estávamos com a cabeça. Lúcio foi ignorado por não ser “realista”, nem de “esquerda”, nem de “vanguarda” ou qualquer exigência então em moda. Era um autor de livros com mais reflexão que ação, passados nos quartos escuros da alma, num ritmo que não se media por relógios.

E não poupava a si mesmo. Veja essa amostra de suas frases que recolhi em crônicas e entrevistas.
“Não sou um escritor, sou uma atmosfera”. “Escrevo porque não tenho olhos verdes”. “Todas as paixões me pervertem, todas as paixões me convertem”. “Sou da raça dos que se alimentam de venenos”. “A política é um modo de organizar e dirigir os homens. Mas, a mim, eles só interessam livres e desorganizados”. “Tenho o Rio nas minhas veias como uma doença”. “O que mais me agrada nas litografias é o silêncio. Silêncio do preto, silêncio do branco. Silêncio do preto e do branco unindo-se para compor essa pausa imensa —o cinza”. [Sobre o dinheiro]: “Vivo de ganhar aquilo de que eu morro”. “‘O Diário de Anne Frank’ é um modelo de como deve ser a existência de um escritor —como um prisioneiro”. “Escrever é um modo de agonizar de olhos abertos”.

“Crônica da Casa Assassinada” está de volta às livrarias depois de longa ausência. A literatura brasileira, subitamente mais adulta, agradece.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo

Alguém sem fé pode receber a graça divina em um momento inesperado?


Saiamos um pouco da miséria de nosso cotidiano e olhemos para o céu. A teologia é uma das ciências mais belas. A política e a peste nos fazem sentir como répteis se arrastando sobre a Terra.

Será que um ateu pode experimentar a graça? Poderia alguém que não tem fé ser receptáculo da graça divina de perceber a presença concreta de Deus, num momento inesperado da sua vida?

Num mundo dominado por formas banais de espiritualidade como reiki, psicologia positiva, neoxamanismo, astrologia, meditação zen, sexualidade tântrica, o que todos buscam é uma harmonia universal que acalme a maior de todas as tentações espirituais desde sempre: a tentação do desespero. Mas, como todo mundo sabe, essas formas de espiritualidade de consumo são todas falsas. Produtos ao portador de um narcisismo miserável.

Essas palavras são do escritor francês Thibault de Montaigu, autor do livro “La Grâce” (editora Plon, Paris, 2020), assim como as perguntas que abrem esta coluna: pode um ateu ser visitado pela graça? Sim, pode, segundo o autor.

O livro é uma pérola para quem conhece a grande tradição católica jansenista francesa, que nos deu nomes como Pascal, Racine, La Fontaine, todos no século 17 e, no século 20, autores como Georges Bernanos e, atualmente, Pascal Quignard e Thibault de Montaigu.

Os jansenistas eram agostinianos estritos, próximos aos calvinistas, que nos legaram uma sofisticada teologia da graça e uma anatomia da alma conhecida como tradição moralista francesa. Foram perseguidos como hereges pela Igreja Católica e pela monarquia francesa ao longo do século 17.

Apaixonados pelo caráter contingente da graça, os jansenistas tiravam de letra esta questão: Deus gosta de se revelar a quem, normalmente, ninguém imaginaria que Ele visitasse? Claro que sim, basta ler a Bíblia.

Deus não parece gostar do homem óbvio. O mesmo vale para a Sua encarnação no cristianismo, o Jesus de Nazaré, o Galileu. A começar por Moisés, Deus parece gostar de gente difícil.

No romance em questão, o autor, um ateu convicto e em depressão, acaba por tropeçar na história de um tio que, aos 37 anos, abandonara o mundo e se recolhera a um mosteiro franciscano após uma experiência radical com a graça. Seu tio fora, até então, um errante, promíscuo sexualmente, desesperado e solitário. A ovelha má de uma família de condes.

O autor acabara de ter uma experiência semelhante à do tio e não “sabia onde colocar na sua vida”. A graça inesperada desorganiza esquemas de compreensão da vida e da ordem do mundo. O Deus inesperado encanta pelo próprio caráter inusitado de visitar alguém que nunca o convidou.

O narrador-autor, um escritor e jornalista de sucesso, aprende a dureza de ser visitado por Deus sem ter fé na Sua existência. Talvez, um dos maiores desafios intelectuais que um homem de letras pode viver.

O encontro com a história do tio Christian serve a ele como roteiro para tentar compreender o que se passara consigo mesmo naquele dia, naquela capela de um mosteiro, em que buscava traços de um assassino da própria mulher e filhos para o seu próximo livro, que possivelmente se escondera ali.

A visita da graça já foi descrita por muitos. Normalmente, se dá de modo definitivo. Como dizia o filósofo judeu e místico A. I. Heschel, no século 20, uma vez que Deus decide se revelar a uma pessoa, ela não escapa. A parada última desse processo, assim descrita pelo pároco bêbado do “Diário de um Pároco de Aldeia”, de Bernanos, é: “Tudo é graça”. Tudo é dádiva e isso nos faz sorrir.

A fenomenologia da graça, assim denominada pelo teólogo suíço Hans Urs Von Balthasar no século 20, não tem nada de abstrato. Não é uma ideia que vem à mente, mas uma sensação concreta que invade o corpo e o ambiente ao redor. Estamos na ordem estética. Como uma luz forte que invade o espaço, revelando a escuridão que ali habitava, ou uma tempestade que nos encharca, com suas gotas de água nas mãos e nos olhos.

A presença da graça transforma a vida pela doçura, pela misericórdia e pela beleza, causando aquela virtude, de todas a mais difícil, que é a esperança.


Texto de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo

sábado, 1 de maio de 2021

Cinco anos de namoro



As amigas diziam que ela nunca encontraria um namorado.

Aos 27 anos, Leda era considerada muito exigente. Ela ria da previsão porque sabia que, se não encontrasse, ficaria bem.

Trabalhava desde os 15, era boa no que fazia, podia se sustentar e, de verdade, não tinha certeza sobre se queria ou não ter filhos. Um dia, voltando do trabalho, distraída, desceu do ônibus dois pontos depois do seu. Já eram quase nove horas, a rua estava escura e ela não conhecia aquele lugar muito bem. Teve medo e a sensação aumentou quando viu o corpo de um homem se aproximar.

Leda olhou para os lados para entender para onde poderia correr. Desde pequena, tinha sido orientada por sua mãe em relação a abusos sexuais. “Grita, minha filha. Grita para que as pessoas percebam que alguma coisa está acontecendo.”

Ela tinha 11 anos quando usou a tática pela primeira vez: um velho na lotação a abraçou por trás e colocou as mãos em um de seus seios. Leda começou a berrar, o motorista parou o carro e Leda mudou de lugar. O velho seguiu a viagem sem ser importunado. Medo do sexo oposto; que merda de mundo é esse?, ela pensava.

“Tá perdida?”, disse a voz do rapaz vindo em sua direção. Leda fechou os ombros, como quem tenta se proteger de um ataque. “Não tô, não!”. “Mora por aqui?”. “Sim, bem ali”, disse, apontando para lugar nenhum. “Se não se importa, vou te acompanhar até sua casa.” Leda levantou os ombros, como quem não diz sim, mas também não diz não. Ter que aceitar a ilusória proteção de um homem contra a agressão de outro homem era adicionar deboche ao abuso.

Seguiram mudos. Na porta da casa dela, ele disse: “Me chamo Danilo. Posso pegar seu telefone?”. Leda pensou em dar um número falso, mas lembrou que ele já sabia onde ela morava, então, não adiantaria.

Leda e Danilo começaram a sair. Danilo trabalhava como entregador, era mais novo do que ela e tratava Leda como se ela fosse uma divindade encarnada. Ele era engraçado e, Leda, que nem sabia que era capaz de gargalhar, agora vivia gargalhando. “Você tem que ganhar dinheiro fazendo as pessoas rirem”, ela dizia.

Mas Danilo só pensava em ser atleta. Essa era, aliás, a única coisa que a incomodava: todos os dias ele acordava às 4h30 da manhã para correr antes de ir trabalhar. “Precisa ser tão cedo? Corre quando chegar do serviço”, ela dizia. E ele respondia: “Sabe o que acontece com preto correndo à noite, Leda?”.

No dia em que fariam cinco anos de namoro, Danilo foi comprar um colar para Leda e, atrasado para o jantar, não viu a batida policial na esquina, mandando que a moto parasse. Foram cinco tiros e o terceiro, na nuca, foi o que o matou.

Leda ficou uma semana sem conseguir se mexer. No sétimo dia, colocou um tênis e, antes do nascer do sol, saiu correndo. Correu por duas horas seguidas. Faz quase 20 anos que Danilo levou cinco tiros pelas costas e Leda só deixou de correr quando Paulo nasceu. Na noite em que Danilo morreu, Leda contaria que estava grávida.

Paulo chegou ao mundo cheio de saúde e com a cara do pai que ele não conheceu. De segunda a domingo, às 4h40 em ponto, Leda e Paulo saem de casa para correr. Na volta, tomam café juntos e, durante a semana, Paulo vai para a faculdade de direito. Diz que vai ser jurista para fazer justiça, para que ninguém cresça sem pai.

Mas não é todo dia que conseguem ver o sol nascer. Tem dias, aliás, que é só frio e chuva, dias em que o sol nem dá as caras. Leda não se importa, porque corre para sentir Danilo correndo ao seu lado. Ao contrário do sol, ele se faz presente a cada passo do caminho.


Texto de Milly Lacombe, na Folha de São Paulo