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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O sucesso da Coreia

A Coreia do Sul é o mais bem-sucedido caso de industrialização tardia. O país, que hoje tem 50 milhões de habitantes, superou o subdesenvolvimento, atingindo renda per capita, infraestrutura, serviços públicos, consumo massificado e outras características que o colocam entre as nações mais prósperas do mundo.
Dado o sucesso, o capítulo sobre o país, dos professores da Unicamp Adriana Nunes Ferreira e Mariano Laplane, no livro "Padrões de Desenvolvimento Econômico, Estudo Comparativo de 13 Países: América Latina, Ásia e Rússia", organizado pelo economista Ricardo Bielschowsky, só poderia ser interessante.
Marcante na estratégia é o descomunal intervencionismo. O Estado vedou a entrada do capital estrangeiro, concedeu subsídios aos grupos nacionais e orientou os ciclos de investimento, mas também fixou metas de exportação, reprimiu sindicatos e por décadas dificultou que os excedentes se direcionassem ao consumo de luxo, às aplicações financeiras ou à exploração imobiliária.
Assim, a taxa de investimento manteve-se alta, chegando a quase 40% do PIB na virada dos anos 1980 para os 90, de modo a promover as vendas externas e o crescimento, cuja média de 1953 a 1993 superou 7%.
A trajetória coreana pode ser dividida em três fases. De 1953 a 1961, após a Guerra da Coreia e sob forte influência dos EUA, há as reformas agrária e da educação, além da privatização de estatais que na origem eram de capital japonês.
Mesmo mantendo um crescimento acelerado, o governo civil foi derrubado em meio a acusações de favorecimento nas privatizações. O período do nacional-desenvolvimentismo se inicia em 1962 com a instalação de uma ditadura militar que se estendeu até 1993.
O regime nacionalizou bancos, porém manteve as empresas em mãos privadas. Após uma fase de substituição de importação de bens de consumo leves, na década de 1970 foi a vez da indústria pesada: siderurgia, máquinas, automóveis, construção naval, química e eletroeletrônica.
Dados o restrito mercado interno e a escassez de recursos naturais, o país, para obter divisas e operar em escalas eficientes, buscou as vendas externas.
Nesse momento, governo e grupos privados mostram poder de readequar a estratégia de industrialização, percebendo que o dinamismo passaria a vir da eletrônica. Para tanto, foi importante a atuação como fornecedores de indústrias japonesas de eletrônicos de consumo.
No início dos 1980, a crise da dívida afetou bem menos a Coreia, que, em relação à América Latina, tinha um grau bem menor de abertura financeira. Com isso, o país não sofreu com a interrupção dos fluxos privados de financiamento externo.
Ainda assim, o ajuste passou pela privatização de bancos, que foram incorporados aos grupos econômicos ("chaebol") para novamente alavancar as exportações.
No fim da década, com dinamismo tecnológico e experiência em estratégias de comercialização e marketing, uma preocupação havia muito presente em razão da necessidade de exportar, os "chaebols" buscaram a internacionalização. Assim, o mundo conheceu a força das marcas Hyundai, Samsung, entre outras.
Ao longo do tempo, a ação estatal foi legitimada pelo crescente sucesso de suas empresas. Mas é claro que esse sucesso também conferiu mais independência aos grupos privados, bem como fez florescer a democracia a partir de 1994.
No terceiro período, houve a liberalização do sistema financeiro e dos fluxos de capitais com o exterior, alavancando um endividamento externo que expôs o país aos riscos que levaram à crise de 1997. O Estado teve de novo papel decisivo, promovendo a fusão de grupos em dificuldades com os mais fortes e incentivando a concentração dos conglomerados em seus núcleos de negócios.
Houve ainda privatizações e internacionalizações no sistema financeiro. Porém o Estado mantém as diretrizes de longo prazo no desenvolvimento tecnológico, o apoio creditício especializado, como o do Banco de Desenvolvimento da Coreia, e participações em firmas privatizadas.
Depois de aproveitar com grande êxito a proximidade com as potências dos EUA e do Japão, a Coreia enfrenta o desafio de lidar com a ascensão da China, que representa oportunidades para as maduras e inovadoras empresas coreanas, mas também é uma ameaça nos mercados doméstico e global.


Texto de Marcelo Miterhof, publicado na Folha de São Paulo.

sábado, 24 de maio de 2014

Industrialização comparada

Está no prelo o livro "Padrões de Desenvolvimento Econômico, Estudo Comparativo de 13 Países: América Latina, Ásia e Rússia", editado pelo CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) e organizado pelo professor da UFRJ Ricardo Bielschowsky. A obra retoma tradição de análises de padrões e singularidades nas trajetórias de desenvolvimento.
Ao comparar AL (América Latina) e Ásia, o livro permite completar uma avaliação feita na coluna retrasada sobre a industrialização por substituição de importações (ISI) ocorrida no pós-Guerra. A partir dos anos 1970, os choques do petróleo e dos juros americanos e a liberalização financeira interromperam a ISI, o que significou na AL um longo período de baixo crescimento e de reversão da aproximação em relação à renda per capita e à estrutura produtiva dos países ricos.
Porém na Ásia não houve tal descarrilhamento. Há razões para isso.
Ambas as experiências recorreram a protecionismo, subsídios, financiamento público, estatais e coisas afins para superar a inércia de uma industrialização tardia.
A AL teve como traço marcante o recurso a empresas transnacionais para acelerar a absorção de tecnologias e a criação de setores. Isso atendeu aos interesses da firmas estrangeiras, em especial as que à época não tinham posição competitiva de destaque na Europa e nos EUA e procuravam novos mercados.
Se propiciava crescimento e mudança estrutural mais velozes, o capital externo também trouxe graves limitações. O capital privado nacional permaneceu frágil e mais voltado a setores de bens não transacionáveis, como bancos e construção.
A internalização de plantas prontas de diferentes origens dificultou a articulação entre as matrizes industriais e dessas com os produtores de bens de capital. De início, a busca de exportações nem sequer era questão posta, pois não fazia parte da lógica da vinda das transnacionais.
Frações reduzidas das populações ascenderam, tendo acesso a empregos de alta produtividade e remuneração. O caráter restritivo fez a industrialização concentrar renda, o que em certa medida foi funcional ao criar mercado para bens de grande valor. Mas a fragilidade do consumo de massas ampliou a falta de autonomia do capitalismo na região.
Como pontua o capítulo do México, feito pelo professor da USP João Furtado, a ISI era uma bola de neve: o aumento de renda e consumo eleva as importações, o que, sem o crescimento das exportações, amplia o deficit comercial, exigindo um novo passo na substituição de importações e, assim, reforçando qualitativamente a dependência externa.
A Ásia, por seu turno, teve a vantagem de ter sido palco-chave da Guerra Fria, levando os EUA a conceder substanciais ajudas financeiras a aliados e permitir arranjos mais autônomos de desenvolvimento.
A escassez de recursos naturais e o primado do longo prazo à custa do bem-estar presente (principalmente da elite) levaram ditaduras asiáticas a: rejeitar o capital externo ou exercer alto controle sobre ele; priorizar a criação de competências, em vez de simplesmente transplantar setores; buscar novas tecnologias, em vez de apenas incorporar técnicas existentes; e expor as empresas locais à competição global, fixando metas de exportação em contrapartida aos benefícios concedidos.
A conquista de autonomia tecnológica e empresarial e a manutenção de um maior controle sobre a movimentação de capitais, juros e câmbio permitiram que os países asiáticos, com destaque para a Coreia do Sul, enfrentassem os choques dos juros e do petróleo, continuando a crescer desde a década de 1980. Hoje, países da região são líderes tecnológicos e econômicos mundiais.
Na AL, a reação liberal à crise da ISI levou à desindustrialização, embora o México tenha encontrado nas "maquiladoras" uma radicalização da industrialização dependente e o Brasil resista como exceção parcial.
Diante desse alento, o caminho é o do aprendizado, sem amaldiçoar ou defender acriticamente a ISI. Claro, não é possível replicar experiências datadas. Além disso, é desejável que o desenvolvimento seja puxado pelo mercado interno. Mas é preciso, entre outras coisas, que uma política industrial exponha as empresas brasileiras ao mercado global e que o ambiente macroeconômico favoreça tal esforço.
Nas próximas semanas, tratarei de experiências de países abordados no livro.


Texto de Marcelo Miterhof, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aço chinês

Acaba de ser publicado um livro extraordinário, que faz uma exploração cirúrgica no corpo da economia chinesa. Expõe os subsídios que ela tem inteligentemente manipulado sob a miopia da OMC (Organização Mundial do Comércio), para a presidência da qual foi eleito agora um bri- lhante e competente diplomata brasileiro, o embaixador Roberto Azevedo.
Trata-se do "Subsidies to Chinese Industry", de U.C.V. Haley e G.T. Haley (Oxford University Press). Sua tradução mereceria um estímulo da Confederação Nacional da Indústria, para que todos os brasileiros pudessem conhecer como funcionam os "mercados" inseridos numa estrutura de capitalismo de Estado.
O livro é o trabalho de uma dupla de detetives que vão juntando as peças de um quebra-cabeça e autopsiando um corpo vivo e vibrante como é a estrutura produtiva chinesa.
Analisa quatro setores: a indústria do aço, do vidro, do papel e de autopeças. Traz à luz do dia os imensos subsídios escondidos (alguns de características insuspeitadas) que promoveram a expansão industrial chinesa no comércio exterior.
Neste "suelto", tentamos apenas abrir o apetite dos leitores interessados em saber por que a nossa indústria siderúrgica patina e sucumbe, amassada pela produção chinesa. E como ela foi amputada das condições isonômicas de competição pela lamentável política econômica executada depois do necessário e bem-sucedido processo de privatização do setor.
O avanço da produção chinesa de aço foi avassalador: em 1999, antes de sua entrada na OMC, ela representava menos do que 16% da produção mundial; em 2006, menos de 35% e em 2012, quase 50%! Hoje, ela é superior a 700 milhões de toneladas, enquanto a nossa não passou de 35 milhões de toneladas em 2012. O volume dos subsídios (sem falar no câmbio) é gigantesco. Desde aumentos de capital para cobrir prejuízos; empréstimos a taxas de juros muito baixas e que não precisam ser "performados", feitos pelo Banco de Desenvolvimento da China; interferência do governo no custo do trabalho, até no custo da energia.
Entre 2000 e 2008, eles foram da ordem de 3 bilhões de dólares por ano. É claro que, mesmo sem esses benefícios, a indústria de aço chinesa teria se desenvolvido, mas a uma taxa menor, principalmente se tivesse de submeter-se às condições da OMC.
É ainda mais claro, entretanto, que ela foi produto de uma decisão política do governo. A China não se tornou o que é, o maior produtor e exportador de aço, por acidente ou porque usou o mercado para aproveitar suas "vantagens comparativas". Foi produto de subsídios, vontade férrea e ação inteligente do governo.


Texto de Antonio Delfim Netto, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Proust, indústria e engenheiros


Proust, indústria e engenheiros

Queixas habituais de indústria e governo escondem incapacidade de melhorar tecnologia

A PRODUÇÃO da indústria está mais ou menos no mesmo nível de 2007 (na média deste ano em relação à média de 2007). Quase cinco anos. Capacidade ociosa não chama investimento. Não crescemos, entre outros motivos de curto prazo, porque não investimos.
A queixa habitual é um ímã para outros clichês: a indústria desanda devido a câmbio, imposto excessivo, energia cara. Clichês nem sempre mentem, mas são antolhos mentais. "O hábito é a coleira que prende o cão ao seu vômito", escreveu Samuel Beckett, sim, o escritor de Godot e coisas melhores. Tratava de Marcel Proust, mas passemos. Uma boa palavra vale por mil imagens.
É possível tirar os bodes do câmbio, do imposto etc. da sala? Não, pois não se trata de bodes que empesteiam apenas de passagem.
Mexe-se um pouco no câmbio, mas não podemos fazer muita coisa mais (sem provocar efeitos colaterais pesados).
Dá para reduzir um pouco de imposto aqui, outro ali, mas não muito mais enquanto gasto & dívida do governo continuarem o que são.
O governo talvez reduza um pouco da conta de luz das empresas. Mas, de novo, dessa pescaria vai sair mais lambari do que pacu.
O que é a nossa indústria, afora esses lastros indesejáveis? É capaz de inventar produtos, processos? Fala-se demais sobre a parte de fora da fábrica, pouco sobre o que se passa lá dentro. Ou de quem pode mudar o ambiente interno da indústria: centros de pesquisa aplicada.
Mesa de almoço, conversa informal, um colega coreano aqui nos EUA, engenheiro, pergunta o que queremos com a Foxconn (a gigante sino-taiwanesa que fabrica produtos da Apple no Brasil). O governo quer importar a Foxconn para fazer monitores mais avançados etc.
O colega coreano relembra que a Coreia não fez sua indústria com investimento estrangeiro ("eles não transferem tecnologia"). Copiou ("engenharia reversa") e criou institutos de pesquisa fora e dentro das empresas (como a Hyundai e a Samsung), importou engenheiros. O primeiro carro coreano foi projetado por britânicos importados.
A USP levaria uma década para formar os engenheiros que a Hyundai, coreana, ou a Huawei (chinesa de tecnologia de informação) empregam nos centros de pesquisa.
Colegas chineses riem simpáticos e irônicos quando a gente pergunta das queixas mundiais contra suas intervenções nos mercados. Num tom amigável, mas de quem explica enorme obviedade, contam que não fazem mais do que copiar métodos americanos históricos.
Concordam com os coreanos: não dá para confiar que multinacionais espalhem tecnologia no país em que aportam. Por isso as exigências draconianas dos chineses sobre transferência de tecnologia. Por isso o programa maciço de formação de engenheiros, uma das grandes metas do país para o futuro próximo.
A conversa do almoço não é novidade mesmo. É literatura acadêmica faz década e meia, pelo menos. Mas alguém ouve falar de importar ou produzir engenheiros e ciência por aí? Não custa lembrar: até nós já fizemos isso: Embrapa, Petrobras, Embraer.



segunda-feira, 19 de março de 2012

O engano de Elio Gaspari



Dentro de poucos meses estará navegando nos oceanos ao redor do mundo o petroleiro João Cândido, fabricado no Estaleiro Atlântico Sul, em Suape, município de Ipojuca, situado 30 km ao sul do Recife. Até alguns anos atrás o local do estaleiro era um grande areal, na região da Mata Sul de Pernambuco, cuja economia era baseada na tradicional cultura da cana-de-açúcar, e em tempos recentes também no turismo, por conta das belas praias tropicais de águas mornas.
Em 2003, por orientação do Presidente Lula, a Petrobras anunciou que passaria a comprar petroleiros, plataformas e navios de transportes fabricados no Brasil. Os empresários interessados em fabricar navios poderiam receber financiamentos do Fundo de Marinha Mercante e do BNDES. Logo vários grupos empresariais se formaram para criar estaleiros em Suape (PE), no Rio Grande (RS), e para soerguer os antigos estaleiros sucateados no Rio de Janeiro. Eles participaram das licitações da Transpetro, o braço naval da Petrobras, assinaram contratos de encomendas e começaram a construir suas instalações, treinar e selecionar pessoal para fabricar navios.
Na região da Mata Sul de Pernambuco houve uma verdadeira revolução. Até então a maioria dos homens só tinha emprego na época da safra de cana, grande parte como bóias-frias. Ou então como funcionários dos hotéis. As mulheres tinham poucas opções além de serem donas de casa. Milhares de pessoas se inscreveram para fazer cursos de soldador, ferramenteiro, torneiro, eletricista, muitos oferecidos pelo SENAI com apoio do Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás, o PROMIMP. Foi o governo que tomou a decisão de recuperar e dinamizar a indústria naval brasileira. O empresariado nacional enxergou novas oportunidades e respondeu aos desafios.
Processo semelhante ocorre em todos países que se industrializaram. Os governos formulam políticas industriais e criam instrumentos de apoio, contratando empresas para desenvolver produtos com recursos não-reembolsáveis, financiando e concedendo incentivos fiscais para a produção, assegurando a compra dos produtos, e também protegendo seus mercados contra a importação de produtos similares. Os empresários entram com coragem, capacidade de gestão, com ambição e, as vezes, com recursos próprios.
Casos emblemáticos são o da indústria de micro-eletrônica, da qual o mundo hoje tanto depende, que foi criada nos Estados Unidos com forte apoio do programa espacial da NASA, e da indústria aero-espacial, estimulada e mantida pelas encomendas das forças armadas. Exemplo recente do protecionismo está no cancelamento pelo governo americano do contrato de compra de aviões da Embraer, que tinha vencido licitação da Força Aérea dos EUA.
Em 2007 começou a ser construído o petroleiro João Cândido, formado por milhares de chapas de aço, soldadas manualmente uma a uma, como são feitos os navios em todo o mundo. A estrutura e a carcaça do navio foram construídas dentro do dique seco. Em 2010, com a estrutura e a parte externa do navio concluídas, as comportas do dique foram abertas, ele foi inundado, o navio flutuou e foi lançado ao mar. Desde então trabalha-se na construção do recheio do navio, instalações, máquinas e equipamentos, com o navio flutuando ancorado no cais do estaleiro, deixando o dique seco para a montagem de outro navio.
Por isso o João Cândido foi lançado ao mar em 2010 e ainda não está em operação. É o primeiro navio construído em Pernambuco. É verdade que houve atrasos na fabricação de suas instalações. Certamente houve erros. Mas não erra quem não faz. E não se aprende sem errar. O Estaleiro Atlântico Sul emprega hoje cerca de 5 mil pessoas e gera cerca de 25 mil empregos indiretos. Os estaleiros em operação no Brasil empregam diretamente mais de 50 mil pessoas. A grande maioria estaria sem emprego se o Governo Lula não tivesse decidido revitalizar nossa indústria naval.
No último domingo milhares de leitores leram em diversos jornais do Brasil a celebrada coluna do Élio Gaspari, escritor e jornalista do maior respeito, de quem sou admirador e leitor assíduo. Intitulado “Reapareceu o mico da construção naval”, o artigo critica o que chama de anabolização da indústria naval brasileira pelo Governo Lula. Ele afirma que “de cada 10 operários, 8 trabalham para encomendas da Petrobras. Tudo bem, mas um navio que custa US$ 60 milhões em Pindorama sai por US$ 35 milhões em outros países. A Vale, que não é boba, contrata navios na China.”
Não pude deixar de lembrar o editorial de um grande jornal brasileiro do dia 8 de outubro de 1953, poucos dias após o Congresso Nacional aprovar a criação da Petrobras. “A atitude do governo federal em relação ao problema do petróleo denuncia absoluta irresponsabilidade em face dos interesses nacionais. Quanto à urgente necessidade de tudo se fazer com o objetivo de prospectar e explorar as riquezas pretrolíferas que o nosso subsolo porventura encerre, a solução encontrada foi criação da Petrobras, que onerará excessivamente os contribuintes, a ponto de prejudicar a economia nacional, sem nos trazer a menor esperança de resultados positivos. A Petrobrás significará um considerável desperdício de dinheiro e de tempo, atestando nossa incapacidade de resolver um dos mais urgentes problemas econômicos nacionais.”
O grande jornal estava a serviço das classes mais conservadoras do Brasil, com seus preconceitos e grandes interesses. O Gaspari certamente não está a serviço das mesmas classes. Mas nem por isso deixa de servir certos interesses, quando usa de sua autoridade e seu prestígio para escrever artigo com tamanho engano.
Ele aponta erros na fabricação de navios no Brasil, mas não relembra que há poucos meses atrás, um navio importado pela Vale não suportou a carga de minério num porto do Maranhão e quase causou um grande desastre ambiental. E ao comparar o preço do navio fabricado no Brasil com o do importado, ele não considera o enorme valor da geração de milhares de empregos no Brasil. E não leva em conta que a industrialização do País não pode ser feita ao bel prazer das empresas estrangeiras que aqui se instalam, atraídas por nosso grande mercado. O País não está condenado a ser eterno exportador de matérias primas e importador de máquinas e equipamentos.


Texto de Sergio Rezendo Machado, visto no Blog do Luís Nassif