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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Terra prometida, terra sem paz


O Parlamento de Israel rejeitou a criação de um Estado palestino na quinta-feira (18). No dia seguinte, a Corte Internacional de Justiça, em Haia, julgou que a ocupação israelense nos territórios palestinos da Cisjordânia, do Golã e de parte de Jerusalém é ilegal e deve ser encerrada.

E nada aconteceu. Nem palestinos nem israelenses comemoraram ou protestaram. Faz 47 anos que a ocupação da Cisjordânia é considerada ilegal pela Assembleia e pelo Conselho de Segurança da ONU e pelos últimos seis presidentes dos EUA. Mas Israel sempre foi (e vai) em frente: criou 144 colônias nos territórios ocupados em 1967, na Guerra dos Seis Dias, e nelas vivem hoje 500 mil colonos —e mais 220 mil em Jerusalém Oriental. Ainda sobra espaço para um Estado palestino? Não.

O primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, respondeu à Corte de Haia no domingo (21): "O povo de Israel não é um ocupante em sua própria terra e em sua capital eterna, Jerusalém". É a terra prometida por Deus a Abraão, a Judeia e Samaria bíblicas.

A terra prometida foi parcialmente ressuscitada em 1948, pela ONU. Prometida, mas não protegida e imune a ataques desde o primeiro dia de independência —Israel consolidou uma política de ocupação que considera essencial à sua segurança. E que, na prática, inviabiliza um Estado palestino.

A conquista do deserto do Sinai, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, de Gaza e do Golã, na guerra contra o Egito, Síria e Jordânia, era para ser provisória. Eu vivia ao lado de Gaza, como voluntário, no kibutz Reim, devastado no ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. Arava o deserto à noite, com a escolta de um árabe druso armado, porque o farol aceso do trator poderia atrair atacantes palestinos. Era a época em que o Partido Trabalhista estava no poder, com Levi Eshkol. Foi ele quem criou a primeira colônia nos territórios conquistados, Kfar Etzion, ao sul da Cisjordânia, em setembro de 1967.

A base dos trabalhistas para a colonização foi o Plano Alon, de Yigal Alon, que chegou a ser primeiro-ministro interino. Ele previa a anexação de Jerusalém Oriental, de Gush Etzion e do Vale do Jordão, e funcionou até o governo de Yitzhak Rabin.

Muitas colônias nasceram como Nahal, ou postos militares, e depois foram entregues a civis. Isso porque, para uso militar, as terras podem ser confiscadas.

Com o primeiro-ministro Menachem Begin, em 1977, a colonização deu um salto. Os religiosos e nacionalistas o saudaram como aquele que resgataria toda a "terra prometida" — um novo "messias". Ele só devolveu o Sinai, em troca da paz com o Egito, e a colônia de Yamit, a "nascida do mar".

Acusado de criar "obstáculos à paz", com as colônias que brotavam por todos os territórios sob negociação, com status a definir, o premiê Begin nunca se intimidou. "Provisório", era a sua justificativa, sempre. Israel anexou Jerusalém Oriental e o Golã, da Síria, por leis aprovadas pelo Parlamento, e saiu em 2005 de Gaza, que agora está destruindo em represália ao massacre do Hamas, com mais de 1.500 israelenses e 38 mil palestinos mortos.

O governo atual de Netanyahu está sob pressão do acordo de coalizão feito em 1º de dezembro de 2022, com o partido de extrema direita e ultranacionalista Sionismo Religioso, para estender a soberania israelense sobre a Judeia e Samaria —ou a Cisjordânia, a "terra prometida" pelo presidente Joe Biden aos palestinos.

O ex-presidente Donald Trump transferiu a embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém e reconheceu a soberania de Israel sobre as colinas sírias do Golã. Lá, desde 2019, ele ganhou, em gratidão, uma comunidade batizada de Ramat Trump, ou Colina de Trump, numa altitude maior que o prédio Trump Tower, em Nova York. O ex-presidente pode ser eleito neste fim de ano, para alegria de Netanyahu, que tem um discurso previsto para as duas Casas do Congresso, em Washington, nesta quarta-feira (24).

Sem Biden e sem os democratas na Casa Branca, o projeto da Palestina pode desaparecer, no Oriente Médio sem paz.


Reprodução de texto de Moises Rabinovici na Folha de São Paulo

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Guerra transforma Gaza em cemitério para crianças


Descalço e chorando, Khaled Joudeh, de 9 anos, corre em direção às dezenas de corpos envoltos em lençóis brancos, cobertores e tapetes do lado de fora da necrotério superlotado em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza.

"Onde está minha mãe? Eu quero ver minha mãe", chora ele. "Onde está Khalil?" continua, entre soluços, enquanto pergunta pelo seu irmão de 12 anos. Um funcionário, então, abre um sudário branco para que Khaled possa beijar seu irmão pela última vez.

Depois, ele se despede de sua irmã de 8 meses. Outro lençol é puxado e revela o rosto ensanguentado de uma bebê. Khaled começa a soluçar novamente ao identificá-la para a equipe do hospital. Seu nome era Misk, almíscar em árabe.

"Mamãe estava tão feliz quando teve você", sussurra ele, tocando gentilmente a testa da bebê enquanto lágrimas escorrem do seu rosto para o dela.

Khaled se despediu de sua mãe, seu pai, seu irmão mais velho e sua irmã —os corpos de todos eles alinhados ao seu redor. Apenas ele e seu irmão mais novo, Tamer, de 7 anos, sobreviveram ao que parentes e jornalistas locais disseram ter sido um ataque aéreo em 22 de outubro que derrubou dois prédios onde sua família estendida se abrigava.

Um total de 68 membros da família foram mortos naquele dia enquanto dormiam em suas camas em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, relataram três parentes de Khaled. Segundo os familiares, vários ramos e gerações dos Joudehs estavam se reunindo antes do ataque, incluindo alguns que haviam fugido do norte de Gaza, conforme Israel havia ordenado aos moradores. O exército israelense diz que não pode responder a perguntas sobre o bombardeio.

Os membros da família foram enterrados juntos, lado a lado, em uma longa sepultura, disseram parentes.

Gaza, adverte a ONU, tornou-se "um cemitério para milhares de crianças". Autoridades de saúde no território afirmam que 5.000 crianças palestinas foram mortas desde o início dos ataques israelense. Muitos funcionários internacionais e especialistas familiarizados com a forma como os números de mortos são compilados em Gaza dizem que os números são geralmente confiáveis.

Se estiverem realmente precisos, mais crianças foram mortas em Gaza nas últimas seis semanas do que as 2.985 crianças mortas nas principais zonas de conflito do mundo combinadas, em duas dezenas de países, durante todo o ano passado, de acordo com contagens verificadas de mortes em conflitos armados da ONU.

O exército israelense afirma que, diferentemente do "ataque assassino contra mulheres, crianças, idosos e deficientes" promovido pelo Hamas em 7 de outubro, as forças israelenses tomam "todas as precauções viáveis" para "mitigar danos" a civis.

Mas o ritmo furioso dos bombardeios —mais de 15 mil até o momento, segundo o exército israelense, incluindo no sul de Gaza também— torna a campanha aérea israelense no território palestino uma das mais intensas do século 21. E está acontecendo em um território urbano denso e sob cerco, com alta concentração de civis.

Depois de questionar inicialmente o número de mortos relatado pelas autoridades de saúde em Gaza, a administração Biden agora diz que "muitos" palestinos foram mortos, admitindo que os números reais de vítimas civis podem ser "ainda maiores do que estão sendo citados".

Na sala de emergência do Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, o doutor Ghassan Abu-Sittah diz que muitas crianças foram trazidas de escombros sozinhas e em estado de choque, com queimaduras, ferimentos por estilhaços ou lesões graves causadas por esmagamento. Em muitos casos, segundo ele, ninguém sabia quem eram.

"Elas recebem uma designação —'Criança traumatizada desacompanhada'— até que alguém os reconheça", diz ele. "A coisa paralisante é que alguns deles são os únicos sobreviventes de suas famílias, então ninguém nunca vem", continua. "Cada vez mais, parece uma guerra contra crianças."

O exército israelense afirma que "lamenta qualquer dano causado a civis (especialmente crianças)", e acrescenta que está examinando "todas as suas operações" para garantir que elas sigam suas próprias regras e cumpram o direito internacional.

Um número crescente de grupos de direitos humanos e autoridades, porém, argumenta que Israel já violou essa lei.

Depois de condenar os ataques "hediondos, brutais e chocantes" do Hamas como crimes de guerra, Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, disse neste mês que "a punição coletiva de Israel aos civis palestinos também equivale a um crime de guerra, assim como a evacuação forçada ilegal de civis".

"Os bombardeios massivos de Israel mataram, mutilaram e feriram especialmente mulheres e crianças", acrescentou. "Tudo isso tem um preço insuportável."

Muitas crianças estão mostrando sinais claros de trauma, incluindo terrores noturnos, afirma Nida Zaeem, uma oficial de saúde mental do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gaza.

"Eles acordam gritando e chorando", diz Zaeem de um abrigo da Cruz Vermelha, em Rafah. Todas as noites, acrescenta, as crianças no abrigo acordam gritando: "Vamos morrer, vamos morrer". "Eles gritam, imploram: 'Por favor, me proteja, por favor, me esconda. Eu não quero morrer'", conta ela.

Gaza, uma faixa costeira no Mediterrâneo, costumava ter uma cultura de praia animada. Yasser Abou Ishaq, 34, lembra como costumava ensinar suas três filhas pequenas a nadar. "Elas sempre me pediam para ir à praia, ao parque de diversões, aos parques", conta ele. "Eu adorava vê-las brincar."

Amal, a mais velha, de 7 anos, foi nomeada em homenagem à sua mãe. Na escola, ela era uma boa aluna com uma caligrafia excelente, lembra ele. Em casa, ela se tornava a professora que fazia sua irmã mais nova, Israa, de 4 anos, que adorava chocolate e brinquedos Kinder, brincar de ser sua aluna.

Ele conta que, quando sua casa foi destruída por um ataque aéreo, perdeu ambas, além de sua mulher. No total, 25 membros de sua família, 15 deles crianças, foram mortos, diz ele. O exército israelense afirma que não pode responder a perguntas sobre o ataque.

Abou Ishaq conta que ele e sua filha de 1 ano, Habiba, foram feridos e levados para o hospital. A maioria de sua família, incluindo sua esposa e sua outra filha, foi retirada dos escombros no mesmo dia e enterrada por parentes, enquanto ele ainda estava sendo tratado.

No dia seguinte, o corpo de Israa foi retirado dos escombros, diz ele. Abou Ishaq conseguiu vê-la na sala do hospital e segurá-la pela última vez. "Eu a abracei e beijei. Me despedi e chorei", diz ele. "Só Deus sabe o quanto eu chorei."


Reportagem de Raja Abdulrahim, Samar Abu Elouf e Yousef Masoud para o New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo

domingo, 14 de abril de 2019

A morte anunciada da Palestina

O resultado mais significativo da eleição israelense de terça (9) não é a mais que previsível recondução de Binyamin Netanyahu ao posto de primeiro-ministro. É a morte do ainda não nascido Estado Palestino(previsto pela legalidade internacional mas jamais criado).
O atestado de óbito leva a assinatura do Yesha, acrônimo em hebraico para Conselho da Judeia, Samaria (como os judeus chamam a Cisjordânia) e Gaza, territórios que deveriam ser palestinos (só Gaza é, por enquanto).
O Yesha, em seu comunicado sobre a eleição, diz que “o povo expressou sua lealdade à Terra de Israel e escolheu aplicar a soberania de Israel sobre a Judeia, a Samaria e o vale do Jordão”.
Dá para entender essa análise radical: Netanyahu, nos últimos dias da campanha, havia anunciado que, se vencesse, estenderia a soberania israelense aos assentamentos judaicos na Cisjordânia. Logo, se a maioria votou não exatamente por ele, mas pela combinação de partidos de direita e ultra-direita que o apoiam, votou pela anexação pré-anunciada.
Anexar os assentamentos impede formar um Estado palestino minimamente viável.
Até uma liderança palestina relevante, Saeb Erekat, admite e lamenta, ao dizer que, conforme os resultados apurados até a madrugada, “só 18 dos 120 membros eleitos do Parlamento israelense apoiam a solução de dois Estados e nas fronteiras de 1967”, anteriores, portanto, à guerra em que Israel ocupou mais territórios palestinos.
Essa contabilidade mostra que é injusto atribuir apenas a Netanyahu a destruição do sonho palestino. A sociedade israelense foi se movendo paulatina mais firmemente nessa direção. “Bibi”, como é chamado, sentiu essa pulsação e foi avançando sobre os territórios palestinos.
Escreve, por exemplo, David Halbfinger no New York Times desta quarta (10): “A aparente reeleição de Netanyahu como primeiro-ministro atesta a visão conservadora do Estado judeu e de seu povo a respeito de onde estão e para onde caminham”.
Diz muito sobre o conservadorismo o fato de que os partidos religiosos vêm crescendo há anos em peso tanto no Parlamento como nos gabinetes de Netanyahu (o atual e, certamente, o futuro).
Na questão palestina, claro que os religiosos e seu conservadorismo pesam, mas o principal, a meu ver, reside no fato de que a grande maioria dos israelenses desinteressou-se dos palestinos.
Seria necessária uma investigação aprofundada para explicar as razões desse descolamento quase irrestrito. Mas a segurança certamente é um fator determinante. 
O muro que Israel construiu (e continua construindo) para separar as terras palestinas ajudou a conter o terrorismo mais impactante, aquele dos homens-bomba que se explodiam em restaurantes, mercados, pontos de ônibus.
Israel instalou-se em uma zona de conforto e não quer mais se preocupar com os palestinos. Quanto pode durar o conforto ninguém sabe. Mas levar a sério a conclamação do Yesha para tomar a Cisjordânia e Gaza, que os religiosos consideram a Terra de Israel, é armar uma bomba de tempo: os palestinos que vivem na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Israel são 6,5 milhões —exatamente o mesmo número de judeus em Israel.
Dá para condená-los eternamente a ser um povo sem Estado?

Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Aos poucos e discretamente, acabou sonho palestino de Estado próprio

Passo a passo, sem que explodam manchetes a respeito, acabou o sonho palestino de ter Estado próprio.
O mais recente prego no caixão dessa já remota esperança veio na terça (16), quando Donald Trump anunciou que cortou pela metade a verba à agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos.
Cria "a mais severa crise de financiamento na história da agência", segundo o porta-voz da organização, Chris Gunness.
Ela cuida de cerca de 5 milhões de refugiados palestinos, atendendo saúde, educação e alimentação. Logo, "cortar verba para comida e educação para refugiados vulneráveis não proporciona um duradouro e abrangente processo de paz", comentou o governo palestino.
Antes do corte, outro prego importante já havia sido martelado no caixão do diálogo: no fim do ano, o Comitê Central do Likud, principal partido governista de Israel, votara para estender a jurisdição de Israel aos assentamentos na Cisjordânia.
"É um prelúdio para a anexação", analisou Steven Cook, especialista em Oriente Médio e África do Council on Foreign Relations.
De fato, se a Cisjordânia é um território que a comunidade internacional reservou para os palestinos, como parte de seu futuro Estado, não faz sentido que valha para ela a legislação israelense. A menos que Israel pretenda anexá-la.
A análise de Cook coincide com informações que os palestinos repassam a jornalistas, depois de recebê-las de interlocutores egípcios e sauditas: o plano de paz que Trump diz repetidamente que está preparando incluiria criar cantões desconectados na Cisjordânia, com um governo supramunicipal e atribuir a Abu Dis, nos confins de Jerusalém, o caráter de capital palestina.
Esse pedaço de território poderia, ainda por cima, "ser vinculado a uma Jordânia vulnerável e que não o quer", na versão de David Gardner no jornal britânico "Financial Times" desta quarta-feira (17).
Morreria, pois, o sonho palestino de um Estado próprio que, porém, tem o respaldo da legalidade internacional: em 1948, a ONU determinou a criação de dois Estados na área, Israel e o que seria a Palestina.
É verdade que os países árabes não aceitaram Israel, foram à guerra e perderam. Esse fato não muda a determinação da ONU, seguidamente reafirmada, de dois Estados.
O problema é que nenhum país tem força suficiente para impor a Israel a solução internacionalmente reconhecida. Os EUA desde sempre —e mais ainda com Trump— sempre respaldaram Israel, ao passo que os palestinos recebem apoio apenas retórico do mundo árabe e do Ocidente em geral.
Depois que Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, resolveu decretar que os EUA estão fora do jogo no processo de paz, que, aliás, é um cadáver insepulto.
Vale, pois, o comentário para o "Guardian" de Ian Black (Centro do Oriente Médio da London School of Economics): "A solução dos dois Estados para o conflito com Israel tem tido um longo desfalecimento. Mas o discurso de Abbas poderá ser visto algum dia como o seu epitáfio".


Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Israel, o medo e as faxineiras

Judeus e palestinos chegaram a um ponto de não retorno: ou se separam o mais depressa possível, ou vão se matar aos poucos, ou, o que seria ainda mais dramático, entrarão em uma nova guerra de independência (dos palestinos, que perderam a primeira, em 1948).
A sinalização mais clara de que se atingiu tal situação nem é dada, a meu ver, pelos atentados diários contra judeus e pelas mortes de seus praticantes ou de outros manifestantes palestinos.
Está em um fato menor do cotidiano, relatado pelo sítio "The Times of Israel". Jessica Steinberg, a correspondente para assuntos dos sabras (os judeus nascidos em Israel), relata que as faxineiras (árabes) da escola Efrata, no sul de Jerusalém, foram proibidas de trabalhar no horário em que as crianças (judias) estão na escola, justamente o horário em que são mais necessárias, como é óbvio.
A mudança de horário é fruto do medo de que as faxineiras façam como outras palestinas e decidam atacar a facadas a criançada.
Não é um caso isolado: o Canal 2 da TV israelense informa que em Givatyim, subúrbio de Tel Aviv, as faxineiras árabes estão sendo substituídas por refugiados eritreus.
Quando o medo chega a esse ponto, em um lado, e quando a desesperança é tamanha, do outro lado, que leva jovens à desesperada decisão de matar e morrer no mesmo ato, a convivência lado a lado torna-se claramente impraticável.
Que os judeus estão convencidos de que os palestinos querem matá-los a todos dão testemunho dois depoimentos.
Primeiro, o oficial, a versão do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu de que foi um sacerdote muçulmano de Jerusalém quem sugeriu a Adolf Hitler o extermínio dos judeus.
É um claro delírio, mas mostra que a mais alta autoridade israelense despreza a ocupação israelense como fonte dos atentados, posto que acha que os palestinos queriam exterminar os judeus antes que Israel fosse criado.
O jornalista David Horovitz ("The Times of Israel"), sem chegar a essa heresia histórica, escreve:
"Em sangrentas e inconfundíveis letras maiúsculas, os que perpetram essa nova rodada de violência diabólica proclamam aos israelenses: Nós não queremos viver ao lado de vocês. Queremos matá-los e forçá-los a sair daqui".
Do lado palestino, o sítio "Al Monitor" informa que um funcionário-sênior do setor de segurança da Fatah (a facção que controla a Cisjordânia) disse que os atentados destes dias são um ponto de virada, "mudando de resolução do conflito para volta ao conflito armado".
O funcionário acredita que, logo mais, o Hamas (o movimento radical que governa a faixa de Gaza) aderirá ao combate, bem como o Hizbullah do Líbano.
"Contamos com que o Egito e a Jordânia ao menos rompam relações com Israel", acrescenta.
E termina com a sinistra observação de que o cenário desenhado "não é uma ameaça, são planos".
Bravata? Talvez, mas são demonstrados cotidianamente o medo invadindo o dia a dia de um lado e o desespero marcando a fogo o outro lado. Como podem conviver?


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Palestinos ateiam fogo a templo judaico na Cisjordânia

Palestinos ateiam fogo a templo judaico na Cisjordânia

Região enfrenta distúrbios há duas semanas, que não dão sinais de diminuir
Dezenas de palestinos atearam fogo a um templo judaico na cidade de Nablus, na Cisjordânia ocupada pelos israelenses, nesta sexta-feira. A região enfrenta distúrbios há duas semanas, que não dão sinais de diminuir. 

Manifestantes usaram bombas caseiras no local, reverenciado por alguns judeus como o túmulo do patriarca bíblico José. As forças de segurança palestinas dispersaram a multidão e extinguiram o fogo. A extensão dos estragos no templo, porém, não era ainda conhecida.

Um porta-voz militar de Israel, coronel Peter Lerner, acusou os agressores palestinos de desrespeitar um local sagrado, em uma "flagrante violação e contradição do valor básico da liberdade de crença". Segundo ele, os militares israelenses iriam restaurar o local e garantir a liberdade de crença. Os visitantes judaicos do local são escoltados por militares israelenses, em coordenação com as forças de segurança palestinas. Os judeus israelenses normalmente não têm permissão para entrar em cidades palestinas sem o aval militar.

O governador de Nablus, Akram Rajoub, não quis comentar a situação de segurança no local do ataque, mas garantiu que a Autoridade Nacional Palestina impediria novos incidentes similares. Rajoub disse que as tensões na região do Monte do Templo, em Jerusalém, onde fica a Mesquita Al Aqsa, o terceiro local mais sagrado no Islã, foram a causa do ataque do início desta sexta-feira. "Esses jovens homens que atacaram o túmulo estão furiosos e pressionados pelo que veem acontecer na Mesquita Al Aqsa", comentou.

Também nesta sexta-feira, um palestino com um colete amarelo com a palavra "imprensa" escrita atacou com uma faca um soldado israelense. O Exército disse que o agressor foi morto a tiros por outros soldados. O ataque ocorreu a poucos metros de um protesto palestino, após as preces muçulmanas do meio-dia na cidade de Hebron, na Cisjordânia. O soldado foi hospitalizado.

Ao longo do último mês, oito israelenses foram mortos em ataques palestinos, a maioria deles com facas. Nesse período, 31 palestinos morreram em ações israelenses, incluindo 14 qualificados por Israel como agressores e os demais em confrontos com tropas israelenses.

Reprodução do Correio do Povo

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O ódio dos filhos do fracasso

Os jovens palestinos que estão atacando judeus em diversas partes de Israel, como voltou a acontecer nesta quarta-feira (14), são os "filhos de Oslo".
Foram assim definidos pela excelente jornalista que é Amira Hass, correspondente do jornal israelense "Haaretz" nos territórios palestinos ocupados por Israel. Trata-se de referência aos acordos de Oslo, firmados em 1993 e que trouxeram a mais promissora expectativa de paz entre judeus e palestinos.
Seria mais justo dizer que esses jovens são filhos do fracasso de Oslo, que, como lembra Amira, "não lhes deu o Estado que lhes fora prometido" e, como se fosse pouco, ainda enfrentam um desemprego juvenil que beira os 40% no conjunto da Palestina.
Não parece ser um acaso, portanto, que os atacantes palestinos sejam, todos, mais ou menos da idade de Oslo, em torno dos 20 anos.
São parte de uma geração que "amadureceu sem esperanças de um futuro melhor", como escreveu Elhanan Miller, repórter para assuntos árabes do valioso sítio "The Times of Israel".
No lugar da esperança, brotou o ódio, assim descrito por David Horovitz, o fundador do "The Times of Israel": "Depois de décadas de satanizar e deslegitimar incansavelmente o renascido Estado judeu, a liderança palestina produziu uma geração da qual muitos estão tão cheios de ódio e tão convencidos do imperativo de matar que nenhuma outra consideração –incluindo a probabilidade de que morrerão no ato– impede que procurem matar judeus".
Do lado palestino, tem-se a visão do jornalista Daoud Kuttab: "A cada palestino morto ou ferido, a continuidade dos protestos está assegurada. Outra fonte de continuidade dos protestos é a ausência de esperança. Sem um processo de paz crível, é impossível pacificar palestinos jovens, desiludidos e impressionáveis, que são a maioria da população".
Mesmo que a sequência de atentados seja eventualmente interrompida pelas autoridades israelenses, por meio, por exemplo, do bloqueio aos bairros árabes de Jerusalém, o ódio continuará lá. E não há bloqueio que possa impedir a disseminação dele pelas redes sociais –o grande quartel-general virtual em que se encontram os atacantes.
Relata, por exemplo, Ahmad Buderi, um veterano jornalista palestino, para outro sítio precioso, o "Al-Monitor": "Enquanto a maioria das pessoas no mundo usa as redes sociais para compartilhar fotos e vídeos da família, na Palestina, especialmente durante tempos de tensão, as redes sociais se transformam em plataforma política, atingindo frequentemente o status de mobilização política".
O ódio não é unilateral: faz parte do aparato mental dos judeus em relação aos palestinos, o que acentua a discriminação que sofrem em Israel.
E, no entanto, estão condenados a conviver em um território pequeno, seja em dois Estados vizinhos ou em um só, dependendo do arranjo institucional a ser eventualmente feito.
Afinal, como diz Horovitz, "são dois povos com reivindicações sobre esta terra ensanguentada. Nenhum se irá dela".
Mais sangue parece inevitável, pois.


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Temor de acirramento cresce entre palestinos

Temor de acirramento cresce entre palestinos

Grupos em Gaza e Cisjordânia convocam 'dia de fúria' nesta terça
Jovens palestinos esfaqueiam israelense de 13 anos, e um deles é morto; 30 pessoas já morreram neste mês
DIOGO BERCITOEM PARIS

Entre opiniões divergentes sobre a onda de violência em Israel, Cisjordânia e Gaza, o que parece comum a ambos, israelenses e palestinos, é a sensação de insegurança.
Identificada com uma minoria que tem atacado israelenses a facadas, o restante da população palestina –incluindo quem tem cidadania israelense– vê a piora de suas já difíceis relações com as autoridades de Israel.
Aumentaram, por exemplo, os controles militares que interrompem a rotina de quem precisa se deslocar na região, além da repressão a protestos na Cisjordânia.
"A situação é muito perigosa e volátil", afirmou à Folha Husam Zomlot, consultor internacional da facção palestina Fatah, que hoje controla parte da Cisjordânia.
"As pessoas estão com medo de andar na cidade velha de Jerusalém. Há uma histeria. Uma sensação de que você pode ser alvejado sem razão nenhuma", diz.
Quatro israelenses e 26 palestinos morreram desde o início deste mês em embates. Nesta segunda-feira (12), dois palestinos de 13 e 15 anos esfaquearam um israelense de 13 em sua bicicleta, no norte de Jerusalém, disse a polícia. O de 15 anos foi morto a tiros.
Em outros ataques, que não foram gravados em vídeos, algumas testemunhas questionaram se todos os palestinos mortos realmente estavam armados, pois não teriam visto armas com eles.

PASSAGEM

Segundo Xavier Abu Eid, consultor de comunicação da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), existe um "toque de recolher informal" em áreas palestinas, onde moradores evitam sair às ruas à noite com receio de serem alvos de ataques retaliatórios de colonos ou de soldados israelenses.
"Se você é um extremista israelense e quiser matar um palestino, a única coisa que precisa fazer é atirar e afirmar que ele tinha uma faca."
Abu Eid diz, ainda, que as tensões recentes levaram a abertura de uma quantidade maior de postos de controle (os "checkpoints") do Exército israelense na Cisjordânia.
"Há um claro aumento no número de controles militares temporários, impostos unilateralmente entre cidades palestinas, somando-se às centenas de restrições ao movimento que dificultam nossa vida", afirma Abu Eid.
Diante do cenário atual, grupos palestinos convocaram um "dia de fúria" na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental para esta terça-feira (13). Houve chamados por uma greve comercial entre árabes-israelenses.
Judeus israelenses foram também às ruas para protestar contra o governo do premiê Binyamin Netanyahu, pedindo mais ações para garantir a segurança local, segundo agências de notícias.

BLOQUEIO

Há confrontos também em Gaza, com manifestações nas fronteiras e ataques israelenses a esse território –que já enfrenta sanções econômicas e bloqueios por Israel.
Ali, ao contrário da Cisjordânia, a designação "terceira intifada" tem sido utilizada por líderes políticos.
A faixa de Gaza é atualmente controlada pelo movimento radical Hamas, rival do Fatah e não reconhecido por Israel como interlocutor.
"Vínhamos alertando a respeito dessa crise", afirma Raji Sourani, premiado advogado pelos direitos humanos na faixa de Gaza.
"As pessoas perdem a esperança. Elas se revoltam, e agora pedem delas que sejam 'boas vítimas'."


Reprodução da Folha de São Paulo

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Milhares acompanham enterro de mulher vítima de radicais judeus

CISJORDÂNIA

Milhares acompanham enterro de mulher vítima de radicais judeus

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS - Milhares de palestinos acompanharam nesta segunda-feira (7) o enterro de Riham Dawabcheh, que morreu cinco semanas depois que sua casa no vilarejo de Duma, na Cisjordânia, foi incendiada por extremistas judeus.
Ela não resistiu às queimaduras de terceiro grau em 80% de seu corpo e morreu na madrugada desta segunda em um hospital de Tel Aviv.
Os presentes exibiam bandeiras palestinas e gritavam "Israel, Estado terrorista". As autoridades palestinas decretaram três dias de luto.
Além dela, seu marido Saad e seu filho Ali, de 18 meses, morreram. Da família, apenas Ahmed, 4, ainda resiste, hospitalizado com queimaduras graves. Os autores do ataque ainda não foram presos.


Reprodução da Folha de São Paulo

domingo, 2 de agosto de 2015

Bebê palestino morre queimado em ataque de colonos israelenses

Bebê palestino morre queimado em ataque de colonos israelenses

Incêndio foi provocado por dois homens mascarados que lançaram coquetéis molotov contra duas casas

Um bebê palestino morreu queimado e seus pais ficaram feridos em estado grave em um ataque cometido nesta sexta-feira por colonos israelenses que atearam fogo a sua casa na Cisjordânia ocupada, um ato classificado de terrorista por Israel. Esta classificação bastante incomum nestes casos e as condenações unânimes dos líderes israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não convenceram os palestinos. Estes últimos consideram o governo totalmente responsável pela morte do bebê, por ser a "consequência direta de décadas de impunidade, ante o terrorismo dos colonos".

As autoridades preveem manifestações depois da oração desta sexta-feira nos territórios ocupados e o movimento islamita Hamas, no poder na Faixa de Gaza, fez nesta sexta-feira uma convocação a um "dia da ira" contra as agressões israelenses.

Há anos, ativistas de extrema-direita israelenses ou colonos cometem agressões ou atos de vandalismo em Israel e nos territórios palestinos em nome do preço a pagar. Seus alvos são os palestinos, os árabes israelenses, os locais de culto muçulmanos e cristãos, e inclusive os soldados israelenses. A maioria de suas atrocidades ficaram impunes.

Segundo responsáveis de segurança palestinos, na madrugada desta sexta-feira quatro colonos israelenses atearam fogo em duas casas situadas na entrada do povoado palestino de Duma, perto de Nablus, no norte da Cisjordânia, e picharam slogans em um muro, antes de escapar a uma colônia próxima, Maale Efraim. Um dos slogans proclamava "Viva o messias".

O bebê Ali Dawabcheh, de um ano e meio, morreu queimado. Sua mãe Eham, de 26 anos, seu pai Saad e seu irmão Ahmed, de quatro anos, ficaram feridos e foram transportados a um hospital israelense, segundo fontes médicas israelenses. A mãe se encontra em estado muito grave com queimaduras de terceiro grau em 90% de seu corpo, declarou um médico israelense à rádio pública, acrescentando que "sua vida corre risco". O pai também teve 80% do corpo queimado.

Segundo a rádio militar, o incêndio foi provocado por dois homens mascarados que lançaram coquetéis molotov contra duas casas. Em uma delas vivia a família Dawabcheh. Nos muros picharam "o preço a pagar", "vingança" e desenharam uma estrela de David. Um porta-voz militar israelense disse que havia pichações em hebraico nos muros da casa e que o exército se esforça para "localizar os autores do ataque".

Netanyahu e o exército denunciaram rapidamente um ato "terrorista". Mas Saeb Erakat, número dois da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), estimou que "não é possível dissociar este ataque bárbaro" de um "governo que representa uma coalizão para a colonização e o apartheid".

Julgar os assassinos

Yaariv Oppenheimer, dirigente da Paz Agora, uma ONG israelense contrária à colonização dos territórios palestinos, diz que este tipo de "agressões por parte dos colonos se converteram em uma verdadeira epidemia". Na rádio israelense, denunciou "a indulgência do governo com a violência antipalestina e os discursos de ódio".

As ONGs de defesa dos direitos humanos corroboram estes dados. Em maio, a organização israelense Yesh Din estimou que 85,3% das denúncias dos palestinos por ataques de colonos estavam arquivadas. Desta vez Netanyahu disse ter ordenado "às forças de segurança o uso de todos os meios a sua disposição para deter os assassinos e levá-los à justiça". Seu ministro da Defesa, Moshé Yaalon, os chamou de "terroristas judeus".

A polícia israelense se mobilizou em massa na cidade antiga de Jerusalém, sobretudo nos arredores da Esplanada das Mesquitas, prevendo manifestações. Os homens com menos de 50 anos não podem entrar nela.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Postura linha-dura de Netanyahu abre as portas para uma nova Intifada

A capacidade de resiliência política de Binyamin Netanyahu, premiê israelense, está mais uma vez sendo testada. O primeiro-ministro se encontra cercado por incêndios, de naturezas diversas, e todos têm por origem a linha repressiva adotada pelo governo e as crescentes garantias concedidas à direita ultranacionalista e religiosa.
Um erro policial cometido contra um árabe israelense, morto no sábado (8), estendeu o atual ciclo de violência para além de Jerusalém, na direção do norte do país. A Jordânia, parceira regional, chamou de volta seu embaixador em Tel Aviv e manifestou uma ira sem precedentes em razão das ameaças que estariam sendo feitas contra a mesquita Al-Aqsa, terceiro lugar mais sagrado do islamismo. Por fim, a coalizão governamental tem sofrido sérios abalos, dividida entre os centristas e a direita dura.
Na cidade árabe de Kafr Cana, perto de Haifa (norte), um jovem de 22 anos, Kheir Hamdan, foi morto na noite de sexta-feira por um policial. Um "assassinato a sangue frio", segundo o prefeito, que provocou a fúria dos árabes israelenses. Estes representam 20% da população do país, mas se consideram tratados como cidadãos de segunda classe. Um vídeo da tragédia derrubou a versão inicial dos policiais de Nazaré, que alegaram estar em risco de morte. Só que o vídeo mostra Kheir Hamdan batendo nos vidros do carro deles, com um objeto que poderia ser uma faca, e depois recuando. Um policial sai então do veículo e atira contra ele a uma distância de dois metros, sem aviso.

"Fator de instabilidade"

Entrevistado pelo jornal "Ma'ariv", o pai de Kheir Hamdan afirmou acreditar que os policiais "o mataram a sangue frio porque ele era árabe". Essa convicção também se manifestou em representantes locais e deputados árabes, sendo que alguns destes ameaçaram nas últimas semanas boicotar a Knesset. Houve confrontos com a polícia na entrada de Kafr Cana, no domingo, e em outras cidades povoadas em sua maioria por árabes israelenses. Foi feito um chamado para uma greve geral, e dezenas de estudantes protestaram em frente às universidades de Tel Aviv e Haifa. Durante esse tempo, os tumultos continuavam nos bairros árabes de Jerusalém Oriental, como Shuafat, Sur Baher e Wadi Joz, enquanto a polícia temia novas investidas com carros por parte de palestinos.
Nesse clima de alta tensão, e apesar da evidência do erro policial, nem a cúpula da polícia, nem o governo emitiram qualquer crítica contra os oficiais envolvidos. O diretor da polícia, Yohanan Danino, deu total apoio a eles. No dia 5 de novembro, o ministro da Segurança Pública, Yitzhak Aharanovitch, pareceu dar carta branca aos policiais ao declarar: "Um terrorista que ataca civis merece ser morto."
Já o primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, publicou no sábado um comunicado ameaçando privar de sua nacionalidade os árabes israelenses que agissem contra o Estado, aparentemente em reação a palavras de ordem ditas pelos manifestantes em Kafr Cana. "Agiremos contra os atiradores de pedras, contra aqueles que bloqueiam as estradas e aqueles que clamam pela criação de um Estado palestino no lugar do Estado de Israel", ele declarou. "Vou pedir ao ministro do Interior que considere a destituição da nacionalidade para aqueles que pedem pela destruição do Estado de Israel."
Para o deputado Ahmed Tibi, uma das vozes mais influentes da comunidade árabe israelense, "Netanyahu é um fator de instabilidade. Sua declaração corresponde totalmente à de Ehud Barak, seu antecessor, no momento da Intifada de 2000: uma ausência total de empatia pelos cidadãos árabes, arrogância e leviandade". Em outubro de 2000, treze árabes israelenses foram mortos durante confrontos com a polícia. Nenhum oficial foi condenado por uso de balas de verdade, lembrou recentemente o jornal de esquerda "Haaretz".
Binyamin Netanyahu aposta na mobilização repressiva permanente contra o Hezbollah no norte, o Hamas no sul e os islamitas infiltrados no país. Ele praticamente não dá atenção aos pedidos de transparência sobre a ação da polícia. Em compensação, a ira da Jordânia é um problema para ele.

Linha vermelha

No domingo, o primeiro-ministro jordaniano, Abdullah Ensour, condenou "nos termos mais firmes os acontecimentos das últimas semanas em Jerusalém" que correspondem "a um plano governamental intencional e claro para mudar a configuração" na Esplanada das Mesquitas. A excelente colaboração no combate aos jihadistas é uma coisa, mas a mesquita Al-Aqsa representa uma linha vermelha para o reino hachemita, que no entanto não pretende questionar o tratado de paz assinado em 1994.
Netanyahu reafirmou seu comprometimento com o status quo sobre a esplanada, segundo o qual os judeus podem ir ao Monte do Templo como turistas, mas sem rezar. Mas o primeiro-ministro jamais condenou claramente as visitas ao local de certos deputados de direita, inclusive do Likud, que são vistas como provocações pelos palestinos.
"É um governo de guerra e de violência, que não conhece a linguagem da diplomacia, do direito internacional e da legitimidade", afirma Hussam Zumlot, conselheiro de política externa do Fatah, partido do presidente palestino Mahmoud Abbas. "É um bando de ideólogos que transforma um conflito nacional em conflito religioso. Eles seguem um grande plano: o uso desproporcional da violência para provocar os palestinos."
Falta de diálogo com os palestinos, aumento da violência, prosseguimento da colonização na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental: não é à toa que vem vacilando a heteróclita coalizão constituída por Netanyahu. No sábado, o ministro do Meio Ambiente, Amir Peretz, anunciou sua intenção de deixar o governo. "A deterioração aparece em cada domínio, diplomático, social e econômico", ele declarou, opinando que Netanyahu se tornou "refém de sua direita."
Esse membro do partido centrista Hatnua tem pouco peso político. A líder de seu partido, Tzipi Livni, que é ministra da Justiça, não tem a intenção de seguir seu exemplo de imediato. Eleições antecipadas não fortaleceriam o Hatnua. "A última coisa de que precisamos agora são eleições", disse Netanyahu no dia 22 de outubro. No dia 6 de janeiro haverá prévias dentro de seu partido, o Likud, e apesar de tudo ele será o grande favorito.

Texto de Piotr Smolar, para o Le Monde, reproduzido no UOL.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Bem antes de Gaza-2014

A guerra é tanto a expressão comum de emoções humanas como parte constitutiva do modo em que um grupo constrói sua coesão. A noção de uma sociedade harmoniosa, com seus membros reagindo às mesmas ameaças e planejando um futuro comum, floresceu com mais intensidade no lado judaico que no palestino. Isso não é bom para o equilíbrio político da região.
Os líderes palestinos vêm fazendo mais escolhas estratégicas equivocadas do que os israelenses. Em vez de reconhecerem que Israel é produto de um legítimo processo histórico endógeno de aspiração nacional, insistem em vê-lo como fruto de ação exógena ocidental devido a um complexo de culpa pelo Holocausto.
A história mostra uma cadeia de acontecimentos desde a Declaração Balfour (1917), à Declaração de San Remo (1920) e à Liga das Nações (1922), confirmando o apoio à criação de um Estado judeu na região, decisões ignoradas pelos árabes.
Em 1937, o lorde William Peel, em nome do Reino Unido, sugeriu a partição da Palestina em dois Estados. Um árabe, que se juntaria à Transjordânia, representando cerca de 80% do mandato original da Palestina, e os 20% restantes para os judeus. A liderança sionista pragmaticamente aceitou a proposta.
Todavia, a reação do líder palestino --mufti Hajj Amin al-Husseini, dito mufti de Jerusalém, que se aliou posteriormente a Hitler-- foi de rejeição à partilha, assim como a de outros líderes árabes, com exceção do rei Abdullah, da Transjordânia.
Ele viu na partilha um trampolim para ampliar o vasto império que almejava criar. O mufti evocou argumentos religiosos, posteriormente usados pelo Hamas. A Palestina era uma terra proibida de ser dividida, mesmo que minoritariamente, com os judeus. Para ele, o judaísmo é uma religião e, destarte, os judeus não precisam de um território. Daí, Israel ser chamado de entidade sionista pela maioria dos palestinos. Esse é o fulcro do problema que persiste até hoje.
Em 1939, os palestinos perderam uma inigualável oportunidade de evitar a criação do Estado de Israel. O então novo secretário britânico para as colônias, Malcolm MacDonald, lançou uma política contrária à proposta de James Balfour e Peel. Por ela, após dez anos de transição, em 1949, seria criado um Estado único para árabes e judeus, com maioria demográfica dos primeiros.
Era um plano bem mais favorável aos árabes palestinos do que aos judeus palestinos. Foi estabelecida uma cota de 15 mil judeus imigrantes por ano para o período entre 1940 e 1944 e uma cota suplementar de 25 mil para cobrir possíveis casos de refugiados de emergência. A Palestina tornar-se-ia um Estado independente, e os judeus seriam, no máximo, um terço da população.
Uma nova imigração judaica dependeria da permissão da maioria árabe, e seriam estabelecidas severas restrições à compra de terras pelos judeus. Os árabes, mais uma vez, não acataram essa proposta. Acreditaram que com a vitória do Eixo na Segunda Guerra Mundial, acoplada a um suposto levante árabe na Palestina, provocaria a rápida expulsão dos judeus. Fatídico erro de cálculo. A Alemanha foi derrotada e aumentou o número de judeus naquela região.
Em 1947, houve a partilha da Palestina. Mais uma vez, os árabes não concordaram com ela. Irrompeu a guerra e o novo Estado árabe não nasceu, pois foi abocanhado por Egito, Israel e Jordânia. Depois houve a Guerra de Suez (1956), a dos Seis Dias (1967) e a do Yom Kippur (1973), afora os conflitos com árabes islâmicos no Líbano e em Gaza.
O Hamas engana seu próprio povo ao insistir que pode exterminar Israel. Está na hora de os palestinos aprenderem com seus sucessivos erros estratégicos e trabalharem para a criação de dois Estados antes que seja tarde.


Texto de Jorge Zaverucha, publicado na Folha de São Paulo

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Conflito em Gaza era desnecessário e reabilitou um Hamas sitiado

Outra rodada de violência terminou na Terra Santa. Mais de 2.100 palestinos, a maioria deles civis e muitos deles crianças, foram mortos. Mais de 70 israelenses estão mortos. A grama, na pavorosa metáfora israelense, foi cortada (e não começará a crescer novamente). O Hamas, através de sua resistência, melhorou sua reputação entre os palestinos. Israel está mais irritado. Ninguém ficou melhor.
Erupções periódicas são intrínsecas à estratégia do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de manter o status quo de domínio sobre milhões de palestinos, a expansão dos assentamentos na Cisjordânia e manobrar para desviar da mediação norte-americana. O povo oprimido vai se levantar. O anêmico compromisso de Israel com a solução de dois estados é a melhor forma de encobrir a evisceração desse objetivo. Ainda assim, surge uma questão: esta miniguerra era necessária?

Acho que não. Certamente não era do interesse estratégico de Israel. Muito mistério continua cercando sua gênese, o sequestro, em 12 de junho, de três jovens israelenses perto de Hebron e seu assassinato, agora atribuído a um clã palestino local que inclui integrantes do Hamas que agiram sem conhecimento ou ordem da liderança do grupo. (Não houve nenhuma grande matéria investigativa na imprensa norte-americana sobre o incidente, uma omissão preocupante.)
Mas emergiram detalhes suficientes para deixar claro que Netanyahu agiu impetuosamente sobre "provas inequívocas" da responsabilidade do Hamas (que ainda não foram oferecidas) com fins políticos. O objetivo do primeiro-ministro era gerar descrédito em relação a Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, por se reconciliar com o Hamas; vingar o colapso das negociações de paz promovidas pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry; inflamar a ira israelense com o destino dos adolescentes; varrer a Cisjordânia, prendendo centenas de suspeitos integrantes do Hamas, incluindo 58 que foram soltos sob os termos de um acordo anterior com o Hamas; e consolidar uma política de dividir para conquistar.

Assaf Sharon da Universidade de Tel Aviv, diretor-acadêmico de uma nova instituição de pesquisa liberal em Jerusalém, escreveu um texto contundente no The New York Review of Books. Ele levanta o ponto importante de que o Hamas estava sitiado antes da violência, isolado pela queda da Irmandade Muçulmana no Egito e pela ascensão do presidente Abdel Fattah el-Sisi. Este enfraquecimento está por trás da reconciliação com Abbas. Netanyahu pode ter usado este acontecimento para estender a autoridade de Abbas numa Gaza mais aberta, em detrimento do Hamas, o objetivo que agora parece se buscar depois da perda desnecessária de tantas vidas.
Por mais de duas semanas depois dos sequestros, provas persuasivas de que os adolescentes estavam mortos foram escondidas do público israelense. Uma imensa campanha emocional de "devolvam nossos rapazes" foi empreendida, enquanto a gravação de uma ligação telefônica de um dos jovens para a polícia logo após o sequestro não foi divulgada. Nela, tiros e gritos de dor podem ser ouvidos. Como escreveu Shlomi Eldar: "foi um assassinato em tempo real, horripilante e monstruoso". Depois disso, "aqueles que ouviram a gravação do telefonema de emergência sabiam que o melhor que se podia esperar era levar os jovens para seu lugar de descanso final."

O efeito deste segredo, qualquer que seja sua justificativa, foi instigar a fúria israelense. Este era o contexto no qual um adolescente palestino foi assassinado por extremistas israelenses. Também foi o contexto da deriva para a guerra: campanha aérea, foguetes do Hamas e operações em túneis, invasão terrestre israelense. Deriva é a palavra em vigor. O propósito de Israel estava mudando. Em diferentes momentos ele incluiu "zero foguetes", desmilitarizar Gaza e destruir os túneis. "Sem objetivos claros, Israel foi arrastado, por suas próprias ações, em um confronto que não buscou e não conseguiu controlar", escreveu Sharon.

A única certeza agora é que acontecerá novamente a menos que a situação em Gaza mude. Isso, por sua vez, precisa da unidade palestina e da renúncia à violência. Também depende de uma mudança no cálculo israelense de que a extensão dos assentamentos, a divisão do movimento palestino, e um blá-blá-blá vazio sobre a paz de dois estados são de seu interesse, qualquer que seja o custo intermitente em sangue.

Dois outros textos recentes são leitura essencial no pós-confronto. O primeiro é "Amigos de Israel", de Connie Bruck, na The New Yorker, um exame da oscilação política do Comitê de Norte-Americano de Questões Públicas de Israel (Aipac, na sigla em inglês), o grupo do lobby pró-israelense. No texto, ela cita Brian Baird, ex-congressista democrata, indo direito ao ponto: "a difícil realidade é esta: para conseguir se eleger para o Congresso, se você não for independente de uma forma saudável, você precisa levantar muito dinheiro. E logo você aprende que, se o Aipac estiver do seu lado, você pode conseguir isso." Ela também cita John Yarmuth, um congressista do Kentucky, sobre defender os interesses dos Estados Unidos: "nós todos fizemos um juramento ao assumir o cargo. E o Aipac, em muitas instâncias, está pedindo para ignorar isto."

Por fim, leia Yehuda Shaul no The New Statesman sobre o efeito corrosivo da ocupação e sua experiência no serviço militar na Cisjordânia: "precisávamos apagar a humanidade dos palestinos junto com nossa própria humanidade."
 

Texto de Roger Cohen, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Eloise De Vylder

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Gaza envenena Israel


É razoável supor que a quase totalidade dos judeus de Israel ficou furiosa com a posição do governo brasileiro de condenar a reação "desproporcional" de Israel aos ataques do Hamas.
É a conclusão inescapável de três pesquisas sucessivas do Instituto Democracia de Israel, feitas nos dias 14, 16/17 e 23. Mostram apoio à operação em Gaza de, respectivamente, 96%, 92% e 97% dos pesquisados (não foram ouvidos os israelenses árabes).
Pior: na média das três pesquisas, 45% acham que não foi usado suficiente poder de fogo, exatamente o contrário do que pensa o governo brasileiro. Com este concordam apenas pouco mais de 3% dos pesquisados.
Fica evidente que é incorreto supor que a ação de Israel se deve ao predomínio da direita e da extrema direita no governo que conduz a guerra. Binyamin Netanyahu é, indiscutivelmente, de direita, mas está agindo de acordo com o que pensa a esmagadora maioria do eleitorado --o seu eleitorado e o de todos os demais partidos, de direita, de centro ou de esquerda.
Pesquisa mais recente, divulgada domingo (27) pelo Canal 10, mostra impressionantes 89% dos consultados favoráveis a que a operação em curso resulte na derrubada do governo do Hamas em Gaza.
Se só na terça morreram cem palestinos, e ao menos 15 na quarta em apenas outra escola de Gaza, não é preciso muita ciência para deduzir o banho de sangue que custaria aprofundar a operação "Margem Protetora" até acabar com o Hamas.
Há, em Israel, quem diga que não adiantaria. O escritor israelense Etgar Keret, por exemplo, em artigo para "El País", diz que "ainda que eliminem a todos e a cada um dos combatentes do Hamas, alguém crê sinceramente que a aspiração dos palestinos à independência nacional vai desaparecer com eles?".
Reforça um ex-chanceler israelense, Shlomo Ben-Ami: "Nenhuma es­tra­tégia na­cio­nal se­rá crível enquanto não se reconhecer que a continuidade do conflito de­bi­li­ta pe­ri­go­sa­men­te as ba­ses mo­ra­is de Is­rael e sua po­si­ção in­ter­na­cio­nal".
De fato, a radicalização da opinião pública está levando a um grau de intolerância em que "qualquer opinião --em especial qualquer opinião que não fomente o uso da força e a perda de vidas de soldados-- é nada menos que um intento de destruir Israel", escreve Keret.
O escritor está assustado com a repressão, inclusive com ameaças de morte, a quem discorde da posição majoritária --o que é claramente antidemocrático e, por extensão, cai na frase de Ben-Ami, sobre o debilitamento das bases morais de Israel.
A propósito: o "Times of Israel" divulgou vídeo em que manifestantes de extrema-direita festejam, inacreditavelmente, a morte de crianças em Gaza, aos gritos de "não haverá aula amanhã, [porque] já não há crianças em Gaza". Dá náuseas.
Pode-se sempre alegar que a extrema-direita é assim mesmo. O problema, para qualquer futuro processo de paz, se e quando for retomado, é que a extrema-direita em Israel só faz crescer e crescer o que aumenta o volume do grito "morte aos árabes".


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo