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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Presidiários portugueses preferem continuar na prisão a enfrentar a crise

O juiz e presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, José Mouraz Lopes, afirma que há presos atualmente que renunciam à liberdade condicional por medo de se verem completamente desamparados.
"Falei em julho com dois colegas meus encarregados de conceder a liberdade condicional em duas prisões portuguesas e eles o confirmaram. Suponho que haja mais. É algo que, em minha experiência como juiz e como jurista, nunca havia acontecido em Portugal", afirma.
A Direção Geral de Serviços Penitenciários "desconhece" o número de presos que renunciam a sua liberdade, mas José Brites, presidente da ONG O Companheiro, especializada na reinserção de ex-presidiários, já trabalhou com vários homens de meia-idade que preferem ir à associação de dia e à noite voltar para a prisão do que ter acesso a um regime mais aberto, "porque com a crise não têm para onde ir".
Contudo, não há nenhum caso parecido com o de Carlos Garcia da Mata, um aposentado que assaltou um banco para, segundo afirma, conseguir um teto, mesmo que tivesse grades. Uma tarde, em uma pensão da Baixa em Lisboa, da qual iam expulsá-lo por falta de pagamento, Da Mata - sem trabalho, com uma pensão de apenas 240 euros, doente e com problemas de mobilidade -, decidiu que antes que dormir na rua preferia fazê-lo na prisão. Assim, colocou-se diante da vitrine de uma loja próxima e a quebrou com uma pedrada. Sentou-se para esperar a chegada da polícia enquanto tocava o alarme.
Como havia previsto, acabou na prisão. Mas o juiz decidiu que por essa falta ninguém ingressa na prisão e o pôs em liberdade dois dias depois. "Pois farei algo mais grave", respondeu. Com efeito. No dia seguinte - era novembro de 2011 -, entrou em uma agência bancária situada ao lado de sua casa. "Não gosto de armas, por isso entrei sem pistola e fui até o guichê", contou esta semana, com um sorriso maroto na boca, na biblioteca da Companheiro. Entregou à funcionária, em silêncio, um papel no qual havia escrito: "Estou desesperado; estou armado. Dê-me 5 mil euros em notas de 50". A caixa lhe deu 3 mil e Da Mata, conformado com a redução, saiu com o butim no bolso. À falta de um plano de fuga, pegou um táxi no ponto em frente. Minutos depois, segundo conta com certa ironia, o taxista recebeu uma ligação em seu celular procedente da polícia - que, ao que parece, conhecia o perfil inofensivo do meliante -, na qual lhe pediram para voltar imediatamente ao lugar do assalto.
"Não me importei que me prendessem. O que eu queria era um teto. Não pude gastar nem 1 euro. Nem mesmo para comprar um cigarro!", lamenta. Tampouco desta vez o juiz considerou que Da Mata merecia a prisão e o enviou à ONG O Companheiro para realizar trabalhos comunitários. Ali ele vive obcecado pela comida, evocando seus tempos de garçom no Algarve e em Lisboa, lembrando que na manhã do assalto ao banco se encontrava, além de falido, completamente só. Agora vende na rua uma revista de indigentes, com o que pelo menos ganha para o cigarro, e dorme ligado a uma máscara de oxigênio que evita que sufoque à noite.
Nas prisões portuguesas há cerca de 14 mil reclusos. Nos últimos dois anos, os mais devastadores da crise, com um aumento brutal do desemprego, que já ultrapassa 17%, o número aumentou em 2 mil internos. Mais crimes? Mais delinquência? Não. Surpreendentemente, tal como afirma o juiz Mouraz Lopes, o índice de criminalidade diminuiu. Ele acredita que o aumento e a superpopulação das prisões portuguesas se devam a outros fatores.
"Não é porque os presos preferem ficar na prisão. Esses são casos emblemáticos, mas isolados. Os juízes encarregados de aprovar a liberdade condicional, ao ver que os requisitos não são cumpridos [possível reinserção, famílias com meios...], a negam. A crise faz que as famílias - e a própria sociedade - tenham cada vez menos meios para se encarregar dos presos que poderiam sair."
A coordenadora do Observatório da Justiça, Conceição Gomes, aponta outra razão: "Aumentaram muito os ingressos na prisão para cumprir penas de curta duração. E muitas dessas pessoas, que cometeram um pequeno delito, ficam na prisão porque não têm como pagar a multa. Antes se pagava. Hoje não há dinheiro e as pessoas pagam com mais dias de prisão. Está ocorrendo, em consequência da crise, uma criminalização progressiva da pobreza".


Reportagem de Antonio Jiménez Barca, para o El País, reproduzida no UOL. Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

domingo, 11 de agosto de 2013

Portugal vive sua maior crise demográfica

Portugal vive sua maior crise demográfica
Queda na taxa de fecundidade e emigração podem tirar cerca de 1 milhão de habitantes do país em 10 a 20 anos
'Primeira, segunda e terceira opção de nossos melhores alunos é emigrar', diz diretor de incubadora de Lisboa
PATRÍCIA CAMPOS MELLOENVIADA ESPECIAL A LISBOA

Portugal vive a crise demográfica mais grave de sua história. O país pode perder 1 milhão de habitantes em 10 a 20 anos --quase 10% de sua população de 10,6 milhões.
"É catastrófico", diz João Peixoto, professor da Universidade de Lisboa. "A crise demográfica em Portugal é muito grave, porque junta motivos estruturais, como a queda da taxa de fecundidade, e conjunturais, as emigrações por causa da crise."
Cerca de 100 mil portugueses emigram por ano desde 2010, segundo o governo.
São os mais qualificados e mais jovens que deixam o país. Gente como o economista Alexandre Abreu, 34, que vai trabalhar em Timor Leste por dois anos.
Ele fez faculdade e mestrado na Universidade de Lisboa e doutorado na Universidade de Londres, estudando migrações e a crise do euro. Grande parte dos seus estudos foi custeada por bolsas do governo português.
Há dois anos voltou da Inglaterra, mas não consegue emprego fixo em Portugal, porque as vagas foram congeladas no plano de austeridade. Com contrato de meio período, ganhava € 1.000 por mês (cerca de R$ 3.000).
"Tentei ficar, mas, com esse contexto de crise, não consegui. Fomos subsidiados pelo governo para atingir essa formação avançada e agora não há empregos aqui."
O declínio da natalidade é antigo na Europa, mas era parcialmente compensado pelos imigrantes, que têm número maior de filhos.
Portugal teve queda forte na taxa de fecundidade, hoje em 1,28 filho por mulher. E a crise demográfica do país é mais grave que a de outras nações europeias porque se alia à onda de emigração de mão de obra qualificada.
"A crise agravou a queda de fecundidade, porque, quanto maior a instabilidade na vida profissional, menor a vontade de ter filhos", diz o demógrafo Jorge Malheiros, da Universidade de Lisboa.
Os nascimentos vêm caindo. Foram 96.856 em 2011, 89.841 em 2012 e a estimativa para este ano é de 80 mil.
Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas, o número de mortes em Portugal foi 11.868 superior ao de nascimentos entre janeiro e abril deste ano. Associado às emigrações, o país encolhe a taxas aceleradas.
"Só não emigram mais portugueses porque outros países também estão em crise", diz o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário.
A maioria emigra para outros países da Europa, aproveitando-se do espaço Schengen. França, Reino Unido, Luxemburgo e Alemanha são os principais destinos.
Em 2012, calcula-se que Angola tenha recebido 30 mil portugueses, Moçambique, 5.000, e o Brasil, 2.171.
Além de Portugal, também Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Hungria e Romênia encolheram em 2011.
"A longo prazo, nenhum país consegue ter crescimento econômico forte com regressão demográfica; um país que perde população não tem dinamismo", diz Jorge Malheiros.
Segundo dados do Eurostat, Portugal tem a quarta maior porcentagem de população com 65 anos ou mais da UE ""19,4%. Perde apenas para Alemanha, Itália e Grécia.
"E os jovens são mais capazes de assumir riscos, de empreender, então, ao se perder jovens, perde-se capacidade de inovação no país", diz o demógrafo.
"A mobilidade de quadros é positiva, desde que eles voltem. Hoje não temos forma de atraí-los de volta", acrescenta José Cesário.
A taxa de desemprego de Portugal foi de 17,4% em junho. Mas entre os jovens (abaixo dos 25 anos) é bem mais grave --está em 41%.
"Portugal sempre foi um país de emigrantes --emigrar não dói, não aleija, e todos têm um emigrante na família", diz João Vasconcelos, diretor da Startup Lisboa, que reúne 40 empresas de alta tecnologia e estimula o empreendedorismo. "Mas agora é diferente: todos os melhores alunos, nossa elite, têm como primeira, segunda e terceira opção emigrar".

domingo, 26 de maio de 2013

Em Portugal, cortes criam fenômeno da pobreza instantânea


Em uma sala vaga nas garagens da empresa de ônibus de Lisboa, a comissão de trabalhadores arranjou aleatoriamente o básico: litros de leite, latas de sardinhas, pacotes de salsichas, potes de feijão-branco, macarrão e várias dezenas de pacotes cilíndricos de biscoitos, empilhados como troncos em uma serraria.
Há meses, os condutores de ônibus e de bondes de Lisboa doam e armazenam alimentos, não para associações de pobres ou campanhas beneficentes de bairros da periferia. Isto é mais simples e mais brutal: são para eles mesmos, para companheiros que, apesar de terem trabalho e um salário mensal, passam fome no fim do mês.
Os constantes cortes salariais que afetam sobretudo funcionários públicos em Portugal, os aumentos de impostos decretados a toda a população assalariada e a política de ajustes permanentes do governo do conservador Pedro Passos Coelho (pressionado pela troica), que corrói continuamente o país, faz que a imensa maioria desses trabalhadores - funcionários públicos, afinal - vão ao limite em seus gastos, alcançando o dia 31 do mês quase por milagre.

Em um flash

Assim, basta um revés qualquer, há alguns anos contornável (um divórcio, o desemprego do cônjuge, uma série de gastos imprevistos...), para se transformarem diretamente em pobres. Um exemplo de como a tateante classe média portuguesa se torna classe miserável de um dia para o outro, sem escalas intermediárias. Como no caso de Evaristo.
Evaristo Paulo é magro, alto, amável. Tem 38 anos, veste uma jaqueta preta de couro e trabalha como motorista de ônibus em Lisboa, oito horas por dia, cinco dias por semana. Usa o cabelo curto e um brinco na orelha. Tem uma filha de 6 anos. Um homem normal.
Há algumas semanas, sua chefe alertou a comissão de trabalhadores para lhes informar simplesmente que Evaristo passava fome e que deviam ajudá-lo, que talvez por desconhecimento ou por vergonha não havia procurado a sala dos pacotes de espaguete.
Há dois anos, Evaristo, que desde 2007 está na folha de pagamentos da companhia de ônibus de Lisboa, dependente diretamente do Estado, ganhava 1.100 euros por mês. Agora, devido às reduções salariais, não chega a 800. Divorciado, paga uma pensão e a cada 15 dias visita sua filha, que vive com a mãe em uma cidade situada a 150 km de Lisboa.
"Prefiro ficar sem comer do que sem gasolina para fazer essa viagem", explica. Um dos membros dessa comissão, Paulo Gonçalves, entrou em contato com ele. Desde então, quando Evaristo precisa, vai à sala da comida. Como muitos outros.
Gonçalves explica que implementaram o banco de alimentos no Natal, porque começaram a perceber que muitos companheiros estavam passando mal. "Há quem tenha mulher desempregada, sem receber auxílio-desemprego porque não tinha contrato, muitas trabalhavam em restaurantes que fecharam ou em lojas que não dão mais benefícios. Sei de cônjuges de companheiros que foram demitidos por uma mensagem de celular. As coisas estão assim", explica.
Desde o Natal já atenderam mais de 80 companheiros, em uma turma de cerca de 2 mil trabalhadores. Com uma caminhonete, cada semana um par de membros da comissão percorre diversas estações e garagens onde outros companheiros deixaram os alimentos, a fim de reuni-los todos nesta sala situada no bairro de Santo Amaro, perto do início da ponte 25 de Abril.

De 1.200 a zero

Os condutores, como todos os funcionários públicos portugueses, viram se volatilizar por decreto um de seus dois pagamentos extras anuais, e outro diluir-se em pagamentos mensais que por sua vez desapareceram devido aos impostos. Também foram eliminadas gratificações e complementos. O resultado é uma perda média de 300 a 400 euros por mês em salários mensais de 1 mil a 1.200 euros.
Há dois meses o Tribunal Constitucional português ditou que os pagamentos extras não podiam ser retirados e agora o governo estuda como aplicar a sentença enquanto se arbitram novas medidas alternativas para que a mudança não represente um empecilho no caminho draconiano para a meta de déficit definido pela Europa.
Nem Evaristo nem Gonçalves confiam muito em que lhes devolverão seu pagamento extra. Têm certeza de que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, encontrará outra fórmula jurídica para que esse dinheiro jamais chegue a seus bolsos. Passos Coelho também anunciou uma nova onda de cortes, que durarão três anos e afetarão, sobretudo, funcionários públicos e aposentados.
De modo que esses condutores, que sentem saudade de um passado remoto de condições trabalhistas toleráveis, abominam um presente de pesadelo e temem cada dia mais um futuro imprevisível.
Enquanto isso, acumulam latas e víveres não perecíveis na sala desocupada das garagens, sabendo que a loteria da má sorte e a desgraça que coube agora a Evaristo pode tocar amanhã qualquer outro.
"Às vezes levamos comida para a casa de alguém porque tem vergonha de que os outros companheiros os vejam pedir. Outros vêm aqui com suas mulheres e seus filhos, e isso nos parte o coração", conta Gonçalves.
Depois acrescenta, ao lado de uma pilha de latas de atum:
"Se trabalhando normalmente não dá para viver com um pouco de dignidade, então diga-me: o que estamos fazendo aqui?"
Reportagem de Anotonio Jiménez Barca, para o El País, reproduzida no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Com a crise financeira, família grega passa a viver com porções de macarrão


Como diretor de escola primária, Leonidas Nikas está acostumado a ver crianças brincando, rindo e sonhando com o futuro. Mas, recentemente, ele viu algo completamente diferente, algo que ele achava que era impossível na Grécia: crianças revirando o lixo da escola em busca de comida; jovens necessitados pedindo restos dos amigos; e um menino, trata-se de  Pantelis Petrakis, 11, contorcendo-se de fome.
"Ele não tinha comido quase nada em casa", disse Nikas, sentado na apertada sala da diretoria, perto do porto de Piraeus, um subúrbio da classe trabalhadora de Atenas, enquanto o som de uma corda de pular deslizava pelo pátio. Ele conversou com os pais de Pantelis, que estavam envergonhados e constrangidos, mas admitiram que não conseguiam encontrar trabalho há meses. Suas economias haviam acabado e eles estavam vivendo com porções de macarrão e ketchup.
"Nem nos meus pesadelos mais insanos eu imaginaria ver a situação em que estamos hoje", disse Nikas. "Chegamos a um ponto em que as crianças na Grécia estão chegando com fome na escola. Hoje, as famílias têm dificuldades não só para encontrar emprego, mas para sobreviver."
A economia grega está em queda livre, tendo diminuído 20% nos últimos cinco anos. O desemprego está em mais de 27%, o mais alto na Europa,  e 6 em cada 10 candidatos a emprego dizem que não trabalharam há mais de um ano. Essas estatísticas duras estão remodelando as vidas das famílias gregas que têm filhos, que cada vez mais estão chegando na escola com fome ou mal alimentados, até mesmo desnutridos, de acordo com grupos privados e o próprio governo.
No ano passado, cerca de 10% dos alunos gregos do ensino fundamental e médio sofreram com o que os profissionais de saúde pública chamam de "insegurança alimentar", o que significa que eles enfrentaram a fome ou o risco dela, disse Athena Linos, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Atenas, que também chefia um programa de assistência alimentar no Prolepsis, um grupo de saúde pública não governamental que estudou a situação. "No que diz respeito à insegurança alimentar, a Grécia agora caiu para o nível de alguns países africanos", disse ela.
Diferente das escolas norte-americanas, as escolas gregas não oferecem almoços subsidiados no refeitório. Os alunos levam sua própria comida ou compram-na numa cantina. O custo se tornou intransponível para algumas famílias com pouca ou nenhuma renda. Seus problemas aumentaram com as novas medidas de austeridade exigidas pelos credores da Grécia, incluindo impostos mais altos sobre a energia elétrica e cortes nos subsídios para famílias grandes. Como resultado, pais desempregados estão vendo suas economias e benefícios desaparecem rapidamente.
"Por toda minha volta ouço crianças dizendo: "meus pais não têm nenhum dinheiro. E não sei o que vamos fazer'", diz Evangelia Karakaxa, uma adolescente alegre de 15 anos na escola de segundo grau em Acharnes.
Acharnes, uma cidade de classe trabalhadora entre as montanhas de Ática, era bastante movimentada com a atividade de importação até que a crise econômica dizimou milhares de empregos nas fábricas.
"Agora, vários colegas de classe de Evangelia estão frequentemente com fome", diz ela, e um menino recentemente desmaiou. "Algumas crianças estavam começando a roubar comida. Aqueles que estão bem alimentados nunca vão entender aqueles que não estão", declarou.
"Nossos sonhos foram esmagados", acrescentou Evangelia, cujos pais estão desempregados, mas não estão na mesma situação calamitosa de seus colegas. Ela fez uma pausa, depois continuou em voz baixa. "Dizem que quando você se afoga, sua vida passa diante de seus olhos. Minha sensação é essa na Grécia, estamos nos afogando em terra firme."
Alexandra Perri, que trabalha na escola, afirmou que pelo menos 60 dos 280 alunos sofrem de desnutrição. Crianças que antes tinham doces e carne agora falam em comer macarrão, lentinhas, arroz ou batatas. "O que há de mais barato", disse Perri.
Este ano o número de casos de desnutrição deu um salto. "Há um ano, não era assim", disse Perri, lutando para conter as lágrimas. "O que é assustador é a velocidade com que isso está acontecendo."
O governo, que inicialmente rejeitou os relatórios, considerando-os exagerados, reconheceu recentemente que precisava "resolver o problema da desnutrição nas escolas". Mas com as prioridades voltadas a reembolsar fundos de resgate, há pouco dinheiro nos cofres para lidar com a situação.
Nikas, o diretor, disse que sabia que o governo  estava trabalhando para consertar a economia. Agora que a ideia de a Grécia sair da zona euro desapareceu, as coisas parecem melhores para quem vê de fora. "Mas diga isso para a família de Pantelis", disse ele. "Eles não sentem essa melhora em suas vidas."
No apartamento escuro da família perto da escola, Themelina Petrakis, mãe de Pantelis, abriu a geladeira e armários num fim de semana recente. Dentro, havia pouco mais do que algumas bisnagas de ketchup e outros condimentos, alguns pacotes de macarrão e sobras de uma refeição que ela recebeu da prefeitura.
A família estava indo bem e até ajudando outras pessoas necessitadas até o ano passado. Ela conseguia pagar um apartamento espaçoso com uma televisão de tela plana.
Em seguida, seu marido, Michalis, 41, foi demitido do emprego no setor de transporte de mercadorias em dezembro. Ele disse que a empresa já não pagava seu salário cinco meses antes disso. O casal não podia mais pagar aluguel, e em fevereiro ficou sem dinheiro.
"Quando o diretor telefonou, eu tive que dizer a ele, 'não temos comida'", disse Petrakis, 36, acariciando a cabeça de Pantelis enquanto olhava para o chão.
Petrakis disse que se sentia impotente depois de ter fracassado em encontrar emprego repetidas vezes. Quando a família começou a ficar sem comida, ele parou de comer totalmente, e perdeu peso rápido.
"Quando eu estava trabalhando no verão passado, eu jogava fora o pão que sobrava", disse ele, com lágrimas correndo pelo rosto. "Agora, sento-me aqui com um conflito interno, tentando descobrir como vamos viver."
Quando a fome chega, Themelina Petrakis tem uma solução. "É simples", disse ela. "Você tem fome, fica com tontura, e dorme até passar."
Um relatório de 2012 da Unicef mostrou que entre os lares mais pobres com filhos da Grécia, mais de 26% tinha uma "dieta economicamente fraca". O fenômeno atingiu mais duramente os imigrantes, mas está se espalhando rapidamente entre os gregos das áreas urbanas, onde um ou ambos os pais estão permanentemente desempregados.
Nas áreas rurais, as pessoas podem pelo menos cultivar alimentos. Mas isso não é suficiente para erradicar o problema. A uma hora de carro a noroeste de Atenas, na cidade industrial de Asproprigos, Nicos Tsoufar, 42, olhava distraidamente para frente ao se sentar na escola média que seus três filhos frequentam. A escola recebe merenda de um programa do grupo de saúde pública Prolepsis. Tsoufar disse que seus filhos precisam desesperadamente da merenda.
Ele não encontra trabalho há três anos. Agora,  sua família está vivendo no que ele chama de "uma dieta à base de repolho", que ele complementa com caracóis encontrados nos campos próximos. "Eu sei que não dá para suprir as necessidades nutricionais com repolho", disse ele amargamente. "Mas não há alternativa."
O governo e grupos como Prolepsis estão fazendo o que podem. No ano passado, o Prolepsis iniciou um programa piloto que fornecia sanduíches, frutas e leite em 34 escolas públicas, onde mais da metade das 6.400 famílias participantes disseram que estavam vivenciando "fome média ou grave".
Depois do programa, essa porcentagem caiu para 41%. Financiado por uma doação de US$ 8 milhões da Fundação Stavros Niarchos, uma organização filantrópica internacional, o programa foi ampliado este ano para cobrir 20 mil crianças em 120 escolas.
Konstantinos Arvanitopoulos, ministro da Educação da Grécia, disse que o governo havia garantido financiamento da União Europeia para providenciar frutas e leite nas escolas, e vales alimentação para pão e queijo. Ele também está trabalhando com a Igreja Grega Ortodoxa para fornecer milhares de cestas básicas. "É o mínimo que podemos fazer nesta difícil situação financeira", disse ele.
Nikas, diretor da escola de Pantelis, tomou a questão em suas próprias mãos e está organizando esforços para angariar fundos para a alimentação na escola. Ele está irritado com o que vê como uma ampla negligência da Europa para com os problemas da Grécia.
"Não estou dizendo que devemos apenas esperar que os outros nos ajudem", disse ele. "Mas ao menos que a União Europeia aja como esta escola, onde as famílias ajudam umas às outras porque somos todos uma grande família, estamos perdidos". 

Reportagem de Liz Aldemann, com colaboração de Dimitris Bounias, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradução de Eloise de Vylder.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

'Cidades de tendas' se espalham pelos EUA


'Cidades de tendas' se espalham pelos EUA

Já são cem no país, reflexo da crise econômica; aumento da pobreza é um dos temas da campanha presidencial
Governo estima que haja 244 mil sem-teto morando nas ruas ou em tendas; vagas em abrigos diminuíram

A menos de 80 km dos milionários apartamentos da Quinta Avenida em Nova York, um grupo de 90 desempregados mora em barracas compradas no Walmart, sem luz e água, fazendo xixi em penico e tomando banho em bacias, no meio de um bosque.
Lakewood, em Nova Jersey, é uma das cerca de cem "tent cities" (cidades de tendas) que surgiram nos EUA desde o início da crise, em 2008.
Muitos dos que vivem assim perderam as casas por não pagarem hipotecas ou ficaram na rua depois de serem demitidos e atrasar o aluguel.
Nos EUA, tornaram-se o rosto mais visível do crescimento da desigualdade, um dos temas mais quentes da eleição de amanhã entre Barack Obama e Mitt Romney.
É gente como Marilyn e Michael Berenzweig, casal de NY que mora em Lakewood há dois anos e meio.
Marilyn, 62, trabalhou 35 anos como designer têxtil e ganhava US$ 100 mil por ano. Perdeu o emprego em 2009.
Casada há 42 anos com Michael, 63, foi morar com a filha no Queens. Depois de uma briga com ela, se viram na rua.
Sem dinheiro para aluguel -os dois ganham US$ 1.800 por mês de aposentadoria para pagar tudo, inclusive convênio médico, que sai mais de US$ 500 por pessoa- foram parar em Lakewood.
Ela divide uma barraca com o marido, o gato e alguns dos passarinhos que trouxeram.
"É difícil se manter limpo por aqui, e essas galinhas andando por toda a parte não ajudam", disse Marilyn.
Ela fez um buraco na terra para conservar a comida, já que não tem eletricidade. "Gostamos de morar no mato, mas nunca imaginamos que fôssemos parar aqui."
O casal ainda mantém hábitos de sua vida passada. Marilyn continua lendo o "New York Times" -mas só aos domingos. "Depois uso o jornal para forrar a gaiola dos passarinhos, a qualidade do papel é ótima para isso."
Ao mesmo tempo em que a crise levou a um aumento no número de desempregados, as vagas em abrigos diminuíram, diz Eric Tars, do Centro Nacional de Direito em Pobreza e Falta de Moradia, que fez estudo sobre as "tent cities" com a Universidade de Yale.
Obama implementou programas de ajuda aos sem-teto, mas governos estaduais e municipais cortaram o orçamento na crise. Segundo o Departamento de Habitação dos EUA, há hoje 243.701 sem-teto morando nas ruas ou barracas, e 392.316 em abrigos.
"O número de pessoas na rua deve aumentar porque muitas estão dormindo no sofá de amigos e familiares e não vão poder ficar nessa situação por muito tempo", diz Tars.
A situação econômica também não deve melhorar tão cedo. Hoje, existem 12,1 milhões de desempregados no país -mas gente como Marilyn nem entra na estatística, porque desistiu de procurar.

TEMPESTADE E NEVE

A situação em Lakewood é precária. A tempestade Sandy destruiu dez barracas. No inverno, eles chegam a receber 30 centímetros de neve.
"Antes, a maioria dos sem-teto tinha problema de alcoolismo ou drogas; agora, a maioria deles é simplesmente pobre que não consegue emprego", diz o pastor Steve Brigham, 52, o "prefeito" de Lakewood.
O local surgiu com um grupo de três mendigos há cerca de cinco anos. Com a crise de 2008, o número de pessoas aumentou muito. "Hoje, recebemos três pessoas por semana", conta o pastor.
Segundo o estudo de Yale, há hoje "tent cities" em 41 Estados -a maior parte na Flórida e na Califórnia.
"Este é o país mais rico do mundo e nós estamos vivendo aqui nesta favela, sem acesso a assistência médica. Alguma coisa está muito errada", diz Angela Spencer, 47, há dois meses no local. Ela trabalhou 22 anos na área de saúde, mas hoje vive de aposentadoria por invalidez.
Sua amiga, a enfermeira desempregada Karen Henderson, concorda. "A gente vê na TV os pedidos de doação para crianças na África, mas e a gente aqui?"
Algumas pessoas têm direito a 12 meses de estadia paga pelo governo em um motel, até que possam arcar com um aluguel. "Mas aqui perto a oferta de quartos com aluguéis baixos é muito pequena", diz o pastor.
Há um gerador no centro do acampamento, em que as pessoas carregam celulares, e uma televisão. O local tem também um chuveiro adaptado, mas muitos preferem tomar banho de toalha molhada nas barracas. Todos vivem de comida doada por igrejas e entidades.
"Queremos que o governo construa um abrigo aqui perto ou que aumente a oferta de aluguéis baixos. Até lá, muita gente vai ter que morar em barracas", diz o pastor.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Açoitada pela crise, classe média recorre à ajuda do serviço social espanhol


"Papai, eu te ajudo". "Eu também". Quatro mãozinhas carregam os pacotes. Macarrão, arroz, latas de tomate. As crianças deixam as embalagens na sacola do supermercado. Mas este, com sua grande e lenta fila, não é um supermercado: é a distribuição gratuita de alimentos para quem não consegue se sustentar até o fim – ou até o meio – do mês. Embora possa lembrar um mercado. As caixas que entregam as provisões são voluntárias da Cruz Vermelha. O cenário, uma casa pré-fabricada de um subúrbio de Madri, Três Cantos. Os clientes, sobretudo espanhóis de classe média arrasados pelo desemprego e pelos salários baixos, saem com o carro cheio para casa. Como se voltassem do supermercado. Como qualquer outro vizinho.
"É humilhante, mas não há mais remédio", diz Nieves, 55, com a sacola cheia de mantimentos. Acaba de estrear o serviço da ONG, que distribui alimentos uma vez por mês aos moradores do município de 41.147 habitantes. Três Cantos brilha nas estatísticas: 8% de desemprego, renda média entre as mais altas de Madri e cerca de 60% de universitários. Mas ilustra a queda da classe média.
"Estou separada e tenho um filho de 18 anos. Meu marido me repassava 1.200 euros por mês para o menino e para mim até um ano atrás, mas agora ele está numa situação ruim, não pode mais. Cheguei numa situação na qual não tenho o que comer", explica a mulher que pede para não revelar seu nome verdadeiro. Uma dona de casa – "nunca trabalhei porque não precisava" - que "nunca" havia pisado num serviço social. Isso até o mês passado, quando Nieves colocou os pés pela primeira vez no barracão-supermercado a meio caminho dos chalés geminados, escritórios elegantes e blocos de apartamento que costumam ter piscinas.
"Sinto-me mal por ter que vir aqui, como um pobre que se põe a pedir. Mas por meu filho eu mato, como diz Belén Esteban". O filho é estudante e, segundo a mãe, "não tem uma situação ruim". "Tem seu computador com alguns jogos. Diverte-se com os amigos... Desde pequeno ensinei-lhe a ser austero", afirma a mulher com algum alívio. Para Nieves, cujas economias são só uma lembrança longínqua, é uma tranquilidade ter um apartamento próprio. Embora deva "muito" de condomínio. "Os vizinhos me conhecem há muito tempo. Sabem como estou e não me pressionam". Mas os gastos fixos da casa chegam a 400 euros por mês. E, além disso, não havia leite na distribuição.
Acabou-se para as 19 das famílias que recolheram seu lote nesta terça à tarde. São uma pequena parte das 200 – agrupam cerca de 600 moradores de Três Cantos, calcula o presidente da Cruz Vermelha local, José Chai – que se beneficiam do abastecimento gratuito. "60% são espanhóis. São os únicos que aumentaram, e muito, nos últimos tempos. Boa parte dos imigrantes parte em busca de uma moradia mais barata", detalha Chai. "São da classe média, muitos com diploma universitário", descreve.
"Pessoas que ganhava até 3 mil euros por mês com dois salários, que ficaram sem ingressos e com hipoteca ou aluguel para pagar e filhos para manter", acrescenta Yolanda Cagigal, assistente social do centro. Pessoas que com frequência "escondem os alimentos nas sacolas do Carrefour para fingir que foram fazer compras", que gastam as economias antes de dar um passo que desconhecem: recorrer à assistência social, afirma Chai. "Não sabem como pedir ajuda, não estão acostumadas. Chegam quando já não podem mais."
Como Juan Carlos e sua mulher, Jafi. Carregam os mantimentos no carro, o ícone dos tempos melhores, cujo financiamento conseguiram renegociar no banco até os 100 euros por mês. "Só coloco 20 euros de gasolina, e quando posso", esclarece o jovem. Ele tem um trabalho, mas pior do que o anterior. Ela vive do seguro desemprego. As coisas começaram a complicar há quatro anos: a queda até juntar, entre os dois, "menos de mil euros". E com dois filhos para sustentar, de cinco e sete anos.
"Saio procurando trabalho toda manhã e volto com as mãos vazias", diz Jafi. Com "oito euros" no porta-moedas, tem os cálculos justos. "Em junho paro de pagar a merenda para as crianças, porque não há bolsa e o serviço custa 162 euros para os dois". O próximo corte será acabar com o futebol do menino: 325 euros por ano. Mas ele entenderá: "eles sabem o que está acontecendo, que não temos muito dinheiro". "É preciso ir em frente pelos filhos", diz Jafi com um sorriso, embora o ânimo caia às vezes.
O casal espanhol dá a partida na minivan enquanto Eva – nome fictício – carrega sua bolsa. Pesa menos do que a média – situada em 16,5 quilos-, porque ela mora sozinha. A contra gosto. Divorciada, 45 anos, três filhos. "Eles estão com o pai, que tem um bom salário, porque eu não consigo mantê-los". Esta madrilenha que deixou o emprego depois de ter seu último filho, que "sempre viveu sem apuros", trabalha agora de assistente a duas horas de distância. Contas que não são pagas e que, há seis semanas, levaram-na a pedir ajuda – "já estava nas últimas" - e também a se transformar em voluntária da Cruz Vermelha. "Gosto de ajudar as pessoas. Não posso ficar parada em casa". Assim ela dá uma ajuda com o computador. E se sente útil ao "devolver algo que recebe". Um bálsamo para "a dor da humilhação" que sente diariamente.
O caminho inverso aconteceu com Beto, 55. Quando ficou desempregado como auxiliar de segurança, este peruano se aproximou para ajudar no barracão da Cruz Vermelha. Ele conduz o transporte adaptado que transfere as pessoas com dificuldades de locomoção às consultas médicas. "Vim ajudar e quando a coisa ficou apertada e as economias acabaram, pedi ajuda", relata este universitário que vive com o seguro desemprego e acredita que não vai mais encontrar emprego "por culpa da idade". "Não paro de enviar currículos, e nada. As empresas não querem gente com mais de 45 anos e o político quer nos pagar a pensão só com 80". Em sua casa, com três filhos e dois adultos, só a mulher – espanhola – trabalha: 900 euros para todos. "Pelo menos o apartamento é próprio", suspira Beto.
Na fila dos alimentos também há empresários que quebraram. Como Liliana e seu marido, cuja firma de construção "foi à falência por inadimplência". Esta colombiana de cerca de quarenta anos é a única da casa que trabalha, de garçonete. "Mas meu salário não é suficiente." Uma renda de 800 euros para um aluguel de mil num apartamento onde ela subloca um quarto. "O aluguel é a primeira coisa que pagamos e depois, o que podemos. Se é a luz, não é a água, nem o gás." "Estou acostumada a lutar na vida, mas meus filhos estão aterrados e procurando trabalho." Um trabalho que está cada vez mais escasso. Um trabalho cuja falta multiplica as filas para receber alimentos. Também nas áreas acomodadas. Três Cantos já não tem mais só uma quinzena de famílias – desestruturadas, imigrantes em apuros ou etnia cigana -, como há uma década. A classe média também está na fila. Como se voltasse do supermercado. Como sempre. Quase.
Tradutor: Eloise De Vylder
Reportagem de Charo Nogueira, no El País, reproduzida no UOL.

sábado, 2 de junho de 2012

Bulgária enfrenta grave crise demográfica na era pós-comunista


Bulgária enfrenta grave crise demográfica na era pós-comunista

Especialista afirma que, no ritmo atual, população desapareceria em 300 anos
Vinte e dois anos após o fim do regime comunista no país, a Bulgária enfrenta uma série crise demográfica, agravada pelo envelhecimento populacional. As razões explicadas para esse fenômeno, segundo especialistas ouvidos pelo site Prensa Latina são o forte fluxo migratório e a precária situação econômica, agravada pela crise da União Europeia, bloco o qual integra desde 2007.

Em 1989, a população do país era de 9,009 milhões de habitantes. Três anos depois, cai dramaticamente para 8,487 milhões. Em 2001, ela caiu para 7,932 milhões e, dez anos depois, segundo o último cálculo, está em 7,364 milhões de residentes em suas fronteiras. Ou seja, em 23 anos, os habitantes diminuíram em 1,7 milhão de pessoas. Atualmente, a Bulgária possui a mesma população que totalizava na década de 50.

De acordo com dados oficiais da Comissão Europeia, aos dígitos negativos da população soma-se também a questão do envelhecimento demográfico: a porcentagem de pessoas maiores de 65 anos de idade aumentou 18,5% em 2011, enquanto há uma década tal índice era de 16,8%. Ao mesmo tempo o número de menores de 15 anos caiu de 15,3% para 13,2% no total da população.

Em consequência, se em 1990 as búlgaras em idade fértil somavam pouco mais de duas milhões, em 2010 diminuíram para 1.757.000, segundo indicam os dados estatísticos.

Com os salários e pensões mais baixos na Europa, e seu consequente encolhimento do consumo, a pobreza que afeta 25% dos búlgaros move os jovens a olhar aos países como opções para melhora de vida. Aproximadamente 500 mil búlgaros residem nos países da zona euro, segundo a CE. Dentre eles, 32% na Espanha, 15% no Reino Unido e 13% na Alemanha.
Internacionalmente, estipula-se que a taxa de fertilidade ideal para um país seja de 2,2 crianças nascidas por mulher para a ocorrência de um crescimento populacional positivo. Os números populacionais búlgaros, embora modestos, mostravam uma ligeira melhora a longo prazo: de 1,4 em 2007 para 1,7 em 2050. Mas essa tendência pode sofrer um revés com o aumento do impacto da crise, reconhece a diretora do Instituto Nacional de Estatísticas, Mariana Kótseva. Ela afrmou que tal tendência poderia ser invertida se as condições econômicas no país melhorarem.
Para o caso da Bulgária, a alta taxa de desemprego, estipulada em 11,4% (ou 380 mil trabalhadores) constitui atualmente a principal preocupação econômica do país. Outro dado alarmante é o índice de desocupação juvenil, de 28,9%. As duas taxas estão em tendência de crescimento.

Como agravante, a Bulgária é o segundo pior país na União Europeia em índices de mortalidade infantil, na frente apenas da Romênia, com 9,4 mortes a cada mil nascidos vivos, mais do dobro da média da UE (4,3 a cada mil nascidos vivos).

Segundo os prognósticos, em 2015 os menores de 14 anos de idade contabilizarão 994 mil. E se a tendência de envelhecimento perdurar, em 2050, esse número será reduzido drasticamente para 720 mil, enquanto a população terá caído para 5,5 milhões.

Outro indicador que incide no envelhecimento é o aumento da idade a que uma mulher dá à luz a seu primeiro filho. Em 1995, esse índice era de 22 anos. Hoje, subiu para 26. Conforme dados oficiais, um quarto das mulheres entre 30 a 34 anos de idade e pouco mais de 16% das compreendidas na faixa de 35 a 39 anos jamais tiveram filhos.

“São estremecedoras as cifras relativas a nosso desenvolvimento demográfico. Os jovens não têm pressa para se casarem e adiam o nascimento dos filhos”, afirma o especialista em medicina social Totiu Naidenov e redator-chefe do jornal búlgaro Médico. "Há muito tempo alertopara isso. Já em 1988, publiquei um de meus livros intitulado “Os filhos dos quais não podemos prescindir”, no qual chegava a demonstrar que, dentro de 300 anos, morrerá o último búlgaro", indicou Naidenov.

Durante as primeiras nove décadas do século XX, a Bulgária só perdeu população em 1913, quando enfrentou as Guerras Balcânicas, e entre 1917 e 1918, anos finais da Primeira Guerra Mundial, quando o Estado do leste europeu foi derrotado. Mas em 1990, ano da volta das eleições multipartidárias, o país voltou a retomar irremediavelmente a demografia negativa.

Texto do Opera Mundi.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Por "fim digno", aposentado se mata em praça pública na Grécia


Por "fim digno", aposentado se mata em praça pública na Grécia

Farmacêutico de 77 anos disse não ter forma de lutar contra crise

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Um aposentado grego de 77 anos se suicidou ontem nas proximidades do Parlamento do país, dizendo ser esse o único "fim digno" possível para ele, numa Grécia que atravessa severa crise.
"Não quero deixar dívidas para os meus filhos", gritou, segundo testemunhas, antes de atirar na própria cabeça, debaixo de uma árvore.
A mídia local o identificou como Dimitris Christoulas, um farmacêutico aposentado, e divulgou uma nota escrita à mão deixada por ele.
No bilhete, ele explicava seus motivos e previa que, no futuro, os jovens gregos sem perspectivas usarão armas para se defender.
"Dado que não tenho idade que me permita responder ativamente (ainda que fosse o primeiro a seguir alguém que tomasse um [fuzil] Kalashnikov), não posso encontrar nenhuma forma de luta, exceto um fim digno antes de ter de começar a procurar comida no lixo", diz o texto.
O suicídio do farmacêutico tomou de imediato o debate público na Grécia, onde uma em cada cinco pessoas está desempregada e sucessivos cortes de salários e pensões atingem os que têm emprego ou estão aposentados.
PROTESTOS
A movimentada praça Syntagma, onde Christoulas se matou -um ponto tradicional de protestos do lado oposto ao Parlamento-, encheu-se de flores, velas e bilhetes escritos à mão com condenações à crise e ao governo.
Estima-se que 1.500 pessoas tenham passado pelo local, convocadas pelas redes sociais. Reprimidos pela polícia, protestos e manifestações também aconteceram em outras cidades gregas.
"Nesses tempos difíceis para nosso país, nós todos -Estado e cidadãos- deveríamos apoiar os que estão do nosso lado e em desespero", disse, em nota, o primeiro-ministro Lucas Papademos.
O líder socialista Evangelos Venizelos classificou o episódio de tão monstruoso que tornava "irrelevante e vão qualquer comentário político". Segundo os dados mais recentes disponíveis, suicídios na Grécia aumentaram 18% desde 2010. Apenas em Atenas, a alta foi de 25%.
Segundo o "New York Times", antes da crise, a Grécia tinha a taxa mais baixa de suicídios da Europa: 2,8 a cada 100 mil habitantes, ou pouco mais de 300 ao ano.
Ainda segundo a mídia grega, o farmacêutico, em sua nota, se referia ao governo como "governo de ocupação de Tsolakoglou".
Georgios Tsolakoglou foi primeiro-ministro colaboracionista durante a ocupação da Grécia pela Alemanha nazista na 2ª Guerra Mundial.
A menção é mais um termômetro da ira grega contra os alemães por conta do papel determinante do governo Merkel na imposição das medidas de austeridade ao país.
A adoção de um drástico pacote de cortes e privatizações foi a condição da "troica" (a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) para socorrer a Grécia.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Avanço da crise econômica arrocha a classe média grega


Avanço da crise econômica arrocha a classe média grega

Por RACHEL DONADIO

ATENAS - Sentada na modesta sala de estar da casa que divide com os pais, o marido e os dois filhos adolescentes, Stella Firigou se preocupava com a situação da sua família em meio à crise econômica generalizada. Mas quanto a uma coisa ela estava irredutível: não irá pagar o novo imposto sobre propriedades imobiliárias, aprovado em 27 de setembro, e que é a peça central de um pacote de austeridade do governo grego.
"Não tenho como pagá-lo", disse Firigou, 50. "Podem me prender."
Enquanto os bancos e os líderes europeus discutem abstratamente sobre os impactos da eventual moratória grega, algo assustadoramente concreto acontece na Grécia: o desmonte em tempo real de um Estado do bem-estar para a classe média.
Desde 2010, o governo eleva impostos e corta indistintamente aposentadorias e salários de servidores, num esforço para enxugar o setor público que hoje emprega um em cada cinco gregos.
Funcionária de um governo municipal, Firigou, como todos os empregados do setor público, sofreu uma redução salarial no ano passado -no seu caso, seu contracheque foi de US$ 2.000 para menos de US$ 1.300 por mês.
Seu marido, vendedor de autopeças, viu suas comissões despencarem. A aposentadoria da mãe dela foi cortada.
O novo IPTU, provavelmente superior a US$ 2.000 por ano para a família Firigou, será uma mordida dura. Além de reduzir os salários, nos últimos meses o governo também adotou um "imposto solidário", no valor de 1% a 4% da renda de todos os trabalhadores, além de um imposto adicional sobre os autônomos, que compõem grande parte da atividade econômica.
Também aumentou de 13% para 23% o imposto sobre o valor agregado de muitos serviços e produtos, inclusive dos alimentos. Não é raro que até funcionários do setor privado sofram reduções salariais de 30% ou mais.
A "troika" de credores internacionais -o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional- insiste que o governo grego cumpra suas metas de redução de déficit antes da liberação de uma parcela de US$ 11 bilhões na ajuda ao país.
Muitos gregos temem uma espiral mortal de novas medidas de austeridade, mais contração econômica e consequentemente menos arrecadação tributária, o que dificultaria a redução da dívida, levando o país à moratória.
Economistas dizem que as medidas são necessárias para reduzir a dívida e modernizar a economia grega. Mas os cortes foram muito mais rápidos que a modernização, e o tecido social está começando a se esgarçar.
O índice de desemprego, que já chega a 16%, e a emigração estão crescendo; a taxa de natalidade está caindo; e a cifra de suicídios está aumentando.
"O governo está cada vez mais em guerra com os cidadãos", disse o economista Jens Bastian, da Fundação Helênica para a Política Europeia e Externa. "Ele está tomando decisões cujas consequências vêm não só arrochando a classe média como também ameaçando sua própria existência."
O governo diz que espera arrecadar US$ 2,7 bilhões com o novo IPTU. Segundo a Fundação Helênica da Propriedade Imobiliária, o imposto custará de US$ 1.200 a US$ 2.000 adicionais por ano para uma família, em média.
O primeiro-ministro George Papandreou implorou aos gregos para que aceitem as medidas. "Não há outro caminho", afirmou. "O outro caminho é a falência, o que também teria pesadas repercussões para cada lar, para cada cidadão grego."
Críticos dizem que o governo tem fracassado em coibir a evasão fiscal entre os segmentos mais ricos, e que não realizou cortes mais focados para não se indispor com alguns sindicatos do setor público que são muito ligados ao governista Partido Socialista. E, apesar da sangria, o país não está cumprindo as suas metas de redução do déficit.
Segundo dados divulgados em 22 de setembro, a arrecadação líquida nos sete primeiros meses do ano foi US$ 4,7 bilhões abaixo da meta, e os gastos superaram a previsão em US$ 1,35 bilhão.
De volta à sua sala de estar, Firigou disse que foi apanhada de surpresa pelas mudanças.
"Ninguém nos alertou", afirmou, desolada. "Não tenho esperança, nem para mim, nem para os meus filhos, e olhe que eu tenho só 50 anos de idade."
Niki Kitsantonis contribuiu com reportagem