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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

'É difícil os brancos se colocarem em nosso lugar', diz advogado de Brown

'É difícil os brancos se colocarem em nosso lugar', diz advogado de Brown

domingo, 2 de março de 2014

Cenas de um drama real

1. Um rapaz negro caminha de volta para casa em uma rua suburbana do Rio de Janeiro. Um carro com um casal para à sua frente, a mulher grita: "É ele o ladrão!". Um homem salta apontando-lhe um revólver. É o policial Waldemiro Antunes de Freitas Junior que o obriga a deitar-se de bruços, faz a revista, constata que não encontra-se armado e o conduz à delegacia.
2. O delegado William Lourenço Bezerra o autua, apesar dos seus gritos veementes de inocência, mesmo sem o acusado estar com o produto do roubo. Era a palavra dele contra a dela, que prevaleceu.
3. Vinícius Romão de Souza é trabalhador empregado em uma loja como vendedor de roupas e é recém-formado em psicologia, além de ser ator que já participou de novela da TV Globo. É o orgulho da sua família, que ficou muito abalada com a notícia da prisão.
4. O rapaz é mandado para uma casa de detenção em outro município e lá permanece por duas semanas, entre assaltantes perigosos, presos por agressões e outros negros inocentes como ele.
5. O desespero da mãe e as andanças do pai por hospitais públicos, necrotérios e depósito de presos até conseguir descobrir onde o filho se encontrava e a notícia da prisão ser publicada pela imprensa.
6. O drama da mulher que o acusou, agoniada pela dúvida de que tinha ou não cometido uma injustiça ao reconhecê-lo, a ponto de desejar ir retirar a queixa, o que não o fez apenas por faltar o dinheiro para a passagem. Dalva da Costa Santos é pobre. O que lhe foi furtado foram poucos reais e um telefone celular desatualizado.
7. As reações de militantes do movimento negro e os protestos públicos dos amigos brancos do rapaz, o que levou o delegado Niandro Lima, titular da 25ª DP (Engenho Novo), a impetrar um habeas corpus, documento jurídico que tem o poder de libertar indivíduos que possam estar sofrendo alguma injustiça.
8. Procurado pela imprensa, o pai, Jair Romão, militar aposentado, declarou: "Eu sou espírita e perdoo a acusadora e o policial que prendeu meu filho". No Brasil, muitas vezes parte-se do pressuposto de que, sempre que ocorre um roubo, desde que não seja desvio de dinheiro público, um negro é suspeito. Por motivo da lentidão das nossas ações judiciais, o habeas corpus levou ainda um dia para ser cumprido.
9. Respondendo a um jornalista sobre os dias no presídio, Vinícius disse: "Assim que cheguei, tive medo, mas tremi mais quando fui abordado porque a arma estava apontada para mim e podia disparar. Eu sou inocente e sabia que a justiça seria feita. Por isso não me desesperei nem chorei".
Questionado sobre discriminação racial, falou: "Racismo existe, mas o que posso dizer é que todos os meus amigos nunca colocaram um apelido discriminatório em mim. Tanto nos colégios particulares em que estudei como na faculdade, todos sempre me respeitaram e eu também me dei ao respeito. Na loja de roupas onde eu trabalho, dos 17 vendedores temporários, sou o único negro, e nas outras lojas, não há nenhum. Uma lição boa que tiro de tudo isso é aproveitar cada minuto simples da vida, como abrir a geladeira e beber um copo de água".
10. A alegria da família e dos amigos ao recebê-lo. Romão ergueu os braços de cabeça erguida, com os cabelos simbólicos cortados no presídio. Sem rancor, declara: "Não tenho raiva dela. Ela sofreu um assalto, estava nervosa, acabou me confundindo. Desejo muita luz e felicidade para ela".
Final. Vinícius atendendo a um freguês na Toulon, que o manteve no emprego, cena seguida pela cerimônia de colação de grau em psicologia. No letreiro do filme, apareceriam os amigos que o apoiaram e por fim uma imagem parada de Vinícius sorrindo e a frase: "O racismo existe".


Texto de Martinho da Vila, publicado na Folha de São Paulo

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Busca pela igualdade

Busca pela igualdade
Preenchimento automático do Google para frases sobre o que mulheres devem ou não fazer inspira campanha das Nações Unidas para combater práticas de discriminação contra o sexo feminino
FERNANDA MENADE SÃO PAULO

Tão útil e revelador quanto irritante, o recurso de preenchimento automático do maior site de buscas do mundo costuma sugerir ao usuário uma lista dos termos mais procurados associados às letras ou palavras digitadas no campo de pesquisa.
Ao digitar "women shouldn't" (mulheres não devem, em inglês) no Google, o publicitário Christopher Hunt levou um susto.
A ferramenta de autocompletar do site sugeriu frases como "mulheres não devem ter direitos", ou "trabalhar" ou ainda "votar".
"Quando fizemos estas pesquisas, ficamos chocados com o resultado negativo das buscas mais populares do site e decidimos que tínhamos de fazer algo a respeito", disse Hunt, diretor de arte da agência de publicidade Ogilvy & Mather, em Dubai, nos Emirados Árabes.
Essa e outras três pesquisas genuínas feitas no Google (com os termos "mulheres não podem" e "mulheres devem", sempre em inglês) serviram como base para a nova campanha do braço da Organização das Nações Unidas para a igualdade de gênero, a ONU Mulher. Hunt gerencia a equipe de criação.
Os anúncios --no início apenas digitais-- evidenciam o sexismo e o preconceito contra mulher em voga ainda hoje, 34 anos após a promulgação da Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, de 1979.

CHOQUE DE REALIDADE

Entre os principais resultados, estão frases como "mulheres não podem falar na igreja" e "mulheres precisam ser disciplinadas".
"Para nós, foi um choque de realidade", admite Nannette Braun, chefe de cam- panha da ONU Mulher nos Estados Unidos.
"Não imaginávamos que, ainda hoje, haveria um sentimento público tão estereotipado em relação a 50% da população mundial", diz.
Segundo Braun, os anúncios se tornaram um viral nas redes sociais, o que levou o debate da discriminação contra a mulher a uma audiência global. No Instagram e no Twitter, é possível acompanhar a discussão por meio da "hashtag" #womenshould.
"Depois de décadas de campanhas e debates sobre os direitos das mulheres, é perturbador perceber, a partir do resultado dessas pesquisas, que ainda temos um longo caminho a percorrer", conclui ela.

SEXISMO LOCAL

Em português, a pesquisa dessas frases não enseja nenhuma sugestão do Google baseada nas buscas mais populares realizadas no Brasil.
A sugestão emerge apenas quando o termo pesquisado é "mulherada". Seus complementos? "Bonita", "de moto" e "tá na lancha".
"Mulherada de moto" leva a links de garotas dançando funk em festivais de motociclistas pelo Brasil.
"Mulherada tá na lancha" é título de canção de arrocha (ritmo baiano derivado do brega e do sertanejo), cujo refrão de duplo sentido --"toma na boquinha"-- acompanha versos como "a mulherada tá bebendo igual os hómi".
"O sexismo se expressa de muitas maneiras, de acordo com cada país e cada cultura", avalia Braun. "O resultado da pesquisa no Brasil me parece apenas mais uma de suas expressões", diz.
A busca usando as mesmas frases, mas com a palavra "homem" como sujeito, traz resultados que vão desde "homem não pode ser bonzinho" e "não pode chorar" até "homem não pode se deitar com outro homem".
O preconceito e a intolerância que esse senso comum --representado pelos termos mais pesquisados no site-- revela, não poupa nem seu hospedeiro: ao digitar "Google" no campo de busca da página, a primeira sugestão que surge é "é um lixo".


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Suspeita e ódio: Ataques racistas contra árabes aumentam em Israel


Os árabes estão sendo agredidos e insultados em Israel, onde o número de ataques racialmente motivados aumentou dramaticamente. O conflito não resolvido, alimentado por políticos nacionalistas, está se deslocando dos territórios palestinos para o território israelense.

O horror está gravado no rosto dela e foi registrado pela câmera. Revital Wolkov está sentada no assento do motorista de seu Toyota branco, olhando por sobre seu ombro direito, pelo vidro traseiro quebrado, diretamente para a lente. O buraco no vidro tem a forma de uma grande borboleta.

Wolkov, 53 anos, ensina história em Ramat HaSharon, perto de Tel Aviv. Ela foi atacada e seu carro foi danificado apenas porque uma colega árabe estava sentada no assento do passageiro. Isso aconteceu em março, mas não foi o único ataque do tipo.

Neste ano, várias adolescentes judias perguntaram a uma mulher sentada no ponto de ônibus se ela era árabe. A mulher, usando lenço de cabeça, respondeu que era. Uma das meninas arrancou o hijab da cabeça da mulher e cuspiu no rosto dela. As outras chutaram e bateram na mulher. Um policial que estava próximo apenas assistiu. Hana Amtir, 38, grávida de três meses, se trancou em casa por três dias antes de prestar queixa na polícia.

Em um bar de praia em Tel Aviv, um garçom árabe estava retirando os frascos de ketchup e maionese, mas os homens sentados em uma das mesas ainda não tinham terminado. "Maldito árabe", eles xingaram, e então espancaram o homem, que foi hospitalizado. Nenhum dos outros clientes foi em seu socorro.

Jovens atacaram um faxineiro árabe que trabalhava para a prefeitura de Tel Aviv enquanto ele esvaziava as latas de lixo. Eles quebraram uma garrafa na cabeça dele. O homem, coberto de sangue, perguntou por que estavam fazendo aquilo com ele. "Porque você é árabe", eles disseram.

Esses ataques estão se tornando comuns em Israel, mas não se trata de soldados judeus agredindo civis palestinos na Cisjordânia. Os ataques não têm nada a ver com colonos militantes ou com a independência da Palestina, apesar desses conflitos sempre estarem na mente das pessoas.

Por décadas, judeus e palestinos têm lutado pelo mesmo pedaço de terra. Alguns deles até mesmo compartilham a mesma cidadania. Três quartos dos 8 milhões de habitantes de Israel são judeus, e 1,8 milhão são árabes israelense. Mas seus caminhos raramente se cruzam no dia a dia. Os árabes de Israel não são obrigados a servir nas forças armadas e muitos deles vivem em cidades e bairros de maioria árabe, com seus filhos frequentando escolas árabes. Eles ganham menos, em média, e não têm a mesma escolaridade dos judeus israelenses. Oficialmente, eles têm os mesmos direitos que os cidadãos judeus, mas na verdade costumam ser alvos de discriminação.

'Nós temos um problema de racismo'

A maioria judia, influenciada pelo terror e pela ameaça constante de ataque, vê a minoria árabe como uma "quinta coluna" de seus vizinhos hostis na Faixa de Gaza, Cisjordânia e toda a região.

Em vez de combater a suspeita e o ódio, os políticos têm alimentado esses sentimentos nos últimos anos, aprovando leis que promovem o tratamento desigual. Por causa dessas leis, as escolas árabes podem ser privadas de fundos se lembrarem seus estudantes sobre a expulsão em 1948, um dia de pesar para os árabes e um dia de alegria para os judeus israelenses, que o celebram desde a independência. As comunidades até mesmo são autorizadas a recusar os árabes que queiram se mudar para elas --para preservar sua "identidade judaica".

As suspeitas não são novidade, já que refletem o conflito neste país e além de suas fronteiras. Todavia, os ataques por judeus israelenses perfeitamente normais contra seus conterrâneos árabes têm sido tão brutais nas últimas semanas que o comentário tem sido surpreendentemente unânime. A mídia tanto de esquerda quanto de direita, fora isso raramente em acordo, condenou os ataques.

A imprensa israelense pode ser dura contra seu país e implacável em suas críticas. "Nós temos um problema de racismo", escreveu o jornal "Ha'aretz". E o "Yediot Akharonot" detecta o processo de dissolução de uma "sociedade que nunca conseguiu estabelecer um sistema unificador de valores para todos seus componentes".

É claro, é injusto medir a gravidade do problema contra a altamente carregada atmosfera do debate israelense, porque apesar do antissemitismo e antissionismo fazerem parte do pensamento político central no mundo árabe e serem frequentemente até mesmo encorajados pelos governos, Israel discute abertamente o racismo em casa. E, é claro, os israelenses tratam suas minorias melhor do que muitos países árabes tratam seus judeus ou cristãos. Mas Israel também atribuiu a si mesmo um padrão moral elevado, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu descrevendo consistentemente seu país como um farol nas trevas.

Aumento acentuado de ataques

Segundo a Coalizão Contra o Racismo em Israel, um grupo composto por várias organizações, os incidentes com motivação racial quase quadruplicaram desde 2008. Foram 16 casos denunciados naquele ano, em comparação a 63 entre março de 2012 e fevereiro de 2013.

Um desses incidentes foi dirigido contra Revital Wolkov e sua colega, Suhad Abu Samira, uma mulher muçulmana de 25 anos que estava usando um hijab preto quando ocorreu o ataque. As duas professoras estavam a caminho de um funeral quando Wolkov estacionou seu carro em um setor judeu de Jerusalém, onde vivem muitos judeus religiosos e onde as traduções em árabe nas placas de rua são frequentemente cobertas com tinta. Quando as mulheres desceram do carro, elas ouviram pessoas gritando.

"Havia todo um grupo de crianças e jovens ali", disse posteriormente Wolkov em seu apartamento. Inicialmente, as mulheres não entenderam o que eles queriam. Os jovens cuspiram, atiraram laranjas e garrafas de água contra elas, gritando: "Puta árabe". Samira começou a chorar e as mulheres fugiram por uma porta.

Wolkov era criança durante a Guerra dos Seis Dias e adolescente na Guerra de Yom Kippur. Ela também foi soldado e lutou no Líbano. Todavia, as guerras não a transformaram em uma cínica. Seu rosto fica rígido quando ela fala sobre aquela tarde. Após trabalhar como professora por 26 anos, seu primeiro instinto foi buscar o diálogo, então ela saiu e se dirigiu aos jovens no estacionamento.
"Por que vocês estão fazendo isso?", ela perguntou.
"Sua vadia judia, você é amiga da puta árabe", eles disseram. As palavras ainda ecoam na mente dela até hoje. Então eles começaram a atirar pedras, e Wolkov fugiu. Quando ela voltou, os vidros de seu carro tinham sido quebrados, e os pneus rasgados.

Os israelenses se sentem superiores, mas ameaçados

Os pais de Wolkov vieram do Iêmen. Ela tem pele morena e sabe como é parecer diferente das outras pessoas. Wolkov foi uma boa aluna, mas mesmo assim um professor certa vez disse para ela, na frente de toda a classe, que ele não imaginava que uma iemenita poderia ser tão boa em matemática. Apesar de Israel supostamente ser um lar para todos os judeus, sua sociedade, como outras sociedades, é dividida pela cor da pele e pela linhagem. Os etíopes e os iemenitas estão no patamar mais baixo dessa hierarquia, enquanto os judeus descendentes de europeus estão no topo.

"Este é o Oriente Médio. Nada é normal aqui. Todo mundo é traumatizado", diz Wolkov. Muitos israelenses se sentem superiores, ela diz --militar, moral e culturalmente-- e, ao mesmo tempo ameaçados. "Aqueles que sentem medo começam a odiar", afirma.

As pessoas que vivem em Israel podem se sentir como náufragos em alto-mar. Há os radicais do Hezbollah e do Hamas, cujos foguetes estão apontados para Tel Aviv, e há os pregadores e políticos insanos na TV, do Irã à Arábia Saudita, que desejam ver Israel destruído. Aqueles que vivem lá veem constantemente imagens na TV de pessoas cheias de ódio por todo o mundo queimando bandeiras de Israel e, mesmo nos dois países árabes com os quais Israel se considera em paz, multidões furiosas invadem a embaixada israelense. E apesar do maior poderio militar de Israel, seus cidadãos estão cheios de um medo profundo.

Isso leva a sentimentos esmagadoramente antiárabes. Por exemplo, uma pesquisa feita pela Universidade de Haifa apontou que mais de metade dos judeus israelenses não quer viver ao lado de árabes. Em outro estudo, 63% dos entrevistados disse concordar com a declaração "os árabes são um risco de segurança e uma ameaça demográfica ao país", enquanto 40% sentiam que o governo devia encorajar os árabes israelenses a emigrar.

Árabes vistos como inimigos

Os moradores dos bairros ricos do norte de Tel Aviv coletam assinaturas para impedir que árabes se mudem para a área. Em outras cidades, proprietários são repreendidos por venderem ou alugarem para árabes israelenses. O prefeito de Nazaret Illit, no norte de Israel, escreveu um boletim parabenizando os moradores por manterem a população judaica da cidade em constantes "82%". Ele também convocou os moradores a "lutarem contra o direito de todos em Israel viverem onde quiserem" e até mesmo empregar "métodos que ele prefere não discutir".

"Os árabes estão sendo atacados apenas por serem árabes", diz Mordechai Kremnitzer, um professor de direito da Universidade Hebraica. Ele falou de modo lento e soou preocupado. "Dada nossas experiências, deveria estar claro que esse tipo de coisa não poderia acontecer", ele diz.

Os judeus precisam ser pessoas melhores apenas por terem sido vítimas do antissemitismo e do racismo, da perseguição e do genocídio? Isso é possível, dado o trauma e o conflito constante que enfrentam?

O estado de guerra agora faz parte da vida cotidiana, diz Kremnitzer. As décadas de poder de ocupação mostraram aos israelenses que eles são mais fortes do que os árabes, ele afirma. E um árabe, independentemente de viver em Israel ou nos territórios palestinos, é apenas uma coisa para muitas pessoas, diz Kremnitzer: o inimigo. E também é estranhamente esquizofrênico que alguém possa ser de dia um soldado servindo a um exército de ocupação na Cisjordânia, com poder quase ilimitado, e então, à noite, voltar a ser um cidadão normal com seus vizinhos árabes israelenses.

"Nossos soldados são ensinados desde cedo que os outros são inferiores a eles", diz Kremnitzer. Quase todo judeu israelense, homem ou mulher, atualmente serve no exército. Na condição de vice-presidente do Instituto da Democracia de Israel, Kremnitzer deseja se encontrar com os ministros da Justiça e Educação do país. É imperativo que as pessoas no governo ajam, ele diz. Uma entre três crianças nasce atualmente em uma família ultraortodoxa e a maioria frequenta escolas religiosas, que, em vez de ensinarem aos alunos valores universais, incutem nelas a noção de que os judeus têm o direito bíblico à sua terra.

Em vez de defenderem a coexistência pacífica, alguns políticos, especialmente os nacionalistas e os ultrarreligiosos, preferem chamar atenção para si mesmos com declarações antiárabes. O ex-ministro do Interior, Eli Yishai, se referiu aos imigrantes ilegais africanos como "invasores que estão contaminando o país com doenças".

Retórica extremista

Um legislador do Partido Likud do governo se referiu a eles como um "câncer no corpo da nação". Os africanos também estão cada vez mais se tornando alvos de ataques, em áreas como o sul de Tel Aviv, onde gangues de adolescentes visam os imigrantes. O líder delas é um ex-membro do Parlamento por um partido de extrema direita.

O presidente do Knesset, Juli Edelstein, escreveu no Facebook que os árabes são "uma nação deplorável". E Avigdor Lieberman, o ministro das Relações Exteriores de Israel até recentemente, quer transferir os árabes israelenses para a Palestina, no contexto de uma troca de território, e a revogação da cidadania daqueles que são "desleais". Ele até mesmo já pediu pela execução dos legisladores árabes que se encontraram com políticos do Hamas. Mas metade dos israelenses sente que Lieberman tem tendências fascistas.

Apesar de existirem políticos que protestam contra esses sentimentos, a retórica extremista ainda se infiltra na consciência coletiva. E com a polícia frequentemente solidária com os agressores, não causa surpresa os responsáveis pelas agressões racistas nem sempre serem punidos. "Não há punição suficiente para essas ações", diz Kremnitzer, o jurista, acrescentando que muitos dos culpados não têm senso de que o que estão fazendo é errado. "Eles acreditam que os políticos apoiam o que fazem."

Um torcedor de futebol de 23 anos, Asi diz que não é racista, apenas um nacionalista. "Eu não tenho nenhum problema com os árabes, desde que hasteiem a bandeira israelense e cantem junto quando nosso hino nacional é cantado." Lieberman usou a mesma lógica para justificar um projeto de lei que apresentou, pedindo que os novos cidadãos prestassem um juramento de fidelidade.

Asi, que mora em um pequeno vilarejo perto de Caesarea, torce pelo clube Beitar Jerusalem. Na noite de quinta-feira, ele e outros torcedores do Beitar estavam em um cruzamento em Herzliya. Asi tem um rosto amistoso e uma barba bem aparada. Com os demais torcedores, ele está aqui para uma manifestação contra a direção do clube.

Quando foi anunciado em janeiro que o clube planejava contratar dois jogadores muçulmanos tchetchenos, as arquibancadas do estádio foram tomadas por cartazes de ódio, com palavras como "Beitar - Puro para Sempre". Os torcedores cantavam: "Nós somos os escolhidos, nós somos sagrados, mas os árabes não".

Beitar Jerusalem, diz Asi, é o menorá sagrado em um fundo amarelo. A equipe, ele diz, só pode vencer como uma equipe judaica, o motivo para os muçulmanos serem impedidos de jogar pelo clube.

A direção do Beitar acabou cancelando os contratos com os tchetchenos e enviou os dois homens de volta para casa. Eram problemas demais, escreveu o clube em uma declaração.
Reportagem de Julia Amalia Heyer, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Preconceito dá prejuízo


No último dia 12, um menino negro de sete anos, filho de um casal de brancos, foi destratado pelo gerente de uma concessionária da BMW no Rio de Janeiro, que ao vê-lo se aproximar teria dito: "Você não pode ficar aqui dentro. Aqui não é lugar para você. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes".
O fato é uma lamentável demonstração de preconceito, mas não é surpreendente. Em razão da notícia, a rádio CBN reapresentou uma reportagem na qual dois repórteres, um negro e outro branco, de idades próximas e vestindo roupas parecidas, testaram o atendimento que receberiam em estabelecimentos comerciais cariocas.
O tratamento dado ao negro foi sistematicamente pior e em boa parte das vezes nem sequer foi atendido. Em uma loja de roupas masculinas, ao branco foi oferecido um terno de maior qualidade, e, ao negro, o mais barato.
O diabo é que os preconceitos se devem a uma poderosa capacidade humana, a de fazer generalizações a partir de experiências limitadas. Poderosa, mas falível.
Preconceitos como o racismo ou o sexismo são frutos de generalizações indevidas e estigmatizadoras. Porém, sem conceitos prévios (preconceitos), que permitam tomar decisões rápidas, teríamos dificuldade para fazer coisas simples, como dirigir ou escolher um restaurante sem ter uma indicação.
Ainda assim, vale uma constatação etimológica: preconceito é sinônimo de prejuízo (em inglês, preconceito é "prejudice"). Nossos antepassados, ao criar suas línguas, perceberam que conceitos ou juízos prévios costumam levar a perdas, a ideias equivocadas. A loja da BMW teve um baita prejuízo com o episódio. Evitar comer um queijo mofado pode ser sensato, mas corre-se o risco de desprezar uma iguaria.
Isso não significa que se deva deixar de fazer generalizações, mas uma certa parcimônia é proveitosa. No caso da concessionária, o tratamento dado a uma criança que se aproximava foi indevido mesmo que ela não fosse filha de clientes.
Um bom vendedor se esforça para atender a todos bem, mesmo que muitas vezes perca tempo. Contudo, a força da capacidade humana de generalizar costuma prejudicar o exercício desse tipo de cuidado.
No Brasil, ser negro é uma marca de pobreza. Tal generalização não só condiz bem com a realidade como carrega outras generalizações associadas à pobreza. Por exemplo, se num comércio de luxo aparece uma criança pedindo esmolas, é provável que muitos clientes prefiram ver o gerente colocando-a para fora da loja a ter que lidar com o incômodo da pobreza que existe no país.
Os casos destacados não são surpreendentes, portanto. Por isso, em 19/07/2004, defendi em artigo publicado na Folha que as cotas raciais devem servir para diversificar a elite brasileira, de forma que ela passe a espelhar melhor a pluralidade étnica da população.
Crescimento econômico, redução das disparidades sociais e políticas públicas, como educação boa e universal, são cruciais para o país ser melhor, mas não tendem a tornar a elite mais plural.
Nos EUA, há uma significativa elite negra. A riqueza americana contribui para isso, mas o país já era rico quando, nos anos 60, Kennedy teve que mandar tropas federais para garantir a matrícula de negros na Universidade do Alabama. Depois, vieram as cotas raciais e os direitos civis. Hoje, o presidente da República é negro.
Anos depois desse primeiro artigo, a constatação é que o debate das cotas ajudou a colocar o tema racial na agenda brasileira. O percentual de autodeclaração de negros e pardos no censo do IBGE subiu significativamente. Os estudantes cotistas têm em geral bom desempenho acadêmico.
Apesar desses bons resultados, muitos entendem que as cotas racializam o país. Talvez, mas nesse caso é preciso apresentar outras opções para desrracializar a sociedade brasileira, pois isso é um fato, como mostram os exemplos dados.
Outros acreditam que o problema é existirem elites. Como a existência de elites é insofismável, prefiro que a brasileira não seja apenas branca. Tampouco sou contra as elites, que podem ter papéis importantes, como o de garantir que numa democracia a vontade da maioria seja temperada pelos direitos individuais.
Ruim é o elitismo, que ocorre quando a elite acredita que quem atrapalha o país é o seu povo. Para isso, a diversificação da elite é um bom remédio.
O poder econômico é uma arma poderosa contra os preconceitos.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pesquisador diz que piadas racistas reforçam padrão colonial


Piadas sobre negros ainda são usadas para desqualificar e marginalizar essa parcela da população, critica o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Dagoberto José da Fonseca, que pesquisa o tema desde a década de 1980. "Esse tipo de piada, de brincadeira, que não é nada inocente, tem o objetivo de rebaixar, de inferiorizar, de desqualificar o negro, de mostrá-lo como um animal, incompetente ou estigmatizar uma situação de pobreza pela qual passa boa parte dessa população."
Doutor em ciência sociais, ele começou a pesquisar o tema depois de ouvir de um amigo uma piada racista ainda na faculdade. A anedota deu origem a uma tese de mestrado que, engavetada desde então, foi resumida e será publicada no livro Você Conhece Aquela? A Piada, o Riso e o Racismo à Brasileira, com previsão de lançamento em dezembro.
Em 133 páginas, o professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp reúne piadas em que os protagonistas são negros e aparecem como "vadios, malandros, ladrões". Em algumas dessas anedotas são comparados a doenças degenerativas, como câncer, ou têm características físicas, como o nariz e a boca, exageradas, reforçando estereótipos.
É o caso da personagem Adelaide, do programa Zorra Total, da TV Globo. No quadro, ela é uma mulher negra, pobre, sem dentes, que se refere aos cabelos da própria filha como "palha de aço". As aparições da personagem estão sob análise no Ministério Público do Rio de Janeiro, que vai avaliar se há racismo no programa, a pedido da Secretaria de Igualdade Racial (Seppir).
"A personagem Adelaide está colocada dentro dos marcos do passado. Havia uma leitura nas piadas de que os negros eram pobres, desdentados e feios. Ela a personagem não rompe com o passado, como Mussum, Grande Otelo e Chocolate. Adelaide tem o nariz e os lábios exageradamente alargados e o cabelo despenteado, em um clichê, que, no final, a compara a um gorila", criticou.
Sobre o tema da sexualidade, em um dos quatro capítulos da obra, Fonseca também critica o mito da potência sexual, no caso dos homens, ou de lascívia, no caso das mulheres. Segundo o professor, essas ideias surgem na colonização tanto no Brasil quanto na África e refletem teorias de um momento histórico em que o negro era tido como inferior.
"Quando a gente pensa em um negro brutamonte, está associando o negro a um tarado, a um cavalo, a um touro, ou seja, voltamos para a questão da animalização", ressaltou. ''Do outro lado, quando se remete à mulher negra, há ideia de lascividade, de promiscuidade. Tudo vinculado ao processo colonial, em que o dono do corpo era quem escravizava", acrescentou.
Para o professor, por trás das piadas racistas há uma intenção de buscar a "padronização" do corpo, da beleza, por meio da valorização de um "ideal branco", o que tem impactos negativos, especialmente, entre as crianças negras. A tendência, explica o pesquisador, é que elas se sintam inferiores e tenham mais dificuldade para aprender.
Em relação à personagem Adelaide, a Central Globo de Comunicação informou que o humorístico "é notadamente uma obra de ficção, cuja criação artística está amparada na liberdade de expressão". A nota acrescenta ainda que a personagem foi inspirada na avó de seu intérprete e criador, o ator Rodrigo Sant'anna.

Notícia do Terra

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Monteiro Lobato, um racista nada infantil


Sítio do pica-pau racista?
O dia 11 de setembro não traz lembranças boas para os americanos. Pode ficar marcado também para os brasileiros. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Fux, fixou para hoje uma audiência de conciliação a respeito do racismo do Pedrinho. Quer dizer, do racismo do escritor Monteiro Lobato, criador do famoso “Sítio do pica-pau amarelo”, em “Caçadas de Pedrinho”. Estão convocados o procurador-geral da República, Roberto Gurgel (será que ele vai pedir a condenação do guri, pois o autor deixou rastros?), o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, a presidente do Conselho Nacional de Educação, Ana Maria Bettencourt, o ouvidor da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e a relatora do caso no CNE. Além do denunciante, membro do Instituto de Advocacia Racial (IARA), que pediu a exclusão de “Caçadas de Pedrinho” do Programa Nacional Biblioteca na Escola.
Acontece que no livro aparecem frases do tipo “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”. A turma do sítio não parece mais racista do que qualquer outro personagem daquela época. Qualquer professor pode usar a obra até para mostrar o preconceito em determinada situação histórica. Pedrinho e seus amigos não representam grande perigo para as crianças de hoje. Mas, como quase tudo nesta vida deliciosamente complexa, há outro buraco nessa polêmica. Monteiro Lobato era um baita racista. Pesquisadores localizaram algumas cartas escritas por ele que o colocam direto na galeria da infâmia regional. É dele este coice na inteligência alheia: “Um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”. Burrice branca.
Nada de relativismo. Isso não se explica pelos valores da época. Lobato defecou essa declaração em 1938. Alguns professores de literatura querem tapar o sol com a peneira. Sugerem que Lobato falava cruamente do negro para denunciar o preconceito. Na na ninha não. Ele era racista mesmo. Tinha um Hitler dentro dele. Queria a eliminação dos negros por branqueamento e eugenia. No romance “O presidente negro”, ambientado nos Estados Unidos, em 2028, o conflito racial termina com a exterminação dos negros pela esterilização em massa. Indignado por não encontrar editor americano para o livro, Monteiro Lobato esbravejou em carta a Godofredo Rangel: “Acham-no ofensivo à dignidade americana (…) Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros”. O Brasil, no entender do iluminado nacionalista, sofria com a herança africana: “Mulatada, em suma (…) País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Klux-Klan é país perdido para altos destinos”. Que modelo para crianças!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Casal gay é morto em AL com suspeita de tortura

Casal gay é morto em AL com suspeita de tortura

Vítimas estavam há 12 dias desaparecidas

SÍLVIA FREIRE
DE SÃO PAULO

Um casal homossexual que estava desaparecido havia 12 dias foi encontrado morto, com sinais de tortura, em um canavial em Rio Largo, região metropolitana de Maceió.
Segundo o GGA (Grupo Gay de Alagoas), os corpos do pai de santo Márcio Lira Silva e de seu companheiro, Eduardo, foram localizados na última segunda com os dedos decepados, os olhos perfurados e em decomposição. Os dois viviam juntos havia 12 anos.
O IML (Instituto Médico Legal) ainda não concluiu o laudo sobre a causa da morte.
A reportagem não conseguiu contato com o delegado responsável pelo caso.
Para Nildo Correia, do GGA, a suspeita é de motivação homofóbica. Segundo amigos do casal, eles eram homossexuais assumidos, não tinham inimigos nem comentaram sobre ameaças.
Só neste ano, nove homossexuais foram mortos em Alagoas, segundo o GGA.

Notícia publicada na Folha de São Paulo, de 13 de abril de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Eliminar a discriminação contra negros


Eliminar a discriminação contra negros


Há 52 anos, em 21 de março de 1960, cerca de vinte mil negros protestavam contra a lei do passe na cidade de Johanesburgo, na África do Sul. Lutavam contra um sistema que os obrigava a portar cartões de identificação que especificava os locais por onde podiam circular. Era uma das lutas contra o apartheid.
No bairro negro de Shaperville, os manifestantes se defrontaram com tropas de segurança daquele sistema odioso. O que era para ser uma manifestação pacífica se transformou em uma tragédia. As forças de segurança atiraram sobre a multidão, deixando 186 feridos e 69 mortos. Esse episódio ficou conhecido como o massacre de Shaperville.
Em memória às vítimas do massacre, em 1976, a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu o dia 21 de março como o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial.
Destacar esse acontecimento é importante para que nunca esqueçamos dessa face cruel do racismo, que não hesita em atirar em pessoas indefesas. Assim, há 36 anos, o dia 21 de março é um marco para a comunidade negra na luta contra o racismo e as discriminações. Ainda hoje, a influência do racismo impede que negros vivam em condições de igualdade com os não negros.
As ações afirmativas de cotas na universidade para os jovens negros, o Prouni, o programa de saúde para a população negra, o reconhecimento das terras dos remanescentes de quilombos, o combate à intolerância religiosa em face das religiões de matriz africana, entre outras ações, trazem para ordem do dia um pouco dos desafios que ainda temos de enfrentar para construir uma sociedade mais igualitária.
Contudo, podemos nos orgulhar pelos avanços dados nos últimos anos. Um deles foi a lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino sobre história e cultura afro-brasileira nos ensinos fundamental e médio das escolas pública e particular de todo o país.
Outro foi a lei 12.288, que dispõe sobre o Estatuto da Igualdade Racial. Essa é a primeira lei desde a abolição da escravidão que reúne inúmeras possibilidades para que o Estado brasileiro repare, de uma vez por todas, as desigualdades que são resquícios da escravidão.
A Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu 2011 como o ano internacional dos povos afrodescendentes. Buscou com isso que os Estados independentes concentrassem ações para reparar as desigualdades raciais.
Visto que foi insuficiente aquele período de tempo, instituiu a década dos afrodescendentes, que será lançada em dezembro de 2012.
É a hora do fortalecimento das ações pela igualdade em todos os países que tenham tido mão de obra escrava como base de seu desenvolvimento capitalista, algo que originou desigualdades raciais de natureza histórica.
O mundo é melhor com as diferenças e diversidades. Vamos continuar avançando na construção da cidadania e do acesso igualitário aos bens econômicos e culturais para negros, indígenas, ciganos e todos os segmentos minoritários da sociedade.
O massacre dos jovens negros de Shaperville será lembrado para sempre. A luta deles nos inspira a caminhar pela igualdade de oportunidades e por sociedades livres do racismo e do preconceito.



sábado, 21 de janeiro de 2012

'Chavs': a demonização da classe trabalhadora britânica


A demonização da classe trabalhadora britânica tem uma sigla indecifrável: “Chavs”. Ninguém sabe o que significa, mas em páginas web, em programas de televisão e em análises midiáticas populares ou “sérias”, serve para estigmatizar os jovens que vivem em moradias municipais e têm um tipo específico de sotaque e aspecto físico. “Na realidade é uma maneira oblíqua de definir o conjunto da classe trabalhadora e responsabilizar os pobres de ser pobres”, escreve Owem Jones, autor de “Chavs”, um livro chave sobre o tema. Em meio à atual crise, a justificativa cai como anel no dedo. A pobreza não se deve aos problemas da economia, mas às falhas do próprio indivíduo ou de sua família: aos lares deslocados, à falta de ambição ou inteligência.
As três décadas de neoliberalismo, inauguradas por Margaret Thatcher com uma drástica desindustrialização nos anos 80, marcaram o triunfo de um individualismo que afundou o sistema de valores solidários da classe trabalhadora. Em 1979 havia sete milhões de operários com um forte peso de mineiros, portuários e do setor automotivo. Hoje há dois milhões e meio, as minas desapareceram e só a empresa automotiva, em mãos estrangeiras, está crescendo.
Neste vazio de identidade, de uma classe operária em retirada, surgem os “chavs”. Objeto de escárnio na imprensa ou de piada em programas de televisão e cenas de classe média, os “chavs” são apresentados como parasitas encravados no tecido social. Segundo o estereótipo são desempregados crônicos, adolescentes que engravidam para receber auxílio-maternidade, responsáveis pelo déficit fiscal e moral, virtuais delinquentes com um coeficiente de inteligência pelo chão e uma família disfuncional. “O que chamávamos de respeitável classe trabalhadora praticamente desapareceu. Hoje a classe trabalhadora na verdade não trabalha nada e está mantida pelo estado de bem-estar”, assinala o comentarista conservador Simom Heffer.
O estereótipo ajudou a justificar o draconiano ajuste fiscal da coalizão conservadora liberal-democrata encabeçada pelo primeiro ministro David Cameron, mas também tem servido de base para propostas reacionárias, de limpeza social. Em 2008, o vereador conservador, Johm Ward, propôs a esterilização obrigatória das pessoas que tiveram um segundo ou terceiro filho enquanto recebiam benefícios sociais, medida apoiada com entusiasmo pelos leitores do jornal conservador “Daily Mail”, escandalizados com “estes aproveitadores e sem-vergonhas que estão afundando o país”.
A obsessão classista e o estereótipo levaram a confusões tragicômicas. Em um panfleto para as eleições de 2010, os conservadores asseguraram que em algumas zonas pobres “a gravidez de adolescentes menores de 18 anos é de 54 %”. Na verdade era 5,4%, cifra que representava uma queda com respeito ao que acontecia durante o Thatcherismo. No departamento de imprensa conservador ninguém percebeu o erro tipográfico. Apesar de se referir a mais da metade das menores de 18 anos dessas zonas, o fenômeno já havia sido naturalizado pelo preconceito.
Uma das curiosidades é que se usa o término Chavs com certeza de conceito sociológico, mesmo que ninguém possa dizer com certeza o que significa o acrônimo. O dicionário de oxford na internet define o “Chav” como “um jovem de classe baixa de conduta estridente, que anda em grupo e usa roupas de marca, reais ou imitadas”. Outro dicionário, de 2005, o define como “jovem de classe trabalhadora que se veste com roupa esportiva” Um mito popular o faz passar como “Council Housed and Violent” (violento que vive em casas municipais).
Esta vacuidade permite englobar amplos setores sociais. Em um livro que já está na nona edição e vendeu mais de 100 mil exemplares, “The Little book of Chavs”, se identificam os típicos trabalhos “chavs”. A “chavette” – mulher chav – é aprendiz de cabeleireiro, faxineira ou camareira enquanto os homens são guardas de segurança ou mecânicos e encanadores “cowboys” (“especialistas” em reparações que destroem tudo). Segundo o livro, “chavs” de ambos os sexos costumam ser 'caixas' nos supermercados ou empregados de lanchonetes.
Panorama
Esta tipificação ocupacional corre paralela às mudanças que a classe trabalhadora britânica viveu nos últimos 30 anos. Hoje um quarto da força de trabalho tem uma jornada precária e mais de um milhão e meio se encontra em empregos temporários. O salário médio de 170 mil cabeleireiras (“chavettes”) está pouco acima da metade da média salarial da população, medida que define a linha de pobreza no Reino Unido. Em cidades que alguma vez giraram em torno à atividade manufatureira ou mineira, os escassos trabalhos que existem são em supermercados ou farmácias. “Não só são trabalhos mais inseguros. Estão muito pior pagos.
Quando a Rover faliu em Birmingham com a perda de 6500 postos de trabalho, a remuneração média que receberam aqueles que conseguiram trabalho era um quinto menor do que ganhavam na automotiva”, aponta Owem Jones.
O paradoxo é que em uma sociedade tão classista como a britânica, na qual o sotaque e a universidade (Oxford, Cambridge) definem o futuro de uma pessoa, conservadores e novos trabalhistas propagam o mito de que hoje todos os britânicos são de “classe média”, salvo essa pequena subclasse disfuncional e patológica, para a qual falta ambição ou fibra moral: os Chavs. Em 1910 Winstom Churchill, então ministro do interior do Partido trabalhista propôs a esterilização de mais de 100 mil pessoas que considerava “débeis mentais e degenerados morais” para salvar o país da decadência. Um século mais tarde a decadência continua ameaçando o Reino Unido, mas a fórmula é mais “civilizada”: um estigma que nega a existência e o significado social da classe trabalhadora. 

Texto visto no Opera Mundi

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Política anti-imigração: Barbarismo com aparência humana

Fatos recentes – como a expulsão dos ciganos da França, ou o ressurgimento do nacionalismo e do sentimento anti-imigração na Alemanha, ou o massacre na Noruega – devem ser vistos pelo viés de um rearranjo que vem ocorrendo há bastante tempo no espaço político da Europa oriental e ocidental.

Até recentemente, na maioria dos países europeus dominavam dois principais partidos que agregavam a maioria do eleitorado: um partido de centro-direita (democrata cristão, liberal-conservador, do povo) e um partido de centro-esquerda (socialista, social-democrata), com alguns partidos menores (ecologistas, comunistas) reunindo um eleitorado ainda menor.

Recentes resultados eleitorais na Europa ocidental e no Leste Europeu sinalizam o surgimento gradual de uma polarização diferente. Agora temos um partido predominante, de centro, atuando em prol do capitalismo global, geralmente acolhendo ideias culturalmente liberais (tolerância ao aborto, direitos dos gays, religiosos e minorias étnicas, por exemplo).

Em oposição a esses, tornam-se cada vez mais fortes os partidos populistas anti-imigração que, pelas beiradas, vêm acompanhados de grupos francamente racistas neofascistas. O melhor exemplo disso é a Polônia onde (após o desaparecimento dos ex-comunistas) os principais partidos são o liberal-centrista “anti-ideológico” do Primeiro Ministro Donald Tusk e o conservador Christian Law, e o Partido da Justiça dos irmãos Kaczynski.

Tendências semelhantes podem ser observadas, como já testemunhamos, na Noruega, na Holanda, na Suécia e na Hungria. Mas como chegamos a este  ponto?

Após décadas de fé no estado de bem-estar social, quando cortes financeiros eram vendidos como temporários, e sustentados por uma promessa de que as coisas logo voltariam ao normal, estamos entrando numa época em que a crise – ou melhor, uma espécie de estado econômico de emergência, com sua necessidade de atendimento para todo tipo de medida de austeridade (cortando benefícios, diminuindo serviços de saúde e de educação, tornando os empregos mais temporários) – é permanente. A crise está se transformando num estilo de vida.

Depois da desintegração dos regimes comunistas, em 1990, entramos numa nova era na qual predomina a administração despolitizada de especialistas e a coordenação de interesses como exercício do poder de estado.

O único meio de introduzir paixão nesse tipo de política, o único meio de ativamente mobilizar o povo, é através do medo: o medo dos imigrantes, o medo do crime, o medo da depravação sexual ateia, o medo do Estado excessivo (com sua alta carga tributária e natureza controladora), o medo da catástrofe ecológica, assim como o medo do assédio (o politicamente correto é a forma liberal exemplar da política do medo).

Uma política assim se sustenta sobre a manipulação de uma multidão paranoica – a assustadora correria de homens e mulheres amedrontados. Eis porque o grande evento da primeira década do novo milênio se deu quando a política anti-imigração entrou para a prática corrente e cortou enfim o cordão umbilical que conectava-a com os partidos da extrema direita.

Da França à Alemanha, da Áustria à Holanda, no novo modelo de orgulho de sua própria identidade cultural e histórica, os principais partidos veem como aceitável insistir que os imigrantes são hóspedes que devem se acomodar aos valores culturais que definem a sociedade anfitriã – “este é o nosso país, ame-o ou deixe-o” é o recado.

Os liberais progressistas estão, é claro, horrorizados com esse populismo racista. Entretanto, uma olhada mais de perto revela o quanto compartilham sua tolerância multicultural e o respeito às diferenças com esses que opõem imigração à necessidade de manter os outros a uma distância apropriada. “O outro é bacana, eu o respeito”, dizem os liberais, “contanto que não interfiram demais no meu espaço pessoal. Quando fazem isso, eles me incomodam – eu apoio enormemente uma ação afirmativa, mas em momento algum estou disposto a ouvir rap a todo volume”.

A principal tendência dos direitos humanos nas sociedades do capitalismo tardio é o direito de não ser incomodado; o direito de manter uma distância segura em relação aos outros.

Um terrorista cujos planos fúnebres devem ser evitados permanece em Guantánamo, a zona vazia desprovida de regras da lei, e um ideólogo fundamentalista deve ser silenciado porque ele espalha o ódio. Pessoas assim são assuntos tóxicos que perturbam a minha paz.

No mercado atual, encontramos toda uma série de produtos despidos de suas propriedades malignas: café sem cafeína, creme sem gordura, cerveja sem álcool. E a lista continua: que tal sexo virtual, o sexo sem sexo? A doutrina Collin Powell de guerra sem baixas – para o nosso lado, obviamente – como uma guerra sem guerra?

A redefinição contemporânea de política como arte da administração especializada, política sem política? Isto nos leva ao atual multiculturalismo liberal tolerante como uma experiência do Outro desprovida de sua alteridade – o Outro descafeinado.

O mecanismo dessa neutralização foi melhor formulado em 1938 por Robert Brasillach, o intelectual fascista francês, que via a si mesmo como um antissemita “moderado” e inventou a fórmula do antissemitismo razoável.

“Nós nos concedemos a permissão de aplaudir Charlie Chaplin, um meio-judeu, nos filmes; de admirar Proust, um meio-judeu; de aplaudir Yehudi Menuhin, um judeu; não queremos matar ninguém, nós não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também achamos que o melhor meio de impedir as ações sempre imprevisíveis do antissemitismo instintivo é organizar um antissemitismo razoável”.

Não seria esta a mesma atitude que entra em funcionamento quando nossos governantes lidam com a “ameaça imigrante”? Após rejeitar diretamente, à moda da direita, o populismo como “irracional” e inaceitável para nossos padrões democráticos, eles endossam “racionalmente” as medidas de proteção racistas.

Ou, como Brasillachs atuais, alguns deles, mesmo os social-democratas, nos dizem: “Concedemos a nós mesmos permissão para aplaudir atletas da África e do Leste Europeu, doutores asiáticos, programadores de softwares indianos. Nós não queremos matar ninguém, não queremos organizar nenhum pogrom. Mas também achamos que o melhor meio de impedir as sempre imprevisíveis e violentas medidas de defesa anti-imigração é organizar uma proteção anti-imigração razoável.”

Essa ideia de desintoxicação do vizinho sugere uma passagem do franco barbarismo para o barbarismo com uma aparência humana. Revela que estamos saindo do amor ao próximo cristão e caminhando de volta para os privilégios pagãos de nossas tribos em detrimento do Outro, bárbaro. Mesmo que esteja sob a máscara da defesa de valores cristãos, esta é a maior ameaça ao legado cristão.



* Slavoj Žižek é filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Texto publicado originalmente em ABC – Religion and Ethics e reproduzido no Blog da Boitempo



Texto visto no Opera Mundi.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A xenofobia europeia criou Breivik




DURANTE ALGUMAS HORAS o mundo teve uma espécie de alívio intelectual ao saber que o massacre de Oslo fora reivindicado por radicais islâmicos. Ocorrera uma desgraça, mas prevalecera a sabedoria convencional. O assassino, contudo, é um viking, cristão.
Até a divulgação de seu manifesto, "2083, uma declaração de independência europeia", Anders Breivik seria facilmente encaixado na categoria dos desequilibrados, onde estão Lee Oswald, o assassino de John Kennedy, ou John Hinckley Jr., que por pouco não matou Ronald Reagan em 1981 e está guardado num hospício. Breivik não cabe nessa categoria. Seu radicalismo é articulado, como o de Hitler no "Mein Kampf", terrível por não ser original. Está no ar. Suas referências ao Brasil e aos seus costumes também não são originais. Estão no ar.
Olhada pelo retrovisor, a última grande guerra europeia (50 milhões de mortos) foi um capítulo da luta do bem contra o mal e terminou com a vitória do bem. Olhada a partir da década de 20 do século passado, foi bem outra coisa. Como sempre, quando se vive a véspera não se sabe o que acontecerá no dia seguinte. Em 1930, quando o Congresso americano jogou para cima as tarifas de importação do país, não se acreditava que dera um passo para internacionalizar a depressão econômica.
Em 1923, quando o partido nacional-socialista alemão tentou um golpe em Munique, um jovem diplomata americano, surpreendido pelos acontecimentos, procurou o núncio apostólico, Eugenio Pacelli, um sacerdote fluente em alemão, conhecedor da política do país.
O monsenhor disse-lhe o que informara à Santa Sé: a carreira política de Hitler estava encerrada. Anos depois, Robert Murphy relembrou o episódio num encontro com o ex-núncio, àquela altura feito Pio 12, e ele explicou: "Eu sei do que você está falando, da infalibilidade do papa, mas não esqueça que eu era um monsenhor". (Nove anos depois, com Hitler no poder, o embaixador americano William Dodd achava que o chanceler seria contido pelos conservadores moderados.)
O monsenhor Pacelli fez uma previsão errada para o destino da árvore, mas Pio 12 olhava mal para a floresta. Felizmente, a carreira de Breivik terminará numa cela, mas, assim como grandes políticos ingleses, americanos e europeus se enganaram ao olhar o ovo da serpente do fascismo, Pacelli não podia supor o que vinha pela frente. Nem ele nem o soldado Joe Vanacore, em abril de 1945, quando entrou com seu tanque num dos campos de Buchenwald.
Crise econômica, desemprego, nacionalismo, xenofobia, antiliberalismo, antimarxismo e anti-intelectualismo eram parte do cotidiano de uma forma de pensamento político na primeira metade do século passado e ressurgiram, tanto na Europa como nos Estados Unidos. (Os brasileiros estão no topo da lista de viajantes impedidos de entrar em países europeus pelos serviços policiais dos aeroportos.) Onde havia antissemitismo, está hoje o anti-islamismo e a estigmatização dos imigrantes, extensiva aos descendentes.
Lido há um mês, o manifesto de Breivik seria apenas a manifestação de um radical capaz de pesquisar com algum método a literatura política de sua preferência. Hoje, pode levar à ideia de que ele é doido. Doido ele não é, é assassino.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, de 27 de julho de 2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

Pichações racistas em Monumento a Zumbi no Rio de Janeiro

Vândalos picham monumento a Zumbi com frases racistas

Imagens de câmera da polícia podem identificar os pichadores
CRISTINA GRILLO
DO RIO

O monumento a Zumbi dos Palmares, na av. Presidente Vargas, centro do Rio, amanheceu ontem pichado com frases racistas.
Na base do monumento, os pichadores escreveram "invasores malditos, macacos", "fora para a África" e desenharam uma suástica.
A estátua do rosto de Zumbi dos Palmares recebeu um "banho" de tinta branca.
Perto do monumento está instalada uma câmera da Polícia Militar. Carlos Roberto Osório, secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, diz que pediu à Secretaria de Estado de Segurança que as imagens captadas sejam analisadas, para verificar se é possível identificar os pichadores
"Além do crime de dano ao patrimônio público, eles cometeram outro ainda mais grave, o de racismo. Foi um ato muito agressivo."
O monumento foi pichado durante a madrugada de ontem. Pela manhã, equipes da prefeitura iniciaram a limpeza. No início da tarde, as frases ofensivas e a tinta branca já haviam sido apagadas.
O monumento é uma homenagem a Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foco de resistência à escravidão no século 17, no Estado de Alagoas.
Recentemente, o monumento havia passado por obras de restauro e limpeza. Já havia sido pichado em várias ocasiões anteriores, mas nunca com termos racistas.


terça-feira, 26 de abril de 2011

É o racismo, estúpidos!

É o racismo, estúpidos!

JOSÉ VICENTE

Dez anos depois da primeira Conferência Mundial contra o Racismo e a Xenofobia de Durban, África do Sul, as mazelas e os perigos do racismo acenderam a luz vermelha e a ONU, instituindo 2011 como o Ano Internacional dos Afrodescendentes, volta a conclamar a comunidade de nações a se debruçar sobre os equívocos e a ineficiência das políticas antirracistas, por conta do recrudescimento dos níveis de racismo e discriminação racial contra os negros no mundo.
Recentes bananas oferecidas aos jogadores brasileiros Neymar e Roberto Carlos, as agressões verbais, os sons imitativos de macacos e as vaias das torcidas nas praças esportivas contra jogadores negros dão a dimensão da gravidade da situação, obrigando a Fifa e órgãos ligados ao esporte a tomar medidas severas para prevenção, punição e combate ao racismo, dentro e fora dos gramados.
Surrealismo, ambiguidade, hipocrisia, cinismo, desfaçatez, indiferença e tantos outros adjetivos jorram na literatura quando se analisa a tão vilipendiada trajetória do negro no Brasil. Todos apontam o racismo e ninguém consegue encontrar um racista. Junta-se a eles, a partir de agora, a estupidez.
Estúpido, este foi o adjetivo com que o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT/SP), definiu seu colega Jair Bolsonaro (PP/ RJ), por ocasião de suas maldades racistas e preconceituosas contra a cantora negra Preta Gil e os homossexuais em geral por meio de veículos de comunicação de massa.
O adjetivo em questão, seguramente, pode ser estendido a seus colegas congressistas Jaime Campos (DEM/ MT), que se referiu ao ministro negro do STF, Joaquim Barbosa, como "moreno escuro", por ter esquecido seu nome, Marcos Feliciano (PSC/SP), que responsabilizou a África e os negros africanos por todos os males do mundo, e ao senador Demóstenes Torres (DEM/GO), que, no plenário do STF, disse que a mulher negra gostava de ser seviciada pelo senhor.
Como inocentes úteis, tais nada inocentes parlamentares, protegidos pela impunidade, destilam em praça pública os venenos que reservavam para ambientes privados.
Flertando com os veículos de comunicação, são a fina e rejuvenescida flor daquela corrente que faz um mau uso do direito de expressão para fins pessoais inconfessáveis, colocando o mandato popular a fomentar, voluntária ou involuntariamente, mas de modo igualmente irresponsável, o ódio racial.
Como a resultante dos estúpidos é a estupidez, a retórica dissimulada em ideia livre e democrática é, na verdade, a correia de transmissão para os também estúpidos integrantes das gangues organizadas que, em São Paulo, no ambiente cibernético e à luz do dia, pregam e praticam a perseguição, a agressão e a eliminação de negros, de judeus e de homossexuais.
É o combustível que encoraja os estúpidos das forças policiais, que, na Bahia, conforme noticiou esta Folha, dizimam a juventude negra brasileira. É o estímulo final aos seguranças de shopping centers e supermercados de grife, que vigiam os negros nas passarelas e batem em sua caras nas salas de segurança e em estacionamentos.
O racismo é perigosamente destrutivo e sutilmente enganador. Ele tateia sutilmente pelas frestas e se mistura sinuosamente como naturalidade cotidiana; tanto quanto repudiá-lo, é indispensável combatê-lo sem trégua e sem piedade.
Sem diminuí-lo e sem ignorá-lo. A ONU e a Fifa estão corretas, assim como o deputado Vaccarezza. É o racismo, estúpidos!

JOSÉ VICENTE, advogado, mestre em administração e doutorando em educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, é reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares.