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quinta-feira, 24 de março de 2016

Já pensou se protesto fosse diante da casa de Gilmar Mendes, que escândalo?

Como não sei se alguém ainda identifica equilíbrio jornalístico na cobertura da conflagração em curso no Brasil, corro o risco de chover no molhado. Tudo bem.
Ontem à noite, manifestantes se concentraram em Porto Alegre na porta do condomínio onde reside Teori Zavascki quando não está Brasília, onde é ministro do Supremo Tribunal Federal.
Pouco antes, o ministro havia determinado que as investigações sobre o ex-presidente Lula, na Operação Lava Jato, devem correr no âmbito do STF, e não na vara de primeira instância sob responsabilidade do juiz Sérgio Moro.
Os participantes do protesto discordam da decisão do ministro.
Gritaram palavras de ordem, levaram faixa. “Teori é traidor'', entoaram em um cântico. Para assistir ao que houve, é só clicar aqui, em notícia da “Zero Hora''.
Não interessa, nesse post, discutir méritos de despachos de Zavascki e Moro.
Mas observar o relativo silêncio jornalístico sobre o episódio passado na capital gaúcha.
E fazer uma pergunta: caso a manifestação tivesse ocorrido na porta da casa do ministro Gilmar Mendes, a discrição do noticiário sobre o protesto seria tamanha?
Outra: ou existiria uma grita, em tom de escândalo, falando em tentativa antidemocrática de intimidação do Judiciário?
Não responderei, porque não precisa.
A essa altura, tudo é desgraçadamente óbvio demais.

Reprodução do Blog do Mário Magalhães, via DCM

domingo, 13 de dezembro de 2015

A Folha mostra o legado social do PT que ela própria sempre escondeu

A Folha, depois de anos de pesquisas e levantamentos da mais extraordinária inutilidade, descobre enfim o seguinte.
Vou usar as palavras do próprio jornal“Em 13 anos de PT no poder, o Brasil distribuiu sua renda como em nenhum período da história registrada pelo IBGE. Todos ganharam. Quanto mais pobre, melhor a evolução. Foram 129% de aumento real (acima da inflação) na renda dos 10% mais pobres. Nos 10% mais ricos, 32%.”
Quer dizer: num país em que a desigualdade social é o maior e mais arraigado dos males, um real câncer, são números que merecem aplausos de pé.
Nenhum desafio para o país é maior do que o de reduzir a iniquidade. O abismo entre os poucos ricos e os muitos pobres é uma chaga muito mais deletéria do que a corrupção.
Quanto mais igualitária uma sociedade, menos corrupta ela é. Os países nórdicos estão invariamente na ponta nas listas de países com menor grau de corrupção, e o motivo é exatamente o igualitarismo. Você proporciona boa educação gratuita às crianças, ensina a elas noções vitais de ética, dá a todos boas oportunidades, protege os mais desfavorecidos e cria uma cultura segundo a qual praticar corrupção é um horror. Sonegar na Escandinávia, como faz abertamente a Globo, por exemplo, transforma você num pária.
Por mais pecados que o PT tenha cometido em 13 anos, e não são poucos, o fato de ter dado foco aos desvalidos o redime.
Você tira muitas conclusões dessa reportagem da Folha.
Uma é que isso – a redução – foi escondido estes anos todos, o que é um absurdo, quase um crime de lesa pátria, dado o tamanho abjeto e histórico da desigualdade.
Era algo que a Folha deveria ter feito na campanha de 2012, para ajudar seus leitores a entender melhor o que estava em jogo.
Outra é a inépcia do PT em se defender: como o partido não levantou, ele próprio, este tipo de coisa?
Estudos dessa natureza jogam luzes onde existem sombras, o que é a tarefa mais nobre do jornalismo.
Mas a imprensa brasileira faz exatamente o oposto, ou por má fé ou por incompetência: joga sombras até onde existe luz.
E então você entende o paradoxo do trabalho da Folha.
Mesmo com fatos acachapantes, apenas 31% dos brasileiros acreditam que sua vida melhorou nestes 13 anos de PT.
Ora, ora, ora.
Com o massacre cotidiano da imprensa sobre primeiro Lula e agora Dilma, a percepção das pessoas é que nestes 13 anos só houve corrupção.
Avanços sociais foram censurados numa mídia partidarizada, aparelhada pela direita e frequentemente desonesta.
E denúncias de corrupção, verdadeiras ou imaginárias, foram estupidamente ampliadas – não genericamente, mas contra um alvo específico: o PT.
Isso quer dizer o seguinte: é fácil, é simples explicar o paradoxo. As melhoras não são sentidas porque elas são soterradas por um noticiário envenenado.
E é exatamente pelo combate à desigualdade que a mídia – a voz da plutocracia predadora – tanto luta para derrubar o governo.
Não há propósitos moralistas na campanha da imprensa contra Dilma e Lula. O que existe é apenas a mesma lógica que a levou, no passado, a investir contra Getúlio e contra Jango.
A lógica das empresas de jornalismo é esta: defender seus interesses e os da classe que representa, a plutocracia.
Para sorte da sociedade, apareceu o jornalismo digital, com sites independentes e livres que funcionam como um contraponto potente ao esforço da mídia em manter o Brasil como um dos recordistas mundiais em desigualdade social.
Modestamente, nos orgulhamos de pertencer a este bloco de sites.

Reprodução de texto de Paulo Nogueira do Diário do Centro do Mundo

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Que redação teria peito para repudiar um editorial como fizeram os argentinos?

Viralizou nas redes sociais uma foto em que jornalistas do diário argentino La Nación manifestam sua rejeição a um editorial.
Nele, os donos do jornal sustentam que é hora de perdoar, ou coisa parecida, os militares que cometeram atrocidades durante a ditadura.
A redação se incomodou. O repúdio se espalhou e disso resultou uma imagem épica, na qual os jornalistas aparecem com cartazes em que dizem o que pensam.
Nas redes sociais no Brasil, a pergunta que mais se fez foi esta: você consegue imaginar isso na Folha, no Globo ou em qualquer redação?
Claro que não.
Minha hipótese é que o similar brasileiro seria uma foto na qual os jornalistas diriam em cartazes: “Eu apoio o editorial!” (Com exclamação, provavelmente.)
Isso mostra quanto as redações brasileiras foram aparelhadas pelos donos e seus prepostos.
É uma lástima, uma vez que se perde o debate de ideias e visões que mesmo na ditadura militar vigorava nas redações. É destruído, também, um certo equilíbrio de forças do qual o beneficiário foi sempre o leitor.
A situação clássica no jornalismo, no Brasil e em qualquer parte, é mais ou menos a seguinte. Os donos são conservadores, por razões óbvias. E os jornalistas são progressistas, por motivos igualmente óbvios.
Internamente, os dois lados esgrimam em torno de seu pensamento. Uma síntese sai daí.
Alguns casos notáveis: a Folha nos anos 1970, quando teve no comando da redação o jornalista Claudio Abramo, de esquerda. Claudio negociava o espírito do jornal com Frias, de direita.
Durante muitos anos, a coexistência na Folha de duas mentalidades tão diferentes em posições-chave resultou num jornal interessante. A Veja no período Mino Carta-Civitas é outro bom exemplo.
Mas o que se viu nos últimos anos foi a virtual eliminação do progressismo nas redações.
Começou com os diretores – não mais Claudios, não mais Minos. E seguiu pelos escalões inferiores.
Os colunistas, hoje, repetem as opiniões dos donos. Todos falam, basicamente, as mesmas coisas. Você lê um e não precisa ler os outros.
E os repórteres publicam o mesmo tipo de vazamento, sempre contra aqueles dos quais seus patrões não gostam.
Há histórias icônicas. O diretor de mídias digitais da Globo, Erick Bretas, é mais Marinho que a família Marinho. Em sua conta no Facebook, ele convocou os seguidores a aderir às manifestações pelo golpe no auge delas. Bretas avisou que iria para a rua, e colocou como avatar no Facebook esta frase sepulcral: “Game Over”.
Acabou, numa tradução livre. Quer dizer, Bretas derrubou Dilma alguns meses atrás.
Este tipo de jornalista patronal ocupou as redações. São centenas de Bretas que diariamente produzem o conteúdo que chegará ao público da grande mídia.
É dentro desse quadro que se instalou o desequilíbrio que marca hoje jornais e revistas.
Já não há confronto de ideias. Vigora uma ideia única, a dos donos.
A foto da redação do La Nación mostra que na Argentina é outra a realidade – e muito mais arejada.
Existe algo de profundamente errado numa redação em que o repórter acha exatamente as mesmas coisas que o dono.
E é isso o que acontece nas redações brasileiras.

Texto de Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

sábado, 31 de outubro de 2015

A Lava Jato e a nova classe dos intocáveis

No Judiciário há três linhas de conduta em relação aos crimes do colarinho branco.
Existe a linha dos garantistas, que privilegia os direitos individuais em relação à mão pesada do Estado. Existe a linha-dura, para quem o Estado - através dos códigos de processos - criou barreiras para impedir a aplicação das penas. E existe a corrupção, que se vale do suborno para obter sentenças favoráveis. Acima deles, uma legislação que permite postergar o máximo possível a punição.
O resultado final é um modelo em que o pobre é penalizado e o rico beneficiado.
Nesse lusco-fusco, cria-se um clima de animosidade entre linhas duras e garantistas. Respeitar direitos individuais significa se curvar a um modelo criado para impedir a punição dos culpados, segundo os linhas-duras.
Este é o cenário a ser considerado quando se analisam os episódios recentes. Para a maioria dos procuradores envolvidos com essas operações, a briga central é contra a impunidade.
A maneira encontrada para contornar o poder dos tribunais superiores foi recorrer a outro poder de fato, a mídia.  

As novas estratégias

Há muito tempo, procuradores e PF montam parcerias com repórteres policiais. Em vez do contraditório e de um juiz mediando a disputa, muitas vezes dificultando a apuração dos crimes, há apenas um repórter recebendo as informações de forma passiva e um editor buscando a manchete mais apelativa. É como disputar um jogo sem adversário.
O que era uma tática individual transformou-se em política de Estado na Lava Jato com a estratégia Sérgio Moro endossada pelo Procurador Geral da República Rodrigo Janot.
Em documento de 2004 – já analisado aqui no GGN – Moro expõe de forma magistral a estratégia, a partir das lições da Operação Mãos Limpas, da Itália. O foco central funda-se em três pontos:
            1. Assumir o protagonismo no noticiário, para criar o clamor das ruas e, através desse trabalho, superar as resistências políticas.
            2. Definir a delação premiada como peça central das investigações.
            3. Valer-se da cooperação internacional.
Depois da Lava Jato, todo vazamento deixa de ser coibido. Pelo contrário, passa a ser peça central na estratégia de cada investigação.

Os pontos obscuros

No entanto, há pontos obscuros nessa estratégia que, provavelmente, ainda não foram objetos de reflexão interna tanto no MPF quanto na Polícia Federal.
O primeiro, os limites entre cooperação internacional e interesse nacional. Até agora o MPF e, especialmente, o PGR não explicaram adequadamente a troca de informações com autoridades norte-americanas, visando alimentar inquéritos contra a Petrobras – que é um braço do estado brasileiro – em tribunais estrangeiros.
O segundo, os limites dos pactos tácitos com os grupos de mídia.
Grupos jornalísticos são empresas, com interesses comerciais e políticos. A extrema concentração do mercado jornalístico brasileiro transformou os grandes grupos de mídia em um dos poderes de fato, com privilégios, blindagens e práticas comerciais em nada diferentes de outros setores empresariais que mexem com o poder político.
O MPF montou uma estratégia eficaz para se beneficar dessa parceria, mas nenhuma estratégia para garantir autonomia em relação aos grupos de mídia.

As relações conflituosas com a mídia

A Satiagraha e a Castelo de Areia foram anuladas por pressões políticas. A Castelo de Areia respeitou o sigilo e morreu mesmo sendo juridicamente perfeita. A Monte Carlo caminhou sigilosamente e só  recebeu ampla divulgação devido à CPMI de Carlinhos Cachoeira. Mesmo com a profusão de provas levantadas, acabou abafada.
Por seu lado, a Lava Jato conseguiu amplo sucesso, recorrendo a métodos profissionais de vazamento de informações. Seu poder foi amplificado pela descoberta de valores inacreditáveis da corrupção na Petrobras.
O que a Lava Jato tem de diferente de todas as demais não é ter recorrido a uma comunicação profissional, mas a circunstância de se adequar aos interesses dos grupos de mídia.
A Satiagraha não interessava à mídia e morreu. A Castelo de Areia menos ainda, e acabou. A Monte Carlo incriminava diretamente a Editora Abril, como parceira de Cachoeira. Não gerou um indiciamento sequer de jornalistas ou executivos do grupo.
A Zelotes investiga a quadrilha que atuava na CARF (o conselhinho que analisa as multas fiscais) que beneficiou as maiores empresas nacionais e alguns grandes grupos jornalísticos. Nas fases iniciais não despertou nenhuma interesse da mídia e encontrou a resistência do juiz em autorizar pedidos de detenção provisória e busca e apreensão.
De repente, os procuradores e delegados fogem do script e passam a vazar informações sobre a tal Medida Provisória supostamente comprada que nada tinha a ver com o objeto inicial da Zelotes. Interrompem uma operação que envolve somas bilionárias para centrar fogo em um suposto suborno no qual, segundo as próprias informações do inquérito, os financiadores haviam interrompido os pagamentos ao suposto subornador, pelo fato do dinheiro não ter chegado ao seu destino.
Deixam de lado provas robustas de anistias fraudulentas envolvendo centenas de milhões de reais e vão atrás do indício de crime apontado em um e-mail do tal escritório do lobista (que tinha como cliente a RBS), mencionando duas bonecas de plástico dadas de presente para filhas de Gilberto Carvalho. “Bonecas” pode ser senha para suborno, alegam procuradores e delegados. Assim como “café”. Basta isso – e muita reportagem em cima de indícios vagos - para serem autorizados a avançar sobre o sigilo fiscal dos suspeitos, deixando os grandes grupos incólumes.
Se alguém considerar que essas discrepâncias são naturais nos inquéritos, que se apresente.
O resultado final foi esse: a mídia não deu aval para que a força tarefa da Zelotes invadisse grandes grupos, e ela não invadiu; autorizou que avançasse sobre as bonecas das filhas de Gilberto Carvalho e ela avançou.
Essa é a nova era da justiça, sem blindagens e com independência de atuação de procuradores e delegados?

Quando o promotor, o delegado e o editor tornam-se juiz

A exposição de qualquer pessoa à mídia é uma condenação em si. Não se trata de um ato indolor que poderá ser corrigido nas instâncias superiores. Mesmo que, no final do processo, a vítima seja inocentada, que a soma de indícios não permita sequer que seja indiciada, mesmo assim ela e seus familiares conviverão por anos com a marca da suspeita.
Além disso, quando esse festival de vazamentos atinge só um dos lados do jogo, tem repercussões políticas.
Mais que isso, a nova justiça confere um poder absurdo ao procurador e ao delegado para definir o alvo, impor o castigo público e até exercitar suas preferências partidárias.
Por que razão, tendo indícios de que Aécio Neves recebeu de Furnas e tendo informações concretas sobre o número de sua conta em Liechtenstein, o PGR brecou uma investigação e sentou em cima da outra? É evidente que o filho de Lula deve explicações sobre sua renda, sim. Mas qual a razão para blindar Aécio?
Fizeram bem procuradores e delegados de investir contra a impunidade. Mas devem satisfações à opinião pública mais esclarecida, cujo grau de compreensão não se limita à leitura de jornais: a Lava Jato veio para romper com toda forma de blindagem dos culpados, ou para criar uma nova casta de protegidos?
A prova dos nove será a delação premiada dos executivos da Andrade Gutierrez.
Além das obras em Minas, a Andrade raspou o caixa da Cemig, obrigada por seu controlador – o governo de Minas – a adquirir debêntures da construtora, enrolada com os problemas da usina de Belo Monte.
Se Aécio sair ileso desses depoimentos, não haverá como a Lava Jato se livrar do julgamento da história.

Reprodução do Blog do Luís Nassif

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Pouco barulho para uma pauta-bomba

Pouco barulho para uma pauta-bomba

O jornal não deu o destaque merecido à revelação das contas secretas do presidente da Câmara
O Ministério Público da Suíça informa: o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e seus familiares têm contas secretas naquele país. Avisa ainda que elas foram bloqueadas numa investigação local movida por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção. Em março, o peemedebista havia dito na CPI da Petrobras que não tinha conta nem dinheiro no exterior, a mesma declaração que deu à Receita Federal e à Justiça Eleitoral.
A notícia acachapante sobre o terceiro nome na linha de sucessores da Presidência da República é escândalo digno de manchetes bombásticas em qualquer democracia, mesmo numa acossada por escândalos em série, como a brasileira.
Na edição impressa de quinta-feira (1°), a revelação mereceu na Folha um título em uma coluna, uma tripa ao lado da portentosa manchete de cinco colunas sobre a queda de Aloizio Mercadante do Gabinete Civil–que sem dúvida era notícia, mas já estava no digital desde as 9h de quarta e em um site concorrente desde a noite de terça.
Em resposta à crítica interna da quinta-feira, a Secretaria de Redação concordou que a edição impressa não repercutiu, na capa e internamente, a gravidade da situação do presidente da Câmara e disse ter procurado melhorar a cobertura desde então. Na sexta (2), ela realmente melhorou, sobretudo no digital, mas o impresso ainda foi mais tímido do que a concorrência.
O assunto chegou à manchete em modestas três colunas, tamanho reservado a notícias menos flamejantes. Dividindo o alto da capa, chamadinhas leves (conhecidas na Redação como caramelos) para o centenário de Orlando Silva, o futebol e 30 opções para quem não come carne. Pode-se dizer que o prato principal cedeu espaço à sobremesa.
Não foi por falta de reconhecimento da gravidade do caso. Na mesma sexta, o principal editorial descrevia bem a escalada no grau de comprometimento de Cunha, embora ainda reservasse enorme dose de boa vontade ao aventar a possibilidade de que a informação da Suíça pudesse estar errada. Também pegou leve com a atitude imperial do deputado, que até então havia se recusado a falar do assunto, como se não devesse explicações.
O colunista Bernardo de Mello Franco (Brasília, na pág. A2) escreveu que Cunha "continua a confiar na covardia do governo e na cumplicidade da oposição, a quem se aliou na causa do impeachment". Até a sexta à noite (quando entrego a coluna), essa confiança era merecida: o presidente da Câmara estava sendo convenientemente poupado de críticas. Um deputado (anônimo, como sói acontecer) resumiu a chave oportunista: "Resta rezar para que a conta [de Cunha] só apareça após o impeachment".
É parte do jogo político essa complacência que atropela sem dó qualquer coerência e subordina valores republicanos a interesses de ocasião. E é a essa imagem de condescendência interessada que a Folha corre o risco de se ver associada com uma cobertura que parece não conferir o peso devido aos problemas de um dos principais personagens da crise política. Não é necessário pesquisar muito para comprovar que o jornal já fez muito mais barulho com histórias menos comprometedoras e figuras menos controversas.


Reprodução do Comentário de Vera Guimarães, Ombudsman da Folha de São Paulo, a respeito da cobertura do jornal. 

Destaque do blogueiro.

domingo, 4 de outubro de 2015

A morte das revistas semanais brasileiras

É a morte do jornalismo semanal. E uma morte infame, desonrosa, suja.
Tantas revelações em torno de Eduardo Cunha com suas contas na Suíça, e nenhuma revista semanal o deu na capa.
Que ele precisaria fazer para ir para a capa da Veja, da Época e da IstoÉ?
A mídia fala tanto em corrupção, e quando aparece um caso espetacular destes finge que não viu.
É uma amostra do que a imprensa sempre faz quando se trata de político amigo: joga a corrupção para baixo no tapete.
Isto se chama manipulação.
O brasileiro ingênuo é, simplesmente, ludibriado. Depois, corre para as redes sociais para vomitar as besteiras que leu na imprensa.
Durante a semana a mesma coisa ocorrera com os jornais. Eles esconderam o caso Cunha.
Fernando Morais comentou as capas logo na manhã de sábado. Notou, com razão, que parte disso é culpa do próprio PT por ter enchido de dinheiro público empresas de mídia que desinformam e não hesitam em sabotar a democracia quando sentem que seus inumeráveis privilégios correm risco.
As capas das revistas semanais e as primeiras páginas dos jornais nestes dias demonstram que, na prática, existe um monopólio na mídia brasileira.
São quatro ou cinco famílias, e na verdade uma só voz.
Não fosse a mão invisível do mercado, para usar a grande expressão de Adam Smith, e o poder das grandes corporações jornalísticas seria um obstáculo formidável ao avanço social brasileiro.
Mas a mão invisível trouxe a internet, e com ela um jornalismo que se contrapõe ao gangsterismo editorial das grandes corporações.
Fazer jornais e revistas de papel é coisa para grandes empresas, pelo tamanho dos investimentos necessários.
Mas montar um site é barato. Você não tem que imprimir sua publicação em gráficas, pagar uma distribuidora, comprar papel em fábricas finlandesas e coisas do gênero.
Seu custo é infinitamente mais baixo.
Paralelamente, a voz única das grandes corporações abre um espaço enorme para visões de mundo diferentes.
Foi assim que surgiu e floresceu, na internet, um jornalismo dissidente vital para a democracia nacional.
Considere: sob Getúlio e Jango, vítimas da imprensa, não houve contraponto à narrativa golpista da imprensa.
(Getúlio, um homem de visão, tentou resistir aos barões da imprensa com a criação de um jornal, a Última Hora, mas era quase nada diante da avalanche dos grandes jornais.)
Avalie como seriam as coisas sem o contraponto dos sites independentes.
O caso Eduardo Cunha mostra muitas coisas, e não apenas sobre a mídia. Estampa a parcialidade da Justiça e da Polícia Federal, também.
Cunha tinha que estar dedicando todo o seu tempo a se defender das acusações terríveis que pairam sobre ele.
Em vez disso, trama a derrubada de Dilma como se não tivesse nada além do impeachment em sua agenda.
Ele só faz isso porque sabe que goza de ampla proteção.
Essa proteção ficou grotescamente evidente neste final de semana, nas bancas brasileiras, com as capas das revistas semanais.

Reprodução de texto de Paulo Nogueira, no Diário do Centro do Mundo

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Folha de São Paulo adere ao golpismo

O jornal Folha de S. Paulo, junto com Jornal do Brasil, O Globo e O Estado de S. Paulo, foi um dos pilares da ditadura militar de 1964. A Folha ficou famosa por emprestar suas camionetes para a OBAN transportar gente a ser torturada. Nos últimos tempos, a Folha vinha tentando não mostrar muito apetite por um golpe branco no Brasil. Mas cachorro comedor de ovelha não tem jeito. No último domingo, o jornal de Otávio Frias Filho, num editorial intitulado “Última chance”, voltou às suas origens golpistas: pediu a renúncia da presidente Dilma Rousseff ou o corte de programas sociais: ”O país, contudo, não tem escolha. A presidente Dilma Rousseff tampouco: não lhe restará, caso se dobre sob o peso da crise, senão abandonar suas responsabilidades presidenciais e, eventualmente, o cargo que ocupa”.
Forçar um presidente eleito a renunciar em função da crise é uma forma de fazer o jogo de uma oposição incapaz de ter paciência para esperar a eleição seguinte. É a obsessão pelo atalho. A mídia brasileira não se contém mais. Empurra a própria oposição a ser mais radical. A Folha de S. Paulo elegeu o seu bode expiatório: “A contenção de despesas deve se concentrar em benefícios perdulários da Previdência, cujas regras estão em descompasso não só com a conjuntura mas também com a evolução demográfica nacional. Deve mirar ainda subsídios a setores específicos da economia e desembolsos para parte dos programas sociais”. É uma confissão. A corrupção, que grassa e deve ser combatida, tem sido um pretexto para atacar o que realmente incomoda, os “desembolsos para programas sociais”. Eis.
Para salvar a turma dos camarotes, o editorial da Folha defendeu sacrificar a educação e a saúde: “As circunstâncias dramáticas também demandam uma desobrigação parcial e temporária de gastos compulsórios em saúde e educação, que se acompanharia de criteriosa revisão desses dispêndios no futuro”. Numa tentativa pífia de mostrar-se equilibrada, a Folha dispensa uma linha para aumentos de impostos com novas alíquotas “sobre a renda dos privilegiados”. Nada sobre taxar grandes fortunas ou pesar a mão sobre os lucros dos bancos. Nas redes sociais, o pau comeu. Simultaneamente, no site da Folha, quem clicou no malfadado editorial passou a receber a seguinte mensagem: “Erro 404 Desculpe, página não encontrada. A página que você procura não existe nos servidores da Folha de S. Paulo”.
Hummm!
No jogo de banco imobiliário da política brasileira, a oposição quer aproveitar a crise para chegar logo ao poder. Se fosse mais séria, ajudaria a equilibrar o país agora e se cacifaria para ganhar o próximo pleito. Do ponto de vista econômico, trata-se de aproveitar a situação para voltar várias casas atrás anulando o melhor dos governos petistas, a consolidação e ampliação dos programas sociais. A direita passou anos dizendo que não havia mais esquerda e direita. Nos últimos meses, desmentiu-se totalmente. Nunca a dicotomia esquerda e direita foi tão forte no Brasil no século XXI. O PT não é esquerda?
Não. Mas o que fez de melhor, na mira da direita, era.
No passado, o PT fez discurso moralista e atrapalhou os negócios seculares.
Ninguém o perdoa por isso.
Depois, entrou nos eixos e passou a fazer como todos.
Se não tivesse prejudicado as transações do passado e não tivesse mania de programas sociais, teria sido perdoado, faria parte do clube como qualquer um e viveria tranquilamente no reino encantado da corrupção. Não é o seu presente que incomoda os seus adversários, mas o seu passado.
O PT mudou. Para pior.
Só a mídia não muda. Muitos menos para melhor.
Continua golpista.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Grandes jornais escondem Aécio de seus leitores

Julio Cortazar, em um de seus contos clássicos, conta a história da família em que morreu um membro. A avó não podia saber. Esconde-se sua morte. É verdade que ele é velado na sala da casa, enquanto alguém entretém a velhinha em outro cômodo. Mas dali por diante, ele teria que ser incluído nas conversas, como se estivesse vivo. Depois, morre mais um, e morre mais um. E todos recusam continuar vivos nas conversas.
Outro contista do fantástico latino-americano, não me lembro se Gabriel Garcia Marques, conta a história da moeda de ouro que caiu na porta de um bar. Como ninguém sabe quem perdeu a moeda, e pode ser o coronel local, a moeda permanece no mesmo lugar por anos a fio.
***
Em alguns momentos, o Brasil lembra o realismo fantástico das republiquetas latino-americanos.
Tem-se um cadáver na sala de estar da política: a declaração do doleiro Alberto Yousseff de que o senador Aécio Neves recebia US$ 150 mil mensais de Furnas, esquentados através da empresa Bauruense.
O Procurador Geral da República Rodrigo Janot fingiu que não ouviu. E esqueceu-se de que sua gaveta guarda um inquérito de 2010 do MPF do Rio de Janeiro, sobre uma conta fantasma de Aécio no paraiso fiscal de Liechenstein.
****
A notícia foi para o mundo inteiro através da Reuters Internacional. Notícia tão relevante que abriu a chamada das Top News do dia. Foi manchete do Clarin – o mais antikirchenista dos grupos de mídia argentinos.
Por aqui, nenhum grande jornal julgou que seus leitores mereciam saber do caso. Nâo saiu uma mísera linha sobre a delação.
Ontem, na sabatina de Janot no Senado, o assunto foi evitado em todas as intervenções, dos senadores da oposição e da situação. O sentimento de corpoi foi maior do que as disputas ideológicas. Ou, quem sabe, o medo de expor seus próprios podres tenha sido a razão de preservar os podres do colega.
***
Não é pouca coisa. Trata-se do candidato derrotado nas últimas eleições que recebeu quase 50% dos votos. É o nome favorito do PSDB para as próximas eleições.
Nos últimos meses, despontou como um carbonário, bradando em nome da ética e vociferando a palavra “honra” com o fervor de um monge beneditino exposto a alguma tentação demoníaca.
Hoje em dia, em qualquer setor responsável – no meio empresarial, intelectual, político nas próprias alas mais consequentes do PSDB – forma-se a convicção sobre a imaturidade e irresponsabilidade de Aécio.
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Onde se pretende chegar com essa blindagem, sonegando uma informação crucial em um terreno de ampla abertura das informações? Mais do que o fato em si, a blindagem viralizou – termo que se emprega quando algum tema explode nas redes sociais.
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Nesta 5a feira será divulgada a próxima etapa da campanha visando reforçar a imagem dos jornais. Diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional dos Jornais), Ricardo Pedreira, foi taxativo: “Enquanto a internet ainda sedia terrenos de informação obscura, os jornais colocam à disposição do leitor seu grande patrimônio: a credibilidade”.
Qual a sensação do leitor do grande jornal quando encontrar-se com o amigo que prefere a Internet, e souber por ele a notícia que só circulou na rede?
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Não se trata de questão menor. Quando Fernando Collor caiu, venceu no jogo da credibilidade o único jornal que nada escondeu sobre ele nas eleições.


Reprodução do Blog do Luís Nassif

terça-feira, 23 de junho de 2015

O poder discricionário da imprensa


O noticiário do fim de semana oferece aos estudiosos da mídia informativa um campo fértil para entender alguns dos dilemas da comunicação no nosso tempo. Para toda informação selecionada pelo sistema da imprensa hegemônica há uma contrainformação ou uma variedade de alternativas que podem oferecer interpretações diversas ou opostas ao que propõe a mídia tradicional. Então, por que predomina no imaginário da maioria a versão específica da imprensa?
Por exemplo, no caso da desastrada viagem de políticos brasileiros da oposição à Venezuela, a versão dos jornais, segundo a qual eles tiveram sua movimentação tolhida no caminho entre o aeroporto de Caracas e os endereços que pretendiam visitar, é colocada em dúvida por outras fontes, que dão conta de um trivial engarrafamento de tráfego. A insistência dos parlamentares em dizer que foram abandonados pelo embaixador brasileiro esbarra no esclarecimento de que o Itamaraty nunca lhes havia oferecido essa assistência.
Outro tema, o da possível rejeição de contas do governo federal por parte do Tribunal de Contas da União, se esvazia com a nota técnica pela qual o ex-secretário do Tesouro Arno Augustin se responsabiliza por operações tidas como irregulares, tira a presidente Dilma Rousseff da mira e a exime de ter que responder por manobras que melhoraram o resultado do balanço orçamentário de 2014.
Por outro lado, as acusações que levaram à prisão de executivos de duas das maiores empreiteiras do país, inclusive os presidentes das empresas, são colocadas em dúvida por esclarecimentos publicados pelo grupo Odebrecht em anúncio pago publicado nos jornais de segunda-feira (22/6).
Em cada um desses temas, que compõem a agenda proposta pela mídia tradicional e multiplicada no universo hipermediado das interações digitais, o único fator que consolida uma versão e marginaliza as demais é a escolha do editor. Por consequência, aquilo que o público em geral considera como verdade é apenas uma das possibilidades de cada evento noticiado, definida pelo viés da imprensa.
Ou alguém tem dúvida de que, se o empresário Marcelo Odebrecht estivesse sendo investigado por obras no metrô de São Paulo, ele estaria respondendo a um eventual processo em liberdade?
E mais: que esse assunto estaria enterrado, assim como outros casos de corrupção, como o escândalo da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano de São Paulo, que foi esquecido pela mídia?
Condenações a priori
As discussões sobre a condução de processos que ganham holofotes na imprensa são inconclusivas, não apenas porque o jornalismo declaratório reflete o interesse da mídia tradicional, mas também porque altera o poder discricionário dos investigadores e da Justiça.
Essa relação convergente entre o desejo do investigador e do julgador – de ver confirmadas suas suposições – e a oferta, pela mídia, de um aval para essas versões, cria uma lente que pode distorcer os fatos. Por isso, é interessante observar como a nota publicada pela Odebrecht (ver aqui), que ocupa meia página de jornal, insere uma quantidade considerável de dúvidas nas acusações que ocupam muitas páginas dos mesmos diários. No entanto, o que predomina no imaginário do público, com toda certeza, é a convicção de que a empresa não apenas está envolvida no esquema da Petrobras, como era o eixo principal do suposto cartel.
A imagem de um empresário poderoso algemado mexe com as emoções, e a imprensa sabe manipular esse “espírito da Bastilha”. Alguns teóricos da comunicação observam que a mídia tradicional ganha uma espécie de sobrevida justamente quando exerce o papel de ancorar alguns aspectos das múltiplas informações que formam o ambiente hipermediado. Essa é uma função diversa daquela tradicional, de mediar os fatos tidos como relevantes.
O jornal Valor Econômico contribui para o entendimento de como se dá essa ancoragem, na reportagem principal do caderno especial de fim de semana, sobre como o foco se transforma em artigo de luxo no ambiente saturado de informação.
Ao selecionar os elementos que serão inseridos na agenda pública, e definir a versão predominante dos fatos, a imprensa está exercendo um poder discricionário – de prender o foco do público em um aspecto específico de acontecimentos complexos.
A imagem dos empresários algemados significa uma condenação a priori. Nesse contexto, a liberdade de imprensa, exercida com um viés específico, se reverte em cerceamento de outras liberdades, como o direito de alguém demonstrar que está sendo injustamente acusado de um crime.
Ao contrário do que costumam dizer os representantes da mídia tradicional, o exercício discricionário desse poder atenta contra o direito à informação.

Reprodução de texto de Luciano Martins Costa no Observatório da Imprensa, via Jornal GGN.