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sábado, 12 de setembro de 2015

Primeiros golfinhos são mortos em temporada de caça no Japão

Primeiros golfinhos são mortos em temporada de caça no Japão

Barcos partiram cedo e que caçaram mais de dez animais
Os pescadores japoneses mataram os primeiros golfinhos nesta sexta-feira, dez dias depois da abertura da controvertida temporada anual de caça. Um dirigente da união local de pescadores do porto de Taiji disse que os barcos partiram cedo e que caçaram mais de dez golfinhos.

Durante os seis meses de caça, os habitantes desta cidade do sudoeste do arquipélago japonês encurralaram centenas desses mamíferos em uma baía para matá-los.

Apesar dos protestos dos ambientalistas, a tradição prossegue e os animais continuam sendo sacrificados por sua carne ou capturados para serem entregues a parques de diversões.
Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Hiroshima finaliza preparativos para 70º aniversário do bombardeio atômico

As autoridades de Hiroshima finalizaram nesta quarta-feira (5) os preparativos para lembrar o 70º aniversário do lançamento da bomba atômica sobre a cidade por parte dos Estados Unidos em uma cerimônia da qual participarão representantes de uma centena de países, um número recorde.

Entre os presentes estarão a embaixadora dos EUA no Japão, Caroline Kennedy, que irá ao evento pelo segundo ano consecutivo, e a subsecretária de Estado para o Controle de Armas e Segurança Internacional, Rose Gottemoeller.

Tanto Hiroshima (oeste do Japão) como Nagasaki (sudoeste), a segunda cidade japonesa que sofreu um ataque nuclear americano ao término da Segunda Guerra Mundial, pedem há anos que Barack Obama se transforme no primeiro presidente dos EUA a visitar ambas cidades.

Embora Obama não pretenda comparecer aos atos desse ano, a Casa Branca não descartou que a visita possa acontecer antes do fim de seu mandato em 2017.

Potências nucleares como Rússia, Reino Unido e França enviarão também representantes diplomáticos à cerimônia, que será realizada no Parque da Paz de Hiroshima e começará amanhã com um minuto de silêncio às 8h15 (horário local, 20h15 de quarta-feira em Brasília).

Essa é a hora exata na qual foi lançada em 6 de agosto de 1945 a bomba que recebeu o nome de "Little Boy".

A detonação acabou de forma imediata com a vida de 80 mil pessoas, mas este número aumentaria no final de 1945, quando o balanço de mortos se elevou a cerca de 140 mil, e nos anos posteriores as vítimas pela radiação somaram muitas mais.

Por outra parte, a lembrança dos 70 anos do bombardeio atômico acontece em um ambiente marcado pelos protestos contra o governo do primeiro-ministro, Shinzo Abe, perante sua decisão de botar ponto final a mais de seis décadas de pacifismo constitucional no Japão com sua reforma militar.

Além de permitir que as Forças de Autodefesa (Exército) possam participar de operações no exterior, o atual Executivo impulsionou também a reativação de usinas nucleares no país após o acidente de Fukushima, decisão à qual se opõem mais da metade dos japoneses, segundo as enquetes.

Por este motivo foram convocadas para amanhã, quinta-feira, grandes manifestações em frente ao edifício do parlamento em Tóquio.


Reprodução da EFE no UOL Notícias.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Jornalista investiga morte de inglesa por predador sexual

Jornalista investiga morte de inglesa por predador sexual

Richard Lloyd Parry junta peças do assassinato de hostess no Japão em 2000
Preconceitos sociais e as muitas falhas na apuração policial são retratadas em 'Devoradores de Sombras', lançado pela Três Estrelas
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA

A imprensa começava a perder interesse no desaparecimento de Lucie Blackman, jovem inglesa que chegara ao Japão em 2000 para trabalhar como hostess num bar, quando o jornalista inglês sediado em Tóquio Richard Lloyd Parry viu na história um livro em potencial.
O motivo, depois de meses de investigações infrutíferas, foi a entrada em cena de um novo personagem: Joji Obara, milionário japonês filho de zainichis (imigrantes coreanos), tão discreto em público quanto capaz de atrocidades entre quatro paredes.
As peças que Lloyd Parry juntou a partir do crime cometido por Obara em meados de 2000, e de outros que passaram a vir à tona, fazem de "Devoradores de Sombra" um thriller digno das várias listas de melhores do ano (ou da década) que frequentou desde o lançamento, em 2011.
Lançada agora pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha, a obra amarra a trajetória de Lucie, os riscos vividos pelas mulheres que trabalham na noite de Tóquio, a corrupção policial japonesa, o preconceito sofrido pela comunidade coreana no país e a abjeta vida de Obara, de garoto solitário a empresário que por décadas registrou em vídeo os estupros que cometeu.
"As reportagens que fiz na época não davam conta da complexidade da história. O que faz exatamente uma hostess? Por que o julgamento durou tanto? Qual o problema da família de Lucie?", diz Lloyd Parry, por e-mail.
Obara "era diferente de qualquer personagem" que o autor tivesse encontrado antes. Nascido em Osaka, em 1952, filho de um casal coreano que migrou para o Japão antes da Segunda Guerra, cresceu numa mansão --seu pai fez enorme fortuna, não se sabe exatamente como.
Sem amigos, foi mudando de nome e acumulando propriedades durante a vida até se tornar esse homem do qual várias hostesses guardavam péssimas e poucas lembranças --os encontros com ele sempre terminavam com elas apagadas, drogadas, num apartamento na praia.

POLÍCIA

Boa parte do livro é dedicada à descrição da investigação promovida pela polícia japonesa, cuja atuação, para Lloyd Parry, demonstra uma "incompetência institucional" --apesar de uma quantidade enorme de pistas, foram sete meses até o corpo da vítima ser localizado.
Uma das razões, para o autor, foi um modelo de investigação que prioriza a confissão do acusado. Para a polícia japonesa, segundo ele descreve, não basta saber que um crime foi cometido e como, mas descobrir por quê.
"Não foi só que eles demoraram demais a descobrir o que tinha acontecido com Lucie depois que ela desapareceu. Joji Obara deveria ter sido mandado para a cadeia vários anos antes --pelo menos em 1992, quando matou outra jovem mulher, Carita Ridgway", diz o autor.
Por anos, várias mulheres que terminaram encontros com Obara desacordadas o denunciaram, mas a polícia nunca fez nada a respeito.
"Não sei como é no Brasil, mas, na Inglaterra, há o senso comum de que é injusto culpar a vítima de violência sexual pelo que aconteceu com ela. A morte de uma prostituta --e Lucie estava longe de ser uma-- é tão trágica e inaceitável quanto a morte de uma freira."
Para o jornalista, a polícia não dava atenção às denúncias por não acreditar que fosse necessário se preocupar com quaisquer violências que as hostesses sofressem nos encontros com seus clientes.
Foi preciso Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, se manifestar a respeito para o caso ser solucionado, e Obara, condenado.


Reprodução da Folha de São Paulo

sábado, 24 de janeiro de 2015

Anotações nipônicas

O sujeito mal sai de férias, passa uns dias longe do eito e já arrota que os equatorianos queimam bonecos no final do ano, as finlandesas são de parar o trânsito e os húngaros adoram beterraba.
É com autoridade semelhante (três viagens, incluindo uma bolsinha de estudos) que aqui se abstraem milênios de história e de cultura, sobe-se num caixote e, com o coração em festa, abre-se um parágrafo para proclamar:
O Japão é bem legal.
Os 37 milhões de moradores da grande Tóquio, a maior colmeia urbana do mundo, escutam quando cai um confete no chão, tal o silêncio da megalópole. Mas fingem que não ouviram porque é feio reparar nos ruídos alheios.
Ninguém trata o estrangeiro tão bem. Toda sorrisos, a nipônica explica o caminho até a estação de metrô adequada. Indaga de onde vem o forasteiro e, ao receber a resposta, infalivelmente aponta o chão, para demonstrar que o Brasil fica do lado oposto do planeta.
O estrangeiro espalha que os filhos do sol nascente não agem assim por cortesia, e sim por condescendência: eles se acham, e tratam os de fora como inferiores. Coisa de gaijin, claro.
Ainda assim, os japoneses são ciosos das virtudes que os distinguem dos ocidentais: o comedimento que é quase modéstia, a pátina de polidez a recobrir os gestos, o concerto harmônico de capricho e praticidade, a limpeza dos seres e da sociedade, o senso de igualdade.
Há balela em excesso nesse discurso. Quem o diz é Mari Hirata, durante uma visita --demasiado-- matutina ao mercado de peixe de Tóquio. Escolada na militância marxista, e descolada na escola da vida, ela sabe do que fala.
Mari nasceu em São Paulo e morou muitos anos em Paris. Mudou-se para o Japão, onde casou com um local ("mais japonês, impossível: ele não fala nunca e faz miniaturas quando volta do trabalho") e criou os filhos enquanto ganhava a vida como chef, aliás, de mão cheia.
Ela contou da competição entre os japas e da rispidez com que tratam um ao outro. Mesmo falando japonês tão bem quanto o imperador Akihito, Mari se finge de estrangeira quando pede uma informação.
Ao preparar um atum de comer de joelhos, ela falou da identidade forçada entre trabalhadores e grandes empresas. Dos apartamentos apertados em prédios mal ajambrados, com paredes que parecem de papel crepom. Dos empréstimos que submetem os funcionários às corporações, inviabilizando a aventura. Do futuro incerto.
A igualdade, disse Mari ao contemplar um saquê de se sorver de olhos fechados, é para valer. Ela já foi à casa de um bambambã da Sony e constatou que ele não tinha empregada.
Mas a nipo-igualdade nada tem de socialismo. Ela mascara a padronização alienante, reificada goela abaixo da japonesada. O mercado centenário onde compramos o peixe divino, por exemplo, virá abaixo em breve, vitimado pelo capital.
Como fica em Ginza, bairro de metro quadrado mais caro do sistema solar, e as olimpíadas de 2020 estão logo aí, o mercado imobiliário engoliu o mercado de peixe.
No lugar das enguias, os tubarões botarão mais hotéis Hyatt; mais lojas da Apple; mais Starbucks. Haverá em Ginza mais sushi industrializado, menos bibocas suspeitas, e nenhum peixeiro.
Tudo bem, ao menos para quem mora no país hiperpobre que lhe é antípoda. Desde que o trem prevaleça sobre o carro, e o metrô sobre o ônibus.
Que o banho coletivo persista, mostrando que somos corpos nus em busca de luz, espécimes de uma espécie à cata de calor líquido. Que o pagode de quinhentos anos permaneça de pé, ao lado da placa informando que determinado cedro tem um século a mais.
Que o Japão faça ainda muitas exposições de peônias. Que toque bossa nova nos bares. Que se veja o Monte Fuji da janela do trem-bala.


Texto de Mário Sérgio Conti, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A história do jornalista que fez a pergunta proibida ao imperador do Japão

No início do mês passado, um quarto de século depois da morte do imperador Hirohito em 1989, a Agência da Casa Imperial do Japão divulgou a história oficial da vida do imperador. Os 61 volumes contêm grande riqueza de documentos que até então não estavam disponíveis e algumas anedotas fascinantes: quem sabia que a família imperial trocava presentes de Natal pelo menos desde 1907? A mídia japonesa vem destrinchando-a.

Eu não me debrucei sobre os livros, mas acadêmicos já estão observando que eles evitaram deliberadamente tratar do papel de Hirohito nas ações do Japão antes e durante a 2ª Guerra Mundial.

Algumas semanas atrás, o historiador Herbert Bix escreveu em um artigo para este jornal que havia recebido um e-mail de um "funcionário de um dos maiores jornais do Japão" pedindo que ele comentasse um trecho censurado da história da vida de Hirohito. "Mas havia uma condição", explicou Bix. "Eu não poderia discutir o 'papel e a responsabilidade' dele na 2ª Guerra Mundial." Então Bix se recusou, disse ele. Cerca de 70 anos depois do fim da guerra, o assunto é considerado tabu na mídia tradicional japonesa.

O que torna ainda mais notável o fato de que quase quatro décadas atrás, um jornalista japonês chamado Koji Nakamura tenha feito a Hirothito a pergunta que ninguém ousava fazer. Em 31 de outubro de 1975, poucas semanas depois de uma visita aos Estados Unidos, Hirohito e sua mulher deram uma entrevista coletiva à imprensa no palácio. Nakamura, que participou como representante do London Times, foi um dos poucos repórteres convocados para fazer uma pergunta que estava fora do roteiro.

"Na Casa Branca, vossa majestade se referiu à 'guerra mais infeliz, que eu lamento profundamente'", ele começou. "Podemos interpretar isso como o senhor dizendo que se sente responsável pela guerra, incluindo o fato de que o Japão foi o responsável por iniciá-la? Além disso, posso pedir para que o senhor compartilhe seus pensamentos sobre a chamada responsabilidade sobre a guerra?"

Em certo sentido, a pergunta foi inútil. Hirohito não respondeu nada significativo: "como não mergulhei muito nas questões literárias, esses pequenos truques de linguagem estão além de minha capacidade, e não saberia responder uma pergunta como esta."

Mesmo assim este foi um momento sem paralelos na história do Japão pós-guerra. Embora Hirohito tenha vivido mais 14 anos, até onde sei ele não deu mais entrevistas coletivas à imprensa; se o jornalista tivesse ficado quieto, o imperador teria morrido sem que nunca um cidadão japonês tivesse pedido em público que ele assumisse a responsabilidade por seus erros catastróficos. A pergunta de Nakamura pode ter ficado sem resposta, mas ele merece um lugar na história simplesmente por tê-la feito.

Em vez disso, ele foi quase esquecido. O único repórter que comentou o desafio de Nakamura a Hirohito foi David Tharp, o único participante que não era japonês naquela coletiva de 1975. Em um artigo publicado na manhã seguinte no jornal em língua inglesa Mainichi Daily News, ele disse que Nakamura havia "deixado de lado" o "maior tabu dos círculos jornalísticos japoneses". Ele descreveu a reação de seus colegas japoneses: "foi a única pergunta que pareceu congelar os repórteres com um interesse coletivo. As canetas ficaram paradas sobre os bloquinhos como se não soubessem como se mover por um breve instante." Ele acrescentou, "então houve uma espécie de relaxamento mútuo porque a pergunta que todos estavam secretamente ansiosos para ouvir finalmente havia sido feita."

Passei o último mês tentando buscar informações sobre Nakamura. Não consegui contatar David Tharp, e um e-mail que enviei para o escritório do jornal em Tóquio ficou sem resposta. Mas consegui me encontrar com antigos colegas e conhecidos, e juntar alguns fatos sobre a primeira metade da vida incomum deste jornalista.

Nakamura nasceu em 1918. Quando tinha 13 anos conseguiu um emprego como faz-tudo no escritório do jornal Mainichi, em Kobe. Em seu tempo livre, ele fazia aulas de inglês na escola de línguas estrangeiras da YMCA e no Instituto Palmore. Em 1942, o Mainichi o enviou para Manila para trabalhar em um novo jornal local. Ele permaneceu após a derrota do Japão na 2ª Guerra Mundial, trabalhando como intérprete para os soldados acusados de crimes de guerra; muitos dos quais não falavam inglês.

Ele escreveu sobre esta experiência depois de voltar ao Japão, em 1949. Desses textos parece que, além de servir como intérprete nos julgamentos, ele também traduziu cartas que soldados escreviam "em uma prisão especial com uma forca" imediatamente antes de serem enforcados. Sua tarefa era escrever os desejos finais ditados pelos presos.

Ele estava bastante ciente da brutalidade da matança de Manila em fevereiro de 1945, no qual soldados japoneses massacraram cerca de 100 mil civis. O maior horror daquele acontecimento, escreveu ele, vinha do fato de que o militarismo do Japão, ligado a um culto ao imperador como um deus vivo, era destituído de qualquer respeito ao "valor ou à santidade da vida humana."

Consegui montar uma linha do tempo das reportagens que Nakamura fez como correspondente especial até morrer de câncer no estômago em 1982, aos 63 anos. Reuni textos seus suficientes para perceber que a pergunta que fez a Hirohito naquela coletiva à imprensa em 1975 veio de sua consciência, baseada em sua própria experiência, de todo o mal que aquele outro homem havia causado. Sei que nunca conseguirei compilar um registro adequado da vida de Nakamura --certamente nada tão extenso quanto a vida oficial de Hirohito. Mas para mim, o fato de Nakamura ter feito aquela pergunta é uma contribuição tão grande para a história quanto aqueles 61 volumes, que parecem tão determinados, como o próprio Hirohito, a não respondê-la.
Texto de Norihiro Kato para o The New York Times, reproduzido no UOLTradutor: Eloise De Vylder.

(Norihiro Kato é crítico literário e professor emérito da Universidade Waseda. Este artigo foi traduzido do japonês por Michael Emmerich.)

Vilarejo japonês é atacado por conservadores por reconhecer abusos de guerra

Mais de meio século se passou desde que o chefe dos correios desse vilarejo à beira mar no extremo norte gelado do Japão puxou um homem de lado e compartilhou um segredo. Em algum lugar do vilarejo, confidenciou o velho, havia um cemitério perdido que escondia ossos coreanos.
Levou anos para que Koichi Mizuguchi entendesse a importância daquela afirmação, e décadas mais para extrair a verdade repugnante dos seus vizinhos reticentes: pelo menos 80 trabalhadores coreanos haviam morrido de maus-tratos e desnutrição enquanto construíam uma pista de pouso no vilarejo sob ordens dos militares japoneses durante a 2ª Guerra Mundial. Eventualmente, Mizuguchi ajudou a encontrar os túmulos. Ele e outros moradores começaram a construir um memorial de pedra de 1,80 metro de altura no local.
Há uma década, um vilarejo que tentasse preservar a memória de seus pecados de guerra poderia ter passado despercebido no Japão. Mas a minúscula prefeitura do vilarejo de Sarufutsu foi inundada no ano passado de telefonemas de ameaças que denunciavam os moradores como traidores. A campanha, orquestrada na internet, também pediu um boicote à indústria de vieiras do vilarejo. Abalado, o prefeito ordenou a paralisação da construção do monumento.
Aceitar seu passado militar nunca foi fácil para o Japão, que tentou deixar de lado as questões levantadas pela guerra enquanto reconstruía o país e o transformava na nação pacífica e próspera que é hoje. Mas a pressão para apagar os episódios sombrios da história dos tempos de guerra se intensificou recentemente com a ascensão de um movimento pequeno, porém agressivo na internet, que busca intimidar aqueles que, como Mizuguchi, acreditam que o país não deve esquecer o passado. 
Conhecido coletivamente como Net Right, esses ciberativistas organizados livremente já foram descartados como radicais à margem do cenário político japonês. Mas eles ganharam uma influência fora do comum com a ascensão do governo conservador do primeiro-ministro Shinzo Abe, que compartilha do objetivo de acabar com os retratos negativos da história do Japão, e com a condescendência de uma sociedade desinteressada demais ou com medo de falar.
"Estamos cansados de dizerem constantemente para o Japão se desculpar", diz Kazuya Kyomoto, 26, um blogueiro popular entre a juventude conservadora que condena monumentos como este em Sarufutsu por promover uma visão "masoquista" da história do Japão. Ele acrescenta que apenas alguns extremistas muito fervorosos usaram táticas de intimidação. 
Kyomoto e outros disseram que seu ressentimento foi alimentado em parte pela intensificação das disputas quanto à história e ao território com a China e a Coreia do Sul, duas antigas vítimas da construção do império japonês no início do século 20 que agora parecem estar superando-o economicamente. 
"A Net Right dá voz às preocupações do Japão com seu próprio declínio", diz Shojiro Sakaguchi, um estudioso da Universidade de Hitotsubashi, em Tóquio.
Os extremistas, que se organizam em sites ultranacionalistas e às vezes combatem os coreanos étnicos no Japão com um discurso de ódio racista, têm mais influência que antes em parte por causa do colapso da oposição política de tendência esquerdista, que se desorganizou depois de uma derrota eleitoral estrondosa há dois anos e de um período malsucedido no poder. 
"Desde que Abe se tornou primeiro-ministro, tudo se tornou muito exaltado e reacionário", disse Yasuhito Maeda, 90, ex-vice-prefeito de Sarufutsu. Ele também é autor de um livro publicado há duas décadas que descreve em detalhes o uso de trabalhadores forçados da Coreia e de presos japoneses para construir a pista de pouso de Asajino no vilarejo. 
Funcionários do vilarejo de 2.400 habitantes na ilha de Hokkaido disseram que não mais de 100 pessoas estão por trás dos telefonemas que congestionaram suas linhas. Mas Akira Tatsumi, prefeito na época, disse que as acusações de traição – em parte derivadas do fato de que o vilarejo aceitou dinheiro do governo sul-coreano para construir o monumento – acabaram fazendo com que ele desistisse.
"Esta é uma luta que um pequeno vilarejo não pode travar sozinho", disse Tatsumi.
Poucos – se é que algum dos ativistas usaram seus nomes verdadeiros nos sites que organizaram os telefonemas. Mas um deles, Mitsuaki Matoba, concordou em ser entrevistado por e-mail, descrevendo-se como um médico de 60 anos que vive em Hokkaido. Ele defendeu as táticas de pressão da Net Right, dizendo que são a única forma de se fazerem ouvir diante dos meios de comunicação tradicionais que repetem falsidades sobre as ações do Japão durante o período de guerra.
Mizuguchi, o arquiteto que ficou sabendo sobre os coreanos pelo chefe dos correios do vilarejo, ajudou a organizar três escavações do túmulo entre 2006 e 2010. Centenas de pesquisadores japoneses e sul-coreanos participaram, encontrando 38 ossadas. 
Em uma visita recente ao local, hoje uma paisagem bucólica de fazendas de gado leiteiro, ele diz que não desistiu de construir o monumento.
"Esses forasteiros estão tentando nos intimidar para fecharmos os olhos novamente", disse ele, de pé ao lado dos túmulos escavados cobertos com plástico azul. "Não podemos deixar que eles impeçam nossa reconciliação com o passado." 

Reportagem de Martin Fackler, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Eloise De Vylder

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Falta de bebês pode levar metade das cidades japonesas à extinção


É verão e a cidade praiana de Onjuku, na província de Chiba, está lotada de turistas. A população local, que beira os 7,5 mil moradores, mais do que dobra nos meses de julho e agosto, auge da estação mais quente no Japão.

Mas Isamu Yoshida, 65, proprietário de uma loja de empanados fritos, não se entusiasma com as vendas, apesar de não ter concorrência.

"Não posso reclamar das vendas no verão. Porém, no restante do ano, praticamente fico no vermelho", conta à BBC Brasil o comerciante, que toca a pequena e antiga loja aberta pelos pais há mais de 50 anos.

Localizada a cerca de duas horas de trem da capital japonesa, Onjuku sofre de um problema comum a quase metade das cidades, distritos e povoados japoneses: a queda constante e crônica da população, que pode levar inclusive estes municípios à extinção.

"É triste ver a cidade definhando aos poucos", lamentou Yoshida. "Todo mês vemos no jornal local que o número de mortes é sempre maior do que o de nascimentos", contou.

Segundo estatística do governo japonês, a população de Onjuku diminui em média 0,5% ao ano. Em 1995, a população era de 8.129 pessoas. Em 2013, caiu para 7.632.

Se continuar neste ritmo, em 50 anos a população local será pouco mais de 2,5 mil pessoas.

Dificuldades

Segundo o relatório de uma subcomissão do Conselho de Política do Japão, quase metade dos municípios de todo o país poderá ter dificuldades para continuar operando normalmente até 2040.
O estudo deu especial atenção à população de mulheres com idade de 20 a 39 anos, pois elas são consideradas um fator-chave que irá determinar o futuro da população japonesa.

O grupo, liderado pelo ex-ministro de Assuntos Internos, Hiroya Masuda, definiu cidades, vilas e aldeias cujas populações provavelmente diminuirão em pelo menos 50% ao longo do período 2010-2040.

Pesquisadores da comissão explicaram à BBC Brasil que a estimativa foi feita com base em várias estatísticas do Instituto Nacional de População e Pesquisa da Segurança Social.

No total, 896 municípios, ou 49,8% do total do país, foram indicados como locais que podem desaparecer.

O relatório também alertou que 523 localidades cujas populações estão abaixo de 10 mil moradores – o que representa cerca de 30% do total – têm uma alta propensão a "quebrar" já nas próximas décadas, a menos que medidas eficazes sejam tomadas.

Onjuku, visitada pela reportagem da BBC Brasil, está entre estes municípios.

"Infelizmente, esse problema tem sido ignorado há muito tempo, porque ninguém quer falar sobre um futuro desfavorável. Agora, nós devemos reconhecer essa grave questão", comentou à reportagem uma fonte da subcomissão.

Cidade grande

Em contrapartida, a população nas grandes cidades tem aumentado, o que sugere que as pessoas estão deixando os pequenos municípios, onde quase não há oferta de emprego, para buscar oportunidades fora.

Kazuya Shiton, 25, de Onjuku, conta que está planejando deixar a casa dos pais e buscar um emprego melhor em Tóquio ou outra cidade maior.
O jovem, que trabalha na construção de vias públicas, explicou que o serviço atual é ruim e rende pouco dinheiro.

"Aqui também não há locais para lazer para os jovens", lembra. "Todos os meus amigos já se mudaram para outras cidades. Não vejo outra saída."

Para a subcomissão do Conselho de Política do Japão, o problema mais grave é que muitos destes jovens que vão para a capital japonesa não têm filhos.

"Criar uma criança em um ambiente como Tóquio é muito caro. Além da dificuldade de encontrar creches, a assistência é pouca para os pais, o que contribui para a baixa taxa de natalidade verificada na capital japonesa", explicou a fonte da subcomissão.

Para tentar resolver o problema, o governo japonês deve anunciar no próximo mês a criação de um comitê que vai tratar exclusivamente da regeneração de cidades do interior, focado principalmente na criação de postos de trabalho para jovens e no aumento da taxa de natalidade.

Contra a corrente

Por conta própria, o empresário americano Del Ricks abraça a ideia. Instalado em Onjuku apesar dos riscos econômicos, ele é só sorrisos.

Há seis anos, Del Ricks e a companheira, a sul-coreana Kelly Cho, abriram um negócio praticamente de frente para a paradisíaca praia da cidade.
"Não tenho do que reclamar", falou. "Enquanto a maioria dos comerciantes locais trabalha mesmo apenas dois meses por ano, nós temos clientela fixa por oito meses."

Ricks dá aulas de surf, aluga equipamento para a prática do esporte, tem uma lanchonete e ainda oferece quartos para turistas.

"Meu público não é o local. Trabalho com pessoas que vêm de Tóquio", explicou.

Além dos turistas que curtem praia, o casal trabalha principalmente com surfistas – que frequentam a cidade quase o ano todo –, pescadores, mergulhadores e empresas que buscam lugares diferentes para fazer festas para os funcionários.

Para o norte-americano, Onjuku poderia se tornar um local atrativo se o governo investisse mais para trazer jovens empreendedores e aposentados que moram nas grandes cidades.

"Aqui, o custo de vida é muito mais barato, além de ser muito menos estressante", defendeu.

Reprodução da BBC Brasil no UOL

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Hábito de poupar prejudica luta contra deflação no Japão

Hábito de poupar prejudica luta contra deflação no Japão

Geração mais jovem nunca vivenciou aumento dos preços

Por HIROKO TABUCHI

TÓQUIO - Os trocados de Yusa Nishimura podem estar minando o plano econômico do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Sempre que pode, Nishimura, 23, guarda moedas de 500 ienes, que valem um pouco menos de US$ 5, numa espécie de livro que facilita sua contagem.
Juntar um pé-de-meia como o de Nishimura fazia sentido num Japão que crescia lentamente, onde durante 15 anos de deflação o dinheiro dela valia cada vez mais com o passar do tempo.
Seus planos de fazer uma extravagância num spa provavelmente ficariam mais baratos se ela esperasse mais.
Mas, na sua luta para tirar o Japão da deflação, Abe está fazendo um chamado aos poupadores, como Nishimura, para que mudem seu modo de pensar -para o bem da economia e também para o seu próprio bem.
Nishimura, como boa parte dos japoneses, não está convencida. "Nunca vivenciei inflação. Não me parece real", disse Nishimura, que trabalha numa empresa de tecnologia em Kobe.
O resultado dessa incerteza poderia ser uma recuperação econômica difícil para o Japão, que tem experimentado certo ressurgimento sob Abe.
Dados recentes apontam para um fraco crescimento econômico no quarto trimestre. O governo disse que a economia tinha crescido ainda mais lentamente do que o previsto, apenas 0,7% no acumulado de um ano, afetada por um consumo ainda menor que o esperado.
Se mais pessoas previssem um futuro de preços e salários em alta, avalia Abe, elas gastariam agora, antes de as mercadorias ficarem mais caras. Para combater a alta dos preços, elas também colocariam seu dinheiro em investimentos de rendimento mais alto. As empresas, confiantes em uma nova era de maiores vendas e lucros, iriam elevar preços e salários. Um grande obstáculo no caminho do Japão, diz Abe, são as atitudes arraigadas. "Não é fácil alterar uma mentalidade de deflação que está em vigor aqui há mais de 15 anos", afirmou o premiê.
No Japão, os preços em geral não sobem desde o fim dos anos 1990. Um Big Mac custa aqui aproximadamente o mesmo que em 1988: cerca de 300 ienes, ou quase US$ 3. O preço de outra opção de fast-food -a tigela de arroz e carne da rede Yashinoya- caiu de 400 ienes no final dos anos 1990 para 280 hoje.
A renda média do trabalhador também diminuiu.
Abe adotou políticas agressivas para pôr fim à deflação. Sua primeira medida, que duplicou a oferta de moeda, já elevou os preços ao enfraquecer o iene e empurrar para cima o custo da energia e dos alimentos importados.
Mas mesmo uma elevação ínfima nos preços foi recebida com perplexidade. As empresas que estão promovendo aumentos demonstram pesar. "Dói realmente em nossos corações anunciar que em breve revisaremos nossos preços", disse a cervejaria Kidoizumi, em Chiba, a leste de Tóquio, num anúncio recente.
O lento avanço no combate à deflação reflete as dificuldades de superar expectativas e comportamentos enraizados, especialmente entre os japoneses mais jovens, que nunca vivenciaram aumentos de preços, disse Taro Saito, economista sênior do Instituto de Pesquisa NLI, em Tóquio.
Gerações mais velhas ainda se lembram dos "choques do petróleo" dos anos 1970, que fizeram os preços no varejo darem um salto e também provocaram a bolha nos ativos do país nos anos 1980. Mais recentemente, eles se lembram de como o Japão caiu na deflação depois que a sua bolha econômica estourou, no início da década de 1990.
Uma pesquisa feita no ano passado pelo governo demonstrou disparidades intergeracionais extremas: famílias chefiadas por pessoas dos 60 aos 69 anos elevaram seus gastos em 2,7%, ao passo que as famílias chefiadas por japoneses com menos de 30 reduziram-nos em 0,8%.
Alguns economistas estão começando a questionar se os obstáculos para derrotar a deflação estão nas políticas de Abe, não entre os consumidores.
No restaurante Manrai, adorado pelos moradores de Tóquio por sua sopa de porco e alho-poró -e pelo antigo compromisso com os preços baixíssimos-, o ambiente era de consternação quando os preços recentemente subiram pela primeira vez em mais de duas décadas, de 200 para 250 ienes.
"Não acredito", disse Ryo Bobayashi, funcionário de uma agência de recrutamento. "Se os preços começarem a subir em todo lugar, não poderei mais comer fora de casa."
O Manrai elevou os preços não por estar confiante no futuro das vendas, mas porque estava sob a pressão dos custos mais altos.
Em vez de dar início a um renascimento da economia, essa inflação "empurrada pelos custos", como os economistas a definem, poderá se tornar uma crescente ameaça aos japoneses aferrados a uma mentalidade deflacionária. Eles poderão ver suas economias serem corroídas, alertou Yukio Sakurai, analista de moradia em Tóquio.
As opções que faziam sentido durante a deflação -alugar, por exemplo, em vez de comprar- poderão sobrecarregá-los com custos cada vez maiores e barrar seu acesso a quaisquer benefícios de uma economia mais forte.
"Os japoneses mais jovens precisam mudar agora sua mentalidade ou ficarão para trás", disse Sakurai. "Eles fariam bem em conversar com os pais e avós."
 
Colaborou Zhiyi Yang


Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo.  

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Computação gráfica aposenta gênero 'Godzilla'

Computação gráfica aposenta gênero 'Godzilla'
Por MARTIN FACKLER

CHOFU, Japão - Daisuke Terai interpreta um dos personagens mais conhecidos da história da ficção científica, mas poucos fãs já viram o rosto do ator. Isso porque Terai veste uma brilhante roupa prateada e vermelha antes de entrar em um cenário feito de árvores e edifícios em miniatura para lutar como o super-herói cósmico Ultraman.
Em uma tarde recente, o personagem de Terai estava em um combate mortal para defender a Terra de um gigantesco dinossauro extraterrestre com olhos luminosos e garras aguçadas, chamado Grand King. Quando as câmeras pararam, Terai, 36, muito suado, retirou a parte superior do traje de Ultraman enquanto contrarregras removiam as pontas de espuma de Grand King, revelando um zíper nas costas da fantasia de 30 quilos.
Durante décadas, os estúdios japoneses surpreenderam e aterrorizaram o mundo com filmes e programas de TV de monstros. Para isso, usavam atores com roupas de borracha que destruíam Tóquios em escala reduzida ou lutavam no topo de montes Fujis miniatura.
O gênero, conhecido aqui como "tokusatsu", ou "filmagem especial", ajudou a globalizar a indústria de cinema japonesa ao produzir criaturas fabulosas como Godzilla e Mothra. Além disso, abriu caminho para outros gêneros de fantasia, como o "animé".
Mas hoje, em uma era em que efeitos digitais realistas fazem parecer ridículo usar maquetes e atores fantasiados, o "tokusatsu" está rapidamente se tornando coisa do passado. O último filme de Godzilla feito nesse estilo, adequadamente chamado de "As Guerras Finais de Godzilla", foi lançado há quase uma década, depois de um período de meio século em que a criatura apareceu em 28 filmes, às vezes anualmente.
Apenas duas companhias ainda usam efeitos de "tokusatsu": a Tsuburaya Productions, que faz Ultraman, e a Toei, que produz "Kamen Rider" e "Super Sentai" (conhecidos como Power Rangers em outros países). São séries de televisão de baixo orçamento para crianças que apresentam super-heróis gigantescos. A Tsuburaya também faz filmes. O último, "Ultraman Ginga", foi lançado no dia 7 de setembro no Japão.
Hoje, quando Hollywood faz filmes inspirados em "tokusatsu" -como "Círculo de Fogo", de Guillermo del Toro- ela conta com requintada computação gráfica. "Um dia, olhamos ao redor e percebemos que quase ninguém mais está fazendo 'tokusatsu'", disse Shinji Higuchi, um dos poucos diretores japoneses que ainda têm experiência no gênero. "Não queremos que essa técnica simplesmente desapareça em silêncio, sem pelo menos reconhecer o quanto devemos a ela."
Em resposta, Higuchi está tentando, senão ressuscitar o "tokusatsu", pelo menos deixar sua crônica para as gerações mais jovens. No ano passado, ele ajudou a organizar o Museu de Efeitos Especiais Tokusatsu, uma exposição itinerante no Japão que apresenta a história do "tokusatsu", remontando a suas origens nos filmes de propaganda da Segunda Guerra Mundial, com modelos de aviões tão realistas que a inteligência americana pensava que fossem gravações de combates reais.
O homem que os filmou, Eiji Tsuburaya, depois criou o Godzilla original no filme preto e branco de 1954 que se tornou sucesso mundial e iniciou o gênero "tokusatsu". "Tínhamos de improvisar e fazer as coisas pareceram reais na tela", disse Haruo Nakajima, 84, o ator que interpretou Godzilla no filme original e em dezenas de sequências.
"Nossa esperança é que a exposição ajude as gerações mais jovens a encontrar inspiração para levar o 'tokusatsu' em uma nova direção", disse Higuchi, 47.
Aqui no set de "Ultraman Ginga", a variante de televisão mais nova do herói original, a maioria dos trabalhadores era de veteranos na faixa dos 50 e 60 anos, que arranjavam galhos de árvores no cenário para parecer uma floresta miniatura ou colocavam explosivos de artifício na roupa de espuma de Grand King para explodir quando o monstro fosse alvejado por Ultraman.
O diretor, Yuichi Abe, disse que a utilização de atores, modelos e explosivos reais deu ao "tokusatsu" um nível de realismo impossível com a computação gráfica, ou CG. "A CG só faz o que o programador lhe diz para fazer, por isso não há surpresas", disse Abe, 49, que dirigiu meia dúzia de filmes e séries de televisão do Ultraman. "Com o 'tokusatsu', cada tomada é diferente. Você nunca sabe qual será o resultado, como no mundo real."


Reportagem do The New York Times, reproduzida na Folha de São Paulo.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Pesquisa revela segredo da longevidade no Japão


O Japão tem a maior média de expectativa de vida do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas (ONU), e o segredo não é somente a alimentação, como se pensava.
Segundo Kenji Shibuya, professor do departamento de política global de saúde da Universidade de Tóquio, as razões da longevidade japonesa têm tanto a ver com o acesso a medidas de saúde pública quanto a uma dieta equilibrada, educação, cultura e também atitudes de higiene no dia-a-dia.
O especialista e uma equipe de pesquisadores estudaram vários aspectos da cultura, da política e da economia japonesa que influenciam na forma de viver da população e publicaram o estudo no jornal médico The Lancet.
''A expectativa de vida do japonês aumentou rapidamente entre os anos 50 e 60, primeiramente, por causa da queda da taxa de mortalidade infantil'', explicou à BBC Brasil o professor Shibuya.
Depois, as autoridades concentraram esforços para combater a mortalidade adulta. O resultado positivo foi, em grande parte, consequência dessa política de saúde adotada pelo país.
Histórico de sucesso
Hoje, um bebê quando nasce no Japão pode esperar viver até 86 anos se for uma menina, e quase 80 se for menino.
Mas segundo o estudo conduzido pelo professor Shibuya, os japoneses nem sempre tiveram a perspectiva de viver por tanto tempo.
Em comparação com dados de 1947, houve um salto de mais de 30 anos na expectativa de vida de uma pessoa.
Esse crescimento começou no final da década de 50, quando o país passou a experimentar um desenvolvimento econômico acelerado.
No pós-guerra, o governo começou a investir em ações de saúde pública, introduzindo o seguro nacional de saúde em 1961, tratamento grátis para tuberculose e infecções intestinais e respiratórias, além de campanhas de vacinação.
Uma das principais ações foi a redução das mortes por acidente vascular cerebral (AVC). ''Isso foi um dos principais impulsionadores do aumento sustentado da longevidade japonesa depois de meados dos anos 1960'', contou o estudioso.
''O controle da pressão arterial melhorou através de campanhas, como a de redução do consumo de sal, e uma maior utilização de tecnologias de custo-benefício para a saúde, como medicamentos anti-hipertensivos com cobertura universal do seguro de saúde.''
Educação e cultura
Porém Shibuya lembra que o crédito dessa conquista não é só do governo. ''Em 1975, muitas doenças não transmissíveis já estavam em níveis extremamente baixos em comparação com outras nações de alta renda, devido em grande parte a uma herança cultural de cuidados com a alimentação e prática de atividades físicas'', sugere.
Além disto, segundo o estudo, os japoneses dão uma atenção à higiene em vários aspectos da vida diária. “Essa atitude pode, em parte, ser atribuída a uma complexa interação de cultura, educação, clima (por exemplo, temperatura e umidade), ambiente (por exemplo, ter água em abundância e ser um país consumidor de arroz) e a velha tradição xintoísta de purificar o corpo e a mente antes de se encontrar com outras pessoas”, diz o estudo.
''Eles também são conscientes em relação à saúde. No Japão, check-ups regulares são normais e oferecidos em larga escala em escolas e no trabalho, a todos, pelo governo'', afirma ainda o estudo. ''Em terceiro, a comida japonesa tem benefícios nutricionais balanceados e a dieta da população tem melhorado de acordo com o desenvolvimento econômico ao longo das décadas.''
Para o cantor de rua japonês Yu Rikiya, de 68 anos, o segredo é o fato de haver muitas atividades voltadas para pessoas de idade mais avançada. “Essas pessoas têm um motivo toda semana para continuar vivendo. Fazem o que gostam, se divertem e não se estressam”, sugere ele.
Além de produzir e vender os próprios CDs, Yu Rikiya canta na noite e diz que nunca se preocupou com o avanço da idade. ''Temos acesso a médicos, tratamentos e remédios. Ganho o suficiente para comer e sustentar a família. Saio com amigos para beber e curtir a vida. Então, para que se preocupar?'', questiona, sorrindo.
''Quero viver muito ainda, produzir mais música e, quem sabe, ainda ser famoso um dia'', planeja.
Envelhecimento
O lado negativo do sucesso do Japão em conseguir manter a população saudável é o desequilíbrio populacional. Até agora, cerca de 24% da população tem mais de 65 anos.
Mas cálculos do governo apontam que, em 2060, a porcentagem de idosos será de 40%, numa população que se reduzirá dos atuais 127 milhões para 87 milhões.
Segundo o estudo, a expectativa de vida deve aumentar ainda mais, chegando a 84 anos para homens e 90 para as mulheres.
''O rápido envelhecimento da população japonesa é um desafio para o sistema de saúde do Japão em termos de financiamento e qualidade dos cuidados'', aponta Shibuya.
''Simplesmente aumentar a expectativa de vida não faz mais sentido. Devemos focar mais em maximizar de forma saudável essa expectativa de vida'', sugere.
Outros desafios que o Japão enfrenta são altos índices de alcoolismo, tabagismo e suicídio, problemas gerados em parte por causa do aumento do desemprego e do prolongamento da crise econômica.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Fé nuclear no Japão


Fé nuclear com base em fantasia

O líder global em robôs não tinha nenhum no acidente

Por NORIMITSU ONISHI

SHIKA, Japão - Perto de uma usina nuclear de frente para o mar do Japão, uma série de exposições enaltece as virtudes dessa fonte de energia com uma certa ajuda de "Alice no País das Maravilhas".
"É terrível, simplesmente terrível", diz o Coelho Branco na primeira exposição. "Estamos ficando sem energia, Alice." A figura de um robô-pássaro Dodo declara que há uma forma de energia "incrível" chamada nuclear. Ela é limpa, segura e renovável se você reprocessar urânio e plutônio, diz o Dodo.
"Puxa, você pode até fazer isso!", diz Alice sobre a energia nuclear. "Poderíamos dizer que é ótima para o Japão, pobre em recursos!" Por décadas, o setor nuclear do Japão dedicou verbas enormes para convencer o público sobre a segurança e a necessidade da energia nuclear.
O resultado foi a adoção generalizada da crença de que as usinas nucleares japonesas eram absolutamente seguras. O Japão perseguiu a energia nuclear sem hesitação, mesmo enquanto os países ocidentais se afastavam dela.
Essa crença ajuda a explicar por que, no único país que foi atacado com bombas atômicas, a aceitação da energia nuclear era tão forte que os acidentes em Three Mile Island e Tchernobil quase não tiveram registro. Mesmo com a crise na usina nuclear de Fukushima Daiichi, a reação contra essa energia foi muito mais forte na Europa e nos EUA do que no Japão.
Alguns japoneses estão escavando o fundo da psique nacional e examinando a propensão nacional a adotar uma crença hoje amplamente considerada irracional. Por causa dessa crença generalizada na absoluta segurança das usinas japonesas, as operadoras e os reguladores nucleares deixaram de adotar medidas de segurança adequadas e avanços tecnológicos.
"No Japão, temos uma coisa chamada 'mito da segurança'", disse, em 20 de junho, Banri Kaieda, o ministro da Economia, do Comércio e da Indústria, que supervisiona a indústria nuclear. "Existe um excesso de confiança irracional na tecnologia de geração de energia nuclear no Japão."
Em consequência, ele disse, "o pensamento sobre a segurança da indústria nuclear era frágil".
Enquanto a crença cuidadosamente cultivada na segurança nuclear se dissipa depois do desastre de 11 de março, os japoneses culpam cada vez mais o setor nuclear por Fukushima. Em um país politicamente apático, dezenas de milhares de pessoas realizaram protestos contra a energia nuclear. Jovens japoneses usaram mídias sociais para organizar e divulgar manifestações.
Nos dias seguintes ao tsunami que desligou o sistema de resfriamento de Fukushima Daiichi, o gabinete do premiê e a Companhia de Energia Elétrica de Tóquio (Tepco), a operadora da usina, debateram se deveriam injetar água do mar para resfriar os prédios do reator, para evitar fusões catastróficas, e depois como fazer isso.
Com os níveis de radiação altos demais para que os trabalhadores se aproximassem dos reatores, as autoridades japonesas vacilaram.
Enviaram caminhões de polícia armados de canhões de água para borrifar água nos prédios dos reatores. Helicópteros militares despejaram água que se espalhou com os ventos fortes em um "espetáculo, uma espécie de circo" destinada a tranquilizar a população cada vez mais alarmada e o governo americano, segundo Kenichi Matsumoto, assessor do primeiro-ministro Naoto Kan.
O que ficou claro foi que o Japão não tinha alguns equipamentos básicos para reagir a uma crise nuclear. O ponto baixo ocorreu em 31 de março, quando teve de usar uma bomba de água enviada da China para injetar 91 toneladas métricas de água doce no prédio do reator número 1. Mas a ausência de uma tecnologia em particular foi profundamente perturbadora: robôs de emergência. Afinal, o Japão é o líder mundial em robótica.
"Os operadores disseram que os robôs, que atuariam em caso de acidente, não eram necessários", disse Hiroyuki Yoshikawa, 77, engenheiro e ex-presidente da Universidade de Tóquio, a instituição acadêmica mais influente do Japão. "Em vez disso, adotá-los causaria medo, eles disseram."
Depois de Fukushima, o Japão foi obrigado a contar com uma remessa de emergência da iRobot, empresa situada em Bedford, Massachusetts, mais conhecida por fabricar o aspirador de pó Roomba. Em 24 de junho, a Tepco utilizou o primeiro robô feito no Japão, que foi adaptado para lidar com acidentes nucleares, mas ele apresentou defeito.
A rejeição aos robôs, disse Yoshikawa, fazia parte da relutância geral da indústria a aperfeiçoar a manutenção e investir em novas tecnologias.
"É por isso que o mito da segurança não era apenas um clichê vazio", disse Yoshikawa, hoje diretor do Centro para Pesquisa e Desenvolvimento Estratégicos da Agência de Ciência e Tecnologia do Japão. "Era uma espécie de mentalidade que rejeitava o progresso através da adoção de novas tecnologias."
No início da era atômica, a energia nuclear tornou-se a solução para os japoneses -uma maneira de o Japão, cuja falta de recursos naturais havia levado à Segunda Guerra e à derrota, se tornar mais independente no plano energético. O domínio nuclear também abriria a possibilidade de desenvolver armas nucleares.
O responsável pela divisão de energia nuclear do ministério orçou em US$ 12 milhões sua publicidade e os programas educacionais para este ano. Mitsuhiro Yokote, 67, diretor-gerente executivo da Organização de Relações de Energia Atômica do Japão, um dos grupos criados para promover o programa nuclear japonês, admitiu que os especialistas transmitiram a mensagem de que as usinas nucleares eram seguras. Yokote disse que "lamentava" que sua organização tivesse contribuído para esse mito.
No Japão, as pessoas tendem a confiar reflexivamente no governo. "O que poderíamos fazer senão acreditar no que o governo nos dizia?", disse Masaru Takahashi, 67, membro do sindicato de pescadores em Oma, uma cidade pesqueira no norte do Japão onde está sendo construída uma usina. "Disseram-nos que elas eram absolutamente seguras."
Depois de Tchernobil, as instalações de relações-públicas das usinas nucleares foram transformadas em parques temáticos voltados para jovens mães, o grupo que, segundo a pesquisa, mais se preocupa com usinas nucleares e radiação, segundo Noriya Sumihara, antropólogo da Universidade Tenri. Mulheres em idade de ter filhos foram contratadas como guias tranquilizadoras.
Em Higashidori, norte do Japão, um dos mais novos edifícios de relações-públicas do país foi construído com base no tema de Tonttu, uma floresta com moradores anões. O edifício também apresenta eventos com personagens de quadrinhos para atrair crianças e jovens pais, disse Yoshiki Oikawa, porta-voz da Companhia de Energia Elétrica Tohoku, que administra o local com a Tepco.
Aqui no prédio de relações-públicas Shika, que teve 100 mil visitantes no ano passado, as pessoas começam a questionar a segurança da energia nuclear depois do desastre de Fukushima, disse Asuka Honda, 27, um guia local. Muitas eram mulheres grávidas.
O establishment nuclear também garantiu que os manuais escolares produzidos pelo governo não enfatizem informações que possam projetar dúvidas sobre a segurança da energia nuclear. No Parlamento, a campanha foi liderada por Tokio Kano, um vice-presidente da Tepco que se tornou deputado em 1998. Kano voltou à Tepco como assessor depois de deixar o Parlamento.
Resultados de pesquisas indicaram que os jovens japoneses são os mais fortes defensores da energia nuclear.
O Japão passou a acreditar em seu próprio mito da segurança, disse Hitoshi Yoshioka, autor de um livro sobre a história da energia nuclear no Japão e membro de um painel criado pelo primeiro-ministro para investigar as causas do desastre de Fukushima. O establishment nuclear, ele disse, "ficou preso em sua própria teia".
Colaborou Kantaro Suzuki


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Japão cria serviços para evitar aumento de suicídios após tragédia

Desiludido, um pai de família no Japão se matou depois de procurar desesperadamente pelo corpo do filho, levado pelo tsunami. Na província de Fukushima, um agricultor se enforcou ao saber que sua plantação de repolhos teria de ser completamente destruída por causa da contaminação nuclear. Em outro caso, um senhor de 102 anos cometeu suicídio em um vilarejo perto da usina nuclear porque não aceitava a ideia de abandonar sua casa.

Apesar de ainda não ter uma estatística oficial, governo e organizações sem fins lucrativos temem um aumento significativo do número de suicídios no país, exatos dois meses após o terremoto de magnitude 9 seguido de tsunami do dia 11 de março, que devastou a região nordeste japonesa.

Em 1995, após o terremoto de Hanshin, que devastou a cidade de Kobe, foram registrados cerca de 140 suicídios entre sobreviventes da cidade, segundo a organização Life Link.

Para prevenir a repetição de uma onda de suicídios, o governo e várias organizações sem fins lucrativos começaram atividades e serviços voltados para as vítimas do terremoto e do tsunami.

O Ministério da Saúde e ONGs enviaram para as regiões mais devastadas conselheiros e terapeutas. Também foram criadas linhas telefônicas de emergência para ouvir o desabafo de desalojados.

Cultura e suicídio

A cada 15 minutos, alguém no Japão se mata, o que torna o suicídio a principal causa da morte de homens entre 20 e 44 anos e mulheres entre 15 e 34 anos.

São cerca de 90 casos por dia e mais de 30 mil por ano, segundo levantamento do governo. A média anual é duas vezes maior do que nos Estados Unidos por exemplo.

Entre os países desenvolvidos , o Japão tem os maiores índices de suicídio. Mas o país fica atrás de Lituânia, Coreia do Sul, Cazaquistão e Belarus na lista mais recente da Organização Mundial da Saúde de países com maior número de suicídios por 100 mil habitantes.

O grupo Ikiru tem psicólogos e psiquiatras nas províncias de Miyagi, Fukushima e Iwate para ajudar as vítimas a cuidar de sua saúde mental.

A ONG teme que o número de suicídios aumente e, por isto, prefere não dar entrevistas à mídia local sobre o assunto.

Um representante do grupo justificou à BBC Brasil que uma pessoa com depressão pode pensar em se matar ao ler uma matéria sobre o assunto.

Para a maioria da população japonesa, tirar a própria vida não tem conotação de pecado ou de problema mental como no Ocidente.

Por séculos, o suicídio é visto no país também como um gesto de grande nobreza.

Tragédia e desespero

Por isso é que os especialistas temem que, após o tsunami, a falta de esperança daqueles que perderam não só os bens materiais, mas também familiares e amigos, leve muitos a se matarem.

"Se lembrarmos a experiência do terremoto de Kobe, as pessoas começaram a cometer suicídio depois que deixaram os abrigos e foram para casas temporárias", lembra Fumitaka Noda, presidente da Sociedade Japonesa de Psiquiatria Transcultural e professor da Universidade Taisho, em Tóquio.

Ele explicou à BBC Brasil que, apesar de garantir privacidade e mais espaço, as casas temporárias isolam as pessoas. "Elas ficam sozinhas, com seus problemas."
Noda diz ainda que pessoas endividadas muitas vezes escolhem trocar a vida pelo dinheiro do seguro para cobrir os débitos.

Soldados, bombeiros, policiais, voluntários, agricultores, pescadores e os trabalhadores que tentam recuperar a usina nuclear de Fukushima também podem desenvolver depressão e estão no grupo de risco.

Para Noda, a sociedade tem de colaborar e incentivar a criação de espaços comunitários para evitar o isolamento. "A mensagem que tem de ser passada é de que eles (as vítimas) não estão sozinhos", reforça.

Trabalho de base

A Sociedade Japonesa de Psiquiatria Transcultural tem feito um trabalho coordenado com centros de saúde, hospitais, clínicas e associações internacionais para atender pessoas com problemas, principalmente os estrangeiros.

A organização sem fins lucrativos Life Link também criou um atendimento telefônico para as vítimas e tem distribuído panfletos com orientação às pessoas com problemas de estresse e depressão.

Já a organização Tsukuba Agri Challenge começou um programa para ajudar agricultores de Ibaraki e Fukushima, duas províncias onde a maioria das lavouras foi altamente contaminada por material radioativo.

Onze produtos foram considerados pelo governo inapropriados para venda. Isto fez com que todos os agricultores das duas províncias sofressem consequências, mesmo aqueles cujos produtos não foram contaminados.

Agora, com a iniciativa dos voluntários, hortaliças produzidos na região são vendidos pela internet através da página da Tsukuba Agri Challenge. Desde o dia 25 de abril, mais de 4 mil pedidos de todo o arquipélago já foram feitos.

A ideia surgiu depois do suicídio de um senhor que cultivava repolhos. Para evitar outros casos, a NPO começou o projeto, que não tem prazo para acabar.

"Os agricultores estão preocupados com o futuro incerto. Não sabemos o que será de nós, mas rezo para que não haja mais vítimas como meu pai", disse a filha do agricultor morto a repórteres.


Notícia da BBC, reproduzida no UOL.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Assim se armou o Japão nuclear

Por Gavan McCormack*, no Le Monde Diplomatique francês | Tradução: Antonio Martins

Março de 2011 poderia marcar na história japonesa, uma ruptura comparável à de agosto de 1945, assinalando a morte de um modelo particular de organização do Estado e da economia. Em agosto de 1945, os cogumelos atômicos explodidos no céu de Hiroshima e Nagasaky haviam selado o fim da guerra em que os jovens oficiais do exército de Kwantung haviam envolvido o Japão nos quinze anos anteriores. Da mesma maneira, o medo de um novo apocalipse nuclear, nascido do caos engendrado pelos tremores de terraami de 11 de março, deveriam marquer uma ruptura com as escolhas feitas ano a ano pela oligarquia empresarial desde o imediato pós-guerra. O Estado nuclear é obra desta gente.
Diferente do desastre de 1945, que teve causas puramente humanas, o de 2011 teve com origem fenômenos naturais, muito agravados pelas decisões dos homens. De qualquer forma, as duas catástrofes têm em comum o fato de terem abalado o mundo.
Durante várias décadas, a “síndrome de Hiroshima”, ou, em outras palavras, o medo e a repulsa do povo japonês a tudo que tem traços nucleares, havia conduzido as autoridades nipônicas a manter a maior discrição possível sobre sua cooperação militar com os Estados Unidos, no quadro de uma estratégia de dissuasão militar. A tal ponto que os “tratados secretos” (mitsuyouku), expressão deste compromisso, e mais particularmente os acordos fechados nos anos 1960 e 1970, só foram publicados há dois anos, por ocasição de uma mudança de poder.
Também foi em regime de total opacidade, e sem jamais ser submetida à sanção das urnas, que se tomou a decisão de adotar uma política energética nacional centrada principalmente no nuclear. A catástrofe de Fukushima faz explodir as manipulações de todo tipo que foram necessárias para a instalação de tal programa: campanhas publicitárias repetidas, dissimulação, mentiras, em particular em casos de acidente, e desinformação quanto aos riscos envolvidos, e sobre a segurança .
Agora, quando nenhum caminho de saída para a crise atual parece surgir, constata-se que a democracia japonesa terá de repensar os mecanismos que permitiram a seus governantes esmacar toda a oposição e conduzir o país ao ponto de ruptura em que se encontra. Além do assombro de uma fusão nuclear, de suas consequências sobre a saúde humana e o ambiente, dos problemas causados pelos cortes de eletricidade, trata-se de uma crise da capacidade de governo e da democracia. Parece ter chegado o momento em que os cidadãos precisam encontrar uma forma de reassumir o controle, tirando-o de uma classe dirigente constituída de altos funcionários, políticos profissionais e economistas e inventando um modo responsável e sustentável de gestão dos serviços públicos. A busca de novas formas de geração de energia e de desenvolvimento socioeconômico emerge como o mote que poderá mobilizar a sociedade japonesa. O fato de que um país mártir do nuclear tenha adotado esta energia com um fervor próximo à obsessão é um paradoxo real. Gozando de uma posição privilegiada e protegido pelos Estados Unidos, o país tornou-se, nos últimos cinquenta anos, um Estado fortemente nuclearizado e uma superpotência do plutônio. É o único país não-nuclear, em termos militares, a se envolver com o desenvolvimento de usinas de enriquecimento e retratamento de urânio e com o projeto de um super-reator. Seus governantes fizeram uma escolha: viram no mineral mais perigoso que a humanidade conhece uma solução mágica para assegurar a segurança energética do país. Enquanto a comunidade internacional concentrava atenção sobre a ameaça representada pela Coreis do Norte, o Japão fugia à vigilância internacional e perseguia seu destino nuclear.
Vale a pena conhecer a história. Só dez anos após Hiroshima e Nagasaki, na época dos “átomos para a paz” do presidente norte-americano Dwight Eisenhower, a comissão japonesa de energia atômica começou a arregaçar as mangas. O programa nuclear de longo prazo lançado em 1967 já incluia o ciclo de combustão e o projeto de super-gerador. A produção de energia nuclear nunca deixou de aumentar, desde então, alimentando uma parte cada vez mais importante da rede nacional de distribuição. Responsável por 3% da energia produzida em 1973, no momento do promeiro choque de petróleo, ela passou a 26% em 2008 e atinge hoje 29%. Em 2006, o ministério da Economia, Comério e Indústria (METI) inaugurou uma “nova política energética”, que tinha por objetivo fazer do Japão uma potência nuclear (genshiryoku rikkoku). O caminho previa o desenvolvimento do nuclear (destacadamente), da hidreletricidade e de outras formas de energia renováveis. Juntas, elas deveriam suprir 50% das necessidades energéticas do país em 2020, chegando a 70%, em 2030. O plano para necessidades energéticas de base, concebido em 2010, previa construir nove novos reatores até 2020 e catorze até 2030. Ao mesmo tempo, a utilização da capacidade dos reatores existentes deveria passar de 60% em 2008 a 85% em 2020 e 90% em 2030.
O sonho de uma energia eterna e infinita inspirou gerações de burocratas japonseses. Próximo ao reator de plutônio de Monju, o parque temático Tsuruga, dedicado ao nuclear (“Aquatom Nuclear Theme Park-Science Museum”) acolhe os visitantes com estas palavres: “O Japão é pobre em recursos naturais. É por isso que Monju, um reator de plutônio, é neceessário. Porque o plutônio pode ser utilizado durante milhares de anos”.
Bilhões e bilhões de ienes foram investidos nos programas de pesquisa e desenvolvimento, enquanto orçamentos adicionais formidáveis foram consagrados à construção de gigantescos complexos industriais. Se são confiáveis as cifras fornecidas pela muito oficial Federação das Companhias de Eletricidade, a central de Rokkasho, no norte da província de Honshu, teria custado, ao final de seus quarenta anos de vida, a soma de 19 trilhões de ienes (360 bilhões de reais) – o que a transformaria na instalação nuclear civil mais cara do Japão, e talvez do mundo.
O país domina o ciclo completo da combustão nuclear. Constroi usinas de tratamento de dejetos, queima uma mistura de plutônio (como ocorre, desde o dim de 2010, no reator 3 da central de Fukushima, Dai-ich) e estoca grandes volumes de dejetos de baixa atividade. Engaja-se no desenvolvimento da supergeração, uma tecnologia tão difícil de controlar e tão cara que todos os outros países a deixaram temporariamente de lado, considerando-a como um sonho cuja hora não chegou. Da preparação do combustível à construção e operação dos reatores; da extração de dejetos a seu retratamento e estocagem, cada etapa do ciclo representava um problema – mesmo antes que o tsunami inundasse a central de Fukushima.

Uma memória dos desastres

Até 11 de março de 2011, o Japão contava com 54 reatores em atividade. A opção por estocar dejetos muito tóxicos, de atividade futura muito longa, em piscinas localizadas ao lado dos reatores, revelou-se um erro fatal. Segundo Robert Alvarez, as piscinas de descontaminação emitem uma radiotividade de cinco a dez vezes maior que a do núcleo do reator. “Cada uma delas”, afirma ele, contém uma concentração de césio 137 superior à liberada pelo conjunto dos testes nucleares realizados no hemisfério Norte”. E continua: “As emissões de césio 137 que poderiam se seguir a um incêndio tornariam inabitável uma região mais vasta que a de Tchernobyl”. Deslocamento ocorrido sob o impacto do terremoto ou vazamentos causados pelo desabamento da estrutura? O que quer que seja, os bastões de combustíveis de diversas usinas foram parcialmente expostos e houve incêndios, cujas consequências ainda é preciso avaliar. O trabalho de resfriamento só foi feito após imensos esforços, e com resultados limitados, utilizando a água do mar despejada em meio ao incêndio, a partir de helicópteros e mais tarde, finalmente, após o religamento, in extremis, das bombas.
Assim que a crise for superada, as usinas precisarão ser descontaminadas e desmanteladas. É um trabalho que se anuncia, desde já, difícil e caro. O processo poderá se estender por vários anos, ao menos uma década. Ao mesmo tempo, será preciso encontrar uma forma de compensar a perda em geração elétrica. As centrais serão recobertas por um sarcófago de cimento, como em Chernobyl? Em qualquer caso, parece claro que elas se converterão num memorial dos erros devastadores cometidos pelo Japão nuclear do pós-guerra.
Antes de Fukushima, outres complexos, entre os mais conhecidos, já haviam suscitado inquietudes. Em julho de 2007, a central nuclear de Kashiwazaki (em Niigata), a maior do mundo, cujos reatores geram 8 mil megawatts (Mw), havia resistido a um terremoto de magnitude 6,8, embora não tivesse sido concebida para enfrentar um abalo de tal força. O incidente revelou que as estruturas foram edificadas sobre uma falha nunca antes detectadas. O pior foi evitado, mas maus funcionamentos foram constatados: conduítes aparentes, incêndios e despejo de partículas radioativas no mar e na atmosfera. A usina Hamaoka, de Shizuoka,190 quilômetros a sudoeste de Tókio, tem cinco reatores. Também foi construída em zona sísmica (a junção das placas eurasiana, pacífico-filipina e norte-americana), que, segundo os sismólogos, poderia tremer num futuro próximo. A todas estas inquietações, o operador da usina responde que a usina pode resistir a um terremoto de 8,5 – a maior magnitude já resgistrada na região. O tremor de intensidade 9 que abalou Fukushima tornou, em poucos minutos, as instalações caducas. Se um evento semelhante se produziesse em Hamaoka, seria preciso evacuar 30 milhões de pessoas.
Nos dias de hoje, outro projeto desperta controvérsias. Dois reatores deveriam ter sido instalados em Kaminoseki, uma pequena comuna de 3.700 habitantes, situada ao sul do Parque Natural do Mar Interior, a 80 quilômetros de Hiroshima. O começo da operação está previsto para 2018, para um, e 2022, para o segundo. Depois de trinta anos de debates e adiamentos, devidos à forte oposição da população local – especialmente a pequena comunidade de pescadores da ilha de Iwaishima, situada a quatro quilômentros da futura central – a aplainagem do terreno e o aterramento de áreas marítimas começaram em 2010. Desde então, incidentes envolvendo barcos de pesca ou dos moradores, canoas e caiaques multiplicaram-se. À luz dos eventos recentes, parece dícil imaginar que o governo seja capaz de intervir para calar os que protestam. Ao contrário: o prefeito da região manifestou-se há pouco, para pedir a paralisação dos trabalhos.

Agência Internacional de Energia pede moratória — e é ignorada

Os reatores nucleares geram grandes quantidades de dejetos que devem ser estocados e reprocessados. Desde 1992, os dejetos de alto teor de reatividade são reprocessados em usinas como a de Sellafield, na Inglaterra, e La Hague, na Normandia. Cada carregamento encaminhado a estes destinos contém uma concentração de plutôpnio equivalente a dezessete bombas atômicas. Mohammad El-Baradei, antigo diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), considerava o reprocessamento um processo muito perigoso, que deveria ser efetuado sob rígidas regras internacionais. Ele pediu ao Japão uma moratória de cinco anos no enriquecimento e reprocessamento. Uma recomendação que o Japão ignorou, alegando que a medida deveria se aplicar a novos projetos, e não às centrais que já operavam há décadas
A central de Rokkasho, a norte de Fukushima, no departamento de Aoumori, reúne no mesmo espaço produção de energia, reprocessamento, enriquecimento e estocagem de dejetos. Isso faz dela a maior central nuclear civil do mundo. Sua unidade de reprocessamento pode converter 800 toneladas de dejetos por ano. A isso, acrescentam-se, todos os anos, oito toneladas de plutônio puro, utilizável para fins militares (o equivalente a mil ogivas de mísseis nucleares). Após diversos contratempos, o reprocessamento começou em 2006, em caráter experimental, sem atingir, até o momento, o regime de pleno funcionamento comercial. Uma outra unidade de reprocessamento, a de Tokaimura, está paralisada desde 1999, após um acidente ocorrido no supergerador, que causou a irradiação de centenas de pessoas e matou dois operários. Desde então, os dejetos se acumulam. A maior parte é estocada, como em Fukushima, ao lado do reator de que é extraída.
No caso de Rokkasho, mesmo que o reprocessamento serja retomado em breve, ele só poderá beneficiar uma ínfima parte dos resíduos que se acumulam por anos. O estoque foi estimado em 12,6 mil toneladas, em 2006. A questão dos dejetos japoneses, incluído o plutônio (um quinto dos estoques mundiais de uso civil), continuará a exigir providências.
Os dejetos de baixa atividade são conservados em recipientes de 200 litros. Em alguns casos, estão armazenados no mesmo local dos reatores; em outros, são encaminhados ao depósito subterrâneo de Rokkasho, projetado para receber três milhões de recipientes. As quarenta cavidades, com capacidade de 10 mil recipientes cada uma, serão mais tarde recobertas de terra e vigiadas por 300 anos. As montanhas artificiais formadas serão como imensos cogumelos venenosos, num reduto tranquilo da região de Aomori.
Os dejetos de alta atividade são vitrificados e depositados em recipientes antes de retornarem a Rokkasho, onde são estocados por 30 a 50 anos, até que sua temperatura baixe lentamente, de 500 a 200 graus. Apenas ao atingir esta condição, poderão ser sepultados – a mais de 300 metros de profundidade. Suas radiações só se dissiparão após alguns milênios.
O combustível misto de óxido de urânio e plutônio (MOX), utilizado no rator 3 da central de Fukushima, constitui uma maneira de reutilizar o plutônio sem convertê-lo em dejeto – integrando-o ativamente, ao contrário, num ciclo energético eterno. Os supergeradores oferecem também uma solução ao problema do acúmulo de plutônio. Permitem “gerar” um plutônio puro de altíssima qualidade. Ou seja, o processo produzir uma quantidade deste mineral maior que a inicial. Os riscos e custos ligados a esta tecnologia são tão relevantes que o Japão é hoje o único país a seguir em tal caminho tecnológicos, apesar dos pobres resultados alcançados. O protótipo de supergerador de Monju, implantado em Tsuruga, no departamento de Fukui (costa ocidental) precisou ser fechado em 1995, em sequência a uma tentativa de camuflar incêndio por negligência, ocorrido após fugas de sódio. Em 2003, o julgamento, pela Corte Suprema, de um processo originado na sequência autorizou a reabertura das instalações, mas dificuldades técnicas impediram a retomada da operação. Segundo as previsões atuais, o supergerador poder operar em 2050 – ou seja, com 70 anos de atraso, em relação à meta oficial. Elas sugeriam que Monju fosse substituído por uma nova central, por volta de 2030. Tudo isso, com um custo de um trilhão de ienes (R$ 19 bilhões).

Erros humanos e práticas fraudulentas

O Japão é hoje vítima de erros de avaliação desastrosos e práticas fraudulentas, que se entrelaçam ao longo de meio século. Incluem falsificação de documentos, fabricação de relatórios, mistificação dos inspetores de segurança nuclear, minimização dos riscos e falta total de transparência na apuração de incidentes e paralisações. Nenhuma abuso foi evitado, no esforço para alcançar a meta estabelecida. Ao perceber seu país, um dos mais avançados científica e tecnologicamente, reduzido à tentativa de interromper um processo de fusão nuclear por meio de métodos tão grosserios como o uso de mangueiras d’água, a sociedade japonesa (e o resto do mundo) se questiona. Que nação – entre elas os Estados Unidos, que se lançam a um “renascimento nuclear” – seria capaz de reagir melhor, em tais circunstâncias?

Apesar da catástrofe que continua a ameaçar, abandonar a energia nuclear não seria tarefa para amanhã. A classe dirigente continuará a perseguir seus sonhos de liderança mundial. Continuará, portanto, a vislumbrar no nuclear uma energia limpa e ilimitada, capaz de rsolver o problema do aquecimento climático. Desejará manter uma força nuclear de dissuasão (braço armado dos Estados Unidos no Pacífico). Para boa parte da população, os objetivos são outros. Cada vez mais vozes se erguem em favor de um processo realmente democrático de decisão envolvendo as fontes de energia. Sugerem o fim do programa nuclear militar e o planejamento de uma alternativa ao nuclear civil. As aspirações incluem o desenvolvimento de energias renováveis, o fim das emissões de gases do efeito-estuva, a reciclagem dos materiais existentes.
Na queda de braços que opõe uma burocracia firmemente aferrada a um Japão nuclear e uma sociedade civil impaciente pela emergência de um novo padrão social, econômico e ecológico, haverá um antes e um depois do 11 de Março.

Gavan McCormack é professor emérito na Universidade da Austrália e autor de diversos livros, entres os quais Client State: Japan in the American embrace [“Estado-Cliente: o Japão na órbita dos Estados Unidos], Verso, Nova York, 2007

http://www.outraspalavras.net/2011/04/13/assim-se-armou-o-japao-nuclear/


Via blog do Luís Nassif