quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O espião às claras

Mesmo para um chefe de Estado --condição em que a espécie humana tem exibido alguns de seus piores espécimes-- é de um despudor assombroso a explicação de Barack Obama para a violação americana da soberania alheia, como na espionagem aos e-mails da presidente Dilma Rousseff: é "para entender melhor o mundo".
A referência, mais adiante, a "algumas áreas de preocupação", que seriam o terreno de tais ações americanas, insinuou o terrorismo como justificativa, mas foi apenas a permanência no despudor.
Nem com a tresloucada hipótese de estarem a presidente brasileira e o presidente do México, Peña Nieto, a tratar de terrorismo com seus ministros e assessores em geral, a indução de Obama seria prestável. As primeiras denúncias de Edward Snowden documentaram a espionagem do governo americano na França e na Alemanha, captando comunicações eletrônicas entre instituições, entre empresas e em delegações de reuniões internacionais. Nada a ver com áreas potencialmente preocupantes.
Não foi à toa que a Alemanha tratou de criar plataforma própria para a comunicação informática, fugindo ao uso das americanas que, além de expostas à interceptação das agências de espionagem dos EUA, provou-se estarem sujeitas a ordens do seu governo para lhe entregarem informações sobre seus clientes. A solução técnica da Alemanha está em estudo no Brasil como uma das possíveis a serem adotadas para proteger-se da espionagem americana.
Está dado como atenuador da preocupação brasileira, decorrente da violação das comunicações de Dilma Rousseff, o uso de numerosas siglas de e-mails para o seu trabalho governamental. Mas daí não decorre melhora alguma de inviolabilidade. Os agentes americanos que fizeram a primeira interceptação estavam aptos, desde então, a repeti-la em todas as outras linhas da mesma usuária.
O Senado já tomou suas providências, porém. Está instalada a CPI da Espionagem. O que aconteceu em sessão bastante sugestiva: com um só senador presente diante da mesa dirigente dos trabalhos.


Parte da coluna de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Monitoramos os outros países "para entender melhor o mundo", diz Obama

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta quarta-feira (4) que o governo americano obteve "informações de inteligência" sobre outros países para "tentar entender melhor o mundo", e justificou a ação "porque nossos meios são significativamente maiores".
"Nossas capacidades militares são mais significativas que as de outros países. Podemos ter os mesmos objetivos, mas nossos meios são significativamente maiores", afirmou Obama em Estocolmo, durante uma coletiva de imprensa conjunta com o premiê da Suécia, Fredirik Reinfeldt.
Sem citar as revelações feitas pelo jornalista Glenn Greenwald, de que os EUA espionaram a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, Obama afirmou que a ação dos EUA visa "algumas áreas de preocupação".
As áreas, segundo ele, incluem contraterrorismo, armas de destruição em massa, cibersegurança e interesses de segurança nacional dos EUA.
Obama disse que, após os atentados de 11 de setembro de 2001, muito da inteligência americana foi ampliado para combater o terrorismo.
"Houve tempos em que os procedimentos não funcionaram como deveriam, o que levanta questões sobre se não estamos sendo invasivos demais. O risco de abusos hoje é maior."
Obama diz que, por essa razão, instruiu seu time a "revisar tudo que estamos fazendo, e equilibrar os meios com os fins". 
"Não é porque podemos fazer algo que vamos fazer." Obama afirmou ainda que seu governo consulta a União Europeia para chegar a um consenso para "alinhar os interesses específicos da UE com nossa política" e "aliviar algumas preocupações".

Fonte: UOL Notícias.

Dilma e Obama by Jean Galvão




Reprodução da charge da Folha de São Paulo.

Bem-vindo à xenofobia

O sumiço de livros vai acontecendo cada vez mais aqui em casa. Dei pela falta, outro dia, de um guiazinho de viagens muito bonito, com a capa de pano azul-clara, cheio de ilustrações coloridas, quase aquarelas, no estilo da década de 1950.
Era uma espécie de guia de boas maneiras, a ser usado por turistas em todas as partes do mundo. Chamava-se "Savoir Faire International" e tinha mais do que regras de boa educação.
Lembrava o viajante que sem aspirar o "h", por exemplo, sua comunicação nos países de língua inglesa piora bastante. E explicava (estamos em 1950) que não adianta reclamar dos lençóis nos hotéis da Alemanha.
Ainda em 1986, entendi do que se tratava. Os alemães tinham uma espécie de colcha, muito mole e recheada de paina, que não servia exatamente de edredom; havia uma espécie de fenda, pela qual o dorminhoco deveria inserir-se inteiramente.
"Resigne-se ao desconforto das camas alemãs", dizia o livrinho. Lembro-me de pouca coisa mais. Mas não esqueço que, folheando os capítulos, cada qual dedicado a um país, topei com frases simpáticas a respeito do Brasil.
"Não se preocupe demais em fazer as coisas certas", ensinava o guia. "A simples condição de estrangeiro o fará ser visto com bons olhos."
Nos outros Estados eu não tenho certeza absoluta, mas como paulistano sempre senti que podia assinar embaixo. Havia muito poucos turistas estrangeiros por aqui. Ainda hoje, se vejo algum, minha vontade é fazer festa. Quero ajudar, quero mostrar coisas, quero mostrar que sei a língua deles, quero me enturmar.
Acompanhei pouco a polêmica em torno da chegada dos médicos cubanos. Do ponto de vista cultural, "antropológico", social, o que quisermos, acho de todo modo que aconteceu um fato inédito na história do país --vai ver que só nos tempos coloniais ou de Dom João 6º produziu-se coisa parecida.
Cubanos desembarcam no aeroporto e são hostilizados por médicos brasileiros. Nunca, pelo que me lembro, eu tinha visto manifestações de xenofobia tão explícitas, tão grosseiras, em nosso território.
O mito do brasileiro acolhedor e festeiro --só um mito? Até jogadores de futebol argentinos foram recebidos com carinho pelas torcidas de times brasileiros. Tevez, o simpaticíssimo e modesto artilheiro do Corinthians, será que reclama de hostilidade?
Com toda a implicância que muitos brasileiros têm contra argentinos, não creio que estes sejam maltratados aqui. Certo, o turista não vem para tirar emprego de ninguém.
O racismo que se verifica em tantos países europeus tem razões mais antigas do que o desemprego. A direita explora, naturalmente, a ideia de que os imigrantes tiram postos de trabalho dos brancos.
Mas, se os brancos não querem aqueles postos de trabalho mais rudes e com salários baixos, não importa. O racista vê nisso mais um motivo para desprezar os africanos, os turcos, os brasileiros que os aceitam.
Mesmo que um ou outro médico brasileiro perca seu posto numa cidadezinha perdida no sertão, há, pelo que sei, falta de médicos, e não de empregos. Tanto que o médico da cidadezinha tem outros.
Além de médicos, o fato é que eles são negros. E além de negros são cubanos. Não fizeram o tal exame de revalidação do diploma que possuem? Mas estão abrindo clínica especializada em neurocirurgia ao lado do Sírio-Libanês? Vão concorrer com os especialistas em plástica facial?
A televisão mostrou a entrevista de um representante de não sei que entidade médica brasileira, afirmando que os tais cubanos mal saberiam realizar um exame de ecocardiograma.
O caso é sério. Imagine se eles danificam, sem querer, todos os aparelhos de ressonância magnética de Primeiro Mundo que os esperam no sertão piauiense...
Que emprego, então, está em jogo? Ou o temor é de que sejam militantes socialistas a mando de Castro? Se forem, quem sabe se convertem à liberdade brasileira...
Talvez nosso sistema de vida, nessas áreas miseráveis, não convença tanto assim. Estarão os cubanos pondo o dedo numa ferida --o da consciência da classe média alta brasileira?
Curiosamente, os que protestam contra os cubanos assumem uma retórica sindical: lutam pelos salários dos outros. É um piquete, então? Pode ser. Nessas vastidões sem médico nenhum, a greve nos serviços de saúde dura bem uns quatro séculos.
Sozinhos não resolvem? É preciso mais que alguns médicos? Sim. Espero que, de lá onde vão clinicar, façam um protesto melhor do que o que andamos vendo por aqui.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

Jovem ignora risco de espionagem, diz analista

O programa dos Estados Unidos que acessa dados de telefonia e de internet para espionar cidadãos é uma ameaça à democracia, diz a reitora da Escola de Governo Blavatnik, da Universidade de Oxford, Ngaire Woods.
"A democracia não se resume a escolher governantes pelo voto. Uma democracia só está completa quando há o predomínio do Estado de Direito, com mecanismos de controle de governos e respeito às minorias", diz.
"É por isso que, ao longo de centenas de anos, as democracias desenvolveram regras para limitar a quantidade de informação que pode ser coletada por governos."
Para a reitora, que esteve no Brasil para o lançamento do programa de bolsas da Fundação Lemann em sua escola, as revelações sobre os métodos da Agência de Segurança Nacional revelaram um desequilíbrio de forças entre governos e cidadãos.
"É preciso haver um debate público para restaurar esse equilíbrio. A nova geração não se dá conta do risco que é ter um governo que faz a ficha das pessoas. Não é preciso ir muito longe na história para saber por que é importante impor limites."
Para Woods, a revelação da relação de cooperação de empresas de tecnologia com o governo dos EUA é das mais sérias. Mas ela crê que a explicação esteja numa maior competição no setor privado.
"Certa vez, num debate em Oxford, antes dessas revelações, perguntei a Eric Schmidt [fundador do Google] por que eu deveria confiar na empresa dele. Ele respondeu que, se não tratasse bem seus usuários, eles poderiam mudar para outro serviço."
"Temos essa opção? Não creio. Mas, por outro lado, a Microsoft já foi um monopólio. Não tenho tanta certeza de que o Google vá cimentar uma posição de monopólio. Mas tenho toda a certeza de que precisamos discutir as condições em que devemos permitir aos governos espionar as pessoas."
Ela acrescenta que "a autorização judicial é uma forma, mas a conveniência dos espiões não."
Crítica da falta de capacidade de líderes em ampliar a regulação do mercado financeiro após a crise de 2008, Woods vê o mundo menos globalizado. "Havia uma grande promessa do G20 de reformar as instituições multilaterais, com maior participação de emergentes, mas isso não ocorreu. Ao contrário, o mundo passa por um processo de desglobalização."


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Orgulhosa, França tenta entender seu declínio

Toda a Europa está falando na "questão francesa": será que o governo socialista do presidente François Hollande conseguirá reverter o lento declínio da França e impedir que o país escorregue definitivamente para a segunda divisão europeia?
O que está em jogo é se um sistema social-democrata, que há décadas se orgulha de servir como modelo para a oferta de um padrão de vida estável e elevado para seus cidadãos, será capaz de sobreviver à combinação de globalização, envelhecimento populacional e agudos cortes fiscais.
Pessoas próximas a Hollande dizem que ele está ciente do que é preciso fazer para cortar gastos e reduzir regulamentações que oneram a economia. Amigos da França, em especial a Alemanha, temem que Hollande possa simplesmente carecer de coragem política para confrontar seus aliados e tomar as decisões necessárias.
Mudar qualquer país é difícil. Mas o desafio na França parece especialmente árduo, em parte porque a vida francesa ainda é muito confortável para muita gente e o dia do juízo parece distante, especialmente para os sindicatos nacionais, pequenos, mas poderosos.
Os franceses têm um justificável orgulho do seu modelo social. A saúde pública e as pensões são boas, muitos franceses se aposentam com 60 anos ou menos, férias de cinco ou seis semanas são a norma e os trabalhadores com empregos em tempo integral têm jornadas semanais de 35 horas e proteções contra demissões.
Mas, numa economia mundial mais competitiva, a questão não é se o modelo social francês é bom, mas se os franceses têm condições de continuar a bancá-lo. Com base nas atuais tendências, a resposta é claramente não ou, pelo menos, não sem mudanças estruturais significativas -em pensões, impostos, benefícios sociais, regras trabalhistas e expectativas.
Mas o Partido Socialista, de Hollande, e a esquerda francesa mais aguerrida não parecem captar a famosa sacada do sobrinho do príncipe em "O Gattopardo", famoso romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa sobre turbulências sociais, segundo quem "é preciso que tudo mude para que tudo continue igual".
Às vezes, conversando com políticos e trabalhadores franceses, há a sensação de que todos eles se consideram revolucionários e membros de comunas -mas, ao mesmo tempo, como a extrema direita, eles desejam fixar o conforto do conhecido.
Em maio de 1968, alunos da Universidade Paris-Nanterre começaram o que julgavam ser uma revolução. Estudantes franceses de gravata e meia soquete atiravam paralelepípedos na polícia e exigiam que o esclerosado sistema do pós-guerra fosse mudado.
Hoje, em Nanterre, alunos preocupados em conseguir empregos e não perder os benefícios estatais exigem que nada mude. Para Raphaël Glucksmann, que liderou uma greve quando estava no colégio, em 1995, os membros da sua geração se sentem nostálgicos em relação a seus pais rebeldes, mas não têm estômago para arrumar briga em tempos difíceis.
"Os jovens marcham para rejeitar todas as reformas", disse ele. "Não vemos alternativas. Somos uma geração sem atitude."
Os socialistas se tornaram um partido conservador, tentando desesperadamente preservar as vitórias do último século.
Mas os sinais de alerta estão por toda parte: o desemprego na França, especialmente entre jovens, está em nível recorde. O crescimento é lento em comparação ao da Alemanha, Reino Unido, EUA ou Ásia. Os gastos públicos representam quase 57% do PIB, maior índice entre os países industrializados. Os aumentos reais de salários superam o aumento da produtividade. A dívida nacional ultrapassa 90% do PIB.
Em Amiens, no norte da França, a Goodyear mantém duas fábricas de pneus. Os empregados de uma delas aceitaram relutantemente mudar as escalas de trabalho, preservando sua fábrica. Os operários da outra rejeitaram a opção, e a Goodyear está tentando fechar a unidade, deixando mais gente sem trabalho.
Há um amplo consenso de que só a esquerda poderá promover uma verdadeira renovação. Mas isso só poderá acontecer se Hollande, que tem maioria parlamentar, estiver disposto a confrontar seu próprio partido em nome do futuro.


Texto de Steven Erlanger, para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo. Grifos do blogueiro. 

Comentário rápido: não tenho certeza, mas parece que o redator no mínimo insinua que os tais benefícios, em destaque, devem ser cortados, e a vida dos trabalhadores precarizada. Obviamente para facilitar a vida do capital.  É aquela coisa, não é desejável que os indianos em geral venham a ter o nível de vida dos franceses, desejável é que os franceses voltem a ter o nível médio de vida dos indianos.



Mocinho ou vilão?

NUMA ensolarada manhã de agosto, 400 manifestantes derrubaram as cercas em torno de uma lavoura na região filipina de Bicol e, uma vez lá dentro, arrancaram do chão pés de arroz geneticamente modificados.
Se as plantas tivessem sobrevivido o suficiente para florescer, teriam revelado um tom distintamente amarelo na parte do grão que deveria ser branca. Isso porque o arroz possui um gene do milho e outro de uma bactéria, fazendo dessa a única variedade existente a produzir betacaroteno, fonte de vitamina A. Seus desenvolvedores o chamam de "arroz dourado".
As preocupações manifestadas pelos participantes no ato de 8 de agosto -que o arroz representa riscos imprevisíveis para a saúde humana e o ambiente e que ele afinal servirá para dar lucro a grandes companhias agroquímicas- são comuns quando se discute os méritos dos produtos agrícolas geneticamente modificados.
São essas preocupações que motivaram alguns americanos a reivindicar rótulos obrigatórios com a sigla "OGM" [organismo geneticamente modificado] para identificar alimentos que tenham ingredientes feitos a partir de produtos agrícolas cujos DNAs tenham sido alterados em laboratório.
São elas também que resultaram em protestos semelhantes a outros produtos transgênicos nos últimos anos: uvas concebidas para lutar contra um vírus letal, na França, trigo criado para ter um menor índice glicêmico, na Austrália, e beterrabas açucareiras preparadas para tolerar um herbicida, no Oregon, nos EUA.
"Não queremos que nossa gente, especialmente nossas crianças, seja usada nessas experiências", disse ao jornal filipino "Remate" um agricultor que esteve entre os líderes do protesto.
Mas os defensores do arroz dourado dizem que ele é diferente de quaisquer dos produtos agrícolas transgênicos amplamente usados hoje, que são feitos para resistir a herbicidas ou a ataques de insetos, com benefícios para os produtores rurais, mas não diretamente para os consumidores.
Uma iminente decisão do governo filipino sobre permitir ou não o cultivo do arroz dourado fora dos quatro campos de teste remanescentes confere uma nova dimensão ao debate sobre os méritos dessa tecnologia.
O arroz dourado não pertence a nenhuma companhia específica. Ele está sendo desenvolvido por uma organização sem fins lucrativos chamada Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, com o objetivo de oferecer uma nova fonte de vitamina A para pessoas nas Filipinas -onde a maioria das famílias tem no arroz sua principal fonte de calorias- e futuramente em muitos outros lugares de um mundo onde metade da população come arroz diariamente.
A falta da vitamina A, nutriente vital, causa cegueira em 250 mil a 500 mil crianças por ano. Ela afeta milhões de pessoas na Ásia e na África e enfraquece tanto o sistema imunológico que 2 milhões morrem por ano de doenças que, em outras circunstâncias, não seriam fatais.
A destruição de uma lavoura experimental e as razões apresentadas para isso incomodaram cientistas no mundo todo, motivando-os a reagir às alegações acerca dos riscos sanitários e ambientais dessa tecnologia.
Numa petição em prol do arroz dourado que circulou entre os cientistas e foi assinada por milhares deles, muitos manifestaram sua frustração com organizações ativistas como o Greenpeace, que, segundo eles, aproveitam-se dos temores equivocados despertados pela engenharia genética.
O que está em jogo, afirmam eles, não é só o futuro do arroz biofortificado, mas também os meios racionais para avaliar uma tecnologia cujo potencial para melhorar a nutrição poderá de outra forma ficar por realizar.
"Paira por aí muita desinformação a respeito dos OGMs que é tomada como fato pelas pessoas", disse Michael Purugganan, professor de genômica e biologia e pró-reitor de ciências da Universidade de Nova York. "Os genes que eles inseriram para fazer a vitamina não são nenhum material manufaturado esquisito, mas sim genes encontrados também em abóboras, cenouras e melões", escreveu ele em uma cartilha publicada pelo GMA News Online, veículo noticioso filipino. "Muitas das críticas aos OGMs no mundo ocidental padecem da falta de compreensão sobre como a situação é realmente difícil nos países em desenvolvimento."
Nina Fedoroff, professora da Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia, na Arábia Saudita, e ex-consultora científica da Secretaria de Estado dos EUA, ajudou a difundir o abaixo-assinado. "Já passou da hora de os cientistas se levantarem e gritarem: 'Chega de mentiras'", disse ela. "Estamos falando em salvar milhões de vidas aqui."
Precisamente por causa do seu propósito elevado, o arroz dourado atrai suspeitas. Muitos países proíbem o cultivo de todos os OGMs. No começo da década passada, a ambientalista indiana Vandana Shiva disse que o arroz dourado seria um "cavalo de Troia", destinado a conquistar o apoio da opinião pública para organismos transgênicos que beneficiariam corporações à custa de consumidores e agricultores pobres.
Em um artigo de 2001, "The Great Yellow Hype" (o grande "hype" amarelo), o autor Michael Pollan sugeriu que esse arroz pode ter sido desenvolvido "para ganhar uma discussão, em vez de resolver um problema de saúde pública".
Mas o arroz foi aperfeiçoado desde então, dizem seus defensores: uma tigela contém atualmente 60% da necessidade diária de vitamina A para uma criança saudável. A possibilidade de que o arroz dourado possa se transpolinizar com outras variedades também é considerada limitada, porque o arroz se autopoliniza.
Se esse arroz obtiver aprovação do governo filipino, ele não custará mais do que outras variedades para os agricultores pobres, que estarão liberados para replantar as sementes.
A Fundação Bill e Melinda Gates está apoiando os testes finais do arroz dourado. Também está patrocinando o desenvolvimento de cultivos específicos para a África Subsaariana, como uma mandioca resistente a um vírus que habitualmente destrói um terço das safras ou um milho que usa o nitrogênio de forma mais eficiente. Outros pesquisadores estão desenvolvendo um feijão-fradinho resistente a pestes e uma banana que contém vitamina A.
Uma objeção aos OGMs é que eles podem conter riscos desconhecidos. Tais cultivos, afirmou a "Scientific American" em agosto, "só com apoio da opinião pública chegarão às mesas das pessoas". O Greenpeace, por exemplo, já disse que continuará se opondo a eles. "Preferimos pecar por cautela", disse Daniel Ocampo, ativista da organização nas Filipinas.
Para outros, o potencial para aliviar o sofrimento é tudo o que importa. Como escreveu um dos signatários da petição, o mexicano Javier Delgado: "Essa tecnologia pode salvar vidas. Mas falsos temores podem destruí-la."


Texto de Amy Harmon, para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

A força dos interesses

Na estreita margem de reação ao seu alcance, a mais (ou única) eficaz resposta do governo brasileiro ao dos Estados Unidos é pôr em suspenso a visita da presidente Dilma Rousseff a Barack Obama, marcada para o próximo mês. E confirmá-la ou sustá-la a depender do que o governo americano faça com a exigência de explicação escrita que lhe fez ontem o governo brasileiro, sobre a violação das comunicações oficiais e pessoais até da presidente brasileira.
Assuntos importantes podem haver, mas não assuntos graves para negociações de Dilma e Obama. A visita foi prevista, portanto, sobretudo como um gesto amistoso. Mas ser amistoso em retribuição a atos inamistosos é, no mínimo, subserviência. O que não parece próprio de Dilma Rousseff e, de uns poucos anos para cá, deixou de ser a atitude brasileira com os Estados Unidos.
A interceptação das comunicações da Presidência não é só uma transgressão das normais internacionais de convivências soberanas, praticada pelo governo americano contra o brasileiro. São ações inamistosas dos Estados Unidos. De duas ordens.
Uma, sub-reptícia, de violação de direitos e de sigilos brasileiros protegidos pelo direito internacional e por tratados de que os dois países são signatários. Outra, a depreciação da soberania brasileira, se não for a negação mesma.
Neste segundo aspecto, a visão de um país sob condições neocoloniais ficou explicitada outra vez, diretamente, ao ministro da Justiça brasileiro, José Eduardo Cardozo, quando levou a Washington, na semana passada, uma proposta de acordo para meios honestos e legais de coleta americana de informações no Brasil (sem embaraços, desde que autorizada judicialmente, como exige a Constituição do Brasil).
O governo americano recusou a proposta com um argumento dado como definitivo e apresentado de modo que o ministro descreveu como "peremptório": os Estados Unidos agem com base na sua legislação interna e consideram-se cumprindo uma missão internacional. As leis que regem a conduta americana no Brasil, como na violação do sigilo das comunicações presidenciais e quaisquer outras, são as leis americanas, não a Constituição brasileira e seu corpo de leis. E pronto.
Com a sugestão a Washington, o Brasil cumpriu o papel de diplomacia respeitável, mas, a rigor, mesmo o acordo seria inócuo: os Estados Unidos não são confiáveis. Vale lembrar, a propósito, um ensinamento, tão pouco aproveitado no jornalismo, dado por John Foster Dulles, o mais proeminente secretário de Estado americano desde a Segunda Guerra Mundial: "Os Estados Unidos não têm amigos, têm interesses".
E força. Da qual abusam segundo seus interesses. "Se o Congresso aprovar, a ação dos EUA na Síria ocorrerá mesmo que o Conselho da Segurança da ONU seja contrário" --é uma resolução destes dias. A desproporção de forças militares reflete-se sobre os organismos internacionais de regulação e julgamento, o que sinaliza, por antecipação, as escassas perspectivas dos recursos a cortes internacionais insinuados pelos ministros Cardozo e Luiz Alberto Figueiredo, o estreante de Relações Exteriores.
A menos que se constitua um movimento de países com alguma dose de representatividade, algo bastante problemático. E dependente, quem sabe, dos arquivos e da disposição de Edward Snowden de divulgar violações graves em outros países, como fez com seu coadjuvante Glenn Greenwald nestas revelações sobre o furto americano de sigilos da Presidência brasileira.
Se o Brasil não tem meios para dar a resposta à altura, será muito pedagógico que ao menos se mantenha ereto --como se mostra até aqui.


Texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo.

Imigrante ilegal mexicano expõe ideal de sonho americano

Antonio Saavedra e Natalia Mendez queriam que seus três filhos estudassem e ficassem longe de problemas. Eles os criaram sem TV, mas rodeados de livros, muitos dos quais hoje estão amontoados em uma biblioteca bem abastecida no La Morada, o restaurante mexicano que a família administra na Willis Avenue, no bairro de South Bronx.

Os filhos do casal às vezes mergulham nos livros quando os negócios ficam devagar. Não que agosto tenha sido um mês calmo. Marco Saavedra, o filho do meio que também é o único homem --e às vezes trabalha como garçom, atendente e entregador-- passou duas semanas em uma prisão para imigrantes do Arizona.

Por opção.

Marco faz parte de um grupo de nove homens e mulheres jovens que se autodenominam "Dreamers" (Sonhadores) --imigrantes que foram trazidos ilegalmente para os Estados Unidos por seus pais quando eram crianças e que querem que o governo federal norte-americano lhes forneça um caminho para a cidadania. Em julho passado, ele voltou ao México e tentou entrar de volta nos Estados Unidos, pedindo asilo após alegar temer sofrer perseguição no México, um país que ele não via desde que era criança. Marco foi solto no início de agosto, mas seu caso ainda aguarda uma decisão.

Inicialmente, a decisão de Marco de realizar o que ele considera um ato de desobediência civil desagradou seus pais. Mas ele disse que sua atitude foi o resultado inevitável da reflexão não apenas sobre a sua situação, mas sobre a de milhares de outros jovens como ele.

"A educação, a consciência e a sensibilidade que eu recebi na escola me desafiaram a viver de acordo com esses ideais", disse Marco, 23, que se formou no Kenyon College há dois anos. "Qual é a finalidade da educação se não para combatermos as injustiças diárias? A educação fica sem sentido se você se torna insensível ao que acontece em sua comunidade."

A jornada da família de Marco é semelhante à de muitas outras em Mott Haven, que em um século passou de um enclave irlandês para uma das maiores comunidades de mexicanos da cidade de Nova York. Os pais de Marco foram para Nova York em 1992, depois de terem tido uma existência pobre como agricultores em sua cidade natal, San Miguel Ahuehuetitlán, em Oaxaca. O Sr. Saavedra já tinha estado nos Estados Unidos antes, colhendo uvas na Califórnia. Da segunda vez, ele sugeriu a sua esposa que eles tentassem a sorte em Nova York durante um ano, na esperança de economizar dinheiro suficiente para retornar ao México e começar um pequeno negócio. Sua mulher, que queria montar uma loja de costura em casa para poder trabalhar e cuidar dos filhos, concordou.

Eles deixaram Marco e sua irmã, Yajaira, com parentes, e partiram para Nova York, onde ele encontrou trabalho como lavador de pratos em um restaurante e ela, em uma fábrica de roupas. Eles viviam em Washington Heights, onde a Sra. Mendez ficou impressionada com a vizinhança.

"Onde quer que eu fosse eu via escolas", disse ela. "Eu não sabia o que havia lá dentro, mas havia uma escola a cada dois ou três quarteirões. Eu pensei que seria a mãe mais feliz do mundo se os meus filhos pudessem frequentar as escolas daqui."

Assim, o plano de ficar apenas um ano em Nova York ficou para trás. O casal pediu que seus dois filhos viessem encontrá-los. Logo, sua terceira filha nasceu em Nova York. Criando os três entre a igreja e a escola, o casal exigiu que seus filhos se qualificassem. Marco ganhou bolsas de estudo financiadas por capital privado e frequentou a Deerfield Academy, em Massachusetts e, posteriormente, o Kenyon College, em Ohio.

Mesmo antes de Marco começar a faculdade, seus pais sabiam que tinham cometido um erro por não terem legalizado seu status de imigrantes. Por isso, eles acabaram recorrendo a um advogado. O Sr. Saavedra disse que o advogado levou US$ 15 mil deles e não fez nada.

Eles admitem estar descontentes com a decisão de Marco de voltar brevemente para o México neste verão --um país que ele não conhece-- para chamar a atenção para sua causa. Eles esperavam que ele se transformasse em um profissional liberal ou em um engenheiro, talvez. Em vez disso, Marco se tornou um ativista da Aliança Nacional da Juventude Imigrante.

Quando Marco explicou sua decisão a seus pais, no início deste verão, seu pai se irritou. Sua mãe, no entanto, compreendeu lentamente a intenção do filho.

"Ele disse que poderia ajudar a mudar a lei para outros imigrantes", relembra ela. "Eu senti seu entusiasmo. Eu entendi a vontade do coração dele, que essa era a missão dele".

Enquanto Marco estava na prisão, seu pai falava com ele diariamente. Essas conversas mudaram o Sr. Saavedra. "Eu não tenho raiva dele", disse o pai. "Eu tenho que apoiar o meu filho".

Ele e sua mulher acreditam que o futuro é incerto para eles também. Eles têm falado publicamente sobre o caso de Marco, apesar de seu próprio status de ilegais no país. Apesar de terem dito que pagaram seus impostos, contribuíram para sua comunidade e ficaram longe de problemas, eles estão prontos para fazer um sacrifício final.

"Se tivéssemos que voltar para o nosso país para amparar nosso filho, seria difícil, mas nós voltaríamos", disse Mendez. "Nós crescemos lá. Ele não. Se ele puder ficar aqui e nós tivermos que voltar, nós não ficaremos com medo".

Reportagem de David Gonzalez, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradutor: Cláudia Gonçalves

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sem lamentos nem desculpas, o que se quer é Justiça


A cada dia que passa, cresce a convicção de que os embargos infringentes no julgamento do mensalão podem ser pura formalidade.

O risco é que venham a ser apresentados e rejeitados em bloco, embora o debate real esteja longe de terminado.

Será lamentável, na medida em que há pontos essenciais do julgamento que merecem uma segunda avaliação. Este direito foi assegurado aos mensaleiros-PSDB MG. Dificilmente será negado aos colegas do DEM-DF.

Por que recusar a turma do PT, na forma, muito mais limitada, dos embargos?

Os recursos dos réus do mensalão-PT  estão sendo julgados, em pacotes, pelo mesmo tribunal, pelo mesmo presidente que encerrou o julgamento, que também é o mesmo  relator.

Enquanto isso, quem for condenado em Minas – quando e se isso acontecer – irá bater às portas da segunda instância, em Brasília, para buscar seus direitos. Terá outros olhos e outros ouvidos para escutar sua história e seus argumentos.

Justíssimo – para eles.

Os réus do mensalão PSDB-MG, acusados pelo mesmo esquema – até as secretárias eram as mesmas -- pelo mesmo ministério público, terão direito a dois julgamentos. Mais antigo que o mensalão-PT, a facção mineira anda mais devagar. A partir de Minas, o processo dará, em sua plenitude, o direito universal a uma segunda jurisprudência.

Aos acusados do PT, haverá, na melhor das hipóteses, meia jurisprudência, torta, mais difícil, complicada e sem dúvida tensa. E mesmo isso pode ser negado.  

É falso dizer que não há nada para ser reexaminado.

A noção de que houve desvio de recursos públicos, básica para a denúncia do esquema de “compra de votos”, é desmentida em todos os detalhes por uma auditoria do Banco do Brasil – de onde estes recursos teriam sido extraviados.

As conclusões do documento foram confirmadas e repetidas em juízo, pelo auditor-chefe do Banco, que permanece na instituição até hoje. O tribunal não deu uma resposta clara e explícita a essa questão. O assunto sequer foi respondido no julgamento. Tampouco se explicou por que a direção do banco, vítima do desvio, não se queixou de nada nem foi processada por omissão.

A tese de que o PT recebeu empréstimos fraudados do Banco Rural é desmentida por uma investigação da Polícia Federal. A visão de que o esquema financeiro de Delubio Soares e Marcos Valério destinava-se a comprar votos e subornar deputados, em vez de ser uma operação financeira típica de nosso sistema eleitoral, não conseguiu sustentar-se. Não se aponta um único caso concreto de compra de votos. Nenhum.

Havia circulação de dinheiro clandestino, muito dinheiro, mas caberia responder: por que não poderia ser caixa 2 de campanhas eleitorais? Por que tinha de ser compra de parlamentares, suborno?

Se esse dinheiro não veio do Banco do Brasil, como está provado, caberia explicar sua origem. Ninguém tem essa curiosidade? Será que estaria nas empresas que, conforme a CPMI, em seu relatório final, despejaram mais de 200 milhões de reais nos vários mensalões?

As penas de vários réus permitem questionamentos específicos, que deveriam permitir esclarecimentos específicos, como já deixei claro neste espaço e no livro “A Outra História do Mensalão.”

A chantagem em torno do 7 de setembro, que colunistas conservadores praticam abertamente, sem corar, sem preocupar-se com a autonomia do judiciário, cumpre a função de colocar o STF sob pressão para correr com as condenações.

Estimula-se a irracionalidade, cumprindo a profecia de que uma imprensa perversa está condenada a ter leitores perversos.

Na medida em que aparecem erros e falhas do processo, é preciso que sejam examinados e discutidos com serenidade. Fica feio colocar a sujeira embaixo do tapete e alegar que é tudo protelação.

Há poucos meses, foi usada a máscara dos Anonymous das passeatas,  para se montar uma farsa contra o Congresso caso os parlamentares não derrubassem a PEC 37, cujo significado ninguém conhecia direito longe do mundo de procuradores, delegados e advogados.

Foi um exemplo de manipulação sem anestesia. Quer-se fazer o mesmo com o Supremo, agora. Resta saber se a mais alta corte irá aceitar isso.

Um dos pontos essenciais da atual fase do julgamento envolve o destino de José Dirceu. Tratado como o maior troféu político da Ação Penal 470,  seja pelo PT, seja pelos adversários, Dirceu teve direito a uma biografia vexaminosa,  repleta de erros e incongruências, lançada poucas semanas antes dos embargos – e não é difícil entender a razão de tanta pressa.

O problema é que, vista com frieza, a situação de Dirceu encontra-se numa fronteira insegura para aqueles que apostam em seu linchamento, evitando um exame frio das provas. Olha que curioso. Mesmo apontado como o “chefe da quadrilha”,  faltou apenas um voto para que o próprio Dirceu fosse inocentado justamente do crime de “formação de quadrilha,” no ano passado. Isso porque a própria ideia de que o PT formou uma quadrilha, tão a gosto de adversários, internos e externos do tribunal,  foi perdendo charme e sustentação com o tempo.

Na semana passada, Dirceu obteve 3 votos contra 8 num pedido em que pedia revisão da pena. Não fez maioria. Mas, se tivesse um voto a mais, poderia entrar com novo pedido de embargo e reabrir a discussão. Examinando os critérios usados para condenar Dirceu, Marco Aurélio Mello registrou a incongruência. “Alguma coisa não fecha”, disse, lembrando que em alguns casos as penas foram elevadas em 25% e em outros em 75%.

Dirceu acabou derrotado, num debate onde coube ao ministro Celso de Mello fazer uma intervenção duríssima. Disse que Dirceu foi "autor intelectual, o protagonista" do mensalão. Também afirmou que Dirceu “ concebeu, idealizou, comandou, fez executar, praticou ações criminosas voltadas à permanência de um determinado grupo no poder. Uma estrutura voltada à manipulação fraudulenta do Congresso", afirmou. Celso de Mello disse ainda Dirceu não se mostrou capaz de atuar com "integridade".

Na verdade, Dirceu foi condenado pela teoria do domínio do fato, naquela versão tropical que o procurador geral Roberto Gurgel introduziu no julgamento e que foi repudiada por um de seus criadores.

Pode-se até supor, imaginar e acreditar que Dirceu “concebeu, idealizou, comandou” o esquema. O difícil é provar isso. Denunciado pela teoria do domínio do fato, aquele que seria o principal responsável pelo assassinato de irmã Dorothy, e que tinha contra si testemunhos e fatos muito mais graves do que o rosário de impressões lançadas contra Dirceu, acabou liberado em liminar quando o caso chegou ao Supremo.

Conforme advogados em atividade no julgamento, essa situação delicada, entre a prova em que se acredita, mas não se demonstra, explica o comportamento de Celso de Mello. Sem economizar palavras agressivas contra Dirceu, a intervenção do decano se explica, conforme este raciocínio, como um esforço disciplinador para manter os demais juízes em seus lugares, evitando vacilações e mudanças em relação à  decisões anteriores. Por essa razão o ministro não reserva suas colocações para o fim do julgamento, como seria natural no mais velho membro da Corte, mas pede a palavra na fase inicial, quando é possível influenciar os demais.

Verdade ou não, em sua fase atual, já tivemos atitudes surpreendentes.

Um ministro, Luiz Roberto Barroso,  mostrou-se  capaz de pensar uma coisa e votar em outra, quando julgou o embargo do ex-deputado Bispo Rodrigues.

Na semana passada, quando chegou a vez de votar sobre José Genoíno, Barroso declarou:

“Pessoalmente, lamento condenar um homem que participou da resistência à ditadura no Brasil, num tempo em que isso exigia muitos riscos. Lamento, sobretudo, condenar um homem que leva vida modesta e jamais enriqueceu com a política”, afirmou Barroso, sem dar-se conta de que o lamentável,  na verdade, é assistir à confissão de um ministro da mais alta corte de Justiça admitindo publicamente que lamenta seus votos.

Outro ministro, Teori Zavaski, deixou no ar a sugestão de que os recursos contêm alegações que poderiam levar a uma revisão criminal. Ou seja, um novo julgamento. Mas como, no momento, quando os embargos são debatidos, não se faz nada.

No " maior julgamento da história"  nenhum juiz se atreve a pedir vistas. Nem os recém-chegados.

Na mesma linha de Barroso, a ministra Carmen Lucia lembrou seu voto no ano passado e explicou:  “Ao julgar exatamente o caso de Genoíno fiz a ressalva de que estávamos julgando fatos muitas vezes infelizes e não histórias que são muito dignas.”

Julgamos fatos e não cidadãos?

Por que essa necessidade  de abstrair as coisas?    

Quem vai para a cadeia são pessoas, e elas têm história.

A história de Genoíno não precisa de elogios nem lamentos.

Eles podem confortar a consciência de quem fala mas humilham quem ouve.

Nestes tempos em que, com 49 anos de atraso, quase meio século (!), a Globo sente necessidade de dizer que se arrepende do apoio ao golpe de 64, chega ser um insulto falar do passado de Genoíno na luta contra a ditadura. .

O lugar de Genoíno não precisa de enfeites nem remendos. Só quem perdeu a alma não consegue imaginar como isso dói.

Com todo respeito que já manifestei pelos conhecimentos jurídicos do ministro Barroso, e que Carmen Lucia também merece, pergunto: José Genoíno, um dos grandes políticos de sua geração, sete mandatos como parlamentar, deve ser elogiado porque “jamais enriqueceu com a política?”

Desculpe a expressão: que preconceito “Casa Grande” é este?

Vamos elogiar Genoíno porque ele não roubou?  Era um destino de cearense, de político, de guerrilheiro, de petista?

Ou vamos expor Genoíno a um pelourinho televisivo, bruto, selvagem, indigno, e depois, com dor no coração, olhar para suas feriras e falar de sua “história digna”?

Quer dizer. O cara chega ser torturado em praça pública no Araguaia, como lição para a população não tem a menor dúvida sobre quem mandava naquele país – onde o Supremo se encolheu, engoliu as próprias cassações e até ajudou a ditadura a livrar-se de um adversário como Chico Pinto – e é Genoíno que precisa palavras bondosas para não sentir-se humilhado?

Não, meus amigos.

A Globo precisa explicar porque esperou 49 anos para fazer auto-crítica. Os ministros fazem uso da palavra para falar de seus lamentos.

Genoíno só precisa da lei e da  justiça. Tem direitos iguais aos 201 milhões de brasileiros.

Basta ler o relatório entregue pelo delegado Luiz Flavio Zampronha para se descobrir que os empréstimos eram reais, não eram fraudados e colocaram dinheiro de verdade nas contas do PT, que redistribuiu os recursos. Genoíno foi condenado por que não se considerou “razoável” nem “plausível” que não “soubesse” do “esquema.”

Mas essa denuncia sobre os empréstimos, aos poucos, foi sendo escondida e deixada de lado, porque era difícil de sustentar. Mas claro que continua sendo repetida, impunemente, até hoje. Porque, para o cidadão comum, é a “prova”.

Essa turma vai levar 49 anos para se arrepender, de novo?

Não adianta pedir desconto e lembrar que, condenado a uma pena menor, Genoíno terá direito a regime semi-aberto. Não se trata de um premio de consolação nem de uma barganha. O ponto de partida dessa visão é achar que ele merecia ser punido. Está errado. Pune-se, com penas maiores ou menores, quem tem culpa provada, com fatos robustos, inquestionáveis. A menos, claro, que se queira usar Genoíno como exemplo para lembrar, pela segunda vez, quem manda no país.

Ninguém precisa ser lembrando disso. Está na cara.



Reprodução do blog de Paulo Moreira Leite.

Nomeações e relações - Governo do Estado de São Paulo

DIÁRIO OFICIAL

O governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) nomeou Carla Elias Rosa, mulher do procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Elias Rosa, para trabalhar no Palácio dos Bandeirantes. Ela integrará a assessoria jurídica do governo, na Casa Civil.

OFICIAL 2

Elias Rosa lidera o Ministério Público de SP, que tem entre suas prerrogativas investigar denúncias que envolvam o governo.

OFICIAL 3

"É uma assessoria jurídica técnica, e não política. Do Estado, e não do governador. Ela não teve aumento de salário. É procuradora desde 1987", diz Márcio Elias Rosa. Carla é funcionária de carreira da PGE (Procuradoria-Geral do Estado), que defende o Estado em ações judiciais.

CONHECIMENTO

Questionado se haveria problema ético na nomeação, em função da relação conjugal de Carla, o governo Alckmin afirmou que a indagação revela "profundo desconhecimento sobre o funcionamento" da PGE. Não há "qualquer conflito ético". A assessoria é órgão complementar da PGE, onde ela já trabalhava. "Eventual ação do procurador-geral de Justiça [o marido de Carla] contra o governador não tramita na assessoria jurídica do governo", diz a nota.

Reprodução de parte da coluna de Mônica Bérgamo, na Folha de São Paulo.

Sobre salários e estruturas, por Delmar Bertuol

A Secretaria Estadual de Educação contrata estudantes para darem aula. Sim, acadêmicos de licenciatura a partir do 4º semestre (em muitos casos isso é menos da metade do curso) podem dar aulas para até o Ensino Médio no Rio Grande do Sul. Por que o Estado contrata esses estudantes e lhes dá regência de classe? Porque muitos profissionais formados não querem trabalhar na Educação Básica Estadual. E por que não querem? Porque o Estado paga mal.
O Governo Federal está contratando médicos estrangeiros formados para atuarem no interior do Brasil. Por que o Governo Federal está importando esses profissionais? Porque muitos médicos brasileiros não querem trabalhar no interior. E por que não querem? Porque preferem ficar nos grandes centros urbanos, onde ganham o mesmo salário.
Um professor em fim de carreira no Rio Grande do Sul, depois de talvez ter sofrido algumas agressões físicas e com certeza ter sofrido diversas agressões morais ganha no máximo, chutando alto, R$ 3.500,00. Um recém contratado ganha metade disso.
O Governo Federal está oferecendo salário de R$ 10.000,00 para os médicos atenderem no interior. Os “doutores” acusam o Estado de escravidão.
Os hospitais não têm infraestrutura adequada e faltam materiais.
Nas escolas, ocorre o mesmo fenômeno.
Quando eu estava no 4º semestre fui Professor no Estado. Meus colegas me receberam com alegria. Disseram-me que há tempos faltava Professor de História, que eu fosse muito bem-vindo.
Um médico cubano não no 4º semestre, mas formado, foi recebido com vaias pelos novos colegas brasileiros. Disseram que ele era desnecessário aqui.
Muitos idealistas defendem que o salário de um professor deveria ser no mínimo de R$ 10.000,00. Uma Lei Nacional garante R$ 1.500,00. O Rio Grande do Sul não cumpre a lei. Se os professores entram em greve reivindicando isso e melhor infraestrutura nos educandários, são tachados de desocupados. Sabiam que a vida de professor era miserável. Por que aceitaram trabalhar nisso?
Muitos idealistas defendem que os médicos deveriam ter uma Carreira de Estado, tal quais juízes e promotores. Claro que o salário se equipararia. Mais de R$ 20.000,00. Se um professor guardasse seu salário por um ano, chegaria fácil fácil nessa cifra. Quando os médicos fazem greve reivindicando isso e melhor infraestrutura nos hospitais, são aplaudidos pela média conservadora. São heróis.