quinta-feira, 23 de abril de 2020

Exaltação patriótica surge quando se quer silenciar quem pensa diferente

Em algum lugar do Brasil, uma manifestação.
Toca o hino nacional, uma grande faixa pede “intervenção militar já”. Um homem, de óculos escuros e com uma bandeira drapeada nas costas, levanta o punho e fala: “Brasil, chega de te sangrarem;
chega, não tem diálogo com STF, não tem mais diálogo com o Congresso, chega, nós queremos Bolsonaro no poder com o apoio das Forças Armadas, chega, a paciência do brasileiro acabou; Bolsonaro é nosso capitão, e as Forças Armadas apoiando Bolsonaro; Brasil, reage, lutem por essa bandeira aqui, vibrem, defendam a pátria, defendam as crianças, olha para teus filhos, teus netos, teus sobrinhos, vamos, Brasil, reage, Brasil, eu te amo”. Comovido, ele beija a bandeira com força.
Esse vídeo chegou domingo passado ao meu celular. Fiquei perplexo, mas não atônito, porque, no fundo, ele é banal: o patriotismo é quase sempre exaltado.
A comoção exagerada é necessária para esconder dois fatos: 1) a pátria é uma entidade abstrata, pela qual, em tese, não haveria como sentir imensos amores, tanto mais que, com frequência, a exaltação patriótica surge logo no momento em que o suposto “patriota” quer silenciar e massacrar todos os compatriotas que pensem diferente dele; 2) quase sempre, a exaltação patriótica esconde as razões bem particulares e mesmo escusas do “patriota”. Por exemplo, você é contra o isolamento porque acaba de abrir um barzinho, que é (era) sua esperança de subir minimamente na vida; ser contra por isso é legítimo, mas fica bem melhor defender a abertura do comércio pelo bem da pátria amada, certo?
Não sei nada do homem de óculos e bandeira drapeada, mas ele me evoca imediatamente um livro que acabo de ler e que, hoje, no Brasil, é urgente e necessário. É uma reconstrução histórica (forte e impactante como um grande romance) dos anos de 1919 a 1923 na vida de Benito Mussolini e da Itália que estava se tornando fascista: “M, o Filho do Século”, de Antonio Scurati, da editora Intrínseca.
No fim de 1920, o fascismo do começo, que contava com a adesão dos veteranos dos Arditi (tropas especiais da Primeira Guerra Mundial) e de vários facínoras, começa a se tornar “popular”. Como?
Quem são os novos fascistas, uma massa eventualmente desprezada por Mussolini, mas crucial na sua ascensão ao poder?
Cesare Rossi, companheiro de M. desde a primeira hora, explica que talvez eles tenham conseguido propor um escambo milagroso: “ódio em troca de medo”. “Os novos fascistas são todos pessoas que até ontem tremiam de medo da revolução socialista, gente que vivia de medo, comia medo, bebia medo, deitava-se na cama com medo. Agora, na bolsa de valores dos miseráveis, estão trocando o metal pesado da angústia pela apreciada moeda do ódio mortal.”
“Pequenos burgueses que odeiam: essa é a gente que formará o exército deles. As classes médias rebaixadas por causa das especulações bélicas do grande capital [no Brasil, hoje: pela crise de 2008, pelos anos Dilma, pela estagnação econômica etc.], os burocratas de baixo escalão que, acima de qualquer outra coisa, se sentem insultados pelos sapatos novos da filha do camponês, todas pessoas de bem tomadas pelo pânico, consumidos pela ansiedade. Estão prontas para beijar os sapatos de qualquer novo patrão desde que também lhes seja possibilitado pisar em alguém”, diz o autor, nas páginas 293 e 294.
A diferença entre a Itália pré-fascista e o Brasil de hoje é que, na Europa dos anos 1920, a ideia da possibilidade de uma expansão da revolução soviética não era descabida. Os medos e as insatisfações das pequenas classes médias, na Europa, encontraram assim, como aliados, grandes empresários, eles também apavorados pela iminência de uma revolução comunista. Hoje e aqui, esse pavor não faz sentido; por isso o bolsonarismo reanima o fantasma do suposto marxismo.
Enfim, ainda Scurati: “A revolução não será feita pelos comunistas, mas pelos donos de um apartamento de dois quartos com cozinha em um condomínio da periferia”.
Olho de novo para o “patriota” exaltado do vídeo. Seria possível conversar com ele? Bom, temos algo em comum, ele e eu. Ambos perdemos fé na democracia. Ele não quer STF nem Congresso, só Bolsonaro. Eu não sei se confio ainda num sistema pelo qual mais de uma vez, nos últimos cem anos, uma massa de canalhas se autodenominou “o povo”, vestiu a bandeira e, eventualmente, elegeu um canalha-mor providencial.

Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A cura pro corona pode estar no gado ou no jumento

varíola matou mais gente do que todas as guerras juntas e a peste e as gripezinhas e o Gêngis Khan e os drones, o Pogobol e as balas Soft. Durante 20 séculos convivemos com esse mal, e parecia que ia durar pra sempre, como o Delfim Netto e o Sarney.

Se você contraísse varíola (e todo o mundo contraía), já podia ver os coveiros engravatados do meme: tinha um quarto de chance de morrer uma morte horrível. Caso tivesse a sorte de sobreviver, estaria imune pra sempre —mas com crateras fundas na pele, mais esburacada do que uma estrada fluminense.
Quase todos tinham a pele avariada, porque a varíola não perdoava ninguém. Ou quase ninguém. As leiteiras se destacavam pela cútis límpida de quem nunca havia visto uma pústula.
Benjamin Jesty, um pequeno fazendeiro do século 18, já tinha reparado que leiteira não pega varíola nem que a vaca tussa. Ou melhor: não pegavam varíola humana. A variante bovina, mais branda, dava feridas na teta da vaca e pequenas bolhas nas mãos da leiteira. O camponês então teceu uma hipótese: será que as leiteiras estavam imunes à varíola humana por já terem contraído a varíola bovina?
Feita a hipótese, raspou a teta de uma vaca avariada e usou uma agulha de cerzir infectada pra arranhar o braço da mulher e dos filhos. Deu certo: o vilarejo foi varrido pela epidemia, mas sua família estava imune, pra sempre, à maior assassina da história. Ali nascia a vacina, que tem esse nome por causa da dona das divinas tetas: vacinar, no início, era te tornar um pouco vaca. (Essa história e muitas das outras estão contadas no maravilhoso livro “Dez Drogas”, de Thomas Hager, que saiu há pouco pela Todavia).
Por que falo de gado? Bolsonaro insiste em tossir sobre o rebanho. Talvez o gado pense estar imune por mamar na teta do jumento. Ainda não perceberam que jumento não tem teta e devem estar mamando outra coisa. Talvez o jumento, por sua vez, pense que o quadrúpede imunizou-se de tanta avacalhação.
Tem certa lógica: todos ao seu redor pegaram a doença, menos ele.
Talvez o presidente tenha dado uma pista à comunidade científica. Vale investigar se não há alguma bactéria imunizante nos testículos de Trump, ou nas laranjas do Álvaro Antonio, ou no açaí da Wal, no interfone da casa 58, nos cheques do Queiroz, nos contratos da Secom e em todas as coisas pelas quais passou sua boquinha.
(Ou talvez tenha pegado a doença, e só esteja mentindo.)

Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

Fanatismo dos bolsonaristas já supera qualquer cálculo ou interesse racional


Em São Paulo, eles buzinam e põem o carro de som bem debaixo de um hospital. Em Brasília, reúnem-se diante de um quartel para pedir o fechamento do STF e do Congresso.


O interessante é que muitos deles usam máscara para se proteger do vírus. Aparentemente, essa turma não segue por completo a ideia de que a Covid-19 na maioria dos casos teria apenas o efeito de uma “gripezinha”.
Não. Esses fanáticos acham, sem dúvida, que o vírus mata mesmo. São contra a quarentena mesmo assim.
Imagino várias razões para essa atitude.
A primeira é que, protegidos por algum plano de saúde privado, eles querem simplesmente sair de casa e continuar tocando suas empresas.
O isolamento busca evitar o colapso na saúde pública? Que se dane a saúde pública. Meu quarto no Einstein ou no Sírio-Libanês —caso o pior aconteça— está garantido de qualquer jeito.
Querer o fim da quarentena tem pouco a ver com algum tipo de solidariedade com o pessoal realmente pobre.
Sei que o desempregado, o diarista, o catador de lata, todos precisam sobreviver; o contaminado que mora num quartinho com quatro filhos não conhece os prazeres e confortos do meu isolamento movido a Amazon, Spotify e Netflix.
É claro que a ajuda financeira aos mais prejudicados, votada rapidamente pelo Congresso (ah, o Congresso!) e reforçada pelo próprio Bolsonaro, poderia ser estendida. Imagino que ainda haja milhares de problemas específicos, casos particulares e dramas pessoais por resolver.
Quem prega o fim da quarentena pode dizer, como Bolsonaro, que se preocupa com essa gente. Desconfio que seja o contrário. Preocupa-se, isto sim, com o fato de o Estado ajudar —mesmo que de forma provisória— toda essa ralé.
Os bolsonaristas já não eram contra o Bolsa Família? Já não diziam que “nossos impostos” sustentam a vagabundagem no Nordeste? Já não eram a favor da “meritocracia”?
Querem o fim da quarentena para que a vida “volte ao normal”. Ou seja, com o catador de lata voltando a ganhar o que merece, e com a empregada fazendo faxina.
Claro que eles também lutam pelo futuro das próprias atividades —a loja de bijuterias, a butique pet, a consultoria de moda, a assessoria de eventos, a decoração de interiores para festas de noivado, o recolhimento do dízimo.
O jornalista Eugênio Bucci observou certa vez que o pensamento da direita se resume a um princípio simples. Trata-se, dizia ele, de pôr o direito à propriedade acima de qualquer outro direito.
A sobrevivência do planeta, a terra dos índios, a educação gratuita, o acesso à saúde —tudo para a direita pode ser posto em segundo plano. A liberdade, para a direita, tampouco tem valor.
Registro, de passagem, minha repugnância diante do velho ramerrão de Norberto Bobbio, que num livro de muito sucesso identificou a esquerda com a defesa da igualdade e a direita, com a defesa da liberdade.
Santo equilíbrio! Esqueceu-se da América Latina, da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Alemanha e da própria Itália —para falar só nas ditaduras do século 20.
Em nome da “liberdade”, os bolsonaristas defendem o fechamento do Congresso. É o direitismo clássico, sem novidade.
Mas quem buzina em frente ao hospital e chama Doria de comunista já foi muito além.
O mundo fanático —no islã de Osama Bin Laden, no Camboja de Pol Pot, na Alemanha de Hitler e no Brasil de Bolsonaro— ignora qualquer cálculo racional.
A caveira nos quepes da SS e nas insígnias do Bope simboliza o que constitui um verdadeiro culto da morte, do genocídio e (por que não?) do autossacrifício até.
Tirem as máscaras, seus dementes.
Um dos mais fanáticos seguidores do direitismo franquista, o general espanhol Millan Astray, celebrizou-se por um discurso feito em 1936, na Universidade de Salamanca.
“Morra a inteligência”, disse ele, um mutilado de guerra. “Viva a morte!”
“Viva la muerte!” Na foto, Bolsonaro e seus filhos comem espigas de milho; uma metralhadora está pendurada na parede.
Os fanáticos gritam na frente do quartel; querem prisões, sangue, tortura e violência.
Buzinam na frente dos hospitais: querem a contaminação, querem os cadáveres dos pobres empilhados no meio da rua, querem a solução final para a miséria brasileira.
Viva Bolsonaro, viva o vírus, viva la muerte.

Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Você também está louco?

Semana passada comprei uma flauta. Eu não toco nenhum instrumento e não pretendo aprender a tocar flauta. Nem sei onde ela está agora. Já não lembro mais como é usar maquiagem e sapatos. "Ah, tadinha dela! Que problemão, hein, princesa? Encastelada em sua angústia branca na zona oeste, né, minha filha?" Vocês ouviram? Essa é uma das muitas vozes da minha cabeça. Pelo menos "o superego com consciência social" é uma voz amiga. Às vezes mais amiga dos outros do que minha. Pior é quando ouço de repente: "Agora chão! Dez flexões, ô baranga do braço de polenteira!", ou "sem uma base em filosofia você não vai entender nada, ignorante!". Eu levo bronca o dia inteiro trancada sozinha no meu escritório. Já nem sei o que estou escrevendo. Você também está louco?

As vozes "sororidade tá na moda" e "compaixão & psicanálise" me recriminam toda vez que listo meus ódios antepassados. Mas, por Deus, são 28 dias enfurnada aqui e estou dando defeito. Enquanto tomo banho me volta uma raiva louca de gente com quem briguei no colégio, na faculdade, nos meus primeiros empregos. Ontem liguei para o Luis, que é o meu melhor amigo, e comecei a falar mal de uma colega nossa: "Ela achava que eu tinha conseguido o emprego porque jantei com aquele cara horroroso. Eu vou ligar AGORA pra ela e". Ele primeiro ficou em silêncio, provavelmente incrédulo, depois teve um ataque de riso: "Mas isso faz 11 anos!". Eu sei, mas tá voltando tudo. Você também sente que quanto mais se isola, mais o passado se isola junto? Ontem eu lembrei que, na segunda semana de namoro com o Pedro (há mais de sete anos), ele me levou a uma festa de "gente do cinema" e desapareceu. Brigamos duas horas por causa disso. "Quem você pensa que é? Eu me senti uma idiota! Isso não vai ficar assim! A próxima festa a que nós formos, se um dia as festas voltarem a existir". Pedro me preparou um chá e falou da sua esperança sobre uma vacina pra daqui a um ano e meio.
Eu tenho motivos pra estar angustiada e louca e sofrendo? A maioria das vozes da minha cabeça dizem que não, porque sou privilegiada. Eu tenho que fazer doação e cuidar dos velhos da família. Não posso pensar em mim numa hora dessas! Mas pra você, caro leitor, eu posso confessar que tenho pensado bastante em mim. Em cada decisão que tomei dos meus seis anos até hoje de manhã. E rumino e pondero e tento decifrar tudo que vai da minha capa até os escombros do meu caráter. E desafio meu corpo a chegar a todo microcantinho escondido da casa. E limpo e depois de novo e ainda acho que está sujo. Eu e a casa em vigília obsessiva. E compro caixas organizadoras toda semana pela internet. E quando chegam eu passo álcool nelas muitas vezes.
Eu sei que posso descer às cinco da manhã e aproveitar as ruas vazias. Talvez dançar e virar uma cambalhota. Mas quem quer acordar às cinco da manhã? Eu não estou no mood de dançar e não sei virar cambalhota. A única vez que desci nessa quarentena, no dia seguinte chegou uma circular nos apartamentos sobre "não utilizar o hall para tirar a roupa". Alguém ficou muito ofendido com a minha bunda caída. Me besunto tanto de álcool que comecei a ficar culpada (de acabar com o álcool do mundo) e passei a me besuntar de Listerine com álcool. Eu tenho cheiro de banheiro de churrascaria cara. Meu domingo foi inteiro dedicado a inventar uma maneira de as frutas e os legumes não emergirem na água com cândida. Toda hora eu dou um Google pra saber quais legumes e frutas são porosos, porque tenho medo de criar uma úlcera por ingestão de água sanitária. E nisso vai um dia. Não dá tempo de tocar flauta, e eu nem queria. O mamão é poroso?

Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

OMS alerta para pandemia de lives

Acossado pela multiplicação de lives, o jovem sorocabano José de Aguiar —conhecido como Aguiarzinho— foi internado nesta sexta de manhã. "É um caso grave de overdose de lives", diagnosticou o médico Túlio Pessegueira em uma live realizada no hospital Sírio-Libanês.
Aguiarzinho não é o único. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a proliferação de lives já se espalhou pelos cinco continentes. "Temos que nos preparar para os efeitos de uma nova pandemia", explicou Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, em uma live no Instagram.
Além de casos de overdose como o de José de Aguiar, há também relatos de luxações e fraturas. "Acordei de manhã, fui desbloquear o despertador no celular e acabei atingido por uma live do Felipe Neto. Tive que pôr gelo no local por mais de duas horas", relatou, em uma live, a advogada Carolina Alcântara. "Não descarto passar álcool em gel nos olhos para evitar que a experiência se repita", completou, aos prantos.
No Alto de Pinheiros, um publicitário foi internado com síndrome de abstinência depois que seu cachorro comeu a live a que estava assistindo. "Foi desesperador! De repente, vi a pia cheia de louça, dois filhos pedindo comida e um javaporco fuçando o lixo da cozinha", desabafou, em uma live.
A pandemia de lives também pode provocar desequilíbrio emocional. "Toda noite eu sonho com uma live do Caetano Veloso, mas ele aparece num pesadelo comendo paçoca. Eu não sei mais o que é realidade, o que é sonho e o que é live", desabafou David Lynch.
Um dos efeitos colaterais mais desagradáveis, segundo a OMS, é a padronização das estantes de livros como fundo das lives de jornalistas. "O diagnóstico é claro: virou clichê!", cravou Drauzio Varella.
Para evitar a proliferação descontrolada de lives, os governos de São Paulo e do Rio de Janeiro, em parceria com operadoras de telefonia, vão bisbilhotar os celulares dos cidadãos de bem.
No final da tarde, Wilson Witzel e João Doria fizeram uma live para anunciar os resultados da operação. "Foi duro. Vasculhamos milhões de celulares para encontrar um brasileiro que não tenha feito ou visto uma live. Depois de cruzar informações e usar tecnologia de ponta, logramos êxito. Encontramos um cidadão que ainda não apareceu em nenhuma live", celebrou João Doria. Wilson Witzel completou: "O nome dele é Fabrício Queiroz".

Texto de Renato Terra, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Cantigas de ninar nos tempos do corona

Como acabei de dar à luz dois meninos, nos últimos 20 dias minha vida tem se resumido a amamentação, troca de fraldas, noites em claro e cantigas de ninar.

Durante uma dessas longas e tortuosas noites, me lembrei que as canções clássicas para fazer bebê dormir têm letras um tanto assustadoras. Segundo teóricos da internet —a noite foi longa— as músicas tinham a função “pedagógica” de adestrar os pequenos. Seria algo como “dorme logo, seu desgraçado, ou um monstro horrível vai te pegar”.
Nos dias de hoje, as crianças, com amplo acesso à informação, precisam de mais do que uma Cuca ou outra figura folclórica para se comportarem. Então aproveitei que a maternidade bateu à minha porta para fazer releituras dessas cantigas, com letras atualizadas para assustar bebês e crianças e ajudar os pais a dormirem em paz. Criançada, temei!

‘Tio Mandetta’
(antiga ‘Boi da Cara Preta’)
Foi, foi, foi
Foi o Tio Mandetta
Que mandou sumir, que esse vírus aí é treta
Não, não, não,
Não ouve o capitão
Depois o seu destino
Pode ser um caixão
‘Se Isola, Neném’
(antiga ‘Nana, Neném’)
Se isola, neném
Pra a curva achatar
Quem furar a quarentena
Não tem onde internar
‘O Corona Espalhou’
(antiga ‘A Canoa Virou’)
O corona espalhou
Está em todo o lugar
Foi porque o Jairzinho
Não quis se isolar
‘Cloroquina Dourada’
(antiga ‘Alecrim Dourado’)
Cloroquina, cloroquina dourada
O Bozo diz que funciona
Sem ter comprovado
Foi meu doutor que disse assim
Que se tomar sem estudo
Vai zoar o Rim
‘Tuitei ‘Bando de Gado-do’’
(antiga ‘Atirei o Pau no Gato’)

Tuitei “bando de gado-do”
E o Carluxo-xo
Se ofendeu-deu-deu
E a milícia-cia-cia
Digital-tal-tal
Me cancelou, me cancelou,
depois mugiu
Muuuuu!
Essas cantigas não funcionam com bebês da extrema direita. Em breve, publico algumas para esse público. Noites em claro não faltarão. E fiquem em casa.

Texto de Flávia Boggio, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Morre John Conway, matemático inventor do Jogo da Vida

O britânico John Conway foi um dos matemáticos mais originais e carismáticos dos nossos tempos. Fez trabalhos notáveis de pesquisa em diferentes áreas da matemática, especialmente sobre grupos finitos, nós, códigos e jogos combinatórios, e foi um grande divulgador científico.
Eu conhecia o nome dos livros, mas encontrei o personagem no início de 1994, em minha primeira visita à Universidade de Princeton. Não sei se chegamos a nos falar, mas lembro bem dele em seu gabinete: sempre de porta aberta, repleto de objetos matemáticos nas mesas, nas paredes, pendendo do teto.
Voltei a ver Conway no meio daquele ano em Zurique, no Congresso Internacional de Matemáticos de 1994, onde ele deu uma das palestras plenárias. Subiu ao palco com uma caneta, riscou o título da palestra na transparência, e disse algo sobre mudar um pouco o tema.
O que se seguiu foi uma das apresentações mais cativantes a que eu já assisti. Que uma plenária do Congresso tivesse sido gasta com “mera” divulgação da matemática escandalizou alguns matemáticos sêniores, mas a maioria adorou.
Dez anos depois, estávamos os dois em Lisboa para dar os cursos no evento “Novos Talentos em Matemática”, organizado anualmente pela Fundação Calouste Gulbenkian. Num jantar, comentei com Conway como tinha apreciado a palestra em Zurique e a ousadia de mudar o tema na hora. Não contava com a resposta: “Meses antes do Congresso, tentei cometer suicídio. Estava saindo da recuperação e achei que seria bom ir, mas não tinha saco para falar do outro tópico. Ajustei o título e falei de algo completamente diferente”.
Para mudar o rumo da conversa, comentei como o trabalho dele extrapolara as paredes da academia, particularmente a sua invenção do Jogo da Vida, que deu origem a inúmeros artigos e programas de computador. É ideal para ser jogado (a sós) no computador, mas no início brincávamos numa folha de papel mesmo. Divulgado por Martin Gardner na revista Scientific American em 1970, fez de Conway uma celebridade, mais do que ele gostaria. Escreverei sobre esse jogo na semana que vem.
Fiz um bom trabalho em Lisboa e os alunos acompanhavam o meu curso com interesse. Mas não tinha como competir com Conway, que deu cinco maravilhosas aulas sobre simetria e o Teorema Mágico, outro tema para cuja popularização ele contribuiu muito, com seu talento invulgar de divulgador. Anos depois tentei trazê-lo ao Brasil para as Jornadas Nacionais de Iniciação Científica do Impa, mas a agenda dele não permitiu.
Conversei com Conway uma última vez um par de anos atrás, no “common room” do departamento de matemática da Universidade de Princeton. Já estava aposentado, mas ainda ia lá regularmente. Morreu neste sábado (11), aos 82 anos, vítima da Covid-19.

Texto de Marcelo Viana, na Folha de São Paulo.

Assim vou lhe chamar: lá ia o Moraes Moreira, descendo a ladeira

“Eu sou o Carnaval de cada esquina do seu coração”, dizia um dos seus versos mais bonitos, e todo dia, quase todo dia, via Moraes Moreira naquela esquina —óculos escuros, pernas compridas, braços intermináveis. Para mim aquela esquina tinha que chamar Moraes Moreira, aquela do encontro da rua das Acácias, que por acaso só tem oitis, com a rua dos Oitis, que por acaso só tem acácias.

Lá vai o Moraes descendo a ladeira, quase todo dia, em direção à padaria Gávea Shop, cujo nome acabo de descobrir no Google, porque para mim sempre foi a padaria do Moraes Moreira. Meu pai me escrevia “te pego às 17h na Moraes Moreira” —e estava entendido: era a padaria. “Gávea Shop” —que decepção de nome. Tinham que batizar de Moraes Moreira, Pães e Sonhos - Panificadora Ilimitada. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser.
Aprendi a tocar violão para tocar as músicas do Moraes Moreira e tocar que nem o Moraes Moreira. Nunca consegui. Faltava jeito, ou faltava braço. Moraes abraçava o violão, nas suas mãos parecia um cavaquinho. Tinham que mudar o nome do violão para Moraes Moreira. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser.
Acho que gosto de Carnaval por causa do Moraes Moreira. “Pra libertar meu coração eu quero muito mais que o som da marcha lenta.” (Acho que essa é a minha música preferida de todos os tempos.) “Eu quero um novo balancê, o bloco do prazer que a multidão comenta.” Tinham que mudar o nome do Carnaval para
Moraes Moreira. Assim vou lhe chamar, assim você vai ser.
E da festa junina também. “Fagulhas, pontas de agulha, brilham estrelas de São João”, diz a parceria com Abel Silva. E o refrão mais bonito do mundo —“nas trincheiras da alegria o que explodia era o amor”. Toda música do Moraes era uma festa. “Chame, chame gente que a gente se completa enchendo de alegria a praça e o poeta.” Que triste logo o Moraes partir sem festa. Tinham que mudar a palavra festa para Moraes Moreira. Quando tudo isso acabar vai ter um Moraes Moreira que eu vou dançar até o sapato pedir para parar.
Quando Bolsonaro ganhou, tudo parecia ter mudado para sempre. E naquela segunda-feira desolada vi o Moraes Moreira descendo a ladeira, impávido, idêntico, irascível a caminho da padaria. Ufa. Ainda existe um país pelo qual se vale a pena lutar. Tinham que mudar o nome desse país para Moraes Moreira.
A padaria fechou —parece que para sempre, segundo o Google. Moraes Moreira morreu. Alguma coisa mudou. Para sempre.

Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Enquanto uns piram na cloroquina, Montevidéu distribui livros

Daquelas notícias que, em meio a tanta coisa feia, tanta coisa ruim, dão uma animada no leitor. Para ajudar os cidadãos em situação de vulnerabilidade durante o afastamento social imposto pela pandemia, a prefeitura de Montevidéu está distribuindo cestas básicas com livros dentro. Sim. Livros. Aqueles objetos que, segundo alguns, “têm muita coisa escrita”.
Na contramão desse conceito, digamos, tão pouco ilustrado, Montevidéu vem misturando batatas com Albert Camus. Lentilhas com Julio Verne. Leite com George Orwell. Arroz com Horacio Quiroga. E, para não deixar "los niños" só olhando, cabelinho de anjo com J.K. Rowling.
Sobre a iniciativa, o secretário-geral da prefeitura disse à Folha que “não se trata apenas de minimizar a crise em termos econômicos, mas de fortalecer o espírito. A literatura e a arte colaboram com isso”. Caiu uma lágrima, não sei se de emoção por eles ou de tristeza por nós.
Juan Canessa, o secretário-geral, estudou antropologia. É de humanas, portanto, baderneiro. Assim como o prefeito de Montevidéu, faz parte da Frente Ampla, a coalizão de esquerda que elegeu Tabaré Vázquez e José Mujica.
Sorte a deles que o Uruguai não é o Brasil de hoje. Se fosse, é certo que ouviriam um “nuestra bandera nunca será roja” quando saíssem para jantar com a patroa e os pirralhos. Não faltaria quem visse na distribuição de livros um perigoso ato ideológico. E, na sequência, começariam os rumores sobre “el biberón de pito” (desculpas se a mamadeira de piroca não estiver corretamente traduzida).
O Brasil de hoje anda tão despirocado que isolamento social virou ideologia. Ficar em casa serve para achatar a curva ou para quebrar o Brasil? Prefeitos e governadores são a favor de diminuir o número de contaminados ou estão contra o Brasil? E a cloroquina, é quem tem competência que dirá se ela salva vidas ou um desqualificado que a receitará para salvar o Brasil?
Enquanto isso, os “hermanos” seguem distribuindo cestas básicas e livros. Farinha com Juan Carlos Onetti. Óleo com Hermann Hesse. Café com Mario Benedetti. Cenoura com García Marquez. Nas palavras do secretário-geral de Montevidéu, “a cesta básica, mais do que algo para superar a emergência, deve ser um carinho no coração das pessoas”.
Só não deixa aquele pessoal da frente da Fiesp saber, senão periga eles mudarem o bordão. Sai “Vai pra Cuba!”, entra “Vai pro Uruguai!”.

Texto de Cláudia Tajes, na Folha de São Paulo

Para cada 'Twin Peaks', há 200 abacaxis na TV durante a quarentena

Minha última sessão de cinema foi estranha. “O Oficial e o Espião” tinha acabado de entrar em cartaz, era a estreia mais importante da semana, um filme de Roman Polanski, que tinha acabado de ganhar um prêmio polêmico. Mesmo assim, não havia mais de dez pessoas na sala imensa. Alguém comenta, não sem razão, que é mais difícil contrair o vírus ali do que na rua.

Ainda era março e, no fim, passei rápido pelos saguões de alguns cinemas de São Paulo. O do Belas Artes e do Espaço Augusta, normalmente animados, pareciam velórios. Não precisava ir longe para ter a sensação de que a temporada tinha acabado —o que, de fato, aconteceria logo depois.
Na calçada em frente ao bar Moela, entupida, a garotada ainda não levava muito a sério a epidemia ou aproveitava a última chance de tomar cervejas com os amigos antes de a sociabilidade ficar restrita ao WhatsApp.
Em casa, é estranho —a pilha de DVDs, separada com filmes que espero ter um tempinho para rever, de repente não me atrai. Tornou-se compulsória, deixou de ser um prazer.
Em todo caso, existe o streaming, e alguém me falou de “Lost Girls”, um dos mais vistos da Netflix. Só que mais parece um daqueles telefilmes dos anos 1980. Tchau.
Carlos Alberto Mattos, colega crítico do Rio de Janeiro, recomenda a série francesa “Dix pour Cent”, vulgo “Call My Agent”. Essa é na mosca, uma deliciosa comédia de escritório. Pode até lembrar “Mad Men”, mas não se bebe e fuma em tempo integral.
Mas aí surgem os canais de TV paga. Deus, que horror.
Telecines, HBOs e outros que só exibem coisas que já vimos cem vezes ou produções que os olhos repelem à primeira cena. Esquece. As esperanças são os filmes do Arte 1 e os documentários do Curta!.
A pilha de livros está lá para salvar, mas será preciso revezar. Tenho aqui “O Fantasma de Luis Buñuel”, da Maria José Silveira, que foi uma formidável editora no tempo da Marco Zero e comprou “A Cor Púrpura” por duas mariolas e vendeu uns 100 mil exemplares.
Penso também em ligar para amigos, mas não há tempo. Confinado, parece que trabalho mais do que o normal. Preciso aprender a dar aulas sem ser presencialmente. Um aluno se propõe a me ensinar a usar o Skype, mas não sei.
E como repousar? O jeito é voltar a garimpar filmes no streaming. Tudo é cíclico na quarentena. E para cada “Twin Peaks” há 200 abacaxis ou séries para as quais não tenho paciência. Segui umas duas ou três em toda a vida. Não posso queimar “Dix pour Cent” de uma vez só.
Aos poucos, vou descobrindo o que é prisão domiciliar: é uma maneira de fazer o cara odiar a própria casa. Estou ficando ranzinza ao só ver frango no delivery. Penso em fazer um gim-tônica. Mas, se ceder a esse desejo assim de primeira, vou acabar virando alcoólatra em duas semanas.
Olho ao meu redor e já não encontro nada. Tudo está uma baderna. Cinemas fechados, a NBA parada, o futebol cancelado. Só resta a TV aberta —o inferno deve ser assim.
Lá fora, leio sobre as dificuldades de fechar todo o comércio. Sobre membros do governo que resolveram xingar os chineses a esta altura do campeonato. Ruas que seguem movimentadas. O Brasil chegou aonde tanto queria, a um governo burlesco, misto de chanchada e de terror.
Só que em momento grave, em que a Covid-19 avança com velocidade. Quem vai nos tirar dessa? Parece que estamos em um desses filmes que entopem a televisão: apertem os cintos, o piloto sumiu.

Texto de Inácio Araújo, na Folha de São Paulo

domingo, 12 de abril de 2020

Ecstasy e LSD para coronavírus

Se e quando a pandemia de Covid-19 passar, o planeta estará mergulhado noutro surto mundial –agora de doença mental. Ela já se encontra em alta, mas recebe menos atenção porque
quase 2 milhões de casos e cento e tantas mil mortes falam mais alto que o sofrimento psíquico associado.
Há pelo menos dez fatores para aumentar a incidência de transtornos mentais. Não será surpresa, tampouco, se crescer em paralelo a taxa de suicídios, como resultado da nova pandemia.
O primeiro e mais óbvio deles afeta médicos e enfermeiros na linha de frente contra a Covid-19. Sobrecarga de trabalho, falta de equipamentos de proteção individual, distanciamento da família e sucessivas mortes de pacientes ou colegas infernizam seu cotidiano nos hospitais e UTIs, sem perspectiva de terminar.
Profissionais de saúde compõem categoria até 40% mais propensa a ideações e tentativas suicidas do que a média da população. Sob a avalanche de doentes em sufocação e todo o estresse atual, é de prever que alguns chegarão bem mais perto disso.
Recessão, desemprego e perda de renda acossam o restante da sociedade, em particular aqueles sem condições habitacionais e financeiras de observar o isolamento social recomendado. Este, de resto, quando obedecido, representa o terceiro e poderoso fator deprimente.
Dificuldades de locomoção, por sua vez, restringem o acesso a serviços de saúde mental e a cultos religiosos, recursos conhecidos para diminuir a ansiedade –continuamente alimentada pelo noticiário copioso sobre a pandemia e o número galopante de óbitos, sexto componente traumático.
Some-se a isso o aumento da violência doméstica, aparente resultado do convívio forçado de cônjuges, pais e filhos –sem aulas, sem trabalho, sem lazer. Condição agravada, no Brasil, pelo jorro de chorume ideológico presidencial, imitação do negacionismo trumpiano que fomentou a presente tragédia americana.
Lá, como cá, armas de fogo estão em alta, o décimo e fatal agente patológico. Elas são, como se sabe, as preferidas de quem cogita suicidar-se, ou mesmo dar vazão à impotência argumentativa miniônica disparando tiros contra vizinhos nos panelaços diários.
Em 68 anos como rainha, Elizabeth 2ª fez só cinco pronunciamentos especiais televisionados, o último deles no domingo passado (5), neste caso para tranquilizar súditos diante da epidemia, que comparou às agruras da Segunda Guerra. Angela Merkel, na Alemanha, foi à TV pela primeira vez em 14 anos com o mesmo propósito.
O presidente Jair Bolsonaro fez isso três vezes, em meros 16 dias (fora as transmissões ao vivo por redes sociais), e em todas espalhou confusão. Agarrou-se à bandeira da economia em frangalhos e fez propaganda de supostos milagres com um remédio sem eficácia comprovada pela ciência contra o coronavírus.
Só no último pronunciamento Bolsonaro prestou solidariedade às famílias dos mortos. Se tivesse mais empatia com o sofrimento alheio, apreço pela lógica e respeito à ciência, deveria defender não a cloroquina, mas compostos cientificamente atestados contra aflições mentais que continuam proibidos.
Em seus idolatrados EUA, o psicodélico MDMA (ecstasy) está na fase 3 de testes clínicos para ajudar ex-combatentes, policiais e bombeiros na luta contra o estresse pós-traumático. Ayahuasca, psilocibina, cetamina e LSD têm ação comprovada contra transtornos mentais –em estudos controlados e rigorosos, ao contrário da cloroquina que ocupa as mentes transtornadas.

Texto de Marcelo Leite, na Folha de São Paulo

Não sabemos

Como meu amigo e colega Gregório Duvivier, eu também entrei na quarentena achando que iria ler "Em Busca do Tempo Perdido" enquanto escreveria um romance de 800 páginas, um roteiro de longa e uma peça de teatro.
Três semanas mais tarde, porém, devo admitir que a minha inspiração tem desaguado principalmente no Twitter e em mensagens para grupos de WhatsApp. Nem a leitura tem sido muito produtiva: em vez de me empanturrar com as madeleines de Proust, futuco a internet atrás de toda e qualquer migalha sobre a pandemia.
Tenho conversado com amigos escritores e a pane criativa parece ser geral. Não estar conseguindo criar, no entanto, é um problema secundário se comparado à encrenca de quem tem obras inéditas ou em produção.
A pergunta que nos fazemos é: será que nossas obras terão algum sentido no mundo pós-Covid? O que será o mundo pós-Covid? Como seremos nós, os sobreviventes da Covid? Quereremos livros, filmes, séries e peças sobre a doença, o isolamento, ou comédias leves que nos façam esquecer o passado recente?
Não sabemos. Não saber, aliás, é uma das angústias desta peste. Não sabemos quantas pessoas morrerão. Se teremos parentes e amigos que morrerão. Se contrairemos a doença. (Sete bilhões de pessoas imaginam, diariamente, a própria morte).
Qual será a extensão da quebradeira econômica? Teremos emprego daqui a três meses? O que este sociopata que ocupa a Presidência da República ainda aprontará para piorar a vida dos brasileiros? O coronavírus adiantará o fim do estafermo ou lhe dará meios para executar o tão sonhado golpe de estado?
A única certeza é que a tragédia atual deixará marcas profundas em todos nós. E aí reside mais um problema para os escritores com obras inéditas ou em produção. É preciso inserir estas marcas nos personagens. Lançar um livro em dezembro de 2020 em que nenhum personagem mencione o coronavírus é como lançar um livro na Paris ocupada em 1944 ignorando o nazismo.
Mas como inserir estas marcas se não sabemos quais serão? O medo da morte, somado ao isolamento social, vai produzir um futuro próximo sob o signo da melancolia ou vai todo mundo fazer suruba na rave cheirando lança perfume? Augusto dos Anjos ou Village People?
Não temos a mais vaga ideia e prostrados ficamos, sem saber se escrevemos "Vês! Ninguém assistiu ao formidável/ Enterro de tua última quimera/ Somente a ingratidão ""esta pantera""/ Foi tua companheira inseparável" ou "It's fun to stay at the Y.M.C.A".
O senso comum costuma creditar obras excepcionais a experiências excepcionais. Às vezes é assim, como no "Diário de Anne Frank" ou "Matadouro-Cinco". A arte que mais me interessa, porém, é a que fala do homem comum. Do tempo comum. É "A Morte de Ivan Ilitch": um homem, qualquer homem, diante do próprio fim. Os poemas do Drummond: um homem, qualquer homem, sozinho numa noite do Rio de Janeiro. "Memórias Póstumas de Brás Cubas": um homem, o mais medíocre dos homens, dissecado por um escritor genial. As crônicas do Rubem Braga: uma tarde na praia. Uma árvore da infância. A vista da janela. "A Morte do Caixeiro Viajante". "Casa de Bonecas". "Annie Hall".
Hoje, contudo, todas estas obras estão eclipsadas pela realidade. O jornalismo tomou o lugar da ficção. É com as notícias que choramos, sentimos medo, esperança, raiva, empatia. Não vejo a hora desta loucura acabar, de voltarmos para nossas vidas e termos que buscar na arte alguma beleza e sentido para nossas saudosas banalidades.

Texto de Antonio Prata, na Folha de São Paulo