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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Triste Brasil

O IBGE entregou o jogo: um em cada quatro brasileiros vive na miséria. Dá em torno de 50 milhões de pessoas. Dá quantos países europeus? Três quartos dos miseráveis brasileiros são negros ou pardos. Mais de 13 milhões vivem abaixo da linha da miséria. Chafurdam. Pode um país dar certo assim? Claro que não. Nem sonhando. Falemos claramente: a elite brasileira é burra, insensível, cínica e ultraconservadora. Nada faz para mudar essa situação. Só pensa em manter o seu quartel. Acha que se resolve desigualdade com repressão.
Sejamos ainda mais diretos: O Brasil é racista até a medula. Ponto.
Uma das mais contundentes expressões do irrealismo brasileiro é dizer que a população não bate panelas contra Michel Temer por estar cansada, desiludida, anestesiada. As panelas não batem porque a corrupção do governo Temer não incomoda tanto quanto incomodava a do PT. No Brasil, até a corrupção é seletiva. Tem corrupção e corrupção. O corrupto chega nas altas instâncias e diz: “Você sabe com que ladrão está falando? E sai voando. Com Temer a turma dos camarotes vai se ajeitar nas poltronas de grife e continuar assistindo ao triste espetáculo da miséria nacional. Que importa a esse pessoal sofisticado se negros patinam na pobreza? Temer é herói nacional para o mercado, que ansiava pela reforma trabalhista, mesmo se ela está produzindo demissões em cascata em alguns setores. Era esse mesmo o objetivo.
Outra pesquisa, comandada pelo economista francês Thomas Piketty, mostra que o Brasil é o primeiro país do mundo em crescimento da desigualdade, o que mais concentra riqueza no 1% mais rico. O Brasil é uma máquina de perversidade, injustiça, crueldade e exclusão. A elite viaja de primeira classe ou de classe executiva e se encanta com o mundo desenvolvido, chegando a cometer a excentricidade de andar de metrô nas capitais europeias, mas não quer pagar o preço para ter em casa a qualidade de vida do chamado primeiro mundo. Quer ter padrão sueco pagando menos impostos e mantendo o nível escravista de desigualdade. Por aqui, deputado que defende ladrão público e notório é recompensado com cargo de ministro. Somos um lugar muito especial.
A corrupção é um grave problema brasileiro. Uma chaga. Um câncer. Maldita sina de uma nação com políticos e empresários desonestos. Mas a corrupção não é o nosso maior problema. A violência é outro problema gravíssimo. Apesar de devastadora, a violência tampouco é o nosso maior gargalo. Qual é então o nosso maior problema? A desigualdade. Tudo vem dela: incapacidade de controlar a corrupção, violência, miséria, subdesenvolvimento, jeitinho, cinismo e golpismo. A reforma da Previdência vai tirar milhões da miséria? Recebe visita do Papai Noel quem acredita nisso. O problema do Brasil também não é o populismo. É o elitismo. Temos uma elite do século XIX, pré-abolição, ociosa e convencida de que escraviza pelo bem do escravizado. Simples.

Do blog do Juremir Machado da Silva, no Correio do Povo

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Cada país tem a desigualdade que escolhe?

A desigualdade voltou a ganhar destaque recentemente no Brasil, a partir de novos dados que indicam uma estabilidade da concentração de renda dos mais ricos, desde 2006.
Vários especialistas já se manifestaram sobre o assunto, apontando que esse resultado decorre da ampliação dos estudos para incluir dados tributários, que melhor capturam a renda do capital no topo da pirâmide.
De fato, a queda da desigualdade registrada pelo IBGE é mais focada na renda do trabalho, em que se verifica uma melhora da distribuição, até 2011, por qualquer medida utilizada.
Quando se incluem dados tributários na análise, o resultado ainda é um aumento da parcela de renda dos mais pobres, mas com estabilidade da parcela dos mais ricos.
Em outras palavras, a classe média perdeu participação no total de renda e isso ajuda a entender parte do conflito político recente.
Em um texto de 2016, Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, apontou que a desigualdade é uma escolha política, não um resultado de forças externas à sociedade.
Palma analisou a distribuição pessoal de renda em 129 países, dividindo cada sociedade em três grupos: mais pobres (40% na base da pirâmide), classe média (os 50% seguintes) e os ricos (os 10% no topo).
Segundo Palma, há uma regularidade na maioria dos casos: a classe média detém aproximadamente 52% da renda pessoal, independentemente do grau de desigualdade do país em questão.
Onde a desigualdade é alta, os ricos têm uma parcela elevada do total da renda, enquanto os pobres têm uma parcela reduzida. Onde a desigualdade é baixa, os ricos têm uma parcela menor, e os pobres, uma parcela maior do bolo. Nos dois casos, a classe média tem cerca de 52% da renda pessoal.
Minha interpretação dos resultados de Palma é que, onde a desigualdade é alta, a classe média aceita que os ricos sejam muito ricos desde que os pobres sejam muito pobres. Já onde a desigualdade é baixa, a classe média aceita que os pobres sejam menos pobres, desde que os ricos não sejam tão ricos.
A "tolerância à desigualdade" de cada país reflete, portanto, sua preferência de renda relativa. Onde a desigualdade é alta, caso do Brasil, a classe média tolera a riqueza excessiva desde que sua renda também seja excessiva em relação aos mais pobres.
Como apontou o sociólogo Jessé de Souza, essa escolha (um resquício do período de escravidão) pode explicar mais de nossa história do que a hipótese do patrimonialismo, tão em voga ultimamente.
Esse é um tema a ser aprofundado, sobretudo porque a recente perda relativa da classe média contribuiu para o crescimento de uma oposição virulenta a governos de esquerda e políticas de inclusão social.
Essa oposição geralmente se agrupa sob a bandeira politicamente correta de combate à corrupção, mas seu crescimento também tende a fazer os pobres voltarem a ser mais pobres via apoio a uma agenda regressiva de política econômica.
A alternativa progressiva seria fazer com que os ricos contribuam mais para a redução da desigualdade. Essa foi uma falha dos governos do PT. Demoramos muito para enfrentar o problema. Corrigir esse erro é o caminho a seguir, além de ser perfeitamente compatível com o combate à corrupção.
Mas temo que isso só acontecerá quando a desigualdade subir para um nível que ameace a sobrevivência da classe média.
NELSON BARBOSA, doutor pela New School for Social Research, é professor da Escola de Economia de São Paulo (FGV) e da UnB e pesquisador do Ibre. Foi ministro da Fazenda e do Planejamento (governo Dilma). Escreve às sextas-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.


Texto de Nelson Barbosa, na Folha de São Paulo

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Pouca violência com muita desigualdade?

Situações extremas fazem pensar.
Porto Alegre anda assolada por uma onda de violência.
Não há como não entender a ira das pessoas com a insegurança e com a crueldade dos bandidos.
Parte do problema é de responsabilidade do governo, que afrouxou a segurança, por questões de caixa ou de ideologia do tamanho de Estado, e desestimulou as polícias, sinalizando um campo livre para os bandidos.
Não há como não compreender o desejo de justiçamento ou de justiça expedita de muitas pessoas.
Mas resolve? Foi assim que o mundo com baixa taxa de criminalidade resolveu seus problemas?
Um amigo me diz que violência se resolve com violência.
Outro me repete que bandido bom é bandido morto em qualquer situação.
Não se pretende, que eu saiba, porém, executar sumariamente todos os bandidos presos.
Em situação de enfrentamento, é necessário ponderar todos os fatores envolvidos, a começar pelo estresse.
Mesmo assim, também se deve considerar o treinamento dos agentes do Estado.
É claro que entre a morte de um policial e a morte de um bandido, “prefere-se” a morte do bandido.
Prefere-se, mais ainda, que o policial não precise morrer e que, neutralizado, o bandido seja preso.
Nas sociedades democráticas, mesmo nas que admitem a pena de morte, ela é o resultado de um julgamento.
Pensemos o problema por partes.
Qual é a causa maior da violência urbana no mundo? Uma hipótese: a desigualdade. Por desigualdade não se deve entender a pobreza absoluta. Um país pode ser muito pobre e ter baixa taxa de criminalidade. É o caso de Gana. Por desigualdade deve-se entender a distância entre os muito ricos (poucos) e os demais (muitos). Especialmente em situações de culto ao consumismo. Como conciliar  a extrema incitação ao consumo inútil com moderação em sociedades perpassadas pela perda de referências, pelas drogas e pela sensação de urgência e de atalho?
É possível citar um país com alto equilíbrio na distribuição das suas riquezas e alto índice de violência cotidiana?
Não.
Basta pensar na Suécia como exemplo.
Se é possível citar país pobre com pouca criminalidade, é impossível citar um país com distribuição equilibrada e alto grau de violência. A desconcentração de renda parece ser uma pista para diminuir a violência. Os exemplos exitosos são incontáveis: países escandinavos, França, Suíça, Bélgica, Alemanha… Nesta hipótese, a questão não é moral, mas pragmática. Se diminuindo a concentração de riquezas a violência cai, por que não fazer isso?
A explicação para não fazer isso pode ser esta: a visão de que a desigualdade (alta concentração de riquezas) é “natural” e que ninguém deve ceder parte do que possui para ter paz. Se posso ter muito, por que terei menos? Se posso ter quase tudo, por que entregarei uma parte? A resposta poderia ser esta: porque, em determinadas situações, as de extrema separação entre os poucos ricos e os muitos não ricos, com alto culto aos objetos e violento estímulo ao desejo, uma parte da população explode em violência. O criminoso, neste sentido, não é vítima da desigualdade. Ele é o resultado nefasto de uma engrenagem. O que se quer? Evitar a violência? Por que não alterar a engrenagem?
Voltamos ao ponto anterior: por que se teria de fazê-lo? Em outras palavras, por que não se poderia ter paz, segurança e baixa criminalidade com muita desigualdade (vista como resultado  dos esforços de cada um)?
Se a maioria dos não ricos ou até dos muitos pobres aceita a sua condição e luta bravamente pela sua vida, por que todos não poderiam fazer o mesmo? É uma perspectiva. Concretamente não tem sido assim. Por que não?
Porque não funciona. Não tem funcionado. É uma constatação. Pode-se conferir isso em séries de dados disponíveis. Uma parte da população, por razões diversas, não aceita o pacto proposto.  O crime surge como um horizonte. É como o combate ao tráfico de drogas. Parece uma ideia correta. O resultado, porém, não tem sido convincente.
Não seria o caso de mudar a leitura do fenômeno?
Cite-se um país democrático, ou com pretensões a ser uma democracia, com altíssimo grau de desigualdade relativa (distância entre ricos e não ricos) e com baixa violência (taxa de mortes por cem mil habitantes/ano?
A violência é menor quando há homogeneidade: todos pobres; todos ricos; a maioria no meio da tabela.
O custo de uma sociedade com alto grau de desigualdade e baixo índice de violência é um aparato repressivo caríssimo e eficaz ou um sistema ideológico (de convencimento do lugar de cada um na sociedade) dispendioso.
A violência é fruto da impunidade ou da desigualdade?
Certamente desses dois fatores.
É possível resolver o problema pela punibilidade sem mexer na desigualdade?
É o sonho de alguns, de muitos.
Os países com baixa taxa de criminalidade e democracia indicam outro caminho, uma via que associa os dois termos da equação: a redução da desigualdade e o rigor nas punições. Curto, médio e longo prazo para quem não começou.
Não é a educação que conta mais?
Países com menos desigualdade tendem a ser muito fortes em educação.
Não se pode confundir educação com adestramento.
Não quero ir para Cuba, salvo pelo clima. Prefiro a Suécia.
Uma Suécia com clima tropical me cairia muito bem.
Não desejo a ninguém um ataque por bandidos.
Desejos a todos, inclusive aos que me desejam mal, paz e equilíbrio nas opiniões.
Sociedades altamente democráticas, com baixa criminalidade, muita educação e baixa concentração de riquezas, costumam não ter problemas com Direitos Humanos. A origem do contrato social é esta: cada um cede um pouco da sua liberdade para ter mais segurança. Não se dá o mesmo em relação à riqueza de uma nação?
Como diria o Padre Vieira, não tive tempo de ser breve.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Quanto é preciso ter para estar entre o 1% mais rico do planeta?


A carteirinha do clube que reúne a parcela mais rica do planeta custa US$ 798 mil (cerca de R$ 2,1 milhões), segundo um estudo da organização não governamental britânica Oxfam. Esse é o patrimônio que um indivíduo precisa ter para fazer parte do 1% mais abastado da população mundial.
Aproximadamente 295 mil brasileiros já fazem parte desse grupo seleto, de acordo com dados de um outro estudo, do grupo financeiro Credit Suisse, divulgado no fim do ano passado.
Segundo a Oxfam, o 1% da população mundial será dono de mais de 50% das riquezas do planeta no ano de 2016.
Porém, na prática, fazer parte dessa camada não significa viver uma vida entre jatinhos e mansões em diversos continentes.
É que, embora o patrimônio de R$ 2,1 milhões seja inalcançável para a maioria dos habitantes do planeta, muitas pessoas que se consideram de classe média em diversos países atingem essa cifra de ativos devido ao preço dos imóveis que possuem.
Os "verdadeiros" multimilionários representariam apenas 0,001% da população mundial, segundo os estudos.

Extremos

O estudo Global Wealth Databook, do Credit Suisse, apontou que há cerca de 35 milhões de pessoas no planeta com patrimônios avaliados entre US$ 1 milhão (R$ 2,65 milhões) e US$ 50 milhões (R$ 132 milhões).
Cerca de 15 milhões vivem na América do Norte, 11,7 milhões na Europa e 6,7 milhões na Ásia.
Já a parcela dos multimilionários (donos de mais de US$ 50 milhões ou R$ 132 milhões) engloba 128 mil pessoas ao redor do mundo. Na América Latina, o Brasil é o país com a maior quantidade desses indivíduos: aproximadamente 1.900.
No ápice da riqueza global estariam 92 pessoas com patrimônios superiores a US$ 1 bilhão (R$ 2,6 bilhões). Juntos, eles teriam mais dinheiro que a metade mais pobre da humanidade.
Segundo o estudo da Credit Suisse, a metade mais pobre da população têm patrimônio inferior a US$ 3.660 (cerca de R$ 9,6 mil) per capita.
"É incrível a quantidade de riqueza nas mãos de 0,001% (da população), por isso decidimos calcular o patrimônio desses multimilionários", disse à BBC Mundo Nick Galasso, pesquisador da Oxfam América.

'Aspirações'

Para o editor de economia da BBC, Robert Peston, o nível de desigualdade que essas cifras refletem "é preocupante, e não apenas para aqueles na base da pirâmide de riquezas".
"Uma das razões de preocupação é que as pessoas pobres com aspirações de ascensão têm grandes incentivos para contrair níveis excessivos de dívidas para manter seus estilos de vida, o que aumenta a tendência da economia sofrer crises financeiras", diz Peston.
"Outra razão é que, em conjunto, os pobres gastam mais que os ricos (porque um bilionário não costuma comprar mais que alguns iates, e boa parte de sua fortuna fica guardada). Assim, o crescimento ocorre de maneira mais rápida quando os recursos se distribuem de maneira mais igualitária", segundo Peston.
Para a Oxfam, a atenção ao problema por parte dos dirigentes políticos mundiais está aumentando. Mas ainda não há soluções à vista.
"No último ano foram dadas muitas declarações de líderes mundiais como Barack Obama e Christine Lagarde, do Fundo Monetário Internacional, sobre o aumento da desigualdade. Mas não se viu muita ação e o problema está piorando", disse Nick Galasso.

domingo, 5 de outubro de 2014

Livro usa relatos de vida para expor desigualdade nos EUA

Livro usa relatos de vida para expor desigualdade nos EUA

Jornalista revela com originalidade abismos e desilusões de anos recentes
ELEONORA DE LUCENADE SÃO PAULO

Salários minguantes, empregos sumidos, poupanças perdidas. A crença no mérito, no esforço pessoal e no empreendedorismo se esvai. Só muitíssimo ricos de uma ultra minoria conseguem enxergar o sucesso. A concentração de riqueza é avassaladora: devora os direitos dos cidadãos e gera polarização política na maior potência mundial, os Estados Unidos.
Com esse contorno, o jornalista George Packer escreve o original "Desagregação, por Dentro de uma Nova América". Longe de se preocupar com números e gráficos, a principal matéria prima do livro está nas histórias de vida.
Relatos de trajetórias de trabalhadores, financistas, empresários, celebridades e políticos são trançados desde meados do século 20 até hoje. A narração deixa expostas as entranhas de uma sociedade que, no passado, viu florescer uma exuberante classe média.
De uma cidade do interior do Ohio, o autor conta o que aconteceu com a operária Tammy Thomas. Depois de duas décadas de trabalho na linha de montagem de uma fábrica de peças, seu emprego desapareceu e suas economias foram tragadas por um fraudulento esquema especulativo.
O caso exemplifica mais uma etapa no desmanche do chamado "cinturão da ferrugem", que abrigou sólidas indústrias e experimentou históricas lutas sindicais. A virada conservadora e a desindustrialização desencadeadas nos anos 1980 trouxeram desemprego (quase 22%, o maior do país), bairros segregados, pobreza e crack.
No Sul, o jornalista colhe depoimentos dramáticos em Tampa (Flórida). Lá, a especulação imobiliária construiu condomínios em lugares ermos, sem transporte público e com propagandas edulcoradas de felicidade ilimitada e lazer infinito.
"As casas construídas nos loteamentos pareciam bunkers, com janelas minúsculas, sem ventilação suficiente, com condicionadores de ar ligados o tempo todo na escuridão cavernosa. Dentro delas, as famílias sentavam-se na sala de estar acarpetada diante de uma TV de plasma de tela grande, com as cortinas fechadas".
Isolados, andando sempre de carro, moradores vivenciavam uma "paranoia generalizada", afirma. "A Flórida atraía os nômades e sem raízes com a eterna promessa de uma segunda chance".
O estouro da bolha imobiliária, inflada pelos grandes bancos, deixou bairros fantasmas, famílias vagando em carros, vidas precárias e desesperadas. Em texto revelador, Packer conta como a justiça atuava em favor de bancos nos casos de perda de propriedade. De baciada, processos incompletos e sem direito de defesa arrancaram a moradia de milhares de famílias empobrecidas.
No topo da pirâmide, o livro vai buscar histórias como a de Sam Walton, o criador da rede Wal-Mart. Mostra como o empresário estruturou sua tentacular rede de varejo inundando as prateleiras com produtos baratos --e importados.
"Ao longo dos anos, os EUA ficaram mais parecidos com o Wal-Mart. O país se tornara mesquinho. Os preços eram mais baixos, e os salários eram mais baixos. Havia menos empregos fabris sindicalizados e mais postos de trabalho de atendente de loja em meio período", escreve o autor.
Na ponta tecnológica, aparece Peter Thiel, o milhardário que criou o PayPal, investiu no Facebook e propagou ideias hiperconservadoras. Cético, ele fala de suas críticas ao desempenho dos EUA no setor mais avançado.
Para ele, depois da década de 1970, ciência e tecnologia pararam de progredir. "Queríamos carros voadores, em vez disso temos 140 caracteres", aponta um manifesto on-line de sua empresa de capital de risco.
Repórter da "New Yorker", Packer, 54, diz que seu livro de reportagem tem uma dívida literária com a trilogia "USA", de John Dos Passos, que mergulhou nos EUA no início do século 20.
Percorrendo agora a vida de um empreendedor quebrado, de um militante do Occupy Wall Street, de um assessor na Casa Branca, o jornalista faz um painel de frustrações, viradas e resiliências. Para entender o que ocorre hoje nos Estados Unidos, vale muito mais que pretensiosos livros de economia.

"DESAGREGAÇÃO - POR DENTRO DE UMA NOVA AMÉRICA"
AUTOR George Packer
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 59 (496 págs.)
AVALIAÇÃO Ótimo


Reprodução da Folha de São Paulo

segunda-feira, 21 de julho de 2014

É impossível eliminar a desigualdade com argumentos

Graças à atenção sem precedentes que o livro "O Capital no século 21", de Thomas Piketty, recebeu entre intelectuais, colunistas de jornal e pesquisadores de economia, a desigualdade está em voga.

É incontestável que a pobreza extrema, definida como a porcentagem da população que vive com menos de US$ 1,25 por dia, esteve em declínio no mundo inteiro durante as últimas décadas. De mais de 40% da população mundial em 1980, ela caiu para cerca de 15%. Este feito notável,contudo, ocorreu ao mesmo tempo que um aumento constante e alarmante da desigualdade. Embora tenhamos celebrado o declínio da pobreza, o aumento da desigualdade foi praticamente ignorado até recentemente.

O fato de que precisarmos deste cutucão da desigualdade global para conseguir a atenção do público é uma surpresa. Os fatos ocasionais que apareciam de vez em quando já eram alarmantes o suficiente. As dez pessoas mais ricas do mundo tinham mais ou menos a mesma renda que a população da Etiópia; a riqueza total dos 85 indivíduos mais ricos equivale à riqueza da metade mais pobre da população mundial total.

Deve-se reconhecer o trabalho duro por parte dos pensadores fundamentalistas do mercado em fazer tudo isso parecer natural e inevitável. A desigualdade de salários, diziam, representava uma divisão justa dos cargos entre as pessoas trabalhadoras e as preguiçosas. Em outras palavras, o que os pobres perdiam em termos de dinheiro, estavam ganhando em termos de lazer e sono. O que o mercado livre, sem obstáculos do Estado, oferecia era eficiente e justo.

Esses mitos agora estão caindo por terra. Atribuir a grande desigualdade de hoje à escolha das pessoas entre o trabalho duro e o lazer é evidentemente falso, porque uma parte substancial da desigualdade se manifesta no nascimento. Há crianças nas favelas que nascem fadadas à escassez. Há outras crianças nascidas em meio a tanta riqueza que é praticamente impossível que se tornem pobres.
O economista Miles Corak demonstrou recentemente com big data que, para os super-ricos, há uma barreira invisível que os impede de empobrecer. Uma vez que é um exagero atribuir a pobreza de um recém-nascido ao seu gosto pelo lazer, a maior parte da desigualdade é evidentemente injusta.

A questão que surge naturalmente a partir disso é: quais são as políticas necessárias para combater a desigualdade extrema e promover o bem-estar dos pobres?

Uma saída fácil é, normalmente, citar alguns estudos que mostram que três quartos de todas as variações no crescimento recente dos salários dos pobres ocorreram por causa de variações no crescimento geral da renda. Os ideólogos se apropriaram deste fato para argumentar que a melhor forma de ajudar os pobres é simplesmente permitir que o crescimento aconteça.
Há dois equívocos neste argumento. Primeiro, o fato de que o crescimento seja o principal motor do bem-estar dos pobres no passado não significa que seja o motor mais eficiente. Pode ser simplesmente que pouca coisa diferente tenha sido experimentada no passado. O equívoco é análogo a um economista analisar dados de trabalho na União Soviética nos anos 70 e 80, observando a presença forte do Estado e concluir: "precisamos do governo para criar todos os empregos no futuro porque meu estudo mostra que todos os empregos do passado foram criados pelo governo."

Em segundo lugar, novas pesquisas (feitas por Roy van der Weide e Branko Milanovic no Banco Mundial) mostram que o relacionamento entre o crescimento e a desigualdade é mais complexo do que se supôs a princípio. Analisando dados do censo dos estados norte-americanos de 1960 a 2010, eles descobriram que existe uma associação entre desigualdade e crescimento, mas é diferente para diferentes segmentos da população.
Uma desigualdade inicial mais alta em uma sociedade está associada a um crescimento menor para os 25% mais pobres da população e um crescimento maior para os 10% mais ricos. Não sabemos a causa fundamental disso, mas certamente derruba as análises que querem estabelecer uma relação uniforme entre desigualdade e crescimento.

Outra estratégia usada para impedir a ação política, dentro de uma nação ou globalmente, é apontar para a ideia da mão invisível de Adam Smith e argumentar que o mercado, sem qualquer interferência, eventualmente levará a sociedade a condições ótimas.

Este argumento se equivoca ao tratar dois conjuntos de coletividades de indivíduos de forma contraditória. Quando uma corporação busca o lucro acima de qualquer coisa, ela se justifica dizendo: "é este o objetivo das corporações". Mas as ações dos governos são tratadas como aberrações. O erro é não perceber que o governo não é nada além de um conjunto de indivíduos.
Um governo cleptocrático e inteligente pode superar esta objeção simplesmente assumindo outro nome. Anastasio Somoza, da Nicarágua, poderia ter mudado o nome do seu governo para Somoza e Filhos Inc. Dada a ganância obsessiva de Somoza por dinheiro, não seria muito difícil pensar em seu governo como uma corporação que visa o lucro. E com esta manobra simples ele teria driblado o argumento ideológico, revelando portanto que este argumento era falso desde o início.

Da mesma forma que tivemos algum sucesso em reduzir a pobreza extrema, precisamos agora de intervenções políticas em nível nacional e mundial para combater o flagelo da desigualdade extrema.

Texto de Kaushik Basu para a Prospect, reproduzido no UOLTradutor: Eloise De Vylder
(Kaushik Basu é economista-chefe e vice-presidente sênior do Banco Mundial.)

sábado, 18 de janeiro de 2014

Capitalismo retorna aos anos 1920

O norte-americano Mario Rubio, provável candidato republicano para a eleição presidencial de 2016, não se cansa de repetir o edificante conto de fadas sobre sua infância em Miami. O senador da Flórida adapta um pouco de acordo com o público, mas, basicamente, trata-se da história de uma família de imigrantes cubanos que, através de trabalho e privações, conseguiu enviar seus filhos para a universidade. Estes entraram assim para a mítica classe média dos Estados Unidos, nos anos 1970.
Hoje isso não seria mais possível, observa o senador. Seus pais, com seus salários --ele de barman, ela de gerente de um hotel--, acabaram pertencendo à chamada classe média e pagando os estudos de seus filhos. Se exercessem as mesmas profissões em 2014, eles não teriam mais condições para isso, não ganhariam o suficiente. O "sonho americano" se tornou "inalcançável", disse Rubio durante as cerimônias do 50º aniversário da "guerra contra a pobreza" lançada pelo presidente Lyndon Johnson em janeiro de 1964.
"Desafio de nossos tempos"
Há uma razão para essa triste constatação: os Estados Unidos se tornaram uma sociedade corroída pela desigualdade de renda. A da imensa classe média não aumenta há mais de 30 anos, e somente cerca de 10% da população recebe a maior parte dos frutos do crescimento. O senador Rubio só estava retomando um tema que o democrata Barack Obama já havia apresentado em dezembro: "O desafio de nossos tempos é a desigualdade", declarou o presidente.
No paraíso do capitalismo, quando democratas e republicanos concordam em formular, em termos praticamente idênticos, um mesmo diagnóstico, é porque se trata de uma grave patologia. Os apologistas do célebre modelo social europeu já podem ser ouvidos bradando em coro: "No nosso país, não!" Mentira, uma vez que a maior parte das economias ocidentais vem passando por um crescimento vertiginoso da desigualdade de renda.
O quadro pintado pelos economistas é monocromático. Todos apresentam os mesmos números para descrever a mesma realidade. As diferenças começaram a se aprofundar nos Estados Unidos nos anos 1970, e o fenômeno ganhou a Europa Ocidental nos anos 1980. "Às vésperas da crise de 2008, a desigualdade atingia ápices nos Estados Unidos e na maior parte dos países desenvolvidos", escreve Laura Tyson, economista, democrata e ex-conselheira do presidente Bill Clinton.
A participação dos salários no PIB não parou de diminuir em 30 anos, período durante o qual a classe média só conseguiu manter seu nível de vida se endividando. No topo não há crise, e sim concentração de fortuna. Em 2012, os 10% mais ricos dos americanos teriam dividido entre si quase metade da renda nacional, e os do famoso 1% da pirâmide, cerca de 22%. São números sem precedentes, salvo o ano de 1928, e que alteram profundamente o perfil social dos Estados Unidos.
Correlações não são necessariamente causalidades, mas o crescimento da desigualdade de renda acompanhou uma outra mudança: a desaceleração da mobilidade social. Um dos motores do modelo foi afetado. Até os republicanos, que defendem em alto e bom som o credo americano, concordam: "Uma das promessas fundamentais dos Estados Unidos depende dessa possibilidade de voltar às fileiras da classe média. Mas hoje essa oportunidade está sendo questionada", constata Mario Rubio.

Explosão da desigualdade

Laura Tyson pondera: "O fato de o aprofundamento contínuo das discrepâncias de renda ser um ponto em comum entre as economias desenvolvidas sugere a existência de causas em comum." Os economistas afirmam que seria uma mistura de desenvolvimento tecnológico, automação industrial, falência dos sistemas de ensino e, acima de tudo, globalização da economia, uma vez que o conjunto favoreceu um gigantesco movimento de deslocamento [de centros de produção].
Isso porque à medida que a desigualdade avançava nos países ocidentais, ela regredia em nível mundial, uma vez que o índice de pobreza diminuía nos países emergentes, onde ascendiam as novas classes médias. O que os Estados Unidos, a Europa e o Japão deveriam aprender? Os franceses ainda acreditam em sua singularidade: eles não gostam dessa questão. Eles salientam que a situação não é a mesma em todos os países desenvolvidos.
O coeficiente Gini, índice das desigualdades de renda, é mais elevado nos Estados Unidos e no Reino Unido do que na França, por exemplo. O milagre do Estado-providência à maneira francesa garantiria uma melhor proteção contra a desigualdade? Em parte, mas somente em parte. Enquanto a Europa do Norte se "adaptou" à globalização, com um número crescente de trabalhadores pobres, a França vem alinhando seus batalhões de desempregados. Salários baixos ou desemprego. Os franceses escolheram, sem levantar a questão: existe um mal menor para uma sociedade? A pergunta não é fácil de responder.
Assim como não são fáceis as questões que surgem com a explosão da desigualdade nas economias ocidentais. Essas economias não podem questionar a globalização: para elas, os mercados emergentes se tornaram prioritários. Mas as diferenças de renda, a polarização social entre o "1%" e o resto certamente têm um impacto profundo, tanto sobre o crescimento quanto sobre o equilíbrio político-social e a democracia (emergência de forças políticas de oposição). Como acontece com frequência, o debate americano está sendo precursor.

Texto de Alain Franchon para o Le Monde, reproduzido no UOL.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Estado de Bem-Estar e desigualdade

Desenvolver o Estado de Bem-Estar Social em país que convive com ampla desigualdade tem-se demonstrado como algo irrealizável.
Conforme constatou Sonia Fleury em artigo publicado no "Le Monde Diplomatique Brasil" ("Do Welfare ao Warfare State"), apesar de a nossa Constituição ter estabelecido o objetivo da democracia social, sob o primado da justiça social, o que assistimos é a uma regressão.
De fato, passados 25 anos de promulgação da Constituição Federal, observa-se, segundo a autora, "uma transmutação regressiva do social, com a presença de valores conservadores, além do incentivo ao empreendedorismo individual e ao consumismo, em detrimento de formas solidárias de sociabilidade e da existência de mecanismos institucionais de proteção social pública".
Por que trilhamos caminhos que conflitam com o espírito da Constituição e nos conduzem a situações inaceitáveis? A indagação me leva à conclusão de que a nossa Constituição é uma formulação teórica que não consegue se realizar na prática, porque o país é muito desigual.
O Orçamento federal não permite correção das desigualdades, porquanto, resta para despesas discricionárias pouco mais de 10% do total orçado. Isso significa que quase 90% estão comprometidos com despesas obrigatórias.
Dos recursos discricionários, 43% completam os orçamentos da saúde e educação e 29% se destinam ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao Bolsa Família.
De um Orçamento de R$ 2 trilhões, resta, portanto, apenas R$ 56 bilhões, com os quais o governo federal tem de atender a pleitos de 39 ministérios, do Poder Legislativo e do Poder Judiciário.
Enquanto isso, na área privada, crescem sinais de opulência, como se constata pela construção de prédios luxuosos que deixam áreas da cidade parecendo as de um país com US$ 60 mil de renda per capita. Por outro lado, observa-se a ampliação assustadora da frota de veículos, a ponto de faltar ruas para abrigar o tráfego crescente.
Dos proclamados 36% de carga tributária do PIB (Produto Interno Bruto), cerca de 14% são dos aposentados e pensionistas. Ao governo se destinam 22% da carga --número totalmente insuficiente para atender às demandas urbanas criadas pela transição demográfica.
Isso só pode ocorrer porque os que geram receita se apropriam dela em vez de transferir ao governo boa parte dos recursos que seriam destinados a atender as necessidades da população. Por isso convivemos com opulência e pobreza.
Não sei como se pode falar em Estado de Bem-Estar Social nessas condições. Enquanto grupos nacionais e internacionais vivem na opulência, parte significativa da população se rejubila por sair da miséria para a pobreza. E o governo federal faz disso sua meta maior.
Conta-se por bilhões o lucro de entidades financeiras, mas os verdadeiros responsáveis pela produção, especialmente a agropecuária, cuja participação tem impulsionado o balanço positivo de pagamentos, mantêm-se assustados e inseguros quanto ao futuro.
Como não se consegue ativar a economia, talvez se possa reduzir a desigualdade aplicando parte do montante destinado a perpetuá-la e agravá-la em medidas que, ao contrário, a mitiguem.
O governo já dá sinais nessa direção quando aceita as parcerias público-privadas e caminha no sentido de transferir para a iniciativa privada investimentos que até recentemente considerava exclusivos do poder público.
Resta saber se os que se apropriam de boa parte da receita gerada estão dispostos a correr o risco de se envolverem nas mudanças sinalizadas, que, ao final, irão reduzir a desigualdade e criar ambiente mais saudável, combatendo a violência que a todos incomoda.


Texto de Adib Jatene publicado na Folha de São Paulo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Com o crescimento das desigualdades, americanos deixam de pensar no futuro


Os Estados Unidos parecem estar tão doentes, que ninguém consegue chegar a um consenso quanto ao que ele tem. O paciente está esparramado sobre a mesa, desmaiado, e uma equipe de cirurgiões discute se a perna direita precisa ser amputada ou se ela já foi.
Mas, olhando de perto, muitos dos diagnósticos - que se originam tanto à esquerda quanto à direita - têm algo em comum. Eles detectam no país mais rico do mundo afecções que costumam ser associadas a lugares como o Haiti ou Bangladesh. Se existe um consenso tácito entre os críticos, é de que os problemas dos Estados Unidos são cada vez mais problemas de Terceiro Mundo.
Falemos sobre dois, em particular.
O primeiro diz respeito à ideia de que o país tem mais do que um problema de desigualdade. Escritores de ideologias diversas têm argumentado que americanos de diferentes classes sociais estão vivendo cada vez mais em mundos paralelos.
Isso é o que o escritor liberal Matt Taibbi invoca quando, na revista "Rolling Stone", ele lamenta que os ricos estejam vivendo "em um arquipélago global apátrida de privilégios - uma coleção de escolas particulares, paraísos fiscais e comunidades residenciais muradas com pouca ou nenhuma conexão com o mundo externo".
Mas você também conseguia encontrar essa ideia bem longe da "Rolling Stone", na revista "The American Conservative" do mês passado, onde Mike Lofgren, um assessor para os Republicanos no Congresso há 16 anos, condenou a "secessão" das elites americanas. "Nossa plutocracia vive agora como os britânicos na Índia colonial: no local e dominante, mas não parte dela", escreveu Lofgren. "Se alguém pode pagar por segurança particular, a segurança pública não importa; se alguém possui um jato Gulfstream, pontes caindo aos pedaços causam menos apreensão".
É chocante ouvir isso sobre os Estados Unidos, exatamente por causa de todos os outros lugares onde o testemunhei: em São Paulo, onde brasileiros ricos sobrevoam imensos congestionamentos em seus helicópteros, vivem em condomínios fechados e resistem em revelar endereços residenciais a aparelhos de GPS para evitar que roubos de carro virem algo pior; em Nova Déli, onde uma família de classe média alta pode ter seus próprios seguranças, cozinheiros, motoristas, geradores de energia e sistemas de tratamento de água, se tornando quase independentes da República; em Porto Príncipe, onde os bem-relacionados do Haiti têm seu próprio saguão de imigração, que inclui até um barman.
Vistos a partir de lugares como esse, os Estados Unidos por muito tempo representaram algo diferente: "O bom desse país é que os Estados Unidos começaram a tradição em que os consumidores mais ricos compram basicamente as mesmas coisas que os mais pobres", observou Andy Warhol uma vez. Ele estava pensando particularmente na Coca-Cola, mas a observação vale para muitas outras coisas e práticas.
Há uma geração havia mais probabilidade de ricos e pobres americanos se sentarem lado a lado em partidas de beisebol, frequentarem as mesmas escolas, viverem em famílias constituídas de forma similar, frequentarem igrejas com a mesma regularidade, viverem nas mesmas regiões e comerem em restaurantes mais ou menos equivalentes, segundo acadêmicos como Charles A. Murray, Robert D. Putnam e Michael J. Sandel mostraram.
O segundo diagnóstico envolve a forma como as pessoas concebem o futuro.
Os americanos tendem a pensar em si mesmos unicamente como voltados para o futuro. Quando era presidente, Bill Clinton costumava mencionar uma aula que ele teve na Georgetown University, onde um professor chamado Carroll Quigley atribuía o sucesso americano a uma característica que ele chamava de "preferência pelo futuro". Esta era a estruturação de Quigley de uma ideia em 1968: "O africano valoriza o presente, ao passo que muitos americanos de classe média colocam toda ênfase na importância do futuro e estão dispostos a fazer praticamente qualquer sacrifício no presente em nome de algum benefício futuro hipotético".
Deixando de lado a generalização ofensiva e a singularidade geral, essas palavras surpreendem pela sua incapacidade de descrever a vida americana hoje. "Preferência pelo futuro" não parece mais ser a tendência americana dominante; e lugares como Nairóbi e Lagos, considerando todos seus problemas, fervilham com conversas sobre o futuro - com grandes planos do que jovens empolgados insistem em criar, apesar das circunstâncias.
O próprio Clinton insinuou essa inversão quando observou, em uma viagem recente por Ruanda, que "eles têm esse enfoque no futuro do qual os Estados Unidos precisam".
Acontece que o futuro muitas vezes não consegue satisfazer os americanos hoje. Uma análise recente feita pelo Pew Charitable Trusts concluiu que "os americanos criados no ponto mais alto e no mais baixo da escala de renda provavelmente permanecerão lá quando adultos". O estudo descobriu que dois terços dos americanos acabam exatamente na mesma faixa da distribuição de renda de seus pais, ou abaixo.
Os campos ideológicos dos Estados Unidos divergem quanto ao que teria rompido o mecanismo que liga os sonhos, as ambições e as recompensas. Os da esquerda argumentam que a cobiça da elite e a compressão das classes baixa e média tornaram racional ser fatalista, perder esperança e parar de acreditar em sua própria capacidade de ação. Os da direita estão mais propensos a culpar um colapso nos valores americanos: as escolhas das pessoas de usar drogas ou de abandonar os estudos, ter filhos sem ser casados ou fazer amizades com as pessoas erradas.
Mas, em certo sentido, as causas são irrelevantes. Se os abismos entre as pessoas - que são universais - têm alimentado a inveja e o ressentimento mais do que a aspiração e o esforço, então significa que os Estados Unidos começaram a se tornar como os lugares que por muito tempo ansiaram em ser como eles.

Reportagem de Anand Giridharadas para o International Herald Tribune. Tradução de Lana Lim.

Visto no UOL

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Desigualdade, tendência do verão


Desigualdade, tendência do verão 

"VOCÊ TEM CASACO de couro da Forum?" A pergunta teria sido encarada de forma natural tivesse ela sido feita nas dependências de um shopping center. Mas soou para mim algo inusitada ao ser formulada no curso de um sequestro-relâmpago sofrido há 11 anos, no bairro do Sumaré.
Eu sempre havia me perguntado como responderia em uma situação dessas (temia reagir à italiana, com passionalidade extremada, e acabar com uma azeitona cravada na testa). Acho que me saí melhor do que a encomenda. Selei o episódio escrevendo junto com a jornalista que estava comigo um artigo para a revista "Marie Claire" intitulado: "Fomos assaltadas e fizemos amizade com os bandidos".
Não me sentia à vontade para falar sobre o caso na época -tanto é que apenas a sombra do nosso perfil aparece na foto que ilustra a reportagem-, nem para colocar o pé para fora de casa por um bom tempo depois do ocorrido. Mas uma década já se passou e o assunto volta à tona por motivos outros que não a violência paulistana.
Fomos interceptadas no semáforo da rua Heitor Penteado por um garoto a quem os institutos de pesquisa bem poderiam classificar de "classe média". Ele tinha aparelho nos dentes, alguma escolaridade e vocabulário de bandido, ou seja, uma figura comum nos dias de hoje. Nos abordou de arma em punho e veio acompanhado de duas amigas, uma loira com considerável e visível investimento monetário na juba e a outra, negra, gorducha, simpática, que lembraria a Jennifer Hudson.
Ninguém no grupo tinha mais de 21 anos. Desandei a falar assim que entraram no carro e lá fomos nós de caixa eletrônico em caixa eletrônico. Quatro horas mais tarde, vários quilômetros rodados e uma parada no posto para reabastecer, nossos novos amigos, sempre de arma apontada para nós, se convenceram de que não tínhamos dinheiro e resolveram ir saquear minha casa. Enquanto vasculhava a gaveta atrás de roupas de grife, Miss Simpatia contou-me do filho e eu lhe dei um bicho de pelúcia. "Toma, este é seu, não faz parte do assalto", disse-lhe. Acho que eu tinha tomado umas a mais naquela noite.
De volta ao carro, e sempre sob ameaça, resolvi despejar um balde de perguntas sobre o rapaz: "Por que um cara como você se dedica a este tipo de atividade?", queria saber. "Na verdade", disse-me, "Isso é um bico".
Contou-me que acabara de deixar a noiva em casa. Sua mãe desconfiava de que os tênis, os eletrônicos e as noitadas não vinham do trampo de carteira assinada, mas preferia não entrar em detalhes.
"Não é um tanto arriscado levar a vida assim?", insisti. Ele fez que sim com a cabeça. "De alguma coisa a gente tem que morrer, né?"
Nisso, a fofucha que estava comigo no banco de trás, a loira, grudou o cano da arma na minha têmpora e disse: "Se você não calar a boca, eu te mato". Não me impressionou. "Sabe quantas vezes ao dia eu ouço essa frase?", devolvi. O carro inteiro caiu na gargalhada.
Podia ter sido fatal, mas bicho ruim não morre, especialmente em se tratando de jornalista. Vivi para constatar que, por uma vez, os londrinos não estão ditando moda. Que a desigualdade, a ilusão do multiculturalismo e a sedução do consumismo que faz a roda girar e que ora incendeiam o verão londrino já chegaram por estas bandas faz muitas estações. É São Paulo dando uma de "trendsetter" mundial, olha só que luxo.



quinta-feira, 9 de junho de 2011

Reino Unido caminha para desigualdade do século 19

Reino Unido caminha para desigualdade do século 19

Em 2030, 0,1% mais bem pago terá 14% dos salários

DE LONDRES

Estudo encomendado pelo governo do Reino Unido expõe o crescimento da desigualdade social no país, com alta considerável da diferença entre os salários dos executivos de grandes empresas e os do britânico médio.
Hoje, o 0,1% mais bem pago leva para casa o equivalente a 5% da soma de salários do país, mesmo percentual do início dos anos 40.
A partir daquela década, as coisas começaram a mudar. Profissões que exigiam menos qualificação passaram a ser mais bem remuneradas, e houve um achatamento no "andar de cima".
Como resultado, em 1979 o mesmo 0,1% mais bem pagos ficava com 1,3% do total de salários do país, o que denotava maior igualdade.
Mas a década de 80, dos yuppies e do início da ciranda financeira, fez tudo mudar outra vez, e os supersalários voltaram, principalmente pela inclusão de bônus.
Agora, projeções apontam que o 0,1% irá abocanhar 10% do conjunto dos salários em 2025 e 14% em 2030. Isso, dizem os especialistas, era o retrato do Reino Unido na era vitoriana (1837-1901), quando a rainha Vitória era a chefe de Estado e o país não consolidara uma classe média.
O estudo considera supersalários os superiores a 350 mil libras/ano (R$ 929 mil). Já o salário médio é de 17,1 mil libras (R$ 45,4 mil).
Cerca de 47 mil pessoas estão entre os super-remunerados. Um terço deles trabalha no setor financeiro, o mesmo que causou a crise de 2008.
Nesse setor, há presidentes de banco cuja soma de salário mais bônus ultrapassa 3,4 milhões de libras/ano (R$ 9 milhões). Para atingir esse valor, o britânico médio deve trabalhar quase 200 anos.
A organizadora do estudo, Deborah Hargreaves, afirma que o crescimento da desigualdade é um problema mais econômico que moral.
Para ela, é muito difícil retomar o crescimento da economia quando os salários só de alguns disparam, enquanto o da maioria nem acompanha a inflação. A grande massa, com menos dinheiro, reduz as compras, o que emperra a volta do crescimento.
É o que tem acontecido. O salário da média da população subiu 7,2% de 1998 a 2008. O dos mais ricos, 64%.
O estudo mostra ainda que a desigualdade não tem coloração política. Nos 13 anos de governo do Partido Trabalhista (1997-2010), ela aumentou, apesar de o partido ter discurso mais à esquerda e ser ligado aos sindicatos.

HEREDITARIEDADE
Nos EUA, uma pesquisa feita sobre riqueza e mobilidade social no Reino Unido mostrou em números o que sempre foi uma obviedade: há um componente de hereditariedade na riqueza.
O estudo, conduzido por Gregory Clark, professor de economia da Universidade da Califórnia, mostra que pessoas com sobrenomes ligados à elite no século 19, como Percy, Darcy ou Mandeville, continuam mais ricas hoje que aqueles com sobrenomes que remontam a artesãos (Smith, Carpenter).
Os de sobrenomes nobres também vivem mais, em média três anos. Mas não foi sempre assim, afirma o estudo. Segundo Clark, a mobilidade social era muito mais intensa antes da Revolução Industrial do que é agora.
(VAGUINALDO MARINHEIRO)


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A igualdade afeta o espírito humano


Custo a pagar pelas diferenças sociais não é apenas econômico, mas também psicológico

04 de janeiro de 2011 | 0h 00

Nicholas D. Kristof, The New York Times - O Estado de S.Paulo

John Steinbeck observou que "uma alma triste pode matá-lo mais rápido, muito mais rápido, do que uma bactéria". Vale a pena levar em conta essa ideia, hoje confirmada por estudos epidemiológicos, em um período de tamanha desigualdade, polarizado a tal ponto que 1% dos americanos mais ricos possuem, ao todo, mais do que a riqueza total de 90% da população do país.,


É cada vez mais evidente que o custo a pagar pela colossal desigualdade americana não é apenas econômico, mas é também a melancolia da alma. O resultado disso está nos altos índices de crimes, no grande uso de narcóticos, no número crescente de adolescentes grávidas e até nas altas taxas de doenças cardíacas.
Esse é o tema de um importante livro escrito por dois famosos epidemiologistas britânicos, Richard Wilkinson e Kate Picket. O argumento é que a flagrante desigualdade dilacera a psique humana, criando ansiedades, desconfiança e uma série de enfermidades físicas e mentais - e fornece uma infinidade de dados apoiando sua tese.

"Se você não conseguir evitar a grande desigualdade, precisará de mais prisões e mais policiais", afirmam. "Terá de lidar com um número maior de pessoas com doenças mentais, abuso de drogas e outros tipos de problemas." Eles analisam essas questões no livro The Spirit Level: Why Greater Equality Makes Societies Stronger ("O nível espiritual: porque uma maior igualdade torna as sociedades mais fortes", em tradução livre).

A base do argumento é que os seres humanos são animais sociais e, em sociedades excessivamente desiguais, aqueles que estão na camada inferior sofrem uma série de patologias. Por exemplo, um estudo feito com funcionários públicos britânicos concluiu que os mensageiros, porteiros e outros empregados de nível baixo eram mais propensos a morrer por causa de doenças cardíacas, suicídio e alguns tipos de câncer.
Desigualdade. Existem evidências similares no caso de outros primatas. Por exemplo, os macacos são também animais bastante sociais. Os cientistas os colocaram em jaulas e os ensinaram como puxar uma alavanca para, assim, poder obter cocaína. Os que estavam no degrau mais baixo da hierarquia dos macacos usaram mais cocaína do que aqueles em uma posição superior.

Pesquisadores constataram que, quando as pessoas ficam desempregadas ou sofrem um revés econômico, engordam. Um estudo entre homens americanos, realizado durante 12 anos, concluiu que, quando sua renda diminuía, eles engordavam em média 2,5 quilos.

Os professores Richard Wilkinson e Kate Picket fizeram muitos cálculos e mostraram que a mesma relação vale para uma série de problemas sociais. Entre os países ricos, os mais desiguais registram mais doenças mentais, uma maior mortalidade infantil, obesidade, uma evasão escolar maior, um número crescente de adolescentes grávidas, mais homicídios e assim por diante.

Por que a desigualdade é tão prejudicial? Segundo o livro dos dois epidemiologistas, ela corrói a confiança social e a vida comunitária, debilitando as sociedades como um todo. E os humanos, como seres sociais, ficam estressados quando se encontram no patamar mais baixo dessa hierarquia.

Esse estresse provoca mudanças biológicas, como a liberação do hormônio Cortisol e o acúmulo de gordura abdominal. O resultado são enfermidades físicas, como doenças cardíacas, e sociais, como crimes violentos, desconfiança entre as pessoas, comportamento autodestrutivo e pobreza persistente. Uma outra consequência é a criação de sistemas alternativos em que as pessoas respeitam umas as outras e podem encontrar autoestima, como no caso das gangues.

Certamente, os humanos não são todos iguais em capacidade. Haverá sempre alguns que são mais ricos e outros, mais pobres. No entanto, a desigualdade não deve ser tão gritante, opressiva e polarizada como nos EUA de hoje.

Alemanha e Japão são economias eficientes e modernas com muito menos desigualdade do que os EUA - e com muito menos problemas sociais. Da mesma maneira, o fosso entre ricos e pobres diminuiu durante o governo de Bill Clinton, de acordo com dados citados no livro The Spirit Level, apesar de não ter sido um período de vigor econômico.

"A desigualdade divide as pessoas e mesmo as pequenas diferenças parecem se tornar uma importante diferença", observam os professores. Para eles, não são apenas os pobres que se beneficiam da coesão social que surge com a igualdade, mas toda a sociedade.

Assim, no momento em que se debate a política nacional americana em 2011 - desde o imposto imobiliário até o seguro-desemprego e a educação infantil - é preciso empenho geral para reduzir os níveis chocantes de desigualdade nos EUA. Essas desigualdades são profundamente prejudiciais para os americanos e para a alma do país. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E REPÓRTER ESPECIAL

Como visto, este é um texto do The New York Times, reproduzido pelo O Estado de São Paulo, mas visto no blog do Luís Nassif