sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Lula está certo sobre Gaza e não é antissemita


Desde que Lula evocou o Holocausto para denunciar a destruição de Gaza por Israel, a grande mídia brasileira se uniu, com raras exceções, para condená-lo. Na segunda-feira (19) à noite, o jornalista William Waack afirmou na CNN Brasil que a declaração de Lula "ofende judeus no mundo inteiro".

Deixando de lado a incongruência que é ver William Waack se colocar como vigilante da intolerância e fiscal do que se pode dizer no discurso público, a pergunta que faço é: com base no que ele se coloca como porta-voz dos "judeus no mundo inteiro"?

É verdade que a declaração de Lula enfureceu o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que declarou Lula "persona non grata" em Israel. Mas equiparar o governo de Israel a "judeus no mundo inteiro" não é só falso, é também antissemitismo.

Como todos os grupos, os judeus não são um monolito. Qualquer pessoa que, como eu, tenha crescido numa família judaica e imersa nessas tradições sabe que o grupo passa longe de ser homogêneo. Há dentre os judeus discussões e divergências sobre os mais diversos assuntos, inclusive o Estado de Israel, o tratamento desumano dispensado aos palestinos e a abjeta imoralidade da destruição de Gaza.

Um mês antes do ataque do Hamas de 7 de outubro, o ex-chefe do Mossad, agência de inteligência israelense, Tamir Pardo —indicado por Netanyahu— afirmou que Israel impõe "uma forma de apartheid aos palestinos". Muitos líderes Israelenses, incluindo o ex-primeiro Ministro Ehud Barak, já disseram o mesmo.

O jornalista judeu brasileiro Breno Altman vem repetidamente comparando as ações de Israel em Gaza ao nazismo, ao ponto de estar sendo investigado pela Polícia Federal por expressar sua visão. Um grupo de judeus brasileiros, conforme relatado pela Folha, emitiu uma nota para defender as declarações de Lula.

Nesta semana, a escritora judia russa Masha Gessen recebeu o Polk Award, o segundo prêmio mais importante no jornalismo dos EUA, por seu brilhante ensaio na revista New Yorker intitulado "Na Sombra do Holocausto". No texto, Gessen aponta como o Holocausto é frequentemente evocado para silenciar as críticas aos crimes de guerra de Israel.

Gessen cita a filósofa Hannah Arendt, judia que em 1948 comparou grupos sionistas extremistas ao Partido Nazista, tanto em sua mentalidade quando em suas táticas —isso tudo menos de três anos depois do fim da Segunda Guerra.

No mesmo ano, o físico judeu Albert Einstein e outros importantes intelectuais judeus publicaram uma carta comparando os métodos de atuação de Menachem Begin, o terrorista sionista que se tornaria depois primeiro-ministro de Israel, aos dos nazistas.

Em seu artigo, Gessen documenta como os intelectuais judeus mais importantes do pós-guerra insistiam que as lições do Holocausto deveriam ser aplicadas universalmente, e que nenhum país ou grupo, sionistas inclusive, deveria se furtar de absorver esse aprendizado.

Gessen então descreve como, visitando os museus do Holocausto pelo mundo, se lembrava do sofrimento da população de Gaza nas mãos de Israel.

Sabendo então dessa enorme pluralidade no seio da comunidade judaica, como explicar a pretensão de uma pessoa como William Waack, que, como a grande maioria da mídia brasileira, se sente no direito falar em nome dos judeus e de impor limites às discussões sobre o Holocausto? E os judeus que rejeitam os ditames dos Netanyahu do mundo, quem falará por nós?

Equiparar as ações do governo de Israel à totalidade dos judeus do mundo é ofensivo. Todas as pesquisas mostram que o público israelense se voltou fortemente contra Netanyahu e espera ansiosamente para depô-lo. Há protestos contra ele, liderados por judeus israelenses, todos as semanas. São judeus muitos dos líderes mais vocais em suas denúncias de que a guerra em Gaza é um genocídio.

Mas há ainda um tema muito mais importante trazido à tona pela controvérsia: a quem pertence a memória do nazismo e da Segunda Guerra? Existe alguém com legitimidade para ditar como o Holocausto pode ser discutido, por quem, e com que agenda política? Existem países específicos cujas ações estão imunes, por algum motivo, às comparações com os piores abusos da Segunda Guerra? Se sim, essa imunidade se baseia em quê?

Quando a Segunda Guerra terminou e a real dimensão do Holocausto foi revelada, os países aliados, uma vez vencedores, decidiram não executar imediatamente os líderes nazistas. Em vez disso, foi realizado um processo jurídico transparente, conhecido como o julgamento de Nuremberg.

O objetivo era publicizar e legitimar o veredito —e, mais que isso, mostrar ao mundo as evidências das atrocidades cometidas pelos nazistas para, acima de tudo, estabelecer os princípios pelos quais os países deveriam se guiar no futuro.

O procurador-chefe dos EUA no julgamento, Robert Jackson, enfatizou em suas colocações iniciais que a maldade nazista se repetiria no futuro. "Esses prisioneiros nazistas representam uma influência sinistra que continuará no mundo mesmo depois que seus corpos retornarem ao pó."

Referindo-se às sentenças contra criminosos nazistas específicos, Jackson disse: "Se esse julgamento for ter alguma utilidade no futuro, deverá servir para condenar também a agressão de outras nações, inclusive as que aqui estão na posição de julgadoras".

Os horrores do Holocausto não foram uma lição sobre a maldade dos alemães ou a vulnerabilidade dos judeus. Foram uma lição sobre a natureza humana e a nossa capacidade para o mal, e como sociedades sofisticadas e educadas podem sucumbir a impulsos genocidas. Por isso, as sentenças proferidas em Nuremberg não podem dar a qualquer país, incluindo Israel, uma justificativa para suas próprias ações. Pelo contrário: os crimes do Holocausto não podem ser repetidos por nenhum país, nunca mais.

Os horrores da destruição de Gaza por Israel já estão visíveis para todos que quiserem ver. O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, prometeu no início da guerra: "Estamos impondo um cerco total a Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Tudo bloqueado". O motivo: "Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade".

Hoje podemos ver que essa promessa, bem como a ideia de que os palestinos são sub-humanos, não era blefe. Segundo relatório da ONU, de todas as pessoas do mundo que enfrentam a fome extrema, 80% estão em Gaza. Trata-de se uma crise humanitária sem paralelo, diz o texto. Há inúmeros casos, incontroversos e amplamente documentados, de crianças à beira da morte por fome.

Ao menos 29 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel começou a retaliação aos ataques do Hamas de 7 de outubro: 70% são mulheres e crianças. A destruição da vida civil em Gaza é pior do que qualquer guerra que o mundo tenha visto no século 21.

Mais bombas foram lançadas por Israel em Gaza, um território pequeno e densamente povoado, na primeira semana do conflito armado (cerca de 6.000) do que foram jogadas anualmente pelos EUA no Afeganistão, de 2013 a 2018 (nesse período, nenhum ano registrou mais de 4.400 bombas), segundo dados da Força Aérea israelense e da Central das Forças Aéreas dos EUA.

Ninguém, nem mesmo Lula, está sugerindo que a escala das mortes em Gaza seja comparável ao Holocausto. O que muitas pessoas estão dizendo —inclusive alguns dos intelectuais judeus mais proeminentes do mundo, como Masha Gessen— é que os mesmos princípios de desprezo pela vida e desumanização coletiva que culminaram no Holocausto estão também por trás da destruição de Gaza.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo. 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Hipócritas gentis infantilizam minorias porque elas são um bom negócio


Guerras culturais são sempre um bom negócio. Amadores discordam. São questões de vida ou morte, dizem eles, defendendo ou atacando pronomes neutros.

Os profissionais riem. Um deles, meu colega, explicou-me anos atrás que deixara temas clássicos —Espinosa e Leibniz— para se dedicar a temas de "interseccionalidade". No ranking das publicações, subiu ao pódio. Caso contrário, ainda estaria comendo pó.

É o mercado, estúpido! E o que é válido para a academia é válido para qualquer ramo de atividade. Se você pensa que a multinacional "X" ou "Y" tem convicções profundas quando abraça os temas "woke", você precisa fazer um exame neurológico. Sério.

É por isso que "American Fiction", o filme indicado ao Oscar, vem na altura certa. Suspeito que várias cabeças vão explodir quando assistirem à obra. Muitas explodiram quando leram o livro.

Mas, antes, uma confissão: sempre que alguém filma um romance de que gosto muito, eu tremo um bocadinho. Raramente me engano. Basta pensar no vandalismo a que foram submetidos todos os livros de Philip Roth pelo cinema.

Felizmente, isso não acontece com "American Fiction". O livro que inspirou o filme —"Erasure", de Percival Everett— está no top dez dos melhores romances americanos do século 21. O filme, pelo menos, não estraga. Para mim, basta.

No centro da história —atenção, spoilers— está Thelonious Ellison, que todos tratam por Monk, em homenagem ao grande pianista de jazz. Thelonious é um professor universitário e escritor. Também é negro, mas isso é secundário, pensa ele.

Pensa mal. Nas livrarias, os seus livros estão sempre na seção de estudos afro-americanos. Furioso, ele faz questão de os remover dessas estantes para os devolver, sem rótulos, à de ficção americana. Chega de segregação.

Além disso, o seu agente não consegue vender para nenhuma editora o mais recente romance de Ellison. Demasiado erudito. Escrito em inglês perfeito. Quem ele julga que é?

Um escritor branco?

As editoras, devidamente chefiadas por brancos, não admitem que um negro escreva livros sem os clichês do gueto. Querem linguagem chula, querem crack, querem rappers. Querem pobreza, querem polícia, querem mortes. Como diz o agente porto-riquenho, "querem se sentir absolvidos".

Ellison despreza esse fascínio mórbido dos brancos. É uma nova forma de exploração que persiste em reduzir os negros a uma caricatura tão insultuosa como as caricaturas dos tempos das leis de Jim Crow.

"Eu nem acredito em raça", diz ele. "O problema é que todos acreditam", responde o agente.

Thelonious medita nessas últimas palavras. E, só por piada, escreve o tipo de livro que faz sucesso entre os "racistas do bem". Sob pseudônimo, claro, porque o homem tem uma reputação a preservar.

Bingo! Uma grande editora faz uma proposta milionária para comprar os direitos. A piada virou coisa séria. O que fazer?

O agente, numa das melhores sequências do filme, põe três garrafas de uísque Johnnie Walker sobre a mesa. E explica: existe Johnnie Walker Red, Johnnie Walker Black e Johnnie Walker Blue.

Ele, Thelonious, será sempre um Johnnie Walker Blue, o melhor, o mais caro.

Mas as massas, para matarem a sede, compram Johnnie Walker Red, mais barato. Que mal tem ser um Johnnie Walker Red de vez em quando?

O livro é publicado com o belíssimo título de "Fuck". Bestseller imediato. Hollywood vem a seguir.

"American Fiction", tal como o romance de Percival Everett, é uma sátira primorosa ao paternalismo dos brancos. Conheço casos: hipócritas gentis que infantilizam as minorias porque são um bom negócio.

Que as supostas minorias tenham vidas normais, com alegrias normais, angústias normais ou amores normais, eis um pormenor demasiado burguês para quem prefere ver o mundo transformado em jardim zoológico. Cada um na sua jaula. Que pensarão as minorias disso?

Não posso falar por elas. Mas posso falar por Thelonious "Monk" Ellison, que supera a sua justa indignação e decide lucrar com a estupidez dos brancos. O cliente tem sempre razão, no fim das contas.

E, mesmo quando não tem, é ele quem paga as contas.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo. 

EUA são hipócritas ao atacar Rússia por violação de direitos humanos

 

Os seres humanos são tribais. O tribalismo moldou nossa evolução e, por isso, poucas coisas nos trazem mais prazer do que nos unirmos em torno de traços comuns —a nação, os partidos, a ideologia. Um de nossos prazeres é apontar os erros de tribos inimigas.

Esse tribalismo ficou em evidência nos Estados Unidos na última sexta-feira (16). A morte do opositor russo Alexei Navalni em uma prisão na Sibéria foi condenada por líderes norte-americanos de ambos os partidos: dos liberais Joe Biden, Hillary Clinton e Bernie Sanders à presidenciável republicana Nikki Haley e muitos senadores de direita.

A mensagem era clara: os EUA podem não ser perfeitos, mas pelo menos não perseguem e matam seus dissidentes como faz a Rússia. Essa é uma ilusão sedutora, que permite aos EUA se sentirem superiores.

A reação não foi de todo despropositada. Quando uma pessoa saudável é presa, fica doente na prisão e morre, é razoável imputar a culpa ao governo responsável pela prisão. Faria bem, aliás, que as autoridades brasileiras adotassem essa régua.

É, porém, difícil crer que as elites norte-americanas creiam nesses princípios elevados. Os EUA não só têm aprovado o assassinato de seus cidadãos por seus aliados estrangeiros como vêm fazendo de tudo para calar seus críticos mais ferozes.

Em maio de 2023, Gonzalo Lira, um cidadão chileno-americano, foi preso pela segunda vez por autoridades ucranianas. Lira morava na Ucrânia desde 2016, tendo-se casado com uma mulher ucraniana. O crime de Lira? Suas críticas ao presidente ucraniano Volodimir Zelenski e sua insistência em dizer que a Ucrânia e seu maior apoiador, os EUA, mentem sobre a guerra.

Ele foi preso acusado do crime de "disseminar desinformação pró-Rússia". Semanas antes de sua prisão, Lira publicou um vídeo implorando pela ajuda de seu governo, alertando que seria mandado para a prisão e que poderia ser morto pelos ucranianos.

No início do mês passado, o consulado dos EUA em Kiev informou que Lira, até então saudável, havia morrido em 11 de janeiro, de pneumonia, na prisão.

O pai de Lira, um economista chileno, me disse em entrevista na semana passada que os funcionários consulares se recusaram a ajudar seu filho e a dar qualquer informação sobre sua morte, tendo tampouco cobrado o estado ucraniano pela liberdade e vida de seu filho.

As semelhanças entre os casos de Navalni e Lira são gritantes. Ambos eram críticos dos governos que os prenderam e os deixaram morrer na prisão. No entanto, nenhum dos políticos americanos que agora condenam ruidosamente a Rússia mencionaram a morte de seu concidadão por seu aliado Zelenski.

Há também os inúmeros casos de cidadãos dos EUA mortos por Israel: um país financiado e armado, mas raramente criticado, pelos EUA. No ano passado, o Exército israelense matou a jornalista americana Shireen Abu Akleh, que vestia um colete de imprensa em Gaza.

As Forças de Defesa de Israel negaram qualquer relação com a morte, até que uma investigação atestou sua culpa. No mês passado, o Exército israelense matou um adolescente americano na Cisjordânia, Tawfic Abdel Jabbar. Nenhum representante americano condenou Israel pela morte de seus compatriotas.

Não se pode esquecer dos ataques dos EUA contra seus próprios Navalnis. Julian Assange está há quase quatro anos apodrecendo numa prisão inglesa, batalhando pela vida porque o governo dos EUA —primeiro sob Trump, e agora Biden— insiste na sua extradição e prisão pelo "crime" de expor crimes de guerra cometidos por Washington.

E, é claro, Edward Snowden, que continua sem poder sair da Rússia, procurado pelo crime de expor espionagem ilegal e inconstitucional por parte do governo do EUA.

Ainda que os norte-americanos prefiram continuar cegos, o resto do mundo pode ver que o governo dos EUA não segue os princípios que impõe ao resto do mundo.

Sempre que algum líder mundial é cobrado por jornalistas dos EUA ou do Reino Unido por ataques à liberdade de imprensa que teriam cometido, a réplica sempre lembra dos casos de Assange e Snowden para dizer que os EUA não têm credibilidade para criticar os outros países.

No Ocidente, a propaganda nos ensina que é uma cortina de fumaça quando os líderes estrangeiros apontam as hipocrisias dos EUA a respeito de direitos humanos. Argumentam que os EUA devem sim cobrar os outros países, mesmo que internamente pratiquem os mesmos abusos e violações de direitos.

No entanto, o que se convencionou chamar de cortina de fumaça é o verdadeiro teste. É sempre fácil criticar um governo estrangeiro do outro lado do mundo. Difícil é criticar o seu próprio lado.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo. 

sábado, 30 de dezembro de 2023

Fidalgos das Americanas deram o golpe de 2023 com hipocrisia e arrogância


Não teve para mais ninguém em 2023. Sem contestação, o trio de donos das Lojas Americanas abiscoitou sozinho o rol de 200 malas do ano. Palmas para Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Eles deram lições ao cubo de hipocrisia e arrogância.

Lava Jato, Petrolão, anões do Orçamento, caso Collor, cofre do Adhemar? Coisa de amadores. Não há nos anais das fraudes nativas um golpe do peso do arquitetado pelo trio e seu séquito de executivos vorazes e venais. Os fidalgos –abracadabra!– sumiram com R$ 40 bilhões.

Até 11 de janeiro, quando o elegante roubo-bomba estourou, o triunvirato das Lojas Americanas era tido como o suprassumo da modernice empresarial. "Ah, se o negocismo pátrio se espelhasse nos usos e costumes de Lemann, Sicupira e Telles", suspiravam os liberais de ponta.

Com a trinca de azes à testa da economia, ela seria um modelo de pujança. Não haveria o coitadismo da legislação trabalhista; setores cartelizados; subsídios dados de mão beijada a cupinchas por políticos, essa gentinha malacafenta. Para os "Americanos", só valiam o realismo e o mérito.

Por realismo entenda-se tsunamis de demissões de quem não "performasse"; a fixação de metas insensatas; a cobrança de resultados de chicote na mão; o atraso metódico e meticuloso do pagamento de fornecedores, o corte dos custos mais comezinhos.

E por mérito compreenda-se a criação de uma casta de capitães-do-mato fantasiados de diretores, damas e cavalheiros com MBA no exterior e sem qualquer laivo de humanidade. A eles cabia açoitar os remadores das galés de "Ben-Hur".

O marketing em benefício próprio era essencial aos morubixabas das Americanas. Eles fizeram com que acólitos produzissem livros e reportagens que, corajosamente, os enalteciam. Não bastava aos nababos serem os homens mais ricos do Brasil.

Queriam ser amados.

Daí brotou a ladainha, entoada 40 bilhões de vezes, que Lemann jogava tênis e dava bolsas para bugres irem a Harvard. Que Telles era sensível e amava as artes. Que Carlos Alberto Sicupira preferia ser chamado de Beto e se dizia entendido em segurança pública.

Ai de quem ousasse duvidar das loas aos sultões de sapatênis, tão gente como a gente. Os que dissessem o óbvio –que se tratava de mata-mouros empenhados na acumulação primitiva– eram logo rotulados de invejosos, ressentidos, tipinhos à toa e sem conserto, que nojo.

Veio o 11 de janeiro e o marketing se exibiu em plenitude. O rombo de R$ 40 bilhões foi logo classificado de "inconsistências contábeis". Em matéria de eufemismo, mesmo num idioma calcinado pela corrupção em prol dos poderosos, foi do jamais visto.

Montou-se uma CPI para averiguar as malfeitorias da santíssima trindade do capital. Vossas Excelências, a fina flor do parlamento, foram de uma sabujice ímpar. Só faltou perguntarem aos grã-finos de grana preta se queriam um lustro nas ferraduras. Vai uma graxa, doutor?

Para surpresa de ninguém, a CPI concluiu, apesar das pirâmides de provas, que roubo houve, mas não ladrões. A dinheirama sumiu e não há Sherlock capaz de saber quem a surrupiou. Foi um veredito idêntico ao dos impolutos catões que zelam pelas nossas boas práticas empresariais.

Não vamos prejulgar. Nada de punitivismo. Afinal, em que pese a cautela, alguns foram castigados. Num só dia, demitiram-se 1.400 funcionários das Americanas. Centenas de fornecedores ficaram a ver navios. E a freguesia amargou uma espera labiríntica pelo que pagou.

Há duas hipóteses para explicar a gatunagem. Numa, Sicupira, Telles e Lemann não seriam exímios gestores das suas empresas. Eram na verdade toupeiras, suavemente engambeladas, anos a fio, pelos executivos que cevaram.

Na segunda hipótese, sempre souberam das traficâncias na cúpula das Americanas. Fizeram vista grossa para a dilapidação da companhia porque ela os enriquecia. E, caras simples que são, precisavam da bufunfa para comprar raquetes, admirar quadros, estudar segurança pública.

A tríade não tem o que temer. Aqui, não é de bom tom encarcerar patrões, mesmo que emporcalhados. Pergunte a Emilio Odebrecht e aos JBS, que trotam por aí leves, soltos e rindo da sua cara. Não faltará manteiga no pão dos Telles, dos Sicupira e dos Lemann per "omnia saecula saeculorum".

Falando em herança de butins, Marcel Telles aproveitou a semana morta entre o Natal e o Réveillon para sussurrar, na calada da noite, que transferiu R$ 29,5 bilhões da sua fortuna para o filhote. Meritocracia é isso aí.


Reprodução de texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O Brasil pardo detectado pelo IBGE contra o Brasil negro dos identitários


A particularidade do censo do IBGE é que ele não apenas fornece dados, mas os apresenta orientados por teorias e embalados na ideologia dos analistas que trabalham nele.

Segundo as estatísticas geradas, 45,3% dos brasileiros se declaram como uma mistura de duas ou mais opções de cor ou raça, escolhendo entre branca, preta, parda e indígena, conforme o manual do instituto. Quem assim se identifica é pardo. Alvíssaras, o IBGE descobriu o óbvio, o Brasil é um país mestiço.

Como há um dogma dos militantes atribuído ao IBGE que reza que pardos não passam de uma subdivisão de negros, celebrou-se então a superioridade numérica dos negros nesse país. Mas apenas 10,2% se definem como negros.

É que, embora as pessoas tenham o direito de se identificar como desejarem, inclusive tendo a opção de adotar como critério de escolha a cor ou a raça, jornalistas e militantes se concedem o privilégio de ignorar tal autoidentificação e reclassificá-las conforme seus próprios critérios: pretos e pardos são espécies de negros, ponto final.

Ora, se os pardos se considerassem negros, escolheriam a identificação como pretos, como é óbvio supor. Da mesma forma, caso se vissem como brancos, optariam por essa categoria. Mas não o fizeram, assumem-se como mestiços.

Ocorre que no Brasil a escolha da categoria de cor ou raça deve ser considerada séria demais para se permitir que as pessoas decidam o que são por conta própria. A sociologia militante se concede o poder de decidir em lugar dos cidadãos, inclusive desconsiderando suas próprias percepções. Mas o tratamento é exclusividade dos pardos, claro.

Os militantes da causa negra não demoraram a ressaltar como anos de trabalho árduo dos movimentos resultaram no aumento do número dos autoidentificados como pretos e pardos no Brasil.

Embora isso possa ser verdade, esperemos algum crédito do fenômeno ao fato de que as pessoas vêm se miscigenando no país há mais de 500 anos, bem antes que movimentos negros marchassem com faixas declarando que "miscigenação é genocídio" ou inundassem as redes com denúncias de "palmitagem" de quem se envolveu com pessoas de outra cor.

O cardinalato dos influenciadores que reivindicam falar em nome de todos os negros não iria perder a oportunidade de pontificar sobre o assunto. "É uma vitória termos um Brasil que se reconhece como negro", afirmou-se. Para depois rematar-se com: "Nunca é demais lembrar que pardos e pretos compõem a população negra do Brasil".

Pelo visto, ignora-se o fato de que "o Brasil" se reconheceu majoritariamente como pardo, não como negro, branco ou indígena. Nem deveria ser demais lembrar que pardo é alguém que se reconhece mestiço, misturado, miscigenado, não como componente de qualquer outra população, a não ser a brasileira.

Impressionante como a matriz indígena foi esquecida, como se ela não fizesse pardos.

Ora, ocorre o contrário. O norte do Brasil é pardo, a Amazônia é parda. Os dez municipios com maior percentual de pardos estão entre o Amazonas, o Pará e o Maranhão. Como o colégio cardinalício identitário decidiu que todos os pardos são compulsoriamente negros, a origem indígena do Brasil pardo foi apagada.

O pior é que nem isso é para valer. Parafraseando o verso do Rigoletto de Verdi, "il pardo è mobile, qual piuma al vento". Conforme a conveniência do cardinalato identitário e dos movimentos negros, movem-se os pardos para lá ou para cá.

Nos momentos de fazer volume, pardos são da população negra. Na hora das cotas em concursos ou de dividir cargos, chama-se a polícia racial, ou "comissões de heteroidentificação", para tirar os pardos.

A autoidentificação dos pardos é desconsiderada; o que não se ignora é a premissa que há sempre um pardo querendo desfrutar de reparação que é só devida aos pretos. Pardos são úteis nos numeradores para se calcular as compensações, mas um estorvo depois do cálculo feito.

Vejam Flávio Dino. Alguém tem mais a cara do Brasil do que um caboclo miscigenado do Maranhão, justo onde a Amazônia e o Nordeste se encontram num abraço gostoso?

Pardo, no jargão do IBGE, ou moreno, mulato ou caboclo na língua real do país, Dino tem a cor e a manha da nossa gente.

No Brasil brasileiro, Dino é caboclo inzoneiro, exceto para as autoridades identitárias, que prantearam a sua indicação ao STF alegando que o cargo era para uma pessoa negra. Quando há privilégios e recompensas, pardos não são negros, nem sequer Flávio Dino.


Reprodução de texto de Wilson Gomes, na Folha de São Paulo. 

sábado, 9 de dezembro de 2023

O nascimento do samba pelos olhos de Vagalume


Você conhece o Assumano Mina do Brasil? O Mirandella, o João da Gente, o Marinho Que Toca? Ao lado de nomes mais badalados —Sinhô, Donga, Pixinguinha, João da Baiana—, são personagens de "Na Roda do Samba", de Francisco Guimarães, o Vagalume, que após 90 anos do lançamento volta às livrarias.

Filho de africanos escravizados e líder religioso da comunidade negra, Assumano vendia azeite de dendê na Cidade Nova. Cantor e compositor, Mirandella integrava o Clube dos Democráticos. João da Gente era repórter do Correio da Manhã e autor de canções carnavalescas. Também conhecido como Amor, Marinho forneceu sambas de sucesso para o cantor Francisco Alves. Para lançar seu olhar sobre a vida cultural carioca no início do século 20, Vagalume privou de intimidade com todos eles.

Um olhar de dentro da roda. Colunista do Jornal do Brasil e espécie de José Ramos Tinhorão avant-garde, Vagalume viveu o cotidiano das favelas e os costumes dançantes e musicais dos trabalhadores afrodescendentes. Deles fez um registro em primeira mão, muitas vezes desabusado e birrento, destacando os artistas de sua preferência. Os outros eram "sambestros".

Seu maior desacerto foi não perceber os benefícios da interação do samba com a indústria fonográfica, tendo como alvo predileto a figura branca e bem-vestida de Francisco Alves: "O Chico Viola não é um plagiário. Ele é apenas o padrasto, o pai adotivo de uma infinidade de sambas de gente dos morros da Mangueira, Favela, São Carlos, Querosene".

Com linguagem simples, "Na Roda do Samba" deu início à historiografia do mais importante gênero da música brasileira. Falta agora relançar "Samba", de Orestes Barbosa, que apareceu naquele mesmo mês de agosto de 1934 com a vantagem de tocar num ponto desprezado pelo livro de Vagalume: o surgimento em meados dos anos 1920 da turma do Estácio, Heitor dos Prazeres e Ismael Silva à frente.


Texto de Álvaro Costa e Silva na Folha de São Paulo. 

Morre poeta palestino Refaat Alareer durante bombardeio na Faixa de Gaza


O poeta palestino Refaat Alareer morreu na quinta-feira (7) em um bombardeio na Faixa de Gaza que teria sido lançado por Israel, afirmaram amigos do artista. Ele era considerado um dos nomes mais proeminentes de sua geração, com textos em inglês sobre a vida em Gaza.

"O assassinato de Refaat é trágico, doloroso e escandaloso. É uma perda imensa", anunciou Ahmed Alnaoq, amigo do poeta, no X.

"Meu coração está partido. Meu amigo e meu colega Refaat Alareer foi assassinado com sua família há alguns minutos", escreveu no Facebook o poeta Mosab Abu Toha.

Professor de literatura inglesa na Universidade Islâmica de Gaza, Alareer foi um dos fundadores do projeto "Nós não somos números", que unia os autores de Gaza com mentores no exterior que os ajudavam a escrever em inglês sobre sua realidade.

Ele editou o livro "Gaza Writes Back", uma compilação de crônicas sobre a vida no território escritas por jovens autores. Também publicou "Gaza Unsilenced".

Poucos dias após o início da ofensiva terrestre israelense, Alareer anunciou que se recusava a deixar o norte da Faixa, que era o epicentro dos combates.

Também publicou na rede social um poema que viralizou, com o título "Caso Eu Morra" . "Caso eu morra, que traga esperança, que seja um conto", afirmam os últimos versos.

Refaat era uma fonte recorrente de veículos de imprensa estrangeiros, como Al Jazeera, BBC, The New York Times e a Folha.

Em maio de 2021, durante outro conflito entre Israel e o Hamas em Gaza, ele disse: "Quando estamos sob bombas, sentimos que é o pior dia das nossas vidas, mas daí vem o dia seguinte e é ainda pior".

Ele voltou a falar com a Folha após a eclosão da guerra em Gaza no último dia 7 de outubro. "Podemos ser mortos a qualquer momento", afirmou na ocasião.


Reprodução da Folha de São Paulo. 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Sem 'mas' e sem Hamas


O que o grupo terrorista Hamas fez no dia 7 de outubro não encontra justificativas de ordem alguma por mais opressiva e inaceitável que seja historicamente a situação na Faixa de Gaza. A reação desproporcional de Bibi Netanyahu igualmente não tem perdão e iguala a ação governamental aos atos do Hamas.

Não é falsa simetria coisa nenhuma. Como o Hamas tem a desfaçatez ao dizer que seus objetivos eram militares ao invadir rave e kibutzim, mente Israel ao declarar que se esmera para não matar civis.

O Hamas age para que a reação aos seus atos aumente a indignação do lado árabe e Bibi faz o jogo dele, pessoa física, e do Hamas, pessoa jurídica. O jogo dele é o de um extremista de direita corrupto em busca de sobrevida política como fez o ditador Leopoldo Galtieri, o general que levou 649 jovens argentinos à morte no confronto com a Inglaterra de Margaret Thatcher, que perdeu 255 soldados nos dois meses da Guerra das Malvinas, em meados de 1982.

Galtieri e a ditadura caíram em seguida, destino que Bibi deverá seguir com as mãos ensanguentadas pelo terror imposto ao terror.

Nada mais exemplar para os dias vividos pelo planeta que a dificuldade das pessoas em chamar as coisas por seus nomes e achar "mas" e "mas" para puxar a sardinha para suas brasas, mesmo que nelas sejam queimadas crianças, mulheres, idosos e civis, de ambos os lados.

Que a única solução duradoura para o conflito é o Estado Palestino soberano, como determinou a ONU há mais de meio século, é chover no molhado.

A imediata devolução dos reféns pelo Hamas, o cessar-fogo e a ajuda humanitária às vítimas se impõem.

Parar de amenizar as mais de 11 mil mortes em Gaza como reação às mais de 1.000 em Israel, idem.

Deixar de mentir sobre quem é mais cruel, idem ibidem.

Responder com antissemitismo à estupidez de Bibi é dar a vitória ao Hamas, tudo o que deseja quem não quer a paz. Insuflar a islamofobia é consagrar os métodos de Bibi.

O governo Netanyahu foi eleito, dizem os extremistas que o apoiam para chamar de democrático o governo de Israel. É verdade. Adolf Hitler também foi fruto da democracia.

Quem é tratado feito animal reage como tal, argumentam os extremistas em apoio ao Hamas. É fato. E morrem milhares de inocentes que não escolheram agir como animais.

"O Hamas errou, ‘mas’, também, vive em prisão a céu aberto. Reagiu", dizem os rubros-negros.

"O governo de Israel passou dos limites, ‘mas’, também, tinha de reagir ao maior ataque aos judeus desde o Holocausto", retrucam os tricolores.

E não aparece Diego Maradona para fazer o gol com a mão de Deus para botar a questão em outros termos.

Dia desses, ao almoçar com brilhante economista, e otimista amigo judeu, sobre a aparente não solução no Oriente Médio, ouvi dele surpreendente previsão: "Esta guerra acabará em poucos dias, Netanyahu cairá e o Estado da Palestina é inevitável", cravou.

Não satisfeito, saiu-se com esta, já no café, como se estivesse brincando com assunto tão sério, qualidade rara de quem brinca consigo mesmo: "E a solução para Jerusalém é muito mais simples do que pensam: basta entregá-la para o Vaticano administrar".

Registre-se que em nenhum momento o amigo usou a indevida conjunção adversativa. O "mas" está fora de seu vocabulário.

Se não tem "mas", tem "mais": mais humanismo, menos terrorismo.


Reprodução de texto de Juca Kfouri na Folha de São Paulo.

Guerra transforma Gaza em cemitério para crianças


Descalço e chorando, Khaled Joudeh, de 9 anos, corre em direção às dezenas de corpos envoltos em lençóis brancos, cobertores e tapetes do lado de fora da necrotério superlotado em Deir al-Balah, na Faixa de Gaza.

"Onde está minha mãe? Eu quero ver minha mãe", chora ele. "Onde está Khalil?" continua, entre soluços, enquanto pergunta pelo seu irmão de 12 anos. Um funcionário, então, abre um sudário branco para que Khaled possa beijar seu irmão pela última vez.

Depois, ele se despede de sua irmã de 8 meses. Outro lençol é puxado e revela o rosto ensanguentado de uma bebê. Khaled começa a soluçar novamente ao identificá-la para a equipe do hospital. Seu nome era Misk, almíscar em árabe.

"Mamãe estava tão feliz quando teve você", sussurra ele, tocando gentilmente a testa da bebê enquanto lágrimas escorrem do seu rosto para o dela.

Khaled se despediu de sua mãe, seu pai, seu irmão mais velho e sua irmã —os corpos de todos eles alinhados ao seu redor. Apenas ele e seu irmão mais novo, Tamer, de 7 anos, sobreviveram ao que parentes e jornalistas locais disseram ter sido um ataque aéreo em 22 de outubro que derrubou dois prédios onde sua família estendida se abrigava.

Um total de 68 membros da família foram mortos naquele dia enquanto dormiam em suas camas em Deir al-Balah, no centro da Faixa de Gaza, relataram três parentes de Khaled. Segundo os familiares, vários ramos e gerações dos Joudehs estavam se reunindo antes do ataque, incluindo alguns que haviam fugido do norte de Gaza, conforme Israel havia ordenado aos moradores. O exército israelense diz que não pode responder a perguntas sobre o bombardeio.

Os membros da família foram enterrados juntos, lado a lado, em uma longa sepultura, disseram parentes.

Gaza, adverte a ONU, tornou-se "um cemitério para milhares de crianças". Autoridades de saúde no território afirmam que 5.000 crianças palestinas foram mortas desde o início dos ataques israelense. Muitos funcionários internacionais e especialistas familiarizados com a forma como os números de mortos são compilados em Gaza dizem que os números são geralmente confiáveis.

Se estiverem realmente precisos, mais crianças foram mortas em Gaza nas últimas seis semanas do que as 2.985 crianças mortas nas principais zonas de conflito do mundo combinadas, em duas dezenas de países, durante todo o ano passado, de acordo com contagens verificadas de mortes em conflitos armados da ONU.

O exército israelense afirma que, diferentemente do "ataque assassino contra mulheres, crianças, idosos e deficientes" promovido pelo Hamas em 7 de outubro, as forças israelenses tomam "todas as precauções viáveis" para "mitigar danos" a civis.

Mas o ritmo furioso dos bombardeios —mais de 15 mil até o momento, segundo o exército israelense, incluindo no sul de Gaza também— torna a campanha aérea israelense no território palestino uma das mais intensas do século 21. E está acontecendo em um território urbano denso e sob cerco, com alta concentração de civis.

Depois de questionar inicialmente o número de mortos relatado pelas autoridades de saúde em Gaza, a administração Biden agora diz que "muitos" palestinos foram mortos, admitindo que os números reais de vítimas civis podem ser "ainda maiores do que estão sendo citados".

Na sala de emergência do Hospital Al-Shifa, na Cidade de Gaza, o doutor Ghassan Abu-Sittah diz que muitas crianças foram trazidas de escombros sozinhas e em estado de choque, com queimaduras, ferimentos por estilhaços ou lesões graves causadas por esmagamento. Em muitos casos, segundo ele, ninguém sabia quem eram.

"Elas recebem uma designação —'Criança traumatizada desacompanhada'— até que alguém os reconheça", diz ele. "A coisa paralisante é que alguns deles são os únicos sobreviventes de suas famílias, então ninguém nunca vem", continua. "Cada vez mais, parece uma guerra contra crianças."

O exército israelense afirma que "lamenta qualquer dano causado a civis (especialmente crianças)", e acrescenta que está examinando "todas as suas operações" para garantir que elas sigam suas próprias regras e cumpram o direito internacional.

Um número crescente de grupos de direitos humanos e autoridades, porém, argumenta que Israel já violou essa lei.

Depois de condenar os ataques "hediondos, brutais e chocantes" do Hamas como crimes de guerra, Volker Türk, alto comissário da ONU para os direitos humanos, disse neste mês que "a punição coletiva de Israel aos civis palestinos também equivale a um crime de guerra, assim como a evacuação forçada ilegal de civis".

"Os bombardeios massivos de Israel mataram, mutilaram e feriram especialmente mulheres e crianças", acrescentou. "Tudo isso tem um preço insuportável."

Muitas crianças estão mostrando sinais claros de trauma, incluindo terrores noturnos, afirma Nida Zaeem, uma oficial de saúde mental do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Gaza.

"Eles acordam gritando e chorando", diz Zaeem de um abrigo da Cruz Vermelha, em Rafah. Todas as noites, acrescenta, as crianças no abrigo acordam gritando: "Vamos morrer, vamos morrer". "Eles gritam, imploram: 'Por favor, me proteja, por favor, me esconda. Eu não quero morrer'", conta ela.

Gaza, uma faixa costeira no Mediterrâneo, costumava ter uma cultura de praia animada. Yasser Abou Ishaq, 34, lembra como costumava ensinar suas três filhas pequenas a nadar. "Elas sempre me pediam para ir à praia, ao parque de diversões, aos parques", conta ele. "Eu adorava vê-las brincar."

Amal, a mais velha, de 7 anos, foi nomeada em homenagem à sua mãe. Na escola, ela era uma boa aluna com uma caligrafia excelente, lembra ele. Em casa, ela se tornava a professora que fazia sua irmã mais nova, Israa, de 4 anos, que adorava chocolate e brinquedos Kinder, brincar de ser sua aluna.

Ele conta que, quando sua casa foi destruída por um ataque aéreo, perdeu ambas, além de sua mulher. No total, 25 membros de sua família, 15 deles crianças, foram mortos, diz ele. O exército israelense afirma que não pode responder a perguntas sobre o ataque.

Abou Ishaq conta que ele e sua filha de 1 ano, Habiba, foram feridos e levados para o hospital. A maioria de sua família, incluindo sua esposa e sua outra filha, foi retirada dos escombros no mesmo dia e enterrada por parentes, enquanto ele ainda estava sendo tratado.

No dia seguinte, o corpo de Israa foi retirado dos escombros, diz ele. Abou Ishaq conseguiu vê-la na sala do hospital e segurá-la pela última vez. "Eu a abracei e beijei. Me despedi e chorei", diz ele. "Só Deus sabe o quanto eu chorei."


Reportagem de Raja Abdulrahim, Samar Abu Elouf e Yousef Masoud para o New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo.