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domingo, 2 de agosto de 2015

Índia deve passar China em população em 2022

Índia deve passar China em população em 2022

Estimativa da ONU projeta que Brasil terá 238 milhões de habitantes daqui a 35 anos
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

A Índia deverá ultrapassar a China e se tornar o país mais populoso do mundo em 2022, segundo relatório da ONU divulgado nesta quarta-feira (29). Em 2013, a organização estimava que isso só fosse acontecer em 2028.
Conforme as projeções feitas pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, a China tem 1,38 bilhão de habitantes neste ano, ante 1,31 bilhões da Índia. Em sete anos, os dois países deverão empatar em 1,4 bilhão.
Segundo os demógrafos, a população indiana continuará crescendo nas próximas décadas, chegando a 1,7 bilhão em 2050. Nessa época, o crescimento populacional chinês será negativo, depois de ter estagnado em 2030.
Apesar da diminuição na China, a previsão é que a população mundial continue crescendo. A expectativa é que ela atinja 9,7 bilhões em 2050, crescimento estimulado principalmente por países da África.

AMÉRICA LATINA

Nos países latino-americanos, a população passará dos atuais 634 milhões para 721 milhões em 2030 e 784 milhões em 2050. Daí para a frente, começará a cair, voltando a ficar com 721 milhões no final do século.
Brasil e México continuarão a ficar entre os dez países mais populosos do mundo até 2050. No caso brasileiro, a população, que na projeção da ONU deverá chegar a 208 milhões neste ano, atingirá 238 milhões em 2050.


Reprodução da Folha de São Paulo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

As oportunidades que a China abre para o Brasil

Nos últimos anos, a crise mundial, com a enorme volatilidade de capital, gerou dois fenômenos: de um lado, imensas reservas cambiais em países emergentes; de outro, uma enorme demanda por financiamento para obras de infraestrutura nesses países.
É o que levou à internacionalização dos investimentos do Banco de Desenvolvimento da China, à criação do Banco dos BRICs no ano passado, após reunião do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), em Fortaleza (CE). E, no mês passado, a constituição do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (BAII).
São nesses movimentos que estão depositadas as grandes oportunidades para o país alavancar seus investimentos em infraestrutura, especialmente na exploração do pré-sal.
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Na próxima semana o país receberá a visita de Li Keqiang, primeiro-ministro chinês. Precedendo a visita, os chineses elaboraram uma lista de 60 projetos, no valor total de US$ 53 bilhões, que poderão ser financiados no país.
Recentemente, os chineses financiaram US$ 3,5 bilhões à Petrobras, em um período em que o mercado internacional se fechou para a empresa.
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Reside nessa parceria a oportunidade do país se livrar das restrições impostos pelos Estados Unidos aos sistemas multilaterais – fundamentalmente FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial.
Trata-se de um movimento similar ao que levou à criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD).
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Quando eclodiu a crise internacional, o Grupo dos 20 (G20) tentou reduzir a influência massacrante dos Estados Unidos no FMI. Tentou-se uma mudança no perfil das cotas dos associados, que refletissem melhor o quadro econômico internacional.
O processo emperrou no Congresso dos Estados Unidos. Recentemente, o Congresso emperrou até a participação norte-americana no aumento do capital do BIRD.
A crise política norte-americana criou impasses similares à brasileira, com uma oposição vociferante no Congresso travando todas as iniciativas do governo.
O vácuo aberto está sendo ocupado rapidamente pela China, a ponto do BIIC) receber a adesão de 41 países, dentre os quais aliados tradicionais dos Estados Unidos, como o Reino Unido e a Austrália, além do Japão e Rússia, todos interessados em incrementar o multilateralismo na economia internacional.
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Há uma enorme cesta de projetos aguardando financiamento. Recentemente, o Nobel Joseph Stiglitz enaltecia a criação do novo banco, por não ter as amarras ideológicas dos velhos organismos de Breton Woods.
Será possível, nesse início de atuação, com o poder compartilhado e sem as pesadas burocracias dos organismos mais antigos, obter financiamentos sem abdicar de políticas industriais internas.
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O Banco dos BRICs foi constituído com capital de US$ 50 bilhões. O BAII com capital inicial de US$ 50 bi, podendo chegar a US$ 100 bi em pouco tempo.
De certa forma, recuperam para os organismos multilaterais uma atividade de financiamento que há tempos deixou de ser cumprida adequadamente pelo mercado financeiro internacional.
A ampla desregulação dos mercados financeiros e cambiais não logrou estimular os investimentos reais. A complexidade dos instrumentos financeiros criados promoveu apenas a arbitragem de ativos.
A explosão dos commodities, com a ascensão da China, garantiu as políticas de inclusão dos últimos anos. A nova etapa da estratégia chinesa poderá garantir a passagem para uma economia mais competitiva e equilibrada.

Reprodução do Blog do Luís Nassif.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A punição seletiva de Xi

A punição seletiva de Xi


Murong Xuecun

HONG KONG

Um membro do governo chinês que conheço foi colocado sob shuanggui, o sistema sigiloso de investigação interna do Partido Comunista em que as vítimas são detidas, interrogadas sem advogados e às vezes torturadas.
Ele foi detido durante vários meses em 2014 o e hoje aguarda julgamento. Esse funcionário público de nível médio na província de Yunnan foi responsável por planejamento urbano e obras.
Não sei por que o visaram -o shuanggui é realmente opaco. Amigos acham que ele era um funcionário capaz, e que talvez tenha recebido propinas.
Mas o motivo mais provável de suas dificuldades com as autoridades foi que seu patrono político também enfrentou problemas.
Não sei quem era seu padrinho político, mas no último ano uma tempestade abalou Yunnan e na verdade todo o país. Um número enorme de autoridades graduadas foram detidas ou colocadas sob investigação.
Algumas foram levadas ao suicídio. Há grande probabilidade de que o patrocinador político desse funcionário seja uma delas.
Sempre que uma autoridade cai, as pessoas não se preocupam com o que fez, mas com quem poderá ser derrubado junto com ela.
Nos últimos dois anos, as medidas anticorrupção do presidente Xi Jinping melhoraram sua reputação entre a mídia chinesa. E alguns analistas internacionais também manifestaram apoio, e até elogiaram, a campanha dele. Mas persistem suspeitas de que a repressão é seletiva.
Na minha opinião, a iniciativa anticorrupção é mais um expurgo stalinista do que uma tentativa real de limpar o governo. As acusações são baseadas no regulamento do partido, e não na lei.
As investigações são realizadas por funcionários do tipo KGB, e não pelo sistema judicial regular. A mídia chinesa não relata casos até que eles sejam divulgados, e depois disso há uma enxurrada de reportagens com termos quase idênticos usados para incriminar os suspeitos.
O mais revelador é que o expurgo visa principalmente facções específicas do partido, enquanto os grupos que apoiam e juram lealdade a Xi parecem imunes.
Muitos analistas dizem que os apoiadores mais importantes do presidente são os chamados comunistas da segunda geração -descendentes dos fundadores do partido (Xi é um deles).
Essa tribo privilegiada goza de um poder quase inimaginável, tem acesso a recursos ilimitados e oportunidades de enriquecimento extraordinárias. Eles raramente são investigados.
A exceção que prova a regra é que o ex-chefe do partido em Chongqing, Bo Xilai, caiu em desgraça depois de uma luta por poder, e não por causa da quantia que embolsou, como afirmou o governo. (Antes de Xi subir ao poder, Bo era seu mais poderoso rival no partido.)
Mesmo assim, a condução do caso de Bo diferiu enormemente da das autoridades de nível mais humilde, como Zhou Yongkang, ex-membro graduado sem laços familiares com a elite do partido que é investigado por corrupção.
As ondas de detenções durante a investigação de Zhou atingiram sua família e funcionários de sua equipe e se estenderam aos departamentos e locais onde ele havia trabalhado antes. Para apanhar Zhou, a rede foi atirada sobre toda a província de Sichuan e a indústria de petróleo.
As autoridades graduadas na China exercem um poder irrestrito (até que não mais). Há poucas restrições a sua capacidade de promover seus seguidores e aliados, e elas podem ser ousadas ao aceitar propinas.
Seus departamentos, seus territórios, são seus domínios privados. Como disse famosamente o ex-secretário do partido em Taian, Hu Jianxue, "quando uma autoridade atinge o meu nível, não responde a ninguém".
Mas nos antigos feudos de Xi -antes de alcançar o poder nacional ele ocupou cargos nas províncias de Fujian e Zhejiang- até onde sei nenhuma autoridade acima do nível de deputado provincial foi presa por corrupção.
Recentemente, uma postagem na internet trazia a pergunta: Por que não foram encontrados "tigres grandes" em Fujian e Zhejiang? A mensagem foi quase imediatamente deletada.
Parece improvável que Xi deixe essa campanha prosseguir indefinidamente. Se as investigações de autoridades elevadas continuarem no segundo mandato de cinco anos de Xi, poderão sugerir incompetência pessoal.
Quando Xi tiver superado qualquer ameaça a seu poder, ele as encerrará. E quando terminarem seus seguidores voltarão a seus esquemas de corrupção.
Mas muitos chineses têm ilusões sobre o presidente. Em uma reunião recente, um professor me perguntou: "Quando Xi Jinping tiver todo o poder em suas mãos, o que fará com ele?"
O professor parecia pensar que Xi poderá usar sua autoridade para conduzir a China à democracia. Mas sua ideia é demasiado otimista. Para um ditador, o poder não é um meio para atingir um fim; o poder é o fim.
A iniciativa anticorrupção de Xi levou à queda milhares de autoridades corruptas, mas não há sinais de que ele fará um sistema que impeça a corrupção no futuro. Onde está a promessa de que ele submeterá a controle seu próprio poder ou o de seus amigos?
Um líder que pisa na liberdade de expressão, adora os elogios de uma mídia servil e enche as prisões com dissidentes honestos não se interessa por democracia. É apenas mais um ditador. Além disso, as campanhas anticorrupção não garantem justiça real.
Quando a mídia do governo publica reportagens sobre casos que ainda estão em investigação e aplaude a punição severa de autoridades corruptas, parece improvável que os acusados terão uma defesa adequada. Eles podem ter cometido crimes, mas também têm direitos, mesmo que o tenham negado a outros.
Como vice-diretor do Departamento de Justiça da província de Hunan, Wan Chuanyou supervisionou a vigilância e a intimidação de defensores de direitos civis. Segundo o advogado Cai Ying, em maio de 2014 Wan impediu várias vezes que Cai se encontrasse com um acusado em uma investigação sob shuanggui.
Cai Ying lhe perguntou: "Se um dia o senhor for investigado, o que fará?" Wan Chuanyou respondeu: "Como isso poderia acontecer comigo?" Cinco meses depois, foi posto em shuanggui.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

China dá dinheiro para casamento entre minorias

China dá dinheiro para casamento entre minorias

Por EDWARD WONG

PEQUIM - Autoridades na Província de Xinjiang, no oeste da China, oferecem dinheiro e incentivos para estimular casamentos entre minorias e a etnia han, grupo étnico dominante no país, em esforço para aplacar a violência étnica na região.
Os incentivos são parte de uma nova política no condado de Cherchen, no sul de Xinjiang, onde a violência entre uigures -um povo de língua túrquica, majoritariamente muçulmano- e hans explodiu nos últimos anos.
Em agosto, autoridades do condado de Cherchen passaram a pagar 10 mil yuanes (R$ 3.680) por ano, durante cinco anos, para recém-casados em que um deles seja han e o outro pertença a uma das 55 minorias da China.
Reportagens na imprensa chinesa dizem que os pagamentos têm por objetivo ajudar os casais a investirem em pequenos negócios e iniciar famílias.
Os casais também terão prioridade na solicitação de moradias e empregos públicos. A família receberá R$ 7.360 por ano em benefícios à saúde e os filhos desses casais terão educação gratuita até o ensino secundário.
O diretor do condado, Yasen Nasi'er, disse que os casamentos são "um passo importante na integração e desenvolvimento harmonioso de todas as etnias".
Ele definiu essas uniões como "energia positiva" e meio pelo qual Xinjiang poderia realizar o "Sonho Chinês", termo popularizado pelo presidente Xi Jinping.
James Millward, especialista em Xinjiang na Universidade Georgetown, em Washington, disse que os uigures poderão ver a política de um modo diferente.
"Há o risco", disse ele, "de que os esforços de 'mistura' e 'fusão' patrocinados pelo Estado sejam vistos pelos uigures na China ou por críticos da China em qualquer lugar como tendo de fato o objetivo de assimilação dos uigures à cultura han -em outras palavras, como uma tentativa de achinesar os uigures".
Ele acrescentou: "Isto acontece num momento em que muitos uigures veem algumas políticas recentes, como a destruição da velha Kashgar em nome do desenvolvimento, a eliminação da educação na língua uigur e a contínua migração han para as terras tradicionais em Xinjiang, tudo isso, como uma ameaça à preservação das características próprias da cultura uigur".
Cherchen tem uma população de 10 mil pessoas, das quais 73% são uigures e 27% hans, segundo dados de um site do governo.
Em Xinjiang, uma região de desertos e montanhas que ocupa cerca de um sexto do território chinês, mais de 43% da população é uigur e mais de 40% são hans, segundo o censo de 2000.
A população han cresceu depois da tomada do poder pelos comunistas, em 1949, causando receio entre os uigures. Os cazaques são 8% da população.
A política de casamentos em Xinjiang é semelhante a iniciativas no Tibete. Em junho, o "Diário do Tibete" publicou uma reportagem dizendo que Chen Qianguo, o chefe do Partido Comunista da Região Autônoma do Tibete, se havia encontrado com 19 casais interétnicos e ouviu histórias de casamentos felizes.
Chen disse que "políticas favoráveis" tinham levado a um aumento dos casamentos interétnicos, que passaram de 666 em 2008 para 4.795 em 2013.
Numa reunião de alto escalão em maio em Pequim, o Partido Comunista discutiu como assimilar melhor os uigures e suprimir a violência em Xinjiang.
Xi, presidente chinês e líder do partido, disse que mais uigures deveriam ir a partes da China dominadas pelos hans, atraídos pela educação e pelo emprego.
Ele afirmou que o partido e o Estado deveriam estabelecer "visões corretas sobre a pátria e a nação" entre todos os grupos étnicos, de modo que as pessoas reconheçam a "grande mãe pátria" e "o caminho socialista com características chinesas".

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Construção de base de pesquisa espacial chinesa irrita argentinos

Construção de base de pesquisa espacial chinesa irrita argentinos

Há receio de que local possa ser utilizado com finalidade militar
DE BUENOS AIRES

O governo chinês está construindo uma estação para explorar o espaço no sudoeste da Argentina, na Província de Neuquén, a 1.380 km de Buenos Aires. O prédio já está sendo erguido, antes mesmo de uma aprovação de senadores e deputados.
Segundo o jornal "La Nación", as Forças Armadas temem que o local seja usado para fins militares, e não apenas para pesquisa.
O acordo prevê uma concessão do território durante 50 anos, e à Argentina é vedada a possibilidade de interromper as atividades da base. Os funcionários chineses serão regidos pela legislação de seu país e, se houver algum tipo de prejuízo, a China diz que irá indenizar a Casa Rosada.
A agência espacial argentina poderá usar as instalações depois de prontas, mas por apenas 10% do tempo (duas horas e 40 minutos por dia, para atividades de cunho científico e tecnológico).
O empréstimo só poderá ocorrer caso não interfira nos lançamentos de satélites chineses.
Diplomatas chineses afirmaram ao "La Nación" que a suposta perda de soberania argentina "é algo puramente absurdo".
A embaixada chinesa em Buenos Aires afirma que a estação na América do Sul será construída para dar apoio à exploração lunar e outras missões espaciais da China, com objetivos somente pacíficos.
O comunicado foi uma resposta a senadores de oposição da Argentina, que afirmaram que os equipamentos em Neuquén poderão servir também a fins militares.
A oposição afirmou estar preocupada porque não está explícita, no texto do acordo, a proibição do trabalho de militares chineses na base.
A presença de membros de tropas estrangeiras na Argentina é regida por uma lei específica. (FG)


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Em Pequim, um dissidente tenta cooperar

Escritores chineses como eu muitas vezes precisam fazer escolhas difíceis. O que devemos fazer quando os amigos são presos sem uma boa razão? Manter a boca fechada? Devemos protestar, sob risco de sermos arrastados para a prisão? É justo com nossas famílias e amigos nos arriscarmos a apodrecer na cadeia porque nos recusamos a calar a boca?
Depois de vários meses longe da China para uma residência acadêmica e de férias, voltei para minha casa em Pequim, em 2 de julho, preparado para ser preso. No exterior, eu havia anunciado no blog e neste jornal que iria me entregar às autoridades por ter contribuído com um ensaio para uma homenagem privada às vítimas da repressão de 1989 na praça Tiananmen. Vários dos participantes da manifestação em Pequim haviam sido presos.
Em 6 de julho, postei uma mensagem on-line dizendo que eu estava em casa e pronto para ser apanhado. Minha namorada nunca disse isso, mas eu sabia que ela estava desconfortável com a minha posição. Dois dias depois, recebi um telefonema de um policial da delegacia do Templo Wanshou, perto de onde eu vivo, me pedindo para ir "ter uma conversa". Entrei na delegacia por volta de 17h30 e fui levado ao segundo andar.
Precisei esperar os agentes da guobao, que é parte da força policial secreta da China. A guobao raramente é mencionada nos noticiários, e poucas pessoas sabem detalhes do seu orçamento e estrutura. Ela está em toda parte. Para dissidentes chineses, "guobao" significa pesadelo.
Enquanto esperava, apanhei de uma mesa um exemplar das "Leituras Selecionadas de Discursos Importantes de Xi Jinping". Um capítulo era sobre a construção de "uma China governada pela lei". Eu poderia ter sido encorajado pelas palavras do nosso presidente, se estivesse sentado em outro lugar.
Após cerca de 40 minutos, dois agentes à paisana da guobao apareceram e me levaram para uma pequena sala. Marcas de sapatos cobriam as paredes, e pontas de cigarro estavam espalhadas pelo chão. No meio da sala havia uma mesa com um computador e uma impressora. Minha cadeira estava em frente à mesa.
Um dos agentes apresentou sua identificação, e o outro me deu uma garrafa de água. Aconselharam-me a "responder de forma correta, caso contrário, haverá consequências legais".
Eles rapidamente se voltaram para a homenagem às vítimas do incidente de 1989 na Tiananmen. Por que você quis participar do evento? Quem contatou você? Quando? Onde haviam se conhecido? O que essa pessoa disse? O que você disse? O que você escreveu em seu discurso?
Eu respondi às perguntas deles com sinceridade. Não vi motivo para esconder nada. Em seguida, discutimos o próprio incidente da praça Tiananmen. Argumentei que sob nenhuma circunstância o governo deveria ter ordenado ao Exército que disparasse contra civis desarmados, muito menos colocar tanques para percorrer as ruas de Pequim.
Os agentes não concordaram nem discordaram de mim; continuaram a fazer perguntas: você sabe qual era a situação geral? Você sabe o que estava acontecendo nos assuntos internacionais, no momento? Sabe quantos soldados foram espancados ou queimados até a morte?
A conversa se voltou para a questão de se eu havia ou não violado a lei. Disse a eles que partia do princípio de que eles achavam que sim, porque prenderam meus amigos que estavam na homenagem à Tiananmen. Os policiais não gostaram de eu ter insinuado que a lei seria caprichosa. A lei não tem a ver com o que "acham", disse um deles. A polícia, disse o agente, prendeu meus amigos porque eles violaram a lei.
Em seguida, discutimos se os cidadãos "devem obedecer à lei". Eu disse que as boas leis devem ser obedecidas, mas que as leis do mal devem ser desafiadas. Eles discordavam fortemente, insistindo que a lei deve ser obedecida, seja ela boa ou má.
"E você é bacharel pela Universidade de Ciência Política e Direito da China, hein?", perguntou o mais jovem. Comecei a falar sobre o ensaio de Thoreau a respeito da desobediência civil, mas rapidamente me senti como um pedante ridículo. Qual é o sentido de falar sobre desobediência civil em uma delegacia de Pequim? Após o interrogatório, os dois entraram em uma sala adjacente para fazer um telefonema, supostamente pedindo instruções a superiores. Demorou um pouco.
Essa foi a parte mais difícil da noite: a espera por alguma força misteriosa que tomasse uma decisão sobre mim. Em algum lugar nesta cidade alguém estava prestes a decidir o meu destino, e eu não sabia nada sobre essa pessoa. Os dois oficiais pareciam estar no escuro também. Eles fizeram um segundo telefonema.
Voltaram, e um deles perguntou: "Se eu prender você hoje, você vai ser capaz de deixar de exagerar isso quando sair?" Eu lhes disse que não poderia prometer isso.
Os policiais queriam ir até a minha casa pegar o ensaio que eu tinha escrito para a homenagem à Tiananmen. Eu disse a eles que havia me oferecido para vir ao interrogatório, mas não tinha intenção de entregar os meus direitos, e que eles precisariam de um mandado de busca e apreensão. Eles finalmente concordaram em me deixar ir para casa sozinho e pegar o ensaio para eles. Mas, uma vez em casa, eu não conseguia encontrá-lo: eu o havia escrito em uma mensagem de e-mail, e a minha conta estava inacessível por causa do Grande Firewall.
Voltei para a delegacia de mãos vazias. Os policiais me deixaram ir embora depois de eu fazer uma declaração sobre o e-mail inacessível, de assinar cada página e de colocar uma impressão digital. Eu também tive de acrescentar uma declaração de que havia lido a transcrição da minha conversa com os policiais e que se tratava de um registro preciso. "Agradecemos por você ter se entregado", disse um agente, "mas a lei é a lei, e embora nós nunca deixemos nenhum meliante fora do laço, nunca trataremos pessoas boas injustamente. Entende?".
Esta foi a primeira vez que fui interrogado pela polícia. No decurso das minhas sete horas de interrogatório, os agentes da guobao nunca foram ferozes. Na verdade, eles foram educados. Com relação a isso, o governo chinês tem evoluído para parecer amigável, mas no seu âmago ainda é um regime ditatorial, que nunca vai acomodar alguém como eu, que não concorda com isso.
Enquanto eu estava sendo interrogado pela polícia, e depois da minha libertação, muitas pessoas -amigos e desconhecidos- expressaram seu apoio a mim, on-line. Alguns até prometeram se entregar à polícia também.
Essa reação diz algo sobre a China de hoje: cada vez mais pessoas já não têm medo de serem presas por falar o que pensam. Ser interrogado pela polícia tornou-se uma questão de honra.
Eu ainda vivo com medo. Visitei muitas prisões chinesas por causa de um romance que escrevi sobre o mundo jurídico. Sei que elas não são lugares agradáveis. Mas eu tenho um medo maior: viver em uma China onde gente boa seja presa, onde as pessoas tenham medo de falar o que pensam, e onde a lei tenha pouco a ver com a justiça.


Texto de Murong Xuecun para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

Murong Xuecun é romancista e blogueiro, autor de "Deixe-me em Paz" (Geração Editorial).

quarta-feira, 16 de julho de 2014

China intensifica repressão a cultos

China intensifica repressão a cultos

POR ANDREW JACOBS

PEQUIM - Enquanto esperava o marido e o filho de sete anos em um McDonald's na cidade de Zhaoyuan, na província de Shandong, leste da China, Wu Shuoyan foi abordada por membros de uma seita cristã que tentaram convencê-la de forma agressiva a aderir à sua fé.
Após Wu se recusar a dar seu número de telefone, vários membros do grupo a espancaram até a morte, um ato brutal filmado com um telefone celular e amplamente divulgado na internet.
Embora a indignação chinesa inicialmente enfocasse os numerosos transeuntes que não ajudaram a mulher naquele dia, em maio, a mídia nacional posteriormente tentou redirecionar o clamor popular para o que o governo chama de "cultos malignos" -as duas dezenas de seitas religiosas ilegais frequentemente demonizadas pelas autoridades como coercitivas e perigosas.
Nas duas semanas seguintes ao assassinato, publicações sob controle estatal produziram uma série de artigos detalhando os supostos comportamentos predatórios da Igreja de Deus Todo-Poderoso, que é a do grupo culpado pelo ataque. A agência de notícias Xinhua informou que as autoridades haviam detido cerca de 1.500 membros do culto, mas aparentemente muitos deles tinham sido presos em 2012.
"Cultos religiosos recrutam e controlam os seguidores, inventando e disseminando superstições e heresias", declarou o Ministério de Segurança Pública no mês passado. Defensores de direitos humanos e alguns líderes religiosos dizem que a atual campanha contra cultos é equivocada e muitas vezes viola a lei chinesa.
No caso do Falun Gong, uma prática de meditação cujos membros chegaram a totalizar milhões, o mero fato de ter algum livreto do grupo é motivo para tratamento brutal por parte da polícia e prisão.
Teng Biao, advogado de defesa que representa membros do Falun Gong, disse que as detenções mais recentes têm motivação política. "Essas ações são para erradicar um grupo inteiro de seguidores, não apenas os que cometeram crimes", afirmou ele. Talvez o que mais assuste a liderança chinesa seja a determinação do grupo da Igreja de Deus Todo-Poderoso para dar fim ao "Grande Dragão Vermelho", uma referência ao Partido Comunista no poder.
Apesar de sua reputação por proselitismo coercitivo que críticos descrevem como lavagem mental, os membros da igreja não se notabilizam pela violência. Especialistas sugeriram que o assassinato recente foi obra de um indivíduo insano.
Durante uma confissão transmitida pela CCTV, o homem apontado como mentor do ataque, Zhang Lidong, disse que a vítima era um "espírito maligno" que merecia morrer. "Nós não tememos a lei, pois temos fé em Deus", afirmou.
Alguns especialistas dizem que a Deus Todo-Poderoso, também conhecida como Luz do Oriente, pode ter 1 milhão de membros na China. Membros da seita fundada em 1989 por Zhao Weishan acreditam que Deus voltou à Terra como uma mulher chinesa. Após a seita ser banida em 1995, Zhao supostamente fugiu para os EUA.
Líderes de muitas igrejas cristãs condenam a seita por seus ensinamentos e métodos de recrutamento. No entanto, certos líderes religiosos chineses temem que campanhas contra grupos heterodoxos atinjam todas as congregações malvistas pelo Partido Comunista.
No passado, os advogados que se ofereciam para representar os acusados de atuar em seitas eram perseguidos.
O advogado Wang Quanzhang ficou preso vários dias no ano passado depois que um tribunal o acusou de perturbar o julgamento de um réu ligado ao Falun Gong.
"As pessoas não deveriam ser presas por causa de suas crenças", opinou Wang. "Mas se houver prova, por exemplo, de que alguém de fato matou ou feriu outra pessoa, então deve haver um processo legal."


Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O Caso dos Nove Chineses


No dia 16 chega ao Brasil o presidente da China, Xi Jinping. Ele governa uma ditadura de vitrine, a segunda economia do mundo, e é o maior parceiro comercial de Pindorama. Semanas depois, chegará às livrarias "O Caso dos Nove Chineses", dos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza de Mello, um magnífico trabalho de pesquisa histórica onde está contada a história de um episódio de vergonhosa marquetagem e histeria do amanhecer da ditadura.
Aconteceu o seguinte:
No dia 3 de abril de 1964, logo depois da deposição do presidente João Goulart, a polícia do governador Carlos Lacerda prendeu no Rio de Janeiro nove cidadãos chineses. Perigosos agentes, comandavam uma rede de 191 pessoas, tinham agulhas envenenadas, bombas teleguiadas e uma lista de personalidades que deveriam ser assassinadas durante a revolução comunista.
Tudo mentira. Dois eram jornalistas da agência estatal e estavam no Brasil desde 1961. Quatro haviam chegado em junho de 1963 para tratar de uma exposição comercial, e três vieram em janeiro de 1964, para comprar algodão. Todos tinham vistos oficiais. Começaram a apanhar no momento da prisão, em suas casas, e depois alguns deles foram espancados pela polícia. Tiveram os apartamentos saqueados e as contas confiscadas (R$ 865 mil em dinheiro de hoje.)
No dia 16, quando Xi Jinping descer em Brasília, completam-se 50 anos dos dias em que os nove chineses estavam trancados em quartéis. Só puderam escrever para as famílias dois meses depois. Só receberam a visita das mulheres (vigiadas por 32 agentes) em agosto.
"O Caso dos Nove Chineses" conta uma história de acovardamento da qual emerge, altaneiro, o advogado Sobral Pinto, que aceitou a defesa dos presos. A Sobral juntaram-se intelectuais como Augusto Frederico Schmidt e jornalistas como Antonio Callado e Carlos Heitor Cony. (Seus destemidos artigos da época, publicados no livro "O Ato e o Fato", foram reeditados há pouco.)
Como era tudo mistificação, violência e histeria, em poucos meses o governo ficou com uma batata quente nas mãos. Condenara os chineses a dez anos de prisão, enfrentava uma campanha internacional e não tinha como se explicar. Em fevereiro de 1965 eles foram expulsos e recebidos como heróis em Pequim.
Aí o jogo virou. Desde então, o Império do Meio mostra que tem memória. Não cria caso, mas não esquece. Sempre que surge a ocasião, refere-se ao "contencioso" do episódio. Cinco dos nove estão vivos. Um deles tornou-se diretor da agência de notícias para a qual trabalhava, outro dirigiu a área de América Latina do Ministério das Relações Exteriores e foi embaixador em Moçambique e Angola. Wang Yaoting chegou a presidente do Conselho para a Promoção do Comércio Internacional. Em 1979, quando o general João Figueiredo visitou a China, ele conversou com um brasileiro:
– Morei um ano no Rio.
– Então o senhor deve conhecer bem o Brasil.
– Conheço muito pouco, porque fiquei aquele ano quase todo preso.
Foram-se os militares, vieram Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Os tempos seriam outros. Talvez, mas até hoje o Império do Meio não recebeu satisfação pelo que sucedeu a seus cidadãos, nem o dinheiro de volta. Mais: em 1997 (governo Fernando Henrique) um dos jornalistas tentou vir ao Brasil com a mulher, mas não conseguiu visto. 


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo.

Após 65 anos, representante chinês faz visita histórica à Taiwan


A China está implacável em seus esforços de reaproximação com a ilha de Taiwan. Na quarta-feira (25), Zhang Zhijun, o chefe do departamento da China para questões taiwanesas, deu início a uma visita de quatro dias a convite de seu homólogo Wang Yu-chi, presidente do Conselho de Questões Continentais (chinesas). É o primeiro dirigente na categoria de ministro a ir até a República da China, nome oficial de Taiwan, separada da China continental desde 1949 e a fuga de Chiang Kai-shek.
"São menos de três horas para voar de Pequim até Taipé, mas levamos 65 anos para dar esse passo", declarou Zhang, a seu anfitrião. Um "passo" que foi comparado a um "salto gigantesco para as relações entre a China e Taiwan" pela agência oficial Xinhua.

Essa viagem, após a visita histórica de Wang à China, em fevereiro, ocorre apesar da desconfiança expressada durante a "revolução dos girassóis", conduzida pelos estudantes taiwaneses em abril. O episódio barrou o capítulo de "serviços" do acordo de livre-comércio sino-taiwanês, assinado em junho de 2013 e que deveria abrir aos investimentos chineses, domínios tão vulneráveis às pressões políticas quanto a cultura e a imprensa. Os manifestantes exigiram a adoção de uma lei-quadro de supervisão dos acordos com a China. Mas esta parece hoje estar em ponto morto.
Em frente ao hotel do aeroporto de Taipé, onde os dois emissários conversaram na quarta-feira, uma centena de manifestantes, mantidos à distância por cordões policiais, protestaram aos gritos de "O futuro de Taiwan pertence aos taiwaneses". O hotel foi o local de um incidente ocorrido na manhã do mesmo dia, quando as forças policiais expulsaram com ajuda militar os ocupantes de dois quartos que pretendiam estender faixas pela fachada.
A mobilização do mês de abril, que protestava contra a falta de transparência nas negociações com Pequim, revelou os limites do modelo de aproximação promovido pelo presidente Ma Ying-jeou (Kuomintang, KMT, nacionalista), desde que este chegou à presidência do país em 2008. Uma parte da população é contrária à ingerência nociva da China na democracia taiwanesa através do "cavalo de Troia" da economia, bem como às ambiguidades de Kuomintang, que sempre negociou com o Partido Comunista Chinês por baixo dos panos.

"O governo taiwanês está entre a bigorna e o martelo. Ele quer avançar nas relações entre as duas margens, mas não às custas da soberania da República da China. O KMT tampouco pode se sabotar", observa Stéphane Corcuff, pesquisador no Centro de Estudos Franceses sobre a China Contemporânea, em Taipé.
Status quo

As ambições a curto prazo do governo Ma e de Pequim são superar mais uma etapa institucional nas relações entre as duas Chinas, que por muito tempo permaneceram como apanágio exclusivo de duas agências semigovernamentais criadas para esse propósito, sem no entanto ir contra o status quo da "não-independência de Taiwan" e da "não-reunificação."

Um sinal de que Pequim entendeu, até certo ponto, o tamanho do desafio que sua visão da reaproximação entre China e Taiwan enfrenta é o fato de que a visita foi apresentada pela agência Xinhua como propícia à descoberta de um "amplo espectro da sociedade taiwanesa": o emissário chinês, cujo programa de visita cuidadosamente evita Taipé, em razão dos riscos de manifestações, encontrará especialistas, personalidades religiosas, estudantes, bem como políticos, entre eles Eric Chu, o prefeito (KMT) de Nova Taipé – uma personalidade em ascensão do partido nacionalista - , mas também Chen Chu, a prefeita de Kaohsiung, célebre figura do Partido Progressista Democrático (independentista), que tem como feudo histórico a grande cidade do sul da ilha.

Reportagem de Brice Pedroletti, para o Le Monde, reproduzida no UOL.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Cresce hostilidade contra igrejas cristãs na China

Cresce hostilidade contra igrejas cristãs na China
Por IAN JOHNSON

WENZHOU, China - Por quase um ano, o orgulho da crescente população cristã em Sanjiang, subúrbio no norte da cidade, era uma igreja cuja torre de 55 metros se destacava contra um promontório rochoso. Wenzhou, conhecida como a "Jerusalém da China" devido às várias igrejas espalhadas pela cidade, era notória pelas relações descontraídas entre igreja e Estado. Funcionários municipais elogiavam a igreja como um projeto exemplar.
Mas, nesta primavera, o governo ordenou que a igreja fosse demolida, sob a alegação de que ela violava regras do zoneamento urbano. Após o fracasso das negociações, tratores e picaretas derrubaram as paredes da igreja em 28 de abril. Depois, sua torre.
"As pessoas ficaram estupefatas", comentou uma frequentadora da congregação, que pediu para ser identificada apenas por seu nome em inglês, Mabel, por temer represálias do governo. "Elas perderam totalmente a fé nas autoridades religiosas locais."
Essa área urbana no leste da China, com 9 milhões de habitantes e situada entre montanhas acidentadas e um litoral recortado, virou o centro de uma batalha nacional com o Partido Comunista, cada vez mais desconfiado do cristianismo e dos valores ocidentais que ele representa.
Desde março, pelo menos uma dezena de congregações na província de Zhejiang receberam ordens de demolir as igrejas ou retirar suas cruzes, escalada significativa de uma campanha do partido para restringir a influência de uma religião em rápida expansão na China.
O governo afirmou que as igrejas violavam restrições de zoneamento urbano. No entanto, um documento interno do governo deixa claro que as demolições fazem parte de uma estratégia para reduzir a exposição pública do cristianismo. A declaração diz que o governo visa regular "pontos religiosos excessivos" e atividades religiosas "demasiadamente populares", porém especifica apenas uma religião, o cristianismo, e um símbolo, a cruz.
"A prioridade é tirar as cruzes de locais com atividade religiosa ao lado de vias expressas e rodovias nacionais e de províncias", cita o documento. "Gradualmente e em lotes, retirem as cruzes do alto para a fachada dos edifícios."
A demolição da igreja de Sanjiang atraiu atenção nacional porque era oficialmente aprovada e também devido ao fato de que o secretário do partido na província, aliado do presidente Xi Jinping, teve um papel em sua destruição. O caso provocou a reação até de círculos religiosos controlados pelo governo.
Gao Ying, reitor do Seminário Teológico Yanjing, em Pequim, disse: "A Igreja de Sanjiang era uma congregação legalmente registrada e merecia um tratamento melhor". Mayfair Yang, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, comentou: "À medida que se fortalece, o cristianismo incomoda outras religiões".
Essas outras religiões estão ganhando cada vez mais apoio do Partido Comunista. Em março, Xi elogiou o budismo por suas contribuições para a China. Em uma visita à cidade natal de Confúcio no ano passado, ele pegou dois livros sobre confucionismo e, em uma reviravolta em relação ao longo antagonismo do partido, deu um aval raro: "Eu preciso ler esses livros com muita atenção".
Embora as igrejas na China se mantenham principalmente com recursos privados -a de Sanjiang foi construída com US$ 5,5 milhões de doações-, pontos religiosos tradicionais vêm se expandindo com forte apoio governamental.
O governo também mudou sua visão sobre práticas religiosas nativas. Uma década atrás, o Partido Comunista condenou a quiromancia e o feng shui como "superstições feudais". Agora, ambos são protegidos por programas do governo que apoiam "o patrimônio cultural intangível" do país.
Alguns membros do governo consideram o cristianismo um vestígio colonial que não se coaduna com o controle do partido sobre a vida política e social.
Aparentemente, os problemas da igreja começaram em outubro, quando Xia Baolong, aliado próximo do presidente Xi, visitou a região. Ao que consta, Xia se perturbou ao ver um edifício de uma religião estrangeira dominando a linha do horizonte. Conforme relatos de membros da igreja, no mês seguinte veio a ordem para que retirassem a cruz.
O acordo em 2011 para a construção da igreja foi assinado pela congregação e pelo comitê local de assuntos religiosos. Diante do clamor atual, esse comitê, que representa o governo, agora afirma que tudo não passou de um problema interno do governo e que a igreja ficou maior do que o planejado. No entanto, funcionários municipais e membros da congregação opinam igualmente que essa violação foi estimulada pelo governo.
Um funcionário do comitê de assuntos religiosos reconheceu que "funcionários municipais disseram que a igreja podia ser maior, mas isso provavelmente foi um erro".
O governo da província anunciou em maio que prendeu dois funcionários municipais de Wenzhou e que estava investigando outros três. Ao que consta, eles são acusados de terem aprovado a localização e o tamanho da igreja.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Solteiras alugam companheiros para o Ano-Novo chinês


Solteiras alugam companheiros para o Ano-Novo chinês

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Prostitutas presas na China são obrigadas a trabalhar de graça

Banhada em luz cor-de-rosa fluorescente para indicar que estava aberta para negócios, Li Zhengguo discorreu sobre os riscos profissionais do trabalho de prostituta na China: clientes abusivos, o espectro do HIV e os olhares acusadores de vizinhas, que ferem sua alma. "Minha vida é tão cheia de ansiedades", disse ela no intervalo entre dois clientes, em uma noite recente. "Algumas vezes meu coração se sente podre, por eu ter dado meu corpo."
Mas seu maior temor é uma visita da polícia. A última vez em que foi levada à delegacia local, Li foi enviada sem julgamento ou defesa jurídica para um centro de detenção na província vizinha de Hebei, onde passou seis meses fazendo flores ornamentais de papel e recitando a lista de regulamentos que criminalizam a prostituição. Sua prisão no Centro de Educação e Custódia Handan terminou com uma última indignidade: ela teve de reembolsar a cadeia por sua estada, cerca de US$ 60 por mês.
"Na próxima vez que a polícia vier me pegar, corto meus pulsos", disse Li, 39, que é mãe solteira de duas crianças.
Os defensores da reforma jurídica reivindicaram vitória em novembro, depois que o governo chinês anunciou que aboliria a "reeducação por meio do trabalho", sistema que permite que a polícia envie pequenos criminosos e pessoas que se queixam demais do governo para campos de trabalho durante até quatro anos sem julgamento. Mas dois mecanismos paralelos de castigo extrajudicial persistem: um para os infratores com drogas e outro para as prostitutas e seus clientes. "Os abusos e a tortura continuam, apenas de maneira diferente", disse Corinna-Barbara Francis, uma pesquisadora da China na Anistia Internacional.
O obscuro sistema penal para prostitutas, chamado de "custódia e educação", é notavelmente semelhante à reeducação mediante o trabalho. Centros dirigidos pelo Ministério da Segurança Pública detêm as mulheres por até dois anos e muitas vezes exigem que elas trabalhem em oficinas sete dias por semana sem pagamento, produzindo brinquedos, palitos para comer e fraldas para cachorros, alguns dos quais são vendidos no exterior. Os clientes homens também são presos nesses centros, mas em número muito menor, segundo um relatório divulgado em dezembro pelo grupo de defensoria Asia Catalyst.
O grupo relata a custódia e educação como um vasto empreendimento comercial disfarçado de sistema de reabilitação feminina. Estabelecidos pela lei chinesa em 1991, os centros de detenção são dirigidos por escritórios locais de segurança pública, que têm a decisão final sobre as penas. Ex-detentas dizem que policiais às vezes pedem propina para libertar as detidas.
O governo não publica estatísticas regulares sobre o programa, mas especialistas estimam que de 18 mil a 28 mil mulheres são enviadas para centros de detenção todo ano. As detentas têm de pagar pela alimentação, exames médicos, roupas de cama e outros artigos essenciais, como sabonete e absorventes, e a maioria gasta cerca de US$ 400 por uma permanência de seis meses, segundo o relatório.
"As que não podiam pagar só recebiam pães cozidos ao vapor para comer", disse uma mulher à Asia Catalyst. Em alguns centros, os visitantes têm de pagar uma entrada de US$ 33 para ver parentes presos.
Os que estudaram o sistema dizem que os escritórios locais de segurança pública obtêm uma renda considerável do que é essencialmente mão de obra grátis.
As mulheres descrevem o trabalho no campo como tolerável mas entediante. Em uma entrevista, uma nativa de 41 anos da província de Jiangxi, no sudeste, disse que passava o dia em uma dessas cadeias fazendo animais de pelúcia, às vezes até as 23h. "A gente costurava tanto que a mão doía", disse a mulher, que só deu seu nome de rua, Xiao Lan, ou Pequena Orquídea.
Ela riu quando perguntada sobre a parte educacional do programa --em sua maioria, longas sessões memorizando as regras de comportamento na cadeia. "Nós chamávamos as guardas de professoras e elas nos chamavam de estudantes, mas não aprendemos nada", disse.
Xiao Lan foi libertada depois de seis meses e imediatamente voltou a sua antiga profissão. "Todas as outras garotas fizeram o mesmo", acrescentou.
Entrevistadas por telefone, autoridades de segurança pública em várias províncias que operam grandes centros de custódia e educação não quiseram falar sobre o assunto, alegando que não são autorizadas a falar à imprensa.
Os que tentam abolir o sistema reconhecem que terão um duro caminho pela frente. Há pouco apoio público para que se reduzam as penas para a prostituição, e o influente aparelho de segurança interna da China provavelmente não cederá de boa vontade o poder e os lucros do sistema atual.
As indignidades da prisão pouco adiantam para dissuadir as mulheres que conseguem ganhar mais de US$ 1 mil por mês como prostitutas, o triplo da renda média dos trabalhadores não qualificados na China.

Reportagem de Andrew Jacobs, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Brasil e China lançam 4º satélite juntos

Brasil e China lançam 4º satélite juntos
CBERS-3, novo modelo usado para observação da Terra, vai ao ar na segunda após dois anos de pausa em programa
Câmeras vão monitorar desmate, safra agrícola e alterações urbanas; embargo comercial dos EUA fez projeto atrasar
RAFAEL GARCIAENVIADO ESPECIAL A SÃO JOSÉ DOS CAMPOS

Um foguete deve decolar na madrugada da próxima segunda-feira colocando em órbita o satélite CBERS-3, o quarto lançado pelo programa de observação da Terra que o Brasil mantém em parceria com a China.
O novo orbitador possui quatro câmeras diferentes -- uma a mais do que a versão anterior (o CBERS-2B), que parou de operar em 2010. Desde então, o Brasil está sem meios próprios de observar seu território do espaço.
Durante esse período, programas importantes --como os de monitoramento do desmatamento na Amazônia-- vêm dependendo exclusivamente da compra de imagens geradas por satélites estrangeiros, como os americanos Landsat, Terra e Acqua.
O novo satélite CBERS não dá ao Brasil independência total para monitorar seu território, mas deve tornar a fiscalização mais eficaz.
Segundo José Carlos Epiphanio, coordenador de aplicações do CBERS, a nova câmera de grande campo de visão usada pelos satélites do programa, a WFI, será capaz de fazer imagens de toda a Amazônia a cada cinco dias com resolução de 64 metros. "Isso vai ser de grande utilidade para o Deter, o sistema de combate ao desmatamento em tempo real", afirma.
Hoje o Deter já conta com imagens mais rápidas do Acqua e do Terra, mas sem resolução tão boa.
A WFI e os outros componentes brasileiros do satélite foram desenvolvidos pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que também opera o satélite, em parceria com os chineses.
A principal inovação do novo CBERS em relação ao modelo 2B é a câmeran PAN, que tem um sensor de alta resolução móvel capaz de apontar para os lados e fotografar locais fora da trilha de órbita do satélite. Por isso, ela deve ser útil no monitoramento de desastres imprevistos.
Já a MUX, câmera padrão do CBERS, fará imagens cobrindo todo o território do Brasil e da China com resolução de 20 metros, automaticamente, a cada 26 dias. Todas as imagens ficarão disponíveis on-line gratuitamente.

EMBARGO AMERICANO

O lançamento do CBERS-3 estava previsto originalmente para 2011, mas atrasou dois anos em razão de imprevistos no desenvolvimento de tecnologias que o Brasil ainda não dominava, diz Leonel Perondi, diretor do Inpe.
Um dos problemas foi o Itar, um decreto do governo dos EUA que proíbe empresas americanas de vender componentes espaciais para projetos de cooperação com a China.
O Inpe havia acertado a compra de conversores de corrente elétrica americanos, que não eram peças consideradas de uso espacial. Quando o Inpe estava prestes a obter os componentes, o governo americano resolveu inclui-los na lista do embargo, e o Brasil teve de encontrar outro fornecedor. "Só isso já representou um atraso de um ano", afirma Perondi.


Reprodução da Folha de São Paulo. Destaques do blogueiro.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

China forja mercado de arte

China forja mercado de arte
Por David Barboza, Graham Bowley e Amanda Cox
Pequim

Em um leilão noturno da casa China Guardian, em maio de 2011, "Eagle Standing on a Pine Tree" (Águia sobre um pinheiro), pintura a nanquim feita em 1946 por Qi Baishi, um dos mestres da arte chinesa do século 20, foi arrematada por um preço surpreendente: US$ 65,4 milhões. Nunca antes uma pintura chinesa tinha atingido valor tão alto em um leilão. No final do ano, a venda da tela teve implicações globais, ajudando a China a superar os Estados Unidos como o maior mercado mundial de arte e leilões.
Dois anos depois, porém, a obra-prima de Qi Baishi ainda está parada num depósito em Pequim.
O autor do lance vencedor se negou a pagar pela tela porque a autenticidade dela foi questionada.
"O mercado se encontra em uma fase muito dúbia", disse Alexander Zacke, especialista em arte asiática que comanda a casa de leilões internacionais on-line Auctionata. "Ninguém leva muito a sério os resultados na China."
De fato, ao mesmo tempo em que o mundo da arte reage com assombro ao boom do mercado chinês, uma revisão feita pelo "New York Times" ao longo de seis meses constatou que muitas das vendas não chegaram a se concretizar. São transações que teriam gerado até um terço da receita chinesa de leilões nos últimos anos.
Fato igualmente problemático é que o mercado está inundado de obras falsificadas, com frequência produzidas em massa, e virou campo fértil para a corrupção, na medida em que executivos de empresas subornam autoridades com obras de arte.
A explosão de compradores de arte foi alimentada pelo consumismo antes reprimido dos novos-ricos. Há duas décadas, a China praticamente não tinha nenhum mercado para esse setor. Apesar disso, no ano passado, a receita divulgada dos leilões no país subiu 900% em relação a 2003, chegando a US$ 8,9 bilhões -embora tenha caído 24% em relação a 2011. Já nos EUA, a receita do mercado de leilões em 2012 foi de US$ 8,1 bilhões.
Os compradores chineses geralmente se interessam por trabalhos chineses tradicionais, alguns de mestres do século 15 e outros de artistas modernos que optaram por trabalhar no estilo antigo.
Essa própria reverência ao passado cultural contribui para o aumento das obras falsificadas. Os artistas na China são ensinados a imitar os velhos mestres chineses, produzindo cópias de alta qualidade. Essa tradição coincidiu com a demanda do mercado de arte, no qual reproduções -que muitos artistas possuem a habilidade necessária para criar- frequentemente são oferecidas como se fossem artigos genuínos.
"Esse é o desafio do momento", disse Wang Yannan, presidente e diretor da China Guardian, a segunda maior casa de leilões do país. "A primeira pergunta que cada chinês se faz é se a obra é falsificada."
Escândalos que vieram a público expõem a extensão das falsificações e semeiam dúvidas quanto ao mercado mais amplo. Três anos atrás, veio à tona que uma pintura a óleo atribuída ao artista do século 20 Xu Beihong e vendida por mais de US$ 10 milhões tinha sido produzida 30 anos após a morte do artista por um estudante, durante um exercício de sala de aula em uma das principais academias de arte da China.
Ainda mais constrangedora foi a decisão tomada pelo governo em julho passado de fechar um museu particular em Hebei por suspeitas de que quase tudo em seu acervo fosse falsificado -40 mil artefatos, incluindo um vaso de porcelana da dinastia Tang.
"Sempre existiram falsificadores no mercado, mas é uma questão de proporção", comentou Robert D. Mowry, ex-curador de arte asiática na Universidade Harvard e hoje consultor da Christie's.
O setor de leilões e o governo dizem que estão se esforçando para combater os abusos, mas enfrentam a dificuldade de uma brecha na lei, que exime as casas de leilões de responsabilidade quando uma obra leiloada é falsificada.
O problema da falsificação ajuda a explicar o número crescente de casos em que pagamentos não são realizados. Nos últimos três anos, um estudo feito pela Associação de Leiloeiros da China sobre as casas de leilão chinesas constatou que mais ou menos metade das vendas de obras de arte de valor superior a US$ 1,5 milhão -que representam uma parte importante do mercado- não foi completada porque o comprador deixou de pagar o preço acordado. (No caso das grandes casas de leilão americanas, segundo vários especialistas, o índice de não pagamento por obras de valor equivalente é mínimo.)
"Isso tem algo a ver com o ambiente geral", disse a presidente da associação, Zhang Yanhua. "Como vocês sabem, a China ainda está se esforçando para construir a obediência às leis."
Para especialistas, outras explicações possíveis para a onda de inadimplência e de pagamentos feitos com atraso incluem casos em que pessoas se arrependeram dos lances que fizeram ou simplesmente fizeram lances altos para elevar o valor de obras de um artista particular que elas colecionam.
Mesmo levando em conta que os relatórios de receita nem sempre refletem a realidade, a alta nas aquisições de arte nos últimos dez anos foi meteórica. Bancos chineses, estatais e grandes empresários continuam a investir no boom. Obras de arte viraram uma espécie de nova moeda na China, e tantas pessoas colecionam arte que os leilões com frequência recebem multidões. Mais de 20 programas de televisão na China oferecem dicas para quem coleciona arte e quer identificar relíquias culturais.
Diante desse interesse enorme, os marchands chineses estão correndo para a Europa e os Estados Unidos para recomprar relíquias chinesas que estão fora do país.
Houve também uma série de furtos de antiguidades chinesas em museus. Surgiu um mercado negro de artefatos, com chamados ladrões de túmulos escavando tesouros enterrados que possam vender.
O interesse em reparar os pontos fracos do mercado pode ter contribuído para a decisão recente da China de afrouxar as regras que dificultam o acesso das casas de leilão ocidentais ao mercado chinês.
Agora a Sotheby's tem uma joint venture com uma empresa estatal, e a Christie's ganhou uma licença neste ano para se tornar a primeira casa internacional de leilões a operar independentemente na China. São novidades que podem ajudar a fomentar a competição e a elevação dos padrões no mercado

Preço em alta

A manipulação de preços é frequente no mercado chinês de arte. Colecionadores e investidores, possivelmente um fundo de investimento em arte que tenha investido muito em um artista específico, fazem lances altos sobre uma obra, com o objetivo de empurrar para cima o valor de seu estoque inteiro. De acordo com especialistas, às vezes as próprias casas de leilão fazem lances falsos. Os chineses têm um nome para esse processo de empurrar preços para cima: "refogar".
Enquanto alguns colecionadores se importam profundamente com suas obras de arte, muitos compradores, segundo especialistas, são investidores interessados em lucrar com a revenda de uma obra de arte. Uma pintura de Qi Baishi, "Fish and Shrimp" (Peixe e camarão), foi vendida quatro vezes em leilões ao longo de dez anos até dezembro passado. Seu preço subiu de US$ 30 mil em 2002 para US$ 794 mil, caindo no ano passado para US$ 552 mil.
As oportunidades de revenda são uma prioridade para muitos compradores. Em um leilão em Pequim em setembro, quatro homens de Guangzhou compraram várias pinturas no valor de dezenas de milhares de dólares. Um deles comentou: "A maioria das pessoas que você vê aqui não tem um emprego de verdade. É o nosso caso, somos revendedores. Compramos as obras e as revendemos a pessoas instruídas e ricas".
Analistas dizem que a revenda de obras de arte contribui para o problema de inadimplência do mercado. Antes de um leilão, um comprador pode encontrar um colecionador interessado numa obra. Ele pode fazer lances e arrematar o trabalho, mas negar-se a pagar por ele se seu trato com o colecionador não se concretizar.
E há os problemas de pagamento que surgem porque o mercado de arte chinês é jovem, economicamente falando, e seus compradores adquiriram seu dinheiro recentemente. "Ainda existe uma grande diferença entre Oriente e Ocidente no entendimento dos leilões -sobre se elevar uma placa de oferta num leilão constitui ou não um contrato legalmente válido", disse Philip Tinari, do Centro Ullens de Arte Contemporânea, em Pequim. "Alguma jovem atriz compra um lote de pinturas num leilão, sai do local e fala 'não quero os números 13, 11, 7, 6 e 5'. Acontece o tempo todo."
Mesmo com as fraudes e falsificações, muitos colecionadores e investidores dizem que o mercado vale a pena. Mas o artista, crítico e curador Jiang Yinfeng disse que as pessoas que têm pouca experiência podem sofrer em um mercado tão superaquecido. "Alguns de meus amigos usam suas próprias casas como garantia para comprar obras de arte", contou. "Outros contraem empréstimos com juros altos."
Um dos fatores que tem movido o mercado de arte na China é o costume de dar presentes, algo que leva autoridades provinciais a chegarem em massa a Pequim durante o Festival de Meados de Outono, em setembro, levando obras de arte, bebidas e outros objetos como presentes para dar a altos funcionários governamentais.
A arte pode ser usada também em esquemas de suborno mais complexos. Em alguns casos, um funcionário governamental recebe uma obra de arte com instruções para oferecê-la em leilão. Depois, um empresário a utilizará como moeda de propina, comprando a obra a um preço inflado.
Em muitos casos, a autenticidade da obra dada de presente não vem ao caso, porque o comprador pretende gastar muito de qualquer maneira. E, se o esquema fosse descoberto, o valor mínimo da obra falsificada significaria que o castigo seria menor.
O uso de arte para pagar propinas a funcionários governamentais é algo tão corriqueiro que os chineses cunharam um termo para descrever esse tipo de corrupção estética: é o "yahui", ou "suborno elegante".
Em 2009, quando as autoridades detiveram Wen Qiang, o vice-chefe de polícia da cidade de Congqing, por proteger uma quadrilha criminosa, descobriram que ele tinha uma coleção de arte surpreendentemente grande e cara. Wen teria recebido mais de cem obras como presente. Ele foi executado por seus crimes no ano seguinte.
"Quem está presente no mercado de leilões?" perguntou Li Yanjun, especialista e autenticador de obras de arte na Universidade Oriental de Pequim. "Funcionários do governo. Eles se escondem e mandam outras pessoas fazer lances por eles ou então compram todas as obras."

Antiguidade nova em folha

O rastro dos bronzes, pinturas e antiguidades falsificados percorre a China inteira. Em Jingdezhen, no sudeste do país, oficinas produzem belíssimas reproduções de porcelanas das dinastias Ming e Qing. Em Yanjian, na região central da província de Yenan, elas aplicam amônia sobre bronze para induzir a corrosão, de modo que um sino ou recipiente usado em rituais com vinho possa se fazer passar por artefato escavado em um túmulo. Em Pequim, Tianjin, Suzhou e Nanjing, pintores e calígrafos reproduzem as pinceladas de mestres reverenciados.
Em todo o país, pintores copiam obras de mestres como Qi Baishi e Fu Baoshi. "Já vi 700 a 800 pessoas numa oficina de pintura, com uma divisão de trabalho muito clara, reproduzindo as obras de Qi Baishi", diz Zhang Jinfa, autenticador profissional de obras de arte.
Um estudo feito no ano passado estimou que 250 mil pessoas em 20 cidades chinesas podem estar produzindo falsificações.
Milhares de pessoas em Jingdezhen, centro de produção de porcelana na antiguidade, trabalham criando obras de argila segundo moldes antigos. Mais adiante na linha de produção, pintores mergulham seus pincéis em tinta e copiam sobre as cerâmicas os contornos de flores ou desenhos chineses tradicionais.
A tradição da cópia na China reflete mais que uma simples atitude de reverência diante do passado: é o reconhecimento de que a beleza foi captada de uma forma que merece ser emulada. Diferentemente do Ocidente, onde se admira o chamado "choque do novo", a China valoriza a tradição. Suas obras mais vendidas com frequência homenageiam obras criadas centenas de anos atrás e se parecem com elas.
Nas escolas de arte, alunos praticam o "lin mo", ou imitação dos grandes mestres. A falsificação e a fraude não fazem necessariamente parte da tradição, embora pintores famosos como Zhang Daqian, morto há 30 anos, tenham se divertido ludibriando os especialistas.
"Zhang Daqian achava que estava no mesmo nível que os velhos mestres", explicou Maxwell K. Hearn, diretor do departamento de arte asiática do Museu Metropolitano de Arte de Nova York. "Assim, a verdadeira prova dos nove era ver se seria capaz de copiar as obras deles."
Uma história que ilustra a abordagem irreverente de Zhang à cópia diz respeito a uma viagem que ele fez em 1967 para ver uma exposição das obras de Shitao, pintor do século 17, no Museu de Arte da Universidade de Michigan. Os guias lhe mostraram, orgulhosos, os trabalhos do pintor célebre, morto mais de dois séculos antes. Eles se espantaram quando Zhang começou a rir e apontou para várias obras na parede, dizendo: "Eu fiz esse! E também aquele!".

Colaboraram Jo Craven McGinty, Dong Yiyi e Stephanie Yifan Yang