sexta-feira, 29 de março de 2024

Sionismo e Israel são projetos coloniais, diz autor considerado herdeiro intelectual de Edward Said


O palestino Yusuf al-Khalidi escreveu em 1899 uma carta para Theodor Herzl, considerado o pai do sionismo moderno. Yusuf se opunha à criação de um Estado judeu na Palestina. Dizia: é habitada por outras pessoas.

Seu sobrinho-trineto faz hoje um alerta semelhante. Em seu livro "Palestina", Rashid Khalidi afirma que o sionismo e Israel são projetos coloniais que culminaram na alienação da população nativa palestina.

Khalidi, 75, é um dos principais intelectuais palestinos desta geração. É de certo modo um herdeiro de Edward Said, autor do estudo clássico "Orientalismo", publicado pela primeira vez em 1978. Assim como ele, leciona na Universidade Columbia, em Nova York.

O livro "Palestina" saiu em 2020 nos Estados Unidos, mas só chega agora ao Brasil, pela editora Todavia. Uma de suas teses centrais é a de que os palestinos são alvos de uma guerra há mais de cem anos. Isto é, desde antes de suas terras darem lugar a Israel, em 1948 —ou da campanha militar lançada na Faixa de Gaza pelo Exército de Tel Aviv em 7 de outubro passado.

A ofensiva, motivada por um ataque do grupo terrorista Hamas ao sul israelense que deixou cerca de 1.200 mortos, já tirou a vida de mais de 32 mil palestinos segundo as contas de autoridades de saúde de Gaza, ligadas à facção. Entidades internacionais ainda acusam Tel Aviv de usar a fome como uma tática de batalha.

"O sionismo é e sempre foi colonial e usou estratégias coloniais, incluindo a compra e a confiscação de terras e a eliminação da população original", diz Khalidi à Folha. Ele também é enfático na sua crítica ao apoio americano a Israel. "Sem os EUA, nada disso estaria acontecendo."

O senhor publicou seu livro em 2020 falando em uma guerra de cem anos contra a Palestina. Há agora uma nova guerra acontecendo.
A tese central do livro se mantém. Temos que enxergar o que está acontecendo em Gaza dentro do contexto de uma guerra mais ampla, que é uma guerra para substituir uma população por outra, apagar a identidade de uma população nativa e tomar o máximo possível de terra.

O livro sugere que o sionismo foi desde o início um projeto colonial.
O sionismo sempre disse que é um projeto nacional, o que não é inteiramente falso. É um projeto nacional de judeus do Leste Europeu. Foi uma resposta à perseguição de judeus de lá, que levou à conclusão de que apenas uma entidade nacional poderia proteger os judeus. Nada disso é falso. Mas o sionismo é e sempre foi colonial e usou estratégias coloniais, incluindo a compra e a confiscação de terras e a eliminação da população original. São os métodos clássicos. Foi o que aconteceu na América portuguesa e espanhola, nas colônias britânicas e francesas. Não há diferença nos métodos. Isso sem contar o fato de que os líderes sionistas diziam isso de um modo explícito. Não tinham dúvida de que eram europeus tomando um país de sua população nativa.

É controverso dizer que o sionismo é um projeto colonial. Por quê?
Devido a uma das campanhas de propaganda mais brilhantes da história que convenceu o mundo, em especial depois do Holocausto, de que a Europa tinha a obrigação de ajudar a criar esse refúgio para os judeus. Há também o argumento bíblico. Protestantes, como nos EUA, creem que há um mandamento divino para os judeus retornarem à terra.

É também controverso dizer que o sionismo é um projeto nacional?
É difícil para muitos aceitar que, com o tempo, uma identidade nacional se desenvolveu entre a população de colonos. É difícil para os palestinos dizerem: os israelenses são um povo e têm direitos, em especial porque esses direitos são exercidos em detrimento dos direitos dos palestinos.

Como essa situação —um projeto colonial e nacional— se resolve?
Há três possibilidades. A primeira é a eliminação da população nativa ou sua redução a um ponto em que podem ser desconsiderados politicamente, como na América do Norte, na Austrália e na Nova Zelândia.
A outra possibilidade é a expulsão dos colonos, que aconteceu na Líbia e na Argélia. A terceira é que os colonos sejam aceitos como nativos ou vivam lado a lado com os nativos. É o que vemos na África do Sul —os colonos perderam sua hegemonia, mas permaneceram. Só que estamos longe disso. Ficamos ainda mais longe com o 7 de Outubro.

O seu livro começa em 1917. Por que o senhor escolheu essa data?
É a data da Declaração Balfour [em que o governo britânico apoiou a criação de um lar judaico na Palestina]. Foi quando tudo isso tomou forma. É a data da intrusão dos britânicos. Sem apoio internacional, Israel não teria sido criado. Até então, sionistas buscavam um patrono. Esse apoio mudou com o tempo. Desde os anos 1960, tem sido os EUA.

Qual papel os EUA têm no que acontece hoje em Gaza?
Os EUA são indispensáveis para o genocídio, para o uso da fome como arma, para a morte de milhares de crianças. Sem eles, nada disso estaria acontecendo. Esse apoio vai mudar agora? Não sei. Mas há uma mudança em curso na opinião pública. Israel nunca terá o apoio global que teve. Isso por conta das redes sociais e da mídia alternativa, em especial entre os mais jovens. O que não significa que a política vai mudar, porque aqueles que tomam decisões não mudaram.

Essa mudança tinha começado antes da guerra, o senhor não acha?
Sim. Tem a ver com a ascensão das redes sociais e o total desprezo pela imprensa tradicional. Há também uma nova geração de ativistas entre os palestinos e árabes. Há, ainda, uma sensação entre muitas pessoas de que a luta palestina é semelhante à deles. Afro-americanos e nativos americanos se dão conta de que é parecido com o que seus avôs viveram: histórias de deslocamento, imigração forçada, discriminação. Reconhecemos uma opressão quando nos deparamos com ela, dizem.

Que papel o Brasil pode ter nesse contexto? Declarações como a do presidente Lula, que falou em genocídio, podem ter algum impacto?
É claro que sim. É necessário um esforço imenso [para alterar a situação]. Quanto mais países mudarem sua posição, haverá mais pressão em Israel e nos EUA. Pode não parecer muito, mas cada país que chama um genocídio de "genocídio" coloca mais pressão.


RAIO-X | RASHID KHALIDI, 75

Nascido em Nova York numa família palestina, cursou seu doutorado na Universidade Oxford. Historiador, leciona na Universidade Columbia. É autor de importantes estudos sobre Palestina.


Reportagem e entrevista a cargo de Diogo Bercito na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 15 de março de 2024

Quem censura livro anda de quatro


"Toda censura é burra" é uma máxima de origem incerta que pertence ao patrimônio de sabedoria coletiva da espécie. É incontestável. Toda censura é de uma estupidez zurradora e babona, e essa notícia não podia ser mais velha.

Segundo o pesquisador Eric Berkowitz, autor de "Dangerous Ideas" (Ideias perigosas), uma história da censura, a primeira queima registrada de escritos ocorreu em 430 a.C. com a obra do filósofo grego Protágoras, que punha em dúvida a existência dos deuses.

Por que, então, a censura ainda é capaz de ser notícia no século 21, como se comprova na atual perseguição aos romances "O Avesso da Pele" (Companhia das Letras), de Jeferson Tenório, e "Outono de Carne Estranha" (Record), de Airton Souza?

A resposta é óbvia: porque a burrice é uma constante na história humana em geral e na brasileira em particular. Não só os comedores de alfafa não saem de moda como, em certos momentos e lugares, experimentam picos de poder e popularidade.

Para quem andou distraído: o livro de Tenório, uma delicada história sobre racismo, e o de Souza, que trata com sensibilidade da relação homossexual entre dois garimpeiros de Serra Pelada, têm sofrido sanções diversas.

Ambos são êxitos literários reconhecidos pela parte do Brasil que não anda de quatro. "O Avesso...", realização de um autor jovem mas maduro, levou um Jabuti e virou best-seller. "Outono...", obra de estreia, conquistou o (até então) prestigioso prêmio Sesc de romance.

Nada disso impediu o livro de Tenório de, depois de "denunciado" por uma diretora de escola do interior gaúcho, ser recolhido da rede pública de ensino por determinação de três secretarias estaduais de Educação –no Paraná, em Goiás e no Mato Grosso do Sul.

A alegação ­–grotesca– é que os alunos do ensino médio se chocariam com alguns palavrões esparsos. Do ensino médio, pois é. Fica evidente o oportunismo político, jogo de cena para eleitores de extrema direita.

O caso do livro de Souza é mais curioso, pois envolve um tiro de escopeta desferido no próprio pé por quem deveria promovê-lo. Chocada com a leitura pública feita pelo autor na última Flip, a direção do Sesc decidiu jogar no lixo a reputação conquistada por um prêmio que era, disparado, o mais importante do país para obras inéditas.

Cancelou a agenda de divulgação dos vencedores do ano passado –o que inclui o belo volume de contos "O Ninho", de Bethânia Pires Amaro, que nada tinha a ver com a história– e demitiu o curador do prêmio, o escritor Henrique Rodrigues, fiador de seu sucesso ao longo de duas décadas.

Ao fazer isso, põe em risco a parceria com a editora Record, que manifestou "extremo incômodo" com o ocorrido. E levanta a suspeita de que terá filtros político-ideológicos para os premiados de agora em diante –o que, como jurado de contos em 2023, posso atestar que não havia. Em resumo, o prêmio Sesc teve um surto de pânico homossexual, pulou no abismo e, se já não morreu, está em coma.

É burrice ou não é? Burrice máxima, e em série. Enquanto isso, os livros que os censores tentam proibir vendem cada vez mais, despertam cada vez mais interesse –toda censura acaba por boicotar a si mesma.

E ainda fomenta a burrice de quem, diante desse involuntário estímulo comercial, acha que ela pode ser relativizada como benéfica, sem entender que o mal feito à liberdade é um mal absoluto, um crime absoluto, a ser repudiado de forma absoluta.


Texto de Sergio Rodrigues na Folha de São Paulo

sábado, 9 de março de 2024

O nome disso não é genocídio, ok?


É preciso ter cuidado com as palavras, usá-las com a maior precisão possível. Outro dia, no bairro carioca da Gávea, presenciei uma cena comovente. Um menino magro e maltrapilho de cinco ou seis anos interpelou uma senhora bem-vestida que saía do supermercado cheia de sacolas e disse: "Me paga um lanche, tia? Dois dias que eu não como".

Não ganhou dinheiro para comer, mas algo até mais valioso, uma lição que o acompanhará pelo resto da vida –medida de tempo talvez curta, paciência. "Me paga, não! Não se começa frase com pronome oblíquo átono", respondeu a mulher, antes de seguir seu caminho reto e tônico.

Outro exemplo de uso desleixado da linguagem que a mulher poderia apontar: chamar de genocídio o que ocorre em Gaza. Parece que isso contraria, além de muitas sensibilidades e a orientação da Casa Branca, também a definição jurídica da palavra. Mas há alternativas.

Pode-se rotular o massacre metódico de civis palestinos promovido por Israel de "banho de sangue", por exemplo. É difícil fazer ressalvas a uma expressão tão precisa para nomear o extermínio de mulheres, bebês, crianças, adolescentes e velhos em suas casas, hospitais e campos de refugiados, acompanhado do veto a toda tentativa de ajuda humanitária.

Uma vantagem de "banho de sangue" é que, não havendo sinal de sangue quando se asfixiam seres humanos em câmaras de gás, eventuais paralelos com o Holocausto ficam descartados de saída, impedindo o falante de incorrer no crime retórico que fez o presidente brasileiro ser declarado "persona non grata" pelo moralmente inatacável governo israelense.

É verdade que a expressão "banho de sangue" pode ecoar, na mente de quem a ouve ou lê, outros massacres de populações indefesas, como os que vitimaram os armênios na Primeira Guerra Mundial e os tútsis de Ruanda nos anos 1990. Em ambas as ocasiões correu sangue à beça, como em Gaza. O problema é que desse modo a indesejada —e teimosa— palavra "genocídio" voltaria à boca de cena. Pensando bem, melhor buscar outra solução.

Quem sabe a velha carnificina dê conta do recado? Ou chacina, hecatombe, açougue? Faxina étnica é melhor evitar, por mais que substantivo e adjetivo pareçam encaixáveis entre si e com a realidade, mas o vocabulário da desumanidade e da matança voluptuosa está longe de ser limitado.

Razia, carnagem, morticínio ­­– são muitas as opções lexicais à disposição do falante que tem achado difícil tocar sua vida normal enquanto vê na tela do celular, quase em tempo real, vidas inocentes serem trucidadas aos magotes, dia após dia, diante de uma humanidade apática ou impotente.

Algum desconforto é natural: nunca tínhamos passado exatamente por isso depois que nos interconectamos. E é claro que pessoas decentes não querem ser acusadas de antissemitismo – palavra que, esta sim, tem sido usada com imprecisão obscena em cobranças de rendição moral incondicional, como se criticar o governo de Israel equivalesse a defender o indefensável terrorismo do Hamas.

É só que não acham correto, essas pessoas apegadas a velhos valores humanistas, que o povo palestino seja tratado como uma colônia de cupins por um governo supremacista de extrema-direita enquanto assistimos a tudo calados, reféns de Biden, Netanyahu e outros filhos de uma égua, ou medindo vocábulos feito tartamudos diante da madame da Gávea que nos aponta seu dedo de esmalte vencido e nos ensina o modo aceitável de usar as palavras.


Reprodução de texto de Sergio Rodrigues na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Lula está certo sobre Gaza e não é antissemita


Desde que Lula evocou o Holocausto para denunciar a destruição de Gaza por Israel, a grande mídia brasileira se uniu, com raras exceções, para condená-lo. Na segunda-feira (19) à noite, o jornalista William Waack afirmou na CNN Brasil que a declaração de Lula "ofende judeus no mundo inteiro".

Deixando de lado a incongruência que é ver William Waack se colocar como vigilante da intolerância e fiscal do que se pode dizer no discurso público, a pergunta que faço é: com base no que ele se coloca como porta-voz dos "judeus no mundo inteiro"?

É verdade que a declaração de Lula enfureceu o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que declarou Lula "persona non grata" em Israel. Mas equiparar o governo de Israel a "judeus no mundo inteiro" não é só falso, é também antissemitismo.

Como todos os grupos, os judeus não são um monolito. Qualquer pessoa que, como eu, tenha crescido numa família judaica e imersa nessas tradições sabe que o grupo passa longe de ser homogêneo. Há dentre os judeus discussões e divergências sobre os mais diversos assuntos, inclusive o Estado de Israel, o tratamento desumano dispensado aos palestinos e a abjeta imoralidade da destruição de Gaza.

Um mês antes do ataque do Hamas de 7 de outubro, o ex-chefe do Mossad, agência de inteligência israelense, Tamir Pardo —indicado por Netanyahu— afirmou que Israel impõe "uma forma de apartheid aos palestinos". Muitos líderes Israelenses, incluindo o ex-primeiro Ministro Ehud Barak, já disseram o mesmo.

O jornalista judeu brasileiro Breno Altman vem repetidamente comparando as ações de Israel em Gaza ao nazismo, ao ponto de estar sendo investigado pela Polícia Federal por expressar sua visão. Um grupo de judeus brasileiros, conforme relatado pela Folha, emitiu uma nota para defender as declarações de Lula.

Nesta semana, a escritora judia russa Masha Gessen recebeu o Polk Award, o segundo prêmio mais importante no jornalismo dos EUA, por seu brilhante ensaio na revista New Yorker intitulado "Na Sombra do Holocausto". No texto, Gessen aponta como o Holocausto é frequentemente evocado para silenciar as críticas aos crimes de guerra de Israel.

Gessen cita a filósofa Hannah Arendt, judia que em 1948 comparou grupos sionistas extremistas ao Partido Nazista, tanto em sua mentalidade quando em suas táticas —isso tudo menos de três anos depois do fim da Segunda Guerra.

No mesmo ano, o físico judeu Albert Einstein e outros importantes intelectuais judeus publicaram uma carta comparando os métodos de atuação de Menachem Begin, o terrorista sionista que se tornaria depois primeiro-ministro de Israel, aos dos nazistas.

Em seu artigo, Gessen documenta como os intelectuais judeus mais importantes do pós-guerra insistiam que as lições do Holocausto deveriam ser aplicadas universalmente, e que nenhum país ou grupo, sionistas inclusive, deveria se furtar de absorver esse aprendizado.

Gessen então descreve como, visitando os museus do Holocausto pelo mundo, se lembrava do sofrimento da população de Gaza nas mãos de Israel.

Sabendo então dessa enorme pluralidade no seio da comunidade judaica, como explicar a pretensão de uma pessoa como William Waack, que, como a grande maioria da mídia brasileira, se sente no direito falar em nome dos judeus e de impor limites às discussões sobre o Holocausto? E os judeus que rejeitam os ditames dos Netanyahu do mundo, quem falará por nós?

Equiparar as ações do governo de Israel à totalidade dos judeus do mundo é ofensivo. Todas as pesquisas mostram que o público israelense se voltou fortemente contra Netanyahu e espera ansiosamente para depô-lo. Há protestos contra ele, liderados por judeus israelenses, todos as semanas. São judeus muitos dos líderes mais vocais em suas denúncias de que a guerra em Gaza é um genocídio.

Mas há ainda um tema muito mais importante trazido à tona pela controvérsia: a quem pertence a memória do nazismo e da Segunda Guerra? Existe alguém com legitimidade para ditar como o Holocausto pode ser discutido, por quem, e com que agenda política? Existem países específicos cujas ações estão imunes, por algum motivo, às comparações com os piores abusos da Segunda Guerra? Se sim, essa imunidade se baseia em quê?

Quando a Segunda Guerra terminou e a real dimensão do Holocausto foi revelada, os países aliados, uma vez vencedores, decidiram não executar imediatamente os líderes nazistas. Em vez disso, foi realizado um processo jurídico transparente, conhecido como o julgamento de Nuremberg.

O objetivo era publicizar e legitimar o veredito —e, mais que isso, mostrar ao mundo as evidências das atrocidades cometidas pelos nazistas para, acima de tudo, estabelecer os princípios pelos quais os países deveriam se guiar no futuro.

O procurador-chefe dos EUA no julgamento, Robert Jackson, enfatizou em suas colocações iniciais que a maldade nazista se repetiria no futuro. "Esses prisioneiros nazistas representam uma influência sinistra que continuará no mundo mesmo depois que seus corpos retornarem ao pó."

Referindo-se às sentenças contra criminosos nazistas específicos, Jackson disse: "Se esse julgamento for ter alguma utilidade no futuro, deverá servir para condenar também a agressão de outras nações, inclusive as que aqui estão na posição de julgadoras".

Os horrores do Holocausto não foram uma lição sobre a maldade dos alemães ou a vulnerabilidade dos judeus. Foram uma lição sobre a natureza humana e a nossa capacidade para o mal, e como sociedades sofisticadas e educadas podem sucumbir a impulsos genocidas. Por isso, as sentenças proferidas em Nuremberg não podem dar a qualquer país, incluindo Israel, uma justificativa para suas próprias ações. Pelo contrário: os crimes do Holocausto não podem ser repetidos por nenhum país, nunca mais.

Os horrores da destruição de Gaza por Israel já estão visíveis para todos que quiserem ver. O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, prometeu no início da guerra: "Estamos impondo um cerco total a Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem combustível. Tudo bloqueado". O motivo: "Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade".

Hoje podemos ver que essa promessa, bem como a ideia de que os palestinos são sub-humanos, não era blefe. Segundo relatório da ONU, de todas as pessoas do mundo que enfrentam a fome extrema, 80% estão em Gaza. Trata-de se uma crise humanitária sem paralelo, diz o texto. Há inúmeros casos, incontroversos e amplamente documentados, de crianças à beira da morte por fome.

Ao menos 29 mil pessoas foram mortas em Gaza desde que Israel começou a retaliação aos ataques do Hamas de 7 de outubro: 70% são mulheres e crianças. A destruição da vida civil em Gaza é pior do que qualquer guerra que o mundo tenha visto no século 21.

Mais bombas foram lançadas por Israel em Gaza, um território pequeno e densamente povoado, na primeira semana do conflito armado (cerca de 6.000) do que foram jogadas anualmente pelos EUA no Afeganistão, de 2013 a 2018 (nesse período, nenhum ano registrou mais de 4.400 bombas), segundo dados da Força Aérea israelense e da Central das Forças Aéreas dos EUA.

Ninguém, nem mesmo Lula, está sugerindo que a escala das mortes em Gaza seja comparável ao Holocausto. O que muitas pessoas estão dizendo —inclusive alguns dos intelectuais judeus mais proeminentes do mundo, como Masha Gessen— é que os mesmos princípios de desprezo pela vida e desumanização coletiva que culminaram no Holocausto estão também por trás da destruição de Gaza.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Hipócritas gentis infantilizam minorias porque elas são um bom negócio


Guerras culturais são sempre um bom negócio. Amadores discordam. São questões de vida ou morte, dizem eles, defendendo ou atacando pronomes neutros.

Os profissionais riem. Um deles, meu colega, explicou-me anos atrás que deixara temas clássicos —Espinosa e Leibniz— para se dedicar a temas de "interseccionalidade". No ranking das publicações, subiu ao pódio. Caso contrário, ainda estaria comendo pó.

É o mercado, estúpido! E o que é válido para a academia é válido para qualquer ramo de atividade. Se você pensa que a multinacional "X" ou "Y" tem convicções profundas quando abraça os temas "woke", você precisa fazer um exame neurológico. Sério.

É por isso que "American Fiction", o filme indicado ao Oscar, vem na altura certa. Suspeito que várias cabeças vão explodir quando assistirem à obra. Muitas explodiram quando leram o livro.

Mas, antes, uma confissão: sempre que alguém filma um romance de que gosto muito, eu tremo um bocadinho. Raramente me engano. Basta pensar no vandalismo a que foram submetidos todos os livros de Philip Roth pelo cinema.

Felizmente, isso não acontece com "American Fiction". O livro que inspirou o filme —"Erasure", de Percival Everett— está no top dez dos melhores romances americanos do século 21. O filme, pelo menos, não estraga. Para mim, basta.

No centro da história —atenção, spoilers— está Thelonious Ellison, que todos tratam por Monk, em homenagem ao grande pianista de jazz. Thelonious é um professor universitário e escritor. Também é negro, mas isso é secundário, pensa ele.

Pensa mal. Nas livrarias, os seus livros estão sempre na seção de estudos afro-americanos. Furioso, ele faz questão de os remover dessas estantes para os devolver, sem rótulos, à de ficção americana. Chega de segregação.

Além disso, o seu agente não consegue vender para nenhuma editora o mais recente romance de Ellison. Demasiado erudito. Escrito em inglês perfeito. Quem ele julga que é?

Um escritor branco?

As editoras, devidamente chefiadas por brancos, não admitem que um negro escreva livros sem os clichês do gueto. Querem linguagem chula, querem crack, querem rappers. Querem pobreza, querem polícia, querem mortes. Como diz o agente porto-riquenho, "querem se sentir absolvidos".

Ellison despreza esse fascínio mórbido dos brancos. É uma nova forma de exploração que persiste em reduzir os negros a uma caricatura tão insultuosa como as caricaturas dos tempos das leis de Jim Crow.

"Eu nem acredito em raça", diz ele. "O problema é que todos acreditam", responde o agente.

Thelonious medita nessas últimas palavras. E, só por piada, escreve o tipo de livro que faz sucesso entre os "racistas do bem". Sob pseudônimo, claro, porque o homem tem uma reputação a preservar.

Bingo! Uma grande editora faz uma proposta milionária para comprar os direitos. A piada virou coisa séria. O que fazer?

O agente, numa das melhores sequências do filme, põe três garrafas de uísque Johnnie Walker sobre a mesa. E explica: existe Johnnie Walker Red, Johnnie Walker Black e Johnnie Walker Blue.

Ele, Thelonious, será sempre um Johnnie Walker Blue, o melhor, o mais caro.

Mas as massas, para matarem a sede, compram Johnnie Walker Red, mais barato. Que mal tem ser um Johnnie Walker Red de vez em quando?

O livro é publicado com o belíssimo título de "Fuck". Bestseller imediato. Hollywood vem a seguir.

"American Fiction", tal como o romance de Percival Everett, é uma sátira primorosa ao paternalismo dos brancos. Conheço casos: hipócritas gentis que infantilizam as minorias porque são um bom negócio.

Que as supostas minorias tenham vidas normais, com alegrias normais, angústias normais ou amores normais, eis um pormenor demasiado burguês para quem prefere ver o mundo transformado em jardim zoológico. Cada um na sua jaula. Que pensarão as minorias disso?

Não posso falar por elas. Mas posso falar por Thelonious "Monk" Ellison, que supera a sua justa indignação e decide lucrar com a estupidez dos brancos. O cliente tem sempre razão, no fim das contas.

E, mesmo quando não tem, é ele quem paga as contas.


Texto de João Pereira Coutinho na Folha de São Paulo

EUA são hipócritas ao atacar Rússia por violação de direitos humanos

 

Os seres humanos são tribais. O tribalismo moldou nossa evolução e, por isso, poucas coisas nos trazem mais prazer do que nos unirmos em torno de traços comuns —a nação, os partidos, a ideologia. Um de nossos prazeres é apontar os erros de tribos inimigas.

Esse tribalismo ficou em evidência nos Estados Unidos na última sexta-feira (16). A morte do opositor russo Alexei Navalni em uma prisão na Sibéria foi condenada por líderes norte-americanos de ambos os partidos: dos liberais Joe Biden, Hillary Clinton e Bernie Sanders à presidenciável republicana Nikki Haley e muitos senadores de direita.

A mensagem era clara: os EUA podem não ser perfeitos, mas pelo menos não perseguem e matam seus dissidentes como faz a Rússia. Essa é uma ilusão sedutora, que permite aos EUA se sentirem superiores.

A reação não foi de todo despropositada. Quando uma pessoa saudável é presa, fica doente na prisão e morre, é razoável imputar a culpa ao governo responsável pela prisão. Faria bem, aliás, que as autoridades brasileiras adotassem essa régua.

É, porém, difícil crer que as elites norte-americanas creiam nesses princípios elevados. Os EUA não só têm aprovado o assassinato de seus cidadãos por seus aliados estrangeiros como vêm fazendo de tudo para calar seus críticos mais ferozes.

Em maio de 2023, Gonzalo Lira, um cidadão chileno-americano, foi preso pela segunda vez por autoridades ucranianas. Lira morava na Ucrânia desde 2016, tendo-se casado com uma mulher ucraniana. O crime de Lira? Suas críticas ao presidente ucraniano Volodimir Zelenski e sua insistência em dizer que a Ucrânia e seu maior apoiador, os EUA, mentem sobre a guerra.

Ele foi preso acusado do crime de "disseminar desinformação pró-Rússia". Semanas antes de sua prisão, Lira publicou um vídeo implorando pela ajuda de seu governo, alertando que seria mandado para a prisão e que poderia ser morto pelos ucranianos.

No início do mês passado, o consulado dos EUA em Kiev informou que Lira, até então saudável, havia morrido em 11 de janeiro, de pneumonia, na prisão.

O pai de Lira, um economista chileno, me disse em entrevista na semana passada que os funcionários consulares se recusaram a ajudar seu filho e a dar qualquer informação sobre sua morte, tendo tampouco cobrado o estado ucraniano pela liberdade e vida de seu filho.

As semelhanças entre os casos de Navalni e Lira são gritantes. Ambos eram críticos dos governos que os prenderam e os deixaram morrer na prisão. No entanto, nenhum dos políticos americanos que agora condenam ruidosamente a Rússia mencionaram a morte de seu concidadão por seu aliado Zelenski.

Há também os inúmeros casos de cidadãos dos EUA mortos por Israel: um país financiado e armado, mas raramente criticado, pelos EUA. No ano passado, o Exército israelense matou a jornalista americana Shireen Abu Akleh, que vestia um colete de imprensa em Gaza.

As Forças de Defesa de Israel negaram qualquer relação com a morte, até que uma investigação atestou sua culpa. No mês passado, o Exército israelense matou um adolescente americano na Cisjordânia, Tawfic Abdel Jabbar. Nenhum representante americano condenou Israel pela morte de seus compatriotas.

Não se pode esquecer dos ataques dos EUA contra seus próprios Navalnis. Julian Assange está há quase quatro anos apodrecendo numa prisão inglesa, batalhando pela vida porque o governo dos EUA —primeiro sob Trump, e agora Biden— insiste na sua extradição e prisão pelo "crime" de expor crimes de guerra cometidos por Washington.

E, é claro, Edward Snowden, que continua sem poder sair da Rússia, procurado pelo crime de expor espionagem ilegal e inconstitucional por parte do governo do EUA.

Ainda que os norte-americanos prefiram continuar cegos, o resto do mundo pode ver que o governo dos EUA não segue os princípios que impõe ao resto do mundo.

Sempre que algum líder mundial é cobrado por jornalistas dos EUA ou do Reino Unido por ataques à liberdade de imprensa que teriam cometido, a réplica sempre lembra dos casos de Assange e Snowden para dizer que os EUA não têm credibilidade para criticar os outros países.

No Ocidente, a propaganda nos ensina que é uma cortina de fumaça quando os líderes estrangeiros apontam as hipocrisias dos EUA a respeito de direitos humanos. Argumentam que os EUA devem sim cobrar os outros países, mesmo que internamente pratiquem os mesmos abusos e violações de direitos.

No entanto, o que se convencionou chamar de cortina de fumaça é o verdadeiro teste. É sempre fácil criticar um governo estrangeiro do outro lado do mundo. Difícil é criticar o seu próprio lado.


Texto de Glenn Greenwald na Folha de São Paulo

sábado, 30 de dezembro de 2023

Fidalgos das Americanas deram o golpe de 2023 com hipocrisia e arrogância


Não teve para mais ninguém em 2023. Sem contestação, o trio de donos das Lojas Americanas abiscoitou sozinho o rol de 200 malas do ano. Palmas para Jorge Paulo LemannCarlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Eles deram lições ao cubo de hipocrisia e arrogância.

Lava JatoPetrolãoanões do Orçamento, caso Collorcofre do Adhemar? Coisa de amadores. Não há nos anais das fraudes nativas um golpe do peso do arquitetado pelo trio e seu séquito de executivos vorazes e venais. Os fidalgos –abracadabra!– sumiram com R$ 40 bilhões.

Até 11 de janeiro, quando o elegante roubo-bomba estourou, o triunvirato das Lojas Americanas era tido como o suprassumo da modernice empresarial. "Ah, se o negocismo pátrio se espelhasse nos usos e costumes de Lemann, Sicupira e Telles", suspiravam os liberais de ponta.

Com a trinca de azes à testa da economia, ela seria um modelo de pujança. Não haveria o coitadismo da legislação trabalhista; setores cartelizados; subsídios dados de mão beijada a cupinchas por políticos, essa gentinha malacafenta. Para os "Americanos", só valiam o realismo e o mérito.

Por realismo entenda-se tsunamis de demissões de quem não "performasse"; a fixação de metas insensatas; a cobrança de resultados de chicote na mão; o atraso metódico e meticuloso do pagamento de fornecedores, o corte dos custos mais comezinhos.

E por mérito compreenda-se a criação de uma casta de capitães-do-mato fantasiados de diretores, damas e cavalheiros com MBA no exterior e sem qualquer laivo de humanidade. A eles cabia açoitar os remadores das galés de "Ben-Hur".

O marketing em benefício próprio era essencial aos morubixabas das Americanas. Eles fizeram com que acólitos produzissem livros e reportagens que, corajosamente, os enalteciam. Não bastava aos nababos serem os homens mais ricos do Brasil.

Queriam ser amados.

Daí brotou a ladainha, entoada 40 bilhões de vezes, que Lemann jogava tênis e dava bolsas para bugres irem a Harvard. Que Telles era sensível e amava as artes. Que Carlos Alberto Sicupira preferia ser chamado de Beto e se dizia entendido em segurança pública.

Ai de quem ousasse duvidar das loas aos sultões de sapatênis, tão gente como a gente. Os que dissessem o óbvio –que se tratava de mata-mouros empenhados na acumulação primitiva– eram logo rotulados de invejosos, ressentidos, tipinhos à toa e sem conserto, que nojo.

Veio o 11 de janeiro e o marketing se exibiu em plenitude. O rombo de R$ 40 bilhões foi logo classificado de "inconsistências contábeis". Em matéria de eufemismo, mesmo num idioma calcinado pela corrupção em prol dos poderosos, foi do jamais visto.

Montou-se uma CPI para averiguar as malfeitorias da santíssima trindade do capital. Vossas Excelências, a fina flor do parlamento, foram de uma sabujice ímpar. Só faltou perguntarem aos grã-finos de grana preta se queriam um lustro nas ferraduras. Vai uma graxa, doutor?

Para surpresa de ninguém, a CPI concluiu, apesar das pirâmides de provas, que roubo houve, mas não ladrões. A dinheirama sumiu e não há Sherlock capaz de saber quem a surrupiou. Foi um veredito idêntico ao dos impolutos catões que zelam pelas nossas boas práticas empresariais.

Não vamos prejulgar. Nada de punitivismo. Afinal, em que pese a cautela, alguns foram castigados. Num só dia, demitiram-se 1.400 funcionários das Americanas. Centenas de fornecedores ficaram a ver navios. E a freguesia amargou uma espera labiríntica pelo que pagou.

Há duas hipóteses para explicar a gatunagem. Numa, Sicupira, Telles e Lemann não seriam exímios gestores das suas empresas. Eram na verdade toupeiras, suavemente engambeladas, anos a fio, pelos executivos que cevaram.

Na segunda hipótese, sempre souberam das traficâncias na cúpula das Americanas. Fizeram vista grossa para a dilapidação da companhia porque ela os enriquecia. E, caras simples que são, precisavam da bufunfa para comprar raquetes, admirar quadros, estudar segurança pública.

A tríade não tem o que temer. Aqui, não é de bom tom encarcerar patrões, mesmo que emporcalhados. Pergunte a Emilio Odebrecht e aos JBS, que trotam por aí leves, soltos e rindo da sua cara. Não faltará manteiga no pão dos Telles, dos Sicupira e dos Lemann per "omnia saecula saeculorum".

Falando em herança de butins, Marcel Telles aproveitou a semana morta entre o Natal e o Réveillon para sussurrar, na calada da noite, que transferiu R$ 29,5 bilhões da sua fortuna para o filhote. Meritocracia é isso aí.


Reprodução de texto de Mario Sergio Conti, na Folha de São Paulo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

O Brasil pardo detectado pelo IBGE contra o Brasil negro dos identitários


A particularidade do censo do IBGE é que ele não apenas fornece dados, mas os apresenta orientados por teorias e embalados na ideologia dos analistas que trabalham nele.

Segundo as estatísticas geradas, 45,3% dos brasileiros se declaram como uma mistura de duas ou mais opções de cor ou raça, escolhendo entre branca, preta, parda e indígena, conforme o manual do instituto. Quem assim se identifica é pardo. Alvíssaras, o IBGE descobriu o óbvio, o Brasil é um país mestiço.

Como há um dogma dos militantes atribuído ao IBGE que reza que pardos não passam de uma subdivisão de negros, celebrou-se então a superioridade numérica dos negros nesse país. Mas apenas 10,2% se definem como negros.

É que, embora as pessoas tenham o direito de se identificar como desejarem, inclusive tendo a opção de adotar como critério de escolha a cor ou a raça, jornalistas e militantes se concedem o privilégio de ignorar tal autoidentificação e reclassificá-las conforme seus próprios critérios: pretos e pardos são espécies de negros, ponto final.

Ora, se os pardos se considerassem negros, escolheriam a identificação como pretos, como é óbvio supor. Da mesma forma, caso se vissem como brancos, optariam por essa categoria. Mas não o fizeram, assumem-se como mestiços.

Ocorre que no Brasil a escolha da categoria de cor ou raça deve ser considerada séria demais para se permitir que as pessoas decidam o que são por conta própria. A sociologia militante se concede o poder de decidir em lugar dos cidadãos, inclusive desconsiderando suas próprias percepções. Mas o tratamento é exclusividade dos pardos, claro.

Os militantes da causa negra não demoraram a ressaltar como anos de trabalho árduo dos movimentos resultaram no aumento do número dos autoidentificados como pretos e pardos no Brasil.

Embora isso possa ser verdade, esperemos algum crédito do fenômeno ao fato de que as pessoas vêm se miscigenando no país há mais de 500 anos, bem antes que movimentos negros marchassem com faixas declarando que "miscigenação é genocídio" ou inundassem as redes com denúncias de "palmitagem" de quem se envolveu com pessoas de outra cor.

O cardinalato dos influenciadores que reivindicam falar em nome de todos os negros não iria perder a oportunidade de pontificar sobre o assunto. "É uma vitória termos um Brasil que se reconhece como negro", afirmou-se. Para depois rematar-se com: "Nunca é demais lembrar que pardos e pretos compõem a população negra do Brasil".

Pelo visto, ignora-se o fato de que "o Brasil" se reconheceu majoritariamente como pardo, não como negro, branco ou indígena. Nem deveria ser demais lembrar que pardo é alguém que se reconhece mestiço, misturado, miscigenado, não como componente de qualquer outra população, a não ser a brasileira.

Impressionante como a matriz indígena foi esquecida, como se ela não fizesse pardos.

Ora, ocorre o contrário. O norte do Brasil é pardo, a Amazônia é parda. Os dez municipios com maior percentual de pardos estão entre o Amazonas, o Pará e o Maranhão. Como o colégio cardinalício identitário decidiu que todos os pardos são compulsoriamente negros, a origem indígena do Brasil pardo foi apagada.

O pior é que nem isso é para valer. Parafraseando o verso do Rigoletto de Verdi, "il pardo è mobile, qual piuma al vento". Conforme a conveniência do cardinalato identitário e dos movimentos negros, movem-se os pardos para lá ou para cá.

Nos momentos de fazer volume, pardos são da população negra. Na hora das cotas em concursos ou de dividir cargos, chama-se a polícia racial, ou "comissões de heteroidentificação", para tirar os pardos.

A autoidentificação dos pardos é desconsiderada; o que não se ignora é a premissa que há sempre um pardo querendo desfrutar de reparação que é só devida aos pretos. Pardos são úteis nos numeradores para se calcular as compensações, mas um estorvo depois do cálculo feito.

Vejam Flávio Dino. Alguém tem mais a cara do Brasil do que um caboclo miscigenado do Maranhão, justo onde a Amazônia e o Nordeste se encontram num abraço gostoso?

Pardo, no jargão do IBGE, ou moreno, mulato ou caboclo na língua real do país, Dino tem a cor e a manha da nossa gente.

No Brasil brasileiro, Dino é caboclo inzoneiro, exceto para as autoridades identitárias, que prantearam a sua indicação ao STF alegando que o cargo era para uma pessoa negra. Quando há privilégios e recompensas, pardos não são negros, nem sequer Flávio Dino.


Reprodução de texto de Wilson Gomes, na Folha de São Paulo

sábado, 9 de dezembro de 2023

O nascimento do samba pelos olhos de Vagalume


Você conhece o Assumano Mina do Brasil? O Mirandella, o João da Gente, o Marinho Que Toca? Ao lado de nomes mais badalados —Sinhô, Donga, Pixinguinha, João da Baiana—, são personagens de "Na Roda do Samba", de Francisco Guimarães, o Vagalume, que após 90 anos do lançamento volta às livrarias.

Filho de africanos escravizados e líder religioso da comunidade negra, Assumano vendia azeite de dendê na Cidade Nova. Cantor e compositor, Mirandella integrava o Clube dos Democráticos. João da Gente era repórter do Correio da Manhã e autor de canções carnavalescas. Também conhecido como Amor, Marinho forneceu sambas de sucesso para o cantor Francisco Alves. Para lançar seu olhar sobre a vida cultural carioca no início do século 20, Vagalume privou de intimidade com todos eles.

Um olhar de dentro da roda. Colunista do Jornal do Brasil e espécie de José Ramos Tinhorão avant-garde, Vagalume viveu o cotidiano das favelas e os costumes dançantes e musicais dos trabalhadores afrodescendentes. Deles fez um registro em primeira mão, muitas vezes desabusado e birrento, destacando os artistas de sua preferência. Os outros eram "sambestros".

Seu maior desacerto foi não perceber os benefícios da interação do samba com a indústria fonográfica, tendo como alvo predileto a figura branca e bem-vestida de Francisco Alves: "O Chico Viola não é um plagiário. Ele é apenas o padrasto, o pai adotivo de uma infinidade de sambas de gente dos morros da Mangueira, Favela, São Carlos, Querosene".

Com linguagem simples, "Na Roda do Samba" deu início à historiografia do mais importante gênero da música brasileira. Falta agora relançar "Samba", de Orestes Barbosa, que apareceu naquele mesmo mês de agosto de 1934 com a vantagem de tocar num ponto desprezado pelo livro de Vagalume: o surgimento em meados dos anos 1920 da turma do Estácio, Heitor dos Prazeres e Ismael Silva à frente.


Texto de Álvaro Costa e Silva na Folha de São Paulo

Morre poeta palestino Refaat Alareer durante bombardeio na Faixa de Gaza


O poeta palestino Refaat Alareer morreu na quinta-feira (7) em um bombardeio na Faixa de Gaza que teria sido lançado por Israel, afirmaram amigos do artista. Ele era considerado um dos nomes mais proeminentes de sua geração, com textos em inglês sobre a vida em Gaza.

"O assassinato de Refaat é trágico, doloroso e escandaloso. É uma perda imensa", anunciou Ahmed Alnaoq, amigo do poeta, no X.

"Meu coração está partido. Meu amigo e meu colega Refaat Alareer foi assassinado com sua família há alguns minutos", escreveu no Facebook o poeta Mosab Abu Toha.

Professor de literatura inglesa na Universidade Islâmica de Gaza, Alareer foi um dos fundadores do projeto "Nós não somos números", que unia os autores de Gaza com mentores no exterior que os ajudavam a escrever em inglês sobre sua realidade.

Ele editou o livro "Gaza Writes Back", uma compilação de crônicas sobre a vida no território escritas por jovens autores. Também publicou "Gaza Unsilenced".

Poucos dias após o início da ofensiva terrestre israelense, Alareer anunciou que se recusava a deixar o norte da Faixa, que era o epicentro dos combates.

Também publicou na rede social um poema que viralizou, com o título "Caso Eu Morra" . "Caso eu morra, que traga esperança, que seja um conto", afirmam os últimos versos.

Refaat era uma fonte recorrente de veículos de imprensa estrangeiros, como Al Jazeera, BBC, The New York Times e a Folha.

Em maio de 2021, durante outro conflito entre Israel e o Hamas em Gaza, ele disse: "Quando estamos sob bombas, sentimos que é o pior dia das nossas vidas, mas daí vem o dia seguinte e é ainda pior".

Ele voltou a falar com a Folha após a eclosão da guerra em Gaza no último dia 7 de outubro. "Podemos ser mortos a qualquer momento", afirmou na ocasião.


Reprodução da Folha de São Paulo