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quinta-feira, 26 de março de 2015

Ricardo III


Hoje, 26 de março de 2015, o rei Ricardo III, da Inglaterra, voltará a ser sepultado em uma cerimônia na catedral de Leicester, 529 anos depois de sua morte na batalha de Bosworth Field, nas cercanias da cidade, em 1485. Ricardo 3º foi o último dos reis medievais ingleses. Reinou de 1483 a 1485. Sua morte marcou o fim das "Guerras das Rosas", entre a casa de Lancaster (representada por uma rosa vermelha) e a casa de York (representada por uma rosa branca).
O vitorioso em Bosworth Field foi Henrique Tudor. Ele estabeleceu uma nova dinastia, que combinava a rosa branca e a rosa vermelha como emblema. Ricardo III foi o último rei inglês a ser morto em batalha no solo da Inglaterra, e o primeiro rei inglês morto em combate desde que o rei Haroldo II perdeu a vida na batalha de Hastings, em 1066.
O esqueleto de Ricardo III foi descoberto em 2012 por arqueólogos da Universidade de Leicester. Estava sepultado sob um estacionamento municipal.
A escavação foi resultado de anos de esforço de Philippa Langley. O esqueleto foi identificado por amostras de DNA de um marceneiro canadense, Michael Ibsen, descendente de 17ª geração de Anne de York, irmã mais velha do rei. Seu perfil genético demonstrou que os dois compartilhavam de uma variedade rara de DNA mitocondrial.
Milhares acompanharam as cerimônias nesta semana em Bosworth Field e ladearam as ruas para assistir à passagem do armão de artilharia, acompanhado por cavaleiros em armadura medieval e puxado por cavalos negros, que transportava o caixão simples de madeira, feito por Michael Ibsen.
Na catedral, antes de ser velado, o caixão com os restos mortais foi entregue formalmente pela universidade ao diácono e bispo. O príncipe Richard, duque de Gloucester e primo de Elizabeth II, estava presente. Ricardo III se tornou duque de Gloucester em 1461.
Até a rainha Elizabeth escreveu um tributo a Ricardo III. Ele já não é considerado como "o venenoso sapo de costas encurvadas" que Shakespeare famosamente descreve em sua peça. Isso agora é encarado como manobra de propaganda dos Tudors. E tampouco é visto como o verdugo dos dois jovens príncipes encarcerados na Torre de Londres. E não é mais considerado como rei que tentou fugir do campo de batalha oferecendo "meu reino por um cavalo".
Mas a história está nos olhos de quem a vê. A despeito dos bons votos ecumênicos de dois arcebispos cristãos, Leicester é hoje a cidade mais diversificada da Inglaterra em termos étnicos e religiosos. Apenas 32,4% de seus moradores são cristãos; 18,6% são muçulmanos, 15,2% são hindus, e 4,4% são sikhs. A população fala 70 idiomas diferentes. Trata-se da primeira cidade britânica onde as pessoas brancas de origem britânica são minoria. Ricardo III ficaria atônito.

Texto de Kenneth Maxwell, publicado na Folha de São Paulo

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Análise: Sob críticas, mídia britânica se posiciona contra independência

Análise: Sob críticas, mídia britânica se posiciona contra independência

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Boas relações do Ocidente com o Irã esbarram em arquivos sobre golpe de 1953

Enquanto diplomatas iranianos se juntam em Viena a representantes de seis potências mundiais para acertar um acordo sobre o programa nuclear do Irã, a aparência é de que o Ocidente está prestes a abrir um novo capítulo em seu longo e turbulento relacionamento com o Irã. Com um acordo abrangente em vista, o Reino Unido está preparando a reabertura de sua embaixada em Teerã, após um rompimento de três anos nas relações, e os Estados Unidos estão contemplando trabalhar com o Irã no combate à ameaça extremista sunita no Iraque.

Mas enquanto o mundo exige que o Irã seja honesto a respeito de suas antigas atividades nucleares, o Reino Unido e os Estados Unidos ainda se recusam a esclarecer o golpe anglo-americano de 1953 no Irã, que continua sendo uma ferida aberta nas relações entre o Irã e o Ocidente.
Todo aluno iraniano pode contar a história de como o SIS (Serviço Secreto de Inteligência) do Reino Unido e a CIA (Agência Central de Inteligência) dos Estados Unidos conspiraram em 1953 para orquestrar um golpe contra o governo eleito do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, um ícone anticolonial que liderou a nacionalização da Companhia de Petróleo Anglo-Iraniana, de propriedade britânica.

O papel anglo-americano na derrubada de Mossadegh e reinstalação do xá Mohammad Reza Pahlevi como ditador do Irã é o segredo pior guardado da Guerra Fria. Mas tanto o Reino Unido quanto os Estados Unidos continuam impedindo os esforços dos historiadores de descobrir a história plena do golpe de 1953. Qualquer vestígio do papel da CIA no golpe foi removido da série Relações Estrangeiras dos Estados Unidos (FRUS, na sigla em inglês) do Departamento de Estado americano, que publicou um volume de documentos em 1989 sobre as políticas do governo Eisenhower em relação ao Irã, que foi condenado pelos historiadores como sendo uma "fraude".

O escândalo em torno do volume FRUS de 1989 levou o Congresso a aprovar uma legislação exigindo que a série seja um "registro meticuloso, preciso e confiável das grandes decisões de política externa dos Estados Unidos". Para tratar das omissões gritantes do volume de 1989, os historiadores do Departamento de Estado têm trabalhado arduamente para montar o muito esperado volume de retrospectiva FRUS sobre o "Irã, 1951-1954", com previsão de lançamento neste ano, mas que ainda precisa se materializar.

Um grande obstáculo ao lançamento dos documentos do governo americano sobre o golpe de 1953 é que essa ação secreta foi uma operação conjunta anglo-americana, codinome "Tp-Ajax" pela CIA e "Boot" pelo SIS, e o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido é contrário à divulgação de qualquer documento americano que faça referência ao papel britânico no golpe. Quando foi inicialmente considerada a divulgação desses documentos em 1978, um funcionário do Departamento de Estado alertou ao Ministério das Relações Exteriores britânico que os documentos continham "muitas coisas embaraçosas sobre os britânicos".

Londres e Washington conspiram desde então para manter esses documentos trancados a sete chaves.

Há uma década, quando o governo Clinton buscava uma "détente" com o presidente reformista do Irã, Mohammad Khatami, parecia que os Estados Unidos finalmente chegariam a um acordo a respeito de sua história problemática com o Irã. Em março de 2000, a secretária de Estado, Madeleine Albright, se tornou a primeira autoridade americana a reconhecer o papel dos Estados Unidos no golpe de 1953. Um mês depois, uma das histórias internas da CIA sobre seu papel no golpe foi misteriosamente vazada para o "New York Times". Mas o esclarecimento pleno que muitos historiadores esperavam nunca aconteceu. Mais preocupante, os falcões no establishment de política externa de Washington, contrários ao estender de mão do presidente Obama ao Irã, estão novamente negando qualquer papel americano no golpe de 1953.

Do outro lado do Atlântico, os britânicos demonstram ainda menos disposição de reconhecer seu papel no golpe ou divulgar qualquer um de seus documentos. O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, pede pelo fim do senso de "culpa pós-colonial" do Reino Unido por seus crimes imperiais no Irã e em outros lugares. Infelizmente para Hague, os iranianos têm longa memória e ignorar o passado não o fará desaparecer ou tornará a reabertura da embaixada mais fácil.

Obama, cuja maior realização de política externa pode ser a "détente" com o Irã, parece entender isso. Em seu discurso no Cairo em 2009, ele novamente reconheceu o papel americano na queda de Mossadegh, mas expressou esperança de que os dois países possam "seguir em frente", em vez de permanecerem "presos no passado".

Seguir em frente com um novo capítulo nas relações americano-iranianas é difícil enquanto os arquivos de 1953 permanecerem secretos. Uma recusa teimosa em divulgá-los mantém o trauma de 1953 vivo na consciência pública iraniana.

Nem o Reino Unido e nem os Estados Unidos têm algo a perder com a revelação plena de seus papéis em um golpe que ocorreu há mais de 60 anos. Grande parte dos detalhes da trama já é público. Funcionários da inteligência tanto americana quanto britânica que participaram já publicaram suas memórias com a aprovação de seus antigos empregadores. Impedir a divulgação dos arquivos remanescentes não tem sentido em um momento em que tanta informação já é de domínio público.

O futuro lançamento do volume FRUS sobre o governo Eisenhower e Mossadegh é uma oportunidade para os Estados Unidos finalmente passarem a limpo seu papel. Se ele fornecer um registro meticuloso, preciso e confiável da interferência anglo-americana nos assuntos internos do Irã, então isso poderá permitir a Obama finalmente deixar para trás o passado sórdido e prosseguir fazendo história.

Texto de Roham Alvandi, para o The New York Times, reproduzido no UOL.

*Roham Alvandi, um professor assistente de história internacional da London School of Economics and Political Science, é autor de "Nixon, Kissinger, and the Shah: The United States and Iran in the Cold War"

Tradução de George El Khouri Andolfato. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Reino Unido afirma ter direito de interceptar Facebook, Google e Twitter

Em uma ampla argumentação legal para coleta de informação sobre o uso da internet por seus cidadãos, o governo britânico afirmou o direito de interceptação de comunicações por serviços como Facebook, Google e Twitter, que são baseados nos Estados Unidos ou em outros países estrangeiros, mesmo se forem entre cidadãos do Reino Unido.

A posição britânica é descrita em um relatório divulgado na terça-feira (17) pelo Privacy International e outros grupos de defesa. O relatório, confirmando um sumário visto na segunda-feira pelo "The New York Times", diz que as conclusões são baseadas em um documento do governo que os grupos obtiveram por meio de uma ação na Justiça.

O documento do governo, divulgado com o relatório, diz que o contato entre pessoas no Reino Unido por redes sociais baseadas em qualquer outro lugar --ou o uso de ferramentas de busca localizadas fora do Reino Unido-- constitui "comunicação externa" e, portanto, está sujeita a interceptação, mesmo quando não há suspeita de nenhuma transgressão.

Em comparação, segundo a lei britânica, "comunicação interna" entre pessoas baseadas no país só pode ser interceptada quando há suspeita de atividade ilegal, especificada em um mandado emitido pelo governo e supervisionado pela Justiça.

Não está claro quão livremente o governo britânico está aplicando essa interpretação de "comunicação externa" ou quantos mandados obteve segundo essas diretrizes para interceptar comunicações de pessoas no país.

A agência de vigilância britânica que supervisiona essa atividade, o Quartel-General de Comunicações do Governo, se recusou na segunda-feira a afirmar a forma como sua posição foi retratada, citando "uma antiga política de não comentarmos assuntos de inteligência". Mas acrescentou, em uma declaração, que "todo o trabalho do QGCG é executado de acordo com a rígida estrutura legal e de políticas que assegura que nossas atividades sejam autorizadas, necessárias e proporcionais".

O documento do governo é atribuído a Charles Farr, diretor-geral do Escritório para Segurança e Contraterrorismo, um órgão do governo britânico que ajuda a coordenar a estratégia antiterrorismo do país.

A Privacy International se recusou a comentar sobre o sumário em seu relatório antes da divulgação oficial. Informado sobre o conteúdo do sumário, o Google emitiu uma declaração que dizia em parte: "Nós fornecemos dados dos usuários apenas de acordo com a lei. Nossa equipe legal analisa cada pedido e frequentemente os rejeita quando são amplos demais ou não seguem o devido processo".

Um representante do Facebook se recusou a comentar e o Twitter não respondeu imediatamente ao convite para fazê-lo.

Defensores da privacidade
A defesa do governo britânico foi em resposta a uma ação impetrada no ano passado por defensores da privacidade, incluindo a Privacy International e a Anistia Internacional, com base nas revelações de Edward J. Snowden, um ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana, sobre vigilância pelo governo.

Entre outras coisas, os grupos de privacidade estão pedindo ao governo britânico que pare de usar informação do Prism, um sistema que permite à NSA coletar e-mails de não-americanos no exterior, sem mandados individuais, a partir de provedores baseados nos Estados Unidos como o Facebook, Gmail, Yahoo e Hotmail.

Os grupos de privacidade também querem que o governo britânico suspenda seu programa Tempora de vigilância, no qual uma agência de inteligência pode acessar os cabos de fibra óptica que transmitem os dados de internet que entram e saem do Reino Unido. Os cabos transmitem diariamente milhões de e-mails e buscas na internet, entre outros dados pessoais.

Como parte do caso legal, que será ouvido no mês que vem pelo Tribunal de Poderes Investigativos, um tribunal britânico que cuida dos casos legais contra as agências de inteligência do país, Farr, do Escritório de Segurança e Contraterrorismo, será uma testemunha crucial para o governo britânico em seus esforços para continuar usando os métodos de vigilância.

Quando as revelações sobre o Prism e outras atividades de inteligência foram feitas no ano passado, o governo britânico disse que as agências de inteligência do país cumpriam as regras locais que visam proteger a privacidade dos cidadãos.

Mas a defesa legal apresentada no relatório dos grupos de privacidade representa a discussão mais detalhada que veio à tona sobre a abordagem do governo para coletar as comunicações de indivíduos em alguns dos serviços de internet mais populares.

Reportagem de Mark Scott, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Grã-Bretanha trata jornalistas como terroristas


A liberdade de expressão e a liberdade de imprensa estão sendo atacadas na Grã-Bretanha. Não posso voltar à Inglaterra, meu país, devido ao meu trabalho jornalístico com o denunciante da NSA, Edward Snowden, no WikiLeaks. Há coisas que eu sinto que nem posso escrever. Por exemplo, se eu dissesse que teria esperança de que meu trabalho no WikiLeaks mudasse o comportamento do governo, esse trabalho jornalístico seria considerado um crime, de acordo com a Lei de Terrorismo de 2000.
A lei define terrorismo como uma ação ou uma ameaça “projetada para influenciar o governo”, que “é realizada com o objetivo de promover uma causa política, religiosa, racial ou ideológica” e que representaria um “sério risco” para a saúde ou segurança de uma parcela do público. As autoridades governamentais do Reino Unido afirmam constantemente que esse risco está presente com a divulgação de qualquer documento “confidencial”.
Além disso, a lei diz que “o governo” significa o governo de qualquer país – inclusive dos Estados Unidos. A Grã-Bretanha usou essa lei para abrir uma investigação de terrorismo em relação a Snowden e aos jornalistas que trabalhavam com ele e como pretexto para entrar nos escritórios do Guardian e exigir a destruição de seus discos rígidos relacionados a Snowden. A Grã-Bretanha está se transformando num país que não sabe a diferença entre seus terroristas e seus jornalistas.
Definição bizarra de terrorismo
O recente julgamento do caso de David Miranda é uma prova disso. Miranda ajudava o jornalista Glenn Greenwald e viajava, no verão passado, com documentos do jornalista. Quando seu avião fez escala no aeroporto de Heathrow, ele foi detido com base no item 7 da Lei de Terrorismo. O item 7 significa que uma pessoa pode ser detida por até nove horas num ponto de entrada no Reino Unido e não tem direito ao silêncio. Obriga a pessoa a responder a perguntas e entregar documentos que estejam consigo, e, portanto, David Miranda foi obrigado a entregar seus documentos de Snowden. Posteriormente, Miranda entrou com um processo contra o governo do Reino Unido sobre a legalidade de sua detenção, para mostrar como essa lei representa uma transgressão à capacidade de um jornalista trabalhar livremente. De forma ultrajante, o tribunal encontrou desculpas políticas para ignorar as bem definidas proteções à liberdade de expressão que constam da Convenção Europeia de Direitos Humanos.
Se a Grã-Bretanha for investigar jornalistas como terroristas, tomar e destruir nossos documentos, obrigar-nos a entregar senhas e responder a perguntas, como poderemos garantir proteção às nossas fontes? O precedente já existe; nenhum jornalista pode ter certeza de que se sair, entrar ou fizer escala no Reino Unido isso não lhe acontecerá. Meus advogados aconselharam-me a não voltar ao meu país.
A assessora jurídica de Edward Snowden, Jesselyn Radack, norte-americana, foi questionada sobre Julian Assange e seu cliente quando entrou recentemente no Reino Unido. Sou bastante ligada aos dois: trabalho para um deles e salvei e acompanhei o outro por quatro meses. Além disso, se eu tentasse entrar no país e o item 7 fosse ativado para me parar, eu não teria como responder a essas perguntas nem como ceder, uma vez que isso representaria um risco para o trabalho jornalístico do WikiLeaks, para o nosso pessoal e para as nossas fontes. Como, de acordo com essa lei, eu não teria direito ao silêncio, para o governo eu estaria cometendo um crime. Uma condenação por “terrorismo” teria sérias consequências no exterior com os movimentos internacionais pela liberdade.
O item 7 da lei não trata de pegar terroristas, nem em seus próprios termos. O julgamento de David Miranda afirma que, neste caso, ele “constituiu uma interferência indireta à liberdade de imprensa” e esta é reconhecidamente “capaz, dependendo dos fatos, de ser desdobrada de forma a interferir com a liberdade jornalística”. As autoridades podem deter uma pessoa, não por suspeitarem que ela esteja envolvida com terrorismo, e sim para ver “se alguém parece” – mesmo de maneira indireta – facilitar a definição bizarra de terrorismo usada nesta lei.
Direitos e liberdades
O juiz Ouseley, que também presidiu o caso de extradição de Julian Assange, declarou em seu julgamento que uma autoridade pode agir por “não mais que uma suspeita ou intuição”. Portanto, agora foi determinado por nossos tribunais que é aceitável interferir com a liberdade de imprensa com base numa suspeita – tudo em nome da “segurança nacional”. Atualmente, ao invés de significar “a garantia de estabilidade de uma nação para seu povo”, a segurança nacional é um slogan usado por governos para justificar suas próprias ilegalidades, sejam elas invadir outro país ou espionar seus próprios cidadãos. Esta lei – e isso agora é cristalinamente claro – está sendo usada, de forma consciente e estratégica, para ameaçar jornalistas. Tornou-se uma ferramenta para garantir a escuridão atrás da qual nosso governo pode construir um Big Brother do século 21, totalmente novo.
Esta erosão dos direitos humanos mais elementares é uma ladeira escorregadia. Se o governo conseguir se dar bem espionando-nos – não apenas com a cumplicidade, mas com a exigência dos Estados Unidos –, então, a que tipo de sistema de controle e equilíbrio ainda podemos recorrer? Poucos de nossos parlamentares estão fazendo alguma coisa no sentido de agir contra esta restrição abusiva de nossa liberdade de imprensa. A deputada (PV) Caroline Lucas entrou com uma moção no dia 29 de janeiro, mas até agora somente 18 outros parlamentares a assinaram.
Desde meu refúgio em Berlim, isso cheira mais a adotar o passado da Alemanha do que seu futuro. Tenho pensado sobre até onde a história da Grã-Bretanha teria sido mais pobre se seus governos dispusessem de um instrumento abusivo. O que teria acontecido a todas as campanhas públicas realizadas numa tentativa de “influenciar o governo”? Vejo as mulheres que lutavam pelo direito ao voto sendo ameaçadas, vejo os manifestantes da marcha de Jarrow sendo rotulados como terroristas, vejo Dickens sendo encarcerado na prisão de Newgate.
Em sua disposição de atropelar nossas tradições sem qualquer consideração, as autoridades britânicas e as agências do Estado estão agarradas a um extremismo que é tão perigoso para a vida pública britânica quanto a ameaça (real ou imaginária) de terrorismo. Como declarou o juiz Ouseley, o jornalismo não possui um “status constitucional” no Reino Unido. Mas não pode haver dúvida de que este país precisa de um plano de liberdade de expressão para os próximos anos. O povo da Grã-Bretanha deveria lutar para mostrar ao governo que iremos preservar nossos direitos e nossas liberdades, sejam quais forem as medidas repressivas e ameaças que lancem contra nós.
Texto da britânica Sarah Harrison, para o The Guardian, reproduzido no Observatório da Imprensa

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Editor do "Guardian" é obrigado a defender patriotismo no caso Snowden

Alan Rusbridger, o editor do "The Guardian", teve de provar seu patriotismo para defender a publicação das revelações de Edward Snowden. Interrogado durante 80 minutos pela comissão parlamentar britânica para assuntos internos, na terça-feira (3), ele refutou todas as acusações de que teria colocado em risco a segurança nacional do Reino Unido ao expor o amplo sistema de espionagem eletrônica criado pelos serviços de segurança americanos e britânicos.
Keith Vaz, o deputado do partido trabalhista que preside a comissão, o pegou de surpresa ao lançar, educadamente, uma pergunta insidiosa: "O senhor ama seu país?" Estupefato, Rusbridger ficou em silêncio por alguns segundos, antes de responder, com uma risada discreta: "Estou meio surpreso por você me fazer tal pergunta, mas, sim, nós somos patriotas. E uma das coisas que fazem com quem nós sejamos patriotas é a democracia e a liberdade de nossa imprensa".
Alan Rusbridger compareceu perante os deputados para responder às acusações dos três diretores dos serviços de inteligência britânicos. No mês passado, diante de uma outra comissão, muito mais conciliadora, eles afirmaram que os terroristas podiam agora eludir sua vigilância mais facilmente. Eles dizem ter interceptado discussões de grupos que querem mudar seus métodos de comunicação por causa dessas revelações.
Rusbridger nega, dizendo que as acusações são "muito vagas". "Ninguém nunca me disse: você provocou esses danos específicos." Ele cita quatro fontes próximas dos serviços de inteligência, tanto nos Estados Unidos quanto no Reino Unido, que afirmam que a publicação dessas informações não colocou em risco a segurança nacional: um membro da comissão para serviços secretos do Senado americano, um oficial da Casa Branca, um oficial de alto escalão britânico e Norman Baker, secretário de Estado britânico para assuntos internos.
O redator-chefe do "Guardian" afirma que ele procedeu de maneira extremamente prudente. Somente 1% dos 58 mil documentos de Snowden foram publicados. As autoridades sempre foram contatadas para poderem dar sua versão dos fatos. E, o mais importante, nenhum nome de agente secreto jamais foi publicado, nem nenhum elemento que pudesse identificá-los. Nenhuma vida foi colocada em risco. As revelações se limitam a explicar os métodos da ciberespionagem e sua extensão.
Rusbridger lembra também que, desde o início, o sigilo era muito mal mantido pelos Estados Unidos. Snowden era somente um consultor da NSA, a Agência Nacional de Segurança americana. No total, 850 mil pessoas tinham acesso a esses documentos, da mesma forma que ele.
Não é a primeira vez que o "Guardian" é obrigado se defender. Desde a publicação do furo inicial, em junho, as autoridades britânicas fizeram de tudo para conter a divulgação de informações. Durante o verão, um dos oficiais do mais alto escalão do país foi até o subsolo da sede do jornal britânico para supervisionar a destruição de um disco rígido ("com uma espécie de liquidificador gigante"), conta Rusbridger. Em vão, já que o "Guardian" tinha uma cópia.
A prova de que existe uma pressão é que essa cópia está sendo guardada na sede do "New York Times", nos Estados Unidos, um país onde a liberdade de expressão é protegida pela Constituição. Em seguida a polícia prendeu no aeroporto de Heathrow David Miranda, o namorado de Glenn Greenwald, jornalista que revelou o caso. Este transportava documentos para o jornal britânico.
E, agora, o ataque dos diretores dos serviços secretos e a convocação de Rusbridger ao Parlamento. "O 'Guardian' não se deixará intimidar", responde seu editor.
A próxima etapa poderá ser judicial. Vários deputados dizem acreditar que transportar os arquivos de Snowden para fora do Reino Unido constitui crime. Os nomes dos agentes constam nesses documentos, e transmiti-los para fora das fronteiras seria contra a lei.
"Comunicar informações sobre a identidade dos funcionários dos serviços secretos para fora de nosso território infringe o parágrafo 58A", afirmou o deputado conservador Mark Reckless. Mas Rusbridger admite que o "Guardian" repassou os documentos para o "New York Times". "Creio que você acaba de reconhecer um ato criminoso", disse Reckless. A mensagem foi captada pela Scotland Yard e, após a audiência, a polícia confirmou ter aberto uma investigação.

Reportagem de Eric Albert para o Le Monde, reproduzida no UOL

sábado, 30 de novembro de 2013

Paris, a valiosa parceira na espionagem da NSA

A indignação manifestada pelo chefe do Estado francês junto a seu homólogo americano, depois que o "Le Monde" publicou no final de outubro documentos internos da Agência Nacional de Segurança (NSA), mostrando a extensão da espionagem sobre os interesses franceses, dava a entender que a França seria uma perfeita vítima.
Novos documentos que foram repassados ao "Le Monde" por Edward Snowden, um ex-consultor da NSA, revelam uma outra realidade: a das ligações extremamente estreitas entre os serviços secretos franceses – Direção Geral dos Serviços Externos (DGSE) – tanto com a NSA quanto com seu equivalente britânico, o GCHQ [Government Communications Headquarters], ou seja, as duas mais poderosas estruturas de interceptação técnica do mundo.
Esses novos elementos mostram como e até que ponto, em nome do combate ao terrorismo, a DGSE construiu e estruturou suas relações com os Estados Unidos e o Reino Unido. A cooperação se desenvolveu no terreno da inteligência técnica e humana. Como parte de uma troca, tomou-se depois a decisão de transferir à NSA e ao GCHQ estoques maciços de dados que transitam em solo francês.
Esses documentos internos da NSA e do GCHQ atestam que as decisões inerentes à criação desse depósito de dados privados e públicos franceses em um amplo fundo comum foram tomadas, em grande parte, por diretores dos serviços secretos técnicos desses países. Eles levantam a questão do poder e do lugar ocupado pelos técnicos da inteligência que puderam, em certos aspectos, se libertar de sua tutela política e das leis que protegem as liberdades.
A primeira nota, do dia 6 de agosto de 2007, veio da direção da NSA encarregada da inteligência por transmissões eletrônicas. Ela carregava o carimbo "top secret", o mais alto grau de classificação. Redigida pela chefe do escritório em Paris e destinada a seus superiores, ela indica que a relação com a DGSE havia "entrado em uma nova dimensão."
A partir de agora, ela escreveu, graças a "uma franca discussão entre a direção das relações exteriores da NSA e a direção técnica da DGSE, iniciada em novembro de 2006, sobre as necessidades de informações e sobre a ideia de criar um modelo de referência em termos de parceria", as trocas não se dariam somente sobre os dados técnicos, mas também sobre as informações em posse de cada um dos serviços secretos.
A chefe do escritório enfatiza o papel central exercido por Bernard Barbier, o diretor técnico dos serviços secretos franceses. "Sua atitude é muito pragmática em relação à NSA sobre questões delicadas e essa mudança de escala na troca de análises surgiu na ocasião de sua visita à NSA em dezembro." Até hoje, ela diz, o compartilhamento de análises era "entravado" pela direção da DGSE.
Agora, comemora a autora da nota, a direção da inteligência da DGSE trará todas suas informações para a conversa com a NSA sobre a África e as questões de contraterrorismo. "Os analistas franceses descobriram que os analistas da NSA tinham muito a oferecer e então ofereceram muito."
Esse acordo foi feito em todos os níveis. No dia 1o de fevereiro de 2007, o chefe da divisão para a África da direção da inteligência da DGSE se encontrou, juntamente com dois analistas, seu homólogo da NSA para a África subsaariana. Segundo a nota, eles falaram essencialmente da crise em Darfur. Outras reuniões foram organizadas para tratar da Costa do Marfim e da República Democrática do Congo. A NSA elogiou os franceses por terem cedido uma carta confidencial que indicava a localização de acampamentos militares em torno do Congo.
No dia 7 de fevereiro de 2007, uma delegação de espiões franceses foi até a NSA para fazer uma apresentação "muito detalhada", avalia a nota, sobre as duas prioridades da DGSE: o Hezbollah no Líbano e a AQMI no Sahel. A partir de então, as trocas seriam institucionalizadas. "Uma visita a Paris nos dias 19 e 20 de março de 2007 para tratar da AQMI. No dia 25 de abril, a DGSE procurou a NSA a respeito dos Bálcãs." E conclui: "Ainda haverá muito a se tirar dessa parceira nessa relação que só está começando."
Um ano mais tarde, graças a uma outra nota obtida por Edward Snowden e já mencionada pelo "The Guardian", descobriu-se que a DGSE também estreitou sua cooperação com o GCHQ britânico. "A DGSE é uma parceira extremamente motivada e competente do ponto de vista técnico que mostrou uma grande vontade de investir em protocolos de internet e trabalhar com o GCHQ na base da cooperação e da troca."
Em março de 2009, os britânicos receberam seus colegas franceses para falar sobre monitoramento da internet em grande escala. Em julho de 2009, os dois parceiros se voltaram a encontrar e continuaram suas conversas sobre aquilo que foi descrito como "o maior desafio do GCHQ": "a continuação das intercepções maciças quebrando os sistemas de encriptação entregues por fornecedores privados." O documento também elogia o caráter "muito amigável" dessas reuniões. Os franceses são apresentados como "muito dispostos" a transmitir seu conhecimento em matéria de encriptação.
Segundo um oficial de alto escalão da comunidade da inteligência na França, esse compartilhamento não está isento de alguns "segredos de ambos os lados." Mas, segundo ele, a DGSE aprofundou ainda mais sua relação com seus parceiros anglo-saxões, sobretudo a NSA, a partir do final de 2011 e início de 2012, adotando um protocolo de troca maciça de dados. A França usufrui de uma posição estratégica em matéria de transporte de dados eletrônicos através de cabos submarinos. Esse fluxo de informações entre a França e outros países, essa "matéria-prima", como classifica a NSA em uma nota revelada por Snowden, é alvo de uma ampla interceptação por parte da DGSE.
Mas o material fornecido à NSA, em grande parte retirado dos cabos, mas não somente, não é uniforme. Os dados coletados têm características técnicas muito variadas e complexas. Eles pertencem tanto a franceses quanto a estrangeiros. A DGSE pode triar centenas delas e assim preservar segredos que dizem respeito à França, mas ela não consegue identificar tudo.
"São várias as razões", explica o mesmo oficial. "Primeiro, não há uma bandeira azul, branca e vermelha atrás de cada endereço. Além disso, certas encriptações podem ser inacessíveis por um período razoável. Por fim, o tratamento de dados eletromagnéticos, por exemplo, requer recursos técnicos dos quais a França não dispõe."
Resultado: o nível de cooperação é tão grande que hoje os dados pessoais que vêm da África ou do Oriente Médio, transitam pela França e pertencem a indivíduos de nacionalidade francesa – empresários, diplomatas, ou até agentes da DGSE em missão – ou mesmo chefes de Estado africanos, podem todos cair nas mãos da NSA justificado pelo combate ao terrorismo.
Se os metadados sobre cidadãos franceses coletados e armazenados pela DGSE escapam da legislação francesa, o que dizer dos que são entregues à NSA? Pessoas próximas de Alain Zabulon, coordenador nacional da inteligência, afirmavam, na quinta-feira (28), "que até se sabia, a DGSE triava todos os dados entregues à NSA". A DGSE se negou a fazer qualquer comentário. As autoridades americanas, que não responderam, continuaram se recusando a falar em documentos protegidos por sigilo.

Reportagem de Jacques Follorou, para o Le Monde, reproduzida no UOL.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

No subúrbio de Londres, os serviços públicos sucumbem ao peso dos imigrantes

Olhando em retrospecto, Grzegorz Sommerfeld teria preferido não vir ao Reino Unido. Faz três anos e meio que esse polonês de 29 anos desembarcou em Slough, um subúrbio popular situado cerca de 30 quilômetros a oeste de Londres, e teve muitas suas dificuldades. Primeiro ele pulou de bico em bico, depois aos poucos acabou ficando sem emprego, nem moradia. Ele dorme ou em um prédio invadido ou em um quarto que um amigo deixa à sua disposição quando este trabalha à noite. "Mas nem penso em voltar para a Polônia como um fracassado", ele diz. "Quero ganhar um pouco de dinheiro antes de fazer as malas."
No Serena Hall, um abrigo para sem-tetos em Slough, histórias como essas vêm se proliferando. "Os poloneses representam mais ou menos metade da população atendida", calcula a voluntária Sam. Eles começaram a chegar há uma década, com a autorização dada em 2004 aos habitantes de oito novos Estados-membros da União Europeia, entre eles a Polônia, de virem trabalhar no Reino Unido. Na época, somente a Suécia e a Irlanda haviam feito o mesmo, enquanto outros, como a França e a Alemanha, adiavam a data.
O governo britânico contava com 13 mil entradas por ano, mas em dez anos chegaram 900 mil pessoas. O primeiro-ministro falou sobre essa imigração em seu artigo no "Financial Times" de 27 de novembro, questionando a livre circulação dentro da União Europeia (UE).
Mesmo entre os mais pobres as tensões vêm aumentando. "Nossa infraestrutura não está aguentando o peso dos recém-chegados", explica Ricky Bowden, um sem-teto. "Somos uma pequena ilha e não estamos mais dando conta". O fato de Ricky, com a voz um tanto pastosa por causa do álcool, estar repetindo quase que literalmente os argumentos apresentados pelos principais políticos do momento, diz muito sobre o debate que tem abalado o Reino Unido. Segundo as pesquisas, a imigração agora é a segunda maior fonte de preocupação dos britânicos, atrás da economia.
Entre os censos demográficos de 2001 e de 2011, a população da Inglaterra e do País de Gales aumentou 7%. A imigração, em sua imensa maioria legal, é a principal causa disso. O afluxo veio dos novos países-membros da UE – um quinto das chegadas - , mas também do subcontinente indiano, da África, do Oriente Médio e da Europa Ocidental. Mas a onda não se distribuiu de forma homogênea pelo país e se concentrou em cidades como Slough, onde a população cresceu 18% em uma década. Essa cidade, onde se encontram várias sedes de grandes empresas, tem um mercado de trabalho de baixa qualificação, que atrai os recém-chegados.
Sua rua principal é prova dessa diversidade. Depois dos mercadinhos mantidos pelos indianos vieram os dos poloneses, que vendem charcutaria e geleia do país. O café do centro comercial é mantido por um libanês, que empregou uma polonesa, uma húngara, uma ganense e um afegão. Na loja que oferece pequenos empréstimos bancários – geralmente algumas centenas de euros, destinados a fechar as contas do mês - , quatro dos cinco funcionários são poloneses.
No geral, os atritos continuam sendo poucos. É difícil encontrar em Slough uma voz negativa contra alguma minoria ou outra. A coesão é até notável, para uma cidade que agora só tem um terço de britânicos brancos, segundo o último censo. "Desde que cheguei, em 2006, nunca senti qualquer tipo de discriminação", conta Robert Burzynski, um engenheiro polonês. "Tem tantos imigrantes que é difícil atacar um grupo específico". Anna Wright, vereadora de Slough, ela mesma uma polonesa que chegou em 2005, confirma: "As comunidades não se misturam necessariamente, mas não chega a haver tensão entre elas."
Os indianos e os paquistaneses, que chegaram uma geração antes, são os únicos que se mostram severos. "Os poloneses bebem demais e os habitantes locais não encontram mais emprego por causa deles", se queixa Shabbir, dono de um mercadinho. Mas, em todo caso, ele tomou o cuidado de colocar algumas palavras em polonês em sua fachada...
Os novos imigrantes são até apreciados, sobretudo pelos empregadores, que os consideram trabalhadores e pouco exigentes quanto às condições de trabalho. A CIP Recruitment, uma agência de trabalhos temporários especialista em indústria alimentícia, 95% dos 600 funcionários são estrangeiros. "Os britânicos não querem trabalhar", acredita Paul Sheppard, um de seus diretores, embora ele mesmo seja inglês.
O problema dessa onda de imigração é outro: os serviços públicos e a infraestrutura estão sobrecarregados. A diretora da prefeitura, Ruth Bagley, faz a lista de suas demandas abissais. "Nós temos 6.500 moradias populares, todas ocupadas, e uma lista de espera de 7.500 pessoas. Nós temos onze escolas secundárias, mas as projeções indicam que é preciso construir mais seis e meia delas. Dentro das fronteiras administrativas da cidade, é algo impossível de se fazer. Slough sempre foi uma cidade muito receptiva, mas pressão é tanta que atingimos os limites físicos".
Não são somente as autoridades públicas que estão se queixando. Em Slough, o YMCA serve de moradia de emergência para pessoas em dificuldades. Seus diretores também acreditam que a pressão demográfica está se tornando insustentável. "Os assistentes sociais não têm mais tempo de fazer seu trabalho da forma devida", explica seu diretor, Colin Young. "Eu, que nasci em Slough, estou contente que tenha imigração, isso torna o lugar muito mais interessante. Mas fomos longe demais e não estamos mais dando conta."
O YMCA também tem um abrigo que recebe seis menores de idade em dificuldades: três vieram da África, dois do Afeganistão e um britânico. Entre eles está Lorissa, uma jovem de 17 anos, vinda de Camarões, que chegou a Slough aos 12 anos de idade. Quando atingir a maioridade, em fevereiro, a jovem, que continua frequentando a escola, corre o risco de ser deportada, uma vez que nunca obteve a nacionalidade britânica. "Minha vida é aqui. Estão me expulsando agora, mas por que deixaram que eu viesse cinco anos atrás?"
Para Edward Reiss, o presidente do YMCA local, "é preciso ser muito mais restritivo para reduzir o número de pessoas que chegam." Agora, até os assistentes sociais estão pedindo por um endurecimento das fronteiras...


Reportagem de Eric Albert. para o Le Monde, reproduzida no UOL

sábado, 21 de setembro de 2013

Inteligência britânica é responsável por ciberataque contra empresa belga

Documentos do arquivo do delator Edward Snowden indicam que o serviço de inteligência GCHQ do Reino Unido esteve por trás de um ciberataque contra a Belgacom, uma empresa de telecomunicações belga parcialmente estatal. Uma apresentação "altamente confidencial" do Quartel-General de Comunicações do Governo (GCHQ, na sigla em inglês) vista pela "Spiegel" indica que a meta da operação, conduzida sob o codinome "Operação Socialista", era "permitir uma melhor exploração da Belgacom" e melhorar o entendimento da infraestrutura do provedor.

A apresentação não está datada, mas outro documento indica que o acesso já era possível desde 2010. O documento mostra que uma subsidiária da Belgacom, a Bics, um empreendimento conjunto entre a Swisscom e a MTN da África do Sul, estava no radar dos espiões britânicos.

A Belgacom, cujos maiores clientes incluem instituições como a Comissão Europeia, o Conselho Europeu e o Parlamento Europeu, ordenou uma investigação interna após as recentes revelações sobre espionagem pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos e determinou que foi alvo de ataque. A empresa encaminhou o incidente para promotores belgas. Na semana passada, o primeiro-ministro da Bélgica, Elio di Rupo, falou sobre "violação da integridade de uma empresa pública".

Quando surgiu a notícia do ciberataque, as suspeitas na Bélgica foram inicialmente direcionadas à NSA. Mas a apresentação sugere que foi o próprio parceiro da Bélgica na União Europeia, o Reino Unido, que esteve por trás da "Operação Socialista", apesar da apresentação indicar que os britânicos usaram na operação tecnologia de espionagem desenvolvida pela NSA.

Segundo os slides na apresentação do GCHQ, o ataque foi direcionado contra vários funcionários da Belgacom e envolvia plantar uma tecnologia de ataque altamente desenvolvida, chamada de "Quantum Insert" (QI). Parece ser um método no qual a pessoa visada, sem seu conhecimento, é redirecionada para sites que então plantam um malware em seus computadores que é capaz de manipulá-los. Alguns dos funcionários cujos computadores foram infiltrados tinham "bom acesso" a partes importantes da infraestrutura da Belgacom, e isso parecia agradar os espiões britânicos, segundo os slides.

Os documentos também sugerem que o GCHQ continua sondando áreas da infraestrutura às quais os funcionários visados tinham acesso. A apresentação não datada declara que eles estavam prestes a acessar o roteador central de roaming dos belgas. O roteador é usado para processar o tráfego internacional. Segundo a apresentação, os britânicos queriam usar esse acesso para ataques complexos (ataques do tipo "Intermediário") contra usuários de smartphones. O chefe do Centro de Análise de Redes do GCHQ (NAC, na sigla em inglês) descreveu a Operação Socialista como sendo um "sucesso".

Quando contatado pelos repórteres da "Spiegel", o GCHQ não quis comentar.

Reportagem da Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: George El Khouri Andolfato

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Agências dos EUA e do Reino Unido quebram sigilo digital, dizem jornais


A NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), em parceria com sua equivalente britânica GCHQ, tem conseguido acessar grande parte de dados sob proteção digital na internet.
As informações foram divulgadas pelos jornais "New York Times" e "Guardian", com base em documentos vazados pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden.
O sistema de criptografia é usado para garantir a privacidade de internautas em contas de e-mails, chats, pesquisas em sites de busca ou em situações como transações bancárias.
Em 2000, poucos anos após perder uma batalha pública para tentar inserir uma "porta de acesso" em todos os sistemas de segurança de informação usados na internet, a NSA decidiu investir bilhões de dólares para conseguir "quebrar" softwares de criptografia comercial.
Segundo os documentos vazados por Snowden, a agência desenvolveu supercomputadores e conseguiu persuadir empresas de tecnologia a colaborar com seu plano. Os papéis não dizem quais são as companhias.
A NSA também invadiu ilegalmente computadores para criar pontos de acesso antes que eles fossem protegidos e usou sua influência como criadora de códigos para inserir pontos fracos em sistemas de segurança que serão padrão para desenvolvedores de hardware e software.
Segundo um memorando de 2010, a GCHQ foi informada dos esforços da agência americana e de que uma "vasta quantidade de informação na internet, que era até então descartada, agora pode ser explorada".
O principal sistema de acesso a dados criptografados, chamado Bullrun, é compartilhado com os serviços de inteligência do Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.
Um documento diz que a GCHQ trabalha, há pelo menos três anos, em sistemas de espionagem dos dados de usuários do Google, Yahoo, Facebook e Hotmail. No ano passado, a agência britânica diz ter conseguido "novas oportunidades de acesso" aos servidores do Google.
A NSA e suas parceiras tratam esses recentes sucessos como informação sigilosa, pois quer manter a crença dos usuários de que seus dados estão a salvo dos governos.
Um documento sobre o orçamento da NSA indica que a ação continua até hoje.


sábado, 24 de agosto de 2013

Cameron ordenou cerco britânico a revelações de Snowden, dizem fontes

Dois assessores diretos do primeiro-ministro britânico, David Cameron, pressionaram o jornal The Guardian para entregar ou destruir arquivos digitais secretos fornecidos pelo norte-americano Edward Snowden, disseram fontes políticas nesta quarta-feira.
A revelação sobre o envolvimento de Jeremy Heywood e Kim Darroch, respectivamente chefe de gabinete e assessor de segurança nacional, coloca Cameron no centro da tempestade desencadeada pela resposta de Londres ao noticiário envolvendo Snowden, ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, hoje asilado na Rússia.
Cameron, que está de férias no sudoeste da Inglaterra, não se pronunciou.
No começo de junho, o Guardian revelou, com base em informações vazadas por Snowden, a existência de um programa norte-americano de vigilância eletrônica e telefônica de grande escala que conta com a colaboração dos serviços secretos britânicos.
O Guardian, ativistas da liberdade de expressão e advogados especializados em direitos humanos dizem que o governo britânico cometeu uma agressão ao jornalismo independente quando pressionou o jornal a entregar o material dado por Snowden, e também ao deter, no fim de semana, um brasileiro que fazia conexão em Londres transportando outros arquivos digitais relativos ao mesmo caso.
O editor do Guardian, Alan Rusbridger, disse na terça-feira que depois de publicar essas informações ele foi procurado por "um funcionário de altíssimo escalão que dizia representar as opiniões do primeiro-ministro" e por "figuras das sombras de Whitehall", uma alusão ao bairro governamental em Londres.
A Grã-Bretanha diz que suas agências de segurança atuam de acordo com a lei e que os vazamentos propiciados por Snowden são uma ameaça à segurança nacional.
Rusbridger disse que o jornal foi ameaçado de um processo judicial se não destruísse ou entregasse todos os arquivos fornecidos por Snowden. Dois agentes de inteligência posteriormente supervisionaram a destruição dos discos rígidos na sede do Guardian, mas o editor disse que isso não impedirá o jornal de continuar fazendo revelações, já que havia cópias no exterior.
O principal jornalista envolvido nas revelações, Glenn Greenwald, vive no Rio de Janeiro. O companheiro dele, David Miranda, passou nove horas detido por autoridades britânicas no aeroporto Heathrow, em Londres, e teve confiscados os aparelhos eletrônicos nos quais havia armazenado arquivos entregues a ele por uma emissária de Snowden em Berlim.
Na terça-feira, a Casa Branca disse que não comentaria a destruição do material entregue por Snowden, mas o porta-voz John Earnest disse que seria inimaginável que autoridades dos EUA destruíssem discos rígidos de uma empresa de comunicação para proteger a segurança nacional.
"É muito difícil imaginar um cenário em que isso fosse apropriado", disse ele.
Várias fontes disseram que Heywood e Daroch estavam entre as autoridades que mantiveram contato com o jornal. Heywood é o mais graduado funcionário público da Grã-Bretanha, e principal assessor administrativo de Cameron; Darroch é o principal conselheiro do premiê para questões de segurança nacional.
"O primeiro-ministro pediu ao chefe de gabinete que lidasse com essa questão, isso é verdade", disse uma fonte à Reuters.
"Não se surpreenda de ouvir que (Darroch) também tem envolvimento nisso" afirmou outra fonte.
A secretária do Interior, Theresa May, defendeu as ações do governo. "Acho que as questões de segurança nacional são corretamente tratadas no nível apropriado dentro do governo, e não acho surpreendente que alguém num altíssimo escalão dentro do governo se envolva nessa questão em particular", afirmou ela à BBC.
A advogada de Miranda, Gwendolen Morgan, disse que haverá uma audiência na Alta Corte de Londres na quinta-feira para decidir sobre o pedido de liminar urgente para evitar que autoridades britânicas examinem todos os dados apreendidos de seu cliente e compartilhem com terceiros.
"O objetivo desses procedimentos é proteger a confidencialidade do material jornalístico sensível que foi apreendido", disse Morgan no pedido apresentado ao tribunal.
O Brasil disse ao governo britânico que considerava "injustificável" a detenção do seu cidadão, enquanto Miranda anunciou que entraria com um processo contra a polícia e o governo britânicos acusando-os de abuso de poder no combate ao terrorismo para se apropriarem de material jornalístico sensível.
A opinião pública está dividida sobre o assunto. Uma pesquisa divulgada pela YouGov nesta quarta-feira mostrou que 66 por cento dos entrevistados apoiavam o uso dos poderes pela polícia para deter Miranda, mas 44 por cento acreditavam que a lei foi usada de forma inadequada.

(Reportagem adicional de Mark Hosenball, em Washington; e de Costas Pitas e Michael Holden, em Londres)


Fonte: Reuters

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Greenwald elogia 'indignação' do governo do Brasil; parceiro cobra Dilma

O jornalista americano Glenn Greenwald, que revelou informações vazadas pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden, elogiou a indignação do governo do Brasil noepisódio da detenção de seu parceiro, o brasileiro David Miranda, no aeroporto de Heathrow em Londres no domingo passado.
No entanto, o próprio Miranda cobrou uma reação da presidente Dilma Rousseff em relação ao caso.
Miranda e Greenwald conversaram com a BBC Brasil na noite de terça-feira (20) no Rio de Janeiro.
"Eu acho que o governo brasileiro lidou com a situação de forma maravilhosa", disse o americano à repórter Júlia Carneiro Dias.
"Desde o primeiro minuto em que comecei a ligar para autoridades brasileiras para explicar o que havia acontecido com o David, o cidadão deles, eles estavam indignados. Genuinamente indignados, e não apenas fingindo indignação por motivos diplomáticos."

Evo Morales

O governo brasileiro está cobrando respostas das autoridades diplomáticas britânicas sobre a detenção de Miranda. O parceiro de Greenwald foi detido com base em uma lei antiterrorismo e questionado por nove horas pela polícia britânica - e teve todo seu material eletrônico apreendido.
Greenwald e o jornal The Guardian, para o qual o americano trabalha, acusam as autoridades britânicas de usar a lei antiterrorismo apenas para intimidar um familiar de um jornalista que investiga escândalos de inteligência.
Já o governo britânico se defende, dizendo que tinha motivos suficientes para deter Miranda, já que ele portava material "sensível" e "roubado".
Greenwald disse que o governo brasileiro foi bastante duro nas suas cobranças - públicas e privadas - em relação ao governo britânico, e que o Brasil já havia se comportado desta forma em episódios passados.
"Eu acho que o mesmo aconteceu quando os Estados Unidos e seus aliados europeus impediram o avião do [presidente boliviano] Evo Morales de voltar para casa", afirmou.
"Isso tem todo o ranço de atitude colonialista e imperialista da qual as pessoas no Brasil e na América Latina se ressentem. Isso é um grande componente de como as pessoas reagiram a isso tudo aqui [no Brasil]."
Miranda, no entanto, cobrou uma reposta da presidente brasileira sobre o episódio.
"Eu gostaria de perguntar o que Dilma pensa sobre isso porque eu não ouvi nenhuma reação dela sobre isso. Eu estou esperando por mais respostas. Se houver pressão internacional sobre ela, eu quero saber o que ela vai dizer."
Miranda também revelou detalhes sobre a sua detenção. Ele disse que foi forçado a revelar senhas pessoais suas de e-mail e redes sociais. Segundo o brasileiro, a polícia britânica disse que ele seria preso caso se recusasse a fornecer as senhas.
Ele disse que, ao expor dados pessoais, se sentiu como se estivesse "nu diante de uma multidão".

Reprodução da BBC Brasil no UOL

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Brasileiro teve sorte de sair vivo, ironiza Independent lembrando Jean Charles

Um artigo publicado no jornal britânico Independent desta quarta-feira afirma que o brasileiro David Miranda, que ficou detido em Londres no último domingodurante nove horas, teve sorte de voltar vivo para seu país.
O texto, assinado pelo comentarista político Matthew Norman, lembra a morte do eletricista Jean Charles de Menezes, em 2005, e diz que, há oito anos, brasileiros de passagem pela capital britânica eram vítimas de execuções "patrocinadas pelo Estado".
"Ainda não está claro se Miranda percebeu como a Polícia Metropolitana de Londres avançou nestes oito anos, desde que alvejou seu compatriota. O fato é que, até agora, o ingrato não agradeceu à polícia por tê-lo deixado voltar vivo para casa. Honestamente, algumas pessoas não têm ideia de como têm sorte", ironiza Norman.
O comentarista qualifica como "desgraça" o fato de que os agentes de segurança tenham detido e interrogado de maneira "cretina" um estrangeiro que não era suspeito de terrorismo.

Tirar o chapéu

O texto diz que a "aplicação cínica" da Lei Antiterror de 2000 teve o objetivo de amedrontar o companheiro de Miranda, o jornalista do jornal The Guardian Glenn Greenwald, e outros jornalistas que desejam exercer sua profissão e o direito democrático de reportar.
Ainda na avaliação de Norman, a detenção do brasileiro provocará um resultado completamente oposto ao desejado pela polícia.
"A partir de agora, Greenwald vai publicar reportagens de forma muito mais agressiva e devemos tirar o chapéu para ele por isso".
"Se há algo que os jornalistas gostam, além de serem martirizados diante dos olhos do mundo, é serem desafiados frontalmente sobre o exercício legal de sua profissão".

Notícia da BBC Brasil, vista no UOL

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Londres diz que brasileiro detido levava 'informações roubadas'

Londres diz que brasileiro detido levava 'informações roubadas'

BERNARDO MELLO FRANCO
DE LONDRES

O governo britânico defendeu nesta terça-feira (20) a detenção do brasileiro David Miranda, namorado do jornalista americano Glenn Greenwald, com base na lei antiterrorismo.
Em declaração à imprensa, um porta-voz do Ministério do Interior sugeriu que Miranda carregava "informações roubadas" que poderiam ser úteis a terroristas.
O brasileiro foi detido por ao menos nove horas no domingo, no aeroporto de Heathrow. Greenwald é o autor de reportagens que revelaram a existência do sistema de espionagem Prism, do governo americano, com base em vazamentos do ex-técnico da CIA Edward Snowden.
"O governo e a polícia têm o dever de proteger as pessoas e nossa segurança nacional", afirmou o porta-voz do Ministério do Interior britânico.
"Se a polícia acredita que um indivíduo está em posse de informações roubadas que sejam altamente sensíveis e possam ajudar o terrorismo, ela deve agir, e a lei garante os poderes para isso. Quem se opõe a esse tipo de ação deve pensar no que está condenando".
Antes de passar pelo Reino Unido, Miranda visitou na Alemanha a documentarista Laura Poitras, que ajuda Greenwald a divulgar o material vazado por Snowden. O brasileiro diz que a polícia britânica confiscou seus equipamentos eletrônicos, incluindo um laptop e pen drives.
De acordo com a rede BBC, advogados do "Guardian" estão ajudando o brasileiro em uma ação para pedir à Justiça britânica que impeça o governo de examinar o material apreendido com ele.

INVESTIGAÇÃO

Na segunda-feira, o ouvidor responsável por fiscalizar a aplicação da lei antiterrorismo, David Anderson, afirmou à Folha que o instrumento só pode ser usado caso a polícia considere que o cidadão detido pode ser um terrorista. Ele abriu uma investigação independente sobre o caso e deve enviar suas futuras conclusões ao Parlamento.
O "Guardian" afirmou, em editorial publicado nesta terça-feira, que a detenção do brasileiro trai a confiança dos britânicos na lei antiterrorismo. O jornal "Financial Times" afirmou que a ação da polícia foi "profundamente equivocada" e caracteriza uma tentativa de intimidar Greenwald.

Reprodução da Folha de São Paulo