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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aos 69 anos, morre Kim Jong-il, líder da Coreia do Norte


O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, 69 anos, morreu, informou nesta segunda-feira a televisão estatal do país comunista, a KCTV. Kim morreu no último sábado, mas sua morte só foi anunciada nesta segunda-feira pela mídia local. Pouco depois do anúncio, o Exército da Coreia do Sul declarou um alerta em Seul por causa da morte do líder do país vizinho, enquanto o governo sul-coreano estabeleceu um plano de emergência.
Segundo um comunicado publicado da rede norte-coreana e divulgado pela agência sul-coreana Yonhap, o chefe do regime norte-coreano, um dos mais isolados do mundo, morreu no último sábado, às 8h30 locais (21h30 de sexta-feira em Brasília), por causa de "fadiga física" durante uma viagem de trem. Seu funeral, de acordo com a KCTV, está marcado para o dia 28, na capital Pyongyang.
"Nosso querido líder Kim Jong-il morreu no sábado 17 às 8h30 enquanto viajava para realizar suas funções de liderança", disse, entre lágrimas e com traje de luto, a apresentadora do canal norte-coreano. A KCTV detalhou que Kim "morreu de um grande esforço mental e físico" durante uma viagem de trem.
Kim Jong-il estava à frente da dinastia comunista hereditária norte-coreana desde 1994, quando assumiu o poder após a morte de seu pai e fundador do país, Kim Il-Sung. Foram 17 anos governados com mão de ferro em um regime baseado no culto à personalidade. Mas desde a apoplexia sofrida em 2008, suas aparições públicas foram poucas e nelas mostrava uma figura cada vez mais frágil e decrépita, embora sempre com seus inseparáveis óculos de sol e uniforme militar, que se transformaram em sua marca registrada.

Notícia do Terra

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Morre Vaclav Havel, ex-estadista e dramaturgo


Vaclav Havel, o primeiro líder da antiga Tchecoslováquia desde a chamada Revolução de Veludo, que pôs fim ao regime comunista no país, morreu aos 75 anos.
Durante a gestão comunista, Havel ganhou fama por suas peças que criticavam o regime comunista e ganhou a inimizade do governo, que o manteve preso por mais de quatro anos, entre 1979 e 1983.
Com a queda do regime comunista, o líder da resistência pacífica ao regime chegou à presidência da Tchecoslováquia, em 1989.
Em sua gestão, ele promoveu a transição do país para a democracia e supervisionou a cisão pacífica que resultou na formação da República Checa e da Eslováquia.
Havel foi um fumante inveterado ao longo de boa parte de sua vida e sofria de problemas respiratórios crônicos, tendo chegado a extrair parte de seu pulmão direito.

Visto na BBC Brasil

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Hoje na História: 1991 - Com fim iminente da URSS, é fundada a CEI


Hoje na História: 1991 - Com fim iminente da URSS, é fundada a CEI

Após o fracasso das reformas de Mikhail Gorbachev, Boris Yeltsin ascende ao poder







Boris Yeltsin, Stanislas Choukevitch e Leonid Kravtchuk, prsidentes das repúblicas da Rússia, da Bielorússia e da Ucrânia, se reúnem perto de Minsk e, constatando que o tempo da União Soviética havia terminado, dão nascimento em 8 de dezembro de 1991 à CEI (Comunidade de Estados Independentes). Em 21 de dezembro outras oito antigas repúblicas soviéticas - Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Moldávia, Tadjiquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Geórgia – se juntam à CEI. Somente os três Estados bálticos – Lituânia, Letônia e Estônia - desejando integrar-se à União Européia, recusam aderir à CEI.
A estagnação econômica a partir de meados da década de 70, aliada à corrida armamentista, coloca em evidência as deficiências e distorções estruturais da sociedade soviética e a necessidade de reformas urgentes. A URSS enfrenta dificuldades crescentes para manter sua hegemonia na Europa Oriental, recúa na Ásia, África e América Latina e naufraga no Afeganistão.
Mikhail Gorbachev torna-se um dos principais assessores de Iuri Andropov durante o curto governo deste, entre 1982 e 1984. Em março de 1985 é eleito secretário-geral do partido, após a morte de Konstantin Tchernenko, que substituíra Andropov.
Em 1986, desencadeia a glasnost e a perestroika, que definem o que deve ser destruído e mudado, mas não o que deve ser construído no lugar das estruturas antigas. Isso estimula movimentos que Gorbachev não consegue controlar, levando a uma grave crise econômica, social e política, à sua própria queda, em 1991, e à desintegração da União Soviética.
perestroika, ou reestruturação econômica, é iniciada em 1986, no início do governo. Consistia num projeto ambicioso de reintrodução dos mecanismos de mercado, renovação do direito à propriedade privada em diferentes setores e retomada do crescimento. A perestroika visava liquidar os monopólios estatais, descentralizar as decisões empresariais e criar setores industriais, comerciais e de serviços em mãos de proprietários privados nacionais e estrangeiros. O Estado continuava como principal proprietário, mas seria permitida a propriedade privada em setores secundários da produção de bens de consumo, comércio varejista e serviços não-essenciais. Na agricultura seria permitido o arrendamento de terras estatais e cooperativas por grupos familiares e indivíduos. A retomada do crescimento era projetada pela conversão de indústrias militares em civis, voltadas para a produção de bens de consumo.
glasnost, ou transparência política, era considerada essencial para mudar a mentalidade social, liquidar a burocracia e criar uma vontade política nacional de realizar as reformas. Abrangia o fim da perseguição aos dissidentes políticos e incluía campanhas contra a corrupção e a ineficiência administrativa, realizadas por intermédio dos meios de comunicação. Avançava ainda na liberalização cultural, com a permissão para a publicação de uma nova safra de obras literárias críticas ao regime e a liberdade de imprensa, caracterizada pelo número crescente de jornais e programas de rádio e TV que abriam espaço às críticas.
A descompressão política, que permite a expressão do descontentamento numa escala inédita desde a Revolução de 1917, combinada com o impasse na condução das reformas econômicas, mergulha a União Soviética numa crise no final dos anos 80. A produção se desorganiza devido à ausência de uma estratégia definida de reestruturação econômica.
A estruturação de um novo sistema é obscura. Organizam-se máfias, constituídas por antigos dirigentes de empresas e ministérios, que se apropriam do patrimônio público e acumulam fortunas. O Partido Comunista se divide em facções antagônicas. A União se desagrega, como resultado da pressão de movimentos nacionalistas e autonomistas nas diversas repúblicas.
Em 19 de agosto de 1991, Gorbachev enfrenta um golpe de Estado dado por civis e militares conservadores, que pretendem manter a União e revogar boa parte das reformas liberalizantes. Mas a reação ao golpe conta com o apoio da maioria das Forças Armadas e da população.
Como conseqüência da resistência aos golpistas e do enfraquecimento da posição política de Gorbachev, Yeltsin assume o poder de fato, proibindo o funcionamento do Partido Comunista na Rússia. O poder crescente de Yeltsin força a renúncia de Gorbachev, em dezembro de 1991.

Visto no Opera Mundi. A data da fundação da CEI é 8 de dezembro de 1991. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

História do comunismo na China é muito recente para ser escrita

História do comunismo na China é muito recente para ser escrita

Didi Kirsten Tatlow
Em Pequim (China)

No fim, os silêncios da oficial “História do Partido Comunista Chinês, 1949-1978”, falam mais alto do que suas quase um milhão de palavras.

O extraordinário sobre essa obra de dois volumes, publicada em janeiro e amplamente discutida este mês durante a celebração do aniversário de 90 anos do partido, é que, embora contenha alguns novos detalhes relativos a acontecimentos controversos nas primeiras três décadas de governo comunista, um tema gigante é ignorado com um silêncio quase total: as mortes de dezenas de milhões de pessoas por conta de campanhas políticas.

“Não menos do que 60 milhões”, disse Frank Dikötter, historiador da Universidade de Hong Kong que está escrevendo um livro sobre os primeiros anos da República do Povo.

A nova história é importante para o partido porque ela diz a 82 milhões de membros em que acreditar, à medida que o partido procura aumentar sua credibilidade numa era em que múltiplas fontes de informação estão disponíveis online.

Muitos historiadores do partido dizem que a nova história é mais “objetiva” do que os relatos anteriores.

De alguma forma sutil, isso é correto, percebe o leitor, depois de assimilar suas 1.074 páginas.

Um breve parágrafo incomum num relato da Campanha Anti-Direitista de 1957 descreve protestos generalizados, greves e saques no final de 1956, à medida que as pessoas enfrentavam falta de alimentos e itens básicos, resultado das requisições de grãos forçadas pelo estado e políticas industriais fracassadas.

A campanha que se seguiu, ordenada por Mao Tsé-Tung e organizada por Deng Xiaoping, tinha como objetivo prevenir um levante como a revolta húngara de 1956. Mais de 550 mil intelectuais foram taxados de “direitistas”. Demitidos de seus empregos, torturados, enviados para campos de trabalho, muitos morreram. Famílias inteiras foram punidas.

Numa nota de rodapé, a história diz que “98%” das vítimas da campanha foram acusadas equivocadamente.

Apesar disso, o veredito continua o mesmo: a eliminação fatal foi “necessária e correta” para implementar totalmente o socialismo.

O papel desempenhado por Deng, que depois se tornou o líder supremo da China, é maquiada. Deng é reverenciado aqui, e oficialmente recebe o crédito por ter tirado o país da pobreza com reformas econômicas pragmáticas depois que a Revolução Cultural terminou em 1976.

“O livro não diz onde Deng Xiaoping errou, porque isso está muito próximo”, disse um historiador do partido, falando sob condição de anonimato porque não tem autorização para falar com jornalistas.

Num detalhe raro e revelador, contido num relato do Grande Salto Adiante de 1958-62, a campanha de coletivização e industrialização forçada de Mao, que precipitou a pior fome da história moderna chinesa, o livro diz que a população da China caiu em 10 milhões de 1959 a 1960.

“Isso é apenas um ano, e não leva em conta o crescimento natural da população na época”, disse o historiador. A população da China de mais de 600 milhões estava crescendo rapidamente, com uma taxa de natalidade de cerca de seis filhos por mulher.

Entre dois e três milhões de pessoas foram mortas em 1949-51, acusadas de serem proprietários de terras, bandidos, espiões do Kuomintang ou contrarrevolucioários, diz Dikötter, citando sua própria pesquisa. Nenhum número é mencionado no livro, embora os objetivos políticos da reforma agrária e de outras campanhas sejam descritos em algum detalhe.

Mao é retratado na história como alguém que cometeu erros “esquerdistas”, como a Revolução Cultural de uma década. Geralmente, entretanto, a narrativa caracteriza suas políticas como “necessárias” e culpa os excessos em “expansões” equivocadas, sem elaborar mais longamente.

Acima de tudo, os aspectos mais “objetivos” que os historiadores do partido enaltecem são simplesmente muito limitados para serem significativos, disse a historiadora Zhou Zun, também da universidade de Hong Kong.

“É uma espécie de ilusão, mostrar que eles estão fazendo um esforço para contar a verdade quando sabemos que eles não estão”, disse ela. “É algo que o Partido Comunista faz muito bem.”

Os historiadores do partido na China são servidores do estado, presos entre a verdade histórica e a realidade política, dizem Zhou e Diköter. Não ofender as dezenas de famílias poderosas que, coletivamente, governam a China, também é uma grande preocupação.

“É um incrível ato de equilíbrio. É como ser uma bailarina o que eles fazem”, disse Dikötter.

Isso foi mostrado no tortuoso processo de escrita. Os historiadores passaram quatro anos no esboço original, começando em 1994.

Depois disso, “tiveram que buscar a opinião de 200 a 300 pessoas”, disse o historiador do partido. Isso levou outros 12 anos, e muitos outros esboços. Pelo menos 15 historiadores que trabalhavam no projeto morreram nesse tempo.

O presidente Hu Jintao tinha uma equipe de pesquisadores buscando fatos ou interpretações indesejáveis. Assim como o vice-presidente Xi Jinping, o homem esperado para suceder Hu e cujo pai, Xi Zhongxun, foi removido nos anos 60 antes de retornar.

Os departamentos do governo, incluindo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, que supervisiona políticas econômicas e sociais, e o Ministério de Exterior avaliaram o texto. Bem como os militares.

Espelhando a forma como o partido e o governo funcionam hoje, “foi um esforço coletivo”, disse o historiador.

Diferente de publicações histórias anteriores do partido, quando Deng ou o ideólogo do partido Hu Qiaomu tomaram as decisões, desta vez “não havia nenhuma pessoa que viveu durante aqueles anos que tivesse o poder de decidir” o que era publicável, disse o historiador. Uma história anterior, que cobriu os anos de 1921 a 1949, foi publicada em 1991. Hu morreu em 1992, Deng em 1997.

Os historiadores do partido sentiram que negociaram com sucesso um projeto extraordinariamente delicado mas dizem que ele deixou muitos na sociedade insatisfeitos.

“Tanto a esquerda quanto a direita estão descontentes”, disse o historiador do partido.

“A esquerda diz: 'vocês estão negando o Partido Comunista'. A direita diz: “vocês ainda não disseram a verdade sobre os erros'”, disse ele. “No que diz respeito às histórias oficiais, cada dinastia normalmente tenta escrever a história da dinastia anterior.”

“Na China, não se escreve história contemporânea. Quanto mais próximos os tempos, mais difícil é. O próximo projeto, de 1978 a 2011, será ainda mais difícil”, ele prevê.

O trabalho já começou.

Mas se levou 16 anos para produzir um relato dos primeiros 29 anos de governo comunista, pela lógica, o relato ainda mais difícil de ser escrito dos 33 anos subsequentes não sairá antes de 2030.

Tradução: Eloise De Vylder



quinta-feira, 9 de junho de 2011

Golfe em Cuba

Por dinheiro, Cuba agora aprova o 'burguês' golfe

Fidel Castro fechou os campos de golfe ao chegar ao poder
Por RANDAL C. ARCHIBOLD
 
CIDADE DO MÉXICO - Uma das primeiras ações de Fidel Castro ao assumir o poder foi livrar Cuba dos campos de golfe, procurando proibir um esporte que ele e outros socialistas revolucionários viam como símbolo do "excesso burguês".
Agora, 50 anos depois, investidores dizem que o governo cubano adotou direção contrária, concedendo, nas últimas semanas, autorização preliminar para a construção de quatro resorts de luxo voltados para o golfe, os primeiros que devem se instalar na ilha de uma onda de mais de uma dúzia. Esses lugares vão fazer a alegria dos turistas e engordar o cofre de uma nação sedenta por dinheiro.
Os quatro projetos iniciais totalizam mais de US$ 1,5 bilhão, sendo que cerca de metade do futuro lucro deve ficar com o governo cubano. O projeto inclui a construção de residências. Os estrangeiros poderão comprá-las -uma rara oportunidade vinda de um governo que proíbe a propriedade privada.
Fidel Castro e seu então companheiro Che Guevara, que trabalhou, ainda na Argentina, como doceiro na juventude, foram fotografados jogando uma partida de golfe, naquilo que alguns interpretaram como um esforço para caçoar o esporte ou o presidente Dwight Eisenhower, um apreciador da bolinha- ou os dois.
Mas a economia de Cuba em baixa e o crescimento na popularidade do esporte, particularmente entre os turistas gastadores que levam seus clubes de golfe para onde vão, suavizaram a visão do governo. Manuel Marrero, o ministro do Turismo, disse, em conferência na Europa em maio, que o governo vai fazer "joint ventures" para construir 16 resorts de golfe em um futuro próximo.
Nos últimos três anos, o único campo de 18 buracos de Cuba, de propriedade do governo, localizado no resort da praia de Varadero, chegou a sediar um campeonato. Por isso, há muito tempo deixou de ser, seus defensores dizem, um jogo de homem rico.
"Nós fomos avisados de que essa incursão é prioridade do investimento estrangeiro", disse Graham Cooke, arquiteto de campos de golfe que comanda um projeto de US$ 410 milhões na praia de Guardalavaca, a cerca de 800 km da capital Havana, para a Standing Feather, um consórcio de indianos do Canadá.
Andrew Macdonald, o executivo-chefe da Esencia Group, com sede em Londres, que está planejando um clube de US$ 300 milhões em Varadero, disse: "Esse é um projeto fundamental para nossa empresa ter um setor de turismo mais eclético".
A expectativa é que os outros projetos incluam, no mínimo, um dos três propostos pela Leisure Canada, empresa baseada no Canadá, além de um resort planejado pela Foster & Partners, de Londres. Os projetos, inicialmente, são voltados para turistas canadenses, europeus e asiáticos.
Mudanças políticas adotadas no último congresso do Partido Comunista em abril parecem ter aberto o caminho, incluindo resolução que aponta para o golfe e as marinas como fontes de renda para a recuperação da economia.
"Cuba olha para sol, salsa e praia e sabe que tais atrações não se sustentarão", disse Chris Nicholas, diretor do Standing Feather. "Eles precisam de mais atrações para oferecer e decidiram apostar no golfe".
John Kavulich, conselheiro do Conselho Econômico do Comércio entre EUA e Cuba, disse que Cuba tem histórico de recuar de decisões relacionadas à livre iniciativa pela dificuldade de explicar como complexos tão caros podem dividir a cena com casas em frangalhos por toda parte. "Será que Cuba vai autorizar o cidadão a participar da festa?", questionou. "Como isso tudo vai funcionar?
Se os projetos forem construídos como estão no papel, os turistas terão à disposição lojas, spas e benefícios de luxo. Standing Feather, que chama seu hotel de "Estância de Golfe Loma Linda", promete 1.200 casas de campo, bangalôs e apartamentos em um terreno de 210 hectares. O complexo contará ainda com shopping center.
Cooke, o arquiteto do campo de golfe, observa com ironia: "Será construído bem na região originária de Fidel Castro".



quinta-feira, 3 de março de 2011

Prisioneiros de lares para crianças da Alemanha Oriental são ignorados

Prisioneiros de lares para crianças da Alemanha Oriental são ignorados

Maximilian Popp
Steffen Winter

Abuso sexual, confinamento solitário e total desrespeito à lei – os lares para crianças na antiga Alemanha Oriental foram o inferno na Terra para muitos dos jovens que passaram por eles. Mas diferentes de seus pares sofredores na Alemanha Ocidental, eles ainda aguardam para uma reavaliação plena do passado.
Heidemarie Puls nunca se esquecerá do diretor do lar para crianças onde já viveu. O bom camarada a chamava com frequência demais ao seu escritório para que consiga esquecer, tocando em seus seios e pressionando sua boca contra o pescoço dela. “Por favor, pare”, implorava Puls. Em vez disso, o professor a agarrava, a forçava a deitar em uma cama e ordenava que ela o agradasse. O abuso era seguido pelo que ele considerava parte da educação dela: uma surra com uma vara.
Puls sofreu o mesmo destino que muitas outras crianças institucionalizadas na Alemanha Oriental –também conhecida como República Democrática Alemã (RDA). Colocadas aos cuidados do governo para protegê-las de seus padrastos, elas caíam vítima dos desejos de estranhos. O destino delas é comparável aos das crianças institucionalizadas na Alemanha Ocidental, cujo apuro agora está sendo tratado por um grupo chamado “Mesa Redonda para Crianças Institucionalizadas” em Berlim.
Mas Puls, 53 anos, é uma vítima de segunda classe. Quando a mesa redonda, presidida pela ex-vice-presidente do Bundestag, Antje Vollmer, do Partido Verde, recomendou em dezembro que as antigas crianças institucionalizadas deveriam receber uma indenização de 120 milhões de euros por meio de um fundo, o caso dela foi excluído. Os milhares de jovens que foram institucionalizados na Alemanha Oriental, à mercê de um sistema de educação adotivo arbitrário e desumano, nem foram mencionados em Berlim. Aproximadamente 21 anos após a queda do Muro de Berlim, a comissão ressuscitou na prática a fronteira entre as duas Alemanhas.
O mais notório reformatório na RDA
Manfred Kolbe, um ex-promotor público e juiz na Baviera e posteriormente secretário da Justiça do Estado oriental da Saxônia, atualmente é membro do Parlamento alemão, o Bundestag. Seu distrito inclui Torgau, local do mais notório reformatório na RDA. Kolbe acredita que os casos de abuso no antigo Estado comunista foram “provavelmente ainda mais severos” do que os ocorridos na Alemanha Ocidental. E “não foram casos isolados”, mas sim baseados em “um sistema de educação que envolveu a destruição sistemática da individualidade”. Para Kolbe, a ignorância da comissão é “amarga”.
As vítimas dos lares para crianças da Alemanha Oriental estão aguardando por tanto tempo quanto as vítimas no Oeste por uma investigação plena de seu passado. Com exceção de uma breve visita a Torgau pela ministra dos Assuntos Familiares da Alemanha, Kristina Schröder, e pela ministra da Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, nada foi feito. Manfred Kappeler, uma assistente social em Berlim, argumenta que as críticas públicas às condições nas instituições no Oeste “deveriam ser aplicadas de modo igualmente radical à educação pública na RDA”. Segundo Kappeler, as condições nas instituições eram “mais ou menos as mesmas” em ambos os lados da divisão durante aquelas décadas sombrias. A única diferença era que as vítimas no Leste não podiam nem mesmo teoricamente esperar a ajuda de policiais, promotores ou jornalistas.
A Alemanha Oriental manteve um sistema complicado de instituições normais para crianças, lares de recepção e observação, lares para jovens, lares para crianças especiais, instituições de trabalho juvenis e até mesmo um “lares especiais combinados” em Berlim. Ele produziu centenas de vítimas traumatizadas que deveriam se tornar “membros plenos da sociedade socialista”.
Nas garras do sistema socialista
As crianças, que frequentemente vinham de famílias com problemas, não podiam esperar muito afeto assim que ficavam sob custódia do Estado. O lema do educador soviético Anton Makarenko (“A pessoa moderna deve ser criada de um novo modo”) foi aplicado muitas vezes na Alemanha Oriental.
Em 2004, o Tribunal de Apelação de Berlim decidiu que a meta do “sistema de reeducação” alemão oriental era “transmitir aos alunos o sentimento de impotência individual e quebrar seu desejo individual de autoafirmação”. Isso era “incompatível” com os “princípios fundamentais de uma ordem constitucional liberal e democrática”.
Os cidadãos jovens da Alemanha Oriental podiam cair facilmente nas garras do sistema socialista de instituições para menores. As autoridades do partido ficavam sempre horrorizadas com a subcultura jovem, com seus ternos “Präsent-20” e óculos de aro marrom. Cabelo comprido e música ocidental eram vistos como suspeitos. Walter Ulbricht, o secretário-geral do Partido Socialista Unificado da Alemanha Oriental (SED), estabeleceu o padrão para o gosto musical desde cedo, insistindo que os alemães-orientais não deveriam copiar “o lixo que vem do Ocidente e colocar um fim ao monopólio do ié-ié-ié, ou seja lá o que for que estiverem cantando”.
Nos arquivos das agências de bem-estar do menor, os jovens eram caracterizados como arruaceiros, egressos, hippies, vagabundos, punks e skinheads – todos categorias do governo para “desvios normais”, pessoas que estavam sob observação. O Estado justificava suas ações, como uma agente de bem-estar do menor alemã-oriental escreveu em seu relatório final, com o argumento de que “é um caminho curto para o egresso escolar se tornar um criminoso”.
O Instituto para Serviços de Bem-Estar do Menor da RDA, em Ludwigsfelde, perto de Berlim, publicou materiais de ensino nos quais o termo “pouco educável” era definido. Segundo a definição, um jovem poderia ser considerado um caso problema simplesmente se ele ou ela tivesse um “sentimento relativamente estável de autoestima” e apenas exibisse um “reconhecimento ou experiência ocasional de sua incompetência, ou falta de qualquer tensão psicológica”. Egocentrismo era considerado suspeito, enquanto aqueles que faziam xixi na cama e roíam unha eram considerados fortes candidatos ao fracasso.
Inferno
Com os meninos, as transgressões eram geralmente brutalidade, desordem e aparência ruim, enquanto as meninas eram acusadas de “promiscuidade nas relações sexuais”, “estilo de vida antissocial” ou “pertencente a um grupo negativo”. As autoridades eram rápidas em institucionalizar os jovens que se destacavam na multidão. O Tribunal de Apelação de Berlim escreveu posteriormente em sua decisão que as autoridades na RDA fracassaram completamente em considerar “que os jovens, devido à sua formação e condições em que viviam, necessitavam de maiores cuidados por parte da sociedade”. Os “pouco educáveis” eram enviados para mansões, castelos, alojamentos de caça e antigos mosteiros expropriados. Mas apesar do ambiente atraente, a vida dentro dos muros do castelo era um inferno.
Ralf Weber tinha 17 anos quando perdeu tudo: suas roupas, sua liberdade e seu orgulho. Enquanto estava nu diante de seus atormentadores, com a cabeça raspada, foi perguntado a ele: “Você acredita no socialismo?” Quando seus olhos começaram a ficar vermelhos, seus professores gritaram: “Nós não choramos aqui!” Eles o surraram até ficar inconsciente, enfiaram sua cabeça em um vaso sanitário e deram descarga. Então o arrastaram até uma cela vazia e úmida e trancaram a porta. Weber lembra-se de ter sido colocado em confinamento solitário. Mas quanto durou? Quatro dias? Uma semana? Ele estava com frio, sem nada para comer e não conseguia dormir. Suas necessidades eram feitas em um balde de lata. Ele recebeu o mesmo tratamento que todos os novos moradores do lar para crianças. “Os professores só tinham uma meta: nos quebrar”, diz Weber.
Em 1967, a agência de bem-estar do menor da Alemanha Oriental emitiu um conjunto de regulamentações para confinamento solitário, mas prudentemente nunca o publicou. Segundo as regras, até mesmo crianças de 12 anos podiam ser colocadas em isolamento caso se recusassem a trabalhar, tentassem fugir ou precisassem ser “protegidas” de si mesmas. A cela mediria seis metros quadrados e seria “construída solidamente”, com “barras de ferro com um diâmetro de pelo menos 12 milímetros”. A cama seria dobrada contra a parede durante o dia e comportamento indisciplinado era proibido. “Se considerado culpado de danificar a cela, o menor deve ser responsabilizado por ela”, declarava as regras.
A Stasi e os lares para crianças
Em 1982, uma mãe horrorizada de Berlim escreveu uma carta para Margot Honecker, a ministra da Educação. Seu filho de 15 anos não queria retornar para um lar na região norte de Mecklemburgo. O menino tinha se transformado em suicida. O que aconteceu? O menino foi pego fumando e foi colocado em confinamento solitário por dois dias. A mulher exigiu que a ministra “proibisse imediatamente” as celas solitárias. A reação do departamento de bem-estar do menor foi rápida. Em uma declaração, ele escreveu que o isolamento “foi incorporado de modo apropriado em todo o complexo para garantir uma situação educacional estável”. Por esse motivo, ele concluiu, medidas adicionais eram “desnecessárias”.
Em Torgau, o local do reformatório mais brutal na RDA, um esforço abrangente para um levantamento do passado só começou no ano passado. Aproximadamente 93 vítimas de abuso sexual responderam a um apelo no memorial no local, enquanto outras 190 relataram abusos físicos e psicológicos. Elas descreveram como os responsáveis atacavam e estupravam meninos e meninas de sete anos, até mesmo levando as crianças para casa com eles nos fins de semana. Segundo um relatório investigativo, as condições nos reformatórios frequentemente eram piores do que nos presídios.
Manfred May trabalha para uma instituição cristã de serviço social no Estado oriental de Turíngia, onde aconselha antigas crianças institucionalizadas. Em uma referência ao “Arquipélago Gulag” do dissidente soviético Alexander Soljenitsyn, May chama o sistema alemão oriental de um “arquipélago de instituições para menores”. Ele já aconselhou centenas de pessoas que relataram violência, maus-tratos e abuso. “O número de instituições mencionadas é perturbadoramente grande.”
Nem todos conseguiam suportar as condições. Um jovem de 17 anos, que fugiu de Torgau enquanto estava sendo transportado, estava tão desesperado que saltou no Rio Elba e se afogou. Jovens usavam camisetas para se enforcarem, bebiam graxa industrial e engoliam agulhas. Um garoto se trancou em seu quarto, espalhou cera de chão em seu corpo e ateou fogo em si mesmo.
Torgau me destruiu’
No final de 1989, um adolescente tentou se sacrificar para que outros pudessem fugir. Ele disse para seus companheiros o matarem e pendurarem seu corpo nas barras da janela do dormitório, para atrair os guardas para o quarto. O garoto foi estrangulado com um lençol até ficar inconsciente, mas sobreviveu. A tentativa de fuga fracassou. Quase todos os ex-presos sofrem dos efeitos do abuso até hoje. Muitos são inválidos. “Torgau me destruiu”, diz Ralf Weber. Ele nem mesmo tinha começado a estudar quando seu pai fugiu para o Ocidente. As autoridades proibiram sua mãe de criar o filho sozinha. Ele foi enviado para um lar para crianças em 1962, e então para um lar especial em 1963, um lar especial combinado em 1968 e um reformatório em 1970.
Weber era considerado violento, tinha tendência a explosões de fúria e se recusava a se render à disciplina. Os professores disseram que ele era insano e usavam drogas para acalmá-lo. Ele foi transferido para um reformatório fechado em Torgau em 1971. Em 2004, Weber contestou a decisão do Tribunal de Apelação de Berlim, que lhe concedeu apenas 300 euros por cada mês que passou no reformatório de Torgau. Ele também exigiu indenização pelo tempo que passou nas outras seis instituições alemãs-orientais.
Não foram dados veredictos para as autoridades e educadores responsáveis pelo abuso, que se deve em parte ao silêncio entre as vítimas. Muitos dos antigos moradores dos lares ainda estão envergonhados pelo seu passado, porque ainda correm muitos comentários no Leste da Alemanha. A crença popular é de que aqueles que foram enviados para os reformatórios provavelmente mereciam.
Em muitos casos, o simples fato dos pais serem críticos do regime bastava para o envio de uma criança para um lar por anos. Kerstin Dietzel, uma pesquisadora de educação da Universidade de Magdeburgo, no Leste da Alemanha, frequentemente cita o caso de Friedlinde Kupka, cuja história é semelhante a tantas na antiga Alemanha Oriental. Kupka, uma mãe solteira, pediu visto de saída em 1971 e persistiu em seus esforços por meses. Casos teimosos como o dela rapidamente se tornavam assunto para a polícia secreta alemã oriental, a Stasi. Sua diretriz 1/76 regulamentava a “subversão” de indivíduos hostis ao Estado, por “desacreditarem sistematicamente a reputação pública” ou “promoverem sistematicamente fracassos profissionais e sociais”. Friedlinde Kupka perdeu seu emprego como secretária. Quando se recusou a aceitar um emprego de faxineira, ela ficou desempregada em um país que pregava pleno emprego. Isso permitiu ao Tribunal do Distrito de Rostock sentenciar Kupka, que na época estava grávida, a 10 meses de prisão por “comportamento antissocial”.
Para o porão do castelo
Sua filha de nove anos foi institucionalizada e seu filho, nascido pouco tempo depois, foi dado para pais adotivos leais ao partido seis dias após o nascimento. Um tribunal de família negou a Kupka a custódia de seus filhos, com base de que ela seria incapaz de “criar as crianças para se tornarem cidadãos responsáveis”. Kupka foi deportada da RDA em 1975. O governo bloqueou todas as suas tentativas de contatar os filhos.
A Stasi tirava proveito dos lares. A polícia secreta, diz o ex-ativista de direitos civis alemão-oriental, Wolfgang Templin, trabalhou em conjunto com agências de bem-estar do menor. “O sistema de bem-estar do menor, que visava proteger as crianças e famílias, distorceu completamente sua missão quando foi utilizado indevidamente para institucionalizar crianças por motivos políticos ou para adoções forçadas.” A Stasi também se voltava para as crianças e adolescentes para recrutar novos talentos. Após a reunificação alemã, espiões foram expostos como parte da “Iniciativa para Liberdade e Direitos Humanos” de Berlim Oriental. Três deles foram criados como órfãos em um lar para crianças. O notório político do Partido Social-Democrata e colaborador da Stasi, Ibrahim Böhme (“IM Maximiliam”) também foi institucionalizado quando era criança.
Quando ex-crianças institucionalizadas da antiga Alemanha Ocidental ganharam as manchetes no ano passado, isso deu esperança para muitas vítimas do sistema alemão-oriental. Um homem de Mecklemburgo, que viveu no Lar Especial para Crianças Pretzsch, no Estado de Saxônia-Anhalt até 1979, contatou o jornal “Leipziger Volkszeitung”. Ele disse que os professores levavam as crianças para o porão do castelo, “as tocavam lá embaixo” e as acariciavam. Houve uma investigação, mas o caso foi abandonado quando foi descoberto que a vítima, que vive em um trailer perto de Neustrelitz, não podia cooperar com as autoridades. Um exame médico concluiu que ele tinha fobia de investigadores.
Nenhuma condenação’
Em Leipzig, os promotores analisaram as acusações de abuso sexual em um lar de crianças em Eilenburg. Mas rapidamente ficou claro que independente do que tenha acontecido, seria virtualmente impossível processar os perpetradores. Os documentos desapareceram e os prazos para casos de abuso sexual prescreveram. Era tarde demais para investigar. Mas historiadores amadores chegaram às suas próprias conclusões quando a polícia e os tribunais não puderam mais ser eficazes. Eberhard Mannschatz, que já foi o encarregado de lares especiais para crianças na Alemanha Oriental no Ministério da Educação, se queixou do “porrete de reformatório” e do que chamou de “campanha de difamação contra o sistema de bem-estar do menor alemão-oriental”. Mannschatz, atualmente com 83 anos, alega que Torgau foi explorada para parecer “uma monstruosidade historicamente sem precedente”. Ele aponta que “não há nenhuma condenação nos julgamentos contra educadores após a reunificação”.
Isso se deve em parte à maleabilidade de pessoal. Em novembro de 1989, o reformatório de Torgau desapareceu praticamente da noite para o dia. Primeiro as barras e telas foram removidas, seguidas pelas portas da prisão e arquivos. Um internato se mudou para o prédio principal. Os professores permaneceram onde estavam, mas agora eram responsáveis pelas atividades extracurriculares das crianças.
Mannschatz foi um professor da Universidade Humboldt de Berlim até 1991. Seus ensaios foram publicados na “Série Colorida” da Força Tarefa de Política de Educação do Partido de Esquerda. O propósito dos ensaios era “apoiar e promover a discussão aberta da escola esquerdista e dos objetivos da educação”.
Ralf Weber se reclina no sofá em que está sentado. Mannschatz ainda está interessado em seu caso. Ele escreveu um comentário sobre a decisão apelada por Weber em um tom antes reservado ao notório comentarista alemão oriental, Karl-Eduard von Schnitzler. O tribunal, ele escreveu, “aguçou o apetite” de outras vítimas e um lobby difamatório estava em ação.
Lidando com as experiências do passado
Após a reunificação, Weber construiu uma casa na região de Lausitz, no sudeste de Berlim. Ele se casou e teve uma filha, e tentou banir Torgau de sua vida. Ele foi bem-sucedido por algum tempo, mas quando sua filha começou a ficar mais velha, as lembranças ruins retornaram. Ele não discutia sua infância com sua família. Apenas após sua depressão se tornar intolerável é que ele contou para sua esposa sobre Torgau. “Eu não queria colocar todo esse fardo sobre ela”, ele diz.
Heidemarie Puls, que, juntamente com Weber, faz parte do Conselho de Vítimas de Torgau, também não quis falar sobre o que aconteceu por muito tempo. Então ela colocou para fora seus sentimentos ao escrever sobre eles. Seu livro “Schattenkinder” (“crianças das sombras”) foi publicado por uma pequena editora em Rostock em 2009. Ele ajudou Puls a lidar com suas experiências do passado.
E a mesa redonda em Berlim? Schröder, a ministra da Família, escreveu para o parlamentar Kolbe de Torgau para assegurar que “todos os grupos serão ouvidos lá”. E há um encontro de representantes dos Estados de Renânia do Norte-Vestfália, Schleswig-Holstein e Baviera, e das regiões de Vestfália-Lippe e Renânia. Weber, um membro do conselho das vítimas do “Reformatório Fechado de Torgau”, soube sobre os resultados do levantamento do passado das vítimas da antiga Alemanha Ocidental pelo noticiário noturno.

Tradução: George El Khouri Andolfato