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domingo, 14 de janeiro de 2018

O desespero e a graça

No escritório de Carlos Heitor Cony, perto do computador, havia duas pequenas reproduções de Goya. Uma correspondia à fase mais atormentada do pintor: embrulhadas em roupas negras, bruxas se acocoravam contra um céu de chumbo.
Ao lado, uma cena galante de arlequins e cortesãs, num parque ensolarado e verde-claro, fazia lembrar que o artista espanhol tivera seu fastígio em pleno século 18, antes que a brutalidade das invasões napoleônicas modificasse sua visão de mundo.
O primeiro quadro, dizia ele, "são meus romances". O segundo, "as crônicas".
De certo modo, Cony aceitava a opinião tradicional, que associa a crônica a um texto sorridente, descompromissado e ligeiro.
morte de Carlos Heitor Cony priva o país, e a Folha, de um mestre absoluto do gênero –e de um escritor cujo profissionalismo jamais permitiria infringir abertamente as regras prescritas pela convenção.
Seus textos para o jornal foram, portanto, deliciosos de ler, arejados, com um leve perfume de poesia que ele dosava à perfeição.
Mas acontecia de as sombras grotescas das feiticeiras de Goya cruzarem sua memória no meio de uma frase –para serem afastadas num gesto quase que de mau humor, com o qual Cony recuperava a graça exigida pelo gênero jornalístico.
Depois de deixar o seminário, ele se impregnou da filosofia existencialista. Sartre e Camus abriram sua sensibilidade para o absurdo e para a absoluta solidão do indivíduo nas suas escolhas morais.
Pego, meio ao acaso, uma crônica de Cony. Chama-se "Acidente de percurso da química e da gula". Começa assim:
"Não sei bem por que, mas eram considerados primos. Em algum ponto havia uma bifurcação genética e os Almeida da Silva tinham alguma coisa a ver com os Moraes, nossa família materna."
O registro, claro, é o da memória, cotidiana e doméstica. Não se trata, contudo, de recuperar o passado. O narrador não se lembra bem do parentesco; na verdade, nunca soube –e sugere que isso não tem importância.
Surge então o detalhe, este sim memorável: naquele ramo da família havia seis mulheres. "Casaram-se no devido tempo, um dos maridos mexia com produtos químicos, daí que todos eles receberam a classificação coletiva de 'Químicos'".
Apesar de característico, o traço mantém certa imprecisão: "no devido tempo" (quando?), "um dos maridos" (qual?), "mexia" (vendia? Fabricava?), "produtos químicos" (de que tipo?).
Pouco importa. O fato de serem chamados de "químicos" não interfere em nada no desenvolvimento da história, que se concentra no fato de que esses parentes eram "vorazes".
"A especialidade deles", continua Cony, "era frequentar festas em que havia bufê." O líder do grupo, chamado Eurico, vivia da renda de "cinco casas no Cachambi". Dormia "até tarde e, à tarde" (note-se o falso descuido ao repetir a palavra), "gostava de Vicente Celestino e empadinhas de camarão".
Nada disso, parece dizer Cony, tem importância ou razão de ser. Vivemos num universo em que as coisas são simplesmente assim. Poderiam ser quatro casas, poderiam ser em outro bairro, poderia ser outro cantor, poderia ser outro salgadinho. Nada disso modifica nada.
A turma fica sabendo de um casamento rico, mas o convite por escrito não veio. A festa seria na casa de um "comerciante de queijos" na rua Sacadura Cabral. Ou seria em outra rua? Talvez a Gago Coutinho?
Naquele mundo arbitrário do texto, em que um detalhe poderia ser outro qualquer, eis que a imprecisão, a falta de motivos para que algo seja o que é, contamina os próprios personagens –também eles se confundem no específico, trocam uma coisa por outra qualquer.
Terminam parando no lugar errado –e batem à porta (outro acaso inexplicável) de um poeta famoso nos anos sessenta, menos pelo talento do que pelo engajamento político: Thiago de Mello, que organizara uma recepção a outro poeta, um chileno chamado Juvêncio Valle.
A noite transcorre com o chileno recitando versos sobre "a libertação dos povos da América Latina e dos povos afro-asiáticos". Quando acaba o último poema, "Thiago de Mello mandou buscar umas pizzas numa padaria no Largo do Machado".
E a crônica termina nessa frase, como se nenhuma conclusão fosse possível.
Cony é um artista do anticlímax.
O senso lírico da desimportância de todas as coisas se traduz, para Cony, em absurdo, em falta de sentido. Sua ironia não é doce, como em tantos outros cronistas: é no desespero que ele encontrou a sua graça.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, a respeito de Carlos Heitor Cony, recentemente falecido. 

'Consciência do que fazia era absoluta', diz Janio de Freitas sobre amigo Cony

Aberta a grande porta, o saguão do seminário foi invadido pela rumba "Siboney", mandada do outro lado da rua pelo comitê de um candidato à Presidência. Mas o som do mundo a recepcionar o já ex-seminarista também podia ser a marchinha carnavalesca "Jardineira". Ou o samba "Implorar". Ou outro. A depender da ocasião em que a cena era descrita por seu protagonista.
Em 1945 também não houve campanha presidencial, a ditadura de Getúlio só foi derrubada em outubro. Datas, situações, fatos podiam ficar sob a rubrica "rigor histórico". Nenhuma memória valeria a imaginação de um pormenor ou de um fato capazes de dar dramaticidade, sabor original, um toque literário que fosse, à realidade insatisfatória. Conter o impulso ficcionista, quando obrigatório fazê-lo, parecia revoltante a Cony, uma repressão ao privilégio da sua fertilidade imaginosa.
Há uma diferença essencial a ser observada, sempre, nas rebeldias ficcionais de Cony contra a memória dos fatos e mesmo contra fatos. Cony não inventava, no sentido de uma elaboração. Sua fonte não era a má-fé. O fictício lhe ocorria, jorrava, nada mais que isso, e ganhava a sua certeza com uma convicção capaz até de provocar atritos e mágoas.
Em crônica na Folha, um momento de nostalgia levou-o a falar das saídas juntos do "Correio da Manhã", sempre alta noite, dele, Antonio Callado, Luiz Alberto Bahia e eu. Deixei passar, mas logo fui indagado sobre aquelas noites e companhias, e pressenti mais um equívoco a caminho. O quarteto podia ser um trio: nunca trabalhei com Callado e Bahia.
Imprecisão irrelevante, não era o caso de correção. Bastaria informá-lo. Mas foi impossível convencer Cony de que me lembrava bem de onde trabalhei e em que época. Sua certeza de minha presença incluía, além de conversas, caronas no seu carro até minha casa. Nada mais a discutir. Nunca o vi aceitar com naturalidade uma observação, de quem quer que fosse, sobre divergências suas com a memória alheia. Ficção e realidade eram uma coisa só.
Nem por isso soube que guardasse por muito tempo alguma zanga da sua sensibilidade. Exceto, talvez, pelo que foi ou seria o boicote ao seu romance "Pessach".

Mas, no caso, o ressentimento não era de pessoas determinadas e, sim, do Partido Comunista. Comunistas ligados à cultura negaram o boicote. Ainda, porém, que Cony pudesse ter uma visão desproporcional de parte da história, tinha razão quanto à discriminação aplicada ao seu livro, publicado paralelamente ao "Quarup" de Callado.
O episódio com "Pessach" mostrou a muitos um Cony desconhecido. Emergia ali, do Cony ameno, bem-humorado, ótimo de conversa, um Cony áspero, rijo, inabordável. Grosseiro até, como o próprio caso era. E muito emocional.
Fui dos que se enganaram com o seu temperamento, embora anos antes. Indefinido politicamente, Cony me pareceu o mais adequado para uma seção, "Diálogo", que decidi lançar no "Correio da Manhã", para diálogo mesmo com leitores missivistas. Eram tempos de radicalidade política muito maior que a atual, embora sem o ódio público do país embrutecido de hoje em dia.
Errei na escolha. As respostas para a seção inaugural eram de violência assustadora. Jornal não publicava carta de leitor fascistoide insultando jornalista gratuitamente nem achava que jornalista tem que engolir insulto. Foram dias de seção a ser reescrita e de cuidados nas relações. Comecei a desvendar ali uma violência refreada que me explicava algo para mim intrigante na literatura do escritor Cony de até então: a violência subjacente.
A mesma carga esteve, sob outra forma e outro propósito, nos artigos de Cony seguintes ao golpe de 64. Ainda há quem atribua esses escritos a uma dose descontrolada de irresponsabilidade do autor. Estive muitas vezes com Cony naqueles dias, conversando sobre artigos escritos e a escrever. Sua consciência do que fazia, do que sentia necessidade pessoal de fazer, era absoluta. E, enfim, mais forte do que a impulsão do ficcionista.
Os anos que passou, como dizia, sem escrever, na verdade foram sem publicar sua literatura. Certa vez o admitiu, para nunca mais. Avião o incomodava, e suponho que por isso falasse muito em nossas idas e vindas de reuniões em São Paulo.
Tinha muita coisa escrita, sim, e parte dela começava a ser aproveitada —como se pode notar em trechos de um ou outro romance da sua "volta". Mas esse não era um assunto de que gostasse. Parecia preferir conversas sobre outros autores. Aos novos, aliás, tratava com farta generosidade.
Em toda a história da Academia Brasileira de Letras, Cony foi o único autor de quatro discursos de admissão —três de posse, incluída a do próprio, e um de recepção. Nem seus colegas de fardão sabem disso, a não ser os que só entraram com o nome. 


Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, a respeito do recentemente falecido colega Carlos Heitor Cony.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Garantias

Em artigo na Folha do dia 23, o jornalista Mário Chimanovitch define ironicamente como "almas sensíveis" e "almas bem-intencionadas" os jornalistas que repudiam as práticas do Estado, qualquer Estado, como as reveladas por Snowden, Assange e o recém-condenado Manning. Acha ele que a liberdade de informação não pode "se sobrepor ao direito do Estado de garantir a segurança do seu território e de seus cidadãos diante da ameaça letal, onipresente, do terrorismo islâmico inspirado em organizações como a Al Qaeda" (...).
Nada do divulgado pelos três implicou "ameaça letal" nem alimentou terrorismo. Mas Chimanovitch indaga, já explicitada sua resposta: "Que direitos, enfim, foram outorgados ao jornalista para que ele, como senhor absoluto da verdade, se empenhe em burlar os mecanismos do país onde trabalha ou que se configura em alvo de suas investigações', para expor dados que fatalmente vão comprometer medidas e pessoas empenhadas na proteção de seres humanos e bens nacionais?"
O jornalista a que Chimanovitch se refere não é menos "senhor absoluto da verdade" do que ele próprio mostra considerar-se, embora não tenha "alma sensível" nem "alma bem-intencionada".
Mesmo tal carência não impede de saber, porém, que na Alemanha nazista não era possível publicar nada sobre campos de concentração e outros crimes do Estado e do governo, a título de "garantir a segurança do seu território e de seus cidadãos diante da ameaça letal" de ciganos, homossexuais, deficientes físicos e, mais do que todos, judeus.


Mais Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O mito do jornalismo chapa branca


De vez em quando, leitores escrevem para reclamar que me consideram um blogueiro chapa branca em função de minha avaliação positiva das mudanças ocorridas no país depois de 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República.

Minha primeira observação é que boa parte dessas críticas refletem um comportamento interesseiro e seletivo. Essas mesmas pessoas não me chamariam de “chapa branca” se eu tivesse a mesma avaliação do governo Fernando Henrique Cardoso – ou mesmo da gestão do PSDB em São Paulo. Tentariam desqualificar argumentos, rebaixar uma discussão que é acima de tudo política, pois envolve valores e prioridades nas políticas públicas? Claro que não.

Não custa lembrar, na verdade, que o critério “chapa branca” não serve e nunca serviu como termômetro para se avaliar o trabalho de um jornal nem de um jornalista.

Em 1964, um único jornal de relevo, a Última Hora, era chamado de chapa branca. Os demais, adversários duros de João Goulart, jamais poderiam ser chamados assim. No 31 de março, todos estavam alinhados com o golpe militar que atirou o Brasil numa ditadura de 21 anos. Quem estava certo?

Três dias antes do golpe, o Correio da Manhã, que era favorável a Jango, mudou de lado e se alinhou com os adversários. No dia 31 de março, no célebre editorial “Basta!”, o Correio escreveu:

“O Brasil já sofreu demais com o governo atual. Agora, basta!”

No 1 de abril, quando Goulart ainda se encontrava no país e a vitória dos golpistas estava consolidada, o Correio publicou o editorial “Fora!” Disse: “Só há uma coisa a dizer ao sr. João Goulart: saia.”

Pergunto quem errou: o jornal que hoje seria chamado chapa branca ou aqueles que faziam oposição e ajudaram na correnteza que levou ao golpe?

Os inúmeros defeitos que se podem apontar no governo Goulart justificavam que se assumisse uma postura de oposição feroz e golpista?

Muitos leitores têm dúvidas sinceras sobre o papel do jornalismo e dos jornalistas ao longo da história do país. Há motivos antigos – como 1964 -- e recentes – como 2005 – para isso. Há oito anos, como se recorda, a partir da denúncia do mensalão, criou-se um ambiente de confronto e polarização entre o governo Lula e os meios de comunicação, que atravessou duas eleições presidenciais e chegou aos protestos de junho de 2013.

Para entender o que acontece hoje, é instrutivo ler o que escreviam nossos jornalistas – aqueles que não eram chapa-branca -- de meio século atrás. Há antecedentes lamentáveis e surpreendentes.

Vamos citar um dos mais influentes, Helio Fernandes, que dirigia a Tribuna da Imprensa e acusava Jango de promover a “pré-sovietização do país, que se processava num ritmo alucinante”. Convém prestar atenção à linguagem empregada para se referir aos aliados de Jango: “Na maioria das vezes são traidores. Outras, são mercenários; outras ainda, carreiristas; outras mais, negocistas satisfeitos.”

Dez anos antes, na conspiração que levou Getúlio Vargas ao suicídio, os grandes jornais brasileiros estavam unidos contra o presidente. Naquele contexto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, os jornais do Partido Comunista Brasileiro, hoje PPS, também atacavam o governo e denunciavam a “ditadura” de Vargas. Eles também não eram “chapa branca.”

Confiando que a revolução sob inspiração de Moscou estava a caminho, os comunistas trabalhavam pela derrubada de Vargas, a quem definiam como marionete dos “patrões americanos,” como recorda Mário Magalhães na biografia de Carlos Marighella. Quando Carlos Lacerda sofreu o atentado da rua Toneleros, o jornal do PCB uniu-se a oposição conservadora para emparedar o presidente: “Vargas responsável pelo covarde crime.” No dia em que Vargas deu o tiro no peito, a imprensa do PCB chegou as ruas com manchetes em tom celebrativo e acabou empastelada por uma massa de trabalhadores indignados.

Décadas depois, com uma coragem rara, José Gregori, então líder dos estudantes da Faculdade de Direito da USP que queriam a deposição de Vargas, admitiu em seu livro de memórias que em 1954 participou de uma “revolução errada,” feita às costas do povo.

Teria o ex-ministro de FHC se transformado num chapa branca retardatário? Ou foi um memorialista honesto, respeitando a própria lucidez?

Poderíamos falar de outros exemplos, dentro e fora do país, mas estes dois casos ajudam a mostrar o caráter abstrato e absurdo dessa discussão.

Foi Millor Fernandes quem cunhou uma frase que muitos repetem até hoje.  Disse Millor: “Imprensa é oposição. O resto é secos e molhados.”

Podemos até admitir que Millor, um raro caso de intelectual libertário (no sentido antigo da palavra) por convicção pessoal e inegociável, estivesse convencido de que sua frase podia ser empregada a todo momento, sob qualquer cenário. Mas seu sentido real envolve o período da ditadura militar.

Depois de auxiliar na derrubada de um governo constitucional, os jornais foram colocados sob pressão do regime dos generais. Um pouco mais tarde, apesar daquelas palavras tão veementes, Helio Fernandes foi confinado em Fernando de Noronha depois de escrever um artigo que desagradava os generais. Outros jornalistas enfrentavam a censura e também engoliam imposições típicas de um regime de força. Alguns prestavam serviço auxiliar aos órgãos de informação da ditadura e não mostraram sequer a decência de proteger profissionais cuja integridade era colocada em risco pelo aparato de repressão e tortura.

Ao falar que “imprensa é oposição” o grande Millor alimentava a dignidade e a coragem do jornalismo num momento muito delicado.

Mas será que isso é válido, a todo momento? É preciso ser oposição, sempre, sob o risco de comprometer o bom jornalismo?

Ao lutar dentro da VEJA para ter direito usar as páginas da revista para manifestar seu apoio a eleição de Leonel Brizola em 1982, num conflito que levou a seu afastamento da publicação, o próprio Millor deixou claro que não tratava todos os políticos, em todas as circunstancias, da mesma maneira. Não só fez questão de defender sua liberdade pessoal mas também deixou claro que era mais oposição a uns do que a outros.

A vida política, que é o ambiente principal onde o jornalismo se situa, é fabricada pela conjuntura, que exige respostas novas a situações imprevistas, que não podem ser rebatidas com frases prontas – ainda que sejam ótimas, em outras situações. A crítica maior ou menor a um governo não é fruto de um critério abstrato e fixo, mas envolve uma avaliação do momento e do papel que cada governante pode cumprir em cada circunstância.

É claro que Fernando Henrique Cardoso sempre seria melhor tratado pela maioria dos meios de comunicação do que Lula ou Dilma. Isso porque, do ponto de vista político, ele representava opções que os donos e executivos dos meios de comunicação consideravam mais adequadas ao país. FHC foi alvo, sim, de jornalistas interessados em apurar as mazelas de seu governo. Mas havia limites a este espírito crítico. Embora Fernando Henrique tenha vencido duas eleições presidenciais em primeiro turno, os executivos de jornal jamais sentiram-se na obrigação moral de auxiliar a oposição de Lula com o argumento de que estava muito “fraquinha.”

A rigor, não me lembro das preocupações com “chapa branca” durante os oito anos de governo tucano. A principal crítica era ao “denuncismo”, conceito que que servia para tolher reportagens – verdadeiras ou falsas, – que poderiam prejudicar governo FHC. Até Paulo Maluf foi poupado para evitar-se um ambiente que pudesse estimular outras investigações. Isso confirma o caráter interesseiro do debate. Fala-se em "chapa branca" quando se quer atacar o governo. Em "denuncismo", quando se quer impedir que seja atacado.

Não acho que exista um governo imune a critica e a uma avaliação capaz de apontar defeitos e incoerências. Mas é errado fingir que não há diferenças entre os governos. Há valores e perspectivas. Os números alcançados pelo país, na ultima década, traduzem um esforço inédito para reduzir a desigualdade social e elevar a condição dos brasileiros mais pobres.

Você até pode ensaiar uma disputa pedante sobre direitos autorais de quem teria tido as melhores idéias mas não pode negar quem demonstrou mais empenho e capacidade para reduzir a pobreza e ampliar as oportunidades de quem se encontrava nos degraus mais baixos da pirâmide social. A luta contra a desigualdade, para mim, é o valor prioritário num país como o nosso. Ela define o caráter da democracia que queremos e do futuro que se pretende entregar as novas gerações. E eu considero que é a partir deste angulo que se deve examinar o conjunto de um governo.

Os sinais e prioridades se alteram ao longo do tempo para lembrar que o debate sobre “chapa branca” sempre surge numa situação específica, a partir de vozes que pretendem desqualificar interlocutores que têm outra visão do país e seus problemas.

Habituadas ao universo autoritário do pensamento único, algumas pessoas são tão conformistas, tão submetidas à hierarquia e à divisão entre trabalho manual e intelectual – que também se expressa na hierarquia das redações -- que não conseguem ouvir uma voz diferente com naturalidade.

Ficam inseguras, receosas. Num esforço para silenciar o debate, que todos fingem estimular fora do expediente, algumas vozes não resistem e perguntam, num chamado a ordem, numa espécie de porrete ideológico, onde parecem perguntar: mas o dono não está vendo?

Na essência, essa reação nada mais é do que um esforço vergonhoso para reprimir o direito de opinião política. Isso e apenas isso.

Talvez seja por coerência, e não por pura coincidência, que, em horas decisivas, essa postura acabe perfilada a forças capazes de ações extremas como um golpe de Estado.

Trata-se, em situações diferentes, de um mesmo combate contra valores democráticos.

Deu para entender?


Do blog do Paulo Moreira Leite.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sem debate sobre espionagem, Snowden vira vilão nas TVs


As denúncias de invasão de privacidade foram colocadas de lado na cobertura da TV e de boa parte da imprensa americana. O foco agora é a caça ao delator Edward Snowden, chamado em várias reportagens de "espião" e "traidor dos EUA".
Até o jornalista que lidou com Snowden virou vilão.
No dominical "Meet the press", o apresentador David Gregory questionou o jornalista Glenn Greenwald sobre as denúncias escritas por ele no " Guardian". "Se você ajudou e foi cúmplice de Snowden, não deveria também responder criminalmente?"
Greenwald defendeu o jornalismo investigativo. Depois, no Twitter, escreveu: "Quem precisa do governo para tentar criminalizar o jornalismo quando se tem David Gregory para fazê-lo?"
A polêmica levou Jeff Jarvis, professor de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova York, a lançar: "Gregory, você está ajudando e sendo cúmplice do governo?".
O colunista do "New York Times" Andrew Ross Sorkin disse na TV que "quase prenderia" Greenwald junto com Snowden. "Ele deve estar ajudando na fuga."
Greenwald retrucou, citando crítica feita nos EUA a Snowden de que ele estaria pedindo asilo a países repressivos, como Rússia e Cuba. "Que horrível que Snowden viaje a países sem liberdade. Mas jornalistas americanos devem ser presos?"
Ontem, a CNN usou como manchete "Snowden provoca tensão diplomática".
No mês passado, o governo justificou grampos a jornalistas da Associated Press e da Fox News por "segurança nacional". Parte da imprensa americana parece aprovar a espionagem governamental em detrimento da investigação jornalística.


Reportagem de Raul Juste Lores, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Morte de jornalistas inibe trabalho da imprensa em Minas


Morte de jornalistas inibe trabalho da imprensa em Minas
Dois repórteres da editoria de polícia do jornal 'Vale do Aço', de Ipatinga, foram assassinados em pouco mais de um mês
Profissionais são orientados a não saírem sozinhos da Redação; suspeita é de atuação de grupo de extermínio

As mortes de dois jornalistas de Ipatinga, na região do Vale do Aço, em Minas, vêm alterando a rotina e inibindo o trabalho da imprensa local.
Primeiro foi a morte do repórter Rodrigo Neto de Faria, 38, em março. No último domingo foi assassinado o repórter fotográfico Walgney Carvalho, 43. Os dois trabalhavam na editoria de polícia do jornal "Vale do Aço".
Existe a suspeita de envolvimento de policiais que fariam parte de um grupo de extermínio que atuaria na região. Por isso o temor dos jornalistas, especialmente entre os da cobertura policial.
Desde a morte de Faria, o "Vale do Aço" não consegue preencher duas vagas abertas no jornal por falta de candidatos, disse o editor da publicação, Breno Brandão.
No "Diário Popular", também de Ipatinga, uma repórter policial pediu demissão na última segunda-feira e saiu do Estado, afirmou o editor-chefe Fernando Benedito Jr.
O temor se reflete na rotina das duas pequenas redações, que têm de cinco a oito jornalistas cada uma. E ainda na apuração das reportagens.
"O pessoal que está em campo, até de outras editorias, está receoso e preocupado", disse Brandão, que tem incentivado a saída de repórteres para coberturas externas sempre com um colega, ainda que de outra empresa.
Segundo Benedito Jr., as reportagens que exigem apuração mais aprofundada foram deixadas de lado. A cobertura está limitada a ocorrências da Polícia Militar e demais informações oficiais.
Para acompanhar as investigações e cobrar apuração e segurança, jornalistas da cidade formaram um comitê batizado Rodrigo Neto.
O jornalista produzia reportagens investigativas e tentava elucidar uma série de 14 homicídios ocorridos nos últimos anos na região, que não foram solucionados.
Um dos casos ocorreu em 2008. Um adolescente infrator foi morto, teve a cabeça decepada e embrulhada em folhas com reportagens escritas pelo jornalista. O embrulho foi jogado na casa de um capitão da PM que apurava o crime.
Já Carvalho havia prestado informações à polícia sobre a morte do colega de trabalho, segundo o deputado estadual Durval Ângelo (PT), da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia de Minas.
O governador Antonio Anastasia (PSDB-MG) reconheceu haver uma "organização criminosa" na região, mas evitou citar a possível participação de policiais para não atrapalhar as investigações, a cargo da polícia mineira.
Entidades de classe e grupos ligados aos direitos humanos têm cobrado apuração e segurança. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência acompanha o caso.


Reportagem de Paulo Peixoto, para a Folha de São Paulo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O declínio do jornalismo


Em mais de 30 anos entrevistei dúzias de candidatos a emprego em jornalismo. Entre as perguntas que sempre faço, uma delas é esta: por que jornais são publicados? Até hoje, ninguém com formação numa faculdade de Jornalismo soube dar a resposta – que, naturalmente, é dar lucro ao publisher.
No ano passado, participei de um bate-papo com estudantes de Jornalismo da universidade local. Fiz a minha pergunta e recebi as mesmas respostas de sempre (“Para... hmmm... dar uma voz à comunidade?”) Quando disse a resposta aos estudantes, o instrutor discordou e repetiu a mesma besteira que os estudantes já haviam proporcionado. Minha resposta era uma observação de senso comum, dita com delicadeza. Como recentemente me escreveu um amigo, “se você quiser ver cabeças explodirem, tente explicar às pessoas que elas não são o cliente e o jornal não é o produto... Os anunciantes são o cliente e a atenção do leitor é o produto”. Se você fizesse essa experiência com uma faculdade de Jornalismo típica, as detonações cranianas que se seguiriam seriam registradas no sismômetro do departamento de Geologia.
E no entanto, é a verdade pura e simples, 100%.
Nós, na Redação, não deveríamos alimentar ilusões. Nosso objetivo total é preencher o “buraco das notícias”, que é o espaço que sobra depois que os anúncios tiverem sido colocados na página. Esse é o fato por trás da observação cômica do seriado de televisão Seinfeld: “É fantástico como a quantidade de notícias que acontece no mundo diariamente sempre se encaixa à perfeição no jornal.” É tudo decidido pela publicidade.
Preparando jovens para ‘salvar o mundo’
Se os jornais servem o público, isso é um feliz efeito colateral do principal objetivo de ganhar dinheiro. E, na verdade, servir o público depende completamente da condição de fazer dinheiro. Como estes simples fatos escapam à atenção dos estudantes de Jornalismo e professores de Jornalismo, é óbvio. Eles vivem numa Terra do Nunca onde os fatos da vida vêm em segundo lugar, depois do engajamento ideológico.
Ocupados, os professores preparam-se para enfrentar oralmente as injustiças do mundo, tais como definidas pelos professores do mundo. O resultado é aquilo que o colunista Jeff Jacoby, do Boston Globe, recentemente descreveu como uma “falta de diversidade ideológica” que se encontra na maioria das redações americanas. Jacoby listou os atributos mais comuns, incluindo “o apoio reflexivo aos democratas, a antipatia pela religião e pelos militares, o apoio ruidoso a entusiasmos liberais como controle de armas e casamento homossexual...”
Por que são necessários quatro anos para preparar jovens jornalistas para salvar o mundo – isto é, refazê-lo em sua imagem filosófica – é algo que não entendo. Nunca fiz um curso de Jornalismo, o que considero uma bênção para minha carreira e, em especial, para minha atividade de repórter. Eventualmente, um superior me diz: “Não é assim que se faz.” Quando pergunto por que, invariavelmente a resposta é: “Porque eu aprendi que não é assim que se faz.”
Regulação e legislação
Empresários podem recuar diante dessa frase. Espero que o façam. Afinal, nos negócios nenhuma frase é tão perigosa quanto “não é assim que fazemos aqui”.
Em parte, o resultado é um modelo estilístico que se recusa a envolver-se por completo com o leitor. Você sabe por que esta frase seria cortada por um copidesque? Porque usei a palavra “você”. O copidesque preferiria “os leitores poderiam se surpreender se soubessem que esta frase seria cortada pelo copidesque”.
Na atual era midiática, quando o exibicionismo por categoria é comemorado, nós, do ramo dos jornais, continuamos muito melindrosos para usar o enorme poder de envolvimento da segunda pessoa. É claro que todo mundo sobrevaloriza o treinamento acadêmico que recebeu. Torna o débito uma inconveniência e o tempo gasto, válido, ou menos fútil, pelo menos. E imagine a emoção de usar o “lede”, que é a nova forma de escrever lead[guiar, conduzir], como em frase de abertura de uma matéria. Seu uso proporciona a agradável sensação de possuir conhecimento especializado, um conhecimento bem para lá dos conhecidos do mediano zé ninguém.
Isso é particularmente agradável para aqueles que sabem tão pouco sobre todo o resto. Por exemplo, sempre pergunto aos candidatos a emprego uma segunda questão: “Qual é a diferença entre regulação e legislação?” Um único estudante graduado sabia a resposta. Timidamente, ele admitiu que sabia porque no verão anterior havia trabalhado como assessor legislativo.
Incompetência e corrupção
Diga-me, por favor. Como é que se prepara um estudante para uma carreira como “cão de guarda do governo” e não se dá a mais elementar instrução sobre como funciona um governo? Como convém à sua orgulhosa reputação e seu orgulhoso objetivo, os jornalistas trabalham sob o vínculo de uma orgulhosa construção ética. Infelizmente, ela é tão imperfeita e juvenil quanto sua proposta jornalística. De vez em quando, os imperativos éticos são simplesmente incompatíveis. Por exemplo: 1) salvar o mundo; e 2) objetividade jornalística. Isso ilustra à perfeição um fato importante: não foi filosófica ou acidentalmente que se chegou à ética jornalística.
Como é o caso com muitos códigos de ética, a ética na indústria do jornalismo tem como um de seus principais objetivos a manutenção do status quo, principalmente do status quo econômico.
Os leitores mais velhos se lembrarão que antigamente os advogados americanos evitavam a publicidade. Funcionava às mil maravilhas como forma de diminuir a concorrência, tanto em termos de preço quanto de atrair novos clientes. Para um equivalente em jornalismo, imaginemos que a maioria das redações dos jornais americanos funciona isolada dos aspectos “comerciais” da empresa. O suposto objetivo é o de garantir que os repórteres não sejam influenciados pela sujeira da troca de dinheiro que ocorre em algum outro lugar daquele prédio. Eles devem trabalhar como se os bancos locais não estivessem, de fato, comprando anúncios de página inteira e, com isso, ficam livres para fazer perguntas sobre a incompetência ou a corrupção dos bancos com a mesma frequência que o fazem àqueles que não anunciam.
Notícias insípidas
Na prática, a coisa não funciona tão bem.
Entretanto, bate na tecla – tão presente entre os moradores das redações – de que a maioria dos negócios é uma atividade corrupta, ou pelo menos questionável. Todos os donos de negócios são vistos como “gananciosos”. Os repórteres acham a ideia de maximizar os lucros um pouco perigosa. Lembre-se que os repórteres não estão trabalhando por recompensas semelhantes àquelas dos negócios. Eles querem salvar o mundo.
Há séculos que os donos de jornais usam essa propensão para pagar uma mixaria aos repórteres. Na realidade, a profissão dos repórteres é uma das que recebem pior pagamento entre as que exigem diploma universitário. Na maioria dos lugares, ganham de 40 a 50% menos que o bibliotecário local. Os donos dos jornais aproveitam-se, e muito, da ingenuidade do pessoal que está em suas redações. Eles não dizem uma palavra.
Depois temos a ideia de “objetividade”, outro conceito completamente ridículo e que também é altamente útil para gerar lucros. Objetividade jornalística é uma coisa que não existe. (Para uma explicação detalhada, veja “Why the News Makes You Angry”.)
Um pouco antes do final do século 19, toda a cidadezinha americana tinha um ou mais jornais e cada um atendia a leitores de determinada tendência religiosa, social ou política. Foi então que se introduziu a “objetividade”. O resultado não eram notícias objetivas, mas notícias que não sofriam objeções por parte de nenhum grupo. Notícias insípidas e comentários mostraram ser um ótimo modelo de negócios porque eram vendidos ao público como estritamente factuais, sem a suspeita de preconceito.
Magia negra
Os consumidores confiaram. E engoliram essas notícias.
As notícias objetivas foram e continuam sendo uma piada, mas os americanos continuam a acreditar que existem. As pessoas que assistem ao canal CNBC dirão que é objetivo. Os espectadores que assistem à Fox acreditam que escutam a verdade nua e crua. Como iriam essas mesmas pessoas penetrar o noticiário tendencioso, mas muito mais sofisticado, do New York Times?
A maioria dos consumidores de informação acredita que as notícias que recebe são “objetivas” simplesmente porque lhes disseram que são. É um fenômeno psicológico bastante conhecido, normalmente citado como uma “grande mentira”. A Sociedade dos Jornalistas Profissionais fornece uma interessante recapitulação de toda essa história de ética jornalística em seu website. Você verá que é exigido dos “jornalistas profissionais” – o que quer que isso signifique – que “descrevam na matéria a diversidade e magnitude da experiência humana com ousadia, mesmo quando não seja popular fazê-lo” – o que quer que isso signifique. E, finalmente, exige-se dos jornalistas que “exponham a conduta aética por parte de jornalistas e da mídia de informação”. Certo. Se porventura alguma vez existiu um argumento a favor do valor de jornalistas de pijama online, isto deveria acabar com ele.
Durante décadas, a grande mídia trabalhou numa bolha, completamente livre do controle de outros. Todos vimos os resultados disso. Diminuíram nossas vidas diárias. E foi tudo consequência de um acordo de cavalheiros: nós não iremos olhar para vocês se vocês não olharem para nós. E nunca deveremos, jamais, olhar criticamente para nossas próprias operações.
Agora, felizmente, aquele modelo foi destroçado – não por jornalistas profissionais, mas por amadores. Diletantes é como os chamariam meus condescendentes colegas – se seu vocabulário fosse suficiente. Pessoalmente, adoro essa gente. Eles estão finalmente conseguindo forçar a responsabilidade numa indústria singularmente poderosa que, por um tempo demasiado longo, às vezes praticou sua magia negra com o olhar do público.

Texto de Theodore Dawes, no Observatório da Imprensa. Tradução de Jô Amado. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quem são e o que fazem os “jornalistas de Cachoeira”


Desde que o relator da CPMI do Cachoeira, deputado Odair Costa (PT-MG), confirmou, na quarta-feira (21/11), que irá pedir o indiciamento de cinco jornalistas no seu relatório final, imprensa e oposição passaram a atacar a medida, em uníssono, alegando ora afronto à liberdade de expressão, ora o desejo de vingança do PT contra seus algozes no “mensalão”. Uma leitura do relatório revela uma outra realidade. E uma realidade estarrecedora sobre os meandros da imprensa brasileira. Os documentos falam de jornalistas vendendo sua força de trabalho ou o espaço dos veículos em que trabalham para beneficiarem uma reconhecida organização criminosa na prática de crimes. Ou então, associando-se a ela para destruir desafetos comuns dos criminosos e dos seus veículos.
O diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Junior, é a face mais conhecida deste time. Mas o grupo é muito maior. O relatório da CPMI cita nominalmente doze jornalistas que teriam contribuído periodicamente com o esquema criminoso, e acabaram flagrados em atitudes, no mínimo, suspeitas, por meio das quebras de sigilos telefônicos, ficais e bancários dos membros da quadrilha e das empresas, de fachada ou não, que operavam em nome dela. Desses doze, pede o indiciamento de cinco, contra os quais as provas são robustas. Sugere ao Ministério Público Federal (MPF) o prosseguimento das investigações contra os outros sete, com base nos indícios já levantados pela Comissão.
Saiba quem são os jornalistas que, no entendimento da CPMI, devem ser indiciados:
 
Wagner Relâmpago

Repórter policial do DF Alerta, da TV Brasília/Rede TV, e do programa Na Polícia e nas Ruas – Rádio Clube 105,5 FM – DF . Segundo a CPMI, ele utilizou seu espaço na TV e no rádio para “bater” nos inimigos da quadrilha ou personalidades públicas que atrapalhavam suas atividades criminosas. Em 2011, foram creditados pelo menos três repasses da quadrilha para sua conta pessoal de, aproximadamente, de R$ 300 mil cada. As relações de Relâmpago com Cachoeira foram reveladas por Carta Maior em 30/3, na reportagem “Quadrilha de Cachoeira mantinha relações com a mídia“. Para a CPMI, Relâmpago incorreu no artigo 288 do Código Penal, o que justifica seu indicamento pelo crime de formação de quadrilha.
 
Patrícia Moraes

É sócia-administradora e editora de política do jornal Opção, de Goiás. Mantinha interlocução constante com Cachoeira e outros membros da quadrilha. Também recebia pagamentos períodicos do bando, na sua conta pessoal e na do jornal, para “divulgar as matérias de interesse da organização criminosa e fazer oposição e a desconstrução midiática de adversários”, conforme o relatório da CPMI. O documento sugere, inclusive, suspeitas de que o periódico possa pertencer à quadrilha de Cachoeira. Os recursos recebidos pela jornalista somam R$ 155 mil. A CPMI pediu seu indiciamento por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
 
João Unes

Jornalista e advogado, trabalhou em O Estado de S.Paulo, O Popular, TV Anhanguera e TV Record. Segundo a CPMI, foi um dos jornalistas que receberam as mais vultosas quantias da quadrilha. Foi o idealizador e diretor do jornal online A Redação que, segundo a CPMI, foi adquirido posteriormente pela máfia. A soma dos valores transferidos para ele, conforme diálogos interceptados, chega a R$ 1,85 milhão. Nem todos os valores mencionados nos diálogos foram comprovados na quebra dos sigilos do jornalista e das empresas fantasmas do bando. A CPMI pede seu indiciamento por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
 
Carlos Antônio Nogueira, o Botina

Segundo o relatório, ele se apresenta como proprietário do jornal O Estado de Goiás, mas na verdade é sócio minoritário de Carlinhos Cachoeira no empreendimento que, conforme diálogos interceptados, também tem ou teve como sócio o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Botina também é proprietário da empresa WCR Comunicação e Produção e do Canal 5. Sob ordens de Cachoeira, utilizava o jornal para criar fatos políticos, fabricar notícias que pudessem prejudicar adversários ou constranger autoridades, enfim, que beneficiem as atividades da organização. Movimentou vultosas quantias. As maiores delas foram por meio da WCR Produção e Comunicação, que recebeu recursos das laranjas de Cachoeira da ordem de R$ 460 mil, R$ 1,42 milhão e R$ 584 mil, entre outros. A CPMI pede seu indiciamento por formação de quadrilha e lavagem de recursos.
 
Policarpo Junior

É diretor da sucursal da Veja em Brasília. Segundo o relatório da CPMI, colaborou com os interesses da organização criminosa promovendo suas atividades ilícitas, eliminando ou inviabilizando a concorrência e desconstruindo imagens e biografias de adversários comuns da máfia e da publicação. O relacionamento entre Cachoeira e Policarpo começou em 2004. Apesar de atualmente mídia e oposição considerarem um acinte à liberdade de imprensa sua convocação para prestar esclareimentos na CPMI do Cachoeira, ele depôs na CPI dos Bingos, em 2005, para defender o contraventor, como Carta Maior revelou na reportagem “Jornalista da Veja favoreceu Cachoeira em depoimento de 2005“, em 28/5. Suas relações com Cachoeira foram fartamente documentadas, como mostram, por exemplo, as reportagens “Os encontros entre Policarpo, da Veja, e os homens de Cachoeira“, de 10/5, e Cachoeira: “O Policarpo, ele confia muito em mim, viu?”, de 15/5. A CPMI pediu seu indiciamento por formação de quadrilha.

Confira também quem são os jornalistas que a CPMI pede que sejam alvos de mais investigações pelo MPF:
 
Luiz Costa Pinto, o Lulinha

É o proprietário da empresa Ideias, Fatos e Textos (IFT), que prestou serviços para a Câmara durante a gestão de João Paulo Cunha (PT-SP), fato que acabou rendendo à ambos denúncias por crime de peculato no escândalo do “mensalão”. Cunha foi absolvido por este crime na ação penal 470, que tramita no STF. O processo contra Lulinha tramita na justiça comum. Conforme o relatório da CPMI, O jornalista foi contratado pela organização criminosa de Cachoeira para emplacar matérias favoráveis ao grupo nos meios jornalísticos. Entre fevereiro de 2011 e maio de 2012, recebeu o total de R$ 425 mil da Delta, por meio de transferências creditadas na conta da IFT.
 
Cláudio Humberto

Citado em diversas gravações interceptadas pela Polícia Federal como uma espécie de assessor de comunicação, ele também foi contratado via Delta, a pedido do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB). Entre 2011 e 2012, recebeu R$ 187,7 mil, depositados pela Delta na conta da CT Pontocom Ltda, empresa na qual é sócio-administrador desde maior de 2001.
 
Jorge Kajuru

É apresentador da TV Esporte Interativo. Também recebeu recursos da organização de Cachoeira que, segundo ele, se referiam à patrocínio feito pela Vitapan, empresa farmacêutica ligada ao esquema criminoso. Ele teria recebido do grupo R$ 20 mil, entre 2011 e 2012, em contas das suas empresas e na sua conta pessoal. A CPMI, porém, o isenta de responsabilidades por conduta criminosa.
 
Magno José, o Maguinho

De acordo com a CPMI, o blogueiro Magno José, o Maguinho, também recebeu recursos da organização criminosa para prestar serviços à quadrilha. Ele é editor do blog Boletim de Novidades Lotéricas, que prega a legalização dos jogos no país. Entretanto, os repasses dos recursos ao jornalista não foram comprovado. Os indícios decorrem do material publicado pelo blog e das conversas dos membros da quadrilha interceptadas pela PF. Portanto, a CPMI optou por não propor seu indicamento.
 
Mino Pedrosa

Já trabalhou no Jornal de Brasília, em O Estado de S.Paulo, em O Globo, na revista IstoÉ e hoje é editor-chefe do blog QuidNovi. É apontado como o responsável pela deflagração do Caso Loterj, que resultou na queda do assessor da Casa Civil do governo Lula, Waldomiro Diniz. De acordo com conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) entre membros da quadrilha de Cachoeira, ele teria recebido um apartamento e um carro para depôr em favor do contraventor, envolvido no esquema. É responsabilizado também como o autor de denúncias sobre o governo do Distrito Federal, com base em grampos ilegais feitos por Idalberto Matias, o Dadá, membro da quadrilha. E, também, como a pessoa que “vazou” para Cachoeira que a PF preparava a Operação Monte Carlo. A CPMI reconhece, porém, que não obteve provas suficientes para pedir o indiciamento do jornalista.
 
Renato Alves

É jornalista do Correio Braziliense e editor do blog Última Parada. Segundo o relatório, as interceptações telefônicas revelaram que ele também mantinha interlocução frequente com a organização criminosa. Foi, inclusive, o autor de uma das matérias mais comemoradas pelos integrantes da quadrilha em 2011, que promovia os jogos eletrônicos do grupo pela internet no exterior. Em troca dos serviçcos prestados, Alves recebia presentes e vantagens, como ele mesmo atesta em ligação itnerceptada pela PF. Mas a CPMI afirma que não conseguiu colher provas suficientes de que ele tenha contribuído para a prática de crimes e pede novas investigações.
 
Eumano Silva, o Doni

É ex-diretor da revista Época em Brasília. Também teria prestado importantes serviços à quadrilha de Cachoeira, por meio de reportagens que a beneficiava. A CPMI, porém não encontrou provas conclusivas sobre sua participação no crime e, por isso, sugeriu ao MPF mais investigações.

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[Najla Passos, da Agência Carta Maior]


Visto no Observatório da Imprensa

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

#jornalistasinterditados

As relações arcaicas que ainda prevalecem nas redações brasileiras, sobretudo naquelas ancoradas nos oligopólios familiares de mídia, revelam um terrível processo de adaptação às novas tecnologias no qual, embora as empresas usufruam largamente de suas interfaces comerciais, estabeleceu-se um padrão de interdição ideológica dos jornalistas. Isso significa que a adequação de rotinas e produtos da mídia ao que há de mais moderno e inovador no mercado de informática tem, simplesmente, servido para coibir e neutralizar a natureza política da atividade jornalística no Brasil.


Baseados na falsa noção de que o jornalista deve ser isento, as grandes empresas de comunicação criaram normas internas cada vez mais rígidas para impedir a livre manifestação nas redes sociais e, assim, evitar o vazamento do clima sufocante e autoritário que por muitas vezes permeia o universo trabalhista da mídia. Em suma, a opinião dos jornalistas e, por analogia, sua função crítica social, está sendo interditada.
Recentemente, a ombudsman da Folha de S.Paulo, Suzana Singer, opinou que jornalista não deveria ter Twitter pessoal. Usou como argumento o fato de que, ao tuitar algo “ofensivo”, o jornalista corre o risco de, mais para frente, ter que entrevistar o ofendido. A preocupação da ombudsman tem certa legitimidade funcional, mas é um desses absurdos sobre os quais me sinto obrigado a, de vez em quando, me debruçar, nem que seja para garantir o mínimo de dissociação entre a profissão, que tem caráter universal, e os guetos corporativos onde, desde os anos 1980, um sem número de manuais de redação passaram a ditar todo tipo de norma, inclusive comportamental, sobretudo para os repórteres.
Suzana Singer deu um exemplo prosaico, desses com enorme potencial para servir de case em cursinhos de formação de monstrinhos corporativos que pululam nas redações:
“Hoje o jornalista pode estar em um churrasco, com os amigos, e ser ofensivo com os palmeirenses porque eles ganharam o jogo de domingo. E na semana seguinte ele tem que ir entrevistar o presidente do Palmeiras. Ou seja, é uma situação muito desagradável, que poderia ter sido evitada se o repórter tivesse a postura adequada de não misturar as coisas. Não tem como ter dupla personalidade, separar a sua vida pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas no Twitter”.
Bom, primeiro é preciso esclarecer duas coisas, principalmente para os leitores desse blog que não são jornalistas: é possível, sim, separar a vida pessoal da profissional; e, claro, dá para ter duas contas no Twitter. Essa história de que jornalista tem que ser jornalista 24 horas é a base do sistema de exploração trabalhista que obriga repórteres, em todo o Brasil, a trabalhar sem hora extra, ser incomodado nas férias e interrompido nos fins de semana, como se fossem cirurgiões de guerra. Também é responsável, na outra ponta, por estimular jornalistas que se tornam escravos de si mesmo, ao ponto de, mesmo em festas de crianças e batizados de bonecas, passarem todo tempo molestando alguma fonte infeliz que calhou de frequentar o mesmo espaço.
A interdição imposta aos jornalistas pelas empresas de comunicação tem servido, entre outras coisas, para a despolitização das novas gerações de repórteres, instadas a acreditar que são meros repassadores de notícias e tarefeiros de redações. Desse triste amálgama é que surgem esses monstrinhos entusiasmados com teses fascistas, bajuladoras profissionais e bestas-feras arremessados sobre o cotidiano como cães raivosos, com carta branca para fazer, literalmente, qualquer coisa.
Não causa mais estranheza, mas é sempre bom expor o paradoxo dessa posição da ombudsman, que não é só dela, mas do sistema na qual ela está inevitavelmente inserida, desde que o pensamento reacionário e de direita passou a ser bússola fundamental da imprensa brasileira. Digo paradoxo porque o mesmo patronato que confunde, deliberadamente, liberdade de expressão com liberdade de imprensa, para evitar a regulação formal da atividade midiática, é esse que baixa norma sobre norma para impedir seus funcionários de se manifestarem no ambiente de total liberdade das redes sociais, notadamente o Twitter e o Facebook. Não o fazem, contudo, por zelo profissional.
Essa interdição visa, basicamente, evitar que os jornalistas opinem, publicamente, sobre a própria rotina e, assim, exponham as mazelas internas das corporações de mídia. Ou que expressem opiniões contrárias à de seus patrões.
Foi assim, por exemplo, no caso da bolinha de papel na cabeça de José Serra, na campanha de 2010. Aquela farsa ridícula foi encampada, sem nenhum respeito ao cidadão consumidor de notícia, por quase toda a imprensa, por imposição editorial. Diversos colegas jornalistas, alguns que nem sequer conheço, me mandaram mensagens (um me abordou numa livraria de Brasília) implorando para que eu tratasse do assunto nas redes sociais. Todos me informaram que seriam demitidos sumariamente se contestassem, no Twitter e no Facebook, a tese patética do segundo ataque com um rolo de fita crepe. Todos, sem exceção.
A ética do jornalista é a ética do cidadão, dizia um grande jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, aliás, responsável pela modernização de O Estado de S.Paulo e da Folha, nos anos 1960 e 1970. Portanto, nada mais natural que tenha o jornalista os mesmos direitos do cidadão, aí incluído o de se expressar. Impedi-lo, sob um argumento funcional, de exercer seu direito de opinião e crítica é, no fim das contas, mais um desses sinais de decadência moral da mídia brasileira. E, claro, retrato fiel do que ela se tornou nos últimos anos.