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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Indonésia vira modelo de democracia numa turbulenta Ásia

Indonésia vira modelo de democracia numa turbulenta Ásia

Por JOE COCHRANE

JACARTA, Indonésia - Durante um tempo, parecia que maus tempos de antigamente haviam voltado na Indonésia. Em agosto, a Justiça rejeitou o recurso do candidato derrotado na última eleição presidencial, um ex-general e genro de um ex-ditador, que apontava fraude no pleito de julho.
No lado de fora do tribunal, seus partidários enfrentaram a polícia, que disparou jatos de água e gás lacrimogêneo para impedi-los de invadir o edifício.
Mas, então, algo estranho aconteceu: o derrotado aceitou a derrota, levando a um desenlace pacífico a eleição presidencial mais disputada na história da Indonésia. No mês que vem tomará posse Joko Widodo, culminando uma ascensão impressionante de um carpinteiro favelado a líder do quarto país mais populoso do mundo.
Dezesseis anos depois dos violentos protestos pró-democracia que levaram à derrubada de Suharto, o ditador autoritário cujo governo corrupto e brutal era apoiado pelos militares, a Indonésia se tornou um modelo de transição democrática pacífica no Sudeste Asiático, região onde isso é cada vez mais raro.
Na Tailândia, os militares derrubaram em maio, pela segunda vez em oito anos, um governo democraticamente eleito.
Malásia e Camboja estão mergulhados em turbulências política desde as eleições parlamentares do ano passado -em ambos os casos, alvo de denúncias oposicionistas de fraude. Malásia, Camboja e Cingapura jamais tiveram uma transferência democrática de poder para a oposição política.
As Filipinas já tiveram eleições democráticas, mas elas tendem a ser manchadas por fraudes e violência, e os dois últimos presidentes mandaram prender seus antecessores. E essas são as democracias.
O Vietnã adota um regime de partido comunista desde a sua unificação, enquanto Mianmar está dando seus primeiros passos na direção da abertura, após décadas de regime militar.
Enquanto isso, a Indonésia, além da eleição presidencial, realizou com sucesso um pleito parlamentar geral em abril, quando cerca de 140 milhões de pessoas votaram, uma participação de 75% do eleitorado inscrito.
"Não há dúvida de que a Indonésia é agora o país mais democrático do Sudeste Asiático, e isso é algo que ninguém poderia ter previsto em 1998", disse Marcus Mietzner, especialista em Indonésia da Universidade Nacional Australiana.
O desempenho da Indonésia em outras frentes ainda deixa espaço para melhorias. A corrupção permanece endêmica nesta nação de 250 milhões de habitantes, as minorias religiosas enfrentam discriminação e violência, e, de acordo com a Human Rights Watch, os membros das forças de segurança do Estado ainda gozam de "impunidade generalizada" por violações graves dos direitos humanos. Mas a maioria dessas áreas, também, apresenta um enorme progresso.
A razão central para o sucesso da Indonésia é que, ao contrário do que ocorreu na Tailândia, os líderes civis pós-Suharto tiraram as Forças Armadas da política. Os legisladores aprovaram emendas constitucionais que privaram os militares da sua bancada biônica na Câmara dos Deputados, dando lugar a eleições parlamentares diretas. Outro avanço fundamental para a Indonésia, segundo os especialistas, foi o seu ousado movimento na direção da autonomia regional em todos os cantos do vasto arquipélago, um ano depois da renúncia de Suharto, em maio de 1998.
Essa descentralização do poder rompeu o monopólio político de Jacarta e impediu o surgimento de uma nova e dominante força política nacional.
O movimento rumo à autonomia foi caótico, marcado pela condenação por corrupção de dezenas de líderes regionais.
Joko, no entanto, é um exemplo notável de sucesso desse processo. Nascido em uma favela em Surakarta, na região central da ilha de Java, esse artesão de 53 anos foi eleito prefeito duas vezes e usou a sua eleição como governador de Jacarta, em 2012, para se lançar no cenário nacional.
A recente eleição indonésia não foi isenta de percalços. O perdedor, Prabowo Subianto, reconheceu a derrota, mas continua a afirmar que a eleição foi marcada por fraudes. A coalizão de partidos que apoiaram sua campanha, a qual terá a maioria quando o novo Parlamento tomar posse, em outubro, ameaçou instalar uma CPI para investigar a eleição.
Analistas políticos, no entanto, dizem que isso é improvável, porque alguns dos partidos da coalizão devem abandonar Prabowo e aderir a Joko, dando-lhe uma maioria parlamentar.
"Parece que Prabowo não quer aceitar a derrota, mas a sua chamada 'coalizão permanente de oposição' vai mudar radicalmente nos próximos dias", disse o cientista político Ikrar Nusa Bhakti, do Instituto de Ciências da Indonésia, em Jacarta.
"Apesar de a Indonésia ser o país muçulmano mais populoso do mundo e ter mais de 300 grupos étnicos diferentes, o processo de democratização está no caminho certo", disse ele. "Os militares aceitaram a supremacia civil, que é o mais importante."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Ateus terminam na prisão na Indonésia


Ateus terminam na prisão na Indonésia
Intolerância religiosa cresce no maior país islâmico do mundo

Por JOE COCHRANE

JACARTA, Indonésia - Membro de uma família muçulmana conservadora da área rural no oeste da ilha de Sumatra, Alexander Aan escondia um segredo sombrio desde os nove anos: ele não acreditava em Alá.
Essa descrença só se reforçou à medida que ele crescia, mas ele disfarçava participando das preces diárias, dos feriados islâmicos e do jejum do Ramadã, mês sagrado para os muçulmanos.
Ele parou de orar em 2008 quando tinha 26 anos e finalmente contou a sua família que era ateu - uma revelação rara na Indonésia, o país com maior população muçulmana do mundo.
Eles ficaram decepcionados, mas manifestaram a esperança de que ele se reintegraria ao islã.
Aan, porém, não se reintegrou ao islã nem restringiu seu segredo à família, e acabou na prisão após infringir uma lei de 2008 que limita as comunicações eletrônicas.
Ele havia entrado em um grupo de ateus no Facebook criado por indonésios que moram na Holanda e, em 2011, começou a postar comentários explicando por que não acredita na existência de Alá.
"Quando eu via pessoas pobres, pessoas na televisão sofrendo com alguma guerra, pessoas famintas ou doentes, isso me deixava desconfortável", disse Aan, agora com 32 anos, em uma entrevista.
"Qual é o sentido disso? Como muçulmano, eu questionava Alá -qual é o sentido de Alá?"
Ele ganhou liberdade condicional em janeiro deste ano após ficar preso por mais de um ano e sete meses sob a acusação de incitar o ódio religioso.
"O que eu postava era para discussão, não para incitar o ódio", afirmou ele na entrevista.
A ideologia estatal na Indonésia, a Pancasila, prega o monoteísmo e proíbe a blasfêmia. No entanto, a Constituição garante liberdade de religião e expressão, e o país está há 16 anos em processo de transição do autoritarismo para a democracia.
Mas o caso de Aan é apenas um entre o número crescente de exemplos de perseguição ligados à liberdade religiosa na Indonésia nos últimos anos.
Embora o país tenha minorias cristã, hindu e budista influentes, todo ano há centenas de episódios, incluindo ataques violentos contra minorias religiosas como cristãos, xiitas e muçulmanos da corrente ahmadiyah, assim como dezenas de detenções por blasfêmia contra o islamismo.
Um grande número de igrejas foi fechada por falta das devidas permissões do governo. Segundo organizações de direitos humanos, a intolerância religiosa está aumentando na Indonésia, em parte devido à influência crescente de grupos radicais islâmicos no país.
"Algo curioso acontece -dizemos ter liberdade de expressão, mas só até certo ponto", disse Enda Nasution, um blogueiro indonésio.
"Acho que estamos absorvendo todas essas novas normas e, com a internet, estamos testando o que podemos fazer ou não. Ao que parece, o ateísmo é um tabu."
Aan disse que seu caso envolvia questões religiosas e de direitos humanos, "pois se trata de um país em desenvolvimento e de uma democracia recente".
E acrescentou: "Eu só estava em busca da verdade e exprimia tudo o que sentia", disse o indonésio preso por blasfêmia.


Notícia do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Carrascos de massacre recontam mortes até em forma de musical

Carrascos de massacre recontam mortes até em forma de musical
Para diretor, recriação ficcional funciona como mecanismo de 'autoengano' para assassinos
Tema de filme chegou a Oppenheimer de forma casual, quando ele trabalhava com camponeses no país
JOÃO CARLOS MAGALHÃESDE BRASÍLIA

"The Act of Killing" (o ato de matar), documentário lançado no ano passado, tornou-se queridinho de críticos e cineastas. Fruto de uma década de trabalho de Joshua Oppenheimer, o filme --que será exibido no mês que vem no Festival do Rio-- nasceu quase por acidente.
No início dos anos 2000, Oppenheimer, recém-formado em cinema na Universidade Harvard, aceitou o convite de um sindicato internacional de trabalhadores rurais para documentar a tentativa de lavradores indonésios de criar uma associação.
Ao chegar ao país asiático, do qual pouco conhecia além da fama das praias paradisíacas e da emergência financeira, o americano, hoje com 38 anos, conheceu uma sociedade lastreada por um dos maiores e menos conhecidos morticínios do século 20. E assustou-se ao ver que os carrascos eram heróis nacionais.
"Foi como se eu chegasse à Alemanha 40 anos depois do Holocausto e descobrisse que os nazistas ainda estavam no poder", afirmou à Folha, referindo-se aos herdeiros políticos de Suharto (1921-1968), feito ditador no país após o movimento político iniciado em 1965, com apoio dos EUA, num globo então dividido pela Guerra Fria.
O golpe de Estado levou a um massacre que, a depender de quem conta, atingiu entre 500 mil e 2,5 milhões de "comunistas" --termo que geralmente não refletia a orientação ideológica do morto.

PERIGO

Durante o trabalho com os camponeses (que levou ao filme "The Globalisation Tapes"), era comum o Exército abordá-lo. Os próprios lavradores então o orientaram: "Talvez seja muito perigoso nos filmar. Por que não procura os autores das mortes?".
Foi o que fez. Passou a registrar todo e qualquer assassino que encontrava. E eles, a maior parte integrantes de grupos paramilitares ainda hoje poderosos e atuantes, não apenas confessavam o que fizeram mas o faziam com orgulho e alegria.
Queriam levar o cineasta até aos porões dos massacres, apresentá-lo a colegas carrascos e, em especial, demonstrar em detalhes como as mortes e torturas ocorreram.
Oppenheimer propôs, então, uma técnica narrativa heterodoxa: que os próprios carrascos dirigissem e reencenassem, para ele, suas atrocidades em cenas de ficção, no gênero que escolhessem. Eles toparam e fizeram até mesmo cenas de musical.
O personagem principal é Anwar Congo, um cadavérico e manso avô, fã de filmes de máfia, que se acha parecido com Sidney Poitier e é famoso por ter assassinado mil "comunistas" com uma técnica de estrangulamento inventada por ele próprio.
Seu companheiro preferencial é Herman Koto, um gângster obeso que se veste de mulher em quase todas as histórias que representam.
"The Act of Killing" é uma espécie de "making of" desses "filmes B", feitos unicamente para serem documentados pelo norte-americano e cujo desenrolar parece reinventar a memória e o discurso de Anwar sobre os fatos.
Mas essas atuações improvisadas são tão realistas, e a maneira com que os carrascos relembram o que fizeram tão delirante, que se torna impossível dizer onde começa e termina a fantasia, mesmo no final supostamente catártico.
Para o diretor, o aparente orgulho dos assassinos, que ele chama de "celebração do genocídio", não prova sua alegada monstruosidade --e sim o oposto. Por entenderem a gravidade do que fizeram, inventam um mecanismo de autoengano radical, diz. "É um paradoxo trágico."
Além da atenção da crítica e de prêmios em festivais como o de Berlim, o filme conquistou duas lendas do cinema de não ficção.
O alemão Werner Herzog ("Não vi na última década um filme tão poderoso, surreal e assustador") e o americano Errol Morris" ("Não se parece a nada que já vi") tornaram-se produtores-executivos do longa após assistirem ao trabalho de Oppenheimer.
Na Indonésia, a obra nunca estreou no circuito normal, e a equipe de filmagem local continua anônima, por motivos de segurança. Mas o longa teve dezenas de disputadas exibições clandestinas e reacendeu o debate sobre o que ocorreu no regime --e como seus efeitos persistem.
Segundo Oppenheimer, a obra não é sobre o passado, e sim sobre "o agora".
Ele conta que militares indonésios disseram recentemente que "é preciso estar prontos para exterminar novos comunistas'". "Questionados sobre quem eram esses, eles disseram: Pessoas que estão se juntando para ver certos filmes'."

DISTORÇÃO

A Embaixada da Indonésia no Brasil afirma que o filme sugere um visão distorcida sobre a questão dos direitos humanos no país. "A Indonésia de hoje não é representada pelo que está no filme", diz Sudaryomo Hartosudarmo, embaixador do país.
Ele também nota que o formato do filme pode dar a "impressão errada" de que se trata de um documentário, quando sua sinopse afirma que ele é baseado nas "histórias, imaginação e memórias" dos torturadores. E diz que, embora o governo indonésio não tenha uma posição oficial, a embaixada respeita a expressão artística de todos, inclusive a do cineasta.

Reprodução da Folha de São Paulo. 

A folha oferece também o trailer do tal filme.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Documentário choca ao reencenar crimes

Em "The Act of Killing", o novo e assustador documentário de Joshua Oppenheimer sobre massacres e a impunidade na Indonésia, um líder de esquadrão da morte chamado Anwar Congo demonstra como estrangulou centenas de pessoas com arame. Era mais rápido e fazia menos sujeira que espancá-las até a morte, explica para a câmera, antes de dançar o chá-chá-chá.
Exibido em vários festivais de cinema no ano passado, o documentário é repleto de momentos bizarros e perturbadores como esse. Assassinos se gabam e contam piadas sobre os atos que cometeram -que lhes valem aplausos num talk show da TV indonésia, elogios do governo no poder e a condenação de grupos de defesa dos direitos humanos, que querem vê-los levados à Justiça.
Mas o filme de Oppenheimer, que tem Werner Herzog e Errol Morris como produtores-executivos e foi feito por uma equipe em boa parte indonésia, também vem causando polêmica por seu formato pouco ortodoxo. A reconstrução de fatos sempre provoca opiniões contrárias no mundo documental, mas Oppenheimer levou essa discussão para um novo nível ao incentivar os perpetradores de violações dos direitos humanos a reencenar seus crimes no filme, para uma plateia global.
"Aqui vemos seres humanos como nós gabando-se de atrocidades que deveriam ser inimagináveis", disse Oppenheimer, 38. "As perguntas são: 'Por que estão fazendo isso? Para quem estão fazendo? O que isso significa para eles? Como eles querem ser vistos? Como eles próprios se enxergam?'. Esse método foi uma maneira de responder a essas perguntas."
Os fatos tratados no filme são pouco conhecidos no Ocidente: o massacre de até 1 milhão de pessoas na Indonésia após a tomada do poder pelos militares no país, em 1965. As vítimas foram rotuladas de comunistas, mas incluíram sindicalistas, intelectuais e indonésios de etnia chinesa. Grupos paramilitares fizeram a matança a pedido do Exército indonésio e com o apoio dos Estados Unidos e seus aliados, receosos de que a Indonésia caísse nas mãos dos comunistas, como o Vietnã.
Oppenheimer centra sua atenção em Medan, uma grande cidade no norte de Sumatra. Ali, um grupo cometeu boa parte das mortes inspirados, em parte, pelos filmes que admiravam.
Anwar Congo conta que assistiu a um filme com Elvis Presley, depois atravessou a rua, "ainda no clima do filme", e foi para a cobertura do prédio onde estrangularia suas vítimas.
Oppenheimer declarou que a decisão de reencenar os crimes foi tomada depois de ele ter entrevistado cerca de 40 integrantes de esquadrões da morte. Eles tinham uma teatralidade natural, comentou, e isso o levou a se oferecer para filmar reconstruções dos crimes. Os assassinos não receberam cachê, disse o diretor, mas "uma modesta ajuda de custos diária".
"Minutos depois de sermos apresentados, eles me contavam histórias horripilantes, muitas vezes em tom de quem está se vangloriando", recorda. "Diziam, por exemplo: 'Que tal irmos ao lugar onde eu matei pessoas, e eu lhe mostrarei como fiz?'. Depois, muitas vezes, se lamentavam: 'Eu deveria ter trazido um machete para mostrar melhor' ou 'Eu deveria ter trazido amigos para representar o papel das vítimas, teria sido mais bacana assim'."
Os membros do esquadrão da morte moldaram suas performances segundo seus gêneros cinematográficos favoritos. Uma cena foi representada como um western, com Congo e o ator comicamente rechonchudo que contracenava com ele usando chapéus de caubói. Outros foram feitos como filmes noir ou de horror.
"Você assiste a isso e sabe que, de certo modo, é real", comentou Werner Herzog. "Mas não consegue acreditar que a realidade possa assumir formas tão loucas e bizarras."
Em Berlim, uma pessoa na plateia sugeriu que o que Oppenheimer fez foi "como fazer oficiais da SS reencenarem o Holocausto". O diretor respondeu: "Não é, porque os nazistas não estão mais no poder" -os membros do esquadrão da morte indonésio continuam a exercer cargos públicos e a desfrutar da proteção do Estado.
Alguns questionam se o filme é de fato um documentário. Oppenheimer propõe uma visão nuançada. Ele traça uma distinção entre o estilo observante da primeira metade do filme e o que vem depois das reconstruções.
"Acho que [a partir disso] o filme quase deixa de ser documentário. Vira uma espécie de ária alucinatória, uma espécie de sonho febril." Nesse ponto, disse o diretor, o filme "transcende o registro documental".