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sábado, 19 de julho de 2014

Contas dos estádios para a Copa de 2018 geram choque na Rússia

Moscou quer tornar a Rússia o "centro do mundo esportivo", mas a conta será alta. Quatro anos antes da Copa do Mundo de 2018, os custos do próximo país anfitrião estão explodindo, com os dois estádios mais importantes custando cada um mais de US$ 1 bilhão de euros (em torno de R$ 3 bilhões).
Quando o árbitro italiano Nicola Rizzoli soprou o apito para iniciar a partida da final da Copa do Mundo no dia 13 de julho, um domingo à noite, no Rio de Janeiro, havia um homem sentado na seção VIP com apenas um interesse marginal no futebol: Vladimir Putin. O presidente russo não faz segredo do fato de não ser um grande fã. Ele prefere assistir hóquei no gelo.

Ainda assim, ele participou da final no Brasil porque seu país sediará a próxima Copa do Mundo, em 2018. Será o terceiro evento esportivo mundial sediado pela Rússia nesta década, após os campeonatos da Associação Internacional de Federações de Atletismo de 2013 e os Jogos Olímpicos de Inverno, realizados no início deste ano em Sochi. Além disso, a primeira corrida de Fórmula 1 da Rússia está agendada para outubro em Sochi. O ministro do esporte russo, Vitali Mutko, disse que quer fazer da Rússia o "centro esportivo do mundo".
Hospedar grandes eventos esportivos é uma forma de demonstrar a força do país, mas também oferece à Rússia uma oportunidade para atender a necessidade urgente de modernizar sua infraestrutura. Sete das 12 arenas previstas para utilização na Copa do Mundo devem ser construídas e duas precisam de uma restauração cuidadosa. O custo não será baixo. Depois de investir cerca de US$ 50 bilhões de euros nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, o ministério de Mutko estima que a Rússia gastará US$ 30 bilhões de euros para sediar a Copa do Mundo de 2018. Isso é mais que o dobro do que o Brasil gastou para o torneio deste ano.

E isso se as coisas não ficarem ainda mais caras. Mas o mau planejamento e a corrupção começaram a elevar os custos. De fato, os pesquisadores da Universidade de Zurique concluíram que a Copa do Mundo da Rússia será a mais cara de todos os tempos, em termos de preço por assento.

A comparação é a seguinte:

Coreia do Sul/Japão 2002: custou cerca de US$ 6.000 por assento;

Alemanha 2006: US$ 3.200;

África do Sul 2010: US$ 5.000;

Brasil 2014: US$ 6.500;

Rússia 2018: US$ 11.500.

O estádio da Copa em São Petersburgo deve ser o mais caro, com um custo estimado em US$ 16.500 para cada um dos cerca de 70 mil lugares. O estádio está em construção desde 2007 e originalmente seria inaugurado no final de 2008, mas tem sido assolado por atrasos. E os custos dispararam: a estimativa inicial era de US$ 415 milhões, mas os relatórios atuais indicam que o preço subiu para até US$ 1,2 bilhão. A inauguração agora está prevista para 2016.  Para se garantir, a cidade de São Petersburgo até mesmo considerou construir um estádio de reserva com 25 mil lugares, caso seja preciso –após o torneio, este aparelho poderia ser utilizado pela segunda equipe do clube Zenit de São Petersburgo, da primeira divisão do futebol russo.
Os problemas com o estádio em São Petersburgo não são um caso isolado. Em dezembro, uma reportagem do diário "Vedomosti" surpreendeu o público com a notícia de que obras de renovação do venerável Estádio Olímpico de Moscou, originalmente estimadas em US$ 2,5 bilhões, poderiam ficar ainda mais caras. Os planos desde então foram reduzidos, e os custos agora devem ficar em torno de US$ 650 milhões.

Outro problema é que muitos estádios terão pouca utilidade após o torneio. A menor arena da Copa terá 42 mil lugares, enquanto que a média de público nos jogos da primeira divisão é de meros 12 mil espectadores. Além disso, quatro cidades que receberão jogos da Copa do Mundo nem têm times na primeira divisão. "Com as perspectivas econômicas para a Rússia piorando, a Copa do Mundo de 2018 deve se tornar um peso morto para o desenvolvimento econômico da Rússia pela má alocação de recursos escassos", escreveu Martin Müller, professor na Universidade de Zurique, em sua introdução ao relatório de junho.

Mutko, o ministro dos esportes, procurou recentemente conter o excesso de custos, afirmando que nenhum estádio deveria custar mais de 15 bilhões de rublos, ou cerca de US$ 440 milhões. Os donos das empresas de construção influentes já estão se rebelando contra sua demanda, em particular Gennady Timchenko, proprietário da empresa de engenharia e construção Stroytransgaz.

A Stoytransgaz está pedindo 35% a mais do que Mutko está oferecendo para a construção dos estádios. Ainda não está certo se o ministro do esporte conseguirá prevalecer. Timchenko entrou para o time de oligarcas russos durante a era Putin, e os membros da oposição política em Moscou não acreditam que isso seja apenas coincidência. Timchenko tem sido um bom amigo de Putin há anos.

Quando a Fifa concedeu a Copa do Mundo para a Rússia em 2010, um importante assessor do então presidente Dmitri Medvedev tweetou: "Dawaite bes otkatow", em russo. Livremente traduzido, significa: "Vamos tentar evitar a corrupção desta vez". Há muitos indícios de que não passava de uma vã esperança.

 

Texto de Benjamin Bidder, para a Der Spiegel, reproduzido no UOL. Tradutor: Deborah Weinberg

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Futebol


Terminou a orgia cívica do trintídio a que o mundo se entrega, a cada quatro anos, colonizado por uma instituição cujo poder transcendeu o saudável. Ela se aproxima perigosamente de uma organização inescrupulosa cujo objetivo é explorar a honesta paixão do homem pelo futebol. Trata-se da última lavanderia que ainda resiste ao controle de qualquer fiscalização. Como hospedeiro da diversão, o Brasil esforçou-se para fazer a sua parte, sob duras críticas internas e externas, algumas até procedentes. Fomos muito bem. Talvez menos do que gostaríamos, mas muito melhor do que supunham os censores.
Como era de se esperar, quando a "bola rolou" a emoção superou todas as dúvidas e reprimendas. O entusiasmo verde e amarelo tomou conta da sociedade. As esperanças foram crescendo a cada jogo. Nas vésperas de eleições, o governo tentou, imprudentemente, apropriar-se dos resultados e a oposição, desenxabida, fingiu alegria.
Infelizmente, tivemos um grave pânico quando internalizamos nossa inferioridade técnica coletiva, mas não terminamos tão mal. Afinal somos a quarta seleção no "ranking" mundial. A ideia divertida de que a seleção nacional é a "pátria de chuteiras" transformou a surpreendente derrota em "vergonha nacional", em lugar de vê-la como ela é: um acidente explicável num jogo que deve ser puro divertimento. Sábios cronistas exigiram "ao menos um gol de honra" para consolar a pátria "humilhada"! E não faltaram análises filosóficas sérias, capazes de tudo explicar quando o futuro já era passado...
Tudo de um ridículo assustador! A exceção foi o espetáculo do hino nacional cantado a capela pelos cidadãos de 5 a 90 anos que ocuparam os estádios. Isso sugere que debaixo do lúdico verniz superficial transitório, desperto enquanto a "bola rola", há um forte, sólido e permanente sentimento de pertinência à pátria.
Essa é a condição inicial necessária para enfrentarmos nosso verdadeiro problema: continuar a construir a sociedade civilizada sugerida na Constituição de 1988: 1º) uma República, em que todos, até o Estado e o poder incumbente que o representa, obedecem à mesma lei, sob o controle de um Supremo Tribunal Federal independente; 2º) uma democracia competitiva com eleições livres regulares e 3º) onde as políticas públicas têm como foco principal o aumento da igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.
Foi prudente a presidente Dilma ao conter a apressada "modernização da estrutura do futebol" com estímulo oficial, porque não foi isso que a Alemanha fez. A Copa acabou e, a despeito de toda filosofia, o Brasil é o mesmo, com suas virtudes e seus problemas. A segunda-feira chegou. É hora de voltar a trabalhar!


Texto de Antonio Delfim Netto, na Folha de São Paulo

terça-feira, 15 de julho de 2014

Pois sim

As Copas têm um defeito básico: terminam. No nosso caso, deixando-nos uma convicção: "é preciso reformar o futebol brasileiro". Onde caímos, porém, terminada a Copa? "Interlocutores acham que Dilma quer... Aécio diz que Dilma... Dilma acha que a oposição... Campos avalia que o governo...".
O futebol é só mais um nome na lista do que precisa ser reformado, pôde ser e não foi, nem será.


Trecho da coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

O estado de direito voltou?




Charge do Laerte, na Folha de São Paulo.

Legado para não esquecer

Não serei o primeiro a lembrar que, dentre os vários legados da Copa do Mundo, um dos mais duradouros será certamente a ampliação da zona de suspensão de direitos. O Brasil já era conhecido por seu histórico de violência policial, de desrespeito aos direitos civis e pela proximidade entre bandidos e a polícia. Nesta Copa do Mundo, a despeito da segurança contra manifestações políticas, tal processo chegou muito próximo da perfeição.
Enquanto todo o mundo se preparava para ver a final entre as seleções da Alemanha e da Argentina, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro mostrava, na praça Saens Peña, porque tem a palavra "militar" em seu nome.
Transformando praça pública em verdadeiras praças de guerra nas quais pessoas ficaram confinadas por horas à força, espancando jornalistas, moradores, advogados e ativistas de maneira indiscriminada --ao menos nisto eles são democráticos-- e prendendo por "formação de quadrilha" pessoas cujo maior crime foi manifestarem-se politicamente, as "forças da ordem" conseguiram impor um padrão de excelência em matéria de indistinção entre democracia e passado ditatorial.
Já em São Paulo, a ocasião de manifestações para a liberação de pessoas presas por estarem protestando, em vez de ficarem em casa vendo a gloriosa campanha da nossa grandiosa "famiglia Scolari" em sua luta renhida e emocionante contra os teutônicos, a polícia havia mostrado quão pouco realmente se deixa intimidar por certas "ideias abstratas", como respeito ao direito popular de contestação e às garantias constitucionais. Neste ponto, a Fifa fez bem em escolher países como o Brasil e a Rússia para sediar a Copa do Mundo. O nível da política de segurança interna dos dois países é, hoje, praticamente o mesmo.
O problema, como costumava dizer o filósofo italiano Giorgio Agamben, é que práticas de exceção, quando aparecem devido a situações, digamos, excepcionais (como Copas, Olimpíadas, uma invasão de argentinos, guerras ou catástrofes naturais) não desaparecem mais. Elas vão se tornando uma espécie de jurisprudência muda, que pode existir nas entrelinhas, sem precisarem ser claramente enunciadas para serem efetivamente seguidas.
Assim, ao ritmo de Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, o Brasil joga fora suas máscaras para mostrar a mais clara ausência de complexo em relação a seus arcaísmos. Mas, para um país que conseguiu, no século 19, o feito de ser, ao mesmo tempo, liberal e escravocrata, qual, afinal, é a dificuldade em ser, agora, democrático e com uma polícia fora da lei?


Texto de Vladimir Safatle, publicado na Folha de São Paulo

Um tetra épico


Acabou a Copa que se imaginava um vexame fora dos estádios e uma apoteose brasileira dentro, com a consagração do hexacampeonato.
Deu-se exatamente o inverso.
A seleção brasileira registrou seu maior fiasco em cem anos de história e, embora a Copa do Mundo tenha sido, futebolisticamente falando, de grande qualidade, o legado esportivo que deixa é a tardia, e urgente, reforma de métodos de gestão na podre estrutura de poder da CBF e suas apaniguadas federações, com a tradicional cumplicidade dos clubes, todos, perdão, pelo chavão, farinhas do mesmo saco da corrupção e da incompetência.
Ganhou a Alemanha, exemplo de racionalidade em busca da excelência, capaz de em apenas 14 anos dar a volta por cima, retornar ao pódio sem jamais ter deixado de disputar as primeiras posições.
Chega ao tetra 24 anos depois de seu tri, a exemplo do que fizeram as seleções do Brasil e da Itália no mesmo espaço de tempo, com a diferença de tê-lo conquistado com bola em andamento, graças ao golaço de Götze no segundo tempo da prorrogação de um jogo épico no Maracanã, disputado palmo a palmo, com domínio germânico, melhores chances argentinas e um pênalti de Neuer em Higuaín não assinalado.
A Alemanha tem um timaço, repleto de craques, muitos mais que a aguerrida Argentina, cuja única andorinha não pode mais fazer verão nem lá nem em time nenhum do mundo, porque cada vez mais o futebol é coletivo e depende menos de individualidades, por melhores que sejam e por mais que sigam fazendo diferença.
Além do mais, a Alemanha dá o exemplo com seu futebol autossustentável fora de campo, com clubes que vivem dentro de seus orçamentos e investem nas categorias de base e com média de público de mais de 45 mil torcedores por jogo, com coragem para apostar num técnico jovem que batalha por um futebol não só vencedor como bem jogado.
Seria ruim, neste momento brasileiro, vermos uma vitória que os áulicos atribuiriam a alguém como Julio Grondona, tão nefasto como os nossos cartolas.
De certa forma, o Maracanã acabou por viver outro Maracanazo, mas agora em castelhano. Porque foi desolador ver como ficaram os hermanos em seu último tango no Rio.
Registre-se que, mesmo doloridos, os jogadores platinos permaneceram no gramado para a premiação, diferentemente do que fizeram os brasileiros no Mané Garrincha, falta de educação que repetiu a Olimpíada de Atlanta.
Messi foi o melhor da Copa para a Fifa, embora Robben tenha sido o melhor, para a coluna.
Por menos que os adeptos do quanto pior melhor queiram admitir, o Brasil, graças à simpatia popular e às suas belezas que encantam e cegam os estrangeiros, também ganhou.
Fez um bom anúncio de si mesmo, mesmo que não possam ser relevados os aspectos não considerados pelos que vieram de fora: elefantes brancos que ficarão como heranças pesadas, superfaturamentos, mortes de trabalhadores nos estádios ou embaixo de viadutos, feriados para minimizar congestionamentos, desocupações desumanas, falta de iluminação no jogo de abertura, invasão de torcedores no Maracanã, prisões arbitrárias para evitar manifestações, shows pífios de abertura e encerramento, enfim, o rebaixamento, como vingança, do tal padrão Fifa, por mais que, de fato, os estádios sejam belos e confortáveis.
Aspectos para nós, brasileiros, digerirmos daqui para a frente em relação aos megaeventos, que, no mínimo, devem passar por consultas populares, porque está claro que são muito bons para os que os promovem e não necessariamente para quem os recebe e paga por eles.
Porque não há maior exemplo de complexo de vira-lata do que se bastar com os elogios externos, mesmo que, muitas vezes, superficiais, quase folclóricos, influenciados pelo exotismo, por exemplo, das favelas.
Repita-se: o Brasil ganhou a 20ª Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.
Nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006.
Claro, da Alemanha se espera perfeição, e a Alemanha esteve perto disso.
Do Brasil esperava-se uma catástrofe, e o Brasil ficou longe disso.


Texto de Juca Kfouri, na Folha de São Paulo

domingo, 13 de julho de 2014

Balanço


Tem muita gente afirmando que o fiasco de 2014 foi pior do que o de 1950. Futebolisticamente, não dá pra negar: em 50, ficamos em segundo, por um único gol. Aqui, acabamos em quarto, tomando sete dos alemães, na semi, mais três dos holandeses, na disputa pelo terceiro lugar. A reação do país lá e cá, contudo, sugere que a derrota de 2014 não deixará, fora dos gramados, nem sombra da cicatriz uruguaia.
Diz a lenda que em 50, depois do jogo, havia banquetes abandonados pelas ruas, sendo devorados por pombas e vira-latas. O povo chorava em casa, como se o gol de Ghiggia selasse não apenas o campeonato mas nosso destino de fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento.
Bem diferente do cenário que encontrei na Savassi, bairro boêmio de BH, voltando do Mineirão, na terça. Mesmo depois da derrota, as ruas continuavam cheias. Ambulantes seguiam vendendo cerveja. Embaixo de uma marquise, um casal se beijava sôfrega e desajeitadamente, como costumam se beijar os casais, na primeira vez. Apesar da tristeza e da perplexidade, a vida seguia seu rumo.
Por muito tempo, fomos um arremedo de país com uma seleção deslumbrante. Eu não cairia no exagero de dizer que a equação se inverteu: estamos longe de ser um país deslumbrante --socialmente, economicamente, eticamente--, mas o que percebi em meio à muvuca e me salvou da depressão foi que, hoje, o Brasil é melhor do que a sua seleção.
Dado o peso que o futebol tem entre nós, tendemos a supervalorizar a sua interpretação. Se a seleção ganha, é o brasileiro mostrando ao mundo o quão incrível ele é. Se a seleção tem um desempenho pífio, é essa porcaria do brasileiro que não consegue mesmo fazer nada que preste.
O fracasso do time serve para escancarar o atraso, a incompetência, a ganância, a burrice e a má-fé que administram o nosso futebol, mas não deve ser estendido ao país como um todo. Claro que os defeitos da cartolagem brotam de certas vicissitudes nacionais, mas a gente não se resume a elas. Temos inúmeros exemplos de brasileiros que se unem com um objetivo e chegam, com trabalho e competência, a resultados extraordinários.
Das meninas do vôlei ao Impa, Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. Do Grupo Corpo ao Instituto Butantan. Da Osesp à Pastoral da Criança. De Inhotim ao programa gratuito de tratamento da Aids. Da cozinha do Alex Atala aos programas sociais que tiraram 50 milhões de pessoas da miséria. Sem falar na Copa, que, apesar da seleção, deu certo.
O jogo ainda não está ganho. Longe disso. É preciso mexer bastante no meio de campo, mas não somos uns fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento. Não sei quanto a você, amigo, mas esse futebol não me representa.


Texto de Antonio Prata, na Folha de São Paulo

Análise: Ao menos fora de campo, Brasil ganhou a Copa

Análise: Ao menos fora de campo, Brasil ganhou a Copa

sábado, 12 de julho de 2014

A longa preparação

Perguntam-me se os 7 x 1 contra a Alemanha se comparam à derrota de 1950, por 2 x 1, contra o Uruguai, e à de 1982, por 3 x 2, contra a Itália. Respondo que, apesar do placar absurdo de terça-feira, as duas do passado foram piores. Por três motivos: 1. Não se esperava por elas. 2. Podiam não ter acontecido. 3. O país estava apaixonado por aquelas seleções. E houve outro importante fator.
Em 1950, o Brasil não só já era campeão mundial de véspera como, aos 33 do 2º tempo, com 1 x 1 no placar e jogando bem, continuava a sê-lo. De repente, aos 33 minutos e 32 segundos, com o gol de Ghiggia, deixou de ser. Dali ao apito final, o país teve menos de 12 minutos para se adaptar a uma realidade fora de qualquer script, mesmo que este tivesse sido escrito por um uruguaio.
Em 1982, a mesma coisa. Aos 30 minutos do 2º tempo, com Zico, Falcão, Sócrates, Junior, Leandro e Eder contra a Itália, o 2 x 2 garantia nossa passagem às semifinais e ao título. Subitamente, o terceiro gol do italiano Paolo Rossi mudou tudo. E, mais uma vez, o Brasil só dispôs de 15 minutos para se habituar a uma nova ordem no universo.
Contra a Alemanha, outro dia, foi bem diferente. A partir do primeiro gol, com 10 minutos de jogo, tivemos a eternidade de outros 80 para, à medida que os gols alemães se sucediam, processar toda uma gama de sentimentos. Pela ordem, gol a gol: decepção, choque, dor, revolta, humilhação --milhares de televisores desligados nesse momento --, conformismo e, por fim, a galhofa contra nós mesmos. O fim da partida foi um alívio, um bálsamo, quase um orgasmo.
Hoje vemos que, desde a estreia na Copa, contra a Croácia, já nos preparávamos para o pior. Ou quem sabe essa preparação não terá mais de dez anos, quando começou a ficar evidente o divórcio entre o Brasil e seu futebol?


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo

terça-feira, 8 de julho de 2014

Rachmann na Copa

Colunista de política externa do "Financial Times", Gideon Rachman diz que o "brilho futebolístico pode ser maldição", priorizando estádios, não escolas. Mas acrescenta que "os estádios funcionaram muito bem", também os voos, oferecendo "ótima experiência --o que o Brasil queria". E "é provável que Dilma seja reeleita, porque as pessoas esperam que o crescimento volte e, sinceramente, porque seus rivais não são muito inspiradores".


Trecho da coluna "Pra Gringo Ver", de Nelson de Sá, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Noticiário Pré-Copa segundo Angeli





Charge do Angeli, na Folha de São Paulo.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos


Entre mortos e feridos, salvaram-se todos na Copa do Mundo que visitou Porto Alegre.
O noticiário apocalíptico da véspera deu lugar a cinco grandes confrontos e festas bem organizadas.
Tivemos pequenos incidentes, fatos comuns para um evento desta magnitude e que acontecem em todos os países organizadores.
Quem desembarcou aqui para curtir o Mundial, aprovou e muitos voltarão.
Já estou com saudade.
No caso de Porto Alegre, o noticiário apocalíptico não se confirmou, embora o próprio governo suspeitou de que não teríamos Copa no Beira-Rio.
Olhando para trás, para os cinco jogos no Beira-Rio, para os turistas que aqui desembarcaram, para a imagem que o Rio Grande do Sul deixou para o resto do mundo, pergunto:
a questão das estruturas temporárias merecia tanto barulho?
Valeu ser sede da Copa?
Valeu. E como.
Agora é torcer pelo Brasil.



Reprodução do Blog do Hiltor Mombach.

Imagina nas eleições

Poucas vezes viu-se tamanha desinformação como antes desta Copa. A previsão era dantesca. Caos nos aeroportos, estádios incompletos, gramados incapazes de abrigar jogos de várzea, tumulto, convulsões sociais, epidemias. Os profetas do caos capricharam: alguns apostaram que as arenas só ficariam prontas após 2030. Só faltou pedirem à população que estocasse alimentos em face da catástrofe.
Diante de um cenário diametralmente oposto, os mensageiros do apocalipse ensaiam explicações. A principal é a de que a alegria do povo brasileiro suplantou a penca de problemas que estava aí, a olhos vistos, e ninguém queria enxergar. Desculpa esfarrapada.
Se é inquestionável que os brasileiros têm uma tradição amistosa, ela por si só não ergue estádios decentes, melhora aeroportos, acomoda milhares de turistas e garante acesso aos locais das partidas. Problemas? Claro que houve, mas infinitamente menores do que os martelados pela imprensa em geral. Muita gente mentiu, ou, no mínimo, não falou toda a verdade –o que em geral dá no mesmo.
Durante um tempo quase infinito, os brasileiros foram vítimas de uma carga brutal de notícias irreais. Se tudo estava tão atrasado e fora dos planos, como a Copa acontece sem contratempos maiores do que os de outros eventos do gênero? Talvez o maior legado deste choque entre fantasia e realidade seja o de que, acima de tudo, cumpre sempre duvidar de certas afirmações repetidas como algo consumado.
A profusão de instrumentos de informação atual, ainda bem, oferece inúmeras alternativas para que opiniões travestidas de certezas sejam postas à prova. Mais do que nunca, desconfiar do que se ouve, assiste e lê é o melhor caminho para tentar, ao menos, aproximar-se do que é real.
No final das contas, é bom que essa distância entre versão e fato tenha ficado escancarada num ano eleitoral. Se com a Copa foi assim, imagine doravante, quando está em jogo o cargo mais importante da República. A enxurrada de algarismos para mostrar um país à beira do abismo ocupa boa parte do noticiário "mainstream". Na outra ponta, estatísticas de toda sorte surgem para falar o inverso. Quem tem razão?
Nessa hora, o decisivo é avaliar como está a vida do próprio cidadão e como ela pode ficar se vingar a proposta de cada candidato. O mais difícil, como sempre, é descobrir se estes têm coragem de dizer o que realmente pretendem realizar.


Trecho de texto de Ricardo Melo na Folha de São Paulo

sábado, 14 de junho de 2014

A Copa é um sucesso, mas faltou Brasil na festa


Os lacerdinhas estão babando na camisa de força: a Copa do Mundo até agora é um sucesso. Tudo funciona, dos aeroportos aos estádios, com os problemas normais em qualquer grande evento do mundo. As previsões do videntes com atrofia na mão direita não se confirmaram até agora. A vaia à presidente Dilma partiu de um estádio, em São Paulo, repleto de coxinhas brancos, ricos, reacionários e com dinheiro para pagar os ingressos.
O grande problema da Copa é a sua elitização. A festa de abertura foi medíocre. Faltou escola de samba e negritude. Faltou Brasil real, pujante, complexo e contraditório. O problema é que essas festas são sempre organizadas por moderninhos chatos que não gostam de samba e de barroquismo. Querem um visual clean e muita tecnologia. As crianças que entraram com os jogadores eram branquinhas da silva. A elite quer os holofotes para ela. Claudia Leite, como expressão da cultura brasileira, é uma piada bobinha. Expressou mais a Galinha Pintadinha mesmo. Ainda bem que, no campo, a estrela máxima, Neymar, é afro.
Apesar da festa mixuruca, para moderninho mala ver, a Copa está bombando.
Chora, lacerdinha!
Esse sucesso não apaga os superfaturamentos, os erros de planejamento e as obras inacabadas.
Mas põe água na fervura dos secadores por razões eleitoreiras.
É só um torneio de futebol.
Como sempre, a elite branca tomou conta da festa.
Aparecer é com ela mesma, que, embora critique, ficará, através das suas empreiteiras, hotéis, restaurantes, comércio em geral e outros negócios de ocasião, com a melhor parte do bolo.
Se Neymar e Oscar continuarem tendo sorte nos chutes e se os árbitros continuarem ajudando, o caneco fica por aqui. As manifestações contra a Copa foram até agora um fracasso. Meia dúzia de gatos pingados, ou mascarados, em algumas capitais. O suficiente para gerar algumas pautas para a mídia internacional.
Se continuar assim, os lacerdinhas vão chorar na boca da garrafa.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Zoar...




Tirinha de Caco Galhardo, na Folha de São Paulo.

A Copa e o investimento


A Copa que começa hoje será um barato. Estou certo de que vamos curti-la. Não somos um país rico, mas podemos dar uma festa em algo que adoramos, o futebol.
Há o risco de que os estádios não sejam bem explorados após o evento. Contudo, nem prejuízo isso deve dar. Um mês de exposição mediática mundial para bilhões de pessoas paga com sobra os custos dos investimentos feitos para uso quase exclusivo na Copa. Exemplo disso foram as imagens da chegada da seleção alemã --depois de tomar avião, ônibus e balsa-- na Vila de Santo André no litoral baiano.
Então, por que nos últimos meses houve tanto mau humor com a Copa? Meu palpite é que, para além da tentativa de atingir o governo, há no Brasil uma má vontade contra os investimentos públicos. Parece que somos incapazes de empreendê-los. O diabo é que há algum fundamento nisso. O país ficou décadas sem grandes programas de investimento. Retomá-los não é tarefa simples.
O PAC, o Minha Casa Minha Vida, o PIL (Programa de Investimento em Logística) e os grandes eventos internacionais só vão encontrar um paralelo na década de 1970, com o 2º PND. Em ambiente democrático, o único caso parecido é o Plano de Metas nos anos 1950.
Mesmo assim, vale lembrar que no período recente foi montada uma ampla rede de controle: Ministérios Públicos estaduais e federal, TCU, órgãos ambientais etc. Isso é bom e necessário. A democracia brasileira vai encontrar um balanço entre as necessidades de fiscalizar e de fazer as coisas, porém, nos últimos anos, há exageros no poder de veto que atrapalham sobremaneira o andamento das obras. Esse desequilíbrio ajuda a reforçar a sensação regressiva de que a corrupção (que existe, claro) é a razão precípua dos investimentos públicos.
Outra dificuldade é de recursos humanos. Mais de duas décadas de escassez de investimentos fizeram algumas gerações de engenheiros virarem suco (como na bela e triste metáfora que nos 80 inspirou o nome de uma lanchonete na Av. Paulista), ou buscarem nas finanças uma atividade bem mais rentável.
Tal descontinuidade fez o país perder ou deixar de formar competência de engenharia de projeto em várias áreas. Em estados e municípios menores, mesmo existindo recursos federais ou crédito, é comum que os investimentos não ocorram por incapacidade de elaborar projetos, como em saneamento e mobilidade. Mesmo os investimentos privados enfrentam problemas. Boa parte dos hotéis previstos será concluída após a Copa.
É verdade que o desejo de recuperar o tempo perdido fez os governos exagerarem nas pretensões, gastando energia em projetos que não foram para frente, como o VLT de Brasília e o monotrilho de Manaus, que tinham sido incluídos na matriz de responsabilidades para a preparação da Copa.
Tendo a acreditar que o excesso de desejo também levou o governo a aceitar sem negociação o tal "padrão Fifa" para todos os estádios. O governo federal e o BNDES limitaram os financiamentos a R$ 400 milhões por arena, numa tentativa de induzir o comedimento dos projetos, porém o país poderia ter recusado algumas exigências. Quem tentou comprar ingressos pela internet viu que o tal rigor de excelência não vale para a própria entidade.
Mas também é certo que muito foi feito. Os aeroportos de Guarulhos, Campinas, Brasília e Natal estão entre os casos mais visíveis. Alguns projetos ficarão prontos depois do evento, o que não chega a ser um grande problema.
Tudo isso faz parte do ônus de retomar o investimento público. Discutir suas dificuldades é fundamental, mas sem criar uma convenção contra ele. Torço para que depois da euforia pela escolha para sediar o evento e do mau humor dos últimos meses, a constatação de que a Copa nos terá trazido um imenso prazer venha a contribuir para um debate mais equilibrado.
Isso será relevante não só para propor soluções que façam frente às dificuldades do investimento público como também para discutir a apropriação que cada cidade fará dos estádios. Será preciso criatividade, bem como avaliar a experiência internacional, para que eles não fiquem sem uso ou restritos ao futebol duas ou três vezes na semana, além de alguns shows musicais.
Por hoje, quero fazer como grande parte do mundo, que voltará sua atenção para a zona leste de São Paulo. Tem como não achar isso bom?


Texto de Marcelo Miterhof, publicado na Folha de São Paulo

"Copyright FIFA"...





Charge do Benett, na Folha de São Paulo.

Copa de 2022 no Qatar tem lado sombrio com 964 operários mortos

O Qatar está gastando bilhões na construção de hotéis, metrô, shopping centers e estádios para a Copa do Mundo de 2022. Mas aqueles que trabalham nos projetos são mal remunerados e mal alojados. E alguns deles nem podem partir.
Sob seus capacetes, os operários que trabalham nos canteiros de obras no Qatar usam balaclavas finas de algodão como proteção contra o frio matinal e o sol do meio-dia. A peça de vestuário preferida tem apenas uma abertura fina para os olhos, fazendo com que a cidade pareça estar sendo erguida por fantasmas. Mas os homens estão encarregados de transformar o Estado do Golfo em um paraíso cintilante, completo com hotéis, prédios de escritórios, shopping centers e estádios de futebol. E a primeira coisa que o deserto tira deles é seus rostos.
Ganesh era um desses fantasmas. Ele já voltou para sua família no sudeste do Nepal. Ele mal podia esperar para partir do Qatar. Ganesh prometeu a si mesmo nunca mais botar os pés no deserto.
Mas em um início de noite de primavera, a viagem de volta para casa de Ganesh ainda o aguardava. Ele estava estirado exausto em sua cama, na periferia de Doha, após concluir seu turno. O cômodo tinha apenas 16 metros quadrados e fornecia abrigo para 10 operários. Com o ventilador quebrado e a janela selada com papel alumínio, o ar era denso e pesado. Do lado de fora, um gerador a diesel roncava. Foi apenas com grande esforço que Ganesh, um homem alegre e um tanto tímido de 26 anos, com cabelo preto liso até seus ombros, conseguiu conter sua frustração e fadiga.
O prédio é um bloco de concreto cinzento localizado em uma parte de Doha onde a cidade dá lugar a conjuntos habitacionais, estacionamentos de ônibus e depósitos de fábricas. No mapa, a área é simplesmente rotulada de "zona industrial". Mas ela é lar de milhares de operários sem rosto, o local onde comem e dormem. No prédio de Ganesh, 100 operários estão abrigados em três andares, longe dos hotéis reluzentes no centro da cidade. Eles vivem à margem de um sonho que os xeques querem tornar realidade.
Parte desse sonho é a Copa do Mundo de 2022, que o país foi escolhido para sediar. Até o momento, nenhuma das novas arenas esportivas planejadas para o evento está concluída, apesar das obras terem começado em um canteiro ao sul de Doha, para o Estádio Al-Wakrah. Mas uma Copa do Mundo exige mais que apenas estádios. Hotéis, estradas, pontes, parques e uma ampliação do metrô também são necessários. São nesses projetos que homens como Ganesh atualmente trabalham, mesmo que os organizadores aleguem que as estruturas não estão diretamente ligadas ao torneio de futebol, que será realizado daqui oito anos. O comitê da Copa do Mundo quer evitar a impressão de que o esforço para trazer o futebol ao deserto já tenha custado centenas de vidas.
Importante o bastante para se morrer por isso
Apenas nos anos de 2012 e 2013, 964 operários da Índia, Nepal e Bangladesh morreram no Qatar, um total confirmado pelo governo qatariano. Um número significativo de homens morreu no verão, vítimas do calor ou de acidentes de trabalho, levando muitos a se perguntarem como um torneio de futebol pode ser tão importante a ponto de pessoas morrerem por ele.
Para piorar ainda mais, há novos indícios, divulgados na semana passada pelo jornal "Sunday Times" britânico, de corrupção na escolha do Qatar para receber a Copa do Mundo de 2022. Mohammed Bin Hammam, um ex-dirigente do futebol qatariano, teria subornado membros do comitê executivo da FIFA. Ele teria distribuído um total de US$ 5 milhões para vários membros africanos da FIFA para assegurar o voto deles a favor do Qatar em 2010. Mas por mais absurda que seja a decisão de realizar um torneio de futebol no deserto, são homens como Ganesh que agora devem sofrer as consequências.
Em seu quarto, com baratas correndo pelo chão, cerca de três dúzias de homens se reuniram, todos descalços. Os operários discutiam por que os quartos ainda estão lotados, porque os toaletes ainda eram imundos e por que suas refeições não eram satisfatórias. Afinal, a Anistia Internacional tinha publicado as condições miseráveis em novembro. Mas de lá para cá, a situação não melhorou muito. Há apenas três banheiros em um prédio para 100 operários, disse um dos homens. Outro se queixou de que trabalhadores de ajuda humanitária realizam frequentemente entrevistas, mas nada muda. Um operário do oeste do Nepal disse que estava trabalhando ali desde meados de novembro, mas ainda não tinha recebido seu primeiro contracheque. Os homens foram se tornando mais ruidosos até que Dipak, um supervisor mais velho, pediu para que alguns operários saíssem. Ganesh parou de falar; ele não gostou do fato de alguns de seus colegas terem levantado suas vozes.
Todos têm medo. Todos temem ser o próximo a sucumbir à maldição do deserto. Cerca da metade os 1,4 milhão de trabalhadores migrantes no país são da Índia e Paquistão, com 16% provenientes do Nepal. Os demais vêm da Índia, Filipinas, Egito e Sri Lanka.
Os homens se arrastam em resignação silenciosa até os canteiros de obras, mesmo quando seus corpos doem. "Às vezes sinto tanta tontura de manhã que não consigo levantar", disse Ganesh discretamente, como se estivesse reconhecendo uma fraqueza. Para cada dia que ele não trabalha, 5% de seu salário mensal é descontado. Ele disse ter vindo voluntariamente, mas sua situação legal não é muito melhor que a de um escravo.
Muitas construtoras no Qatar tratam seus operários como se os possuíssem, um produto principalmente das leis trabalhistas do país. Todo estrangeiro que deseja trabalhar aqui precisa provar que tem um patrocinador no país, como previsto pelo chamado sistema Kafala. Sem a permissão do patrocinador, os operários não podem mudar de emprego e nem deixar o país. Sindicatos também são proibidos.
Esquecendo-se de como rir
Um dos homens se chamava Ram Achal Kohar, mas era chamado de Anil. Com 26 anos, ele cresceu em um vilarejo próximo da cidade nepalesa de Siddharthanagar, a sudoeste de Katmandu. Vestindo bermuda, camiseta e sandália de dedo, de longe ele parecia um turista que se enveredou em uma favela por engano. Ele chegou há dois anos, cheio de humor e sempre pronto para uma piada. No Qatar, ele esqueceu como rir.
Diferente de Ganesh, Anil não tinha emprego, consequentemente estava amargo e desesperado. Com esposa e dois filhos em casa no Nepal, ele parecia muito mais velho que Ganesh, apesar de terem a mesma idade. Em um domingo deste ano, ele se sentou à beira de sua cama para contar sua história.
Sua empresa, disse Anil, venceu a licitação em 2012 para concluir o interior da Torre Bidda, em Doha. Quando ele entrou no prédio pela primeira vez, ele era pouco mais que uma casca. Agora, a federação de natação, a federação de futebol e o comitê responsável pela Copa do Mundo têm escritórios na torre graciosamente torcida.
Anil trabalhava como eletricista, instalando as luzes no teto e os interruptores dimmer, assim como toda a fiação. O cliente queria que tudo fosse branco: mesas, cadeiras, pisos, paredes. Anil se orgulha do trabalho que fez e ainda mantém salvas em seu celular as fotos do prédio. Vastas mesas brancas de conferência podem ser vistas ao lado de luminárias elegantes e mármore claro. O xeque Jassim al Thani, filho de um ex-emir do Qatar, atualmente estaria utilizando o espaço. Anil, por sua vez, não tem dinheiro nem para comprar uma passagem de volta para casa. E falta regularmente energia elétrica em seu barraco.
Os salários vencidos devidos aos operários somam cerca de 300 mil euros. Um representante da Lee Trading & Contracting enviou uma carta de lembrete ao proprietário do prédio em setembro passado, mas até o momento os operários não receberam uma resposta satisfatória, muito menos o dinheiro. Anil tinha 2.200 euros a receber, além da passagem de volta para Katmandu. Ele acreditava que não veria o dinheiro se partisse do Qatar. De modo que decidiu permanecer no país. De vez em quando, doadores chegam com um caminhão cheio de pão, batatas, carne e legumes para ajudar os homens nos barracos a sobreviverem.
A última vez que Anil conseguiu enviar dinheiro para sua família em casa foi em outubro, mas não foi muito. Seus dois filhos, de 5 e 7 anos, vivem com sua esposa Punam, sua mãe e sua avó em uma única casa. "Elas tiveram que tomar um empréstimo", disse Anil, acrescentando que era embaraçoso para ele não poder alimentar sua família, mesmo não sendo sua culpa. Para ganhar alguns riais, ele começou a trabalhar recentemente como diarista. Ele faz algum trabalho de carpintaria ou instala portas em residências particulares por 18 a 20 euros por dia.
O dia de trabalho de Ganesh começava às 3h30 da madrugada. Após levantar, ele se lavava rapidamente usando uma torneira ao lado dos toaletes e seguia meio sonolento para a cozinha, situada no térreo de um prédio vizinho. Dois cozinheiros ficavam diante de caldeiras imensas e Ganesh enchia seu pote de estanho com sopa, arroz, carne e pão. Ele levava o pote consigo ao canteiro de obras. Aquilo tinha que sustentá-lo até a noite.
A empresa para a qual trabalhavam Ganesh e outros homens na Rua 33, da zona industrial, os vê como pouco mais que ferramentas, não diferentes de uma escavadora ou trator, que podem ser transferidas de um canteiro de obras para outro. Homens que foram contratados para assentar pisos se veem cavando fundações no deserto; carpinteiros são usados como pedreiros ou instaladores de carpete. Dificilmente alguém se queixa, por temer perder o emprego. Ganesh chegou a Doha como eletricista, em fevereiro de 2012. Seu chefe o colocou como operário de andaime.
Ganesh já estava trabalhando há duas horas quando Anil entrou na sala no sexto andar do tribunal de Justiça de Doha, localizado a poucos metros da Torre Bidda, onde Anil antes trabalhava. Juntamente com alguns colegas de trabalho, ele entrou com processo contra a Lee Trading & Contracting na esperança de finalmente receber os salários devidos. Não foi uma decisão fácil para ele, porque teve que pagar uma taxa de 120 euros para dar entrada no processo na Justiça do Trabalho, quase metade do que tinha recebido no mês anterior.
Agora, Anil precisa comparecer ao tribunal em intervalos de poucas semanas e, toda vez que entra no prédio, ele espera que já tenha saído um veredicto. Mas ele geralmente ouve apenas "Inshallah ('Se Deus quiser') você receberá em breve seu dinheiro". Anil odeia ouvir isso. Ele se pergunta quão doloroso seria para o xeque Jassim simplesmente transferir o dinheiro de sua conta para os operários.
Eram cerca de 50 homens vestindo camisetas e sandálias de dedo no tribunal e alguns deles levaram documentos em sacos plásticos. Era a sétima visita de Anil ao tribunal e ele torcia para a corte finalmente proferir sua decisão. Ele estava sentado na segunda fileira no lado esquerdo da sala. Diante dele estava o juiz, que não parecia ter mais que 35 anos. Um homem grande à direita passou a coletar os documentos dos trabalhadores, resmungou algo ininteligível, assinou os documentos e os devolveu. Nenhum dos casos foi discutido por mais de um minuto.
O problema não é o Qatar não ter leis trabalhistas. Elas simplesmente não são devidamente aplicadas pelas autoridades. Até recentemente, o Ministério do Trabalho tinha apenas 150 fiscais disponíveis e eles só conseguem checar um pequeno número de empresas que trabalham no emirado. De lá para cá o número aumentou, mas o número de canteiros de obras também. Nos próximos quatro anos, o Qatar pretende investir mais de 151 bilhões de euros em infraestrutura, o que tornará ainda mais difícil assegurar que as leis trabalhistas sejam cumpridas. Sepp Blatter, o presidente da FIFA, disse recentemente pela primeira vez que conceder a Copa do Mundo de 2022 ao Qatar foi "um erro".

Reportagem de Christoph Scheuermann, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Turistas têm dificuldade de sair de Cumbica

Turistas têm dificuldade de sair de Cumbica
Apesar dos problemas, estrangeiros levam clima de festa ao maior aeroporto do país
INGRID FAGUNDEZDE SÃO PAULO

Na semana de abertura da Copa do Mundo, o aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (Grande São Paulo), ganhou mais um tipo de passageiro: o estrangeiro desorientado.
Em geral vestido com as cores de seu país e mochila de viajante, ele anda pelos terminais tentando saber como chegar a São Paulo.
O clima pré-Copa é de festa: alegres, os recém-chegados deram ao maior aeroporto do país um certo ar de albergue, com grupos de estrangeiros reunidos em torno do bar a tomar cerveja, sentados nas mochilas ou fazendo fila para tirar foto com o mascote Fuleco sob o painel de chegadas e partidas.
De todo modo, chegam perdidos a São Paulo.
Na segunda-feira (9), por exemplo, um grupo de mexicanos estava parado em frente ao terminal 2. Seguravam comprovantes de reserva de um hotel na República. "Onde fica isso?", perguntou o engenheiro Adolfo Topete.
Disseram não esperar ninguém, mas continuavam ali. "Acho que vamos de táxi", disse o empresário Pedro Valenzuela. E os ônibus? "Tem isso? A gente não sabia..."
O transporte até a capital paulista é parte complicada no processo de chegada desses turistas. Eles não sabem quais são as opções, seus preços e quanto demoram. Os guichês de informação ficam em pontos específicos. É difícil ver guias circulando.
Quando turistas perguntam para vendedores, recebem orientações com mímica. Em uma loja, a atendente repetia que estava "desesperada". "Não entendi nada que a moça disse. Só sei cash', thank you' e hello.'"
Dois chilenos tentavam se comunicar com a funcionária do guarda-malas. A conversa seguia rumos tortuosos. "Quanto cuesta cada uno?" "Quin-ze e dezoitcho o outro", respondia a moça.
Para ajudar os estrangeiros, participantes da ONG Conexão Voluntários em Campo se revezam desde sábado.
Eles são fluentes em espanhol ou em inglês e não prestam serviço ao aeroporto. "Muitos reclamam que os funcionários não conseguem responder a perguntas mais complexas", disse o estudante Filipe Coutinho, 23.

OUTRO LADO

A concessionária GRU Airport disse que os balcões de informação têm 44 atendentes, além de 180 da Fifa e do Ministério do Turismo.


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 10 de junho de 2014

Segurança da seleção dos EUA incomoda moradores dos Jardins

Segurança da seleção dos EUA incomoda moradores dos Jardins