Uma colagem de textos de terceiros que eu ache interessante. Este blog sucede as cópias de texto que eram feitas em Voltas em Torno do Umbigo e em Ainda a Mosca Azul. 11/01/2011.
segunda-feira, 9 de abril de 2018
sexta-feira, 6 de abril de 2018
carta aos fascistas
vocês não têm ódio da corupção. suas panelas jamais clamaram por justiça verdadeira. vocês têm ódio mesmo é do Lula. do ser humano. do espírito - e de tudo que representa. da pobreza ter diminuído como nunca antes nesse país. de pretos, pobres, índios, quilombolas, mulheres e favelados (como dizia marielle), terem avançado. lendo os comentário de vocês, percebo o nível da ignorância, da agressividade e do ódio perpetrados no coração de todos os que defendem a 'guilhotina' da corrupção. hipocrisia. pois se assim fosse, estariam agora clamando igualmente para que os processos - que foram ENTERRADOS - de alckmin, aécio e serra fossem levados ao mesmo circo da lava-jato. mas não. vocês sabem que isso não acontecerá jamais. vocês sonham em ser governados pelos fascistas. vocês SÃO fascistas. não querem o fim da corrupção. querem a cabela da democracia. a cabeça de luis inácio, o homem que governou para quem mais precisava na história desse país. e isso, ninguém pode negar. a ignorância não quer conversa. diálogo. ela entra, atira, mata. além de cunha, temer e os militares, o acordão de jucá sempre envolveu o judiciário. "com o supremo, com tudo". a voz que sentenciou lula ontem, absolveu aécio. uma outra juíza que ontem, desejou prisão em segunda instância, há dois anos atrás, foi contra. lula foi condenado sem provas. alguns me acusam de mitômana, me chamam de burra, vadia, torpe. de tudo que possam imaginar. eu, que não ofendi ninguém, apenas expressei minha opinião de maneira respeitosa e livre, pois ainda podemos. mas a violência do fascismo desconhece limites. aos que defendem a intervenção militar ou para quem, ainda, pretende votar no bolsonaro - candidato racista, homofóbico, misógeno... a todxs vocês, meu pedido final de clemência por sabedoria, informação, por fraternidade no coração, por compaixão, generosidade, iluminação e amor. sim, eu sei. ingenuidade minha. não se conversa com um fascista. não se convence um fascista de que ele está equivocado. a um fascista, resta a história que, comprovadamente, nos faz ouvir a sua voz, assassina: morte a tudo que floresce. morte a tudo que esclarece. morte a tudo que nos leve além. Texto atribuído a Ana Cañas, visto no DCM.
Um julgamento realizado sob coação física e moral
No dia 04 de abril de 2018, quando o Supremo Tribunal Federal julgou o habeas corpus impetrado em favor do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, o fez sob fortíssima coação física e moral, em consequência da irresponsável nota do Comandante do Exército e das manifestações de apoio de outros generais, proferidas na noite anterior, véspera do julgamento.
Nas palavras do vice-decano do Tribunal, Marco Aurélio, a presidente do STF manipulou a pauta de julgamento ao colocar o habeas corpus do ex-presidente Lula antes das ações declaratórias de constitucionalidade, que pretendiam o reconhecimento do direito da presunção de inocência até o trânsito em julgado de uma ação penal, conforme previsto no código de processo penal.
Assim, o placar construído de 6 a 5, com o duvidoso voto de desempate da senhora Carmen Lúcia, demonstra que o golpe de 2016 passou para a fase da repressão física e moral, inclusive contra autoridades que deveriam fazer valer o Direito e a Justiça.
O ministro Celso Mello, decano do Tribunal, por sua vez, registrou, previamente, em seu voto, que são inconcebíveis as medidas pretorianas exercidas por estamentos para influenciar o resultado de qualquer julgamento.
O Ministro Gilmar Mendes, um duro crítico ao Partido dos Trabalhadores, denunciou o linchamento moral que a grande mídia está promovendo em relação ao julgamento da questão e falou do risco de se abrir caminho para ações fascistas, a exemplo do que se viu na Alemanha e na Itália, na década de trinta do século XX.
No futuro este julgamento será revisto, como frisou o ministro Marco Aurélio, pois se encontra maculado por vícios que influenciam a manifestação de vontade. A coação, moral ou física, impede que o exercício do voto se dê de forma consciente e livre. Sendo assim, é nulo um julgamento realizado sob explícita coação.
Ver-se-á, então, que cassaram a todos os cidadãos o direito de exercer seu amplo direito de defesa perante todas as instâncias do Judiciário, como assegurado pelos tratados de Direitos Humanos firmados pela República Federativa do Brasil.
O mais grave é que, a prevalecer o esdrúxulo entendimento de Luís Barroso, a culpa começa a ser definida a partir do ajuizamento de qualquer ação penal, por mais descabida e destituída de provas que seja, transferindo para o acusado o ônus de provar sua inocência.
Tudo isto em nome de uma falsa moral e de uma luta contra a corrupção, cujo “mecanismo” está direcionado apenas para determinados cidadãos.
Os fascistas agradecem!
Texto de Jorge Folana, no Jornal GGN.
segunda-feira, 19 de março de 2018
Os sem bolas da bala
O novo não era apresentador de TV, não era jogador de vôlei, não eram os mercenários de internet do MBL, não era empresário, não era juiz ou procurador, não era seja lá o que for isso aí que o Doria é. O novo era a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), e o novo os caras mataram.
Mataram na última quarta-feira, durante o jogo do Flamengo de Marielle. Ela teria ficado feliz com o golaço do garoto Vinícius Jr., mas foi executada covardemente enquanto ainda estava empatado.
Pelo profissionalismo da execução, pelo lote da munição, pelo histórico de militância de Marielle e, sobretudo, pelo indisfarçável e desesperado terror que o crime despertou nos deputados Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e Alberto Fraga (DEM-DF), podemos supor que os assassinos eram milicianos, membros da banda podre da polícia, ou algum cruzamento entre os dois grupos.
Afinal, quem matou Marielle foi gente bem ruim, gente bem armada, e essa turma aí ninguém na bancada da bala é homem de enfrentar.
Bolsonaro ficou mudo de medo. Seu filho Flavio chegou a postar uma homenagem a Marielle, mas teve que apagá-la: Bolsonaro não quer filho dele se comportando como homem na frente de todo mundo.
Alberto Fraga achou que o silêncio não seria submissão suficiente aos assassinos e preferiu postar boatos contra Marielle. Entre outras coisas, disse que ela seria ex-mulher do traficante Marcinho VP.
Os boatos já foram desmentidos, mas, vejam que curioso: ano passado, Fraga foi pego em uma gravação reclamando que a propina recebida por seu assessor seria maior do que a dele (o que o teria deixado “com cara de babaca”). O deputado nega as acusações (diz que era piada), mas, se fosse condenado, Alberto Fraga é que teria a chance de entrelaçar seu coração ao de Marcinho VP, preso há vários anos e talvez já sedento por um novo amor.
O que ficou claro, também, é que Bolsonaro e Fraga ficarão contra os interventores militares em tudo que for sério. A única intervenção que os sem bolas da bala apoiam é a intervenção “subir morro e matar pobre”. Se for mexer com corrupção policial, se for cutucar milícia, se for comprar briga com a turma que mais teria motivos para matar Marielle, é melhor o general Braga Neto ir buscar aliados no PSOL. E o assassinato pode ser muita coisa, mas tem todas as marcas de também ter sido um recado para os interventores.
Seja quais forem os motivos para a execução de Marielle, o que espanta é que os assassinos não esperaram os militares irem embora no fim do ano. Talvez estivessem desesperados por alguma revelação que a vereadora estivesse prestes a fazer ao público. Se não for isso, mataram agora para intimidar os militares. Foi uma demonstração de poder extremamente ousada, de gente que se sente muito confiante.
E os mesmos suspeitos de terem executado Marielle andam insatisfeitos com a intervenção: temem o afastamento de oficiais corruptos, temem a mudança na escala de trabalho dos policiais, temem, enfim, que dessa vez seja sério.
Marielle era contra a intervenção, os militares não são simpáticos ao “pessoal dos direitos humanos”, mas dessa vez eles foram parar do mesmo lado da briga. Do outro lado, o crime organizado, e o pessoal que ganha dinheiro com o crime dentro da polícia. Fugindo da briga, já perto da linha do horizonte, Jair Bolsonaro.
Texto de Celso de Rocha Barros, na Folha de São Paulo.
As balas que mataram Marielle
As balas que mataram Marielle faziam parte de um lote comprado em dezembro de 2006 pela Polícia Federal.
Ainda não se sabe como foram parar nas mãos dos assassinos da vereadora. O ministro da Segurança Pública diz que as munições podem ter sido roubadas na sede dos Correios na Paraíba. Os Correios negam.
O fato é que o lote desviado tinha quase 2 milhões de cápsulas. A redução do tamanho desses lotes é uma demanda antiga das organizações e pessoas que clamam por um controle de armas mais efetivo. Os mesmos que são acusados de querer "desarmar o cidadão de bem" e "armar os bandidos". O fato é que a maioria das armas que acabam nas mãos dos bandidos entram em circulação pelas mãos do cidadão de bem, e do próprio Estado. Mas isso não importa para quem ganha dinheiro vendendo bala e pistola.
O último estudo do Instituto Sou da Paz sobre o assunto, em parceria com a Secretaria de Segurança, mostrou que das 5 armas mais utilizadas pelo crime no estado de SP, 4 eram produzidas pela Taurus. Quase 70% das armas utilizadas pelo crime no país são de fabricação nacional.
Meu tio morreu assassinado num assalto no Rio de Janeiro, há muitos anos. Me pergunto qual a margem de lucro que essas empresas devem ter embolsado quando venderam a arma que matou ele. Não sei. Mas sei exatamente pra onde elas têm direcionado esses recursos.
A Taurus é a quarta maior doadora oficial de campanha do deputado federal Alberto Fraga (DEM) que acusou Marielle, poucos dias depois de sua morte, de ter sido casada com Marcinho VP, e ter tido apoio do Comando Vermelho para se eleger. Todas acusações infundadas, como depois ele próprio admitiu. Questionado pela Band, ele afirmou ter recebido as informações pelas redes sociais e não ter apurado a veracidade do conteúdo, mas disse também que não se arrepende da postagem.
Fraga é um dos apoiadores dos diversos projetos que tramitam na Câmara visando facilitar a aquisição de armas de fogo —hoje, os cidadãos brasileiros têm direito a ter uma arma em casa, mas precisam responder a vários pré-requisitos, justamente para evitar que elas acabem em mãos erradas. Um desses projetos, o PL 3722/2012, propõe, por exemplo, ampliar de 50 para 600 o limite de balas que podem ser legalmente adquiridas por um indivíduo no ano.
Qual cidadão de bem precisa atirar 600 vezes em um ano? Quantas dessas munições serão revendidas para o mercado ilegal? Quantas Marielles serão vitimadas por balas "desviadas" nos Correios, nas lojas, nas casas, no bolso das pessoas?
Não é a toa que Alberto Fraga foi tão leviano, e rápido, em acusar Marielle dos piores horrores, sem um fiapo de evidências para corroborar sua fala. Ele sabe exatamente quem é beneficiado pela venda das balas que mataram Marielle, da bala que matou meu tio, e das balas que matam outros 60 mil brasileiros e brasileiras, todos os anos: ele próprio.
A mentira propagada por Fraga foi repetida por uma desembargadora, e, como não poderia deixar de ser, pelos irresponsáveis do MBL.
As balas que mataram Marielle foram pagas por nós, contribuintes brasileiros. Agora, a reputação da vereadora está na mira de quem sabe muito bem disso. Gente que sempre manipulou o medo e a ignorância do público para fingir defender os cidadãos, enquanto serve aos interesses de quem não se incomoda em ver a gente morrendo, todos os dias.
Texto de Alessandra Orofino, na Folha de São Paulo.
sexta-feira, 16 de março de 2018
Foi execução política, sim. Não é hora de isenção
Certeza que muitos amigos e conhecidos têm as melhores das intenções, certamente para tentar não alimentar ainda mais a polarização esquerda-direita, mas esse discurso neutralizador ideológico não é apenas despolitizado quanto perigoso.
Vejam bem: Marielle Franco, uma vereadora, mulher, negra, da periferia, filiada a um partido de esquerda, com bandeiras de esquerda, atuante 100% dentro de seu espectro político, foi EXECUTADA por sua vivência em convicções clássicas e históricas de esquerda.
Não mataram apenas a pessoa de Marielle e seu motorista, mas quiseram silenciar uma linha de atuação. É um recado evidente para todos os demais: calem-se, fiquem onde estão, aceitem. Ou morram.
Marielle ousou sair dos escombros das vítimas para colocar seu discurso em prática. Ousou sair da favela para ser aprovadas nas universidades, ousou disputar e vencer eleições. Ousou gritar. Ousou tentar mudar a realidade. Ousou até onde incomodou demais e, POR ISSO, foi morta.
Sei que não vão concordar, afinal já devem estar vacinados do velho discurso ideológico arcaico. Mas façam uma análise minuciosa desse discurso e percebam: nas raízes mais profundas do DNA do discurso neutralizador, existem muitos riscos.
É onde começam as anulações do feminicídio ("mas homens também são mortos e estuprados, não é só mulher"), da homofobia ("héteros também morrem, não é só gay") e do racismo ("precisamos de consciência humana, não só negra").
Não se preocupem: é possível reconhecer publicamente as claras evidências POLÍTICAS e IDEOLÓGICAS da execução de Marielle Franco, sobretudo no cenário em que vivemos, sem mergulhar na polarização.
Mas negar isso apenas para se manter isento da polarização é matar a memória de Marielle, pois seu corpo já está na pilha de corpos negros cujo sangue escorre dos morros.
Fonte: Mário Bentes, no Jornal GGN.
quinta-feira, 15 de março de 2018
O QUE você vai fazer no dia em que LULA for preso???
...ao ver sua prisão, sentiremos de forma intensa o que é a perda da liberdade... e de cada um de nós será tirado algo inestimável... e a opressão terá um gosto amargo de fel, e um choro sentido se fará ouvir...
...ao ver sua prisão, sentiremos a perda da esperança que carregamos conosco... que a ela também foi dado um fim... e de forma quase física, saberemos que a liberdade, somente se fará possível com luta... e, sem ela, nos restara apenas o desespero e a dor...
...ao ver sua prisão, sentiremos como uma espécie de falta de ar, sufocados, amordaçados, uma mordaça em nossa boca e na boca de todo povo... que cairá como tortura insuportável na boca do povo pobre e sofrido, que somente é ouvida por seu intermédio... e todos saberão que será sofrida a caminhada para se ter voz novamente...
...ao ver sua prisão, sentiremos na carne o espaço frio das grades e do cimento da cela, e veremos este ato como ele realmente é, puro ódio, força e humilhação, e será como se ofendessem mortalmente a honra de nossos filhos, pais, avós, amigos, de alguém da nossa família...
...ao ver sua prisão, sentiremos em toda nossa alma (ou em todo nosso ser, humano), como humanistas, ou religiosos que realmente temem a Deus, uma imensa sensação de orfandade, que somente a prisão de um inocente pode causar... e todos sentirão que não há nada que nos salve, senão a expulsão dos vendilhões do templo...
...ao ver sua prisão, sentiremos todos nós, brasileiros, que assim merecerem ser chamados, um sentimento de exílio em nosso próprio país... e sentirão com pesar que neste ato é encarcerada a Constituição e manchada a memória de todas as pessoas que deram seu sangue para que houvesse liberdade em sua linhas... e, é preciso resgatá-la...
Por fim, ...ao ver sua prisão, sentiremos novamente, de forma intensa o que é a perda da liberdade... e um nome será gritado por todos, e seu nome será multidão... e milhões acolherão a seu chamado... e todos sentirão que, por imensa não cabem todos na prisão...
... um pais não cabe numa prisão, nós todos não cabemos na prisão...
...e nós estaremos lá...
...de alguma forma, presos a ele... em vigília de milhões... em luta de milhões... e não haverá força bruta que nos afaste...
...até que termine seu encarceramento...e o do povo... este povo simples...
...que então libertará seu grito nas ruas, que soará como um hino... um hino de amor e liberdade...
Então... O QUE você vai fazer no dia em que LULA for preso???
Saberemos então o que é a angústia, mas saberemos também o que é determinação...
Sentiremos o medo invadir cada canto de nosso corpo, de nossa alma... mas, sairemos às ruas como se fossemos destemidos e invulneráveis ...
Filmaremos cada momento de nossa luta e da repressão a ela, e postaremos na internet as imagens, e veremos, aos poucos, os heróis da Marvel se transformarem em frágeis invenções...
Sentiremos que a verdadeira coragem está em nossos gestos, à nossa frente, e do nosso peito sairá um grito de liberdade tão forte como nossa vontade de tomá-la em nossas mãos... e solta-la no ar... solta, sem amarras... como toda liberdade que se preza.
...
No dia em que LULA for preso, somente os desalmados e os inumanos não sairão às ruas para defendê-lo...
Fonte: Jornal GGN.
domingo, 28 de janeiro de 2018
TRF-4 e Moro atribuíram a indícios o valor e as consequências de provas
Espectador do julgamento de Lula, o jurista britânico Geoffrey Robertson deixou algumas observações que, embora originárias dos procedimentos adotados na sessão, não dizem respeito só a esse caso, mas até ao próprio sistema judiciário brasileiro. Observações que têm, para a nossa Justiça, a importância esperável de um jurista de fama internacional e conselheiro da rainha Elizabeth 2ª. Ainda assim, fique dito desde logo, é improvável que a alta magistratura e o Ministério Público concedam atenção às observações de Robertson.
O interesse mais geral recai na prática de acusação e defesa. A tão comum diferença de tempo para uma e outra, em favor dos acusadores, é um desequilíbrio que, comprometendo o direito de defesa, compromete o próprio julgamento. O direito pleno de defesa, sem qualquer prejuízo ou diferença protocolar se comparada à acusação, não é apenas um princípio fundamental da Constituição. É também uma exigência da Carta Universal dos Direitos Humanos.
Entre acusação e defesa há uma ordem óbvia. A defesa só pode ser plena se, entre outras condições, conhecer toda a acusação. Essa ordem de exposições é também indispensável para a formação de votos conscientes e seguros dos magistrados, logo, para a qualidade da decisão mesma do tribunal. Como disse Robertson, o juiz precisa ouvir a acusação e, depois, o que a ela oponha a defesa, para ponderá-las e só assim formar o seu voto. A prática observada por Robertson, como poderia encontrar em outros julgamentos, foi a de julgadores chegarem com seus votos longos, semelhantes, autorreferentes -por escrito. Prontos, portanto. Mais uma vez, o jurista se sentiu "estarrecido" com isso "que é impossível acontecer na Europa".
De fato, onde fica o pleno direito de defesa? Aliás, fala da defesa para quê, se não importa nem que venha com novos dados e argumentos, porque os magistrados já chegam com suas decisões até escritas. Seus rostos podem voltar-se para o orador da defesa, mas suas fisionomias são as de quem vê um filme entediante. Com votos (e mesmo sentença) preparados antes do balanço acusação/defesa, a defesa fica, à revelia, como uma farsa judicial.
O pleno direito de defesa é vital no regime democrático. A redução de um nega a existência do outro. E o Judiciário deve ser o guardião do regime democrático prescrito pela Constituição.
No plano das observações domésticas, o desembargador João Pedro Gebran Neto foi prolífico em fornecimento de material. Ao fim de mais de três horas de confusa leitura do seu relatório, pareceu-lhe ainda haver tempo para repelir as críticas a práticas problemáticas da Lava Jato. Por exemplo, as decisões de Sergio Moro de manter presos, até capitularem, os resistentes às delações como esperadas. Marcelo Odebrecht ficou preso mais de meio ano sem ser ouvido. Até delatar, sua prisão foi esticada por mais de ano.
Léo Pinheiro, preso em novembro de 2014, conseguiu ser libertado, mas foi preso outra vez em setembro de 2016 e preso ficou. Assim sendo, não é estranho que o negócio de Lula com o apartamento, como é descrito por Moro e pelos três desembargadores, se baseie na delação afinal aceita pelo ex-presidente da OAS. Ao qual os desembargadores Gebran Neto e Leandro Paulsen até elogiaram.
O relator Gebran disse não ser verdadeira a prática de prisão extorsiva. Sim, os numerosos presos da Lava Jato até se renderem são indícios, só. Mas os desembargadores Gebran, Paulsen e Victor Laus, o juiz Sergio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e seus colegas atribuíram explicitamente a indícios, até aos mais duvidosos, o valor e as consequências de provas.
Reprodução de texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Aos poucos e discretamente, acabou sonho palestino de Estado próprio
Passo a passo, sem que explodam manchetes a respeito, acabou o sonho palestino de ter Estado próprio.
O mais recente prego no caixão dessa já remota esperança veio na terça (16), quando Donald Trump anunciou que cortou pela metade a verba à agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos.
Cria "a mais severa crise de financiamento na história da agência", segundo o porta-voz da organização, Chris Gunness.
Ela cuida de cerca de 5 milhões de refugiados palestinos, atendendo saúde, educação e alimentação. Logo, "cortar verba para comida e educação para refugiados vulneráveis não proporciona um duradouro e abrangente processo de paz", comentou o governo palestino.
Antes do corte, outro prego importante já havia sido martelado no caixão do diálogo: no fim do ano, o Comitê Central do Likud, principal partido governista de Israel, votara para estender a jurisdição de Israel aos assentamentos na Cisjordânia.
"É um prelúdio para a anexação", analisou Steven Cook, especialista em Oriente Médio e África do Council on Foreign Relations.
De fato, se a Cisjordânia é um território que a comunidade internacional reservou para os palestinos, como parte de seu futuro Estado, não faz sentido que valha para ela a legislação israelense. A menos que Israel pretenda anexá-la.
A análise de Cook coincide com informações que os palestinos repassam a jornalistas, depois de recebê-las de interlocutores egípcios e sauditas: o plano de paz que Trump diz repetidamente que está preparando incluiria criar cantões desconectados na Cisjordânia, com um governo supramunicipal e atribuir a Abu Dis, nos confins de Jerusalém, o caráter de capital palestina.
Esse pedaço de território poderia, ainda por cima, "ser vinculado a uma Jordânia vulnerável e que não o quer", na versão de David Gardner no jornal britânico "Financial Times" desta quarta-feira (17).
Morreria, pois, o sonho palestino de um Estado próprio que, porém, tem o respaldo da legalidade internacional: em 1948, a ONU determinou a criação de dois Estados na área, Israel e o que seria a Palestina.
É verdade que os países árabes não aceitaram Israel, foram à guerra e perderam. Esse fato não muda a determinação da ONU, seguidamente reafirmada, de dois Estados.
O problema é que nenhum país tem força suficiente para impor a Israel a solução internacionalmente reconhecida. Os EUA desde sempre —e mais ainda com Trump— sempre respaldaram Israel, ao passo que os palestinos recebem apoio apenas retórico do mundo árabe e do Ocidente em geral.
Depois que Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel, Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina, resolveu decretar que os EUA estão fora do jogo no processo de paz, que, aliás, é um cadáver insepulto.
Vale, pois, o comentário para o "Guardian" de Ian Black (Centro do Oriente Médio da London School of Economics): "A solução dos dois Estados para o conflito com Israel tem tido um longo desfalecimento. Mas o discurso de Abbas poderá ser visto algum dia como o seu epitáfio".
Texto de Clovis Rossi, na Folha de São Paulo.
domingo, 14 de janeiro de 2018
O desespero e a graça
No escritório de Carlos Heitor Cony, perto do computador, havia duas pequenas reproduções de Goya. Uma correspondia à fase mais atormentada do pintor: embrulhadas em roupas negras, bruxas se acocoravam contra um céu de chumbo.
Ao lado, uma cena galante de arlequins e cortesãs, num parque ensolarado e verde-claro, fazia lembrar que o artista espanhol tivera seu fastígio em pleno século 18, antes que a brutalidade das invasões napoleônicas modificasse sua visão de mundo.
O primeiro quadro, dizia ele, "são meus romances". O segundo, "as crônicas".
De certo modo, Cony aceitava a opinião tradicional, que associa a crônica a um texto sorridente, descompromissado e ligeiro.
A morte de Carlos Heitor Cony priva o país, e a Folha, de um mestre absoluto do gênero –e de um escritor cujo profissionalismo jamais permitiria infringir abertamente as regras prescritas pela convenção.
Seus textos para o jornal foram, portanto, deliciosos de ler, arejados, com um leve perfume de poesia que ele dosava à perfeição.
Mas acontecia de as sombras grotescas das feiticeiras de Goya cruzarem sua memória no meio de uma frase –para serem afastadas num gesto quase que de mau humor, com o qual Cony recuperava a graça exigida pelo gênero jornalístico.
Depois de deixar o seminário, ele se impregnou da filosofia existencialista. Sartre e Camus abriram sua sensibilidade para o absurdo e para a absoluta solidão do indivíduo nas suas escolhas morais.
Pego, meio ao acaso, uma crônica de Cony. Chama-se "Acidente de percurso da química e da gula". Começa assim:
"Não sei bem por que, mas eram considerados primos. Em algum ponto havia uma bifurcação genética e os Almeida da Silva tinham alguma coisa a ver com os Moraes, nossa família materna."
O registro, claro, é o da memória, cotidiana e doméstica. Não se trata, contudo, de recuperar o passado. O narrador não se lembra bem do parentesco; na verdade, nunca soube –e sugere que isso não tem importância.
Surge então o detalhe, este sim memorável: naquele ramo da família havia seis mulheres. "Casaram-se no devido tempo, um dos maridos mexia com produtos químicos, daí que todos eles receberam a classificação coletiva de 'Químicos'".
Apesar de característico, o traço mantém certa imprecisão: "no devido tempo" (quando?), "um dos maridos" (qual?), "mexia" (vendia? Fabricava?), "produtos químicos" (de que tipo?).
Pouco importa. O fato de serem chamados de "químicos" não interfere em nada no desenvolvimento da história, que se concentra no fato de que esses parentes eram "vorazes".
"A especialidade deles", continua Cony, "era frequentar festas em que havia bufê." O líder do grupo, chamado Eurico, vivia da renda de "cinco casas no Cachambi". Dormia "até tarde e, à tarde" (note-se o falso descuido ao repetir a palavra), "gostava de Vicente Celestino e empadinhas de camarão".
Nada disso, parece dizer Cony, tem importância ou razão de ser. Vivemos num universo em que as coisas são simplesmente assim. Poderiam ser quatro casas, poderiam ser em outro bairro, poderia ser outro cantor, poderia ser outro salgadinho. Nada disso modifica nada.
A turma fica sabendo de um casamento rico, mas o convite por escrito não veio. A festa seria na casa de um "comerciante de queijos" na rua Sacadura Cabral. Ou seria em outra rua? Talvez a Gago Coutinho?
Naquele mundo arbitrário do texto, em que um detalhe poderia ser outro qualquer, eis que a imprecisão, a falta de motivos para que algo seja o que é, contamina os próprios personagens –também eles se confundem no específico, trocam uma coisa por outra qualquer.
Terminam parando no lugar errado –e batem à porta (outro acaso inexplicável) de um poeta famoso nos anos sessenta, menos pelo talento do que pelo engajamento político: Thiago de Mello, que organizara uma recepção a outro poeta, um chileno chamado Juvêncio Valle.
A noite transcorre com o chileno recitando versos sobre "a libertação dos povos da América Latina e dos povos afro-asiáticos". Quando acaba o último poema, "Thiago de Mello mandou buscar umas pizzas numa padaria no Largo do Machado".
E a crônica termina nessa frase, como se nenhuma conclusão fosse possível.
Cony é um artista do anticlímax.
O senso lírico da desimportância de todas as coisas se traduz, para Cony, em absurdo, em falta de sentido. Sua ironia não é doce, como em tantos outros cronistas: é no desespero que ele encontrou a sua graça.
Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo, a respeito de Carlos Heitor Cony, recentemente falecido.
'Consciência do que fazia era absoluta', diz Janio de Freitas sobre amigo Cony
Aberta a grande porta, o saguão do seminário foi invadido pela rumba "Siboney", mandada do outro lado da rua pelo comitê de um candidato à Presidência. Mas o som do mundo a recepcionar o já ex-seminarista também podia ser a marchinha carnavalesca "Jardineira". Ou o samba "Implorar". Ou outro. A depender da ocasião em que a cena era descrita por seu protagonista.
Em 1945 também não houve campanha presidencial, a ditadura de Getúlio só foi derrubada em outubro. Datas, situações, fatos podiam ficar sob a rubrica "rigor histórico". Nenhuma memória valeria a imaginação de um pormenor ou de um fato capazes de dar dramaticidade, sabor original, um toque literário que fosse, à realidade insatisfatória. Conter o impulso ficcionista, quando obrigatório fazê-lo, parecia revoltante a Cony, uma repressão ao privilégio da sua fertilidade imaginosa.
Há uma diferença essencial a ser observada, sempre, nas rebeldias ficcionais de Cony contra a memória dos fatos e mesmo contra fatos. Cony não inventava, no sentido de uma elaboração. Sua fonte não era a má-fé. O fictício lhe ocorria, jorrava, nada mais que isso, e ganhava a sua certeza com uma convicção capaz até de provocar atritos e mágoas.
Em crônica na Folha, um momento de nostalgia levou-o a falar das saídas juntos do "Correio da Manhã", sempre alta noite, dele, Antonio Callado, Luiz Alberto Bahia e eu. Deixei passar, mas logo fui indagado sobre aquelas noites e companhias, e pressenti mais um equívoco a caminho. O quarteto podia ser um trio: nunca trabalhei com Callado e Bahia.
Imprecisão irrelevante, não era o caso de correção. Bastaria informá-lo. Mas foi impossível convencer Cony de que me lembrava bem de onde trabalhei e em que época. Sua certeza de minha presença incluía, além de conversas, caronas no seu carro até minha casa. Nada mais a discutir. Nunca o vi aceitar com naturalidade uma observação, de quem quer que fosse, sobre divergências suas com a memória alheia. Ficção e realidade eram uma coisa só.
Nem por isso soube que guardasse por muito tempo alguma zanga da sua sensibilidade. Exceto, talvez, pelo que foi ou seria o boicote ao seu romance "Pessach".
Mas, no caso, o ressentimento não era de pessoas determinadas e, sim, do Partido Comunista. Comunistas ligados à cultura negaram o boicote. Ainda, porém, que Cony pudesse ter uma visão desproporcional de parte da história, tinha razão quanto à discriminação aplicada ao seu livro, publicado paralelamente ao "Quarup" de Callado.
O episódio com "Pessach" mostrou a muitos um Cony desconhecido. Emergia ali, do Cony ameno, bem-humorado, ótimo de conversa, um Cony áspero, rijo, inabordável. Grosseiro até, como o próprio caso era. E muito emocional.
Fui dos que se enganaram com o seu temperamento, embora anos antes. Indefinido politicamente, Cony me pareceu o mais adequado para uma seção, "Diálogo", que decidi lançar no "Correio da Manhã", para diálogo mesmo com leitores missivistas. Eram tempos de radicalidade política muito maior que a atual, embora sem o ódio público do país embrutecido de hoje em dia.
Errei na escolha. As respostas para a seção inaugural eram de violência assustadora. Jornal não publicava carta de leitor fascistoide insultando jornalista gratuitamente nem achava que jornalista tem que engolir insulto. Foram dias de seção a ser reescrita e de cuidados nas relações. Comecei a desvendar ali uma violência refreada que me explicava algo para mim intrigante na literatura do escritor Cony de até então: a violência subjacente.
A mesma carga esteve, sob outra forma e outro propósito, nos artigos de Cony seguintes ao golpe de 64. Ainda há quem atribua esses escritos a uma dose descontrolada de irresponsabilidade do autor. Estive muitas vezes com Cony naqueles dias, conversando sobre artigos escritos e a escrever. Sua consciência do que fazia, do que sentia necessidade pessoal de fazer, era absoluta. E, enfim, mais forte do que a impulsão do ficcionista.
Os anos que passou, como dizia, sem escrever, na verdade foram sem publicar sua literatura. Certa vez o admitiu, para nunca mais. Avião o incomodava, e suponho que por isso falasse muito em nossas idas e vindas de reuniões em São Paulo.
Tinha muita coisa escrita, sim, e parte dela começava a ser aproveitada —como se pode notar em trechos de um ou outro romance da sua "volta". Mas esse não era um assunto de que gostasse. Parecia preferir conversas sobre outros autores. Aos novos, aliás, tratava com farta generosidade.
Em toda a história da Academia Brasileira de Letras, Cony foi o único autor de quatro discursos de admissão —três de posse, incluída a do próprio, e um de recepção. Nem seus colegas de fardão sabem disso, a não ser os que só entraram com o nome.
Janio de Freitas, na Folha de São Paulo, a respeito do recentemente falecido colega Carlos Heitor Cony.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
O mundo está perdido: até a mudança faz o elogio da mesmice
O respeito às tradições, sempre defendido pelo pensamento conservador, seria mais simples se as tradições não fossem tão arbitrárias, contraditórias e passageiras.
Muita gente ainda acha que homem nasce homem, mulher nasce mulher e ponto final –qualquer mudança nesse programa é invencionice, coisa de quem defende a "ideologia de gênero" e pretende "ensinar o homossexualismo".
É curioso notar que, em tempos mais ordeiros, como a época vitoriana, havia o costume de tirar fotografia de garotos pequenos com roupinha de mulher.
Reconheço que terá sido mais uma moda que uma tradição, mas em todo caso a ideia deveria causar arrepios numa sociedade em que os papéis masculino e feminino se demarcavam com nitidez.
Imagino que a criança pequena (até uns dois ou três anos) fosse considerada mais ou menos sem sexo; o primeiro corte de cabelo, eliminando os clássicos cachinhos, talvez funcionasse como um ritual de passagem.
Com meu pai, nascido em 1915, fizeram um retrato desses, de vestidinho rendado. Ficava em cima de um aparador, logo na entrada de casa, sem que ninguém me explicasse aquele estranho travestismo infantil.
Não sei que consequências isso terá tido na história da minha sexualidade. Aquilo era o que era, e não se questionava demais a influência dos "maus exemplos" sobre a masculinidade, ou a falta dela, na psicologia de quem quer que seja.
Um problema do conservadorismo é o de idealizar os tempos antigos sem conhecê-los realmente. Defende-se a permanência de velhos costumes, mas isso é mais difícil do que se imagina.
É que os velhos costumes perdem uma coisa essencial quando se torna necessário defendê-los. Perdem a inocência que tinham. Existiam sem porquê.
Na medida em que se impõe uma argumentação, estúpida ou razoável, em sua defesa, o ambiente já foi, por assim dizer, "corrompido". Já está em curso o questionamento, a dúvida, a contestação.
Como consequência, o conservador fica em desvantagem desde o início. Passa a jogar segundo regras que não eram as da tradição. Pois a tradição, em seu vigor e eficácia plena, existia sem debate. Entrar no debate já é ser mais moderno do que se gostaria.
Progressistas ou conservadores, de todo modo, chegam muitas vezes atrasados. Modas, costumes e instituições parecem surgir e modificar-se como que sozinhas, debaixo de todos os narizes.
Desapareceu, assim, a coisa de vestir meninos com vestidinho de renda. Vai desaparecendo (espero) o sistema de vestir irmãos gêmeos com roupas iguais.
Sempre achei "perigosíssimo" esse costume. Se fosse pai num caso desses, tentaria sempre diferenciar ao máximo a Jéssica da Jennifer, o Paulo Mário do Mário Paulo, e o Gilbert do Dilbert.
Antigamente, parece que a semelhança dos gêmeos deveria ser mais celebrada do que vencida. A individualidade talvez contasse menos do que a mágica duplicação dos filhos sob a autoridade familiar.
Enquanto isso, tenho visto nestes dias de fim de ano –em que minha frequência aos shoppings se intensifica– um fenômeno paralelo: o das mães que parecem irmãs das filhas.
Por um lado, isso é bom. Significa que as mulheres de 40 anos ou mais estão com aparência cada vez mais jovem, graças à ciência cosmética e ao esporte. Tenho medo de que, ao mesmo tempo, as meninas estejam cada vez mais velhas, aparentando 20 anos quando têm apenas 11.
Nada é estável nesse campo; durante séculos, meninas de 14 ou 15 anos se casavam e viravam mães sem que ninguém se escandalizasse com a pedofilia.
É inegável, em todo caso, que o combate à pedofilia seja paralelo a uma crescente dissolução das diferenças de comportamento, informação e vestimenta entre quem tem 12 ou 30 anos.
Agora, vi em algumas vitrines de shopping um sinal de que as coisas vão longe demais. Agora há roupas idênticas à venda, para que mães e filhas pequenas saiam às ruas como as gêmeas de antigamente.
Será que está em curso uma ideologia excessivamente igualitária, pressupondo que mães e filhas sejam equivalentes em poder, em direitos e em autoridade? Não, isso seria insustentável.
Talvez o contrário: a mãe quer manter seus privilégios de filha, dizer-lhe "não chateia, vou brincar e dormir tarde", quando a criança impõe um mínimo de ordem e disciplina.
Ou então, quem sabe, as duas brincam de boneca –criando cada qual sua imagem duplicada. Um narcisismo recíproco, portanto. Senhores e senhoras, o mundo está perdido: até a mudança faz o elogio da mesmice.
Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo.
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