Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Heitor Cony. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de janeiro de 2018

O desespero e a graça

No escritório de Carlos Heitor Cony, perto do computador, havia duas pequenas reproduções de Goya. Uma correspondia à fase mais atormentada do pintor: embrulhadas em roupas negras, bruxas se acocoravam contra um céu de chumbo.
Ao lado, uma cena galante de arlequins e cortesãs, num parque ensolarado e verde-claro, fazia lembrar que o artista espanhol tivera seu fastígio em pleno século 18, antes que a brutalidade das invasões napoleônicas modificasse sua visão de mundo.
O primeiro quadro, dizia ele, "são meus romances". O segundo, "as crônicas".
De certo modo, Cony aceitava a opinião tradicional, que associa a crônica a um texto sorridente, descompromissado e ligeiro.
morte de Carlos Heitor Cony priva o país, e a Folha, de um mestre absoluto do gênero –e de um escritor cujo profissionalismo jamais permitiria infringir abertamente as regras prescritas pela convenção.
Seus textos para o jornal foram, portanto, deliciosos de ler, arejados, com um leve perfume de poesia que ele dosava à perfeição.
Mas acontecia de as sombras grotescas das feiticeiras de Goya cruzarem sua memória no meio de uma frase –para serem afastadas num gesto quase que de mau humor, com o qual Cony recuperava a graça exigida pelo gênero jornalístico.
Depois de deixar o seminário, ele se impregnou da filosofia existencialista. Sartre e Camus abriram sua sensibilidade para o absurdo e para a absoluta solidão do indivíduo nas suas escolhas morais.
Pego, meio ao acaso, uma crônica de Cony. Chama-se "Acidente de percurso da química e da gula". Começa assim:
"Não sei bem por que, mas eram considerados primos. Em algum ponto havia uma bifurcação genética e os Almeida da Silva tinham alguma coisa a ver com os Moraes, nossa família materna."
O registro, claro, é o da memória, cotidiana e doméstica. Não se trata, contudo, de recuperar o passado. O narrador não se lembra bem do parentesco; na verdade, nunca soube –e sugere que isso não tem importância.
Surge então o detalhe, este sim memorável: naquele ramo da família havia seis mulheres. "Casaram-se no devido tempo, um dos maridos mexia com produtos químicos, daí que todos eles receberam a classificação coletiva de 'Químicos'".
Apesar de característico, o traço mantém certa imprecisão: "no devido tempo" (quando?), "um dos maridos" (qual?), "mexia" (vendia? Fabricava?), "produtos químicos" (de que tipo?).
Pouco importa. O fato de serem chamados de "químicos" não interfere em nada no desenvolvimento da história, que se concentra no fato de que esses parentes eram "vorazes".
"A especialidade deles", continua Cony, "era frequentar festas em que havia bufê." O líder do grupo, chamado Eurico, vivia da renda de "cinco casas no Cachambi". Dormia "até tarde e, à tarde" (note-se o falso descuido ao repetir a palavra), "gostava de Vicente Celestino e empadinhas de camarão".
Nada disso, parece dizer Cony, tem importância ou razão de ser. Vivemos num universo em que as coisas são simplesmente assim. Poderiam ser quatro casas, poderiam ser em outro bairro, poderia ser outro cantor, poderia ser outro salgadinho. Nada disso modifica nada.
A turma fica sabendo de um casamento rico, mas o convite por escrito não veio. A festa seria na casa de um "comerciante de queijos" na rua Sacadura Cabral. Ou seria em outra rua? Talvez a Gago Coutinho?
Naquele mundo arbitrário do texto, em que um detalhe poderia ser outro qualquer, eis que a imprecisão, a falta de motivos para que algo seja o que é, contamina os próprios personagens –também eles se confundem no específico, trocam uma coisa por outra qualquer.
Terminam parando no lugar errado –e batem à porta (outro acaso inexplicável) de um poeta famoso nos anos sessenta, menos pelo talento do que pelo engajamento político: Thiago de Mello, que organizara uma recepção a outro poeta, um chileno chamado Juvêncio Valle.
A noite transcorre com o chileno recitando versos sobre "a libertação dos povos da América Latina e dos povos afro-asiáticos". Quando acaba o último poema, "Thiago de Mello mandou buscar umas pizzas numa padaria no Largo do Machado".
E a crônica termina nessa frase, como se nenhuma conclusão fosse possível.
Cony é um artista do anticlímax.
O senso lírico da desimportância de todas as coisas se traduz, para Cony, em absurdo, em falta de sentido. Sua ironia não é doce, como em tantos outros cronistas: é no desespero que ele encontrou a sua graça.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, a respeito de Carlos Heitor Cony, recentemente falecido. 

'Consciência do que fazia era absoluta', diz Janio de Freitas sobre amigo Cony

Aberta a grande porta, o saguão do seminário foi invadido pela rumba "Siboney", mandada do outro lado da rua pelo comitê de um candidato à Presidência. Mas o som do mundo a recepcionar o já ex-seminarista também podia ser a marchinha carnavalesca "Jardineira". Ou o samba "Implorar". Ou outro. A depender da ocasião em que a cena era descrita por seu protagonista.
Em 1945 também não houve campanha presidencial, a ditadura de Getúlio só foi derrubada em outubro. Datas, situações, fatos podiam ficar sob a rubrica "rigor histórico". Nenhuma memória valeria a imaginação de um pormenor ou de um fato capazes de dar dramaticidade, sabor original, um toque literário que fosse, à realidade insatisfatória. Conter o impulso ficcionista, quando obrigatório fazê-lo, parecia revoltante a Cony, uma repressão ao privilégio da sua fertilidade imaginosa.
Há uma diferença essencial a ser observada, sempre, nas rebeldias ficcionais de Cony contra a memória dos fatos e mesmo contra fatos. Cony não inventava, no sentido de uma elaboração. Sua fonte não era a má-fé. O fictício lhe ocorria, jorrava, nada mais que isso, e ganhava a sua certeza com uma convicção capaz até de provocar atritos e mágoas.
Em crônica na Folha, um momento de nostalgia levou-o a falar das saídas juntos do "Correio da Manhã", sempre alta noite, dele, Antonio Callado, Luiz Alberto Bahia e eu. Deixei passar, mas logo fui indagado sobre aquelas noites e companhias, e pressenti mais um equívoco a caminho. O quarteto podia ser um trio: nunca trabalhei com Callado e Bahia.
Imprecisão irrelevante, não era o caso de correção. Bastaria informá-lo. Mas foi impossível convencer Cony de que me lembrava bem de onde trabalhei e em que época. Sua certeza de minha presença incluía, além de conversas, caronas no seu carro até minha casa. Nada mais a discutir. Nunca o vi aceitar com naturalidade uma observação, de quem quer que fosse, sobre divergências suas com a memória alheia. Ficção e realidade eram uma coisa só.
Nem por isso soube que guardasse por muito tempo alguma zanga da sua sensibilidade. Exceto, talvez, pelo que foi ou seria o boicote ao seu romance "Pessach".

Mas, no caso, o ressentimento não era de pessoas determinadas e, sim, do Partido Comunista. Comunistas ligados à cultura negaram o boicote. Ainda, porém, que Cony pudesse ter uma visão desproporcional de parte da história, tinha razão quanto à discriminação aplicada ao seu livro, publicado paralelamente ao "Quarup" de Callado.
O episódio com "Pessach" mostrou a muitos um Cony desconhecido. Emergia ali, do Cony ameno, bem-humorado, ótimo de conversa, um Cony áspero, rijo, inabordável. Grosseiro até, como o próprio caso era. E muito emocional.
Fui dos que se enganaram com o seu temperamento, embora anos antes. Indefinido politicamente, Cony me pareceu o mais adequado para uma seção, "Diálogo", que decidi lançar no "Correio da Manhã", para diálogo mesmo com leitores missivistas. Eram tempos de radicalidade política muito maior que a atual, embora sem o ódio público do país embrutecido de hoje em dia.
Errei na escolha. As respostas para a seção inaugural eram de violência assustadora. Jornal não publicava carta de leitor fascistoide insultando jornalista gratuitamente nem achava que jornalista tem que engolir insulto. Foram dias de seção a ser reescrita e de cuidados nas relações. Comecei a desvendar ali uma violência refreada que me explicava algo para mim intrigante na literatura do escritor Cony de até então: a violência subjacente.
A mesma carga esteve, sob outra forma e outro propósito, nos artigos de Cony seguintes ao golpe de 64. Ainda há quem atribua esses escritos a uma dose descontrolada de irresponsabilidade do autor. Estive muitas vezes com Cony naqueles dias, conversando sobre artigos escritos e a escrever. Sua consciência do que fazia, do que sentia necessidade pessoal de fazer, era absoluta. E, enfim, mais forte do que a impulsão do ficcionista.
Os anos que passou, como dizia, sem escrever, na verdade foram sem publicar sua literatura. Certa vez o admitiu, para nunca mais. Avião o incomodava, e suponho que por isso falasse muito em nossas idas e vindas de reuniões em São Paulo.
Tinha muita coisa escrita, sim, e parte dela começava a ser aproveitada —como se pode notar em trechos de um ou outro romance da sua "volta". Mas esse não era um assunto de que gostasse. Parecia preferir conversas sobre outros autores. Aos novos, aliás, tratava com farta generosidade.
Em toda a história da Academia Brasileira de Letras, Cony foi o único autor de quatro discursos de admissão —três de posse, incluída a do próprio, e um de recepção. Nem seus colegas de fardão sabem disso, a não ser os que só entraram com o nome. 


Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, a respeito do recentemente falecido colega Carlos Heitor Cony.

domingo, 6 de novembro de 2016

O barco

O mais importante é o cheiro. Não passa de um velho barco, descascado, cheio de rachas que deixam entrar água. Não é sólido nem belo, embora navegue bem: parece um ataúde desbotado, sem a parte de cima. Tem três bancos, sendo que o da popa é móvel, podendo ser removido para a colocação de um motor. Não passa de uma tábua encaixada nas laterais do barco. Parece um embrião e uma ruína. Mas há o cheiro. Cheiro de marés, areias molhadas, ventos e ondas.
Foi numa tarde que decidi comprá-lo. Indicaram-me os barcos aportados no canal, eram pesados e enormes. Não me serviam. Num bar onde fui tomar um trago, ouvi dizer que, próximo ao Forte, na enseada que marca o fim da praia, vendiam barcos:
—Procure o Vavá. Ele tem o que o senhor deseja.
Aproveitavam o cair da tarde para jogar suas redes. Um velho pescador, apoiado numa canoa em escombros, apontou em direção ao largo:
— Ele está ali, jogando a rede, depois daquelas pedras.
— Demora muito?
—Não. Deve estar de volta, por causa da maré.
Caminhei pela areia áspera. Ali funcionava uma colônia de pescadores, a praia estava cheia de detritos, pedaços de redes e barcos que haviam entrado em decomposição. Sentei-me para esperar.
Vi a silhueta de um barco surgindo das pedras que formavam uma espécie de ilha à minha frente. Os remos eram suspensos com cansaço. O remador procurava cortar a correnteza. Teria de vencer o canal, estreito, e logo entraria no remanso das águas que o trariam de volta.
O pescador apontou:
–Ai vem o Vavá.
À distância, o barco parecia uma tábua perdida, resto de naufrágio. Só parecia barco quando os remos faziam brilhar, ao sol da tarde, as suas pás encharcadas. Bem, aí tenho o meu barco.
Angela vinha vindo, trazida pela tarde. Apertou-me a mão.
— Como é bonito!


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A ceia de um rei

A bicicleta da filha mais velha e o skate da menor já estão há mais de uma semana no quarto da empregada, escondidos das garotas. Faltavam os brinquedos menores, a lista que elas haviam feito incluía jogos eletrônicos, tablets, celulares. Agora, tirava os embrulhos da mala do carro e atravessava correndo o quintal.
Na semana anterior, gastara o domingo armando a árvore de Natal e, de tanto subir e descer, de tanto curvar o pescoço e os braços, tudo estava doendo. Mas a árvore ficara imponente e colorida, as crianças passavam a noite olhando as luzes piscarem. Depois, quando todos iam dormir, ele é quem ficava sozinho, gozando a árvore de Natal, espantando-se com suas luzes.
Afinal, conseguiu guardar os embrulhos nos fundos de um armário. A casa, os móveis, os lustres, o braço macio e branco da mulher que aparece na porta que dá para a copa, o cheiro das rabanadas, a geladeira abarrotada de coisas gostosas. As meninas batem palmas, acompanhando o anúncio da TV no qual há um trenó puxando o Papai Noel pela neve.
Está cansado, levara empurrões pela cidade para comprar tantos presentes contraditórios e agora tinha de esperar pela ceia, fazer as crianças irem para a cama, depois o trabalhão de apanhar os embrulhos, a bicicleta, o skate --por tudo isso, ele se sentia exausto e fechava os olhos.
E está de olhos fechados quando há um silêncio assombroso em torno de tudo. As meninas pararam de bater palmas. A mulher vem lá de dentro, trazendo a ceia e as rabanadas. Ele abre os olhos mais uma vez para ver aquilo tudo, a felicidade que tem cheiro de rabanada e abacaxi, que agora parece um rei coroado de fitas vermelhas no meio de outras frutas mesquinhas e súditas. Então descobre que o Natal caiu sobre o mundo como um manto silencioso e profundo e ele se sente coroado como um rei cujo reino durará o espaço de uma ceia.


Texto de Carlos Heitor Cony na Folha de São Paulo

sábado, 23 de novembro de 2013

Opinião da vaca

Não aprecio memórias, quando entendidas como gênero literário. Evidente que sou obrigado a respeitar os grandes momentos que Santo Agostinho e Rousseau nos deixaram. Mas é um respeito distante, formal. Que nada tem a ver comigo. Volta e meia me distraio com os memorialistas, e alguns são excelentes, podendo citar Gilberto Amado, Afonso Arinos, Humberto de Campos e Joaquim Nabuco, para citar autores nacionais. Mas há um esquema interior e anterior, estrutural, que me impede a total empolgação pelo gênero.
Ao escrever memórias, o autor fatalmente se coloca numa posição absurdamente cômoda, inclusive para fazer restrições à própria vida. Até Malraux, que levava um jeito de ensaísta para o romance ("A Condição Humana"), ao fazer as suas "Antimemórias" blefou bastante --um profissional percebe isso.
Vai daí, e embora esteja longe do tempo de pensar em memórias, bolei uma contrafação para o gênero. Pode parecer uma molecagem literária --e vai ver que é. Em vez de escrever memórias, pretendo escrever um robusto ensaio histórico intitulado: "Cony e seu tempo". Será assinado por um pseudônimo, um sujeito muito mal informado sobre o meu tempo e principalmente sobre a minha pessoa. O importante, no caso, não será o personagem em si, mas o tempo em que o personagem viveu, ou seja, o nosso tempo, o meu tempo.
No fundo, esta ideia que me persegue é subproduto de um romance que está em gestação há tempo: "Opinião da vaca sobre a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, nos finais do século 20". Seria uma comovente confissão de uma saudável e pródiga vaca que emitiria juízos e sábias sentenças sobre fatos, homens e coisas do nosso tempo.
Talvez a opinião de uma vaca seja mais aproveitável do que a do autor que vou inventar para narrar os nossos probleminhas mesquinhos e pessoais. Em geral, o romancista inventa uma história. Eu inventarei um autor que, com uma dose bastarda de informação e conhecimento, procurará interpretar a vida de um pobre coitado que se espalhou por aí, no tranco da vida.
Tem mais: o memorialista, quando pega da pena ou abre o computador e mete os peitos em sua própria biografia, sempre se detém antes do fim. Por motivos óbvios não escreve sobre o fato mais importante de sua vida, que é a própria morte, esperando viver o suficiente para ser compreendido pelos contemporâneos, sobretudo depois que resolveu se explicar em público. A menos que recorra a um tipo de memórias póstumas, como fez Machado de Assis, que tentando contar sua vida, deixou em aberto um enigma que até hoje não foi decifrado.
No meu caso será diferente. O autor que escreverá o livro sobre a minha pessoa é tão papo furado que narrará minha doença, desenlace, e o olvido fatal dos dez primeiros anos depois da morte, e depois, lentamente, a restauração, a revisão histórica do personagem e da obra --tudo na base bastarda anunciada. Afinal, será a opinião de uma vaca.
Assim, a posteridade que me esperará --segundo o autor de "Cony e seu tempo"-- pensará que fui um sujeito completamente diferente do que sou. Basta dizer que, por um erro qualquer de classificação bibliográfica, eu serei tido como autor do Ato Institucional nº.1 e do Projeto da Anistia. De quebra, também me serão creditados alguns sambinhas de Antonio Carlos e Jocafi e minha glória maior terá sido o meu casamento com a Marília Gabriela --um acontecimento tão relevante quanto a bomba atômica, a penicilina e a polêmica sobre as biografias autorizadas.
É glória demais. De qualquer forma, acho que mereço essa consagração tardia e punitiva. No fundo, será a opinião de uma vaca, não muito diferente da minha.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Luiz Paulo Horta

Não dá para entender, embora seja a única verdade daquilo que chamamos "vida". Nem adianta, como no caso do acadêmico Luiz Paulo Horta, falecido subitamente no último sábado, argumentar com a sua discutível condição de "imortal", uma piada macabra que acompanha acadêmicos de várias latitudes.
O fato é que um dos trancos mais difíceis de suportar é quando um dos imortais que penetrou em nossa intimidade, sem aviso prévio nem tardio, paga seu tributo à fada que nos espera em algum lugar, em algum tempo e modo, fada que para muitos é considerada uma bruxa mesmo sem vassoura e nariz adunco, uma fada verde como o absinto que matou tantos poetas e artis- tas que tentaram esquecer a condição mortal de todos nós, poetas ou não, no ajuste final e, aqui entre nós, inevitável.
Horta começou a vida tentando aprender a tocar acordeão. Não era uma boa promessa, mas ele sabia, ou melhor, intuía, que o destino dele estava na música, que o levaria à religião. Bach, Beethoven e Mozart de um lado, os intelectuais que no fim do século 19 e início do século 20 se voltaram para a religião, fizeram de Horta o homem que conhecemos e admiramos.
Nunca resvalou para um proselitismo que não o agradava, como jornalista, e principalmente como escritor. Neste ponto, não imitava Jackson de Figueiredo nem mesmo o mestre Alceu Amoroso Lima, que tinham alguma coisa de polemistas no panorama de nossa realidade intelectual.
Antes de ser um servidor de sua religião, e amante compulsório da música, Horta foi, sobretudo, um humanista em seu sentido pleno e nunca saciado. Chego ao atrevimento de considerá-lo uma espécie de santo que não cheirava a incenso, mas quando sorria (e sorria sempre), mostrava um pouco que não era deste mundo.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo

terça-feira, 26 de março de 2013

Merleau-Ponty


Merleau-Ponty
RIO DE JANEIRO - O que o senhor acha do Merleau-Ponty?
A primeira vontade é dizer que não penso nada. Mas olhei bem o camarada, tipo de vogal do diretório de estudantes que me convidara para dar uma palestra. Na véspera, nada me perguntara, devia ser tímido, mas ansioso para beber alguma coisa da minha cultura de "Almanaque Capivarol" -o meu primeiro e insubstituível mestre nas coisas da vida e do mundo.
O sujeito se deslocara da cidade até o aeroporto para saber o que eu pensava de um cara sobre o qual nada pensava realmente. Além do mais, perdera a passagem de volta e a moça do check-in fazia uma porção de perguntas mais pertinentes, que eu também não sabia responder.
Revirei a maleta de mão, alguém havia me dado umas frutas cristalizadas que haviam lambuzado o livro que ganhara de alguém, um poeta também local que contava, em alexandrinos, uma história complicada de um vigário cuja especialidade era deflorar as virgens também locais.
O cara não saía da minha frente, a moça do guichê me olhava com raiva, eu podia, naquele instante, estar pensando em física quântica, na Guerra do Peloponeso, no legado cultural do John Lennon, menos em Merleau-Ponty, no qual nunca pensara antes nem pretendia pensar depois.
Mas ali estava por conta do tal diretório de estudantes, falara 45 minutos sobre os rumos da sustentabilidade ambiental, mas tinha de dizer alguma coisa e disse o seguinte: "Quem nunca leu Merleau-Ponty não merece viver".
O cara se deu por satisfeito e decidido a ler Merleau-Ponty para continuar a ter o direito de viver. De qualquer forma, a resposta impressionou a moça do check-in e quebrou o meu galho. Ao entrar no avião, me lembrei de que nunca lera Merleau-Ponty e, segundo minhas sábias palavras, eu não merecia viver.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Uma fábula


Uma fábula

RIO DE JANEIRO - Parece que foi na antiga Rússia dos tzares. Todo documento público precisava de estampilhas para ter valor legal.
Ivan Petrocivich perdeu a mulher e precisou comunicar o fato ao Registro Civil. Entrou na papelaria e pediu os selos necessários. O empregado lamentou não poder atendê-lo, não havia selos nem estampilhas, a Casa da Moeda estava fechada, todos os funcionários, do diretor ao faxineiro, estavam afastados ou presos por corrupção.
Ivan Petrocivich foi ao primeiro cemitério que encontrou, explicou a impossibilidade de legalizar a certidão de óbito, mas o coveiro que o recebeu nada pôde fazer: a instituição que explorava os cemitérios estava toda demitida por corrupção, vendia túmulos, mármores, enterravam quem bem entendessem, o jeito foi fechar os cemitérios.
Meio desesperado, Ivan Petrocivich apelou para a polícia. Pediu audiência ao chefe do sistema da Polícia Central, mas não foi atendido. Na véspera, o aparelho policial estava fechado, o Estado havia demitido toda a cúpula da instituição a bem do serviço público, dada a corrupção em todos os níveis.
Um vizinho o aconselhou a procurar o ministro da Justiça. Ivan Petrocivich chegou ao ministério e ali encontrou grande agitação. O ministro acabava de ser preso, estava algemado, dentro de uma troica que pertencia ao palácio do tzar. Mas a troica não saía do lugar porque faltavam os três cavalos de praxe, que na véspera haviam sido vendidos na bacia das almas, enriquecendo o noivo de uma das princesas da corte.
Desesperado ficou também o tzar. Garantiu que continuaria a combater a corrupção doesse a quem doesse.
Só não aprovou o uso das algemas, que começavam a escassear no mercado, uma vez que a principal fábrica de algemas estava sob intervenção federal devido aos frequentes casos de corrupção.



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os soluços do outono


Os soluços do outono

Ainda é inverno, na Europa ainda é verão, mas com a idade fui me libertando do tempo e das estações, há uma primavera no meio, mas já sinto aqueles "sanglots longs de violons de l'automne" do poema de Verlaine, afinal, o verão foi curto, a primavera, pouca, só o outono parece que vem para ficar e durar, além do inverno definitivo e inútil.
Como o atleta que não sabe se chega ao fim da corrida, como o pintor que ignora até que ponto aquela linha ou aquela cor o levará, primavera e verão são noviciados efêmeros da vida que afinal importará e que só será vida verdadeira quando abrirmos a lente grande-angular de nossas retinas e, desprezando detalhes, ou juntando-os para a perspectiva serena de nós mesmos, sentiremos os soluços longos de tudo o que passou e ainda não acabou, embora não possa ser resgatado. De que valeria o resgate se o chão dos parques e jardins estão atapetados de folhas que foram verdes e ainda não estão mortas, mas da cor de ouro, da cor dos cascos abandonados dos navios que não podem mais nem querem mais navegar.
Com suas âncoras cansadas, esperam resignadas, seu silêncio enferrujado, o grande mar que tantas vezes elas venceram, o grande mar que aos poucos fará parte delas mesmas, como as folhas mortas do outono voltarão à terra que não mais será nossa terra, mas aquilo que fomos, efêmeros embora.
Sempre lembro o amor outonal de Goethe por uma jovem. Somente a perspectiva do outono pode dar sentido a tudo o que aconteceu, a nós e a tudo. Aos 20, 30 anos, que nos importava a Guerra do Peloponeso, o ciúme de Otelo, o teto da capela Sistina, as sinfonias que Mahler ainda escreveria?
Em pleno verão de sua vida, quando escrevia o poema do médico senil que venderia a alma para possuir a juventude eterna, Goethe já começava a ouvir, distante ainda, os soluços longos do outono que se aproximava e do qual ele teve a perspectiva das folhas que formariam seu chão definitivo.
"Quando a imaginação desdobra as suas asas atrevidas, ela sonha com a eternidade em seu delírio; mas um estreito espaço basta-lhe quando um abismo devorou todas as suas alegrias e esperanças.
A inquietude aloja-se no fundo do coração e nele produz dores secretas: ela trabalha sem descanso e destrói o prazer e o repouso; assume mil fisionomias diversas: é ora o nosso lar, ora uma mulher, depois uma criança, uma casa, o fogo, o mar, um punhal, um pouco de veneno.
O homem treme diante desses males que não o atingirão e chora continuamente os bens que não perdeu." No tempo de Goethe, parece que ninguém fazia sinopses para poemas e romances, tudo vinha de repente, de uma perspectiva própria das "asas atrevidas da imaginação".
Os longos soluços, vindos do outono que se aproximava, davam-lhe o anúncio que não chegava a ser triste, mas final. Não podia terminar esta crônica sem voltar a Verlaine, em tradução de Guilherme de Almeida: "Estes lamentos dos violões lentos do outono enchem minha alma de uma onda calma de sono. E soluçando, pálido, quando soa a hora, recordo todos os dias doidos de outrora. E vou à toa no ar mau que voa: que importa? Vou pela vida, folha caída e morta".
E é por aí que, dos soluços cada vez mais longos e próximos, descubro não a tristeza do outono, mas a lucidez de sua verdade e de sua beleza.
PS: Se Guilherme de Almeida fosse apenas um tradutor, teria traduzido "violons" por "violino" -o que seria mais correto. Contudo, ele também era poeta -dos bons- e não perderia a oportunidade de obedecer ao ritmo do famoso verso que serviu de senha para os resistentes franceses da Segunda Guerra Mundial ficarem sabendo que os Aliados estavam desembarcando na Normandia, no início do que seria a libertação da França da ocupação nazista e, praticamente, do próprio fim da guerra.
De certa forma, o longo soluço de um outono para o tempo do homem em sua verdade final.


Texto de Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo, de 12 de agosto de 2011. Devo dizer que ele começa muito melhor que termina, mas é um belo texto.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Política é o Diabo

Política é o diabo

FRANCO ZEFFIRELLI passou temporadas no Rio e numa delas montou uma ópera no Municipal. Convivi com ele, naquela ocasião. A ideia original era uma apresentação de "Tosca", mas ele preferiu "A Traviata", que é uma adaptação da "Dama das Camélias". Insisti pela ópera de Puccini, embora nada tivesse contra a obra de Verdi.
Ele não apreciava o drama de Victorien Sardou, no qual Puccini buscou a história de "Tosca", um quadro bastante amplo das lutas políticas do "ottocento", quando Napoleão invadiu a Itália, libertando-a do absolutismo e da tirania.
O amor entre a cantora Floria Tosca e o pintor Mario Cavaradossi foi um pretexto para Sardou colocar em cena a luta contra a tirania -quando, por mais que pareça absurdo, Napoleão, o invasor, era também o libertador.
Puccini havia assistido ao drama de Sardou em Paris e ficara impressionado não com o "background" histórico da peça, mas com a interpretação de Sarah Bernhardt. Até hoje, todas as Toscas do mundo copiam a sua atuação. Foi assistindo Sarah Bernhardt que Puccini decidiu-se pela obra de Sardou, dando-lhe a eternidade de uma das óperas mais populares.
Bem, o diretor Franco Zeffirelli que aprecia o Puccini de "Turandot" (é famosa a sua versão no Scala) e adora "La Bohème", simplesmente não se entusiasmava com uma ópera em que um preso político é torturado em cena aberta e morre fuzilado, porque se recusou a delatar um subversivo (em tempo: aqui no Brasil, já vimos esse filme, ou melhor, essa ópera). Zeffirelli acabou explicando a razão do seu repúdio: "A política é o Diabo!" Ele falou assim mesmo, como se a palavra "Diabo" começasse com letra maiúscula.
E não precisou falar mais: entendi o que ele quis dizer. Se o Diabo deixasse de existir, ou se nunca existiu realmente, tanto faz. Existe a política e todas as funções do Diabo podem ser exemplarmente cumpridas pela política.
Associar Zeffirelli, Puccini, Tosca e o Diabo pode parecer gratuidade, mas nem tanto. No dia a dia da luta ideológica, no fogo cruzado e nem sempre leal das posições e contestações, o homem transformado em animal político coloca a ideologia acima de qualquer outro valor. Daí ser justo e meritório, em nome da Causa (e não importa que causa seja), mentir, matar, roubar, difamar, torturar, aniquilar o adversário. Que muitas vezes nem chega a ser adversário, mas um amigo e aliado que, em algum momento, pensa com a própria cabeça e discorda da tese adotada pelo partido, pelo grupo, pela maioria eventual que domina a ala que detém o poder.
A luta ideológica do nosso tempo -como a de qualquer outro tempo- custou milhares de vítimas que foram assassinadas pela repressão. Mas milhares de vítimas também foram mortas, física e moralmente, pelos próprios companheiros, fanatizados pela verdade ocasional, pela estratégia ou pela tática da situação. Daí a constatação de que a revolução devora os seus filhos.
Exemplo: os comunistas condenavam à ignomínia os companheiros que acidentalmente discordavam da linha do partido. O chão ideológico está coberto de cadáveres mutilados pela Causa. Jorge Amado, que felizmente naquela época não chegou à condição de cadáver, sofreu discriminação e até mesmo boicote, porque, sem nunca abandonar o socialismo, não dizia amém aos donos da verdade gerada pelo Comintern.
Lembro também Agildo Barata, que foi acusado de roubar a caixa do partido (o velho PCB não tinha imaginação, e qualquer desvio ideológico terminava com a acusação de roubo da caixa).
Agildo foi um herói de 1930, podia ter sido um dos poderosos de sua época desde que acompanhasse os colegas militares que se bandearam para o grupo que colocou Getúlio Vargas à frente do movimento que derrubou a República Velha.
Ele preferiu continuar a revolução na qual acreditava, liderando a revolta de 1935. Preso, caluniado, odiado e perseguido pelo governo, manteve-se fiel ao partido até que, depois do primeiro terremoto na versão soviética do comunismo, passou a ser odiado, perseguido e caluniado pelos companheiros da véspera.
A política, como "la donna" da ópera de Verdi, é "mobile". Por meio dela, o Diabo não se dá por vencido, aliás, nunca se deu, desde que foi expulso do céu, na primeira rebelião que para sempre infernizaria, literalmente, demônios e homens.


terça-feira, 24 de maio de 2011

Nelson Werneck Sodré

Nelson Werneck Sodré

RIO DE JANEIRO - Entre os centenários que, neste ano, estão sendo comemorados, destaco o de um dos homens que mais me impressionaram pela sua cultura e dignidade.
Não o conhecia pessoalmente, mas lia os seus livros com prazer e proveito. Logo no início da quartelada de 1964, estava preso numa das fortalezas da Guanabara, fora dos primeiros a ser punido pelos seus colegas de farda, pois se tratava de um general cujo pensamento desagradava aos homens que haviam tomado o poder.
Todos os que o conheceram tinham a certeza de que era um dos homens mais íntegros de nossa paisagem intelectual. Podiam discordar dele, mas sabiam que Nelson Werneck Sodré (1911-99) colocava, acima de tudo, a dignidade do ser humano, a sua e a dos outros. Sua obra abrange três segmentos interativos pela sua cultura de fundo humanístico: a literatura, a sociologia e a história. Foi mestre nos três departamentos.
Tornou-se citação obrigatória de todos os pesquisadores que estudam o processo brasileiro como um todo, e não em seus departamentos estanques.
Um texto de Nelson Werneck Sodré sobre Machado de Assis ou sobre um dos nossos ciclos econômicos se destaca pela abrangência de sua visão. Conhecia o geral e chegava ao particular. Sabia ver a árvore e a floresta.
Um dos líderes mais respeitados da nossa intelectualidade, nunca se deixou fascinar pela badalação inconsequente de certa época, nem pelo radicalismo carreirista que marcou a carreira de tantos. Nunca deixou de ser um ponto de referência do pensamento brasileiro. Teórico do nacionalismo, jamais se tornou xenófobo.
Recusou cargos, compensações e homenagens. Viveu austeramente. Formava o escalão mais consciente da esquerda que ele procurou ensinar, explicar e pela qual sacrificou sua vida.

terça-feira, 10 de maio de 2011

O terrorista emérito

O terrorista emérito

RIO DE JANEIRO - Os norte-americanos são como o Botafogo: há coisas que só acontecem com eles. E como a bandeira deles tem muitas estrelas (a do Botafogo só tem uma), o resultado é que são exagerados, no bem e no mal.
A caçada a Bin Laden, que seria uma decorrência natural e justificável na luta contra o terror organizado, teve um final polêmico, que dará assunto para muitos filmes de ação -alguns deles já devem estar sendo produzidos.
Não se sabe por que o governo dos Estados Unidos gosta de mentir, e grande parte de sua história tem leituras conflitantes, como as mortes de Lincoln, Kennedy e até de Marilyn Monroe.
Bush mentiu e obrigou o general Colin Powell a mentir e a confessar que mentiu no caso da invasão do Iraque, país acusado de estar fabricando armas de extermínio massivo. Bem verdade que no caso do Paquistão ainda é cedo para surgir a verdade verdadeira (se o pleonasmo é possível). O episódio tem todos os germens para diversas teorias conspiratórias, a começar pela própria morte de Bin Laden, cujo cadáver foi jogado apressadamente no mar.
Fotos e filmes posteriores poderão ser contestados. O exame de DNA não prova nada. Para citar Eça de Queiroz: os norte-americanos "fizeram-na boa".
Quanto ao terrorismo em si, um terrorista só, como uma só andorinha, não faz verão. Os atentados continuarão, Bin Laden podia ser considerado um terrorista emérito, como FHC é professor emérito. Estava desativado, morava numa casa com crianças e mulheres, sem telefone, TV, internet.
Como podia dirigir uma rede internacional de capangas? Nem assistia ao programa do Faustão, não jogava na Mega-Sena e pagava tributo ao Grande Satã consumindo Coca-Cola e Pepsi. O que podia se esperar de um velho bandido assim?


terça-feira, 3 de maio de 2011

Tasso da Silveira

Tasso da Silveira

RIO DE JANEIRO - Um nome que apareceu na mídia de forma inesperada e dramática. Contudo não li uma única linha na imprensa escrita, nem ouvi, no rádio ou na TV, o mínimo comentário sobre Tasso da Silveira (1895-1968), cujo nome inocente e ilustre foi dado a uma escola em Realengo.
Trata-se de um brilhante intelectual da primeira metade do século passado, sobretudo um professor estimado pelos alunos, além de poeta e ensaísta que marcou uma corrente de origem simbolista, da qual fizeram parte poetas como Cecília Meireles e Murilo Mendes.
O grupo de Tasso da Silveira foi o contraponto literário e espiritual do nativismo dos Andrades, Mário e Oswald.
Ele praticou, segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos, "uma poesia simples, clara, de cunho moral, cheia de espiritualidade e leveza; a nitidez e a religiosidade de seus versos atingem o auge em "O Canto Absoluto", de 1940".
Por ironia do destino, o nome de um homem delicado, marcado pelas coisas do espírito, foi dado a uma escola que serviu de cenário a uma das maiores tragédias da vida nacional, o massacre de 12 crianças em 7 de abril. Ouço comentários de gente ligada ao magistério e às letras sobre a conveniência de se mudar o nome da escola, a fim de que o poeta e professor de tantas gerações não fique associado ao episódio de Realengo.
Aliás, é um problema que caberá às autoridades municipais decidir: se devem manter como escola o prédio manchado por sangue ou se dão ao edifício outro destino que não lembre a chacina de tantas crianças.
O nome de Tasso da Silveira continuará merecendo memória em outro estabelecimento de ensino ou em fundação oficial destinada à educação da juventude, para resgatar a herança que nos deixou um homem que viveu em função do bem e do belo.


quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um casamento irreal

Um casamento irreal

RIO DE JANEIRO - Mais pelo desinteresse pessoal do que pelo peso dos anos, não estou dando a mínima bola para o casamento na família real da Inglaterra. Trata-se de uma reprise em versão de filme B. Entre as desditas de minha vida profissional, incluo a ida a Londres para cobrir o casamento do príncipe Charles com Lady Di, por conta de duas revistas de amenidades, "Manchete" e "Fatos&Fotos".
A confusão começou na agência da Keystone, que trabalhava para o mesmo grupo. Mesmo assim, consegui credencial para um bom lugar, onde vi Lady Di entrar na catedral de São Paulo carregada pelo pai, um tal de lorde Spencer, que por sinal exagerara no gim e estava trôpego. Não foi ele que levou a filha ao altar: a filha é que o levou até lá.
O príncipe Charles estava simplesmente apavorado, olhava para a mãe que o fiscalizava, em busca de uma aprovação que não foi completa. Foi nessa cerimônia que vi o personagem mais gordo do mundo, um rei de país africano que equivalia a cinco Jô Soares comprimidos. Kiri Te Kanava salvou a festa cantando Handel.
A imprensa mundial queria a foto dos nubentes se beijando na sacada do palácio. O beijo demorou, foi preciso a intervenção de muita gente para que os dois se beijassem à frente da multidão. Sabia-se que o príncipe tinha um caso. O que não se sabia era o tipo de princesa que Lady Di ameaçava ser.
Londres estava uma festa. Nas confeitarias, os bolos tinham a cara dos noivos, em todas as lojas e ruas o casal comparecia de mil formas, comia-se e vestia-se com Charles e Diana, um "conto de fadas" -como agora a imprensa classifica o novo evento.
Foi um dos maiores sacos de uma carreira profissional mais do que modesta. Ali mesmo, roguei pragas, tais e tantas, que o casamento deu no que deu.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Homem: esse desconhecido

Homem: esse desconhecido

RIO DE JANEIRO - Sentou-se ao meu lado, quase nos fundos do Airbus que me levaria a São Paulo. Tinha seus 50 anos. Levava uma sacola. O que me impressionou foi o bolso de sua camisa. O paletó aberto deixava ver tudo o que ali havia.
Umas cinco ou seis canetas de diferentes feitios e cores. "Para que tantas canetas diferenciadas?" -foi o que pensei. Mas além das canetas, tinha no mesmo bolso uns cinco caderninhos de agenda, suficientemente manuseados. Que endereços e telefones o obrigavam a trazer colados ao peito tantos caderninhos?
E havia mais. Um envelope comprido, que parecia um aviso bancário ou coisa equivalente. E, naturalmente, o cartão de embarque do voo das 16h20.
O bolso estava estufado, estufadíssimo. Mesmo se quisesse, ele não poderia fechar o paletó. Olhava-o, fascinado, tentando imaginar quem seria aquele companheiro de viagem, o que fazia, o que já fizera pela vida afora.
Olhei seu rosto. Era indecifrável, e estava cansado de um dia difícil. Usara aquelas canetas todas? Consultara aquelas agendas? Quando chegasse em casa, o que faria com elas? Deixaria os filhos mexer naquilo tudo?
Tive uma ideia sinistra: se o avião caísse e aquelas canetas e agendas se misturassem com o meu esqueleto espatifado? Quem sairia perdendo ou ganhando?
Acho que sairia perdendo. Em primeiro lugar, pelo esqueleto espatifado. Em segundo, porque os peritos ficariam confusos diante dos meus ossos de cambulhada com tantas canetas e cadernos. Talvez eu assumisse a identidade daquele homem.
Bem, torci para que o avião não caísse. Pensei que esqueceria o companheiro de viagem. Vejo que não. Ontem, abri o jornal e vi a foto dele. Chamava-se Amaro. Era pracista de uma indústria de azulejos. Foi morto pela amante, que se chama Rosária.