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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Allende e os 40 anos do golpe militar no Chile

Em setembro, completaram-se 40 anos do golpe militar que derrubou no Chile o presidente socialista Salvador Allende. Interessante constatar como o 11 de setembro de 1973 --que dividiu o país em dois, temporal e simbolicamente-- foi lá celebrado.
Nunca antes a data tinha sido objeto de tantos eventos: programas de TV, livros, recitais, exposições, passeatas, missas, ações judiciais, ao longo e largo do país. O que está acontecendo? Uma resposta pode ser o ano eleitoral em curso no Chile, que confronta candidatas presidenciais com ideários exatamente opostos: Michelle Bachelet, socialista, e Evelyn Matthei, da direita, ambas filhas de generais, a primeira com o pai assassinado por não aderir ao golpe, a outra com um pai que integrou a junta militar golpista.
Mas esse dado não explica tudo: já tinham ocorrido aniversários do golpe em época eleitoral e não provocaram a ressonância deste.
O que tanto se rememora? Nos eventos, proliferaram atos de "perdão" às vítimas; documentários revelaram detalhes das atrocidades da ditadura; peças de teatro preocuparam-se em restituir a dignidade dos humilhados; debates buscaram a genealogia do mal; palestras revisitaram o socialismo; inúmeras foram as homenagens a Allende, nenhuma a Pinochet. Foi Pinochet esquecido? Não. Emergiu potente, mas para encarnar, como nunca antes, o contraexemplo, aquilo que nunca mais deveria acontecer.
Uma maldição para a direita e sua candidata presidencial, obrigadas a emitir sinais de mudanças: sua sobrevivência passaria por "despinochetizar-se", o que significaria colaborar na erradicação de entulhos autoritários como a Constituição de 1980, além de incluir em seu ideário, sem constrangimentos, a democracia e o respeito aos direitos humanos como valores permanentes.
E Allende? Allende, claro, sempre fora recordado com afeto pela esquerda, mas desta vez notou-se sua irrupção num espaço público mais amplo, aparecendo com vigor e dignidade. Reaparece cheio de ideias para dar, pautando até a atual agenda do mundo popular: a construção de uma sociedade mais justa e plural, mesmo tendo o socialismo desaparecido do vocabulário político.
As massas obstinadas que concorreram aos mil eventos foram as que Allende sempre amou: os trabalhadores, os estudantes, os intelectuais, as minorias, com participação quiçá hegemônica das novas gerações. Não fosse pelas lembranças oficiais no passado recente, poder-se-ia gritar ao vento que Allende, como uma fênix, renascera literalmente das cinzas, contaminando com seu discurso subversivo as novas gerações que teimam em repetir publicamente valores caros a ele: rebelar-se contra toda exploração, hoje associada ao neoliberalismo imposto pela ditadura.
Todo Chile pôde ouvir em setembro, agora pela boca de jovens, que "os processos sociais não se detêm nem com o crime nem com a força" e que "novamente se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor". Para remate, verdadeira penitência para a direita, ressoaria o eco queimante há muito cantado pelas massas politizadas, infladas de superioridade moral: "Se siente, se siente, Allende está presente".


Texto de Horácio Guriérrez, publicado na Folha de São Paulo. 

sábado, 14 de setembro de 2013

Jara, a morte do poeta e o triunfo da barbárie

Diz-se que a primeira vítima de uma ditadura é a verdade. É bem verdade que a verdade morre ao primeiro anúncio, o da justificativa de um golpe. A primeira vítima humana da ditadura chilena, implantada em 11 de setembro de 1973, foi o presidente eleito democraticamente Salvador Allende, que se matou depois de ter tentado ser fiel às verdades que defendera como candidato. A segunda vítima foi a democracia, assassinada com ajuda dos Estados Unidos. A terceira vítima foi o povo. Em seguida, os cadáveres se amontoaram no Estádio Chile. Uma vítima inesquecível foi Victor Jara, executado com 44 tiros quatro dias depois da entrada na escuridão.
Victor Jara era perigoso, assustador, temível. As ditadura da América do Sul sempre tiveram horror a esse tipo de gente, que trataram de eliminar. Um inimigo terrível capaz de desestabilizar um regime em poucos segundos. Filho de camponeses, andava sempre armado até os dentes. Cuspia projéteis. A sua arma letal era venenosa, sutil e sinuosa: a palavra. Mais especificamente, o verso. Absolutamente livre. Jara trocou o canto gregoriano do seminário pela canção popular.
O seu maior crime foi querer mudar este mundo.
Os poetas, aparentemente inúteis e inofensivos, podem afetar a ordem. Um país sem poetas tem mais chances de ser obediente. Correu o boato de que as mãos de Jara teriam sido cortadas por seus torturadores. Isso não aconteceu. Elas foram apenas esmagadas por coronhadas. Não eram as mãos do poeta que incomodavam os aliados de Pinochet, mas a língua, os pensamentos, a capacidade de formular versos contestadores, a ideologia. Daí a necessidade de matá-lo bem morto, com mais de quatro dezenas de balas. No estádio transformado em prisão, o poeta produziu o seu epitáfio, que marcou o nascimento da tragédia.
Cantou, antes de morrer, o horror ao vivo.
O Estádio Chile hoje se chama Estádio Victor Jara. Em 2009, chegou-se ao nome do militar que disparou o primeiro tiro, Pedro Barrientos. A família espera que um dia ele seja extraditado dos Estados Unidos para ser julgado. Quando os Estados Unidos pedirão desculpas a todos os países que mergulharam em ditaduras? Claro que não o farão, afinal continuam acreditando que foi pelo “nosso bem”. Em dezembro de 2012, a justiça chilena determinou que os sete militares envolvidos na execução de Jara sejam julgados. Quando o mesmo acontecerá com os torturadores brasileiros?
Até quando serão protegidos pelo STF, que impede a revisão da Lei da Anistia?
No estádio da sua morte, Jara escreveu: ¡Qué espanto produce el rostro del fascismo!/Llevan a cabo sus planes con precisión artera/sin importarles nada./La sangre para ellos son medallas./La matanza es un acto de heroísmo./¿Es este el mundo que creaste, Dios mío?”. A verdade continua sendo massacrada. Os defensores de Pinochet não se entregam. A ditadura teria valido a pena, transformando o Chile num exemplo de êxito econômico. A poesia, a vida e a democracia teriam sido apenas o preço exigido pela economia para colocar o Chile nos trilhos.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Livro conta dificuldades de fotógrafos para trabalhar no Chile de Pinochet

Livro conta dificuldades de fotógrafos para trabalhar no Chile de Pinochet
LÍGIA MESQUITADE BUENOS AIRES

Uma geração de fotógrafos se formou nas ruas do Chile após o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973. Esses profissionais, muitos deles autodidatas, saíam às ruas sob uma das piores ditaduras da América Latina para fazer fotografias de denúncia.
Com os 40 anos do golpe, completados ontem, muitos registros desse período estão sendo reunidos em livros. É o caso do recém-lançado "Chile 1973-1990 -- A Ditadura de Pinochet" (Lom Ediciones), de Alejando Hoppe, Claudio Pérez, Héctor López e Marcelo Montecino.
Uma das imagens presentes na obra é a que ilustra esta reportagem, de autoria de Claudio Pérez, 56.
"Fiz essa foto em 86, logo após uma manifestação. Um funcionário anão do Judiciário estava atravessando a rua na frente do contingente para ir ao trabalho. Era uma cena de Davi e Golias, com os carabineiros representando a ditadura, e o anão, o povo", conta Pérez à Folha.
Ele afirma que sua geração aprendeu a fotografar nas manifestações. "Tivemos que aguentar a dor, a pena, os sentimentos mais profundos durante o ato de fotografar", diz.
Pérez, que tinha 15 anos quando Pinochet tomou o poder, se autoexilou no Brasil em 1979. Viveu com amigos no Rio Grande do Sul, onde escrevia poemas e desenhava.
Em 1983, decidiu regressar a Santiago. "Vendo nos jornais brasileiros fotos dos protestos contra o regime, senti a necessidade de voltar ao meu país para documentar isso", diz.
Criou a credencial falsa de uma agência brasileira de fotografia que não existia e conseguiu autorização para trabalhar como correspondente.
"Na primeira vez que saí para fotografar, a polícia secreta me bateu e roubou meus negativos", lembra.
Ele diz que trabalhou com medo durante os sete anos em que cobriu manifestações. Mas, quando um colega de 19 anos foi preso e queimado vivo ao registrar um protesto na periferia de Santiago, passou a ter pânico.
"Mas algo me dizia que eu tinha que continuar para que coisas como essas não acontecessem mais."


Reprodução da Folha de São Paulo

Aniversário do golpe chileno abre debate sobre futuro do país

Aniversário do golpe chileno abre debate sobre futuro do país
A questão é se, após 40 anos, o Chile deixará para trás erros da ditadura
TANYA HARMERESPECIAL PARA A FOLHA

Alguns aniversários históricos importam mais que a maioria, e o 40º aniversário do golpe chileno está entre os que têm importância profunda. Para começar, é relevante para a política chilena contemporânea.
Com eleições presidenciais marcadas para 17 de novembro, o país se vê forçado a confrontar o passado enquanto escolhe o futuro.
As candidatas presidenciais entre as quais os chilenos podem escolher para fazer essa correlação são filhas de generais da Força Aérea que tomaram posições opostas em 11 de setembro de 1973.
De fato, ao optar por Evelyn Matthei --cujo pai apoiou entusiasticamente o golpe e muito provavelmente desempenhou papel direto na detenção e tortura do pai de Michelle Bachelet--, a direita chilena bizarramente fez de sua associação com o golpe, e com seu 40º aniversário, algo ainda mais pungente e óbvio do que poderia ter feito.
Os protestos de estudantes, trabalhadores, ambientalistas e mapuches (indígenas), desde 2011, também deram início a um diálogo muito mais amplo sobre o legado da ditadura para a identidade, a sociedade e a política do país, que está capturando o imaginário nacional.
Esse diálogo é o mais significativo debate nacional sobre o passado e o futuro do Chile que acontece desde a transição para a democracia.
A maneira pela qual ele se desenvolverá nos dois meses que faltam para a eleição é, portanto, profundamente importante. A educação do país, sua democracia, seu sistema de saúde, sua economia e o papel de seu governo dependem disso.
A questão que a eleição e o aniversário deste ano propõem, portanto, é a de se, 40 anos depois do golpe, o país está finalmente pronto para deixar para trás os mais perniciosos legados da ditadura, para corrigir os desequilíbrios de sua Constituição, para repensar a economia hiperliberal e para oferecer justiça àqueles que sofreram abusos no passado.
Aqueles que lideraram o golpe de 11 de setembro não queriam tão somente derrubar um governo; agiram para refazer e reformular toda a cultura e a sociedade do Chile, e, de muitas maneiras, obtiveram sucesso.
Quando os chilenos recordam o passado, hoje, a questão é em que medida eles estão preparados, passados 40 anos, para reverter esse sucesso e iniciar uma nova era.
É um debate que está consumindo a sociedade chilena e que certamente terá influência significativa sobre o futuro do país.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sangue ainda escorria quando cheguei para a cobertura do golpe contra Allende

Sangue ainda escorria quando cheguei para a cobertura do golpe contra Allende
Havia toque de recolher, primeiro a partir das 18h. Depois, das 20h. As noites eram intermináveis.
CLÓVIS ROSSICOLUNISTA DA FOLHA

Ainda havia filetes de sangue nas águas rasas do Mapocho, o riozinho que corta Santiago, quando cheguei ao Chile para cobrir o golpe que derrubou o presidente constitucional Salvador Allende Gossens.
Era 21 de setembro de 1973, porque, nos dez dias desde que foi dado o golpe, o Chile ficara fechado por terra, mar e ar para que os militares pudessem provocar o derramamento de sangue que manchou o Mapocho e espalhou-se por todo o Chile, "desde el salar, ardiente y mineral/al bosque austral", como diz a canção "El pueblo unido jamás será vencido" que o grupo folclórico Quilapayún cantava nos tempos em que o sangue ainda não corria.
Deu tempo também de ver ao vivo o que se tornaria uma foto que ficou famosa no mundo inteiro: a queima de livros que trazia à memória o nazismo alemão.
Via-se então que não apenas o passo de ganso característico dos militares chilenos os aproximava de seus congêneres de outros tempos na Alemanha.
Tornou-se obrigatório deixar um pouco de lado o profissionalismo para oferecer-me como muleta (inútil, logo se veria) a pais de brasileiros exilados no Chile e desaparecidos desde o golpe.
Acompanhava-os ao Estádio Nacional, transformado em campo de concentração e morte, no que acabava sendo uma tortura adicional à falta de notícias sobre os filhos.
Ninguém dava informações à porta do estádio e, na falta delas, os parentes dos presos trocavam os piores presságios e contavam as mais horríveis histórias, que, ao longo dos anos, acabaram se provando verdadeiras, terrivelmente verdadeiras.
Dizia-se, por exemplo, que o cantor e compositor Victor Jara, que era adepto declarado da Unidade Popular, a coligação que o golpe apeou do poder, tivera os dedos quebrados durante a tortura no estádio, para que nunca mais tocasse as canções que embalavam os sonhos da esquerda no poder.
Jara não morreu no Estádio Nacional de Santiago, mas foi torturado até a morte no Estádio Chile, outro campo de concentração.
É fácil para qualquer ser humano com um dedo de sensibilidade sentir o pavor de pais que, primeiro, haviam perdido seus filhos para o exílio, depois do golpe no Brasil, e agora viam fugir a perspectiva de revê-los ainda que massacrados, mas pelo menos vivos.
Havia toque de recolher, primeiro a partir das 18h. Depois, das 20h. Eu me hospedara no então Hotel Carrera Sheraton, atrás do Palácio de la Moneda em que Allende se matou.
As noites eram intermináveis, trancado no quarto.
Olhava pela janela, via os sinais do ataque da Força Aérea ao palácio, uma sombra na praça vazia.
Ninguém na rua.
O semáforo, no entanto, continuava mudando do verde para o amarelo, para o vermelho, para ninguém, salvo um ou outro veículo militar, enquanto ao longe se ouvia o "ratatá" das metralhadoras, porque, dia após dia, noite após noite, "están matando chilenos/ay que haremos/ay que haremos", como cantavam os Quilapayún.
Ninguém no Chile os ouvia.


Reprodução da Folha de São Paulo. 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Chile, 40 anos depois

Amanhã fará 40 anos que o Chile passou por um dos mais brutais golpes de Estado da história recente. País historicamente avesso a intervenções militares, o Chile era, até 11 de setembro de 1973, um dos mais inovadores laboratórios de transformação social do Ocidente.
Salvador Allende liderou um governo que procurava, ao mesmo tempo, superar índices vergonhosos de desigualdade econômica, enquanto aprofundava mecanismos de democracia direta e de respeito às estruturas da democracia parlamentar. Seu caminho era uma via inovadora entre as sociedades burocráticas do Leste Europeu e as dos países capitalistas.
Na verdade, tal caminho encarnava o medo mais profundo de países como os EUA em plena Guerra Fria. Tratava-se do medo de uma experiência capaz de aproximar práticas socialistas de redistribuição de riquezas com uma democracia pluripartidária.
Por isso, Salvador Allende foi vítima de um conjunto de ações de sabotagem econômica e de criação de clima de instabilidade política que mereceriam levar Henry Kissinger, então secretário de Estado norte-americano e hoje saudado como grande diplomata, ao banco dos réus do Tribunal Penal Internacional. Tais ações encontram-se fartamente registradas em documentos norte-americanos que passaram, nos últimos anos, ao domínio público.
Mesmo sendo vítima dessa política covarde, os votos aos partidos da base de Allende cresceram nas eleições legislativas de 1973, o que redundou em aumento da participação parlamentar. Estava claro que a única saída para derrubá-lo seria o golpe.
Alguns gostam de relativizar o período Pinochet, apelando para a falácia de que, apesar da ditadura, foi um momento de crescimento econômico e riqueza. Eles procuram esconder que, entre 1950 e 1971, o PIB chileno cresceu, em média, 2% ao ano. Já entre 1972 e 1983, ele recuou (sim, recuou) 1,1%. Foi apenas nos últimos cinco anos, com o comando econômico de Hernán Büchi, que o governo Pinochet conseguiu recuperar-se parcialmente desse abismo.
Mesmo assim, em 1970, a relação entre o PIB por habitante do Chile e o dos EUA era de 35,1%. Em 1992, esse mesmo índice era de 33,6%. O mínimo que se pode dizer é que os liberais latino-americanos têm uma concepção bastante peculiar do que devemos entender por "sucesso".
Hoje, com os chilenos voltando a descobrir a força das ruas, que redundou em manifestações populares massivas por serviços públicos de qualidade, e prestes a despachar o impopular único governo direitista de sua história recente, pode-se dizer que a experiência de Allende não foi em vão.


Texto de Vladimir Safatle, na Folha de São Paulo. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

Linha-dura e esquerdista moderada polarizam o Chile

Linha-dura e esquerdista moderada polarizam o Chile
Ultraconservador Longueira e socialista Bachelet venceram primárias
Apesar de país ter bons índices de crescimento, governo terá problemas na eleição presidencial marcada para novembro
SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRES

Um modelo de esquerda latino-americana moderada e o discurso do crescimento econômico devem ser as principais bandeiras polarizadoras de votos nas próximas eleições chilenas, segundo analistas.
Depois da vitória de Michelle Bachelet, da Concertação, nas primárias do último domingo, com 73% dos votos, e da consolidação da candidatura do ultraconservador Pablo Longueira (UDI), pela direita, o debate sobre os dois modelos a serem seguidos pelo Chile depois do pleito de novembro deve causar um racha nos partidos menores.
"Há uma radicalização à esquerda por parte de Bachelet, que terá de ser habilidosa para chamar o voto tanto da democracia cristã quanto dos socialistas", diz o analista político Guillermo Hollzman.
Já Longueira representa a escolha mais à direita possível entre os candidatos conservadores, tendo ganhado, inclusive, do preferido do presidente Sebastián Piñera, Andrés Allamande.
"O prestígio do presidente está em baixa, e com isso o lugar que seria ocupado por um sucessor seu acaba sendo tomado por alguém que promete o mesmo desempenho econômico, mas linha mais dura com relação à segurança e à administração de crises", diz Fernando García-Naddaf, da Universidade Diego Portales.
Durante a gestão Piñera, o Chile alcançou invejáveis índices, com um crescimento de 4% e taxas de desemprego caindo consideravelmente. Tal desempenho, porém, não garantiu popularidade nem continuidade a Piñera, que hoje tem menos de 30% de aprovação popular.
Naddaf chama a atenção para o desempenho do candidato independente Marcel Claude, do partido Humanista. Com um discurso que pretende abarcar o clamor das ruas, Claude tem ganhado a preferência dos jovens e estudantes que desde 2011 têm saído às ruas por melhores condições de acesso à educação.
"É um azarão, correrá por fora, mas tem como roubar votos a Bachelet e fazer a crítica à sua atuação por meio da própria esquerda", diz Naddaf.
Quanto à estratégia da ex-presidente, o estudioso diz que tem buscado um modelo que seja uma combinação dos discursos de Rafael Correa e de Dilma Rousseff. "A identificação com uma esquerda mais responsável representada pela presidente do Brasil ela já possuía. Agora, quer atingir a nova classe média, mais ou menos o mesmo eleitorado que segura, no Equador, a gestão Correa", resume.
O Brasil, acrescenta, vem sendo modelo também para as recentes manifestações que ganharam as ruas de Santiago às vésperas da votação de domingo. "Causou muito boa impressão o fato de que Dilma apressou-se a fazer anúncios depois dos protestos", conclui Naddaf.


Reprodução da Folha de São Paulo. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Polícia expulsa ativistas de escolas no Chile


Polícia expulsa ativistas de escolas no Chile
Manifestantes ocupavam colégios onde haverá eleições primárias; 122 foram detidos

A polícia chilena retirou ontem os estudantes que ocupavam 21 colégios da capital, Santiago. As escolas servirão no próximo domingo como locais de votação para as primárias das eleições presidenciais do Chile.
Os manifestantes, que se mobilizaram anteontem pedindo reformas na educação, disseram que não voltariam a ocupar prédios públicos até as primárias.
"Os violentos não vão prevalecer. Vamos proteger melhor o patrimônio público, que é permanentemente destruído por esses delinquentes", disse o presidente Sebastián Piñera.
Ele pediu ao Congresso rapidez na aprovação de medidas que darão mais poder aos Carabineros (polícia) para diluir os protestos.
Segundo o governo, a maioria das expulsões na capital ocorreu de forma pacífica, apesar de 122 pessoas terem sido presas e de um policial ter ficado ferido.
Ontem, houve novos confrontos entre jovens e a polícia durante manifestações que levaram milhares de pessoas às ruas de Santiago e de Concepción, no sul do país.
A tensão social no Chile aumentou com a perspectiva da votação do próximo domingo, na qual os partidos escolherão os candidatos para as eleições de novembro.
A favorita, por ora, é a ex-presidente Michelle Bachelet, da centro-esquerdista Concertação. 


Reportagem da Folha de São Paulo. 

domingo, 10 de março de 2013

Brasil sustentou ditadura chilena

Fedeu!
Era certo que a abertura dos arquivos da nossa ditadura verde-oliva faria estragos na autoimagem dos nossos golpistas cívicos e teimosos.
Matéria da Folha de S. Paulo diz:
“Documentos secretos do gabinete dos ex-ministros das Relações Exteriores revelam que a ditadura brasileira (1964-1985) deu uma ajuda financeira de US$ 115 milhões à ditadura chilena do general Augusto Pinochet, que assumiu o poder após golpe de Estado no Chile, em 1973. O dinheiro foi enviado em três parcelas para aquisição de equipamentos militares. Relatório considerado “secreto” e “urgente”, em 26 de outubro de 1976, afirma que o Brasil prestava “importante ajuda”, inclusive financeira, ao governo Pinochet. O empréstimo foi feito a juros camaradas, que podiam ser pagos em até dez anos, em prestações semestrais. Em valores atualizados, o valor corresponderia a R$ 1,3 bilhão”.
O Brasil foi a Cuba da ditadura chilena.
O Brasil foi os Estados Unidos de Pinochet.
O Brasil foi a União Soviética do pinochetismo.
Financiou o fascismo do vizinho.
Colaborou generosamente para a compra de equipamentos que serviram à tortura, ao extermínio de opositores e aos interesses de um ditador.
Vem mais coisa por aí.
A solidariedade entre ditaduras é comovente.
Faz pensar em parasitas unidos para devorar uma presa.
Tudo, claro, acima de ideologias.
Que ideologia é coisa de esquerda.
 
 
 
 Do blog do Juremir Machado da Silva.
D

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Embaixador brasileiro era amigo de Pinochet


Embaixador brasileiro era amigo de Pinochet

DE BRASÍLIA

Os telegramas confidenciais produzidos pela Embaixada do Brasil em Santiago demonstram a afinidade do embaixador Antônio Cândido da Câmara Canto (1911-1977) com figuras proeminentes da ditadura de Pinochet, a começar pelo líder do golpe de 1973.
Canto cita como seus interlocutores frequentes "militares amigos meus". Ofereceu jantares aos membros da Junta Militar, num dos quais Pinochet elogiou a "tradicional amizade" entre Brasil e Chile e disse que os dois países estavam empenhados numa "luta intransigente" contra "o comunismo" no mundo.
O embaixador tornou parte de sua rotina a consulta a autoridades de segurança e militares sobre o passado "político-ideológico" de cidadãos chilenos que se candidatavam a um visto permanente no Brasil ou a um emprego em empresas estatais brasileiras, como era o caso então da Vale do Rio Doce.
Com base nas informações dos chilenos, o embaixador algumas vezes chegou a orientar o Itamaraty a recusar os vistos.
Antes do golpe, Canto fez diversas críticas ao governo de Salvador Allende, presidente que morreu no golpe que o derrubou.
O embaixador protestou várias vezes junto ao governo Allende contra programas da TV estatal que traziam denúncias de torturas contra presos políticos no Brasil.
O embaixador pedia que os programas não fossem reprisados e outras "providências" contra os responsáveis pela emissora.
Quando Canto deixou o cargo, em 1975, recebeu "homenagens" de membros da Junta Militar" e um jantar de despedida oferecido por Pinochet.
Ao saber, o Itamaraty escreveu ao embaixador e disse que era "a perfeita medida do êxito da missão de Vossa Excelência". (RV E JCM)

Complemento do texto anterior, também da Folha de São Paulo, de 12 de dezembro de 2011.

Brasil financiou a ditadura de Pinochet


Brasil financiou a ditadura de Pinochet

Telegramas revelam que Brasil deu amplo apoio financeiro e diplomático aos primeiros anos do governo chileno
Em contrapartida, o Chile deu seu apoio a inúmeros candidatos brasileiros a cargos em órgãos internacionais

RUBENS VALENTE
JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DE BRASÍLIA

O Brasil forneceu um amplo suporte econômico e diplomático aos primeiros anos da ditadura do general Augusto Pinochet no Chile.
É o que revela uma série de 266 telegramas confidenciais produzidos por diplomatas brasileiros entre 1973 e 1976.
Os telegramas sigilosos foram enviados e recebidos pela Embaixada do Brasil em Santiago do Chile e liberados pelo Itamaraty à Folha, que os divulga no site do projeto "Folha Transparência".
Os documentos indicam que a ajuda brasileira veio logo após o golpe liderado por Pinochet (1915-2006) em 11 de setembro de 1973.
Em novembro daquele ano, o Brasil, também governado por um ditador, Emílio Médici (1905-1985), liberou US$ 50 milhões ao Banco Central chileno para estimular exportações.
O socorro veio a pedido do Chile, que disse, por meio da chancelaria, se encontrar em "grave situação".
O Brasil abriu linhas de financiamento na Cacex, a Carteira de Crédito para Exportação do Banco do Brasil, para empresários interessados em vender para o Chile, estimulou a venda de açúcar, ônibus, caminhões e fragatas e acelerou a aquisição de cobre das jazidas chilenas.
De tal forma que passou, em 1976, ao posto de maior comprador externo de cobre, desbancando a Alemanha.
"É momento de concentrarmos aqui nossas compras de cobre. Isso nos dará aqui uma influência e uma expressão desvinculadas de quem governe o país", orientou o embaixador brasileiro.
No campo diplomático, o Brasil, a pedido da Junta Militar chilena, ocupou o status oficial de "protetor dos interesses do Chile" no México, na Polônia e na Iugoslávia.
Como esses países condenaram o golpe chileno, o Brasil assumiu a tarefa de representar o regime de Pinochet desde negociar a chegada de presos políticos a quitar compromissos do serviço diplomático.
TROCA DE FAVORES
Os telegramas também revelam o socorro que o Brasil deu ao Chile durante discussões na Organização dos Estados Americanos a propósito da situação dos direitos humanos no Chile -relatório de agosto contou 3.225 mortos ou desaparecidos políticos.
Nos foros internacionais, a diplomacia brasileira se absteve ou votou com o Chile em resoluções que pudessem constranger Pinochet.
"O projeto inicial bastante forte de moção condenatória do governo chileno foi 'aguado' por iniciativa das delegações brasileira e argentina", diz um telegrama de 1975 sobre sessão no Parlamento Latino-Americano.
Em contrapartida, Chile apoiou inúmeros candidatos brasileiros a cargos em organismos internacionais.
Os telegramas descrevem ainda como o Brasil operou para financiar aquisição, pelo Chile, de um sistema completo de comunicações para a Interpol do Chile, cujo objetivo é capturar foragidos da Justiça de outros países.
Documentos liberados pelos EUA dizem que uma das principais ajudas do Brasil à Operação Condor, um plano dos países latino-americanos para eliminar opositores políticos, foi montar uma rede de telecomunicações.