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quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fotomania

Não é só o limite para o uso da internet. O meu celular dá sinais de exaustão todos os dias. Pede-me para atualizar não sei que aplicativo; quando aceito a intimação, ele mesmo diz que não há mais espaço para nada, que o download é impossível.
Meus programas devem estar mais ou menos estacionados na campanha eleitoral de 2014; até no celular resisto às novas realidades do país. Ou melhor, tento dar um jeito. O aparelho indica os arquivos e pastas que estão pesando muito, que é preciso apagar.
Não consegui resolver muita coisa, mas ganhei uma nova mania, que se estende ao laptop também: a de apagar antigas fotografias.
Faço, de vez em quando, grandes expedições para enviar o que há de mais importante para um serviço de revelação digital. Mas uma grande quantidade de fotos acaba indo para a lixeira mesmo.
É que, graças ao celular, nunca ficou tão fácil tirar fotografias a todo pretexto. Ficam guardadas em algum chip, e nunca mais nos lembraremos delas. É a falsa memória, empanturrando um cérebro terceirizado.
Fotos de paisagens, por exemplo. A menos que sejam lindíssimas, terminam significando quase nada. Num país ventoso, cinzento e gelado, aquela encosta de arbustos verdes me pareceu notável. O ônibus da excursão estacionara numa curva do caminho.
"Aqui o clã dos Mc Rery foi exterminado pelo exército dos Mc Sparse", contava o guia; o que fazer, senão tiritar e tirar uma foto?
Atenção, aquele ponto preto, a cem quilômetros do último pico da montanha, é um condor! Aponto o celular. A meus pés, entre pedras brancas e areia cinza, quase invisível, esconde-se um rápido lagarto. Incrível! Uma foto só não basta –o bicho é ágil, talvez a imagem esteja borrada, tento outra, e esta aqui, de perfil, será a melhor das 11.
Os alemães têm uma palavra boa para designar atrações turísticas. Chamam-nas de "Merkwürdigkeiten". Dá mais ou menos para adivinhar que "merk" tem a ver com "reparar", "to remark", "observar", "remarquer", "atentar para". O "würdig" significa algo como "digno de", "potencialmente". O "keit" do final serve para substantivar o adjetivo.
Resumindo, a palavra indica "coisas que potencialmente serão dignas de que você repare nelas".
O ato de reparar, todavia, é passivo demais. No mínimo, exige que o compartilhemos com a pessoa ao lado. Azar: ela também está ouvindo as explicações do guia sobre aquela raça de vacas, presente apenas na Escócia, na Patagônia ou no Cariri. Assentimos com a cabeça.
Um mudo ponto de exclamação (!) pode homenagear esta ou outra magra queda d'água, aquele mísero resíduo arqueológico, a grande pedra no meio do caminho.
Que mais fazer, a não ser tirar uma foto com o celular, e "compartilhá-la" no Facebook, já lotado de amigos que nunca conheci?
A imagem sem valor será encaminhada para pessoas igualmente destituídas de importância para mim.
Por que isso tudo? Talvez algumas coisas tenham se tornado fáceis demais, baratas demais. Quando as fotos eram em película, pensava-se melhor antes de tirá-las e pagar a revelação.
Não é que a coisa sem valor tenha preço baixo. Por terem preço baixo, ou nulo, nascem coisas sem valor nenhum.
Mas talvez a fotomania tenha, apesar de tudo, um sentido mais profundo. O "notável" ("merkwürdig") lagarto atrás do cacto também "compartilhava" (êta palavrinha chata) comigo um mesmo e diminuto espaço do mundo. Um segundo depois, e terá fugido de vista. Preciso fotografá-lo antes que desapareça. Estou tentando, com meu celular, segurar o tempo. Quero que o instante fique; não quero que, meramente visto, o lagarto morra da minha memória, e eu com ele.
Registro, na verdade, o fato de que aquele segundo foi um pouquinho mais especial do que qualquer outro. A viagem já era uma parada no tempo. O ônibus de turismo, que estacionou, impõe interrupção nova e oficial ao transcurso indiferente do dia.
O despenhadeiro em que se deu aquela vaga batalha do século 11 prossegue em sua longa existência geológica. Nada acontece; o choque das espadas e o sangue dos soldados nada mais foi que uma fagulha no tempo. Eu me transformo apenas num celular que pisca.
Duas luzes mínimas, a de um flash, a de uma fogueira, se respondem no intervalo de mil anos. Depois apago os arquivos do celular.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 7 de março de 2016

Morre Ray Tomlinson, o inventor do e-mail

Morre Ray Tomlinson, o inventor do e-mail

Aos 74 anos, programador foi vítima de uma deficiência cardíaca

O americano Ray Tomlinson, que inventou o e-mail, morreu aos 74 anos, nos Estados Unidos, segundo Vinton Cerf, co-inventor do protocolo TCP/IP e atual vice-presidente da Google.

Nascido em 1941, Tomlinson se formou no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT) e em 1971 escreveu o primeiro e-mail da história. Cerf anunciou a morte de seu colega nas suas páginas do Twitter e do Facebook. A imprensa americana informou que Tomlinson foi vítima de uma deficiência cardíaca.


Tomlinson projetou o programa para enviar e-mails quando trabalhava na Arpanet, rede a serviço de pesquisadores e militares que mais tarde daria origem à Internet. Foi dele a ideia de utilizar o símbolo @ para separar a identidade da pessoa da rede a qual se vincula.

Em seu blog, Tomlinson havia contado com riqueza de detalhes a história de sua criação. "O primeiro e-mail foi enviado entre duas máquinas que se encontravam uma ao lado da outra", conectadas através da Arpanet, explicou.

"A primeira mensagem foi bastante 'esquecível' e de fato a esqueci", acrescentou. "O mais provável é que tenha sido algo como QWERTYUIOP (as primeiras letras do teclado em inglês) ou algo assim...". "Não acreditem em tudo o que leem na internet. Lembrem, há pessoas por trás dessa web e as pessoas cometem erros", alertou no seu blog

 Reprodução do Correio do Povo

domingo, 5 de julho de 2015

O dia em que a casa caiu

Hotel Four Seasons de Beverly Hills. Em Los Angeles, bacana que é bacana já se hospedou ali. Se não se hospedou, pelo menos fez alguma refeição no restaurante italiano do térreo, o Culina. Ou nadou na longa piscina, pedalou na academia ao ar livre, sussurrou segredos ao ouvido de outro bacana em algum dos amplos salões.
No Four Seasons também acontecem muitos encontros dos executivos mais poderosos do entretenimento. Como em 24 de fevereiro de 2000, um dia depois da entrega dos prêmios Grammy.
Numa sala reservada, altos dirigentes de gravadoras se reúnem para uma demonstração. A então presidente da associação da indústria fonográfica, Hillary Rosen, está lá, junto com um computador plugado na internet. Ela convoca os chefões a dizer o nome de uma canção --de preferência bem obscura, daquelas enterradas no final de um álbum que ninguém comprou.
Os homens vão falando. Mais de 20 músicas. E, em todos os casos, em questão de segundos, a turma que opera o computador encontra a canção disponível na rede. De graça.
Foi um divisor de águas. As gravadoras viviam a euforia de seu ano mais lucrativo de todos os tempos. Mas, finalmente, começavam a entender que seu modelo de negócios estava ruindo. Agora, a música era grátis.
Esse nascer de uma nova era está retratado em um livro excelente, recém-lançado nos EUA e na Inglaterra: "How Music Got Free: The End of an Industry, the Turn of the Century, and the Patient Zero of Piracy" (como a música ficou grátis: o fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria). O autor é o jornalista Stephen Witt, 35, do Brooklyn (claro).
Em um estilo bastante na moda, a narrativa se divide em três eixos:
1) O dos nerds alemães, engenheiros de altíssimo nível, que inventaram o formato MP3 em um instituto federal de pesquisas;
2) O da indústria da música, personificada em Doug Morris, presidente da Universal Music;
3) O dos piratas, com foco em Dell Glover, operário de uma fábrica de CDs na Carolina do Norte, que roubava os discos muito antes de serem lançados e os "subia" para a internet.
O que poderia ser um relato tedioso, cheio de jargões só para entendidos, torna-se uma história arrebatadora nas mãos de Stephen Witt.
O livro começa na Alemanha, onde um grupo de engenheiros acústicos geniais nutre o mais profundo desprezo pelo CD. Para eles, usar um para armazenar música é como injetar morfina para tratar uma leve dor de cabeça. Excessivo, sem sentido.
Décadas de estudo em psicoacústica tinham provado que, com 12 vezes menos dados do que em um CD, era possível arquivar música digitalmente, com a mesma qualidade. Bastava usar truques matemáticos, na programação, para "enganar" o cérebro.
Witt conta os anos de ralação dos alemães, tentando convencer o mundo de que seu formato de áudio, o MP3, era o melhor. Quando estavam quase desistindo, no final dos ano 1990, surgiu o Napster, primeiro programa de sucesso para troca de música na web. O Napster e o MP3 pareciam nascidos um para o outro. Os alemães tinham vencido.
Stepehen Witt também traça um retrato preciso do executivo veterano Doug Morris. Como todos os dirigentes de gravadoras, surfando nos lucros inéditos dos anos 1990/2000, Morris foi incapaz de antecipar o estrago que seria causado pela troca de arquivos de MP3. Quando acordou, a lama já lhe entrava pelo nariz.
Mas o protagonista de "How Music Got Free" é Dell Glover, um funcionário de uma fábrica de CDs no interior profundo dos EUA. Desde sempre, Glover foi fanático por computadores. Quando a internet chegou, lá estava ele, obsessivamente on-line.
Não era tão difícil roubar os CDs da fábrica. Seu jeito favorito era esconder o disco atrás da fivela do cinto --gigante, como ditava a moda caipira do local. Se o detector da segurança disparasse, bastava dizer que era por causa da megafivela. Nunca ninguém conferiu.
Detalhe: Glover e seu parceiros não lucravam nada com a música. Faziam só pela adrenalina.
Há muito tempo eu não aprendia tanto, e com tanto prazer, em um único livro. "How Music Got Free" é leitura essencial para quem busca entender nossos novos tempos digitais.


Texto de Álvaro Pereira Júnior, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Produção de LPs da Polysom cresce 60% ao ano

Produção de LPs da Polysom cresce 60% ao ano

A preocupação hoje é atender a demanda - que só cresce

Quarenta e cinco discos clássicos de música brasileira relançados, além da crescente fabricação de LPs a pedido de novas bandas e artistas. A demanda pelo vinil não para de crescer, a ponto de fazer a produção aumentar uma média de 60% ao ano, congestionando as prensas da Polysom, única fábrica de vinil que reúne todas as fases de produção da América Latina. 

Uma virada no mercado que começa a provocar seu primeiro sintoma colateral. Se antes a preocupação de seu investidor, o produtor e empresário João Augusto, era não quebrar ao acreditar em um negócio "falido", como diziam seus amigos em 2009, quando ele comprou a antiga fábrica, a questão, hoje, é atender à demanda que só cresce. "Chega uma hora em que você não entrega porque tem muito mais procura do que capacidade de produzir. Toda hora você tem que pensar em uma prensa nova, novos funcionários. A empresa está colocando esta prensa, mas a gente sabe que ela não vai alcançar a demanda, que cresce em projeção absurda", conta João Augusto.

A paixão pelo ritual, para o empresário, é o motor que impulsiona a procura. Os números são de parar as máquinas. "Há um aumento de pelos menos 60% ao ano tanto de fabricação quanto de venda de vinil no mundo. É o mesmo número no Brasil. A empresa cresceu, de 2012 a 2013, 63,50% e, no ano seguinte, 63%. É muita coisa", afirma João, hoje consultor da Polysom.

Seria motivo de comemoração no Record Day Store, uma celebração ao culto das lojas de discos criada nos Estados Unidos lembrada neste sábado, não fosse a preocupação com a produção limitada. "Há um momento em que você não consegue mais fabricar, não tem mais capacidade, todo mundo está no limite, no mundo inteiro. A Polysom, quando começou, pedia 45 dias para entregar. Hoje pede 60. Lá fora, se você pede um disco em uma fábrica, eles vão entregar em quatro meses." 

Outro funil para um retorno em maior escala são os aparelhos de toca-vinil, um mercado que acorda lentamente e ainda não produz equipamentos com qualidade similar às velhas marcas dos anos 60 ou 70. Seria só preciosismo se tal limitação não implicasse decisões de fabricação para tornar os LPs compatíveis com os aparelhos. "O controle de qualidade da Polysom é feito com muita rigidez, mas em aparelho de alta qualidade, Technics, Newmark. Acontece que existem uns toca-discos no mercado de qualidade muito ruim e tudo o que a gente conquistou de som bom em alguns discos tivemos de mexer para não ficar pulando nessas vitrolas pequenas. Antigamente, as fábricas pouco se lixavam para isso. O cara comprava um disco e, se o disco pulasse, ele pegava uma caixa de fósforo e a colocava em cima do braço. Hoje, esses toca-discos são tão fracos que nem o fósforo resolve. Para atender aos dois aparelhos, temos de mexer na equalização, tirar grave, baixar volume, botar o grave no centro. São processos que a gente não gostaria de fazer. A gente não ouvia defeito na hora de fazer, mas as pessoas diziam, 'olha, o disco está pulando na faixa tal'." 

Ainda assim, ressalta João, só uma comparação com o disco original em um bom aparelho apontaria as limitações dos LPs reeditados. A Polysom acaba de colocar nas lojas o álbum "Revólver", lançado por Walter Franco em 1975. Diante da questão "para onde estamos indo?", João faz sua previsão: "Vai ser vinil e digital". E o CD? "Eu não gosto de matar formato. Os outros que matem, depois eu vou no enterro. O CD foi vulgarizado. O CD foi a melhor mídia, é uma pena que tenha ido parar naquelas gôndolas horrorosas."

Reprodução do Correio do Povo

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Gigantes da web fazem 'carta a Washington'

Gigantes da web fazem 'carta a Washington'


RAUL JUSTE LORES
DE WASHINGTON

Oito gigantes da tecnologia lançam hoje campanha para cobrar do governo e Congresso dos EUA uma revisão profunda dos sistemas de espionagem e coleta de dados.
Google, Apple, Microsoft, Yahoo!, Facebook, Twitter, LinkedIn e AOL publicam anúncios de página inteira nos principais jornais americanos sob o título "Carta Aberta a Washington".
É o primeiro pedido de cobrança coordenado de empresas do Vale do Silício contra os superpoderes da NSA (Agência de Segurança Nacional). Várias dessas empresas foram acusadas de colaborar com o governo e quebrar privacidade de usuários.
Também pedem reformas no sistema de vigilância global e, sem citar o Brasil, criticam países que querem "obrigar provedores a instalar suas infraestruturas dentro de suas fronteiras", o que seria um obstáculo "ao livre fluxo de dados e informações".
O texto do Marco Civil da Internet defendido pelo governo brasileiro obriga as grandes empresas globais da web a ter seus dados armazenados no Brasil --medida a que as companhias se opõem.
Apesar de reconhecerem a necessidade de segurança, as empresas dizem que "é urgente a necessidade de mudar as práticas de vigilância".
O texto não fala diretamente do ex-técnico da NSA Edward Snowden, que revelou os sistemas que coletam milhões de ligações telefônicas e e-mails em todo o mundo, mas diz que, "depois das revelações, o equilíbrio em muitos países se inclinou demais a favor do Estado e se afastou dos direitos do indivíduo".
Em outro texto, as empresas pedem mais limites para a coleta de dados pelos governos. Elas defendem que as regras sejam mais claras; que as agências de inteligência tenham supervisão maior de organismos independentes, com maior prestação de contas, e que cortes independentes averiguem o seu trabalho; que os pedidos do governo sejam mais transparentes.
"Os governos devem permitir às empresas que publiquem o número e a natureza de pedidos de informação pelos governos para a informação dos usuários (...). A habilidade de os dados fluírem ou serem acessados além das fronteiras é essencial a uma robusta economia global do século 21", diz o manifesto.
Outra recomendação é para que se evitem conflitos entre governos, conclamando a criação de um regime jurídico "robusto, com princípios e transparente", que funcione para intermediar os pedidos legais entre diferentes governos e jurisdições.
A campanha lançará o site www.reformgovernment surveillance.com.
O presidente do Google, Larry Page, declarou em comunicado que "a segurança dos dados dos usuários é crucial, e por isso investimos tanto em criptografia e lutamos por transparência sobre como os governos pedem informações --esforço que foi minado pela aparente coleta de dados no atacado pelo governo, em segredo e sem supervisão independente".


Reprodução da Folha de São Paulo

terça-feira, 23 de julho de 2013

Start-up cria câmera que lê para deficientes visuais

A israelense Liat Negrin, deficiente visual desde a infância, entrou recentemente em uma mercearia, pegou uma lata de legumes e leu seu rótulo usando uma câmera simples e discreta acoplada aos seus óculos.
Negrin, que tem coloboma, má-formação de nascença que perfura a estrutura do olho e afeta cerca de uma em cada 10 mil pessoas, é funcionária da OrCam, "start-up" israelense que desenvolveu um sistema com câmera destinado a permitir que deficientes visuais se desloquem livremente e "leiam" com facilidade.
O aparelho da OrCam consiste em uma pequena câmera usada de forma semelhante ao Google Glass, conectada por um fino cabo a um computador portátil projetado para caber no bolso do usuário. O sistema fica preso com a ajuda de um pequeno ímã aos óculos do usuário e emprega um alto-falante de condução óssea para descrever em alto e bom som as palavras ou objetos apontados.
Para reconhecer um objeto ou texto, o usuário simplesmente aponta para ele com o dedo, e o aparelho interpreta a cena.
O sistema reconhece um conjunto pré-definido de objetos e permite que o usuário amplie seu acervo -incluindo, por exemplo, o texto de um rótulo ou outdoor, um semáforo ou uma placa de rua- simplesmente acenando com a mão, ou com o próprio objeto, no campo de visão da câmera.
Até agora, assistentes de leitura para cegos e outros deficientes visuais eram aparelhos desajeitados, capazes de reconhecer textos só em ambientes restritos, ou, mais recentemente, aplicativos para smartphones, com capacidade limitada.
O sistema foi concebido para reconhecer e descrever textos em geral -de jornais a números de ônibus-, além de objetos tão diversos quanto marcos da paisagem, semáforos e rostos de amigos. Ele reconhece textos em inglês.
O aparelho é vendido no site da empresa por US$ 2.500, o preço de um aparelho auditivo mediano.
Ele é diferente de outras tecnologias desenvolvidas para permitir alguma forma de visão a cegos, como o sistema de retina artificial chamado Argus II, fabricado pela Second Sight Medical Products. Esse sistema, aprovado em fevereiro pela FDA (Administração de Alimentos e Drogas dos EUA), permite que sinais visuais contornem a retina danificada e sejam transmitidos para o cérebro.
O dispositivo da OrCam é ainda vastamente diferente do Google Glass, que também oferece uma câmera ao usuário, mas foi concebido para pessoas com visão normal e tem limitações em termos de reconhecimento visual e poder local de computação.
A OrCam foi criada há vários anos por Amnon Shashua, pesquisador e professor de ciência da computação na Universidade Hebraica. A tecnologia se baseia nos algoritmos de visão computadorizada que ele desenvolveu com outro docente, Shai Shalev-Shwartz, e com um ex-aluno dele na pós-graduação, Yonatan Wexler.
O avanço é resultado da rápida melhora dos computadores, que agora podem ser carregados no bolso, e do algoritmo de visão computadorizada desenvolvido pelos cientistas. O sistema OrCam é representativo também das melhorias em sistemas de visão que empregam a inteligência artificial.
A técnica da OrCam, chamada Shareboost, se distingue pelo fato de que, à medida que cresce o número de objetos que ele precisa reconhecer, o sistema minimiza o poder de processamento adicional que é exigido.
"Os desafios são enormes", disse Wexler, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da OrCam. "As pessoas que têm baixa visão vão continuar a ter baixa visão, mas queremos aproveitar a informática para ajudá-las."
Um dos principais desafios, segundo Shashua, é permitir um rápido reconhecimento óptico de caracteres sob condições de luz muito diversas e também sobre superfícies flexíveis.
"Os leitores ópticos profissionais de caracteres hoje funcionam muito bem quando a imagem é boa, mas temos desafios adicionais -precisamos ler o texto sobre superfícies flexíveis, como um jornal na mão", disse ele.
Embora o sistema possa ser utilizado por cegos, a OrCam planeja inicialmente vender o aparelho nos Estados Unidos a pessoas com deficiências visuais impossíveis de serem adequadamente corrigidas com o uso de óculos.
A OrCam disse que mundialmente há 342 milhões de adultos com deficiência visual significativa, sendo 52 milhões deles com renda de classe média.
Tomaso Poggio, cientista da computação no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), com quem Shashua estudou, ficou impressionado com o aparelho da OrCam. "O que é notável é que o aparelho aprende com o usuário a reconhecer um novo produto", disse ele.
"Isso é mais complexo do que parece, e, como especialista, acho realmente impressionante."


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Cresce procura por discos de vinil


Sempre houve colecionadores de discos que desdenhavam do CD, afirmando que os sulcos do LP reproduziam um calor e uma profundidade que o código digital não conseguia imitar. Mas o mercado de modo geral os ignorou. Gravadoras fecharam suas fábricas, exceto algumas que produziam principalmente música para dançar, já que o vinil continuou sendo o meio preferido dos DJs.
Essa resistência inicial não foi em vão, graças principalmente a um público de colecionadores de discos, muitos nascidos depois do lançamento do CD nos anos 1980.Hoje, pequenas e grandes gravadoras estão lançando vinis, levando a um surto de novas fábricas.
Quando a dupla eletrônica Daft Punk lançou "Random Access Memories", em maio, 6% de suas vendas na primeira semana -19 mil de 330 mil- foram em vinil, segundo a Nielsen SoundScan, que mede as vendas de música nos Estados Unidos e no Canadá.
Outros grupos com público predominantemente universitário tiveram sucessos semelhantes: na mesma semana, o National vendeu 7.000 exemplares em vinil de "Trouble Will Find Me", e 10 mil fãs do Vampire Weekend optaram pela versão em LP de "Modern Vampires of the City".
Michael Fremer, que monitora o campo na Analogplanet.com, disse: "Nenhuma dessas empresas está imprimindo discos para se sentir bem. Fazem isso porque acham que podem vender".
Thomas Bernich, da Brooklyn Phono, disse que sua empresa faz cerca de 440 mil LPs por an. Já uma gigante como a Rainbo Records, em Canoga Park, na Califórnia, produz de 6 a 7,2 milhões, segundo Steve Sheldon, seu diretor-geral.
A Quality Record Pressings, em Salina, no Kansas, abriu em 2011 depois que seu dono, Chad Kassem, ficou impaciente com a demora em uma fábrica que imprimia sua linha de reedições de blues. Hoje sua companhia faz LPs para todas as grandes gravadoras. Atualmente, ele imprime 900 mil discos em vinil por ano. "Não gastamos um dólar em publicidade, mas tivemos trabalho desde o dia em que abrimos", disse Kassem
Existe um limite para a expansão das empresas de vinil. Quando parecia inevitável que os CDs suplantariam os LPs, as empresas que faziam impressoras de vinil mudaram de maquinário. A última prensa foi feita em 1982, por isso as start-ups procuram prensas usadas (o valor médio é de US$ 25 mil) e as recondicionam.
Algumas fábricas de impressão tentaram produzir novas prensas, mas acharam o custo proibitivo -até US$ 500 mil.
David Bakula, vice-presidente sênior de desenvolvimento de clientes e visões da Nielsen SoundScan, disse que sua companhia identificou 4,6 milhões de vendas domésticas de LPs no ano passado, um aumento de 18% em relação a 2011, mas ainda só 1,4% do mercado total. Neste ano, disse Bakula, as vendas de vinis deverão atingir 5,5 milhões.
Outras medições do setor incluem números de empresas auxiliares. Heinz Lichtenegger, cuja empresa Audio Tuning, em Viena, produz o toca-discos Pro-Ject, disse que vende 8.000 peças por mês.
A Music Direct, companhia de Chicago que é dona do Mobile Fidelity Sound Lab, tem equipamentos semelhantes, incluindo toca-discos que custam entre US$ 249 e US$ 25 mil. Josh Bizar, diretor de vendas e marketing, disse que a Music Direct vendeu 500 mil LPs e "milhares de toca-discos" no ano passado.
Os compradores, diz Bizar, não são nada nostálgicos. "Temos garotos que ligam e nos dizem por que escutam vinil", disse ele. "Quando perguntamos por que não escutam CDs, dizem: 'CDs? Meu pai escuta CDs -por que eu faria isso?'"


Allan Kozinn para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo

domingo, 12 de maio de 2013

125 bilhões de imagens... e contando


Combinada com a internet, a fotografia digital mudou a forma como vemos e registramos o mundo. Todo dia, 300 milhões de imagens são postadas no Facebook, o que perfaz um total de 109,5 bilhões de fotos publicadas na rede social num ano. Adicione-se a isso o Instagram, comprado por Mark Zuckerberg por US$ 1 bilhão, que sozinho é responsável por 40 milhões de fotos compartilhadas diariamente (14,6 bilhões por ano). E o site Flickr teve 518 milhões de imagens publicadas só em 2012 (no ano anterior foram 560 milhões).
– As fotos digitais estão tão disseminadas que fizeram a arte de fotografar perder um pouco de sua magia... É como se fotografar não tirasse mais um pedaço da alma, como diziam os índios – afirma Eny Miranda, vice-presidente da Associação Profissional de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Rio (Arfoc). – A pessoa já aponta o celular e fotografa, sem enxergar a “vida real” do que está captando.
Para especialistas, parte disso se deve a um processo gradual de aprendizado dos usuários de telefones com câmeras embutidas cada vez mais poderosas na mão (as mais recentes têm 13 megapixels). Não por acaso, o designer e fotógrafo Beto Pestana inicia esta semana no Rio o curso “Mobile Photography e Instagram: uma nova ordem estética na fotografia”, baseado em iPhones, para aprofundar esse aprendizado.
– Nossa cultura e educação sempre passaram muito pela palavra, pelo verbo – diz Pestana. – Agora, as pessoas estão aprendendo a se comunicar pelas imagens. Daí essa voragem de captura e compartilhamento.
Para ele, há um componente social, quiçá antropológico, aí. As classes emergentes, que nem sempre têm um registro fotográfico de sua história pregressa, de seus antepassados, passaram a ter acesso à tecnologia e encontraram no smartphone uma ferramenta para compensar isso, tornando-se agentes da fotografia. Na verdade, segundo Pestana, as pessoas passaram a ser mais agentes, executores da fotografia, do que seu objeto.
– Estudos dizem que a câmera é um dos principais itens de interesse do brasileiro na compra de um smartphone. E a relação com um smartphone é muito diferente da relação com uma câmera. O smartphone é hoje um dos objetos mais íntimos de uma pessoa, provavelmente o último que larga antes de dormir e o primeiro a pegar ao acordar – filosofa o designer.
Edição na própria máquina
Mesmo os fotógrafos que ainda não se renderam ao smartphone encontram novos interesses ao usar as câmeras digitais compactas. É o caso do fotógrafo francês Bertrand Linet, durante muitos anos colaborador da “Revista Geográfica Universal” e que viaja pelo globo para registrar as mais diferentes culturas.
– Há alguns meses adquiri uma pequena máquina DSLR ( digital single-lens reflex , que proporciona mais ajustes), como câmera de backup . Num evento de decoração, tirei algumas fotos com ela e, rapidamente, pude usar dois filtros para transformar a imagem – conta Linet. – Gostei muito do resultado e da possibilidade de ajuste direto na máquina. Ela tem seis filtros, com três modos cada um.
O que falta, de acordo com os analistas, é a capacidade do usuário de perceber melhor o que vai fotografar antes de dar o clique final.
– Como a fotografia digital permite uma facilidade enorme de capturar, as pessoas não examinam mais o que está diante delas, só registram exageradamente. Falta administração aí – diz Beto Pestana. – É preciso curtir o momento, escolher o melhor ângulo, refletir e minimizar a quantidade de fotos para maximizar a qualidade. E aproveitar os recursos de pós-edição com parcimônia, pois eles não substituem o bom olhar na hora de fotografar.
O especialista lembra o fotógrafo americano Ansel Adams para dizer que a imagem que fazemos está mais ligada ao conhecimento de nossa psique do que ao obturador.
– Como disse Adams, um fotógrafo não faz uma fotografia apenas com sua câmera, mas com os livros que leu, os filmes a que assistiu, as viagens que fez, as músicas que ouviu e as pessoas que amou – afirma.
Um dado negativo do vórtice fotográfico atual é que, com a facilidade de compartilhamento de imagens nas mídias sociais, os direitos autorais e o crédito do fotógrafo muitas vezes ficam esquecidos.
– Por isso passei a usar marca d'água nas minhas fotos – diz Eny Miranda, da Arfoc. – As imagens muitas vezes são usadas fora de contexto nesse compartilhamento incessante.
Se é válida a crítica ao excesso de fotos supostamente fúteis na internet – pratos de comida, unhas recém-pintadas e imagens tiradas no espelho “pra postar no Facebook”, como diz o funk “Ela é Top”, de Léo Rodriguez e MC Bola –, por outro lado não se deve esquecer o caráter voluntário de qualquer rede social.
– Tudo isso faz parte da experimentação quando se começa a usar uma nova tecnologia. As pessoas reclamam, mas se esquecem que diante do exagero basta deixar de seguir certos usuários – diz Pestana. – Por outro lado, existem usos e usos: já há menus em restaurantes de Nova York que ficam no Instagram, com direito a comentários de usuários sobre os pratos.
De certo modo, dizem os analistas, a sanha de fotografar e postar tudo na internet pode ser comparável aos blogs pessoais: todo mundo pode escrever e publicar na hora.
– Mas falta o olhar crítico, a reflexão sobre o que se vai comunicar – afirma Eny.
No futuro, imagens computacionais
O futuro da fotografia digital reserva ainda muitas surpresas. De acordo com o professor Bruno Feijó, do Departamento de Informática da PUC-Rio, se o digital acabou com a mística da revelação na sala escura, a evolução natural das imagens atuais será para a fotografia computacional, bem mais complexa e sofisticada.
– Na fotografia digital, capturamos uma projeção 2D vista pela lente e usamos os programas de pós-edição para melhorá-la, corrigi-la, transformá-la – diz Feijó. – Na fotografia computacional, captura-se não só a projeção 2D mas algo muito mais completo: é como se capturássemos o mundo à volta, com muito mais informação. Pode-se ter focos variados em planos diferentes, com parâmetros variando ao longo da captura. Com isso, seria possível perceber até coisas “ocultas” na imagem, com as profundidades de campo alteráveis.
Segundo Feijó, na fotografia computacional lentes não são necessárias – a informação vem do sensor, que embute a função das lentes, mas faz muito mais, mercê de elementos como um esquema de luz estruturado que fornece mais informações ao aparelho.
– E o processamento posterior pode oferecer muito mais possibilidades, com informações 3D e extensão do uso do recurso HDR ( high dynamic range ), que usa diferentes capturas da mesma cena para realçar a imagem final.

Texto de André Machado, publicado no Observatório da Imprensa.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Proust, indústria e engenheiros


Proust, indústria e engenheiros

Queixas habituais de indústria e governo escondem incapacidade de melhorar tecnologia

A PRODUÇÃO da indústria está mais ou menos no mesmo nível de 2007 (na média deste ano em relação à média de 2007). Quase cinco anos. Capacidade ociosa não chama investimento. Não crescemos, entre outros motivos de curto prazo, porque não investimos.
A queixa habitual é um ímã para outros clichês: a indústria desanda devido a câmbio, imposto excessivo, energia cara. Clichês nem sempre mentem, mas são antolhos mentais. "O hábito é a coleira que prende o cão ao seu vômito", escreveu Samuel Beckett, sim, o escritor de Godot e coisas melhores. Tratava de Marcel Proust, mas passemos. Uma boa palavra vale por mil imagens.
É possível tirar os bodes do câmbio, do imposto etc. da sala? Não, pois não se trata de bodes que empesteiam apenas de passagem.
Mexe-se um pouco no câmbio, mas não podemos fazer muita coisa mais (sem provocar efeitos colaterais pesados).
Dá para reduzir um pouco de imposto aqui, outro ali, mas não muito mais enquanto gasto & dívida do governo continuarem o que são.
O governo talvez reduza um pouco da conta de luz das empresas. Mas, de novo, dessa pescaria vai sair mais lambari do que pacu.
O que é a nossa indústria, afora esses lastros indesejáveis? É capaz de inventar produtos, processos? Fala-se demais sobre a parte de fora da fábrica, pouco sobre o que se passa lá dentro. Ou de quem pode mudar o ambiente interno da indústria: centros de pesquisa aplicada.
Mesa de almoço, conversa informal, um colega coreano aqui nos EUA, engenheiro, pergunta o que queremos com a Foxconn (a gigante sino-taiwanesa que fabrica produtos da Apple no Brasil). O governo quer importar a Foxconn para fazer monitores mais avançados etc.
O colega coreano relembra que a Coreia não fez sua indústria com investimento estrangeiro ("eles não transferem tecnologia"). Copiou ("engenharia reversa") e criou institutos de pesquisa fora e dentro das empresas (como a Hyundai e a Samsung), importou engenheiros. O primeiro carro coreano foi projetado por britânicos importados.
A USP levaria uma década para formar os engenheiros que a Hyundai, coreana, ou a Huawei (chinesa de tecnologia de informação) empregam nos centros de pesquisa.
Colegas chineses riem simpáticos e irônicos quando a gente pergunta das queixas mundiais contra suas intervenções nos mercados. Num tom amigável, mas de quem explica enorme obviedade, contam que não fazem mais do que copiar métodos americanos históricos.
Concordam com os coreanos: não dá para confiar que multinacionais espalhem tecnologia no país em que aportam. Por isso as exigências draconianas dos chineses sobre transferência de tecnologia. Por isso o programa maciço de formação de engenheiros, uma das grandes metas do país para o futuro próximo.
A conversa do almoço não é novidade mesmo. É literatura acadêmica faz década e meia, pelo menos. Mas alguém ouve falar de importar ou produzir engenheiros e ciência por aí? Não custa lembrar: até nós já fizemos isso: Embrapa, Petrobras, Embraer.



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Morre pioneiro da inteligência artificial


Morre pioneiro da inteligência artificial

Americano John McCarthy, morto aos 84, cunhou o termo em 1955 e desenvolveu linguagem-chave de programação

Pesquisador via como objetivo a criação de computadores com capacidade humana, mas reconhecia limites


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/d2610201101.jpg
John McCarthy em foto sem data

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA E SAÚDE

Quando você usar apenas o som da sua voz para ligar para alguém usando o celular, ou quando empregar um tradutor automático para enfrentar uma língua desconhecida, agradeça ao tio John.
"Tio John" era o apelido dado por alunos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) a John McCarthy, morto aos 84 anos em Stanford, na Califórnia. Cientista da computação e professor emérito da Universidade Stanford, McCarthy foi o responsável por cunhar o termo "inteligência artificial".
Isso foi em 1955, e a expressão virou o lema de uma conferência científica nos EUA, realizada no ano seguinte, que acabaria fazendo deslanchar o ramo das máquinas inteligentes nas décadas posteriores. Mas McCarthy fez mais do que inventar uma expressão grudenta. Ele também desenvolveu e publicou, em 1960, a linguagem de programação Lisp, que logo se tornou a mais empregada em projetos de inteligência artificial (IA).
De lá para cá, o cientista sofreu uma grande tragédia pessoal (a morte de sua mulher, a programadora Vera Watson, escalando uma montanha do Nepal), mas continuou sua atividade de pesquisa, chegou a propor um projeto de elevador espacial e escreveu contos bem-humorados de ficção científica.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Em seu site pessoal, ele organizou um conjunto de perguntas e respostas sobre a IA para o público em geral, tentando explicar por que robôs com características humanas ainda não dirigem carros ou limpam casas.
"Os programas de computador têm velocidade e memória de sobra, mas suas habilidades correspondem aos mecanismos intelectuais que os programadores entendem a ponto de transformar em linguagem de computador", escreve McCarthy. Como há muitos mecanismos da mente que ainda são misteriosos, em algumas coisas os computadores superam as pessoas de longe, mas em outras apanham feio de crianças de dois anos, diz.
Esse é também o consenso entre outros especialistas. Para o filósofo Daniel Dennett, da Universidade Tufts (EUA), as formas mais "light" de IA hoje fazem parte das nossas vidas, nos sistemas de reconhecimento de voz ou de planejamento de reservas. "Mas o sonho de construir um robô consciente sempre foi loucamente ambicioso", diz Dennett. "Acho que nunca faremos isso. Custaria mais do que pisar na Lua."
A opinião de McCarthy era um pouco mais nuançada. Ele admitia que reproduzir "todas as peculiaridades" da mente humana seria muito difícil, mas para ele o objetivo da IA era criar computadores tão capazes de resolver problemas quanto pessoas. "Precisaremos de novas ideias para conseguir isso."


Folha de São Paulo, 26/10/2011 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2610201101.htm  (para assinantes)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Morre Steve Jobs, fundador da Apple


Morreu nesta quarta-feira (5) aos 56 anos o empresário Steven Paul Jobs, criador da Apple, maior empresa de capital aberto do mundo, do estúdio de animação Pixar e pai de produtos como o Macintosh, o iPod, o iPhone e o iPad.
Idolatrado pelos consumidores de seus produtos e por boa parte dos funcionários da empresa que fundou em uma garagem no Vale do Silício, na Califórnia, e ajudou a transformar na maior companhia de capital aberto do mundo em valor de mercado, Jobs foi um dos maiores defensores da popularização da tecnologia. Acreditava que computadores e gadgets deveriam ser fáceis o suficiente para ser operados por qualquer pessoa, como gostava de repetir em um de seus bordões prediletos, que era "simplesmente funciona" (em inglês, "it just works"). O impacto desta visão foi além de sua companhia e ajudou a puxar a evolução de produtos como o Windows, da Microsoft.

Este é apenas o trecho inicial de um longo e informativo necrológio publicado no G1, a respeito do recente passamento de Steve Jobs. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Um jogo sobre o ciclo de vida dos "smartphones"


Já previa punição, diz autor de jogo banido

Apple tira do ar game polêmico que traz críticas às condições de trabalho para a fabricação de smartphones

Criadores de Phone Story prometem doar valor arrecadado a ONG de defesa dos direitos trabalhistas


CARLOS OLIVEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Soldados gritam com mineiros escravos no Congo, seguranças usam uma rede elástica para impedir suicídios de um prédio e trabalhadores recolhem lixo eletrônico em condições deploráveis.
Esses são alguns estágios do jogo Phone Story, aplicativo polêmico que se propõe a mostrar o ciclo de vida de um smartphone.
Lançado na semana passada na loja virtual da Apple por US$ 0,99 (R$ 1,69), Phone Story foi banido quatro horas após ser anunciado e depois de ter sido baixado por cerca de mil usuários.
No dia seguinte, foi lançado em uma versão para Android, sistema operacional do Google para portáteis.
Criado pela desenvolvedora italiana MolleIndustria e idealizado pelo núcleo ativista Yes Lab, o jogo faz alusões à Apple e aos suicídios em 2010 na fábrica chinesa Foxconn, que produz componentes para Apple, HP e Dell.
Também traz referências às acusações de extração por escravos do minério Coltan, usado em dispositivos eletrônicos devido à sua resistência a calor, na República Democrática do Congo.
Michael Pineschi, do Yes Lab, falou à Folha sobre o desenvolvimento de Phone Story. "Lançamos o jogo como aplicativo para smartphones, porque isso cria uma interação direta: o telefone fala com você sobre o ciclo de vida dele", argumenta.
Sobre a menção à Apple no aplicativo, Pineschi diz que "todos os smartphones (e dispositivos eletrônicos) sofrem desses problemas, mas a Apple é o grande arquétipo".
O ativista admite que a retirada do jogo da Apple Store não foi surpresa. "Esperávamos que ele seria banido em algum momento".
Segundo o desenvolvedor Paolo Pedercini, da MolleIndustria, o jogo foi criado em pouco mais de dois meses, durante o "tempo livre", com auxílio financeiro do festival britânico de cultura digital AND (Abandon Normal Devices) e da bienal de design de Gwangju (Coreia do Sul).
"Mas tudo será doado, então o orçamento foi zero". O programador diz que as doações, que serão registradas no site da MolleIndustria, irão para a Sacom, ONG que defende direitos trabalhistas baseada em Hong Kong, assim que Apple e Google enviarem o dinheiro.
A versão para o Android está disponível no Android Mar-ket brasileiro por R$ 1,71. Segundo o programador, ela foi construída na madrugada seguinte ao banimento. Cerca de 3.000 pessoas baixaram essa versão do app.
A MolleIndustria é especializada em jogos com críticas ao capitalismo. Além de Phone Story, já fez Oilgarchy, sobre a indústria do petróleo, e McDonald's Videogame, sobre a rede de fast-food.



terça-feira, 19 de abril de 2011

Dispositivos a serem descartados

Qual ‘gadget’ podemos descartar do dia a dia?

Por SAM GROBART

Uma queixa comum contra a tecnologia é que ela leva a um acúmulo de dispositivos. Mas isso está mudando, e menos produtos têm realizado mais tarefas. Não precisamos mais, portanto, acumular tantos "gadgets". A questão é: de quais podemos abrir mão, e quais seria preferível manter?
COMPUTADOR DE MESA - Livre-se. Você deve ter um, mas vai mesmo substituir seu desktop quando ficar ultrapassado? Supondo que você não seja editor de vídeo ou viciado em jogo, os laptops têm o poder computacional que um usuário médio precisa.
INTERNET RÁPIDA EM CASA - Mantenha. Com o advento de dispositivos como o MiFi, que converte um sinal 3G em uma nuvem wi-fi a ser partilhada por vários aparelhos, você pode estar pensando em largar seu provedor de internet e usar o celular para se conectar à internet. Isso funciona - desde que você tenha um sinal forte para a transmissão de dados; que você nunca pretenda assistir vídeos do Netflix, YouTube ou Hulu; e que você tenha um pacote ilimitado de dados. Provavelmente, faz mais sentido manter o seu provedor.
TV A CABO - Depende. Fanáticos por esporte provavelmente vão querer mantê-la, já que muitas competições restringem o conteúdo on-line, mas telespectadores eventuais, interessados principalmente em alguns programas e filmes, podem se virar com uma conexão à internet e serviços baratos de assinatura de filmes.
CÂMERA FOTOGRÁFICA - Livre-se. Sim, uma câmera que seja só câmera vai tirar fotos melhores do que um smartphone - mas não muito. E uma câmera tem limitações. É difícil compartilhar fotos até transferi-las para o computador, e não existem aplicativos para câmeras, como há para smartphones, que permitam aplicar filtros e tratamentos legais.
CÂMERA DE VÍDEO - Livre-se. Os smartphones capturam vídeo. É verdade que a qualidade não é de Imax, mas muita gente não liga. Entre as opções mais sofisticadas, novas câmeras digitais reflex monobjetivas podem gravar vídeo em Full HD, aproveitando todas as lentes intercambiáveis criadas para a fotografia estática.
PEN DRIVE - Livre-se. Compartilhar arquivos não exige mais equipamento físico. Em quase todos os casos imagináveis, é possível transferir arquivos digitalmente pela internet. Uma opção para isso é aderir a um serviço como o Dropbox, que cria na nuvem um disco rígido privado e partilhável.
TOCADOR DE MÚSICA DIGITAL - Livre-se. Você tem um smartphone? Então, você tem um tocador. Músicas são dados, e dispositivos multifuncionais podem processá-las junto com muitos outros tipos de informações (como vídeos, e-mails e aplicativos).
GPS - Livre-se. Os aparelhos de GPS mais baratos custam cerca de US$ 80. Mas o seu smartphone pode fazer a mesma coisa pela metade do preço ou gratuitamente. Os smartphones Android já vêm com um aplicativo "curva a curva" do Google. Em março, o Google anunciou a inclusão de dados históricos e em tempo real sobre o trânsito no planejamento das rotas. Se você tem iPhone, existem várias opções de aplicativos com GPS.
LIVROS - Mantenha (com uma exceção). Sim, os "e-readers" são incríveis, e, sim, eles provavelmente vão se tornar uma plataforma de leitura mais dominante ao longo do tempo. Mas veja só o livro: é durável; você pode deixá-lo molhar um pouco sem que se estrague; com frequência ele é tão barato que, se você perdê-lo, não vai ficar tão chateado; e você pode pegar livros emprestados gratuitamente em bibliotecas.
Mas há uma área onde o material impresso vai ceder espaço ao conteúdo digital: os livros de culinária. O Martha Stewart Makes Cookies ("Martha Stewart faz biscoitos"), um aplicativo de US$ 5 para o iPad, é a onda do futuro. Cada receita tem uma foto do prato (algo em geral caro demais para os livros impressos). Procedimentos complicados podem ser explicados em vídeo. Você pode mandar para si mesmo um e-mail com a lista de ingredientes. O aplicativo faz o que livros de receitas não conseguem fazer, oferecendo uma versão melhor de tudo o que existiu antes.


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 11/04/2011. É uma opção individual, ligada ao contexto dos Estados Unidos da América, se isso não está bem claro no texto. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Especialistas em exorcismo dizem que internet populariza culto a Satã

Sacerdotes católicos e especialistas em exorcismo reunidos em um curso para exorcistas em Roma alertaram que o acesso à internet e a novas tecnologias facilita o contato com seitas satânicas e a difusão do culto ao demônio.

Uma preocupação dos organizadores do curso, organizado pela Universidade Regina Apostolorum, é o risco de que os jovens, muitos dos quais utilizam a internet regularmente, estejam mais vulneráveis ao satanismo.

"O sacerdote com uma boa preparação pode ajudar muito a enfrentar o problema do fascínio exercido pelo satanismo sobretudo em jovens frágeis ou que vivem em situação de dificuldade", disse o porta-voz da Universidade Regina Apostolorum, Carlo Climati, ao apresentar o curso.

Falando à BBC Brasil, o padre Cesare Truqui, um dos organizadores, disse que, "além de padres, há psicólogos, médicos, advogados e outros especialistas que ajudam os sacerdotes no discernimento dos casos, para entender se o que se passa com a pessoa sai da normalidade".
 
Sexto curso

O curso para exorcistas, intitulado Exorcismo e Oração pela Liberação, dura até o próximo sábado e é o sexto organizado pela Universidade Pontifícia Regina Apostolorum em colaboração com o Grupo de Pesquisa e Informação Sócio Religiosa (Gris, na sigla em italiano).

O objetivo do curso não é formar exorcistas, mas fornecer instrumentos úteis para o trabalho dos sacerdotes. Cerca de 60 pessoas, entre religiosos e leigos, participam das aulas nesta edição.

Um dos professores, o padre exorcista Gabriele Nanni, disse que as pessoas ficam expostas ao buscar na web informações sobre práticas satânicas e ocultismo.

"Graças à internet há grande difusão de esoterismo e satanismo, e é justamente por meio destas práticas que muitas pessoas sofrem ataques do demônio, ainda que não a ponto de serem totalmente possuídas", disse o religioso, segundo a agência de noticias Ansa.

Embora não tenha fornecido números, Nanni informou que, nos últimos anos, aumentou o número de padres exorcistas.

"No mundo eclesiástico, há um aumento da atividade dos exorcistas, com um interesse maior sobretudo por parte dos sacerdotes mais jovens", afirmou Nanni.
 
Dados científicos

Giuseppe Ferrari, diretor da Gris, instituto reconhecido pela Conferência Episcopal italiana, confirmou a percepção da difusão do satanismo via internet.
"Dados científicos confirmam esta tendência. Recebemos muitas denúncias e pedidos de ajuda de pessoas que se envolvem com seitas satânicas e outros tipos de seitas", disse ele à BBC Brasil.

"A internet é um veículo de informação onde se encontra de tudo. Num site de rock tipo 'heavy metal', por exemplo, abrem-se links para sites, e as vias de acesso são infinitas."

O instituto é contatado diariamente por pessoas que denunciam ser vítimas de manipulação mental e abuso psicológico após terem se envolvido com seitas de vários tipos.

"O curso sobre exorcismo foi criado justamente porque houve necessidade de analisar melhor esta espécie de moda que cresceu nos últimos anos. O fenômeno aumentou e a internet tem um peso nisso", disse o porta-voz.


Notícia da BBC Brasil, no UOL Tecnologia