quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Na cabeça de Bolsonaro, é como se vontade de matar valesse qualquer sacrifício

 Vamos ver se estou entendendo direito. Quando Bolsonaro fez seus primeiros discursos sobre a pandemia, sua lógica era a de que uma quarentena traria desemprego, fome, crise econômica —e que isso poderia matar tantas ou mais pessoas do que a própria Covid-19.

Não vou discutir esse ponto, certamente errado. Apenas assinalo que era um raciocínio. Pois bem. Passam-se os meses, e aparece a vacina do Butantan, feita em parceria com a China. É a ideal? É melhor que outras? Não vou dar opinião. O fato é que está na frente, praticamente pronta para ser usada. Aplico então a lógica de Bolsonaro. A vacinação permitiria acabar com a quarentena, e a possível retomada de toda a atividade econômica que estivermos em condições de ter.

Se era para evitar as mortes do desemprego, da fome e da recessão, seria então o caso de correr atrás da primeira vacina que aparecesse. O risco de uma vacina “duvidosa” é menor, sem dúvida, do que o risco de ignorar a quarentena sem vacina nenhuma.

A prioridade antirrecessão de Bolsonaro justificaria, desse modo, a aceitação de qualquer vacina que viesse. Mas o governo faz o possível para atrasar a aprovação da vacina chinesa. Conclui-se que Bolsonaro não está pensando na retomada econômica —simplesmente não quer que a vacinação seja feita rapidamente.

Como bem disse o editorial da Folha deste domingo (13), trata-se de uma atitude assassina. Desenvolvo mais um raciocínio. Se a ideia era dar mais importância ao problema da recessão do que ao da saúde pública, Bolsonaro poderia agir de outra forma.

Poderia dizer que a quarentena é ruim para a economia e que o governo se opõe a isso, mas que, se todo mundo usar máscara e lavar a mão direitinho, os riscos de contaminação não são tão grandes assim.

Ao contrário: sempre que pode, Bolsonaro aparece sem máscara em lugares públicos, abraça criancinhas, dá o exemplo de como se contaminar. Novamente, o esforço do presidente não é o de manter a economia funcionando —é o de agir ativamente em favor do agravamento da pandemia.

Sim, ele se contaminou, junto de vários membros do governo. Teve sorte. E aí entra mais um fator na sua patologia mental.

Confinamento e máscara, diz ele, são “coisa de maricas”. Quem é macho não tem medo de se contaminar; provavelmente, acha também que quem é macho não morre. Covid e Aids se confundem
na ignorância sem fim.

Noto mais uma pequena contradição no conjunto desses absurdos. Bolsonaro defendeu, sem prova nenhuma, o uso da cloroquina. Um macho de verdade, desses que não usam máscara, deveria também achar que cloroquina é frescura, sinal de covardia.

Mas a cloroquina é uma beleza. Pode tomar sem medo. Surge a vacina do Butantan. Agora, Bolsonaro quer calma, relatórios, novos testes. Foi irresponsável com a cloroquina, virou cricri com a imunização.
Ainda uma vez, só se pode concluir que age a favor da pandemia.

Se é preciso exigir judicialmente que o governo apresente um plano de vacinação, há evidências fortes de que Bolsonaro não tem interesse em imunizar ninguém.

Se foi preciso um “pool” da imprensa para contabilizar contaminados e mortos pela Covid, há evidências fortes de que Bolsonaro quer que ninguém ligue para a gravidade do problema.

O intuito assassino não poderia ser mais claro.

Outra contradiçãozinha que ajuda a provar esse ponto. No plano de vacinação finalmente enviado ao Supremo Tribunal, retirou-se a prioridade para a população carcerária e os quilombolas. Talvez porque
“bandido bom é bandido morto” e porque, pesando no mínimo “sete arrobas”, os quilombolas estejam fora de risco.

É vontade de matar: se tivermos de fazer vacinação, pelo menos podemos torcer para que esses aí fiquem de fora.

A vontade de matar é tanta, que o governo contraria até os interesses dos fabricantes nacionais de armas, permitindo a importação de pistolas a imposto zero. A vontade de matar é tanta, que eles até se deixam contaminar pela Covid-19 se mais gente seguir o exemplo.

Sem dúvida, é o militarismo no seu extremo de demência. Sou um herói: estou pronto a me arriscar num avião de bombardeio se uma bela explosão atômica matar milhões de pessoas.

De preferência, os do meu próprio país. Afinal, eliminar pobres, velhos, negros, índios, comunistas, bandidos e maricas sempre foi um sonho a ser realizado. Todo sacrifício —até o da própria vida— vale nesse objetivo. Isso é que é ser macho. Isso é que é ser herói da pátria.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

domingo, 13 de dezembro de 2020

O nada acima de todos

 

O que nos faz humanos? Outros primatas usam pedras e paus como ferramentas. Pássaros fabricam suas casas e castores constroem verdadeiras estações Sé subaquáticas. Baleias, golfinhos e outros animais se comunicam através de sons.

Também não é a consciência o que nos diferencia de outras formas de vida. Basta olhar nos olhos de um vira-lata para saber que tem alguém ali dentro.

Certamente não alguém capaz de compor “Aquarela do Brasil”, mas sem dúvida “algo” que “sabe”, ou pelo menos “sente”, que existe. (A razão das três últimas aspas é o próprio mistério da consciência, essa instância inefável).

Para complicar ainda mais, estudos recentes da biologia revelam que as plantas e cogumelos de uma floresta trocam informações e substâncias numa gigantesca rede subterrânea de raízes e micélio (as “raízes” dos fungos).

Diante das novas descobertas, questiona-se se este murundu informacional, apelidado de Wood Wide Web, não se aproximaria de uma espécie de consciência florestal. (Não é papo de maluco beleza, juro. Leia “A Vida Secreta das Árvores”, de Petter Wohlleben, “Entangled life”, de Merlin Sheldrake ou assista ao documentário “Fantastic Fungi”).

Aristóteles afirmou que o homem é o único animal que ri. Também errou feio o Ari. Ratos de laboratório riem quando brincam (www.wnycstudios.org/podcasts/radiolab/articles/281615-rat-tickler). O riso é, entre eles, uma importante ferramenta de socialização, assim como é entre humanos.

O que faz de nós, então, humanos? Segundo a antropologia, é a capacidade de ritualizar a morte. Quando passamos a enterrar nossos semelhantes com conchas, flores, comidas e ferramentas, deixamos de ser só natureza e viramos também cultura.

Túmulos são o primeiro sinal desse teatro mental que nos permite compor músicas, colher cascalhos em meteoros e nos emocionar com um gol do Pelé.

Por esta razão, o antropólogo francês Edgar Morin sugere nos classificarmos não como Homo sapiens, mas como Homo sapiens demens. Somos uns macacos que não apenas “sabem” mas deliram, criam, creem.

No documentário “Cercados” (Globoplay), vi novamente as cenas dos mortos por Covid, em Manaus, sendo enterrados por escavadeiras. Sem velório, sem lápide, muitos sem nem cruz ou estaca. Ali está o retrato mais perfeito da “ideologia” de Jair Messias Bolsonaro.

Com sua postura homicida, o “Mito” não só mata dezenas de milhares de brasileiros, como cancela o rito —essa veadagem do Homo sapiens demens, pensa o primata.

Tal gorila que repete o tempo inteiro “Deus acima de todos” é o ser mais incapaz de vislumbrar qualquer réstia do sagrado.

A sacralidade não tem, necessariamente, a ver com religião, mas com a compreensão da dimensão simbólica da existência e a sua valorização.

Por que a morte de uma pessoa me toca e a de uma mosca, não? Geneticamente, uma pessoa e aquele pontinho preto frito na grade de uma raquete elétrica são 60% idênticos. Sofremos com a morte de outro ser humano porque consideramos a vida humana sagrada. Bolsonaro, que do nariz pra dentro é um Saara, não diferencia gente de mosca.

Esta morte sem rito é o maior ritual do bolsonarismo. Encenação de um retorno a um mundo bruto, pré-simbólico, sem arte, sem ciência, sem fé, sem lei —ou melhor, só com a lei da selva.

Enquanto todos os países se organizam para vacinar contra a Covid-19, nosso presidente existencialmente lobotomizado derruba imposto sobre armas.

O trator empurrando a terra sobre as valas comuns é para onde sempre apontaram as arminhas de mão: a morte acima de tudo, o nada acima de todos.

 

Texto de Antonio Prata, na Folha de São Paulo

 

 

 

Vocês que se virem

 

“Amores, eu não sou de esquerda. Eu não sou de direita. Eu sou preta. Vocês que lutem pra ser linha de frente e tomar bala pra manutenção do poder brankkko. Bjos. Não me atormentem.”

Esta postagem de uma jovem negra (a quem vou chamar aqui de X) na rede social Facebook foi a manifestação mais esclarecedora que li nos últimos tempos sobre um posicionamento político. O post foi feito durante a recente eleição para a Prefeitura de São Paulo. A julgar pela fotografia em seu perfil, X tem entre 20 e 30 anos de idade.

Tão impressionante me soou a afirmação da moça (o texto é bem escrito, e ela se apresenta como jornalista e de formação técnica) que fui ler os comentários à postagem. O que mais me intrigava era o “vocês” a quem ela atribuía a opção de “ser linha de frente e tomar bala”.

Quem seria o “vocês”? Vesti no ato a carapuça da esquerda velha —não no sentido pejorativo, mas sinônimo de “envelhecida” porque não se renovou nem em quadros (sem negros) nem na visão de mundo. E muito menos na percepção da inquietação que se dá hoje no bojo da sociedade, principalmente no que diz respeito à juventude com consciência de sua “pretitude” como o mais precário dos lugares sociais.

Entre os comentários (a maioria de jovens negros) apenas um se contrapunha de modo incisivo à declaração de X. Era de um amigo virtual dela, a quem chamo aqui de Y. O jovem, na mesma faixa etária e morador da periferia de São Paulo, conforme pude deduzir, é branco e de convicções políticas à esquerda.

A discussão girava em torno das consequências, para o “povo preto”, de votar em Guilherme Boulos (candidato do PSOL) ou simplesmente não votar em nenhum dos dois candidatos (o outro era Bruno Covas, do PSDB, que foi eleito).

Assim reagiu Y: “[Seu post] coloca de maneira irresponsável os candidatos do mesmo lado. Só vai fazer com que o Covas vença. É necessário a derrubada de poder neoliberal e seu plano de governo nocivo, alinhado ao bolsonarismo. Só faz deixar as eleições na mão da elite porque, esses sim, vão sair de casa e votar em alguém que representa seus valores e esse alguém não é o Boulos”.

A resposta taxativa de X ao argumento de Y foi: “Você tá assumindo que só existem dois lados pra se escolher. Eu sou panafricanista, e só. Não estou desacreditando nada nem ninguém, pessoas adultas tomam decisões por si. Não tenho nada contra o Boulos, só acredito que pro meu povo a saída não está em ser tutelado por quem acha que classe é o problema da sociedade”.

Fui lendo e achando a discussão pertinente e reveladora. Do quê? Veremos adiante.

O amigo virtual Y não se deu por rogado e continuou: “A gente tá numa reta final de eleição, só há dois lados, duas possibilidades. Você superestima a inteligência dessas pessoas adultas que votaram no Bolsonaro. São manipuláveis, bebês com título de eleitor. Referente à crítica rasa sobre a luta de classes, seria interessante ler Marx, saberia que o capitalismo se beneficia do racismo, da desigualdade social, da repressão ao povo preto. Seu discurso é o do senso comum, no estilo pobre de direita, que votou no Bolsonaro”.

A essa resposta, X concluiu: “Amigo, não sou pobre de direita e muito menos de esquerda. Eu sou preta e não fecho com nada que venha desse sistema, direita e esquerda são os dois lados da mesma moeda e é isso. Tô suave. Em vez de perder meu tempo fazendo campanha pra homem branco, tô nos meus corre. Não é questão de proposta, o estado é uma unidade, quem quer que saia ou entre, sempre estará em prol da manutenção do poder”.

Pois então. O debate é revelador, de um lado, porque mostra que essa juventude negra pan-africanista, que adota pseudônimos africanos nas redes sociais, não está aí para brincadeira. Mostra que X não é uma alienada social. Pelo contrário, é muito jovem, não criou a esquerda que se tem hoje, não se reconhece nela, não vota para não legitimar o sistema que a própria esquerda velha ajuda a nutrir. Repudia a “tutela” do governo branco que desconsidera o racismo e reduz o problema social à questão de classe.

Pois então, a ironia amarga revelada pela declaração de X é esta: a ausência de seu voto, o pan-africanismo, sua descrença e seu ceticismo no sistema branco não impedirão, porém, que ela tome uma bala como consequência da violência do Estado branco contra sua pele preta.

Mas pelo menos ela não “lutou” para isso, não fez campanha. Ela vai sozinha atrás de seus “corre”, não conta nem mesmo com “vocês” que optam pelo lugar de conforto da linha de frente (branca).

Será X uma desobediente civil? Ou, para além disso, uma revolucionária? Pois então, a revolução é esta e ocorre agora, hoje, com desdém para a “linha de frente” onde estão “vocês” ocupados (sem saber?) em manter o poder racista. Vocês que se virem para entender. Vocês que lutem.

 

Texto de Marilene Felinto, na Folha de São Paulo

 

 

 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O estranho hábito de botar palavras na boca de um defunto ainda é recorrente

 “Há décadas em que nada acontece. Há semanas em que décadas acontecem”, teria dito Lênin, a respeito da Revolução Russa. A primeira atribuição da frase a Lênin, no entanto, é de 1991, segundo o site Quote Investigator. Talvez Lênin tenha tido a cortesia de esperar o fim da União Soviética pra versar sobre ela. O mais provável é que o político George Galloway, o primeiro responsável pela confusão, tenha dado a frase de presente ao líder soviético.

Faz sentido. Se o guia de turismo, numa viagem ao Egito, dissesse “do alto dessas pirâmides, 40 séculos os contemplam”, você bocejaria de tédio e talvez escrevesse uma crítica negativa no Trip Advisor. Na boca de Napoleão, exortando uma tropa de soldados a combater uma horda de mercenários, a frase causa arrepios: “Como pôde alguém ser tão poético em cima de um cavalo?”.

No livro “They Never Said It”, Paul F. Boller Jr. faz um compêndio de frases nunca ditas e tenta entender quando foi que a ficção virou fato. Afinal, como diria Lênin, “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade” —frase essa que Lênin nunca disse. 

Einstein tampouco disse “sucesso é 1% inspiração e 99% transpiração”, como se fosse um coach motivacional. Tantas frases falsas são atribuídas a ele que chego a me perguntar se alguma vez Einstein disse, de fato, alguma coisa.

Churchill não fica pra trás. “Quem não é liberal aos 15 não tem coração, quem não é conservador aos 35 não tem cérebro”, teria dito Winston. Seu biógrafo Paul Addison garante que a frase é falsa por um motivo simples: Churchill era conservador aos 15 e liberal aos 35.

A frase mais famosa de Maquiavel, “os fins justificam os meios”, nunca foi dita por Maquiavel —assim como a famosa frase de Luís 14, “o Estado sou eu”, só seria atribuída ao rei Sol por Voltaire, um século mais tarde. A história se vingaria de Voltaire, que nunca disse “posso discordar do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. A frase só aparece pela primeira vez em 1906,
por sua biógrafa, que defendeu até a morte o direito do autor de dizer o que nunca disse.

Ao que parece, botar palavras na boca de defunto é um hábito antigo e deve perdurar. Muita coisa há de ser posta na boca dos nossos governantes. Resta saber como é que a ficção irá superar as bostas que o nosso presidente diz. Temo que, no futuro, nosso problema seja o contrário: em vez de gritar, como Paul F. Boller Jr., “ele não disse isso!”, berraremos, desesperados, “eu juro que ele disse isso!". "Eu estava lá.”


Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

Emily Victória, 4, e Rebeca Beatriz, 7, duas meninas do Brasil

 Já vai longe o ano de 1987, quando Estela Márcia Vieira, de 13 anos, foi assassinada com uma bala na cabeça, num tiroteio no morro do Tuiuti, Rio de Janeiro. Chico Buarque cantou a infância interrompida de Estela : "Uma menina igual a mil/ Que não está nem aí/ Tivesse a vida pra escolher/ E era talvez ser distraída/ O que ela mais queria ser/ Ah, se eu pudesse não cantar/ Esta absurda melodia/ Pra uma criança assim caída/Uma menina do Brasil".

Se viva fosse, Estela Márcia teria hoje 46 anos. Mas sua existência foi despedaçada antes que pudesse escolher "o que ela mais queria ser".

Crianças negras e pobres no Brasil continuam sem ter escolha. Um balaço de fuzil atravessou a cabeça de Emily Victória, 4, e dilacerou o coração de Rebeca Beatriz, 7, quando ambas brincavam na porta de casa, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Moradores ouviram disparos enquanto policiais militares patrulhavam o local.

Assassinatos semelhantes raramente são esclarecidos, e os criminosos seguem impunes. A classificação de morte por bala perdida se presta à falácia da guerra contra o crime e seus danos colaterais; embaça a violência do Estado e engendra uma sociedade indiferente. Na geografia da "cidade partida", as balas perdidas sabem de antemão quem são seus destinatários. É o racismo à brasileira em sua dimensão mais desumana.

Segundo a ONG Rio de Paz, já são 12 as crianças mortas por arma de fogo no Rio de Janeiro em 2020. Uma para cada mês do calendário. O ano da pandemia superou os mais recentes, que já indicavam, desde 2015, uma escalada nesse tipo de crime.

É sufocante viver num país que banalizou a execução de meninos e de meninas com armamento de guerra. Se o país não para em luto por essas mortes, alguns podem até não perceber, mas todos morremos um pouco junto com Emily e Rebeca. E continuaremos cantando a "absurda melodia" da infância negra e pobre que não tem direito à vida no Brasil.


Texto de Cristina Serra, na Folha de São Paulo

A terra de Clarice Lispector

 Era Clarice uma escritora carioca? Era. Não sou eu quem diz, mas Rubem Braga: "A ucrano-pernambucana Clarice Lispector é, na verdade, uma grande contista carioca, da boa e nobre linhagem de Machado de Assis".

Os argumentos do velho Braga —expressos na revista Manchete, em 1965— baseiam-se na leitura de "Laços de Família", reunião de histórias curtas publicada cinco anos antes. Ao analisar a obra de Clarice, ele põe de lado o que os críticos sempre ressaltaram —a introspecção das personagens, seus tumultos e confusões da alma— para valorizar a sensibilidade "às luzes, aos rumores, às brisas e à temperatura, a detalhes da paisagem e do ambiente".

Em "Feliz Aniversário", a nora de Olaria é a imagem do acanhamento, com o vestido azul drapejado que lhe disfarça a barriga, ao chegar para o ajantarado em Copacabana. A portuguesa que protagoniza "Devaneio e Embriaguez duma Rapariga" só poderia viver na rua do Riachuelo e beber vinho verde na praça Tiradentes. Nas mãos de Clarice, o Jardim Botânico --cenário do conto "Amor"-- transmuda-se em pesadelo real, cheio de vida e horror.

No romance "A Hora da Estrela", Macabéa vive numa vaga, quarto compartilhado com quatro balconistas, nos fundos do velho sobrado colonial que fica na "áspera rua do Acre, entre prostitutas que serviam a marinheiros, depósitos de carvão e de cimento em pó, não longe do cais do porto".

Em suas crônicas para o Jornal do Brasil, Clarice revela uma cidade desconhecida e uma gente que mora longe: "Na Zona Norte sopra uma vento quente, um siroco. No saguão cinco moças sem cor já tomaram o banho da tarde, os cabelos secam ao siroco. Têm olhos pretos, braços redondos, bocas desbotadas".

Nesta quinta (10), em que se festeja o centenário de nascimento da escritora que se tornou carioca, sua estátua no Leme terá um ar de felicidade nada clandestina.


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

Homens assediadores continuam narrando suas fábulas de morte ao pênis

 Este é um convite a você, querido leitor, a exercitar sua imaginação e a dar um breve descanso ao seu senso crítico.

Feche os olhos e imagine comigo a seguinte situação. Não, não é para fechar os olhos de verdade porque assim você não vai conseguir ler o texto, o que eu acabei de falar? Vamos deixar a lógica de lado e mergulhar nessa narrativa fantástica também conhecida como uma argumentação de defesa de alguns assediadores em série.

A sala, na penumbra, é ocupada por um grupo de mulheres que se reuniram clandestinamente na calada da noite. O objetivo do encontro não é dos mais nobres e deve ser mantido em sigilo absoluto. Elas estão se articulando para destruir a vida de um homem. E não se trata de um homem qualquer. Um profissional renomado, um pai de família dedicado, um grande amigo.

É quando uma das participantes levanta a seguinte questão: se ele é tão gente boa, por que elas querem prejudicá-lo? Um silêncio constrangedor lambe o recinto. Sei lá, inveja do pênis? Tédio? Dívida histórica? Ou até mera maldade, já que, em uma bizarra coincidência, todas as mulheres ali presentes compartilham da mesma personalidade perversa, deixando no chinelo qualquer vilã de novela das nove.

A estratégia proposta é controversa. Elas pretendem acusá-lo de assédio. O que ganham com isso? Nada. Inclusive, só têm a perder. A consequência mais provável é que elas sejam expostas, perseguidas, descredibilizadas, ameaçadas, insultadas, afastadas de seus trabalhos e de seus círculos sociais, processadas judicialmente e às vezes hostilizadas a ponto de ter que se mudar de cidade e começar uma nova vida.

Importante lembrar que, apesar de todo esse sacrifício, não existe nenhuma garantia de que o plano dará certo. É estatisticamente comprovado que a maioria dos assediadores sai impune por seus atos. Que dirá um indivíduo inocente, sujeito, claro, a eventuais deslizes decorrentes de uma estrutura patriarcal que o beneficia, mas, nesse caso específico, vitimado por uma conspiração cujo objetivo principal é destruí-lo?

A vitória é certa? De forma alguma. A jornada será agradável? Em nenhum aspecto. No geral, parece uma boa ideia? Definitivamente não. Mas elas topam, entoando, em uníssono, seu grito de guerra: Morte ao pênis! Assim termina essa fábula amoral que, inacreditavelmente, ainda encontra eco nos dias de hoje.


Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

domingo, 6 de dezembro de 2020

Lista de compras

 Minha primeira compra diretamente ligada à quarentena foi de álcool em gel. Quando compreendi que o potinho de 50 ml, nômade há anos peregrinando pelas gavetas do banheiro e estantes da sala, não daria conta do recado, já não havia mais álcool em gel para comprar em nenhuma farmácia do bairro. Fui encontrar numa loja de posto de gasolina, meio abandonada; levei uns quatro litros.

A segunda compra foi um freezer. Havia boatos de um possível desabastecimento. Saques a mercados. Apagão. Quando o freezer chegou, fiz a terceira compra: uma quantidade de comida congelada que nos garantirá a sobrevivência por uns cem anos. Comprei também seis dúzias de velas e fósforos. Muitos fósforos. Em abril, quando a OMS sugeriu comprar máscaras, fiz a quarta compra.

Daí pra frente, terminaram as compras por necessidade e começou o perigoso processo de, chamemos assim, compras recreativas. Meu impulso consumista na quarentena explica a razão de Jeff Bezos ser o homem mais rico do mundo e eu, não. Faz oito meses que, todo dinheiro que entra, envio imediatamente pro Jeff. Nunca recebi um obrigado, nem desconto na lojinha dele.

Em maio eu já estava descontrolado: uma barraca de camping, quatro sacos de dormir, uma lanterna recarregável à luz solar, bastões fluorescentes, dois cantis. Pensei que seria a noite mais feliz na vida dos meus filhos (ela de sete, ele de cinco), acampando com o pai e a mãe no jardim de um sítio, próximo a São Paulo. Os quatro viraram três assim que contei à minha mulher sobre o projeto. “Mas nem ferrando que eu vou dormir numa barraca." Os três viraram dois assim que eu apaguei a lanterna, lá pela uma da madrugada. “Papai, sabe o que é?”, disse meu filho, zeloso diante da minha empolgação, “é que eu acho que tô mais acostumado com quarto, mesmo”. E lá se foi correndo pros braços da mãe.

Eu e minha filha resistimos bravamente até seis e meia da manhã, quando os cachos róseos da aurora, como diria o poeta, nos mostraram que eu havia feito um excelente negócio: pelo preço de uma barraca, adquiri também uma sauna. Suados, fomos pro quarto, onde todo o material de camping se encontra desde então, embaixo da cama, num sacão de 100 L —tente você dobrar uma barraca e fazê-la caber novamente na minúscula bolsa em que ela vem da loja. (Se alguém estiver interessado no material, por favor, e-mails à Redação.)

Depois tive a fase dos jogos. Comprei pros meus filhos War, Banco Imobiliário, Pega Vareta, Twister. É tudo barato. Aí você vai comprando. E no fim do mês descobre o óbvio: se levar mil coisas de trinta reais, gastará trinta mil reais. E terá que vender o carro. Felizmente, não comprei mil coisas. Apenas algumas dezenas. De modo que terei que vender só as rodas do carro. (De novo, por favor, cartas à Redação.)

O microscópio nos divertiu por uma semana —embora o auge do divertimento das crianças tenha sido me ver furando o dedo para observarmos o sangue. O estilingue os interessou por algumas horas. Mas o caldo entronou quando o pandeiro chegou em casa. Ali, minha mulher resolveu que deveríamos ter uma DR. “Você não acha que está exagerando?” “Não.” “Mas você não sabe tocar pandeiro." “Por isso mesmo que eu também comprei um curso online com o Suzano, maior pandeirista do Brasil." Para o azar dela e dos meus filhos, ainda não fiz nenhuma das aulas, mas toco todo dia.

Jeff, nunca te pedi nada. Sempre te dei tudo. Só o que te imploro é para que os três fones anuladores de ruído ambiente cheguem antes do fim do meu casamento. Sou cliente Prime. Colabora aí, parceiro.


Crônica de Antonio Prata, na Folha de São Paulo

Sem inimigos externos, Exército de reino da Índia se voltou contra a própria população

 Durante a chamada Era de Ouro, a partir do século 8º, quando o califado abássida se estendeu da Sicília ao atual Uzbequistão, as rotas comerciais que ligavam a capital Bagdá à Índia e ao Extremo Oriente serviram também a narradores viajantes guiados pelo gosto do maravilhoso e do exótico.

O mesmo impulso que resultaria nas “Mil e Uma Noites” produziu narrativas de autores anônimos sobre reinos improváveis. A história de Jval Bhasma, na Índia, é uma das mais extraordinárias.

Na falta de guerras e inimigos externos, o Exército jvalbhasmense se voltou desde muito cedo contra a própria população. Só isso bastaria para garantir o aspecto fantástico do relato. A batalha fundadora de Jval Bhasma (que em sânscrito significa “brasas” ou “cinzas”, dependendo do momento e do ponto de vista) consistiu no confronto das tropas oficiais, fortemente armadas, contra súditos miseráveis, recolhidos a um canto recôndito do território. Como se tivessem tomado gosto pelo massacre, os vitoriosos nunca mais deixaram de ver no extermínio de desvalidos revoltosos a solução para a miséria.

Com a desculpa de defender as fronteiras, mas resistindo a assumir a responsabilidade por seus atos, as forças de Jval Bhasma converteram-se pouco a pouco no principal inimigo do país. Prenderam e torturaram; infiltraram-se nas instituições, desvirtuando funções e objetivos; recrutaram juízes, policiais e médicos; associaram-se ao racismo contra a maioria; aceitaram a corrupção sob o pretexto de combate à corrupção, o crime supostamente contra o crime e, durante as piores crises, puseram o soldo à frente dos interesses da nação.

Quando o reino foi atingido pela peste, aliaram-se a quem alardeava que tudo não passava de um complô. E quando já não era possível esconder os mortos, sabotaram as informações e tomaram o partido de curandeiros.

Nesse meio-tempo, nunca deixaram de zelar pela autoimagem, posando de justiceiros, a ponto de o título do relato anônimo sobre Jval Bhasma resumir em uma única frase, à maneira de um conto moral, a perplexidade do viajante abássida diante do caráter farisaico do país: “Por que os moralistas se lambuzam com a indecência?”.

A falta de coragem para assumir delitos passados os aproximou naturalmente dos que também tentavam encobrir seus atos e escapar à justiça. E assim foram aprendendo a defender seus interesses de acordo com as oportunidades.

A desculpa de obedecer a ordens superiores não isenta ninguém da responsabilidade de pensar por conta própria, se é que goza dessa faculdade. Quanto menos assumiam sua culpa, mais criminosos se tornavam, mais afundavam no lodaçal.

É claro que não podia terminar bem. O mais incrível foi precisamente o modo como Jval Bhasma acabou. E aí essa estranha inversão de alvos e objetivos, mirando as próprias entranhas, ganha toques ainda mais perturbadores de inépcia e estupidez.

Jval Bhasma possuía tesouros naturais dos quais dependiam também os reinos para além das fronteiras. Ali a vida nascia e se renovava. Ali brotavam rios que alimentavam não só o país mas terras distantes.

O vício do pensamento invertido, porém, levou-os a uma dedução espantosa, estúpida e não menos suicida. Projetando no exterior, em ataques imaginários de estados vizinhos e distantes, a maior ameaça a suas riquezas naturais, o Exército tomou a dianteira e as destruiu antes que pudessem ser roubadas.

Na lógica peculiar dos generais, destruiu-as “em proveito próprio”, seja lá o que isso quisesse dizer, para acabar de uma vez por todas com a ameaça, em nome da soberania nacional. E enquanto as destruía, continuava tentando desviar a atenção, pondo a culpa da destruição no fantasma estrangeiro da sua conspiração paranoica.

Acostumados a apontar as armas para um suposto inimigo interno, quando precisaram de um bode expiatório exterior para encobrir a própria incúria, explodiram Jval Bhasma. O reino ardeu até se reduzir às cinzas que seu nome anunciava, mas que a proverbial compulsão autodestrutiva, comprometendo a capacidade cognitiva na fumaça de suas ações, impedia-os de compreender.

Como o relato só foi transcrito dois séculos depois de ter sido narrado, muitos historiadores acreditam que seja uma alegoria, um alerta aos abássidas contra as milícias turcas que eles próprios criaram e fomentaram para servi-los, e que terminariam por corromper e implodir o império. O absurdo da situação narrada no relato sobre Jval Bhasma pesa na conclusão de que só pode ser uma peça de ficção sobre um país que nunca existiu.


Conto de Bernardo Carvalho, na Folha de São Paulo

sábado, 5 de dezembro de 2020

Contos Bolsonaristas: novos clássicos do terrir brasileiro

 Estrada pintada de sangue

Enzo Gabriel nasceu com um pé mais pesado que o outro. A sinistra deformidade não era vista a olho nu. Calçava 43  desde o nascimento e, com o tempo, o corpo foi crescendo e se adaptando ao pé.

Acossado por um mundo comunista que não lhe oferecia oportunidades, Enzo construiu em 2013 seu primeiro automóvel usando centenas de tomadas de três pinos desmontadas. Em vez de gasolina, o carro de Enzo era movido pela poderosa combustão do ressentimento.

Corte para 2020. 

A caminho da Barra da Tijuca, Enzo Gabriel passa como um raio por uma viatura policial. A mais de 250 quilômetros por hora. A combinação do ressentimento aditivado com o pé pesado era uma afronta diária ao código de trânsito. Seu carro havia se transformado numa máquina mortífera. 

Dessa vez, a viatura emparelhou e exigiu que Enzo encostasse. Dois policiais armados berraram: “Cidadão, em quem o senhor votou na última eleição?”.

Enzo apontou para um adesivo de Bolsonaro no vidro traseiro. Imediatamente, os tiras baixaram a guarda. “O senhor está certo! O Estado não pode obrigar ninguém a andar devagar. Boa viagem!”

Enzo saiu cantando pneus. No caminho, amassou dois caminhões, atropelou uma galinha e uma senhora. Os policiais que o liberaram foram homenageados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Doença macabra

O patriota Clóvis do Bole Bole contraiu o maldito vírus chinês. Numa noite, ofegante e febril, comeu uma jujuba vermelha. Passados três dias, estava melhor.

Clóvis do Bole Bole foi às rádios e TVs questionar os bilhões que estão sendo gastos em busca de uma vacina. Intuiu que havia uma grande conspiração das indústrias farmacêuticas junto da extrema imprensa para esconder da população o verdadeiro poder profilático da jujuba vermelha. 

Água nefasta

Assim que soube da descoberta de água na Lua, Ricardo  Salles sentiu uma estranha pontada no peito. Comeu um tuiuiú vivo para aplacar a dor. Em vão. Cortou uma samambaia.

Nada. O sentimento de vazio só foi confortado quando Salles investiu milhões no lançamento espacial de uma tocha para evaporar a água lunar.


Reprodução da coluna de Renato Terra, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Todo o mundo está precisando de férias de si próprio

 Todo o mundo já tinha escolhido a pessoa que queria ser, e todos tinham erguido monólito sólidos e convincentes. Os amigos todos eram fanáticos por algum time, craques em algum esporte, obcecados por algum desenho animado.

Todos eram alguma coisa, muitas vezes mais de uma, e ainda assim fazia sentido. Eles eram. Eu tentava ser.

Gostava do Fluminense por causa das cores, mas não conseguia gostar o bastante pra torcer, berrar, sofrer por isso de tal modo que isso virasse eu mesmo e as pessoas dissessem: “ele é tricolor”.

Fingia torcer, claro —mas não sem culpa. Também gostava dos Beatles, mas não tanto quanto o meu amigo Bruno, que já ocupava o posto de beatlemaníaco. Às vezes forçava a barra —“sou beatlemaníaco!”, dizia. Não convencia ninguém. O papel já estava tomado. Todos os Cavaleiros do Zodíaco também já tinham dono.

Na adolescência, desisti de fabricar uma personalidade e tentei encontrar alguma que já estivesse pronta. Os sitcoms ofereciam um cardápio de almas pré-fabricadas. Escolhi a minha como quem escolhe um prato. “Acho que sou uma mistura do Ross, do 'Friends', com o George Costanza, do 'Seinfeld'”, resolvi.

Passei a gostar de bandas que ninguém conhecia, só pra ser alguém que ninguém mais era. Lembro de chegar em casa exausto de passar horas tentando ser uma coisa nova que ninguém nunca tinha sido antes.

Até que, do dia pra noite, você começa a enxergar os bastidores do mundo. A maquiagem da sua mãe começa a escorrer e você percebe que “mãe” era só um dos papéis que ela interpretava, além de irmã, filha, neta, chefe, empregada, namorada, ex-mulher.

Você abre a porta do camarim e vê seu pai tentando atochar uma calça de super-homem que já não cabe. O mundo, que antes parecia um episódio de “X-Men”, se transforma no "Mutantes" da Record. O texto não faz sentido, o elenco está mal escalado, nada mais convence.

Olhe ao seu redor. Ninguém faz a menor ideia do que está fazendo aqui. Por isso as pessoas fazem mapa astral, e se tatuam, e penduram bandeiras na janela: pra tentar lembrar do personagem que escolheram ser.

E por isso também se apaixonam, e se casam, porque encontraram no olhar de outra pessoa um personagem que parece fazer sentido. E por isso também se separam, porque cansam de fingir que são aquela pessoa que o outro inventou.

Por isso, também, o isolamento entristece: faz meses que estamos vivendo um mesmo personagem. Todo o mundo está precisando de férias de si próprio.


Texto de Gregório Duvivier, na Folha de São Paulo

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O que dá mais trabalho, ser honesto ou desonesto?

 Esta é para os filósofos de plantão: qual é a natureza humana? Somos inerentemente egoístas e desonestos, sempre dispostos a levar vantagem mesmo na base da trapaça, e honestos somente às custas de esforço cognitivo? Ou somos pessoas inerentemente boas e honestas, que precisam fazer esforço cognitivo para passar por cima da vocação a ser "caxias" e ocasionalmente tirar partido de uma situação?

De acordo com um estudo holandês publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Science, dos EUA, ambas as hipóteses estão corretas: existe toda uma gama de indivíduos na espécie humana, cobrindo um espectro que vai do extremo das pessoas honestas sem fazer força ao outro extremo daquelas pessoas que só com muito esforço perdem a oportunidade de levar vantagem.

Interessados em estudar como se manifesta no cérebro o conflito entre a tentação da recompensa externa adquirida às custas de trapaça e a satisfação com a autoimagem, os pesquisadores bolaram uma tarefa que permitia aos voluntários escolher serem desonestos dentro do escâner “sem os pesquisadores saberem”. Obviamente, de fora do escâner, os pesquisadores sabiam perfeitamente quando as trapaças aconteciam.

Resultado: como antecipado, trapaças são mais comuns quanto mais o sistema de recompensa do cérebro antecipa ganhos. Mas, ao mesmo tempo, quanto mais ativo é um segundo sistema de estruturas no córtex cerebral que permitem o pensamento autorreferente, mais honesto é o voluntário, mesmo quando a trapaça é fácil.

Portanto, ser honesto em situações onde é possível trapacear para levar vantagem depende de dois sistemas no cérebro competindo entre si. Trapaça é movida por ganância, que depende da atividade do sistema de recompensa frente à tentação; honestidade é uma questão de autorreferência.

Onde entra na história o controle cognitivo, aquele esforço pré-frontal de autocontrole, que torna o comportamento flexível? O que vem com maior atividade pré-frontal não é ser honesto ou desonesto, mas, sim, ir contra a própria tendência. Pessoas honestas se concentram em preservar seu amor próprio e sua autoimagem e precisam usar o controle cognitivo para trapacear. Trapaceiros são altamente sensíveis à possibilidade de levar vantagem e precisam usar controle cognitivo para se manterem na linha.

A cereja no bolo é que o padrão individual de atividade do cérebro prediz com mais de 70% de acerto quão honesta ou desonesta cada pessoa se revela. Ah, que lindo seria ter o resultado desses exames de neuroimagem na ficha dos políticos antes de cada eleição...


Texto de Suzana Herculano-Houzel, na Folha de São Paulo