quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Caso dos Nove Chineses


No dia 16 chega ao Brasil o presidente da China, Xi Jinping. Ele governa uma ditadura de vitrine, a segunda economia do mundo, e é o maior parceiro comercial de Pindorama. Semanas depois, chegará às livrarias "O Caso dos Nove Chineses", dos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Mello, um magnífico trabalho de pesquisa histórica onde está contada a história de um episódio de vergonhosa marquetagem e histeria do amanhecer da ditadura.
Aconteceu o seguinte:
No dia 3 de abril de 1964, logo depois da deposição do presidente João Goulart, a polícia do governador Carlos Lacerda prendeu no Rio de Janeiro nove cidadãos chineses. Perigosos agentes, comandavam uma rede de 191 pessoas, tinham agulhas envenenadas, bombas teleguiadas e uma lista de personalidades que deveriam ser assassinadas durante a revolução comunista.
Tudo mentira. Dois eram jornalistas da agência estatal e estavam no Brasil desde 1961. Quatro haviam chegado em junho de 1963 para tratar de uma exposição comercial, e três vieram em janeiro de 1964, para comprar algodão. Todos tinham vistos oficiais. Começaram a apanhar no momento da prisão, em suas casas, e depois alguns deles foram espancados pela polícia. Tiveram os apartamentos saqueados e as contas confiscadas (R$ 865 mil em dinheiro de hoje.)
No dia 16, quando Xi Jinping descer em Brasília, completam-se 50 anos dos dias em que os nove chineses estavam trancados em quartéis. Só puderam escrever para as famílias dois meses depois. Só receberam a visita das mulheres (vigiadas por 32 agentes) em agosto.
"O Caso dos Nove Chineses" conta uma história de acovardamento da qual emerge, altaneiro, o advogado Sobral Pinto, que aceitou a defesa dos presos. A Sobral juntaram-se intelectuais como Augusto Frederico Schmidt e jornalistas como Antonio Callado e Carlos Heitor Cony. (Seus destemidos artigos da época, publicados no livro "O Ato e o Fato", foram reeditados há pouco.)
Como era tudo mistificação, violência e histeria, em poucos meses o governo ficou com uma batata quente nas mãos. Condenara os chineses a dez anos de prisão, enfrentava uma campanha internacional e não tinha como se explicar. Em fevereiro de 1965 eles foram expulsos e recebidos como heróis em Pequim.
Aí o jogo virou. Desde então, o Império do Meio mostra que tem memória. Não cria caso, mas não esquece. Sempre que surge a ocasião, refere-se ao "contencioso" do episódio. Cinco dos nove estão vivos. Um deles tornou-se diretor da agência de notícias para a qual trabalhava, outro dirigiu a área de América Latina do Ministério das Relações Exteriores e foi embaixador em Moçambique e Angola. Wang Yaoting chegou a presidente do Conselho para a Promoção do Comércio Internacional. Em 1979, quando o general João Figueiredo visitou a China, ele conversou com um brasileiro:
– Morei um ano no Rio.
– Então o senhor deve conhecer bem o Brasil.
– Conheço muito pouco, porque fiquei aquele ano quase todo preso.
Foram-se os militares, vieram Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Os tempos seriam outros. Talvez, mas até hoje o Império do Meio não recebeu satisfação pelo que sucedeu a seus cidadãos, nem o dinheiro de volta. Mais: em 1997 (governo Fernando Henrique) um dos jornalistas tentou vir ao Brasil com a mulher, mas não conseguiu visto. 


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo.

Após 65 anos, representante chinês faz visita histórica à Taiwan


A China está implacável em seus esforços de reaproximação com a ilha de Taiwan. Na quarta-feira (25), Zhang Zhijun, o chefe do departamento da China para questões taiwanesas, deu início a uma visita de quatro dias a convite de seu homólogo Wang Yu-chi, presidente do Conselho de Questões Continentais (chinesas). É o primeiro dirigente na categoria de ministro a ir até a República da China, nome oficial de Taiwan, separada da China continental desde 1949 e a fuga de Chiang Kai-shek.
"São menos de três horas para voar de Pequim até Taipé, mas levamos 65 anos para dar esse passo", declarou Zhang, a seu anfitrião. Um "passo" que foi comparado a um "salto gigantesco para as relações entre a China e Taiwan" pela agência oficial Xinhua.

Essa viagem, após a visita histórica de Wang à China, em fevereiro, ocorre apesar da desconfiança expressada durante a "revolução dos girassóis", conduzida pelos estudantes taiwaneses em abril. O episódio barrou o capítulo de "serviços" do acordo de livre-comércio sino-taiwanês, assinado em junho de 2013 e que deveria abrir aos investimentos chineses, domínios tão vulneráveis às pressões políticas quanto a cultura e a imprensa. Os manifestantes exigiram a adoção de uma lei-quadro de supervisão dos acordos com a China. Mas esta parece hoje estar em ponto morto.
Em frente ao hotel do aeroporto de Taipé, onde os dois emissários conversaram na quarta-feira, uma centena de manifestantes, mantidos à distância por cordões policiais, protestaram aos gritos de "O futuro de Taiwan pertence aos taiwaneses". O hotel foi o local de um incidente ocorrido na manhã do mesmo dia, quando as forças policiais expulsaram com ajuda militar os ocupantes de dois quartos que pretendiam estender faixas pela fachada.
A mobilização do mês de abril, que protestava contra a falta de transparência nas negociações com Pequim, revelou os limites do modelo de aproximação promovido pelo presidente Ma Ying-jeou (Kuomintang, KMT, nacionalista), desde que este chegou à presidência do país em 2008. Uma parte da população é contrária à ingerência nociva da China na democracia taiwanesa através do "cavalo de Troia" da economia, bem como às ambiguidades de Kuomintang, que sempre negociou com o Partido Comunista Chinês por baixo dos panos.

"O governo taiwanês está entre a bigorna e o martelo. Ele quer avançar nas relações entre as duas margens, mas não às custas da soberania da República da China. O KMT tampouco pode se sabotar", observa Stéphane Corcuff, pesquisador no Centro de Estudos Franceses sobre a China Contemporânea, em Taipé.
Status quo

As ambições a curto prazo do governo Ma e de Pequim são superar mais uma etapa institucional nas relações entre as duas Chinas, que por muito tempo permaneceram como apanágio exclusivo de duas agências semigovernamentais criadas para esse propósito, sem no entanto ir contra o status quo da "não-independência de Taiwan" e da "não-reunificação."

Um sinal de que Pequim entendeu, até certo ponto, o tamanho do desafio que sua visão da reaproximação entre China e Taiwan enfrenta é o fato de que a visita foi apresentada pela agência Xinhua como propícia à descoberta de um "amplo espectro da sociedade taiwanesa": o emissário chinês, cujo programa de visita cuidadosamente evita Taipé, em razão dos riscos de manifestações, encontrará especialistas, personalidades religiosas, estudantes, bem como políticos, entre eles Eric Chu, o prefeito (KMT) de Nova Taipé – uma personalidade em ascensão do partido nacionalista - , mas também Chen Chu, a prefeita de Kaohsiung, célebre figura do Partido Progressista Democrático (independentista), que tem como feudo histórico a grande cidade do sul da ilha.

Reportagem de Brice Pedroletti, para o Le Monde, reproduzida no UOL.

Israel derruba casa de família de palestino acusado de matar israelense

Israel demoliu nesta quarta-feria a casa do palestino Ziad Awad, preso este mês sob a acusação de ter matado à bala um policial israelense à paisana em abril, informou o Exército.
Um porta-voz do Exército, o tenente-coronel Peter Lerner, disse que a demolição tinha por objetivo servir como fator de dissuasão.
"A implementação da ordem de demolição serve para dissuadir e transmite uma severa advertência aos terroristas e seus cúmplices de que suas ações terão graves consequências", disse.
Na segunda-feira a mais alta corte de Israel rejeitou um apelo de um grupo israelense pró-direitos humanos contra a decisão do Exército de demolir a casa no vilarejo de Idhna, perto da cidade de Hebron, no sul da Cisjordânia.
Há décadas o Exército de Israel explode ou demole casas de militantes, mas interrompeu a prática em 2005, dizendo ser contraproducente em seus esforços para desencorajar ataques.
"Eles chegaram às 3h da manhã e acabaram de destruir a casa às 7h. Eu pensei que fossem só derrubar a casa do meu irmão, mas agora tudo se foi e nós também não temos para onde ir", disse um irmão de Ziad, Mohammed, que vive na mesma pequena construção que abrigava outros 15 membros de toda a família.
O HaMoked Centre, grupo israelense pró-direitos humanos, afirmou que a sentença viola a lei de Israel e a lei internacional, segundo as quais "uma pessoa não pode ser punida pelos atos de outra".
"As maiores vítimas são os ocupantes da casa demolida, e não o suposto responsável", argumentou.

Reprodução do UOL Notícias. 

"PMs me disseram: 'É hora de você morrer'", diz advogado preso em ato

O advogado Daniel Biral, 33, integrante do grupo Advogados Ativistas - que acompanha atos e protestos para oferecer auxílio jurídico para manifestantes –, diz ter sido ameaçado de morte e torturado por policiais militares após ser detido durante um ato na praça Roosevelt, no centro de São Paulo, na noite desta terça-feira (1º), contra a prisão de dois manifestantes em junho.
Biral foi preso por desacato à autoridade com uma colega, ao exigir a identificação de uma policial que acompanhava o ato. "Exigi que ela apresentasse ao menos a patente, já que ela estava cobrindo a identificação, que é obrigatória. Nesse momento outro oficial da tropa de choque me retira violentamente do local e me leva para trás dos escudos do choque", afirma o advogado.
"Fui conduzido para um camburão, me dão gravata, me pegam pelas pernas e me arrastam escada abaixo na praça Roosevelt. Fui batendo a cabeça degrau a degrau", diz.
Biral foi colocado dentro de um carro da polícia e algemado. "Disse que não era preciso me algemar, e o PM me responde que 'não é necessário, mas, se você não deixar, eu vou quebrar o seu braço'", conta.
Ao chegar ao 4º DP, o advogado afirma ter sido torturado com socos e pontapés e diz ter ouvido a seguinte frase: "Agora que não tem câmera é hora de você morrer". "Me espancaram muito. Fui torturado ali na frente do DP. Recebi três golpes tão fortes na cabeça que desmaiei", diz.
Segundo ele, outro grupo de PMs o levou até uma segunda delegacia, onde o delegado plantonista não permitiu que ele registrasse um boletim de ocorrência por abuso de autoridade dos policiais. "Ele falou que, se eu fizesse isso, não seria lavrado o termo circunstanciado, o que implicaria que ficaríamos presos em flagrante", diz.
Biral reuniu-se nesta tarde com a direção da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para discutir que medidas serão tomadas com relação à sua prisão.
Em nota oficial, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que "dois advogados foram detidos na Praça Roosevelt, na noite de terça-feira, somente após desacatarem policiais, fato demonstrado por imagens veiculadas pelo coletivo Advogados Ativistas. A Polícia Militar vai apurar a falta de identificação dos policiais".
Além do esclarecimento sobre as prisões, a SSP --também em nota oficial--, afirmou que a "suposta vítima deve registrar ocorrência e se submeter a exame de corpo de delito para obter elementos para provar o que diz.". 
Leia a íntegra da nota oficial sobre o posicionamento da SSP:
"Referente à matéria "PMs me disseram: 'É hora de você morrer'", diz advogado preso em ato", a Secretaria da Segurança Pública tem a esclarecer o seguinte:
1. A suposta vítima deve registrar ocorrência e se submeter a exame de corpo de delito para obter elementos para provar o que diz.
2. É importante que o advogado também comunique os fatos à Corregedoria da Polícia Militar, para que o suposto crime seja apurado.
3. Por ter formação jurídica, o advogado sabe que é responsável por provar as acusações que fez contra os policiais.
4. Não procede a afirmação feita pelo advogado de que teria sido impedido pela Polícia Civil de registrar a acusação de tortura.
5. Todo o procedimento de elaboração do Termo Circunstanciado foi acompanhado por um representante da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB."

OAB-SP pede providências

Além de Biral, a advogada Silvia Daskal Hirschbrush também foi presa durante o protesto de ontem. Os dois e o advogado Benedito Roberto Barbosa, detido pela PM durante uma reintegração de posse no centro da capital na semana passada, participaram de uma reunião com representantes da OAB-SP.
Após o encontro, a entidade emitiu uma nota de repúdio à atuação da polícia. "Todos foram imobilizados com violência, levados, sem presença de representante da Ordem, e no caso da Roosevelt, recebemos denúncia de que houve violência durante o percurso ao DP e negativa do delegado em registrar boletim de ocorrência por abuso de autoridade e lesões corporais, como se coubesse a ele valorar se houve ou não abuso, quando sua competência é de receber e apurar a denúncia", afirmou Marcos da Costa, presidente da OAB-SP.
A entidade enviou ofícios ao secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira; ao procurador-geral de Justiça, Márcio Elias Rosa, ao corregedor da PM, Cel. Rui Conegundes de Souza, e ao ouvidor das Polícias, Júlio César Fernandes Neves,  pedindo providências.


Texto de Gil Alessi, no UOL Notícias. 

O candidato guerrilheiro Aloysio


Nas redes sociais, nas últimas eleições, apoiadores do tucano José Serra bombardeavam a candidata petista Dilma Rousseff por ela ter sido guerrilheira durante a ditadura militar brasileira que atolou o país no obscurantismo a partir de 1964. A escolha por Aécio Neves de Aloysio Nunes Ferreira para seu vice enterra um dos argumentos mais usados pela direita mais extrema em relação a quem participou da luta armada contra terrorismo de Estado. Aloysio Nunes Ferreira é conhecido como o “motorista de Marighella”. O vice de Aécio participou com Carlos Marighella, executado pelos militares em 1969, da Ação Libertadora Nacional. Aloysio tem uma biografia de guerrilheiro de linha de frente. Não ficou nos bastidores. Fez bem.
Em “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, Mario Magalhães apresenta Aloysio portando uma carabina e dirigindo o carro usado por seus companheiros para fugir depois do assalto ao trem-pagador Santos-Jundiaí em agosto de 1968. Cena de filme. Coube a Aloysio a tarefa delicada de levar o dinheiro arrecadado. Dois meses depois, em outubro de 1968, Aloysio participou de outro assalto, o ataque ao carro-forte da Massey Ferguson. Melhor não contar com ela para financiamento de campanha. Aloysio exilou-se em Paris. Na volta ao Brasil, passou pelo PCB e pelo PMDB até achar seu galho no PSDB. Em 2003, quando Dilma assessorava Lula, a revista Veja disparou: “O cérebro do roubo ao cofre – com passado pouco conhecido, a ministra envolveu-se em ações espetaculares de guerrilha”.
Dilma teria concebido o roubo do cofre do governador paulista Adhemar de Barros.
Como é sabido que Dilma não pegou em armas, Veja encontrou um jeito de comprometê-la um pouco mais, o depoimento do ex-sargento e ex-guerrilheiro Darcy Rodrigues, o “Leo”, “que ajudou o capitão Carlos Lamarca a roubar uma Kombi carregada de fuzis de dentro de um quartel do Exército, em Osasco”. Segundo Leo, “a Dilma era tão importante que não podia ir para a linha de frente. Ela tinha tanta informação que sua prisão colocaria em risco toda a organização. Era o cérebro da ação”. Será que Veja relembrará agora esse passado guerrilheiro de Aloysio? Estou ansioso pelos textos dos lacerdinhas da mídia central Rodrigo Constantino, Lobão, Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli e Olavo de Carvalho sobre esse passado belicoso do candidato tucano. O PSDB deixou correr a baba contra a “terrorista” Dilma.
A guerra de guerrilhas está empatada. Não condeno Aloysio nem Dilma. Intuo que a ala udenista que apoia Aécio ficará constrangida e triste por não poder se deliciar com a baixaria que mais a satisfaz. O guerrilheiro Aloysio tinha por codinome Mateus. Fugiu para Paris com passaporte falso. Manteve estreita amizade com Fidel Castro, tendo sido levado pelo ditador, em 2001, até o avião no aeroporto de Havana. Arranjou campo de treinamento para guerrilheiros na Argélia. Fez o que considerava necessário para combater a ditadura. O que vão dizer agora? Mateus, primeiro os teus? Ou os dos outros?
A coordenação da campanha tucana será feita por José Agripino, do DEM, aquele mesmo que perguntou a Dilma se ela mentira sob tortura. O lacerdão Agripino coordenando a campanha do guerrilheiro terrorista Aloysio Nunes. Uau!

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos


Entre mortos e feridos, salvaram-se todos na Copa do Mundo que visitou Porto Alegre.
O noticiário apocalíptico da véspera deu lugar a cinco grandes confrontos e festas bem organizadas.
Tivemos pequenos incidentes, fatos comuns para um evento desta magnitude e que acontecem em todos os países organizadores.
Quem desembarcou aqui para curtir o Mundial, aprovou e muitos voltarão.
Já estou com saudade.
No caso de Porto Alegre, o noticiário apocalíptico não se confirmou, embora o próprio governo suspeitou de que não teríamos Copa no Beira-Rio.
Olhando para trás, para os cinco jogos no Beira-Rio, para os turistas que aqui desembarcaram, para a imagem que o Rio Grande do Sul deixou para o resto do mundo, pergunto:
a questão das estruturas temporárias merecia tanto barulho?
Valeu ser sede da Copa?
Valeu. E como.
Agora é torcer pelo Brasil.



Reprodução do Blog do Hiltor Mombach.

Joaquim Barbosa diz que deixa STF com "alma leve"

Joaquim Barbosa diz que deixa STF com "alma leve"

Ministro participou hoje de sua última sessão no Supremo Tribunal Federal


O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse nesta terça que deixa a Corte de forma tranquila e com a “alma leve”. Ele participou hoje de sua última sessão como ministro do Tribunal.

Em maio, Barbosa anunciou que se aposentaria antecipadamente neste mês, após 11 anos como ministro da Corte. O decreto que vai oficializar a aposentadoria deve ser publicado até o fim deste mês. Com a saída do ministro, a presidência do Tribunal será exercida pelo atual vice-presidente, Ricardo Lewandowski.

Barbosa descartou pretensões de seguir a carreira política após a aposentadoria. "A política não tem na minha vida essa importância toda, a não ser como objeto de estudos e reflexões. Mas uma política em um senso bem elevado do termo, uma política examinada sob a ótica das relações entre os Estados, entre as nações. Eu não tenho esse apreço todo pela política, por essa política do dia a dia. Isso não tem grande interesse para mim”, afirmou.

Para ele, foi um “privilégio imenso” o período que passou no Supremo. “Foi um período em que, não em razão da minha atuação individual, mas coletivamente, o Supremo Tribunal Federal teve um papel extraordinário no aperfeiçoamento da nossa democracia. Isso é que é o fundamental para mim”, destacou.

Após a despedida do presidente, o ministro Marco Aurélio reconheceu que Barbosa ficará na história do Tribunal pela sua atuação como relator da Ação Penal 470, o processo do mensalão. Melo disse, porém, que a gestão do vice-presidente Ricardo Lewandowski, que assumirá a presidência com a saída de Barbosa, deverá retomar o padrão do STF. “O resgate da liturgia, que precisa ser observada. As instituições crescem quando proclamamos valores, quando observamos a necessidade de manter o alto nível.”

Barbosa tem 59 anos e poderia continuar na Corte até 2024, quando completará 70 anos e teria de ser aposentado compulsoriamente. Ele nasceu na cidade mineira de Paracatu e foi o primeiro negro a presidir o STF. Ele ocupa a presidência do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça desde novembro de 2012. O ministro foi indicado à Suprema Corte em 2003, no mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Reprodução do Correio do Povo. 

Imagina nas eleições

Poucas vezes viu-se tamanha desinformação como antes desta Copa. A previsão era dantesca. Caos nos aeroportos, estádios incompletos, gramados incapazes de abrigar jogos de várzea, tumulto, convulsões sociais, epidemias. Os profetas do caos capricharam: alguns apostaram que as arenas só ficariam prontas após 2030. Só faltou pedirem à população que estocasse alimentos em face da catástrofe.
Diante de um cenário diametralmente oposto, os mensageiros do apocalipse ensaiam explicações. A principal é a de que a alegria do povo brasileiro suplantou a penca de problemas que estava aí, a olhos vistos, e ninguém queria enxergar. Desculpa esfarrapada.
Se é inquestionável que os brasileiros têm uma tradição amistosa, ela por si só não ergue estádios decentes, melhora aeroportos, acomoda milhares de turistas e garante acesso aos locais das partidas. Problemas? Claro que houve, mas infinitamente menores do que os martelados pela imprensa em geral. Muita gente mentiu, ou, no mínimo, não falou toda a verdade –o que em geral dá no mesmo.
Durante um tempo quase infinito, os brasileiros foram vítimas de uma carga brutal de notícias irreais. Se tudo estava tão atrasado e fora dos planos, como a Copa acontece sem contratempos maiores do que os de outros eventos do gênero? Talvez o maior legado deste choque entre fantasia e realidade seja o de que, acima de tudo, cumpre sempre duvidar de certas afirmações repetidas como algo consumado.
A profusão de instrumentos de informação atual, ainda bem, oferece inúmeras alternativas para que opiniões travestidas de certezas sejam postas à prova. Mais do que nunca, desconfiar do que se ouve, assiste e lê é o melhor caminho para tentar, ao menos, aproximar-se do que é real.
No final das contas, é bom que essa distância entre versão e fato tenha ficado escancarada num ano eleitoral. Se com a Copa foi assim, imagine doravante, quando está em jogo o cargo mais importante da República. A enxurrada de algarismos para mostrar um país à beira do abismo ocupa boa parte do noticiário "mainstream". Na outra ponta, estatísticas de toda sorte surgem para falar o inverso. Quem tem razão?
Nessa hora, o decisivo é avaliar como está a vida do próprio cidadão e como ela pode ficar se vingar a proposta de cada candidato. O mais difícil, como sempre, é descobrir se estes têm coragem de dizer o que realmente pretendem realizar.


Trecho de texto de Ricardo Melo na Folha de São Paulo. 

Homem provoca revolução feminina ao criar máquina de absorventes baratos na Índia

Um homem simples, de uma família pobre na Índia, revolucionou a saúde menstrual em países de baixa renda ao inventar uma máquina que produz absorventes baratos. Para testar seu produto, até mesmo criou um "útero" artificial, com uma bexiga e sangue de cabra.

Num país extremamente conservador e supersticioso, os experimentos de Arunachalam Muruganantham para desenvolver sua invenção tiveram grande custo pessoal - ele quase perdeu sua mulher, sua mãe e chegou a ser expulso de onde vivia. Mas manteve seu senso de humor.
"Tudo começou com a minha mulher", diz. Em 1998, ele era recém-casado e seu mundo girava em torno de sua esposa, Shanthi, e sua mãe viúva. Um dia ele viu que Shanthi estava escondendo alguma coisa dele. Ficou chocado ao descobrir o que era - "trapos asquerosos" que ela usava durante a menstruação.
Quando ele perguntou por que ela não usava absorventes higiênicos, ela disse que não sobrariam recursos para comprar o leite.
Querendo impressionar sua jovem esposa, Muruganantham foi à cidade para comprar-lhe um absorvente. O produto foi entregue a ele apressadamente, como se fosse contrabando. Ele o pesou em sua mão e se perguntou porque 10 gramas de algodão, que na época custava 10 paise (o equivalente a menos de um centavo de real), eram vendidos por 4 rúpias (cerca de R$ 0,40) - 40 vezes mais. Ele decidiu que poderia fazer absorventes mais baratos.
Ele produziu um absorvente caseiro de algodão e deu a Shanthi, exigindo retorno imediato. Ela disse que ele teria que esperar por algum tempo - só então Muruganantham se deu conta de que a menstrução era mensal. "Eu não posso esperar um mês para cada avaliação, vai demorar duas décadas (para aperfeiçoar o produto)!" Ele precisava de mais voluntárias.

O tamanho do problema

Muruganantham descobriu, então, que quase nenhuma mulher nas aldeias vizinhas usava absorventes - menos de uma em cada 10. Suas descobertas foram comprovadas por uma pesquisa realizada em 2011 pela AC Nielsen, encomendada pelo governo indiano, que constatou que apenas 12% das mulheres em toda a Índia usavam o produto.
Muruganantham diz que nas áreas rurais o uso é ainda mais raro. Ele ficou chocado ao saber que as mulheres não só usavam trapos velhos, mas outras substâncias anti-higiênicas, como areia, serragem, folhas e até cinzas.
As mulheres que fazem uso de panos muitas vezes sentem vergonha de secá-los ao sol, o que significa que eles não são desinfectados.
Aproximadamente 70% de todas as doenças reprodutivas na Índia são causados por falta de higiene menstrual - que também pode influenciar a mortalidade materna.
Encontrar voluntárias para testar seus produtos não foi tarefa fácil. Suas irmãs se recusaram. Então, ele teve a idéia de se aproximar de mulheres estudantes na faculdade de medicina local.
Apesar dos obstáculos culturais que dificultam esse tipo de abordagem, ele conseguiu convencer 20 alunas a experimentar seus absorventes. Só que no dia em que ele foi recolher os formulários de avaliação, viu três delas respondendo às pressas. Essas opiniões não eram confiáveis, pensou.
Foi então que ele decidiu testar os produtos em si mesmo. "Eu me tornei o homem que usava um absorvente", diz ele .
Ele criou um "útero" fazendo alguns furos em uma bexiga de futebol e enchendo-a com sangue de cabra. Um ex-colega de classe, um açougueiro, passava em sua porta e tocava a campainha da bicicleta sempre que ele ia matar uma cabra. Muruganantham recolhia o sangue e misturava com um aditivo que recebeu de outro amigo em um banco de sangue para evitar que coagulasse muito rapidamente - mas isso não melhorava o cheiro.
Ele caminhava, pedalava e corria com a bexiga de futebol debaixo de suas roupas tradicionais, constantemente bombeando sangue para testar as taxas de absorção de seu absorvente. Todo mundo pensou que tinha enlouquecido.
Ele costumava lavar suas roupas ensanguentadas em um poço público e toda a aldeia concluiu que ele tinha uma doença sexual. Amigos passaram a evitá-lo. "Eu tinha me tornado um pervertido", conta ele . Ao mesmo tempo, sua esposa se encheu e saiu de casa. "Então você vê o senso de humor de Deus", diz ele no documentário Menstrual Man (Homem Menstruado). "Eu comecei a pesquisa para minha esposa e, depois de 18 meses, ela me deixou!"
Mas ele perseverou nos seus objetivos e resolveu analisar absorventes usados. Esta idéia trazia ainda mais risco em uma comunidade tão supersticiosa. "Mesmo se eu pedir apenas um fio de cabelo de uma senhora, ela suspeitaria que eu estou fazendo alguma magia negra para hipnotizá-la", observa.
Ainda assim, ele conseguiu ajuda mais uma vez das estudantes de medicina. O problema é que sua mãe, ao vê-lo trabalhando com aquilo, ficou horrorizada, chorou e também o deixou. "Foi um problema para mim. Eu tinha que cozinhar minha própria comida", disse.
Mas mais ainda estava por vir. Muruganantham teve que abandonar a cidade para evitar ser pendurado de cabeça para baixo em uma árvore por seus vizinhos que acreditavam que assim o currariam dos maus espíritos que o haviam possuído.

A descoberta

O maior mistério para ele era descobrir do que os absorventes que funcionavam com sucesso eram feitos, mas era difícil conseguir que a indústria revelasse seu segredo. Ainda assim, mandou algumas mostras para análises laboratorias, fez contato com empresas do setor e, após dois anos e três meses, descobriu que o insumo necessário era a celulose, retirado de casca de árvore. Mas ainda havia um obstáculo - a máquina necessária para transformar este material em pastilhas custava muitos milhares de dólares. Ele teria que criar o seu próprio.
Quatro anos e meio depois, ele conseguiu criar um método de baixo custo para a produção de absorventes. O processo envolve quatro etapas simples. Em primeiro lugar, uma máquina semelhante a um moedor de cozinha transforma a celulose dura em um material esponjoso, que é em seguida embalado em bolos retangulares com outra máquina. Os bolos são então envoltos com uma espécie de tela e desinfectados em uma unidade de tratamento ultravioleta. Todo o processo pode ser aprendido em uma hora.
O objetivo da Muruganantham era criar uma tecnologia amigável, fácil de usar. O objetivo não era apenas aumentar o uso de absorventes higiênicos, mas também para criar empregos para as mulheres na área rual - mulheres como sua mãe. Após a morte de seu marido em um acidente de estrada, a mãe de Muruganantham teve que vender tudo que possuía e trabalhar como lavradora. Ganhava apenas um dólar por dia, que não era suficiente para sustentar quatro filhos. É por isso que, com 14 anos, Muruganantham deixou a escola para encontrar trabalho.
As máquinas são deliberadamente simples e tem estrutura aberta para facilitar a manutenção pelas mulheres. Quando ele mostrou o primeiro modelo, feito basicamente de madeira, os cientistas do Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) foram céticos - Como este homem vai competir com as multinacionais? Mas seu objetivo não era realmente competir. "Estamos criando um novo mercado", disse.

Reencontro

Sem que ele soubesse , o IIT inscreveu sua máquina em uma competição por um prêmio nacional de inovação. Ele ficou em primeiro lugar, entre os 943 competidores. Ele recebeu o prêmio do então presidente da Índia, Pratibha Patil - de repente, ele estava no centro das atenções .
"Foi a glória instantânea, mídia piscando na minha cara, tudo", lembra ele. "A ironia é que, depois de cinco anos e meio, eu recebo uma ligação - a voz rouca diz: Lembra de mim?"
Era sua esposa, Shanthi. Ela não estava completamente surpresa com o sucesso de seu marido. "Toda vez que conhece algo novo, quer saber tudo sobre", diz ela. "E então quer fazer algo que ninguém mais fez antes."
No entanto, não era fácil conviver com este tipo de ambição. Não só ela ficou chocada pelo seu interesse em tal assunto, mas ele investiu todo o seu tempo e dinheiro - na época, eles quase não tinham recursos para comer corretamente. E os problemas foram agravados pela fofoca.
"A coisa mais difícil foi quando os moradores começaram a nos tratar muito mal", contou. "Havia rumores de que ele estava tendo casos com outras mulheres e por isso estava fazendo essas coisas." Ela decidiu voltar para casa para viver com sua mãe.
Após Shanthi, a própria mãe de Muruganantham e os antigos vizinhos - que o haviam criticado - voltaram atrás.
Muruganantham poderia ficar rico patenteando sua invenção - uma máquina de fazer absorventes baratos. "Mas eu não queria, porque eu sei que nenhum ser humano morre por causa da pobreza, tudo acontece por causa da ignorância."
O inventor acredita que o grande negócio é um parasita, como um mosquito, enquanto ele prefere o toque mais leve, como o de uma borboleta. "Uma borboleta pode sugar o mel de uma flor sem danificá-la ", diz ele.

Tabus

Há ainda muitos tabus em torno da menstruação na Índia. As mulheres não podem visitar templos ou locais públicos, elas não estão autorizados a cozinhar ou tocar o abastecimento de água, por exemplo.
Muruganantham levou 18 meses para construir 250 máquinas, que ele destinou para a região mais pobre da Índia, no norte do país. Ele acreditava que se conseguisse difundir seu produto em um local tão conservador, conseguiria em qualquer outro lugar.
Para falar com as mulheres, era preciso permissão do pai ou marido. Há também mitos e medos que envolvem o uso de absorventes - que as mulheres que usam ficam cegas, por exemplo, ou nunca vão se casar. Mas, lentamente, aldeia por aldeia, houve aceitação cautelosa e, ao longo do tempo, as máquinas atingiram 1.300 aldeias, em 23 estados.
São as mulheres que produzem e vendem o produto diretamente às clientes e explicam seu uso, pois lojas são geralmente gerenciadas por homens. As compradoras muitas vezes nem pagam com dinheiro, mas trocar os absorventes por cebolas e batatas.
A maioria dos clientes da Muruganantham são ONGs e grupos de auto-ajuda femininos. Uma máquina manual custa cerca de 75.000 rúpias indianas (cerca de R$ 2,800) - uma semi-automática é mais cara. Uma máquina atende as necessidades de 3.000 mulheres e dá emprego a 10. Eles podem produzir 200 a 250 absorventes por dia, cuja unidade é vendida em média por 2,5 rúpias (R$ 0,01). Cada local de produção, pode criar sua própria marca.
Muruganantham também trabalha com escolas - 23% das meninas abandonam a educação, uma vez que começam a menstruar. Agora as estudantes fazem seus próprios absorventes. "Por que esperar até que eles sejam adultas? Por que não dar poder às meninas?"

Expansão

O governo indiano anunciou recentemente que iria distribuir produtos sanitários subsidiados para as mulheres mais pobres. Foi um golpe para Muruganantham que não foi escolhido para o trabalho. Mas agora ele tem os olhos no resto do mundo. "Meu objetivo era criar um milhão de postos de trabalho para as mulheres pobres, mas por que não 10 milhões de empregos em todo o mundo?", pergunta ele. Ele está expandindo o modelo para 106 países, incluindo Quénia, Nigéria, Filipinas e Bangladesh.
Muruganantham agora vive com sua família em um apartamento modesto. Ele não tem nenhum desejo de acumular bens. "Eu tenho acumulado nenhum dinheiro, mas um monte de felicidade", diz ele. "Se você fica rico, você tem um apartamento com um quarto extra - e então você morre."

Aécio confirma Aloysio Nunes como o vice em sua chapa à Presidência

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O voto ideológico nas eleições gaúchas


As eleições, como o futebol, são uma caixinha sem surpresas.
Os partidos políticos são pragmáticos, entregam seus programas e estratégias aos departamentos de marketing e não levam muito a sério questões de ideologia. Em busca do resultado, rompem com seus semelhantes e aliam-se aos oponentes.
Já os eleitores, ao contrário do que diz a vulgata, são mais coerentes: votam em pessoas ou votam ideologicamente.
Nas eleições gaúchas de 2014, muitos eleitores votarão ideologicamente na dupla Ana Amélia e Lasier Martins, afinada em termos de ideias e perspectivas, corrigindo as distorções produzidas pelos esquemas e arranjos partidários.
Do outro lado, a dupla Tarso e Olívio será escolhida também ideologicamente.
José Ivo Sartori tentará repetir Germano Rigotto e Yeda Crusius, correndo por fora, como se fosse o neutro da disputa, mas enfrentará enormes dificuldades na medida em que, ao contrário de outras eleições, há polorização, mas não confronto baseado no ódio exacerbado. Os eleitores não terão de fugir da guerra entre Tarso e Ana Amélia para a paz de Sartori.
Poderão ficar diretamente com Ana Amélia.
Lasier Martins e Ana Amélia serão beneficiados também pela ideologia midiática do eleitor.
Para muitos, votar é como pedir um autógrafo.
Nessas observações não entra qualquer julgamento. São apenas constatações.
Em relação à disputa federal, as candidaturas de oposição a Dilma vão explorar dois temas: nunca houve tanta corrupção no país e a economia vai de mal a pior. Eduardo Campos precisará explicar a razão de ter passado tanto tempo como aliado do governo que agora rejeita como corrupto. Aécio Neves não carrega esse peso, mas precisará explicar todas as acusações relativas à corrupção nos governos tucanos de São Paulo, como o propinoduto da Alstom. Sem contar o mensalão mineiro.
E o petismo terá de provar que deixou seu mensalão para trás e que a sua corrupção não é tão grande assim.
Estão todos no mesmo saco.
Deles, cada eleitor tirará um coelho.
O perigo é comprar gato por lebre.

Confusão e cristianização gerais na política


Eleições 2014. Muita coisa para dizer. Tem aquele poema do Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo/
que amava Maria que amava Joaquim/ que amava Lili/que não amava ninguém”. Tem aquele título de Marcel Proust: “Em busca do tempo perdido”. E tem aquele livro de Roger Bastide: “Brasil, terra de contrastes”. E tem o bordão popular: em ano de eleição ninguém é de ninguém. Vejamos o quadro. Os partidos vem fazendo alianças de todos os tipos. O PT, que promete corrigir o rumo, apertou de novo a mão de Paulo Maluf em São Paulo. O PP, que se apresenta no Rio Grande do Sul como uma alternativa séria contra a corrupção federal, não pensa em pedir a expulsão de Maluf, tido como decano dos corruptos, e divide-se quanto ao apoio à Dilma Rousseff em convenção com ar de comédia pastelão.
O PSB quer ser a terceira via, o caminho para a mudança, com seu candidato à presidência da República, Eduardo Campos, que até outro dia era cabo eleitoral de Lula e de Dilma. Estranhamente, no Rio Grande do Sul, o PSB vai junto com o PMDB, que, nacionalmente, continua com Lula e Dilma. Em São Paulo, o PSB vai com o PSDB, principal adversário do petismo. Já no Rio de Janeiro, o mesmo PSB vai com o PT. Durma-se com uma confusão dessas. O PDT gaúcho, que até dezembro estava no governo de Tarso Genro, vai com o DEM, inimigo mortal do petismo. Vieira da Cunha, candidato ao governo pelo PDT, disse no Esfera Pública, que não pode apoiar o PT em nível nacional por causa do vínculo desse partido com a corrupção, embora Carlos Lupi, presidente nacional do PDT, ame Dilma Rousseff e o PT. O prefeito de Porto Alegre, o pedetista José Fortunati, que votará em Vieira, participará do comité suprapartidário da campanha de Dilma. Vai cristianizar geral! Em 1950, o PSD lançou Cristiano Machado à presidência da República. Os seus eleitores votaram em Getúlio Vargas, que concorreu pelo PTB. Criou-se o verbo cristianizar. Nunca mais saiu de moda. Vai emplacar de novo.
O PDT tem como candidato ao senado o antipetista Lasier Martins. A tendência é que o eleitor do PP cristianize o seu candidato ao senado e vote em Lasier, estabelecendo uma aliança informal mais coerente ideologicamente entre Lasier e Ana Amélia, mas entre PP e PDT. O eleitor de Lasier Martins, por outro lado, que não é pedetista, cristianizará Vieira da Cunha e votará em Ana Amélia. Lasier e Ana Amélia têm em comum o jornalismo, a RBS, a oposição ao PT e uma visão de mundo liberal-conservadora. Já o eleitor pedetista mais à esquerda, insatisfeito com as apostas do partido para deixar de ser coadjuvante, poderá cristianizar o midiático Lasier Martins e votar no petista Olívio Dutra.
Beto Albuquerque dificilmente escapará da cristianização. O seu eleitor, poderá, pelo voto útil para barrar Lasier, correr para Olívio. As certezas são: petistas irão de Tarso e Olívio. Antipetistas desencantados com a política e encantados midiaticamente irão de Ana Amélia e Lasier. A campanha poderá fabricar surpresas. Os candidatos acreditam nas suas capacidades de convencer. No país dos contrastes, onde um mensalão é petista e o outro, o tucano, é mineiro, ficamos entre Proust, Drummond e Bastide. Em busca da coerência. Tempo perdido? O PMDB gaúcho vai de Campos e de Aécio. Cristianizará Michel Temer, presidente nacional da sigla, candidato à vice-presidência na aliança com o PT.
Nem o moderado José Ivo Sartori, candidato do PMDB ao governo do RS, escapará da cristianização. Muitos peemedebistas irão, por ideologia, atalho ou admiração pela celebridade, direto de Ana Amélia Lemos.
Políticos querem que se vote em partidos, mas se aliam com pessoas. Por razões pessoais e de poder.