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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Entrevistas marcantes: Furet, o implacável


“O capitalismo é o nosso horizonte”

JUREMIR MACHADO DA SILVA
François Furet morreu. Desparece um grande intelectual, humanista e de extrema gentileza. Um ser feito para a amizade e para as polêmicas. Parisiense, nascido em 1927, autor de obras luminosas que mudaram a interpretação da Revolução Francesa, atacou com a violência do texto erudito os dogmas e os mitos do século XX. Considerado conservador pela esquerda, cultivava paradoxos: especializara-se em apresentar leituras radicalmente novas de acontecimentos histórios exaustivamente estudados. Com Pensar a Revolução Francesa(1978) e o Dicionário Crítico da Revolução Francesa (1988), em colaboração com Mona Ozouf, ganhou projeção internacional, enquanto desferia golpes fatais contra a trágica fábula da teoria marxista-leninista. Em O Passado de uma Ilusão – Ensaio sobre a Idéia Comunista no Século XX (Editora Siciliano), Furet inventariou a trajetória da cegueira que impediu intelectuais geniais de aceitarem a verdade sobre o regime soviético.
Nesta entrevista exclusiva concedida em Paris para mim, publicada na Folha de S. Paulo, passados 40 anos do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, quando Kruchtchev denunciou oficialmente os crimes de Stalin, o ex-diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS – Paris), professor da Universidade de Chicago e presidente da Fundação Saint-Simon, revisitou, com a sua fala mansa e o seu sorriso irônico, a grande “construção ideológica” do século XX. Numa manhã ensolarada, em fevereiro deste ano, durante uma caminhada pelas ruas de Montparnasse, reafirmou suas posições. Algumas meses antes, estivera no Brasil para uma série de conferências. Desejava voltar ainda em 1997.
- O senhor escreveu um ensaio sobre a ilusão como motor da vida social. O imaginário pode ser determinante para a construção da realidade?
François Furet – Claro. Nunca canso de repetir que a idéia de igualdade e de liberdade, essa extraordinária promessa sem respaldo na realidade, na qual os homens não são livres e nem iguais, mesmo quando encontram bastante igualdade e liberdade, é um fermento formidável na cabeça e no coração dos atores sociais. As sociedades modernas operam com um impulso utópico particular, forte e de conseqüências ambíguas. Os sonhos e as fantasias ajudam a mover os homens.
- Em 1956, Nikita Kruchtchev sacudiu o mundo com suas revelações sobre os crimes de Stalin. O que representou de fato o relatório do XX Congresso do PCUS?
François Furet – O relatório Kruchtchev marca uma data capital na história do comunismo em geral e da idéia comunista em particular. Com efeito, é a primeira vez que a crítica radical do movimento é feita do interior, pelo chefe. A denúncia dos crimes de Stalin deixa de ser articulada por reacionários, por marginais ou excluídos e passa a ser objeto da vontade do Secretário-geral do Partido Bolchevique. Em função disso é que a repercussão do discurso de 1956 foi enorme, não somente junto aos intelectuais, mas na opinião pública internacional.
- Por que as advertências de Karl Kautsky a André Gide, passando por Souvarine, Victor Serge e tantos outros intelectuais, a propósito da terror soviético não foram escutadas?
François Furet - Essa é a questão que deve ser respondida pela investigação histórica atual. Ela norteou a construção do meu livro. Os intelectuais são apenas uma parte do contingente de cegos em relação à realidade terrível da União Soviética. Os diplomatas, os políticos e boa parte da opinião pública sofreram do mesmo mal. Aos intelectuais cabia, entretanto, o trabalho crítico de revelação ou de exumação da verdade. Hoje, eles são cobrados pelos rastros deixados, um caminho de omissão ou de indiferença face aos relatos dos que ousaram denunciar. No início dos anos 20, Souvarine foi um dos primeiros a testemunhar sobre o regime soviético. Ignorou-se tudo isso.
- O comunismo era uma religião?
Furet - A analogia, embora limitada, é possível. Existem componentes religiosos na adesão ao credo comunista. A diferença entre o crente religioso e o comunista, conforme a anedota, está no fato de que o primeiro sabe que crê enquanto o último crê que sabe. Os ex-comunistas eram desqualificados como traidores ou ressentidos. A direita era acusada de dizer somente o que interessava a ela e assim por diante. O marxismo-leninismo possuía o meio absoluto de sua defesa. Os dois únicos homens que mereceram crédito, quando denunciaram o regime soviético, foram dois secretários do Partido Comunista Soviético: Kruchtchev e Gorbatchev. A verdade teve de sair do próprio território cultuado. Necessitou-se do desaparecimento do regime para que a ilusão se dissipasse.
- Como explicar que Jean-Paul Sartre tenha sido capaz de negar o horror stalinista mesmo depois do Congresso de 1956?
François Furet – A paixão dominante em Sartre sempre foi o ódio à burguesia. Sartre detestava o mundo no qual vivia e, acima de tudo, odiava os burgueses. Diga-se de passagem que o universo burguês não é amável e nem admirável e ele tinha boas razões para odiar a burguesia. O investimento relativo à União Soviética nutria-se de uma força passional e de elementos exteriores à história soviética. Sartre, como muita gente neste século, hesitava e recusava-se a abandonar a esperança em uma sociedade nova, preciosa e oposta àquela que o amargurava. O mundo burguês na história da humanidade representa a sociedade que produz o maior número de inimigos dela mesma. As razões disso são claras: todos os grandes filósofos dos séculos XVIII e XIX viram os defeitos de uma civilização baseada predominantemente sobre o dinheiro, o lucro, a acumulação, etc. O comunismo tornou-se uma espécie de exorcismo do déficit político do universo burguês. Era preciso, portanto, que a União Soviética fosse melhor.
- No caso de Sartre é a cegueira ou a mentira que o leva a recusar a realidade?
François Furet – A palavra certa é cegueira. Sartre e os outros eram pessoas de boa fé, todos possuídos por uma paixão política forte e compreensível.
IstoÉ – Não existiu falsificação da história em nome da imposição de uma ideologia?
Furet – Sartre não falsificou deliberadamente a história. Ele faz parte do caso geral e foi vítima, como milhões de homens deste século, da ilusão segundo a qual a União Soviética contruía uma sociedade livre das maldições do capitalismo. Sartre, a exemplo da maioria da esquerda, foi antifascita, mas não antitotalitário.
- Já a Revolução Francesa foi utilizada por historiadores como modelo para analisar e justificar os métodos e o terror da Revolução Russa?
François Furet – Certamente houve uma apropriação marxista-leninista da Revolução Francesa. Basta dizer que 1793 passou a ser considerado o episódio fundamental da Revolução Francesa quando se sabe que o essencial ocorreu em 1789. Tomou-se a Revolução Francesa como uma antecipação fracassada de 1917, cujas promessas revolucionárias não teriam sido cumpridas. Afora o destaque aos aspectos sociais, o arcabouço conceitual da análise marxista-leninista da Revolução Francesa é totalmente falso. 1789 não corresponde à revolução burguesa e nem 1793 ao momento revolucionário popular e anti-burguês. Ou bem a Revolução é burguesa e 1789 e Thermidor são os seus acontecimentos decisivos, ou ela não é burguesa e será necessário que nos expliquem o que é. Em realidade, trata-se de um evento político que ultrapassou largamente as determinações sociais, e o desejo de integrar a Revolução no quadro da ditadura de uma classe não encontra apoio nos fatos. Eis o ponto cego de um certo marxismo e do marximo-leninismo: a redução do nível político a uma causalidade puramente social.
- Há uma relação histórica coerente entre Lenin e Robespierre?
François Furet – Há elementos nessa comparação que não são absurdos. Existe nos dois homens esse aspecto moderno contido no investimento quase fanático num projeto de salvação. Mas, em contrapartida, diferenças não faltam. A paisagem mental de Robespierre estava habitada pelo Ser-Supremo enquanto a de Lenin obedecia ao imperativo da superação da luta de classes.
- Seus livros mais recentes são um acerto de contas com os intelectuais de esquerda que o acusaram de conservadorismo e continuam a tomá-lo por reacionário?
François Furet – Não. E não é a primeira vez que respondo a essa questão. O livro foi bem recebido mesmo pela esquerda e pelos comunistas franceses… Recebi o prêmio do melhor livro político de 1995 por essa obra. Os comunistas franceses acolheram-me com consideração, apesar das diferentes interpretações sobre um tema polêmico. Discutem o meu livro. O acerto de contas realizou-se há muito. Fui membro do Partido Comunista Francês na juventude e deixei-o depois de madura reflexão.
- Comunismo e fascismo, para o senhor, contrariando as verdades de esquerda, encontram-se no repúdio ao liberalismo. Por que a democracia liberal estimula tantas reações extremadas?
Furet – A democracia liberal suscita tantas reações fanáticas por ser um regime de relativismo moral e que não tem pontos de apoio filosóficos. O mundo liberal consiste em fazer viver em conjunto cidadãos de todas as opiniões e representa a hegemonia do individualismo privado voltado para o prazer, o bem-estar, as paixões e os desejos de cada um, sem pilares virtuosos e sem outra legitimidade que a do dinheiro. Há no mundo burguês, desde a origem, uma enfermidade política causada pela ilegitimidade. A burguesia não é uma classe política. Quanto ao problema do fascismo e do comunismo, estou convencido de que a interpretação mais imbecil do fascismo é justamente essa que o transforma em produto do universo burguês. Ao contrário, o que há de espetacular no fenômeno, do ponto de visto histórico, é que ele escapa a tal redução. Se Hitler era a marionete do grande capital não há como compreender o genocídio dos judeus, algo que nunca fez parte do programa liberal.
O fascismo também pode ser revolucionário?
Furet – Com certeza. Compreendê-lo como a recusa da mudança é um erro. O fascismo caracteriza-se pela tomada do poder por gangsters, o que Marx chamaria de lumpen, gente não pertencente a nenhuma classe organizada da sociedade. Tomada de poder em nome do povo e da comunidade sem a limitação de nenhum controle racional. Algumas das paixões que alimentaram o fascismo eram comparáveis às do comunismo, entre elas o ódio ao individualismo burguês. Para mim, a grande invenção do fascismo foi a recuperação da idéia revolucionária em benefício da direita. A direita européia, desde a Revolução Francesa, era contra-revolucionária, cultivando o sonho absurdo de fazer a história correr ao contrário e voltar ao passado para encontrar o ponto que paradoxalmente originou a Revolução. O fascismo recuperou a idéia de futuro para a direita e em conseqüência o projeto revolucionário.
- O senhor cita no Passado de uma Ilusão uma frase de Saul Bellow: “Tesouros de inteligência podem ser investidos ao serviço da ignorância quando a necessidade de ilusão é profunda”. O desejo encobriu a realidade?
Furet – O século XX está marcado pelo desencantamento religioso, no sentido weberiano do termo, e a crença na redenção do homem pela história tornou-se um pouco o substituto dessa perda. O investimento potente em política como um modo de salvação terrestre ocupou o lugar deixado vago pela fé tradicional. Muitos homens deixaram-se enganar pelo intenso desejo de uma sociedade radicalmente nova. Transformou-se em verdade científica, com o materialismo-histórico, o que era produto do voluntarismo sem qualquer garantia de êxito.
- Alguns dos temas característicos dos anos 30  estão de retorno?
Furet – De jeito nenhum. É absurdo. Elaborou-se uma analogia entre o fascismo dos anos 30 e os acontecimentos envolvendo a Sérbia e a Bósnia. Mas não é a mesma coisa.  Os homens gostam de pensar que os eventos do futuro serão comparáveis aos do passado. Estamos, contudo, num mundo totalmente diferente. O fato de que atravessamos uma fase de depressão e de desmitificação do sonho do crescimento econômico infinito não é uma razão para lamentar o fim do comunismo. Tampouco o recrudescimento do terrorismo do IRA, do ETA ou do Hamas devem levar a crer que o caos esteja prestes a se impor no mundo.
- Num país do Terceiro Mundo, caso do Brasil, a utopia comunista continua a seduzir muitos intelectuais. Os acontecimentos do ano passado na França, com as grandes manifestações e as greves organizados por sindicatos, representaram para alguns dos críticos do neoliberalismo o retorno da classe operária à vida política.
Furet – Duvido que o movimento social francês do último outono tenha a ver com esse hipotético renascimento. Tratava-se de uma greve em torno de vantagens sociais adquiridas nos setores industriais do Estado e não de uma ação com perspectiva revolucionária.
- O crescimento do desemprego não pode favorecer o ideal revolucionário comunista?
Furet – As nossas sociedades democráticas são inseparáveis de um tendência utópica. Não creio, portanto, que isso venha a desaparecer. A religião, os Direitos do Homem e o humanitarismo são versões moles da utopia. O que está definitivamente morto na utopia comunista é o papel da classe operária, que era vista enquanto classe messiânica. Mesmo os comunistas não acreditam mais nisso pois a classe operária está desaparecerendo sob os nossos olhos. O marxismo-leninismo e sua relação com a história também pereceram. A idéia de um Partido-Estado não faz mais sentido. Será que viveremos a partir de agora sem a visão de uma sociedade pós-capitalista? Não. Talvez venhamos a inventar uma alternativa. Esperemos que seja menos trágico.
- O que senhor pensa quando políticos de esquerda denunciam o fracasso da social-democracia e afirmam ainda que o capitalismo está condenado?
Furet – Quem tem coragem hoje de dizer que o capitalismo está condenado? Raríssimas pessoas. Vivemos numa espécie de capitalismo universal. Após a queda do comunismo resta um só campo de influência mundial: o capitalismo. É a universalização do mercado. Não conheço nenhum homem sensato – filósofo, político ou mesmo partido – que proponha outra economia que não seja a capitalista. Nada pode levar a crer na atualidade que é útil eliminar a propriedade privada e a livre iniciativa para gerar bens com alta produtividade.
- Seria possível deturpar Sartre e dizer que o capitalismo é um horizonte incontornável do século XXI?
Furet – No momento o capitalismo é o horizonte de nossa época: um horizonte no qual teremos dificuldades para viver; precisamos agir conhecendo as nossas contradições e sabendo que até agora não encontramos a solução. Os salvadores do século XX levaram-nos a fracassos apocalípticos. Não estou feliz com a nossa realidade, embora não seja o inferno, e prefiro-a às utopias sangrentas.
- As nações de direita e esquerda estão  condenadas?
Furet – Não, ao menos enquanto as nossas se caracterizarão pelas lutas de partidos e de homens pelo poder. A opinião pública será sempre chamada a pronunciar-se a respeito de programas e de idéias diferentes, de esquerda ou de direita.
- A democracia liberal é definitivamente o último estágio da história?
Furet – Não. A história nunca termina. Os hegelianos podem falar em fim da história. Em Hegel havia o individualismo moderno, o constitucionalismo, o capitalismo industrial e o conceito de fim da história, existente também em Tocqueville. Não sou filósofo e nem teólogo para pensar em fim da história. Digo apenas que hoje ninguém imagina um regime econômico capaz de substituir o capitalismo. Já a crítica à social-democracia esconde com freqüência uma nostalgia do comunismo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aos 69 anos, morre Kim Jong-il, líder da Coreia do Norte


O líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il, 69 anos, morreu, informou nesta segunda-feira a televisão estatal do país comunista, a KCTV. Kim morreu no último sábado, mas sua morte só foi anunciada nesta segunda-feira pela mídia local. Pouco depois do anúncio, o Exército da Coreia do Sul declarou um alerta em Seul por causa da morte do líder do país vizinho, enquanto o governo sul-coreano estabeleceu um plano de emergência.
Segundo um comunicado publicado da rede norte-coreana e divulgado pela agência sul-coreana Yonhap, o chefe do regime norte-coreano, um dos mais isolados do mundo, morreu no último sábado, às 8h30 locais (21h30 de sexta-feira em Brasília), por causa de "fadiga física" durante uma viagem de trem. Seu funeral, de acordo com a KCTV, está marcado para o dia 28, na capital Pyongyang.
"Nosso querido líder Kim Jong-il morreu no sábado 17 às 8h30 enquanto viajava para realizar suas funções de liderança", disse, entre lágrimas e com traje de luto, a apresentadora do canal norte-coreano. A KCTV detalhou que Kim "morreu de um grande esforço mental e físico" durante uma viagem de trem.
Kim Jong-il estava à frente da dinastia comunista hereditária norte-coreana desde 1994, quando assumiu o poder após a morte de seu pai e fundador do país, Kim Il-Sung. Foram 17 anos governados com mão de ferro em um regime baseado no culto à personalidade. Mas desde a apoplexia sofrida em 2008, suas aparições públicas foram poucas e nelas mostrava uma figura cada vez mais frágil e decrépita, embora sempre com seus inseparáveis óculos de sol e uniforme militar, que se transformaram em sua marca registrada.

Notícia do Terra

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Morre Vaclav Havel, ex-estadista e dramaturgo


Vaclav Havel, o primeiro líder da antiga Tchecoslováquia desde a chamada Revolução de Veludo, que pôs fim ao regime comunista no país, morreu aos 75 anos.
Durante a gestão comunista, Havel ganhou fama por suas peças que criticavam o regime comunista e ganhou a inimizade do governo, que o manteve preso por mais de quatro anos, entre 1979 e 1983.
Com a queda do regime comunista, o líder da resistência pacífica ao regime chegou à presidência da Tchecoslováquia, em 1989.
Em sua gestão, ele promoveu a transição do país para a democracia e supervisionou a cisão pacífica que resultou na formação da República Checa e da Eslováquia.
Havel foi um fumante inveterado ao longo de boa parte de sua vida e sofria de problemas respiratórios crônicos, tendo chegado a extrair parte de seu pulmão direito.

Visto na BBC Brasil

sexta-feira, 22 de julho de 2011

História do comunismo na China é muito recente para ser escrita

História do comunismo na China é muito recente para ser escrita

Didi Kirsten Tatlow
Em Pequim (China)

No fim, os silêncios da oficial “História do Partido Comunista Chinês, 1949-1978”, falam mais alto do que suas quase um milhão de palavras.

O extraordinário sobre essa obra de dois volumes, publicada em janeiro e amplamente discutida este mês durante a celebração do aniversário de 90 anos do partido, é que, embora contenha alguns novos detalhes relativos a acontecimentos controversos nas primeiras três décadas de governo comunista, um tema gigante é ignorado com um silêncio quase total: as mortes de dezenas de milhões de pessoas por conta de campanhas políticas.

“Não menos do que 60 milhões”, disse Frank Dikötter, historiador da Universidade de Hong Kong que está escrevendo um livro sobre os primeiros anos da República do Povo.

A nova história é importante para o partido porque ela diz a 82 milhões de membros em que acreditar, à medida que o partido procura aumentar sua credibilidade numa era em que múltiplas fontes de informação estão disponíveis online.

Muitos historiadores do partido dizem que a nova história é mais “objetiva” do que os relatos anteriores.

De alguma forma sutil, isso é correto, percebe o leitor, depois de assimilar suas 1.074 páginas.

Um breve parágrafo incomum num relato da Campanha Anti-Direitista de 1957 descreve protestos generalizados, greves e saques no final de 1956, à medida que as pessoas enfrentavam falta de alimentos e itens básicos, resultado das requisições de grãos forçadas pelo estado e políticas industriais fracassadas.

A campanha que se seguiu, ordenada por Mao Tsé-Tung e organizada por Deng Xiaoping, tinha como objetivo prevenir um levante como a revolta húngara de 1956. Mais de 550 mil intelectuais foram taxados de “direitistas”. Demitidos de seus empregos, torturados, enviados para campos de trabalho, muitos morreram. Famílias inteiras foram punidas.

Numa nota de rodapé, a história diz que “98%” das vítimas da campanha foram acusadas equivocadamente.

Apesar disso, o veredito continua o mesmo: a eliminação fatal foi “necessária e correta” para implementar totalmente o socialismo.

O papel desempenhado por Deng, que depois se tornou o líder supremo da China, é maquiada. Deng é reverenciado aqui, e oficialmente recebe o crédito por ter tirado o país da pobreza com reformas econômicas pragmáticas depois que a Revolução Cultural terminou em 1976.

“O livro não diz onde Deng Xiaoping errou, porque isso está muito próximo”, disse um historiador do partido, falando sob condição de anonimato porque não tem autorização para falar com jornalistas.

Num detalhe raro e revelador, contido num relato do Grande Salto Adiante de 1958-62, a campanha de coletivização e industrialização forçada de Mao, que precipitou a pior fome da história moderna chinesa, o livro diz que a população da China caiu em 10 milhões de 1959 a 1960.

“Isso é apenas um ano, e não leva em conta o crescimento natural da população na época”, disse o historiador. A população da China de mais de 600 milhões estava crescendo rapidamente, com uma taxa de natalidade de cerca de seis filhos por mulher.

Entre dois e três milhões de pessoas foram mortas em 1949-51, acusadas de serem proprietários de terras, bandidos, espiões do Kuomintang ou contrarrevolucioários, diz Dikötter, citando sua própria pesquisa. Nenhum número é mencionado no livro, embora os objetivos políticos da reforma agrária e de outras campanhas sejam descritos em algum detalhe.

Mao é retratado na história como alguém que cometeu erros “esquerdistas”, como a Revolução Cultural de uma década. Geralmente, entretanto, a narrativa caracteriza suas políticas como “necessárias” e culpa os excessos em “expansões” equivocadas, sem elaborar mais longamente.

Acima de tudo, os aspectos mais “objetivos” que os historiadores do partido enaltecem são simplesmente muito limitados para serem significativos, disse a historiadora Zhou Zun, também da universidade de Hong Kong.

“É uma espécie de ilusão, mostrar que eles estão fazendo um esforço para contar a verdade quando sabemos que eles não estão”, disse ela. “É algo que o Partido Comunista faz muito bem.”

Os historiadores do partido na China são servidores do estado, presos entre a verdade histórica e a realidade política, dizem Zhou e Diköter. Não ofender as dezenas de famílias poderosas que, coletivamente, governam a China, também é uma grande preocupação.

“É um incrível ato de equilíbrio. É como ser uma bailarina o que eles fazem”, disse Dikötter.

Isso foi mostrado no tortuoso processo de escrita. Os historiadores passaram quatro anos no esboço original, começando em 1994.

Depois disso, “tiveram que buscar a opinião de 200 a 300 pessoas”, disse o historiador do partido. Isso levou outros 12 anos, e muitos outros esboços. Pelo menos 15 historiadores que trabalhavam no projeto morreram nesse tempo.

O presidente Hu Jintao tinha uma equipe de pesquisadores buscando fatos ou interpretações indesejáveis. Assim como o vice-presidente Xi Jinping, o homem esperado para suceder Hu e cujo pai, Xi Zhongxun, foi removido nos anos 60 antes de retornar.

Os departamentos do governo, incluindo a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, que supervisiona políticas econômicas e sociais, e o Ministério de Exterior avaliaram o texto. Bem como os militares.

Espelhando a forma como o partido e o governo funcionam hoje, “foi um esforço coletivo”, disse o historiador.

Diferente de publicações histórias anteriores do partido, quando Deng ou o ideólogo do partido Hu Qiaomu tomaram as decisões, desta vez “não havia nenhuma pessoa que viveu durante aqueles anos que tivesse o poder de decidir” o que era publicável, disse o historiador. Uma história anterior, que cobriu os anos de 1921 a 1949, foi publicada em 1991. Hu morreu em 1992, Deng em 1997.

Os historiadores do partido sentiram que negociaram com sucesso um projeto extraordinariamente delicado mas dizem que ele deixou muitos na sociedade insatisfeitos.

“Tanto a esquerda quanto a direita estão descontentes”, disse o historiador do partido.

“A esquerda diz: 'vocês estão negando o Partido Comunista'. A direita diz: “vocês ainda não disseram a verdade sobre os erros'”, disse ele. “No que diz respeito às histórias oficiais, cada dinastia normalmente tenta escrever a história da dinastia anterior.”

“Na China, não se escreve história contemporânea. Quanto mais próximos os tempos, mais difícil é. O próximo projeto, de 1978 a 2011, será ainda mais difícil”, ele prevê.

O trabalho já começou.

Mas se levou 16 anos para produzir um relato dos primeiros 29 anos de governo comunista, pela lógica, o relato ainda mais difícil de ser escrito dos 33 anos subsequentes não sairá antes de 2030.

Tradução: Eloise De Vylder