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sábado, 18 de junho de 2016

Bela, recatada e do lar

Aos que vivem dentro das muralhas que protegem o Norte, pode parecer que nos tornamos de vez um país de selvagens. Anátemas no governo eleito, agora há grande tolerância com o deficit elevado, o índice inflacionário do mês passado, os reajustes no salário de magistrados e mesmo com as pedaladas fiscais, hoje consideradas uma forma legítima de redução da dívida. A ausência de qualquer proposta para a retomada do crescimento não desafina o coro dos contentes.
O livro "A Nova Razão do Mundo", dos franceses Christian Laval e Pierre Dardot, recém-lançado pela Boitempo, nos ajuda a entender o fenômeno. O neoliberalismo não seria uma doutrina econômica, e sim um instrumento de desativação do jogo democrático. Já dizia Margaret Thatcher –referência da presidente interina do BNDES: "A economia é o método. O objetivo é mudar a alma".
A teoria econômica vem se mostrando bem-sucedida em evitar as consequências de uma radicalização da democracia pela conquista de direitos e cidadania. A solução, sob o véu da técnica, é criar outra forma de sujeição. A liberdade menor é travestida de liberdade maior. Vende-se a ideia de que a falta de liberdade deriva da submissão a um sujeito para o qual a sociedade não deve nada: o Estado. Uma doutrina que promete a liberdade de escolha, mas é vendida sempre sob o slogan da falta de alternativas.
E aquele Estado, potencial garantidor das demandas dessa mesma sociedade por mais proteção social, melhores serviços e maior igualdade de tratamento, torna-se um inimigo. Não só no discurso mas também na prática, pois a tal doutrina econômica encarrega-se de mantê-lo sob o controle das oligarquias.
Friedrich Hayek, em sua visita ao Chile de Pinochet, não hesitou em deixar clara a sua preferência por "uma ditadura liberal, em vez de um governo democrático desprovido de liberalismo". Hayek, aliás, esteve presente –com Ludwig Von Mises– na reunião de 1938 em Paris que cunhou o termo "neoliberalismo", em uma reação ao que ambos enxergavam como uma ameaça quase tão perigosa quanto o nazismo e o comunismo: o surgimento da social-democracia, aquela do New Deal de Roosevelt e do incipiente Estado de Bem-Estar Social britânico.
Mas foi nas crises que a agenda ganhou mais terreno. Afinal, seus teóricos costumam aproveitar-se da distração da população para impor políticas impopulares, como documentou Naomi Klein em seu livro "A Doutrina do Choque". Tendo aprendido bem com o golpe chileno, Milton Friedman chega a descrever o furacão Katrina como uma "oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional de Nova Orleans". A maior parte do sistema de ensino público da cidade foi privatizada em 19 meses.
A crise econômica brasileira também se mostrou uma oportunidade de ouro para bloquear agendas democráticas crescentes –das mulheres, dos movimentos sociais, das minorias e da juventude– e viabilizar uma agenda ideológica de redução do tamanho do Estado.
A economia então sai de cena, estúpido, com o dever cumprido. Já pode descansar nestas últimas páginas de jornal, onde continuará a receber com pompa seus amigos de longa data. Sai das ruas para voltar a ser bela, recatada e do lar.


Texto de Laura Carvalho, na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Grécia não chega a acordo e aumenta risco de calote na zona do euro


Grécia não chega a acordo e aumenta risco de calote na zona do euro


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Com acordo distante, Grécia diz ter sido pilhada por credores

Com acordo distante, Grécia diz ter sido pilhada por credores

Impasse em negociação da dívida grega faz Bolsas recuarem pelo mundo; no Brasil, Ibovespa caiu 0,4%
Reunião de ministros da zona do euro na quinta é vista como última chance para um acerto ser obtido
DE SÃO PAULO

O principal índice de ações da Bolsa brasileira fechou em queda, acompanhando o mau humor dos mercados internacionais, diante do impasse para um acordo entre Grécia e seus credores.
O Ibovespa perdeu 0,39%, para 53.137 pontos. Os mercados de ações da Europa tiveram baixa de mais de 1%. Nos EUA, as Bolsas de Nova York recuaram entre 0,4% e 0,6%.
A Grécia e as instituições que representam os seus credores não conseguiram chegar a um acordo no domingo (14) para que o país possa receber mais ajuda financeira em troca de reformas até o fim do mês, quando poderá dar um calote da dívida se não conseguir novos fundos.
O primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, ignorou pedidos de líderes europeus para agir rapidamente. Em vez disso, ele culpou credores pelo rompimento no domingo das conversas de reformas em troca de recursos.
Tsipras acusou os credores gregos (FMI e União Europeia) de pilhar os país nos últimos anos e disse que não vai ceder às suas exigências.
A declaração foi interpretada entre as autoridades europeias como um sinal de que está cada mais difícil chegar a um acordo que impeça a saída grega da UE.
Os ministros das Finanças da zona do euro se reúnem nesta quinta-feira (18), em encontro que é visto como a última oportunidade para um acordo ser fechado.
Atenas tem apenas duas semanas para encontrar um modo de sair do impasse antes de se ver diante de um pagamento de € 1,6 bilhão ao FMI, potencialmente deixando o país sem dinheiro, sem poder tomar empréstimos.
Na reunião de domingo, os gregos e a Comissão Europeia chegaram a um acordo sobre as metas de superavit primário (economia para pagar juros da dívida) neste ano e em 2016, porém houve divergências sobre as estratégias para atingir a meta.
Além disso, o governo grego deixou claro que não vai acertar cortes nos gastos com Previdência do país nem mudanças propostas no sistema tributário para ampliar a arrecadação. A posição de Atenas fez os negociadores do FMI abandonarem o país europeu na semana passada, porque não houve avanços para um possível acordo.
"Estamos defendendo a dignidade de nosso povo e as aspirações de todos os europeus. Não podemos ignorar essa responsabilidade. Não é uma questão de teimosia ideológica, tem a ver com democracia", disse Tsipras.
Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), disse a um comitê do Parlamento Europeu que, embora todas as partes envolvidas nas negociações precisassem "se esforçar além do limite", a bola estava "claramente no campo do governo grego", que precisa agir se deseja garantir um acordo.

EFEITOS

Um calote no FMI teria consequências profundas. O Banco Central Europeu provavelmente teria que parar de conceder empréstimos de emergência a bancos gregos, que sofreram enormes retiradas de poupadores.
Atenas, então, provavelmente terá que responder com controles de capital, reduzir saques de depósitos e pagamentos no exterior, em uma série de eventos que colocaria o futuro da Grécia no euro em grave perigo.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Protestos contra o governo param Bancoc

Protestos contra o governo param Bancoc
Na Tailândia, dezenas de milhares vão às ruas da capital para pedir renúncia de premiê
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Mais de 100 mil manifestantes pararam o centro de Bancoc ontem para exigir a renúncia da primeira-ministra da Tailândia, Yingluck Shinawatra. Os protestos aconteceram no dia seguinte ao anúncio feito pelo principal partido de oposição de boicote às eleições gerais, marcadas para fevereiro.
Os manifestantes começaram a se concentrar na noite de anteontem em 15 pontos estratégicos da capital. Ao menos mil pessoas se reuniram no entorno da residência da premiê, que está no nordeste do país, região favorável ao Puea Thai, seu partido.
Ao som de apitos (um símbolo das manifestações nas últimas semanas), as pessoas gritavam "Yingluck, saia daqui", observadas por dezenas de policiais armados.
A chefe de governo anunciou no início do mês a antecipação das eleições, depois de várias semanas de crise política e da demissão em massa de deputados da oposição.
"Se não se aceita o governo, que ao menos se aceite o sistema", disse Yingluck sobre o boicote às eleições.
Os manifestantes acusam a primeira-ministra de ser "um fantoche" do irmão Thaksin Shinawatra, ex-chefe de governo deposto em 2006 por um golpe de Estado e acusado de corrupção. Além de pedir a renúncia da premiê, eles querem a substituição do governo por um "conselho popular" até a realização de um novo pleito.
Um novo protesto foi anunciado para hoje, rumo aos escritórios governamentais, para impedir o início do registro de candidatos e partidos para as eleições.


Reprodução da Folha de São Paulo


Comentário rápido: A Tailândia parece a "república liberal" do Brasil (1946-1964), onde a oposição não possuía votos, mas não queria que quem ganhasse a eleição governasse.


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Após anunciar demissões, Grécia veta protestos

Após anunciar demissões, Grécia veta protestos
Objetivo foi evitar manifestações contra ministro alemão das Finanças em visita a Atenas
DE LONDRES

O governo da Grécia mobilizou ontem 4.000 policiais e proibiu manifestações no centro de Atenas após a aprovação de um novo pacote de medidas de austeridade.
Na madrugada, o Parlamento deu aval a uma proposta que abre caminho para a demissão de 15 mil servidores até o ano que vem.
Outros 12.500, incluindo professores da rede pública, serão colocados numa reserva de mão de obra com salários reduzidos e também podem perder os empregos.
As medidas foram combinadas entre o governo de centro-direita do premiê Antonis Samaras e a troika integrada pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo FMI (Fundo Monetário Internacional).
Em troca, a Grécia continuará a receber socorro financeiro para evitar o calote de sua dívida pública. A próxima parcela do resgate, liberada mediante os novos cortes, equivale a R$ 20 bilhões.
"Entendo perfeitamente as dificuldades que o governo grego está passando durante esta crise. Mas o caminho que escolhemos está correto", disse o ministro das Finanças, Yannis Stournaras.
A proposta foi aprovada com maioria apertada: 153 votos de 300. Do lado de fora do Parlamento, milhares de manifestantes protestaram.

BLINDAGEM

Ontem o governo proibiu a realização de novos protestos no centro de Atenas. O objetivo era blindar a visita do ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble.
O representante da chanceler Angela Merkel elogiou a aprovação dos novos cortes, mas indicou que não aceitará novos pedidos de renegociação da dívida.
"Meu conselho é para não continuarem com essa discussão. Temos que nos ater ao que foi alcançado."
O veto aos protestos foi atacado pela oposição de esquerda, que defende o fim das políticas de austeridade e espalhou faixas contra a presença do ministro.
"Isso é uma ação fascista e antidemocrática. É inconcebível que aconteça numa cidade europeia", criticou Panos Skourletis, porta-voz do partido de esquerda Syriza.

Reprodução da Folha de São Paulo

domingo, 26 de maio de 2013

Em Portugal, cortes criam fenômeno da pobreza instantânea


Em uma sala vaga nas garagens da empresa de ônibus de Lisboa, a comissão de trabalhadores arranjou aleatoriamente o básico: litros de leite, latas de sardinhas, pacotes de salsichas, potes de feijão-branco, macarrão e várias dezenas de pacotes cilíndricos de biscoitos, empilhados como troncos em uma serraria.
Há meses, os condutores de ônibus e de bondes de Lisboa doam e armazenam alimentos, não para associações de pobres ou campanhas beneficentes de bairros da periferia. Isto é mais simples e mais brutal: são para eles mesmos, para companheiros que, apesar de terem trabalho e um salário mensal, passam fome no fim do mês.
Os constantes cortes salariais que afetam sobretudo funcionários públicos em Portugal, os aumentos de impostos decretados a toda a população assalariada e a política de ajustes permanentes do governo do conservador Pedro Passos Coelho (pressionado pela troica), que corrói continuamente o país, faz que a imensa maioria desses trabalhadores - funcionários públicos, afinal - vão ao limite em seus gastos, alcançando o dia 31 do mês quase por milagre.

Em um flash

Assim, basta um revés qualquer, há alguns anos contornável (um divórcio, o desemprego do cônjuge, uma série de gastos imprevistos...), para se transformarem diretamente em pobres. Um exemplo de como a tateante classe média portuguesa se torna classe miserável de um dia para o outro, sem escalas intermediárias. Como no caso de Evaristo.
Evaristo Paulo é magro, alto, amável. Tem 38 anos, veste uma jaqueta preta de couro e trabalha como motorista de ônibus em Lisboa, oito horas por dia, cinco dias por semana. Usa o cabelo curto e um brinco na orelha. Tem uma filha de 6 anos. Um homem normal.
Há algumas semanas, sua chefe alertou a comissão de trabalhadores para lhes informar simplesmente que Evaristo passava fome e que deviam ajudá-lo, que talvez por desconhecimento ou por vergonha não havia procurado a sala dos pacotes de espaguete.
Há dois anos, Evaristo, que desde 2007 está na folha de pagamentos da companhia de ônibus de Lisboa, dependente diretamente do Estado, ganhava 1.100 euros por mês. Agora, devido às reduções salariais, não chega a 800. Divorciado, paga uma pensão e a cada 15 dias visita sua filha, que vive com a mãe em uma cidade situada a 150 km de Lisboa.
"Prefiro ficar sem comer do que sem gasolina para fazer essa viagem", explica. Um dos membros dessa comissão, Paulo Gonçalves, entrou em contato com ele. Desde então, quando Evaristo precisa, vai à sala da comida. Como muitos outros.
Gonçalves explica que implementaram o banco de alimentos no Natal, porque começaram a perceber que muitos companheiros estavam passando mal. "Há quem tenha mulher desempregada, sem receber auxílio-desemprego porque não tinha contrato, muitas trabalhavam em restaurantes que fecharam ou em lojas que não dão mais benefícios. Sei de cônjuges de companheiros que foram demitidos por uma mensagem de celular. As coisas estão assim", explica.
Desde o Natal já atenderam mais de 80 companheiros, em uma turma de cerca de 2 mil trabalhadores. Com uma caminhonete, cada semana um par de membros da comissão percorre diversas estações e garagens onde outros companheiros deixaram os alimentos, a fim de reuni-los todos nesta sala situada no bairro de Santo Amaro, perto do início da ponte 25 de Abril.

De 1.200 a zero

Os condutores, como todos os funcionários públicos portugueses, viram se volatilizar por decreto um de seus dois pagamentos extras anuais, e outro diluir-se em pagamentos mensais que por sua vez desapareceram devido aos impostos. Também foram eliminadas gratificações e complementos. O resultado é uma perda média de 300 a 400 euros por mês em salários mensais de 1 mil a 1.200 euros.
Há dois meses o Tribunal Constitucional português ditou que os pagamentos extras não podiam ser retirados e agora o governo estuda como aplicar a sentença enquanto se arbitram novas medidas alternativas para que a mudança não represente um empecilho no caminho draconiano para a meta de déficit definido pela Europa.
Nem Evaristo nem Gonçalves confiam muito em que lhes devolverão seu pagamento extra. Têm certeza de que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, encontrará outra fórmula jurídica para que esse dinheiro jamais chegue a seus bolsos. Passos Coelho também anunciou uma nova onda de cortes, que durarão três anos e afetarão, sobretudo, funcionários públicos e aposentados.
De modo que esses condutores, que sentem saudade de um passado remoto de condições trabalhistas toleráveis, abominam um presente de pesadelo e temem cada dia mais um futuro imprevisível.
Enquanto isso, acumulam latas e víveres não perecíveis na sala desocupada das garagens, sabendo que a loteria da má sorte e a desgraça que coube agora a Evaristo pode tocar amanhã qualquer outro.
"Às vezes levamos comida para a casa de alguém porque tem vergonha de que os outros companheiros os vejam pedir. Outros vêm aqui com suas mulheres e seus filhos, e isso nos parte o coração", conta Gonçalves.
Depois acrescenta, ao lado de uma pilha de latas de atum:
"Se trabalhando normalmente não dá para viver com um pouco de dignidade, então diga-me: o que estamos fazendo aqui?"
Reportagem de Anotonio Jiménez Barca, para o El País, reproduzida no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mal-estar que aflige Europa ameaça se estender ao norte


Nenhuma empresa simboliza tão bem o poderio industrial alemão quanto a Daimler, fabricante dos automóveis e caminhões Mercedes-Benz. Por isso, quando a companhia disse no final de abril que finalmente também foi apanhada pelo redemoinho da crise econômica europeia, foi um sinal sombrio para todo o continente, ou mesmo o mundo.
Os exportadores alemães como a Daimler têm sido bastiões de estabilidade em um continente sufocado por bancos abalados, governos disfuncionais e legiões de jovens desempregados -para não falar na pior crise da indústria automobilística nos últimos 20 anos. A sombria previsão da Daimler para 2013 foi a última evidência de que a Alemanha e outros países relativamente saudáveis, como Áustria e Finlândia, correm o risco de cair na recessão que aflige seus vizinhos ao sul.
A desaceleração na Alemanha já era sugerida pelos meses de declínio da produção industrial, disse Carl B. Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics em Valhalla, Nova York.
"A União Europeia tornou a Europa uma economia muito mais coesa, o que é bom quando as coisas estão subindo", disse. "Mas quando as coisas estão descendo o multiplicador é muito forte. Uma maré vazante faz todos os navios baixarem."
Com apenas mais um trimestre consecutivo de queda da produção econômica, a Alemanha entraria oficialmente em recessão. O mesmo vale para Bélgica, França, Luxemburgo, Áustria e até Suécia e Finlândia. A Holanda já sofreu dois trimestres de declínio.
Novas evidências de que a recessão europeia se expande surgiram em março, quando se registrou novo aumento do índice de desemprego na zona do euro, atingindo o recorde de 12,1%. A taxa de desemprego subiu 0,1% em relação a fevereiro, quando foi anotado o recorde anterior, segundo a Eurostat, agência de estatísticas da UE, em Luxemburgo. Um ano antes, o índice era de 11%.
Dois países estão vacilantes, com um desemprego em nível de depressão: a Grécia teve um índice de 27,2% em janeiro, o último mês para o qual há dados disponíveis; e a Espanha registrou 26,7% em março.
"A realidade é que a Europa ainda enfrenta graves vulnerabilidades que -se não forem atacadas- poderão degenerar em um cenário de estagnação", disse David Lipton, vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional.
A Alemanha e os outros 26 países da UE representam a segunda maior economia do mundo, e o bloco é o maior parceiro comercial dos Estados Unidos. Um novo atraso na recuperação europeia causado por uma recessão na Alemanha prejudicaria seriamente o crescimento nos EUA, Ásia e América Latina.
O crescimento que resta na região vem principalmente de países da Europa do Leste. A Polônia é protegida por seu grande mercado interno e um sistema bancário saudável. Depois de uma severa recessão que começou em 2008, o crescimento está se recuperando nos países Bálticos (Estônia, Lituânia e Letônia).
Um fato positivo é que essas economias, com exceção da Estônia, não usam o euro como moeda. Elas podem ajustar mais facilmente suas moedas às mudanças de condições econômicas.
Na Alemanha, pesquisas mostram que as empresas estão ficando pessimistas. "O mercado alemão não pode se desligar de seu ambiente", disse para analistas o diretor financeiro da Daimler, Bodo K. Uebber.
O problema para o resto da Europa é que qualquer esperança de recuperação se sustenta em uma economia alemã robusta. Empresas da Espanha e da Itália dependem da demanda alemã para compensar a queda dos gastos dos consumidores em seus países.
"Em minha área há algumas empresas que trabalham 100% para atender à Alemanha", disse Mario Moretti Polegato, fundador e executivo-chefe da Geox, um fabricante de calçados em Montebelluna, Itália, perto de Veneza.
Enquanto a situação econômica piorava, o Banco Central Europeu cortou em 2 de maio sua taxa de referência de 0,75% para um recorde de 0,5%, como se esperava. Mas continuou contrário a empregar armas mais poderosas que, segundo muitos economistas, são necessárias para dar um empurrão na economia do continente.
É improvável que o corte de juros afete um problema mais fundamental na zona do euro: a falta de crédito nos países que mais necessitam. Enquanto isso, empresas italianas como a fabricante de pneus Pirelli cortam empregos na Europa e investem na Ásia e outros mercados.
Polegato disse acreditar que a criatividade e o design italianos acabarão vencendo. Mas ele parecia menos seguro sobre as perspectivas de um governo melhor. "Muitos políticos italianos não têm tato para a economia real ou os negócios", ele disse.


Cortes no ensino revoltam portugueses


Miguel Reis era um dos vulneráveis. Como a maioria dos cerca de 15 mil professores de escolas públicas demitidos em Portugal nos últimos dois anos, ele trabalhava sob um contrato de curto prazo. Isso o transformou em um alvo fácil quando o governo teve de cortar gastos. Há seis meses, Reis perdeu o emprego.
Revoltado e desempregado, aderiu a um grupo de protesto voltado diretamente para o trio de credores internacionais que socorreram o governo de Portugal com cerca de US$ 100 bilhões há dois anos.
"O FMI e o resto da troica não se importam com o bem-estar da população portuguesa, mas só com os mercados financeiros e com recuperar seu dinheiro", disse Reis, 34, que ensinava filosofia para alunos colegiais. Ele estava falando sobre o FMI, ao lado do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia.
Na Europa, as linhas de batalha estão se espessando em torno de mais quantos cortes aos benefícios sociais a população vai suportar. Em uma decisão em abril, o tribunal supremo de Portugal cortou algumas das medidas de austeridade incluídas no orçamento inicial de 2013, dizendo que discriminavam funcionários públicos e aposentados, que foram os escolhidos para as reduções de salários e pensões.
A decisão do tribunal e as constantes dificuldades orçamentárias deixaram o governo português em uma posição difícil. Se o governo não pode cortar os benefícios dos funcionários públicos, terá de cortar mais nos lugares onde pode.
Isso colocou o sistema educacional do país, que já é um dos mais fracos da Europa, praticamente no cepo do abatedouro.
Mas o governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho talvez não tenha mais para o que recorrer. Em meados de abril, anunciou novos cortes de gastos no valor de cerca de US$ 1 bilhão como parte de um orçamento revisado para 2013. No ano passado o governo já cortou os gastos com educação para cerca de US$ 8,7 bilhões -voltando ao nível de 2001.
Os professores afirmam que uma nova rodada de cortes ameaça não apenas a educação, mas também a futura empregabilidade de toda uma geração. Cerca de 63% da população adulta de Portugal não concluíram o ensino secundário.
Com atenção e gastos, Portugal conseguiu reduzir o índice de abandono escolar que era o pior da União Europeia, de quase 39% em 2005 para cerca de 21% em 2011.
Mas um relatório do FMI divulgado em janeiro concluiu que "o sistema educacional português continua superdimensionado e relativamente ineficiente pelos padrões internacionais". Ele sugeriu eliminar de 50 mil a 60 mil empregos, recomendação que provocou clamor entre os professores portugueses.
O FMI disse que os professores de escolas públicas são um grupo privilegiado "na sociedade em geral e no serviço público em particular", por ter horários limitados e salários que aumentaram até 2010, já em plena crise financeira mundial.
Especialistas em educação admitem que as recentes iniciativas para cortar gastos em Portugal tiveram de contornar proteções do setor público, incluindo a garantia de emprego vitalício para empregados do Estado com contrato fixo.
Em consequência, a maioria dos professores demitidos foram os recém-qualificados, com contratos anuais renováveis, como Reis, contratado em 2009.
"Hoje você tem dificuldade para encontrar um professor com menos de 40 anos em Portugal", disse João Jaime Pires, 57, diretor do colégio Camões em Lisboa. "Gastamos muito para treinar uma nova geração de professores, só para enviá-los agora diretamente para o desemprego."


segunda-feira, 6 de maio de 2013

Austericidas e impotentes


Enrico Letta, o novo premiê italiano, descobriu a pólvora: austeridade --e só austeridade-- mata.
Pena que sua descoberta seja tardia: Letta era o segundo homem do PD (Partido Democrático), que apoiou sem muitas reservas durante 14 meses o programa de austeridade de Mario Monti, imposto pela Europa sem passar pelo crivo da eleição, e que de fato "matou" uma Itália já levada à UTI pelas políticas de Silvio Berlusconi, o antecessor de Monti.
Detalhe nada menor: Letta, Berlusconi e Monti uniram-se de novo agora para inventar o governo do primeiro. Alguma surpresa com o fato de que os italianos tenham transformado um grupo antiestablishment (o Movimento 5 Estrelas) no partido mais votado, isoladamente, no pleito de fevereiro?
De todo modo, não é essa bizarra composição que torna mais triste a situação na Itália e, mais amplamente, na Europa toda. Pior ainda é o fato de que Letta insiste em "reativar o crescimento sem pôr em perigo o processo de consolidação fiscal" (codinome para austeridade, a que mata).
Vejamos a propósito o testemunho de um acadêmico --Mark Blyth, professor de Economia Política Internacional da Universidade Brown-- para a "Foreign Affairs" que está nas bancas: "Na esteira da recente crise financeira que levou a dívida pública a explodir, a maioria da Europa tem perseguido a austeridade consistentemente nos últimos quatro anos. O resultado da experiência está agora à vista e é igualmente consistente: austeridade não funciona".
Ouçamos agora Joschka Fischer, ex-ministro alemão do Exterior, em artigo para "El País": a Alemanha impôs aos demais países "a mesma estratégia que funcionou para ela, no início do milênio, mas em condições internas e externas totalmente diferentes. Para os países do sul da Europa golpeados pela crise, a fórmula que a Alemanha defende, com sua mescla de austeridade e reformas estruturais, está resultando mortal porque lhe faltam dois componentes fundamentais: corte da dívida e crescimento".
Falta um terceiro elemento: na Alemanha, como é da praxe de seu sistema, as reformas foram negociadas com patrões e empregados, ao passo que na Europa do Sul estão sendo impostas de dentro para fora e de cima para baixo.
Daí resulta, para voltar a Fischer, que "a verdadeira crise da União Europeia e da união monetária não é de caráter financeiro mas político ou, mais precisamente, é uma crise de liderança. Todas as capitais europeias revelam notória falta de visão, coragem e firmeza de propósitos, mas isso se aplica especialmente a Berlim (e ao governo tanto como à oposição)".
Mesmo na Alemanha e mesmo entre os defensores da austeridade, há o reconhecimento de que "o governo federal se encontra praticamente só em sua estratégia de solução da crise", como escreve Günther Nonnenmarcher para o "Frankfurter Allgemeine Zeitung".
Ainda assim, Angela Merkel levará sua solidão e sua arma de destruição em massa até pelo menos setembro, mês da eleição. Seus parceiros aguentarão o coma até lá?


Texto de Clóvis Rossi, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Deputado neonazista tenta atacar prefeito de Atenas e fere menina de 12 anos


Após seu partido - o neonazista Amanhecer Dourado - ser proibido de distribuir alimentos somente para gregos na praça Syntagma, o deputado Yorgos Germenis tentou atacar nesta quinta-feira o prefeito de Atenas, Yorgos Kaminis, e acabou ferindo uma menina de 12 anos na ação.

Segundo as testemunhas, o deputado Yorgos Germenis, baixista de um conhecido grupo de "black metal", entrou em mercearia social, onde era distribuído velas de Páscoa às crianças, e tentou atacar o prefeito, mas foi impedido pelos seguranças.
As mesmas testemunhas ressaltaram que, antes de ser expulso do local pelos seguranças, o deputado neonazista ainda tentou sacar sua arma. Em comunicado, a direção do partido negou os fatos, enquanto um porta-voz da polícia local explicou à Agência Efe que o caso já está sendo investigado.
"A democracia vencerá. A lógica da força bruta que vimos hoje em duas ocasiões, incluindo o incidente envolvendo o deputado, não passará impune", afirmou o prefeito de Atenas após o ataque.
A tensão entre a Prefeitura da capital grega e o Amanhecer Dourado se intensificou depois que a Polícia, por ordem da própria Prefeitura, proibisse um ato da formação na praça Syntagma, na qual o partido neonazista pretendia distribuir comida só para gregos para celebrar a Quinta-Feira Santa Ortodoxa.

Os integrantes do Amanhecer Dourado, ignorando os avisos da polícia, iniciaram a distribuição dos alimentos na praça citada, mas acabaram sendo coibidos pelas forças de segurança, que recorreram ao uso de gás lacrimogêneo para dispersar os neonazistas.

Após o incidente, Kaminis afirmou que essa proibição tinha sido uma "vitória da sociedade democrática" e lembrou que o partido neonazista não tinha de permissão para realizar o ato.

Em resposta a proibição, o partido neonazista convocou seus militantes para se reunir em sua sede central para dar continuidade a distribuição de alimentos "só para os gregos", uma ação que foi duramente criticada pelos religiosos ortodoxos da capital russa.

Notícia da AFP, no UOL.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Crise faz Espanha chegar à marca de 6 milhões de desempregados


Crise faz Espanha chegar à marca de 6 milhões de desempregados
No centro de Madri, manifestantes protestaram contra o governo

O número de desempregados na Espanha ultrapassou pela primeira vez a marca de 6 milhões de pessoas e chegou a 27,16% da população economicamente ativa.
Entre dezembro e março, mais 237 mil mil espanhóis ficaram sem trabalho, 6,2 milhões no total.
Na faixa até 25 anos de idade, o índice chegou a 57,2% no primeiro trimestre, com 960 mil desempregados.
Em junho de 2007, antes da crise, o desemprego na Espanha era de 7,95%, com menos de 2 milhões sem trabalho.
Ontem, centenas de manifestantes protestaram em Madri contra o governo.
A divulgação dos indicadores coincidiu com a de uma pesquisa sobre a rejeição popular à União Europeia nos maiores países do bloco --Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Polônia.
Realizado pelo Conselho Europeu de Relações Internacionais, o estudo mostra que os europeus estão cada vez mais descrentes com o bloco.
O pessimismo aumentou em todos os países pesquisados, mas os dados mais expressivos vêm justamente da Espanha. Lá, 23% das pessoas não confiavam na UE como instituição em 2007. No fim do ano passado, o número saltou para 72%.
Os espanhóis culpam a UE pelas medidas de ajuste adotadas pelo país, que não consegue sair da recessão.
Em Portugal, onde o cenário é semelhante, veteranos da Revolução dos Cravos se recusaram ontem a participar das comemorações do 25 de Abril, data do fim da ditadura salazarista, em 1974.
Numa rara boa notícia no bloco, o Reino Unido anunciou ontem um crescimento do PIB de 0,3% no primeiro trimestre.

Reportagem de Bernardo Mello Franco, para a Folha de São Paulo.

terça-feira, 26 de março de 2013

A perplexidade europeia


A perplexidade europeia
Para resolver a crise é preciso reequilibrar os custos unitários do trabalho, ou seja, reduzir salários
A crise financeira da zona do euro foi relativamente superada, mas a crise econômica continua profunda. A crise financeira soberana do euro de 2010 decorreu da crise bancária global de 2008 que levou os Estados a se endividarem para socorrer os bancos.
Ela foi superada quando o presidente do Banco Central Europeu garantiu que compraria no mercado secundário os títulos da dívida soberana dos países.
Entretanto a crise econômica da zona do euro continua sem solução. A economia da Europa como um todo está estagnada, porque as taxas de câmbio implícitas ou internas dos países do Sul se apreciaram em relação às dos países do Norte e as suas empresas deixaram de ser competitivas.
O conceito de taxa de câmbio interna é relativo ao valor e não ao preço de mercado da taxa de câmbio. O valor da taxa de câmbio não decorre das variações na oferta e na procura de moeda estrangeira, que fazem com que a taxa de câmbio de mercado flutue em torno do seu valor, mas é o valor que deve ter a taxa de câmbio para tornar competitivas as empresas existentes no país. O valor da taxa de câmbio depende da relação entre aumento da produtividade e dos salários em um país (o "custo unitário do trabalho") em relação aos demais países.
Em 2003 o então premiê da Alemanha, Gerhard Schröeder, através da iniciativa Agenda 2010, promoveu a flexibilização das leis trabalhistas e, ao mesmo tempo, celebrou um acordo entre empresas e sindicatos segundo o qual os salários deixariam de ser aumentados proporcionalmente à produtividade, em troca de segurança no emprego.
Como os países do Sul não fizeram o mesmo, seu custo unitário do trabalho subiu em relação à Alemanha, a taxa de câmbio interna se apreciou, as empresas perderam competitividade e se endividaram, as famílias também se endividaram, e isso se traduziu em grandes deficit em conta corrente, não obstante as contas públicas continuassem equilibradas (exceto na Grécia).
Para resolver a crise econômica é preciso reequilibrar os custos unitários do trabalho, ou seja, reduzir salários. A forma normal de fazer isso seria cada país recuperar sua capacidade de depreciar a taxa de câmbio -uma solução que distribui por toda a sociedade o custo do ajustamento necessário e o faz em um instante-, mas que exige uma reforma monetária que, de forma planejada, descontinue o euro.
Como os europeus não têm coragem para fazer isso, uma alternativa seria uma inflação que reduzisse os salários reais ao mesmo tempo em que os países do Norte da Europa aumentassem seus salários, mas a Alemanha não aceita perder competitividade em relação à China e aos Estados Unidos. A terceira alternativa é a que está sendo adotada: é a "austeridade", ou seja, a redução dos salários através da recessão e do desemprego. É uma solução desumana cujo peso cai sobre os assalariados e as pequenas empresas. É a solução contra a qual os cidadãos europeus, perplexos, protestam nas ruas e nas eleições, mas, afinal, é a solução possível enquanto não perderem o respeito quase religioso que desenvolveram em relação à sua moeda única.


domingo, 3 de março de 2013

"Sonho alemão" vira maior expressão do "pesadelo europeu"


Eles são belos, jovens e brilhantes. São os novos imigrantes na Alemanha. "Die neuen Gastarbeiter" é a manchete de primeira página do jornal "Der Spiegel". Esses "novos trabalhadores convidados" não são mais os camponeses turcos da Anatólia dos anos 1960, que vieram para tocar a indústria automobilística da Alemanha Ocidental. São italianos, espanhóis, gregos ou europeus do Leste. Formados nas melhores universidades de seus países, eles compõem "a jovem elite da Europa para a economia alemã". Nesta semana, o semanário alemão exibiu uma insolência digna de seu colega britânico "The Economist", que zomba do mundo da mesma forma que a Alemanha provoca a Europa.
A "Deutschland AG" se recusa a transferir suas fábricas para outros países, mesmo podendo perder a briga industrial. Seu neoprotecionismo a levou a barrar a fusão entre a Airbus e a British Aerospace para proteger suas fábricas na Baviera. E eis quem está roubando os talentos latinos, que chegam em peso para fugir de um desemprego endêmico. O "sonho alemão" celebrado sem pudor pelo "Der Spiegel" é o pesadelo da Europa.
Nesse contexto, por que a histeria diante dos resultados das eleições italianas no dia 25 de fevereiro? Depois dos tecnocratas às ordens de Angela Merkel, os populistas; depois de "il Professore" Mario Monti, os tristes palhaços Silvio Berlusconi e Beppe Grillo. A escolha dos italianos foi um amargo "não" para as receitas europeias, uma rejeição à poção de Merkel-Monti.
A cobertura do "Der Spiegel" confirma: esse caso lembra areia movediça. Assim é acentuada a crise de legitimidade política em uma Europa prisioneira do euro. O Velho Continente é incapaz de renovar a competitividade através de uma desvalorização da moeda. Qualquer conversa sobre a paridade do euro em relação ao dólar ou ao yuan é proibida pela Alemanha. O ajuste é feito sobre o emprego e provoca um desemprego em massa, no Sul da Europa mas também na França, onde ele voltou a seus níveis de 1997. Inexoravelmente, os talentos estão indo embora.
É o fracasso da Europa. O fracasso do euro. Era necessário assinar esse tratado de Maastricht (1992), que está se encaminhando para um desastre? Depois de tanto defendê-lo, afinal estamos duvidando dele. Curiosamente, o assunto continua sendo tabu. Nos anos 1990, vendiam a moeda única como se ela fosse permitir o combate às supostas desvalorizações competitivas dos países do Sul. Um total contrassenso: foi a leitura inversa que prevaleceu. As desvalorizações eram somente lufadas de oxigênio para compensar posteriormente o rolo compressor da indústria alemã. Provavelmente deveriam ter ouvido na época os alertas precoces de Gerhard Schröder.
"O que acontecerá quando a ferramenta da desvalorização não estiver mais disponível na Espanha e na Europa, e quando a economia alemã se impuser em toda parte graças a seus enormes ganhos de produtividade com a moeda única?" perguntava já em 1997 o candidato socialdemocrata à chancelaria. Mas o "camarada dos patrões" e membro do conselho de supervisão da Volkswagen na época era visto como um horrível neo-bismarckiano perto do grande europeu Helmut Kohl, que soube fazer a Alemanha sem desfazer a Europa. Gerhard Schröder não era ouvido. Na verdade, seu desprezo pelo Sul da Europa, incapaz de resistir ao euro, segundo ele, provavelmente teria protegido mais os latinos do que a vontade de inclusão francesa, aparentemente generosa mas que em retrospecto se revelou devastadora.
O euro era um projeto político, repetiam os franceses. Política, essa palavra mágica deveria apagar qualquer restrição. A economia se vingou, e o Sul da Europa ameaça se afundar na crise política e social.
Como maus perdedores, nós reclamamos que os eleitores franceses e holandeses não haviam entendido nada ao votarem "não" para a Constituição Europeia de 2005. Hoje, a ameaça é ainda maior. Mas criticar os italianos pela forma como votaram também parece tão patético quanto o rei da Pérsia, Xerxes, que mandou chicotear o mar por ter destroçado uma ponte sobre o Helesponto. Eles são o segundo povo a se rebelarem depois dos gregos e não serão os últimos. Quem poderia prever o resultado das próximas eleições na França, entre uma direita parlamentar em ruínas e uma esquerda com a cara de Mélenchon?
O alerta dos gregos foi sério; eles, que quase se radicalizaram na primavera de 2012. As eleições de maio consagraram o surgimento dos neonazistas da Aurora Dourada, enquanto o Pasok (Partido Socialista grego) era aniquilado pela esquerda populista do Syriza. Somente novas eleições, organizadas um mês depois, sob ameaça de serem expulsos da zona do euro, permitiram formar uma espécie de grande coalizão preservada dos extremos.
O resultado da crise italiana ainda não está claro. De qualquer forma, ela acusa o fim da era dos governos técnicos, aberta no G20 de Cannes, em novembro de 2011. A crise do euro estava então em seu ápice, os investidores apostavam no fim da moeda única. Angela Merkel e Nicolas Sarkozy precipitaram a queda do primeiro-ministro grego Georges Papandreou, culpado de ter tentado organizar um referendo sobre o plano de resgate elaborado em Bruxelas alguns dias antes, bem como a de Silvio Berlusconi.
Eles foram substituídos por Lukas Papademos (novembro de 2011-maio de 2012), ex-vice-presidente do Banco Central Europeu, e Mario Monti, "o mais alemão dos economistas italianos". Um sonho para Bruxelas! Esses governos tecnocráticos, efêmeros por definição, deveriam atenuar a demissão dos políticos, incapazes de tomar as decisões consideradas necessárias. "Os governos tecnocráticos são a forma liberal da crise democrática, no sentido em que os tecnocratas continuam sendo amigos da liberdade", comenta o especialista em populismo, Dominique Reynié.
Eles caem uma vez cumpridas suas missões – os primeiros-ministros tecnocratas Lamberto Dini e Romano Prodi tinham como plano de ação a qualificação da Itália para a moeda única. Mas Mario Monti não conseguiu tirar o país da enrascada do euro, nem ganhar renome na política ao entrar na disputa. As eleições deveriam marcar uma volta à normalidade. Mas, pelo contrário, elas abriram caminho para o desconhecido. É mais um fracasso, tanto da Itália quanto da Europa.

Reportagem de Arnaud Leparmentier, para o Le Monde, reproduzido no UOL. Tradução de Lana Lim.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Cidades espanholas se unem contra a privatização na saúde


A maré branca que nasceu em Madri se espalhou por toda a Espanha. Milhares de pessoas marcharam no domingo em 15 cidades para defender a saúde pública contra os projetos de privatização de alguns governos autônomos. A primeira maré branca de alcance nacional - a quarta em Madri este ano - exigiu que o caráter público do sistema nacional de saúde seja blindado e que cessem os cortes que estão deteriorando o atendimento. O conflito provocado pelo plano do presidente da Comunidade de Madri, Ignacio González, de ceder a empresas privadas a gestão de seis hospitais e 27 centros de saúde, longe de amainar, se espalhou por outras autonomias.
Mas enquanto os manifestantes repetiam gritos como "Este governo prejudica sua saúde" e exibiam cartazes com slogans como "é criminoso cortar na saúde" e o já tradicional "não se vende, se defende" - aludindo à saúde pública -, o conselheiro de Saúde de Madri, Javier Fernández-Lasquetty, insistiu em defender seu projeto e afirmou que seguirá em frente. "A manifestação é uma tentativa de continuar prolongando um conflito de interesse, não dos cidadãos, não da sociedade nem da saúde pública, mas interesse dos que a convocam, que querem continuar tendo um papel ou algo para agitar", criticou em uma visita a um centro de atendimento a dependentes de drogas.
O governo da Comunidade de Madri afirma que com seu plano de gestão privada se pode conseguir uma economia importante, embora não tenha divulgado relatórios para demonstrar isso. Uma opacidade que foi muito criticada pelos profissionais da saúde e pelos especialistas, que preveem que, com a cessão da gestão para empresas, não só se perderão postos de trabalho como também a qualidade do atendimento se ressentirá.
O plano de privatização de Madri é o maior promovido na Espanha, mas em outras comunidades - como em Valência, Catalunha, Castela-Mancha ou Múrcia - também funcionam, ou estão em projeto, modelos de gestão privada. Uma ligação que uniu em seus protestos os cidadãos, que marcharam convocados pela Mesa em Defesa da Saúde Pública, uma plataforma formada por associações de moradores de todas as regiões, profissionais e sindicatos.
Fátima Brañas, porta-voz da Associação de Facultativos Especialistas de Madri (Afem), afirma que o protesto contra a privatização não é o único que animou milhares de pessoas a sair à rua. "A chama da maré branca não acendeu só para lutar contra a privatização; o que se reclama é que haja uma melhor gestão e que, se houver cortes, não sejam indiscriminados como ocorre hoje", indica.
Os orçamentos para a Saúde do governo e das autonomias perderam desde 2010 quase 7 bilhões de euros. Essa tesourada - que não será a única porque nessa contagem faltam Catalunha e País Basco, que ainda não aprovaram seus orçamentos para 2013 - está deixando brechas: redução de horários de ambulatórios e emergências rurais, falta de pessoal, aumento das listas de espera ou falta de material.
A saúde pública na Espanha vive uma época muito aquecida; apesar de domingo ter sido a primeira maré branca de alcance nacional, os cortes provocaram protestos importantes em regiões como Castela-Mancha, Castela e Leão ou Extremadura.
Raquel Diezma, enfermeira de 37 anos, participou no domingo com sua família da maré em Madri. Afirma que se mobiliza mais como usuária do que como profissional. "Estão desmantelando os serviços públicos, e se não nos mexermos teremos muito a perder", afirma. Como Concha Francos, que se define como "paciente potencial". Essa mulher de 64 anos acredita que a saúde pública está em verdadeiro perigo. "Não só pela privatização e os cortes. Também pelo fundo ideológico de quem está governando e tomando essas decisões de transformar em negócio um sistema de qualidade e que até há pouco tempo era universal", afirma.
Mas, como muitos cidadãos que dançaram nas diversas marchas ao ritmo dos tambores e dos apitos, em protesto também contra o aumento do copagamento de medicamentos, Francos tem esperança de que as mobilizações funcionem. Em Barcelona, o secretário-geral da Médicos da Catalunha, Francesc Duch, insistiu que os cortes representam uma "sangria" e alertou que a situação está provocando um alarmante êxodo de profissionais de saúde. "Em 2012 foram para o estrangeiro tantos médicos quanto nos cinco anos anteriores somados", disse.
Nas manifestações houve grandes críticas à gestão do governo de Mariano Rajoy. "O Ministério da Saúde é uma caixa de arrecadação, sem políticas de saúde próprias", afirmou o porta-voz de Saúde do partido Esquerda Unida, Gaspar Llamazares, que participou da marcha em Madri. O departamento da ministra Ana Mato, que iniciou a reforma sanitária em abril - com medidas como a exclusão de imigrantes sem papéis e do pagamento de próteses ou pelo transporte de saúde sem urgência -, se manteve em silêncio diante das mobilizações que desde novembro passado chegaram a paralisar a saúde pública em Madri, onde a greve indefinida atrasou 50 mil consultas e 6.500 cirurgias. Mas se pronunciou contra a taxa de 1 euro por receita - em Madri, adjunta ao mesmo plano que a privatização. Seu recurso ao Tribunal Constitucional paralisou cautelarmente a medida, que foi aplicada durante meses na Catalunha e durante algumas semanas em Madri.
Jaime Cedrún, secretário-geral da CCOO (central sindical de Madri), insistiu no domingo que os protestos não vão parar. "O conflito continua. Além disso, há razões que demonstram que o que o governo de Ignacio González pretende é um erro, um fracasso e inclusive um negócio", criticou.
"Estão vendendo a saúde pública para grandes empresas. Primeiro cortam para que os cidadãos nos queixemos do atendimento, e depois a cedem para as empresas, que certamente lhes darão um bom dinheiro pelo favor", criticou em Madri Martín Rodríguez, 56 anos, que empunhava um cartaz com o slogan "seus envelopes são nossos cortes", referindo-se ao escândalo dos pagamentos extras no Partido Popular. De longe, uma voz lia o manifesto da primeira maré branca nacional. "Resistiremos como fizemos até agora", avisou.

De Maria R. Sahuchillo, para o El País, reproduzido no UOL. Tradução Luiz Roberto Mendes Gonçalves. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A luta contra a depressão grega


A luta contra a depressão grega
KOSTAS TSAPOGAS

Atenas - Eu e minha mulher fazemos parte dos muitos gregos apanhados pelo turbilhão da crise econômica. Desde que o jornal onde eu trabalhei durante 23 anos (e minha mulher por 17) encerrou suas publicações, em dezembro de 2011, ambos ficamos desempregados. Nenhum de nós recebe salário há 18 meses, pois o jornal deixou de nos pagar cinco meses antes de fechar. Com o desemprego entre jornalistas acima de 30% e o índice de desemprego oficial em 26%, nossas perspectivas para este ano não são extremamente favoráveis, digamos.
Nossa história é típica de muitos gregos, embora alguns estejam muito pior e outros melhor. Mas como muitos gregos que lutam apenas para conseguir alimento suficiente, manter suas casas aquecidas e uma aparência de normalidade, nós lutamos para manter nossa dignidade intacta e evitar a depressão que envolve nosso país.
De certa forma, tivemos sorte. Nosso filho, como muitos jovens, deixou a Grécia e encontrou trabalho como engenheiro de software na Escócia. Nós observamos o país perder uma geração capacitada, de nível superior. Nossos pais, embora idosos, são saudáveis e conseguem sobreviver com sua aposentadoria, que foi cortada em quase 50% nos últimos dois anos. Eles se ofereceram para compartilhar o pouco que têm conosco, coisa comum na Grécia onde os laços familiares tradicionais substituem os programas sociais ineficazes.
Nos últimos 18 meses, tentamos encontrar trabalho no jornalismo. Com um grupo de ex-colegas, tentamos criar um jornal digital. Depois de meses de trabalho duro -sem pagamento-, nosso principal investidor desistiu de nos financiar alguns dias antes de nossa entrada on-line. Ele não quis assumir o risco em uma economia frágil.
Nós constantemente exploramos outras vias de trabalho.
Minha mulher começou a fazer pães para ajudar a nos manter à tona. Examinamos a possibilidade de exportar produtos agrícolas gregos.
Em uma economia onde as vendas de casas quase não existem, conseguimos vender nossa pequena casa de campo. Apesar de termos recebido menos de 20% de seu valor anterior, ficamos felizes porque isso permitiu nossa sobrevivência por mais alguns meses.
Conseguimos uma ordem do tribunal que impede os bancos de executarem nossa hipoteca, por isso nossa casa em Atenas está salva até 2015. Tivemos mais sorte do que as pessoas que são obrigadas a viver em seus carros, a única propriedade que lhes resta depois que perderam seus empregos e os bancos tomaram suas casas. Elas estacionam em lugares diferentes durante alguns dias e, geralmente, contam com a bondade de estranhos para tomar banho e usar o banheiro. Outras vezes, aliviam-se em jardins públicos ou privados, inclusive às vezes no nosso.
Sabemos que temos sorte por ter um jardim. Em janeiro, a poda das árvores mostra-se psicologicamente positiva. Dessa vez, porém, a poda foi um pouco mais profunda, e eu me vi decepando o loureiro que meu avô plantou em nosso jardim quando eu nasci, há 57 anos.
Até agora tivemos a sorte de escapar da loucura de cortar madeira para lenha que muitos gregos tiveram de adotar. Com o preço do combustível para aquecimento alcançando quase o dobro do ano passado, o aquecimento central é geralmente desligado. Lareiras e fogões, antes ornamentais, foram postos em serviço. Daí a coceira nos meus olhos todas as noites, quando muitos de nossos vizinhos voltam para suas casas frias e Atenas é envolvida em uma nuvem de fumaça. As advertências do governo de que a poluição superou níveis perigosos são recebidas com um levantar de ombros ou como mais uma trama para obrigar as pessoas a usarem o combustível taxada por altos impostos, cujo consumo caiu 80%. Enquanto isso, os serviços de proteção às florestas travam uma batalha inútil para evitar o desmatamento, em uma escala inédita.
Certamente temos mais sorte do que as pessoas que enchem os 191 sopões beneficentes dirigidos pela Igreja Ortodoxa Grega. Somos mais felizes que os "novos pobres", como o homem de meia-idade vestindo um terno Armani, um pouco gasto nos cotovelos e brilhando no assento das calças, que tenta ser invisível esperando na fila do sopão da praça Koumoundourou. Mais felizes que a respeitável mulher que caminha seis quilômetros todos os dias para fazer fila por dois potes de comida e depois volta para casa e finge cozinhar, pois não quer dizer a seu marido doente que eles não podem pagar pela comida.
Minha mulher e eu às vezes nos perguntamos se estamos em um estado de negação. Mas acreditamos que o maior perigo vem de sucumbir à depressão. Ambos lutamos todos os dias para sair da cama. Ficaríamos felizes em recomeçar, mas onde? Qualquer novo empreendimento requer dinheiro, e só temos o suficiente para sobreviver. É impossível obter crédito. Como a nuvem de fumaça que paira no céu de inverno em Atenas, queremos desesperadamente acreditar que a situação não é permanente.
Mas não podemos ter certeza. Pelo menos, sabemos que a fumaça no céu se dissipará quando chegar a primavera.


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 18 de fevereiro de 2013.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

À procura da uma crise


À procura da uma crise
Em confrontação de STF e Câmara, as consequências só poderiam configurar uma crise institucional
A época das crises institucionais parecia encerrada em definitivo. Foi o que sugeriu a travessia da crise política do mensalão, sem sua progressão para a crise institucional ansiada por muitos no empresariado e na política. São poucas as letras, aqui, não só entre os reconhecidos como pouco letrados, daí que nossas crises não encontrem seus cronistas. Se aquela tivesse o seu, seria mais clara a natureza do problema que emerge nestes dias.
O risco de enfrentamento do Supremo Tribunal Federal e da Câmara dos Deputados é real.
O presidente da Câmara, Marco Maia, é muito zeloso do que entende como sua função e está determinado a aplicar o art. 55 da Constituição, que confere aos deputados a tarefa de cassar o mandato de colega condenado sem mais recurso.
O ministro Joaquim Barbosa não é menos direto em sentido contrário. Entende que o ato final do julgamento tem que ser a cassação de mandato dos deputados condenados, com base no poder que a Constituição confere ao tribunal para cassar mandatos parlamentares. Marco Maia é seco ao falar de sua determinação. Joaquim Barbosa não recolhe o tom de desafio. Só concede à possível "deliberação da Casa Legislativa [a Câmara] efeito meramente declaratório". Mais:
"Mandamos a decisão [a cassação dos mandatos] para a Câmara e ela faz o que ela bem entender. Se a Câmara resolver que esse ou aquele parlamentar será protegido, que arque com as consequências". Joaquim Barbosa pôs em dúvida que a Câmara confirme o decidido pelo STF nos casos dos deputados.
Que consequências seriam? A adotar o valor dado a deduções pelo Supremo, para atribuir as culpas criminais a alguns réus, seria possível voar alto nas especulações. Não é preciso. A expressão "arque com as consequências" é velha conhecida como indicadora de consequências severas. Em confrontação de Supremo e Câmara, as consequências só poderiam configurar uma crise institucional. Como todas as do gênero, de efeitos imprevisíveis.
O quanto estamos próximos ou distantes disso também não se sabe. Há políticos e jornalistas ocupando-se de contas e combinações de votos, consideradas as posições conhecidas dos ministros e as possibilidades de variação, no caso, deste ou daquele. O resultado da especulação é só especulação.
A falta de sentido do risco instalado cresce ao pensar-se que o problema nem é cassar ou não cassar os mandatos dos condenados com trânsito em julgado. Até agora, a lógica da incompatibilidade entre condenação e mandato na Câmara prevalece, como esperável. O risco vem da maneira de aplicar o afastamento, se pela Câmara ou pelo Supremo.
Chega a parecer pueril. E, no entanto, é das instituições democráticas que se trata.


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

'Cidades de tendas' se espalham pelos EUA


'Cidades de tendas' se espalham pelos EUA

Já são cem no país, reflexo da crise econômica; aumento da pobreza é um dos temas da campanha presidencial
Governo estima que haja 244 mil sem-teto morando nas ruas ou em tendas; vagas em abrigos diminuíram

A menos de 80 km dos milionários apartamentos da Quinta Avenida em Nova York, um grupo de 90 desempregados mora em barracas compradas no Walmart, sem luz e água, fazendo xixi em penico e tomando banho em bacias, no meio de um bosque.
Lakewood, em Nova Jersey, é uma das cerca de cem "tent cities" (cidades de tendas) que surgiram nos EUA desde o início da crise, em 2008.
Muitos dos que vivem assim perderam as casas por não pagarem hipotecas ou ficaram na rua depois de serem demitidos e atrasar o aluguel.
Nos EUA, tornaram-se o rosto mais visível do crescimento da desigualdade, um dos temas mais quentes da eleição de amanhã entre Barack Obama e Mitt Romney.
É gente como Marilyn e Michael Berenzweig, casal de NY que mora em Lakewood há dois anos e meio.
Marilyn, 62, trabalhou 35 anos como designer têxtil e ganhava US$ 100 mil por ano. Perdeu o emprego em 2009.
Casada há 42 anos com Michael, 63, foi morar com a filha no Queens. Depois de uma briga com ela, se viram na rua.
Sem dinheiro para aluguel -os dois ganham US$ 1.800 por mês de aposentadoria para pagar tudo, inclusive convênio médico, que sai mais de US$ 500 por pessoa- foram parar em Lakewood.
Ela divide uma barraca com o marido, o gato e alguns dos passarinhos que trouxeram.
"É difícil se manter limpo por aqui, e essas galinhas andando por toda a parte não ajudam", disse Marilyn.
Ela fez um buraco na terra para conservar a comida, já que não tem eletricidade. "Gostamos de morar no mato, mas nunca imaginamos que fôssemos parar aqui."
O casal ainda mantém hábitos de sua vida passada. Marilyn continua lendo o "New York Times" -mas só aos domingos. "Depois uso o jornal para forrar a gaiola dos passarinhos, a qualidade do papel é ótima para isso."
Ao mesmo tempo em que a crise levou a um aumento no número de desempregados, as vagas em abrigos diminuíram, diz Eric Tars, do Centro Nacional de Direito em Pobreza e Falta de Moradia, que fez estudo sobre as "tent cities" com a Universidade de Yale.
Obama implementou programas de ajuda aos sem-teto, mas governos estaduais e municipais cortaram o orçamento na crise. Segundo o Departamento de Habitação dos EUA, há hoje 243.701 sem-teto morando nas ruas ou barracas, e 392.316 em abrigos.
"O número de pessoas na rua deve aumentar porque muitas estão dormindo no sofá de amigos e familiares e não vão poder ficar nessa situação por muito tempo", diz Tars.
A situação econômica também não deve melhorar tão cedo. Hoje, existem 12,1 milhões de desempregados no país -mas gente como Marilyn nem entra na estatística, porque desistiu de procurar.

TEMPESTADE E NEVE

A situação em Lakewood é precária. A tempestade Sandy destruiu dez barracas. No inverno, eles chegam a receber 30 centímetros de neve.
"Antes, a maioria dos sem-teto tinha problema de alcoolismo ou drogas; agora, a maioria deles é simplesmente pobre que não consegue emprego", diz o pastor Steve Brigham, 52, o "prefeito" de Lakewood.
O local surgiu com um grupo de três mendigos há cerca de cinco anos. Com a crise de 2008, o número de pessoas aumentou muito. "Hoje, recebemos três pessoas por semana", conta o pastor.
Segundo o estudo de Yale, há hoje "tent cities" em 41 Estados -a maior parte na Flórida e na Califórnia.
"Este é o país mais rico do mundo e nós estamos vivendo aqui nesta favela, sem acesso a assistência médica. Alguma coisa está muito errada", diz Angela Spencer, 47, há dois meses no local. Ela trabalhou 22 anos na área de saúde, mas hoje vive de aposentadoria por invalidez.
Sua amiga, a enfermeira desempregada Karen Henderson, concorda. "A gente vê na TV os pedidos de doação para crianças na África, mas e a gente aqui?"
Algumas pessoas têm direito a 12 meses de estadia paga pelo governo em um motel, até que possam arcar com um aluguel. "Mas aqui perto a oferta de quartos com aluguéis baixos é muito pequena", diz o pastor.
Há um gerador no centro do acampamento, em que as pessoas carregam celulares, e uma televisão. O local tem também um chuveiro adaptado, mas muitos preferem tomar banho de toalha molhada nas barracas. Todos vivem de comida doada por igrejas e entidades.
"Queremos que o governo construa um abrigo aqui perto ou que aumente a oferta de aluguéis baixos. Até lá, muita gente vai ter que morar em barracas", diz o pastor.