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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Ateus terminam na prisão na Indonésia


Ateus terminam na prisão na Indonésia
Intolerância religiosa cresce no maior país islâmico do mundo

Por JOE COCHRANE

JACARTA, Indonésia - Membro de uma família muçulmana conservadora da área rural no oeste da ilha de Sumatra, Alexander Aan escondia um segredo sombrio desde os nove anos: ele não acreditava em Alá.
Essa descrença só se reforçou à medida que ele crescia, mas ele disfarçava participando das preces diárias, dos feriados islâmicos e do jejum do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos.
Ele parou de orar em 2008 quando tinha 26 anos e finalmente contou a sua família que era ateu - uma revelação rara na Indonésia, o país com maior população muçulmana do mundo.
Eles ficaram decepcionados, mas manifestaram a esperança de que ele se reintegraria ao islã.
Aan, porém, não se reintegrou ao islã nem restringiu seu segredo à família, e acabou na prisão após infringir uma lei de 2008 que limita as comunicações eletrônicas.
Ele havia entrado em um grupo de ateus no Facebook criado por indonésios que moram na Holanda e, em 2011, começou a postar comentários explicando por que não acredita na existência de Alá.
"Quando eu via pessoas pobres, pessoas na televisão sofrendo com alguma guerra, pessoas famintas ou doentes, isso me deixava desconfortável", disse Aan, agora com 32 anos, em uma entrevista.
"Qual é o sentido disso? Como muçulmano, eu questionava Alá -qual é o sentido de Alá?"
Ele ganhou liberdade condicional em janeiro deste ano após ficar preso por mais de um ano e sete meses sob a acusação de incitar o ódio religioso.
"O que eu postava era para discussão, não para incitar o ódio", afirmou ele na entrevista.
A ideologia estatal na Indonésia, a Pancasila, prega o monoteísmo e proíbe a blasfêmia. No entanto, a Constituição garante liberdade de religião e expressão, e o país está há 16 anos em processo de transição do autoritarismo para a democracia.
Mas o caso de Aan é apenas um entre o número crescente de exemplos de perseguição ligados à liberdade religiosa na Indonésia nos últimos anos.
Embora o país tenha minorias cristã, hindu e budista influentes, todo ano há centenas de episódios, incluindo ataques violentos contra minorias religiosas como cristãos, xiitas e muçulmanos da corrente ahmadiyah, assim como dezenas de detenções por blasfêmia contra o islamismo.
Um grande número de igrejas foi fechada por falta das devidas permissões do governo. Segundo organizações de direitos humanos, a intolerância religiosa está aumentando na Indonésia, em parte devido à influência crescente de grupos radicais islâmicos no país.
"Algo curioso acontece -dizemos ter liberdade de expressão, mas só até certo ponto", disse Enda Nasution, um blogueiro indonésio.
"Acho que estamos absorvendo todas essas novas normas e, com a internet, estamos testando o que podemos fazer ou não. Ao que parece, o ateísmo é um tabu."
Aan disse que seu caso envolvia questões religiosas e de direitos humanos, "pois se trata de um país em desenvolvimento e de uma democracia recente".
E acrescentou: "Eu só estava em busca da verdade e exprimia tudo o que sentia", disse o indonésio preso por blasfêmia.


Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Laicos, graças a Deus

Leio nas notícias que um tribunal do Sudão condenou uma mulher à morte. Mas, na hora da sentença, os juízes confrontaram-se com um pormenor: a referida mulher está grávida de oito meses. O tribunal foi salomônico: a mulher pode dar à luz primeiro e só depois ser enforcada. Justíssimo.
Mas qual foi o crime hediondo de Meriam Yehya Ibrahim? Eis a história, contada pelo "Daily Telegraph": filha de pai muçulmano, Meriam foi criada como cristã pela mãe. E, na idade adulta, casou com um homem da mesma fé.
O tribunal não se comoveu. Para começar, casar com um homem cristão constitui crime de adultério. Meriam, antes da forca, terá direito a cem chibatas pela ousadia.
E, finalmente, quem tem pai muçulmano não pode cometer crime de apostasia, ou seja, de renúncia à fé islâmica. Meriam defendeu-se da acusação, jurando que sempre foi cristã e que não renunciou a fé nenhuma. O tribunal sudanês discorda. A morte é o único corretivo para semelhante traição.
O caso está a horrorizar vários países ocidentais, que exigem ao governo de Cartum respeito pela liberdade de religião, incluindo o direito de mudarmos as nossas crenças mais profundas.
Como é evidente, os países ocidentais estão a exigir uma proeza tipicamente ocidental que o radicalismo islamita não é capaz de entender.
E não é capaz de entender porque, ao contrário do que sucedeu no Ocidente, não houve a grande separação entre o temporal e o espiritual que permitiu a emergência do Estado liberal moderno.
Qualquer aluno de ciência política conhece essa história: depois de lutas fratricidas entre o papa e o imperador, e depois de lutas igualmente sangrentas entre católicos e protestantes na Europa pós-Reforma, os primeiros filósofos liberais entenderam que a melhor maneira de garantir a paz e a ordem implicava remeter as crenças religiosas para a esfera privada.
Como afirmava John Locke, um desses liberais, não é função do governo cuidar da alma dos homens. Porque ninguém tem o direito de invadir a consciência do outro, obrigando-o a acreditar (ou a não acreditar) num credo particular.
Para Locke, o valor da tolerância significava que o Estado deveria tolerar diferentes concepções do bem, desde que tais concepções não tentassem tiranizar o espaço público.
É precisamente essa história que é revisitada em "Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism" (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), um dos grandes livros de filosofia política que li recentemente.
O autor, Larry Siedentop, dispensa apresentações: com uma carreira emérita no Reino Unido, o professor Siedentop mostra como na origem do liberalismo está uma particular concepção de "indivíduo": um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende.
Só que a originalidade de Siedentop está na sua tese aparentemente paradoxal: esse "individualismo" só foi possível por influência do próprio cristianismo.
Quando os liberais clássicos usam certos conceitos nos séculos 17 e 18 --a "dignidade da pessoa humana", a "fundamental igualdade moral de todos os seres" etc.--, esses autores estão a beber diretamente na fonte religiosa medieval.
E sobre a grande separação que permitiu conceder a Deus o que é de Deus e a César o que é de César (um preceito obviamente bíblico), essa separação começou por ser reclamada pela própria igreja, muito antes de Locke escrever os seus ensaios: a Reforma Gregoriana do século 11 foi o exemplo supremo de como o papado procurou estabelecer limites ao poder do imperador em matérias da exclusiva autoridade da igreja.
Quando, séculos depois, John Locke se insurge contra o alegado "direito divino dos reis", o ilustre filósofo está apenas a repetir a velha luta antiabsolutista de Gregório 7º.
O livro de Siedentop não deve apenas ser lido pela sua magistral lição de filosofia política. Ele também relembra, a crentes e a não crentes, que os Estados laicos que hoje existem no Ocidente não seriam possíveis sem a herança de uma tradição religiosa específica.
A infeliz Meriam Yehya Ibrahim, condenada à forca pelo governo sudanês, faz parte dessa tradição. Infelizmente, teve o azar de nascer e crescer na tradição errada.


Texto de João Pereira Coutinho, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Washington examina país por país e dá nota baixa à situação da liberdade religiosa no mundo


A diplomacia americana conta com excelentes observadores e escritores, capazes de narrar como o melhor dos jornalistas o que acontece no lugar onde estão designados.
Caso alguém duvidasse, isso ficou demonstrado pela qualidade dos telegramas secretos do Departamento de Estado (ou Cablegate) publicados pelo WikiLeaks a partir de dezembro de 2011, especialmente o mais famoso de todos, sobre um casamento mafioso no Daguestão, assinado pelo então embaixador em Moscou, William Burns.
Além de demonstrar dotes de repórteres e colunistas do mais alto nível, os diplomatas americanos têm de realizar com frequência trabalhos que não são exigidos dos diplomatas de outros países, alguns dos quais parecem mais próximos das funções das ONGs e das organizações internacionais de direitos humanos que da diplomacia clássica.
Uma dessas atividades é o relatório anual realizado pelo Departamento de Estado sobre a liberdade religiosa no mundo, tarefa expressamente encomendada pelo Legislativo mediante a Lei de Liberdade de Religião Internacional, aprovada em 1998 e assinada pelo presidente Bill Clinton. Anualmente, o exército de diplomatas de Washington tem de avaliar os níveis de liberdade religiosa nos diversos países e indicar os que permitem ou promovem as maiores violações, tarefa que depois obriga a mesma diplomacia e os responsáveis máximos a pressionar, negociar ou mesmo sancionar os piores e mais recalcitrantes alunos da classe.
Se examinarmos as generalidades do relatório de 2012, o diagnóstico sobre a liberdade religiosa no mundo deixa muito a desejar e dá um toque de atenção em todos, incluindo os países com consciência mais elevada, como é o caso da Espanha. A retórica e as ações contra os muçulmanos estão no auge, especialmente na Europa e na Ásia. O uso de leis contra a blasfêmia e contra a apostasia ou mudança de religião continua proliferando, constituindo um autêntico problema em muitos países. Há um aumento contínuo e global do antissemitismo, que inclui a negação e a apologia do Holocausto, e que se tenta justificar em alguns casos como oposição às políticas de Israel.
Os cristãos são o alvo mais importante da discriminação social, do abuso e da violência em determinadas partes do planeta, onde também sofrem os seguidores de outras religiões e do próprio islamismo. Uma das conclusões a que se chega após uma leitura atenta do relatório é que ninguém sofre mais os efeitos violentos do islamismo radical que os próprios muçulmanos. Se Stalin foi o maior assassino de comunistas da história, o mesmo se pode dizer do salafismo violento e da Al Qaeda.
O Departamento de Estado designa todo ano os países que merecem especial atenção porque neles se registram os maiores níveis de intolerância e inclusive uma perseguição organizada e letal aos fiéis de determinadas religiões. São oito, e dois deles, China e Arábia Saudita, ambos com estreitas relações --não apenas econômicas-- com os EUA, conservam essa infame qualificação desde que a obtiveram no primeiro relatório, em 1999. Um terceiro, Mianmar, perdeu o vergonhoso título no ano passado, coincidindo com sua transição democrática, mas o recuperou com o relatório de 2012, diante dos escassos avanços realizados em liberdade religiosa e da constante perseguição às seitas budistas não oficiais e aos seguidores do islã.
Os outros cinco países da primeira divisão dos perseguidores são Eritreia, Irã, Coreia do Norte, Sudão e Usbequistão. O Vietnã não está mais na lista desde 2006, e assim consta como um dos êxitos da diplomacia americana. A leitura do relatório revela que sua função não é só vigiar, mas também estimular os governos a melhorar. Em relação a Mianmar, o informe reconhece que "o governo aplicou reformas consideráveis, mas o comportamento geral não mudou neste último ano". Da China, que acaba de empossar seu novo líder, Xi Jinping, diz que "o respeito do governo pela liberdade religiosa diminuiu este ano".
É difícil incluir a religião no capítulo dos assuntos internos dos países, como se ainda estivéssemos no mundo saído da Paz de Vestfália (1648), com seu clássico lema "cuius regio, eius religio" (segundo a religião do rei, assim será a do reino). A convivência entre identidades, línguas, religiões e costumes na aldeia global encontra mais facilidades nas belas palavras do que nas duras realidades. Não vale o velho olhar laicista, cego à profundidade das crenças e às dificuldades de convivência. Também não é fácil para muitos países, incluindo os europeus, aceitar simplesmente as lições proferidas por Washington. Mas não há dúvida de que o olhar atento da diplomacia americana sobre o mundo presta um bom serviço à liberdade religiosa e imprime uma orientação à sua política externa com a qual os europeus deveríamos aprender.
Texto de Lluis Bassets, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Cristãos em meio à Primavera

Cristãos em meio à Primavera

Por ANTHONY SHADID

Beirute, Líbano

O medo é um sentimento expresso com frequência hoje em dia pelos cristãos árabes, uma triste ladainha para uma comunidade antiga, que durante muito tempo foi uma força política e cultural no mundo árabe.
Milhões de cristãos -distribuídos principalmente por Egito, Líbano, Síria, Jordânia, Iraque e territórios palestinos- viraram pouco mais do que meros espectadores de fatos que estão remodelando um lugar que essa comunidade ajudou a criar, e às vezes são vítimas da violência desencadeada por tais fatos. Em meio a tantas narrativas que as revoltas árabes representam -de dignidade, democracia, direitos e justiça social-, muitos cristãos se limitam a uma versão mais sombria: a de que seu tempo pode estar se esgotando.
"Não sou um cristão fanático", me disse um amigo. "Não vou à igreja. Respeito todas as religiões. Mas, pelo que vejo agora, em 30 anos não restarão mais cristãos aqui."
Os temores quanto ao destino dos cristãos do Oriente Médio costumam entrar de forma desconfortável no conflito entre o Ocidente e o mundo islâmico. Mas focar nesse conflito e nos fanatismos que o cercam é ignorar as nuances daquilo que os cristãos representam para esta região, e as lições que a sua história em outras épocas de tumulto podem oferecer.
"Há uma parte do islã em cada árabe cristão", me disse certa vez em Beirute o jornalista, diplomata e intelectual Ghassan Tueni.
A sua sugestão para a sobrevivência dos cristãos é simples: que eles e os muçulmanos imaginem uma identidade que possam de alguma maneira partilhar.
Essa ideia já foi debatida mais de cem anos atrás. Quando a língua árabe passou por um renascimento, no século 19, os cristãos tiveram um papel decisivo.
O idioma sacudiu o seu torpor e se tornou um meio de expressão moderna, e o eixo de uma identidade coletiva.
Algumas das figuras mais notáveis daquele renascimento foram homens como Butros al Bustani e Nasif al Yaziji, escritores e acadêmicos cristãos daquilo que hoje é o Líbano, e que vivenciaram uma carnificina religiosa. O idioma árabe, sugeriu Al Bustani, poderia permitir a superação das diferenças. Essa terra, afirmou, "não deve se tornar uma Babel de línguas, pois já é uma Babel de religiões".
Essa foi uma ideia que já teve muitas encarnações, mas que, em sua essência, se baseava numa cidadania - seja síria, egípcia, árabe ou outra - independente de credos.
Nas décadas posteriores, surgiram ideologias laicas, frequentemente comandadas por cristãos, cujo objetivo era em parte encontrar um lugar para os cristãos e eventualmente para os judeus numa região onde eles estavam fadados a serem minorias. Mas, agora, o ideal laico subjacente a tais ideologias - seja a unidade árabe, o comunismo ou o nacionalismo pan-sírio - começou a se esmaecer.
O mundo árabe é hoje bem mais conservador do que há uma geração. As vozes laicas parecem periféricas em relação ao discurso religioso. Raro é o político árabe atual que apoie especificamente o secularismo; em árabe, essa palavra é praticamente sinônimo de ateísmo. Numa viagem pelo norte da África - que foi triunfal exceto por isso -, o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, atraiu críticas de todas as correntes islâmicas ao manifestar seu aval a uma versão bastante atenuada do secularismo, a saber, a tese de que o Estado deve tratar todas as religiões de forma igualitária.
Em toda a região, o ambiente parece ter se tornado mais inóspito. Na sangrenta reação militar a um protesto de cristãos em outubro no Cairo, a TV egípcia se referia aos coptas como se fossem agitadores estrangeiros, convocando os "cidadãos honrados" a defenderem o Exército.
No ano passado, um dia depois de um atentado contra a igreja de Nossa Senhora da Salvação, em Bagdá, no que foi uma espécie de "pogrom" em versão iraquiana, Bassam Sami, 21, me disse: "Eles vieram para matar, matar, matar". Dentro da igreja, o sangue manchava as paredes, e pedaços de carne humana continuavam entre os bancos. No lado de fora, muitos lamentavam o que o massacre de 51 fiéis e dois padres significaria para um país onde outrora se misturavam crenças, costumes e tradições.
Os judeus do Iraque foram embora há bastante tempo, muitos deles intimidados por um governo xenófobo. Os cristãos do Iraque minguaram - de 1,4 milhão, mais de metade foi embora, refletindo o que ocorre em todo o mundo árabe. "Perdemos parte da nossa alma agora", disse o cristão Rudy Khalid, 16. Ele balançou a cabeça, sugerindo algo inevitável. "Ninguém tem nenhuma resposta para nós."
Os cristãos, me disse um amigo, foram marginalizados no mundo árabe por não terem líderes capazes de articular uma identidade que fosse além da religião e criasse uma comunidade mais ampla de cristãos e muçulmanos. A tendência das minorias no Egito, no Iraque, no Líbano e em outros lugares, qualquer que seja a sua inclinação ideológica, é a de se aglutinarem em partidos que fazem reivindicações simplesmente como minorias. Eles persistiram na menor das identidades, organizando-se pela fé, e não pela cidadania.
"É preciso encontrar a identidade em outro lugar", me disse esse amigo.
Foi a mesma questão com a qual Al Bustani se deparou há 150 anos. Como um povo que compartilha terra, costumes, história e língua encontra um fim comum?
As sociedades podem simplesmente ter mudado demais para que se imagine uma reconciliação entre fé e secularismo. Há muito poucas vozes dentro das minorias oferecendo tal visão, e muito poucos líderes para articulá-la.
Mas, há tantos anos, Al Bustani teve uma ideia que era tão simples quanto elegante: cidadania.

Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 28 de novembro de 2011.

terça-feira, 3 de maio de 2011

As roupas do Estado

As roupas do Estado

Há algo de profundamente cínico na lei francesa que proíbe mulheres de portar indumentárias como a burca e o niqab. Primeiro, essa lei nada tem a ver com a laicidade do Estado. Um Estado laico não pode crer que sua realização esteja ligada à construção de uma sociedade laica.
Na verdade, o Estado laico é aquele indiferente à religiosidade da sociedade. Essa indiferença implica distância do ordenamento jurídico estatal em relação aos dogmas e costumes religiosos.
Tal distância significa duas coisas: as leis não serão influenciadas pela religião e o Estado não legisla sobre práticas e costumes religiosos.
Pode-se argumentar que, porém, o Estado deve fornecer as garantias institucionais para o reconhecimento da dignidade dos sujeitos, mesmo no interior de práticas religiosas.
No caso, a lei contra o uso da burca e do niqab seria legítima, já que as indumentárias ferem tal dignidade, na medida em que seriam um signo de opressão contra as mulheres.
No entanto não cabe ao Estado dizer que um roupa é signo de opressão. Até porque, a opressão é algo que só pode ser enunciado na primeira pessoa do singular ("Eu me sinto oprimido"), e não na terceira pessoa ("Você está oprimido, mesmo que não saiba ou não tenha coragem de dizer. Vim libertá-lo").
Se houver ao menos uma pessoa que compreende a burca como expressão autêntica de si, então a opressão virá da própria lei do Estado. Há pouco tempo, sutiãs eram signos de opressão e ninguém teve a ideia de pedir ao Estado para proibir garotas de usá-los.
Vejam como o argumento é falho. Se o governo francês estivesse preocupado com a opressão religiosa das mulheres, ele deveria, ao mesmo tempo, propor o fechamento dos conventos para freiras com suas práticas de mortificação da carne, assim como a abolição do uso de suas indumentárias no espaço público.
Não é difícil imaginar as roupas de freiras como uma burca cristã. De toda forma, uma das características maiores do cinismo é a aplicação parcial dos princípios. Cabe ao poder soberano decidir em que condições e para quais povos eles serão aplicados.
Mas, como se não bastasse, veio-se com o argumento de que há uma peculiaridade na burca e no niqab, já que encobrir o rosto seria contra a transparência do modo de vida democrático.
Melhor seria dizer que, no modo de vida realmente democrático, cada um faz o que quiser com seu rosto. Mesmo o argumento sobre a segurança social de ter rostos identificados é falho. Se este fosse o real problema, então precisaríamos de uma cômica lei geral contra velar o rosto.
Isso mostra como a melhor coisa que o Estado faz nesses casos é ficar longe dos corpos e dos guarda-roupas de seus cidadãos.


terça-feira, 8 de março de 2011

Corte britânica impede que casal de cristãos sejam pais adotivos devido às suas convicções religiosas

Nottingham, 02 Mar. 11 / 05:46 pm (ACI)

Em uma sentença que poderia assentar precedentes legais na justiça britânica, em 28 de fevereiro dois juízes de Nottingham resolveram que um casal de esposos cristãos não poderia adotar uma criança devido à sua convicção de que o "estilo de vida homossexual" é inaceitável.

Eunice e Owen Johns, de 62 e 65 anos de idade respectivamente, são cristãos pentecostais da cidade de Derby que já cuidaram de 15 crianças como pais substitutos no passado. Eles não os adotavam, mas os criavam temporariamente como se fossem filhos seus.

Ambos foram levados a uma corte por um agente social que expressou sua "preocupação" pela perspectiva que ambos têm sobre o estilo de vida homossexual.

"Tudo o que nós queremos fazer é oferecer um lar cheio de amor a uma criança necessitada. Nós temos um bom passado como pais substitutos, mas como somos cristãos com uma ética sexual, aparentemente não somos suficientemente bons para ser (pais adotivos)”, assinalou Eunice Johns.

"Os juízes -denunciou- sugerem que nossa perspectiva pode prejudicar as crianças. A Comissão de Igualdade e Direitos humanos nos disse que nossas convicções poderiam 'infectar' os pequenos mas não acreditam que isso seja assim".

Johns também disse que "estamos preparados para amar e aceitar a qualquer criança. O que nós não queremos fazer é dizer a um pequeno que a prática homossexual é algo bom. Mais ainda, uma criança vulnerável acaba de perder a oportunidade de encontrar um lar seguro e serviçal em uma época em que existem poucos dispostos a cuidar ou adotar".

"Sentimo-nos excluídos e sentimos que não há lugar para nós na sociedade, não recebemos justiça e (os juízes) acreditam que se necessita uma perspectiva independente para revisar este caso" que estes esposos vão apelar.

Por sua parte Ben Summerskill, diretor da organização Stonewall que agrupa lésbicas, gays e bissexuais, comentou sobre a sentença que "os agrada que o tribunal tenha favorecido a decência do século XXI por cima do prejuízo do século XIX".

Os juízes Munby e Beatson encarregados do caso se referem em sua sentença à polêmica Lei de Igualdade e Orientação Sexual de 2010. Ambos assinalam que colocar uma criança aos cuidados dos Johns poderia "gerar um conflito com o dever da autoridade local de proteger e promover o bem-estar das crianças".

Para os juízes, neste caso não se atenta contra a liberdade religiosa dos Johns, que em todo caso fica em um segundo lugar "porque as leis sobre a igualdade quanto à orientação sexual devem ser consideradas primeiro".

A sentença também assinala que as autoridades podem exigir aos indivíduos uma "atitude positiva" para as inclinações e o estilo de vida homossexual.

Em opinião dos magistrados Munby e Beatson os Johns não sofreram discriminação religiosa já que sua exclusão como pais substitutos não se deve a isso mas às suas considerações éticas.

Andrea Williams, Diretora do Christian Legal Center do Reino Unido, reiterou que os juízes "efetivamente disseram aos Johns que suas perspectivas podem prejudicar aos meninos".

A decisão dos magistrados de Nottingham também se refere ao "assunto óbvio" de que Grã-Bretanha é "um estado secular e não uma teocracia" por isso "apoiar-se em uma crença religiosa não pode imunizar nunca o crente do alcance da lei secular".

Williams advertiu que "a lei começou a ser interpretada pelos juízes de tal modo que favorece os 'direitos' homossexuais por cima da liberdade de consciência. Diversas áreas da vida pública estão saindo do espectro de cristãos que não querem comprometer suas crenças".

"Se a moral cristã prejudica as crianças e é inaceitável para o Estado, então quantos anos restam antes que os filhos naturais sejam arrebatados de seus pais cristãos?", questionou a advogada.

A controvertida norma sobre a orientação sexual em Grã-Bretanha forçou o fechamento das agências de adoção católicas, depois que a comissão encarregada de velar por seu cumprimento estabeleceu que estas instituições não podiam rejeitar casais homossexuais como futuros pais adotivos.

Catholic Care, a última agência a ser fechada, foi obrigada a fazê-lo em agosto de 2010.

Sobre a adoção por parte de homossexuais, o Instituto Valenciano de Fertilidade, Sexualidade e Relações Familiares (IVAF) recorda que "uma criança tem direito a um pai e uma mãe, direito que seria transgredido se ela for entregue a dois homens ou a duas mulheres".

"Duas pessoas do mesmo sexo não são idôneos para criar e educar as crianças, que careceriam de referente paterno/masculino (no caso de duas lésbicas) ou materno/feminino (se forem dois homossexuais)", precisa.

Origem: ACI Digital (ACI significa Agência Católica de Informações).  

Um comentário: pelo veredicto da justiça inglesa, estão sobrando pais adotivos naquele país, de modo que o estado rejeita pais adotivos com convicções contra o homossexualismo, ou "contra a tolerância" como foi dito. Ou acreditam que, proibindo o acesso à adoção a casais com estas convicção, as crianças terão melhor educação, e criação amorosa nas instituições do estado, que em um lar. Acho difícil crer nesta última assertiva.