Mostrando postagens com marcador Cisjordânia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cisjordânia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Milhares acompanham enterro de mulher vítima de radicais judeus

CISJORDÂNIA

Milhares acompanham enterro de mulher vítima de radicais judeus

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - Milhares de palestinos acompanharam nesta segunda-feira (7) o enterro de Riham Dawabcheh, que morreu cinco semanas depois que sua casa no vilarejo de Duma, na Cisjordânia, foi incendiada por extremistas judeus.
Ela não resistiu às queimaduras de terceiro grau em 80% de seu corpo e morreu na madrugada desta segunda em um hospital de Tel Aviv.
Os presentes exibiam bandeiras palestinas e gritavam "Israel, Estado terrorista". As autoridades palestinas decretaram três dias de luto.
Além dela, seu marido Saad e seu filho Ali, de 18 meses, morreram. Da família, apenas Ahmed, 4, ainda resiste, hospitalizado com queimaduras graves. Os autores do ataque ainda não foram presos.


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Bem antes de Gaza-2014

A guerra é tanto a expressão comum de emoções humanas como parte constitutiva do modo em que um grupo constrói sua coesão. A noção de uma sociedade harmoniosa, com seus membros reagindo às mesmas ameaças e planejando um futuro comum, floresceu com mais intensidade no lado judaico que no palestino. Isso não é bom para o equilíbrio político da região.
Os líderes palestinos vêm fazendo mais escolhas estratégicas equivocadas do que os israelenses. Em vez de reconhecerem que Israel é produto de um legítimo processo histórico endógeno de aspiração nacional, insistem em vê-lo como fruto de ação exógena ocidental devido a um complexo de culpa pelo Holocausto.
A história mostra uma cadeia de acontecimentos desde a Declaração Balfour (1917), à Declaração de San Remo (1920) e à Liga das Nações (1922), confirmando o apoio à criação de um Estado judeu na região, decisões ignoradas pelos árabes.
Em 1937, o lorde William Peel, em nome do Reino Unido, sugeriu a partição da Palestina em dois Estados. Um árabe, que se juntaria à Transjordânia, representando cerca de 80% do mandato original da Palestina, e os 20% restantes para os judeus. A liderança sionista pragmaticamente aceitou a proposta.
Todavia, a reação do líder palestino --mufti Hajj Amin al-Husseini, dito mufti de Jerusalém, que se aliou posteriormente a Hitler-- foi de rejeição à partilha, assim como a de outros líderes árabes, com exceção do rei Abdullah, da Transjordânia.
Ele viu na partilha um trampolim para ampliar o vasto império que almejava criar. O mufti evocou argumentos religiosos, posteriormente usados pelo Hamas. A Palestina era uma terra proibida de ser dividida, mesmo que minoritariamente, com os judeus. Para ele, o judaísmo é uma religião e, destarte, os judeus não precisam de um território. Daí, Israel ser chamado de entidade sionista pela maioria dos palestinos. Esse é o fulcro do problema que persiste até hoje.
Em 1939, os palestinos perderam uma inigualável oportunidade de evitar a criação do Estado de Israel. O então novo secretário britânico para as colônias, Malcolm MacDonald, lançou uma política contrária à proposta de James Balfour e Peel. Por ela, após dez anos de transição, em 1949, seria criado um Estado único para árabes e judeus, com maioria demográfica dos primeiros.
Era um plano bem mais favorável aos árabes palestinos do que aos judeus palestinos. Foi estabelecida uma cota de 15 mil judeus imigrantes por ano para o período entre 1940 e 1944 e uma cota suplementar de 25 mil para cobrir possíveis casos de refugiados de emergência. A Palestina tornar-se-ia um Estado independente, e os judeus seriam, no máximo, um terço da população.
Uma nova imigração judaica dependeria da permissão da maioria árabe, e seriam estabelecidas severas restrições à compra de terras pelos judeus. Os árabes, mais uma vez, não acataram essa proposta. Acreditaram que com a vitória do Eixo na Segunda Guerra Mundial, acoplada a um suposto levante árabe na Palestina, provocaria a rápida expulsão dos judeus. Fatídico erro de cálculo. A Alemanha foi derrotada e aumentou o número de judeus naquela região.
Em 1947, houve a partilha da Palestina. Mais uma vez, os árabes não concordaram com ela. Irrompeu a guerra e o novo Estado árabe não nasceu, pois foi abocanhado por Egito, Israel e Jordânia. Depois houve a Guerra de Suez (1956), a dos Seis Dias (1967) e a do Yom Kippur (1973), afora os conflitos com árabes islâmicos no Líbano e em Gaza.
O Hamas engana seu próprio povo ao insistir que pode exterminar Israel. Está na hora de os palestinos aprenderem com seus sucessivos erros estratégicos e trabalharem para a criação de dois Estados antes que seja tarde.


Texto de Jorge Zaverucha, publicado na Folha de São Paulo

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Israel anuncia anexação de terras na Cisjordânia

Israel anunciou no domingo (31) a apropriação de uma área de 400 hectares de terra (4 km²) na Cisjordânia, no assentamento de Gush Etzion, perto da cidade de Belém.
A decisão foi duramente criticada por ONGs como o grupo israelense Paz Agora, que se opõe à construção de assentamentos israelenses na Cisjordânia (onde os palestinos desejam estabelecer parte de seu Estado).
O grupo disse que a ação pode ser a maior apropriação de terras da Cisjordânia desde os anos 1980 e que poderia "mudar drasticamente a realidade" na área.
Cerca de 500 mil israelenses vivem entre os 2,4 milhões de palestinos na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, território que o Estado judaico capturou na guerra de 1967 no Oriente Médio.
A Rádio Israel disse que a medida foi tomada em resposta ao sequestro e assassinato de três jovens judeus por militantes do Hamas na região em junho, estopim para o recente conflito entre o governo israelense e o grupo.
O governo de Israel não explicou a decisão.
Segundo o Exército israelense, as terras foram declaradas como sendo do Estado e as partes afetadas têm 45 dias para apelar.
Israel tem enfrentado críticas internacionais em relação aos assentamentos de terras, que a maioria dos países consideram ilegal e um dos principais obstáculos à criação de um Estado palestino.
Nabil Abu Rdainah, porta-voz do presidente palestino, Mahmoud Abbas, apelou a Israel para cancelar a apropriação das terras: "Esta decisão vai levar a mais instabilidade e inflamar a situação após a guerra em Gaza".
Os EUA classificaram o anúncio de Israel como "contraproducente" para os esforços de paz. "Há muito tempo, deixamos clara a nossa oposição à continuidade da expansão dos assentamentos", disse um representante do governo americano.


Reprodução da Folha de São Paulo

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Palestina, o sonho acabou?

As explosões que abalam Gaza e Israel abafaram um ruído que é potencialmente muito mais perigoso.
Refiro-me às declarações do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu de que Israel tem de se assegurar de que "não haverá outra Gaza na Judeia e Samaria" (como os judeus se referem ao território que a comunidade internacional trata por Cisjordânia e é habitado majoritariamente pelos palestinos).
Mais especificamente, Netanyahu declarou:
"Acho que o povo de Israel compreende agora o que eu sempre disse: não pode haver uma situação, sob qualquer acordo, na qual nós renunciemos ao controle de segurança no território a oeste do rio Jordão" (de novo, os territórios palestinos).
Tradução, segundo David Horovitz, fundador e editor do "Times of Israel", preciosa fonte de informação sobre a região:
"Não renunciar ao controle de segurança a oeste do rio Jordão, deve-se enfatizar, significa não dar a uma entidade palestina plena soberania lá. Significa não aceitar as demandas de Mahmoud Abbas [presidente da Autoridade Nacional Palestina], as demandas de Barack Obama, as demandas da comunidade internacional. (...) Essa sentença, muito simplesmente, determina o fim da noção de que Netanyahu consentiria no estabelecimento de um Estado palestino".
Com isso, prossegue Horovitz, "torna-se fora de questão uma Palestina plenamente soberana".
Tem razão: se já é perto de impossível alcançar um acordo sobre a delimitação dos territórios nos quais os palestinos terão soberania, torna-se inteiramente inviável qualquer entendimento que lhes ofereça soberania apenas parcial e se lhes é imposto um controle de segurança feito por uma potência estrangeira que não é exatamente bem amada nos territórios.
Como a anexação por Israel dos territórios palestinos teria um preço elevadíssimo, é razoável supor que Netanyahu esteja pensando em uma solução menos radical: a manutenção do status quo, em que a segurança de Israel fique mais ou menos garantida pelo muro que separa o Estado judeu dos territórios.
Funcionaria? Não, respondeu Philip Gordon, coordenador da Casa Branca para o Oriente Médio:
"Como Israel permanecerá democrático e judeu se tenta governar os milhões de palestinos que vivem na margem ocidental [do Jordão]? Como terá paz se não quer delinear uma fronteira, encerrar a ocupação e permitir aos palestinos soberania, segurança e dignidade?".
Se pensam assim um jornalista judeu e um alto funcionário do maior aliado de Israel, imagine-se então o que pensam os árabes e aliados menos incondicionais.
Posto de outra forma, Netanyahu está desejando uma não-solução. Mais: antes de poder implementá-la ainda tem de resolver a sua prioridade mais urgente, que ele mesmo diz que é "dar conta do Hamas".
Não é à toa, pois, que o escritor israelense Et­gar Ke­ret escreve para "El País" que, "nos bons tempos", conseguia produzir um texto pela paz a cada dois meses. Agora, "ao sentar-me diante do computador, não me saía nada".


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Morte de jovem árabe em 'vingança' acirra tensão entre israelenses e palestinos

O corpo de um adolescente árabe raptado foi encontrado em uma floresta de Jerusalém na manhã de quarta-feira (2), provocando ultraje entre os palestinos e ameaçando uma escalada ainda maior das tensões no conflito entre israelenses e palestinos. A morte parece ter sido um assassinato por vingança israelense pelo sequestro e morte de três adolescentes israelenses na Cisjordânia ocupada, no mês passado.
O pai do jovem raptado, Muhammad Hussein Abu Khdeir, 16 anos, disse que a polícia identificou o corpo por meio de testes de DNA.
A descoberta do corpo ocorreu cerca de uma hora depois dos palestinos terem dito que um adolescente árabe foi forçado a entrar em um carro no bairro de Beit Hanina, em Jerusalém Oriental. Micky Rosenfeld, um porta-voz da polícia, disse que foram montados bloqueios de estrada na área para localizar o veículo. O corpo foi descoberto pouco depois em uma floresta próxima da entrada de Jerusalém. Rosenfeld disse que a polícia está investigando tanto os motivos criminais quanto os nacionalistas do assassinato.
Líderes palestinos consideraram Israel responsável, enquanto líderes israelenses pediram moderação até que os fatos fiquem mais claros, em um esforço para acalmar o clima carregado.
O ministro da Segurança Interna israelense, Yitzhak Aharonovich, pediu aos moradores que "baixem o volume" em relação à suspeita de um ataque por vingança por judeus.
"Há tentativas de fazer uma conexão entre os dois incidentes e nós ainda estamos checando todas as direções", ele disse à "Rádio Israel". "Há muitas possibilidades, criminais e nacionalistas, e tudo está sendo examinado de modo responsável."
O corpo encontrado na floresta foi levado ao Instituto Forense Abu Kabir de Israel.
Abbas pede providências a Israel
Os parentes do jovem raptado disseram que ele saiu da loja de aparelhos e utensílios de cozinha de seu pai por volta das 3h30 da manhã e estava sentado em um muro di lado da mesquita com outros adolescentes, aguardando pela oração da manhã que dá início ao jejum diário durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã.
Mahmoud Abu Khdeir, o imã da mesquita e primo do adolescente, disse que os outros jovens saíram para buscar comida para a refeição tradicional antes do amanhecer quando um carro Hyundai cinza encostou às 3h45 da manhã e seus ocupantes forçaram Muhammad a entrar no carro.
"Ele foi raptado e morto pelos colonos e a polícia sabe disso muito bem", disse o imã. A polícia disse que está revendo as imagens das câmeras de segurança ao longo da rua; o imã disse que elas foram usadas no passado para identificar e prender palestinos que atiravam pedras.
"Eles estão tentando diz que se trata de um assassinato em nome da honra, mas isso não é verdade", disse.
O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, exigiu que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, "condene o rapto e assassinato" de Muhammad "da mesma forma como condenamos o rapto e assassinato" dos três adolescentes israelenses, segundo a "WAFA", a agência de notícias oficial palestina. Nabil Abu Rudeineh, o porta-voz de Abbas, pediu que Israel prenda os responsáveis e faça com que respondam por isso, segundo a "WAFA".
"Nos próximos dias, não dá para esperar o que acontecerá – a situação ficará cada vez pior", disse Ayed Abu Eqtaish, que trabalha na seção palestina da Defesa da Criança Internacional. "A ocupação e o ciclo de violência deveriam ser encerrados para garantir que não haja mais perda de vidas."
Netanyahu falou antes do meio-dia com Aharonovich, o ministro da Segurança Interna, e pediu que "os investigadores ajam o mais rápido possível para descobrir quem está por trás do assassinato desprezível", segundo uma declaração do gabinete do primeiro-ministro. Netanyahu pediu a todos os lados que não façam justiça com as próprias mãos, dizendo: "Israel é um estado de direito e todos estão obrigados a agir segundo a lei".
Segurança é reforçada
À medida que a notícia do assassinato se espalhava, a polícia aumentou sua presença em Jerusalém. Choques ocorreram entre jovens palestinos e as forças de segurança israelenses ao longo da principal via que liga os bairros de Beit Hanina e Shuafat. Dezenas de adolescentes, alguns usando estilingues, atiravam pedras contra os policiais, que respondiam com gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral.
Os abrigos nas paradas da linha do veículo leve sobre trilhos de Jerusalém, que passa por bairros árabes e judeus, foram destruídos e a fumaça dos pneus incendiados pairava sobre a área. A polícia impediu judeus de entrarem no Monte do Templo, na Cidade Velha de Jerusalém, para evitar distúrbios.
O prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, condenou o assassinato do adolescente em uma declaração.
"Trata-se de um ato horrível e bárbaro que fortemente condeno", ele disse. "Nós não somos assim e estou plenamente confiante de que nossas forças de segurança levarão os perpetradores à Justiça. Eu peço a todos que exerçam moderação."
Yishai Fraenkel, o tio de um dos três adolescentes israelenses assassinados, disse ao site de notícias "Ynet" que "não há diferença entre sangue e sangue".
"Assassinato é assassinato", Fraenkel foi citado como tendo dito. "Independente de qual seja a nacionalidade e a idade, não há justificativa, não há perdão ou penitência para qualquer assassinato."
As tensões já estavam altas desde que três adolescentes israelenses foram raptados enquanto caminhavam de volta para casa da escola deles na Cisjordânia, em 12 de junho, e a suspeita recaiu sobre militantes palestinos. Os corpos deles foram encontrados em um campo na área de Hebron, 18 dias depois, e foram levados para um enterro conjunto na cidade de Modiin, na metade do caminho entre Tel Aviv e Jerusalém, na terça-feira (1º).
Durante os funerais, centenas de manifestantes de extrema direita se reuniram em Jerusalém para exigir que o governo vingasse as mortes. Cantando "Morte aos Árabes", eles tentaram atacar transeuntes árabes que tiveram que ser libertados pela polícia. Mais de 40 manifestantes foram presos.

Reportagem de Isabel Kershner e Jodi Rudoren, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato.

Israel derruba casa de família de palestino acusado de matar israelense

Israel demoliu nesta quarta-feria a casa do palestino Ziad Awad, preso este mês sob a acusação de ter matado à bala um policial israelense à paisana em abril, informou o Exército.
Um porta-voz do Exército, o tenente-coronel Peter Lerner, disse que a demolição tinha por objetivo servir como fator de dissuasão.
"A implementação da ordem de demolição serve para dissuadir e transmite uma severa advertência aos terroristas e seus cúmplices de que suas ações terão graves consequências", disse.
Na segunda-feira a mais alta corte de Israel rejeitou um apelo de um grupo israelense pró-direitos humanos contra a decisão do Exército de demolir a casa no vilarejo de Idhna, perto da cidade de Hebron, no sul da Cisjordânia.
Há décadas o Exército de Israel explode ou demole casas de militantes, mas interrompeu a prática em 2005, dizendo ser contraproducente em seus esforços para desencorajar ataques.
"Eles chegaram às 3h da manhã e acabaram de destruir a casa às 7h. Eu pensei que fossem só derrubar a casa do meu irmão, mas agora tudo se foi e nós também não temos para onde ir", disse um irmão de Ziad, Mohammed, que vive na mesma pequena construção que abrigava outros 15 membros de toda a família.
O HaMoked Centre, grupo israelense pró-direitos humanos, afirmou que a sentença viola a lei de Israel e a lei internacional, segundo as quais "uma pessoa não pode ser punida pelos atos de outra".
"As maiores vítimas são os ocupantes da casa demolida, e não o suposto responsável", argumentou.

Reprodução do UOL Notícias

sábado, 11 de janeiro de 2014

Israel quer anexar o vale do Jordão para sua segurança


Os prédios do conselho regional do vale do Jordão mantiveram uma aparência precária, que lembra quão difícil foi o início dos primeiros colonos em uma das regiões mais inóspitas de Israel, onde a temperatura durante o verão pode ultrapassar os 45 graus Celsius.
Seu diretor, David Elhaiini, fala que o desenvolvimento foi difícil: "Quarenta e cinco anos atrás, não havia nada. Nossa missão era desenvolver a agricultura. Levamos mais de 20 anos para entender quais cultivos vingariam nesta terra árida, mas o vale do Jordão é hoje um caso de sucesso."
Isso foi após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. O vice-premiê da época, Yigal Allon, havia dado seu nome a um amplo plano de colonização do vale --que está na Cisjordânia ocupada--, explicando que se tratava somente de "fronteiras defensíveis" do Estado judaico com o leste. Um outro termo se popularizou, cujo "pai" é o ex-ministro das Relações Exteriores, Abba Eban: ele falava das "fronteiras de Auschwitz", uma maneira de dizer que, se as de 1967 não fossem solidamente mantidas para sempre, Israel correria o risco de ser exterminado.
Se as duas expressões hoje estão sendo retomadas com frequência por políticos da direita israelense, é porque a questão da futura soberania do vale do Jordão está no centro das negociações de paz entre israelenses e palestinos.
Neste início de janeiro, estamos no cume de uma alta colina no posto militar de observação de Gidron, em companhia de Uzi Dayan, ex-chefe do estado-maior adjunto do exército israelense e ex-presidente do Conselho Nacional de Segurança. A paisagem é composta somente de pedras, até esse corredor verde constituído de palmeirais e estufas de hortaliças que se estende até o fundo do vale, dominado pelas montanhas da Jordânia.
Mais abaixo, é possível ver os prédios do conselho regional, situados na Rodovia 90, que sobe na direção do lago de Tiberíades. Uzi Dayan aponta para a paisagem com um gesto: "É a única região onde podem se situar as fronteiras defensíveis de Israel. Entre o reino hachemita e o local onde estamos, são 9 a 15 quilômetros. É nossa profundidade estratégica mínima."
No dia 29 de dezembro, um comitê ministerial aprovou um projeto de lei que prevê a anexação do vale do Jordão. Uma votação puramente simbólica, mas que passava uma mensagem política a Washington e aos palestinos. Dois dias mais tarde, o governo palestino se reunia em um vilarejo do vale para tentar afirmar ali sua soberania. Apoiados pela maioria dos especialistas ocidentais, os palestinos afirmam que, sem ele, seu futuro Estado não será viável economicamente.
A região oferece a única reserva de terras para desenvolver zonas urbanas, bem como projetos agrícolas e turísticos, ainda mais pelo fato de que o novo Estado palestino deverá receber milhares de refugiados da diáspora. Sem ela, a Palestina será somente um Estado remanescente totalmente isolado. Mas Israel menospreza esses argumentos, afirmando que sua "segurança" é primordial.
Foi isso que levou Youval Steinitz, ministro encarregado das relações internacionais, a rejeitar secamente as propostas americanas para garantir a segurança na região. "A segurança deve continuar nas nossas mãos", ele afirma. "Todos aqueles que estão propondo uma solução que consiste em empregar uma força internacional, desde policiais palestinos até meios tecnológicos, não entendem nada de Oriente Médio." O ministro da Defesa, Moshe Yaalon, vai além: defensor determinado dos assentamentos, ele insiste que "onde os judeus não vivem não existe segurança."
Isso reforça as explicações estratégicas de Uzi Dayan: "Entre o Jordão e o Mediterrâneo, há 64 quilômetros, e o Iraque esteve envolvido em todas as guerras contra Israel desde 1984. Se não quisermos que essa região se torne um outro Líbano ou outra Gaza, precisamos fazer a segurança dos entornos do vale do Jordão. Com o que está acontecendo na Síria, imagine onde estaríamos se não tivéssemos mantido as colinas de Golã!"
No entanto, Meir Dagan, ex-diretor do Mossad (serviço secreto israelense), afirma que o vale do Jordão não é necessário para a segurança de Israel, e que aqueles que alegam que o Estado judaico deve se precaver contra "uma frente Oriental" estão fazendo uma "manipulação".
O especialista israelense Dror Etkes deu ao "Le Monde" a seguinte explicação: embora os palestinos representem 90% dos habitantes do vale do Jordão (ou seja, 80 mil pessoas), eles praticamente não têm acesso às suas terras, amplamente sob controle dos 9.500 colonos judeus da região. Sua argumentação é simples: Israel está colonizando a Cisjordânia bem mais através do desenvolvimento agrícola do que da construção civil.
É preciso mais para abalar as certezas de David Elhaiini. Ele explica que 6 mil palestinos e 600 trabalhadores tailandeses são empregados (em regime diário) pelos três kibbutzim e 15 moshavim (cooperativas agrícolas) que dependem do conselho regional. "Temos ótimas relações com os palestinos, mas é nossa terra: tudo que vocês estão vendo, nós construímos com nossas mãos", ele afirma.
É com orgulho que Enon Rosenblom, fazendeiro na moshav Naama, mostra suas estufas, lembrando que 66% das exportações agrícolas de Israel vêm do vale do Jordão. "Os palestinos de Awja – um vilarejo próximo – nos haviam dito 'vocês não têm nenhuma chance de ter sucesso na agricultura': e veja o resultado!" Enon Roseblom explica que cada uma das 35 famílias da moshav paga ao Estado um aluguel de 1.000 shekels (R$ 680)... por ano.
"É uma terra do Estado, que ninguém mais reivindicou", ele diz, disposto a aceitar que o vale do Jordão passe para controle palestino após um acordo de paz, ao mesmo tempo em que diz: "Faremos de tudo para impedi-lo."

Reportagem de Laurent Zecchini para o Le Monde, reproduzida no UOL.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Colonização israelense avança em Susiya, vilarejo palestino da Cisjordânia


Colonização israelense avança em Susiya, vilarejo palestino da Cisjordânia

Laurent Zecchini
Enviado especial a Susiya (Cisjordânia)

Esse vilarejo é um caso típico da ocupação israelense na Cisjordânia, embora não seja exatamente um vilarejo. A população palestina de Susiya al-Kadim foi expulsa em 1985, após a descoberta de uma antiga sinagoga em território municipal. As casas foram demolidas, e os colonos ali se instalaram, sob proteção do Exército. Era a primeira vez desde 1948 que essa comunidade instalada ao sul de Hebron, nas portas do Neguev, sofria a fúria do ocupante, mas não a última.
Em 1991, 1997 e duas vezes em 2001, as tentativas de reconstruir o vilarejo nas terras pertencentes aos camponeses foram aniquiladas pelos buldôzeres israelenses. Desde então, a população vive nas colinas em vários acampamentos rudimentares, cercada por implantações protegidas pelo Exército israelense. Ao norte, percebe-se um telhado de cor ferrugem, que abriga a antiga sinagoga. Esse “sítio arqueológico” agora considerado “parque nacional”, hospeda ali perto um “posto avançado” de colonização.
Embora seja ilegal tanto do ponto de vista da lei israelense como das normas internacionais, ele é defendido por um destacamento das Forças de Defesa de Israel. Uma alquimia como essa não tem nada de anormal na “Zona C”, a parte do território que representa 62% da Cisjordânia, onde vivem 5,8% da população palestina e onde Israel exerce um controle total no plano da segurança, e quase completo no plano civil. É a meca da colonização.
Ao longo dos anos, o número de colonos chegou a mais que o dobro que o da população palestina (310 mil contra 150 mil). O êxodo da segunda é particularmente forte no vale do Jordão, corredor situado entre a Cisjordânia e a Jordânia, considerado estratégico por Israel, onde 56 mil palestinos vivem hoje, sendo que eram 250 mil antes de 1967, segundo afirmam.
Ao sul dos acampamentos temporários palestinos, é possível distinguir os telhados vermelhos característicos de um assentamento, o de Susiya, cercado por uma terra de ninguém vigiada pelo Exército. A leste e a sudeste se espalham outras colônias e postos avançados como Avigayil, Mitzpe Yair, Lucifer Farm e Metzadot Yehuda.
Nasser Ahmad Nawaja vive em uma colina árida castigada pelos ventos, com 45 outras famílias, literalmente cercadas pelas implantações judaicas. No verão, o lugar é um forno, e no inverno as 320 pessoas que se abrigam sob tendas e em algumas casas de concreto, congelam. Os moradores da região sempre lutaram contra as incertezas climáticas vivendo parte do ano em grutas. Esses refúgios não estão mais disponíveis: Nasser explica que o Exército murou a maior parte delas, “para assegurar a segurança dos colonos”. Estes últimos terminaram o trabalho enchendo as cisternas de recuperação de água de chuva.
Como todos seus vizinhos, Nasser Ahmad Nawaja vive em suspense. O Exército pode decidir a qualquer momento destruir o acampamento: 16 estruturas já estão sob “ordem de demolição”. Ele explica que sua família vive em Susiya há gerações. “Estávamos aqui antes da criação do Estado de Israel; temos títulos de propriedade que datam da época otomana”, mas não são reconhecidos por Israel.
O que não quer dizer que todas as leis otomanas sejam inválidas para o Estado judeu, pelo contrário. Uma delas, que diz respeito às “terras mortas”, previa que o sultão podia recuperar uma terra cultivável que estivesse ociosa durante três anos. Uma outra medida estipulava que se um camponês cultiva um terra não registrada durante dez anos, esta se torna sua propriedade.
O “sultão” hoje é israelense. Sabendo que na Cisjordânia somente um terço das terras é registrado, é fácil para ele estender seu domínio pela colonização. Entende-se rápido o porquê em Susiya: a colônia é cercada por uma “zona de segurança” dez vezes mais extensa que a implantação, que engloba as terras palestinas. Os cultivadores palestinos não têm direito de chegar até ali, ao contrário dos colonos. A cada 100 metros, há fileiras de tonéis enferrujados onde crescem jovens oliveiras.
E assim se prova que esses terrenos não são explorados por seus proprietários palestinos. Em um prazo de menos de dez anos, os colonos poderão reivindicá-los! Nasser Ahmad Nawaja olha com raiva para os campos situados a cerca de 100 metros de seu acampamento, em zona proibida. Ele sabe que há cerca de trinta cisternas ali, muitas das quais não são usadas, que permitiriam abastecer pessoas e animais.
As condições de vida em Susiya são de extrema precariedade, mas as famílias palestinas se mantêm firmes: elas sabem que qualquer terra abandonada é pega pelos colonos. Uma vez, pelo menos, o Supremo Tribunal considerou que os camponeses tinham direito de voltar para suas terras. O Exército não contestou esse veredicto: ele lembrou que os interessados não tinham permissão para construir, e emitiu ordens de demolição.
Diante do rolo compressor israelense, Nasser Ahmad Nawaja tem a impressão de estar conduzindo uma luta já perdida. Ele não tem nenhuma dúvida sobre a vontade de Israel de continuar com a colonização na Zona C e dali expulsar o maior número possível de palestinos, aos poucos tornando impossível a criação de um Estado palestino.
Tradutor: Lana Lim


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Wikileaks: Comando militar de Israel diz não ter paciência com "Gandhis palestinos"


Em 4 de fevereiro de 2010, Avi Mizrachi, chefe do Comando Militar Israelense e responsável pela segurança na área central do país disse a militares americanos que iria endurecer as represálias contra os protestos pacíficos realizados por palestinos na Cisjordânia. Segundo Mizrachi, os protestos tinham como objetivo aumentar as tensões entre os palestinos e Israel, conforme informa um telegrama enviado em 12 de fevereiro de 2010 pela embaixada americana em Tel Aviv, vazado pelo site Wikileaks.
Amos Gilad, chefe de assuntos Politico-Militares do Ministério da Defesa israelense dizia não ter paciência com os “Gandhis palestinos”, maneira como os chefes de segurança de Israel se referiam aos manifestantes da Cisjordânia. Para Israel, os protestos não seriam pacíficos e também os considerava injustificados. Os locais onde ocorreram os protestos estavam longe do muro erguido por Israel e não havia problemas com os colonos e assentamentos judeus na região.
Na opinião do comandante militar de Israel, muita gente “não sabia por que estava protestando e que foram orientados a se levantar contra a ocupação israelense”. De acordo com Mizrachi, o exército iria reprimir até os protestos não violentos. Uma das maneiras de reprimir os manifestantes é enviar caminhões com a chamada “água suja” - água quimicamente tratada por Israel para reforçar o mau cheiro.
Segundo rumores ouvidos por Mizrachi, Salam Fayyad, primeiro-ministro palestino planejava estar presente em um desses protestos pacíficos. O general israelense temia que Fayyad fosse atingido pelo banho de “água suja” usado para reprimir as manifestações na Cisjordânia. Sob ordens de Mizrachi, Nitzan Alon, comandante militar na região, e Poli Mordechi, administrador civil da Cisjordânia, se encontraram com as forças de segurança palestinas e pediram a diminuição dos protestos.
Temendo repercussão ruim, Mizrachi preferia não ter que reprimir os protestos, diz o telegrama enviado por James Cunningham, embaixador na capital israelense. Entretanto, o chefe do comando militar de Israel considerava que as manifestações “pacíficas” eram organizadas por gente suspeita e planejava deter esses organizadores. Mizrachi reforça a opinião de que os protestos tinham somente o objetivo de excitar a revolta palestina contra as forças de ocupação israelenses.
De acordo com o diplomata americano, Israel estava perdendo a paciência com essas manifestações e com os “Gandhis palestinos”. Prova dessa irritação foi a detenção de vários membros de ONGs estrangeiras na Cisjordânia. Os estrangeiros tinham seus vistos expirados ou tinham apenas a permanência de turistas. Muitos desses estrangeiros participavam ou organizavam os protestos.
Para dificultar as ações dessas ONG estrangeiras, o governo de Israel cessou os vistos de trabalho para estrangeiros nos territórios ocupados por meses. À época (fevereiro de 2010), Israel permitia apenas visto de poucas semanas de duração ou de entrada única. O Ministério da Imigração Israelense se defendeu, dizendo que as prisões de ativistas foram feitas a pedido das Forças Armadas de Israel.
A Justiça israelense, no entanto, determinou que o ministério da Imigração não pode operar além da linha verde – fronteira Israel-Palestina demarcada após os acordos de paz de 1949 – e com isso, os ativistas, na maioria europeus, foram soltos pelo governo de Tel-Aviv. O Ministério da Imigração prometeu não desafiar a determinação judicial e não realizar mais operações dentro das fronteiras palestinas.