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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Morre italiano Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura em 1997

Morre italiano Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura em 1997

Escritor ganhou fama com a peça "Mistério Bufo"

 O italiano Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura em 1997, morreu aos 90 anos, informou nesta quinta-feira a imprensa de seu país. "A Itália perde um dos grandes protagonistas do teatro, da cultura, da vida civil de nosso país", afirmou o primeiro-ministro Matteo Renzi ao prestar homenagem ao escritor.
"Sua obra satírica, sua busca, seu trabalho cênico, sua atividade artística de múltiplas facetas são a herança de um grande italiano do mundo", completou Renzi. Inconformista e observador de sua época, Fo, que também era ator, ganhou fama em 1969 com a peça "Mistério Bufo", uma epopeia sobre os oprimidos inspirada na cultura medieval. Na obra, o herói, um malabarista, estimula a rebelião com o sorriso.
A convocação à rebelião contra os poderosos e os hipócritas, com uma linguagem criativa, é um tema constante da obra Dario Fo. Entre suas obras teatrais mais conhecidas estão "A Morte acidental de um anarquista" e "Ninguém Paga, Ninguém Paga", entre outras.

Dario Fo pregou a criação de um teatro libertário

Ao lado de sua principal colaboradora, a mulher Franca Rame, Fo valorizava a importância do ator em cena, apontado não apenas como meramente um intérprete mas especialmente um criador.
Cada palavra dita em cena tem seu peso, pois os textos de Fo têm um face política, fortemente ligada à sua personalidade, e uma artística, renovadora e voltada ao passado. Autor de peças como Morte Acidental de Um Anarquista (sucesso no Brasil com Antonio Fagundes, Sérgio Britto e, ainda em cartaz, Dan Stulbach), Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico (montagem-chave de Denise Stoklos), Brincando em Cima Daquilo (primeiro encenado por Marília Pêra) e Pegue e Não Pague (outro sucesso, com Gianfrancesco Guarnieri), Dario Fo ganhou o Nobel "porque seguiu a tradição dos trovadores medievais criticando o poder e restaurou a dignidade dos humilhados", segundo comunicado da academia sueca.
De fato, por conta de sua irreverência, ele foi processado mais de 40 vezes por "delito de opinião" e ainda censurado pela direita. Franca Rame foi sequestrada e estuprada por um grupo fascista em 1973. Mesmo assim, no ano seguinte, ele montou seu teatro (Coletivo Teatrale da Comuna) em Milão, em um edifício abandonado - o Palazzina Liberty. Lá, sempre pregou a criação de um teatro libertário, que tratasse de temas muito próximos do cotidiano, como sexualidade, violência e dignidade.


Reprodução do Correio do Povo.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Em peça de John Logan, Rothko acerta suas contas com o público e com Deus

Baltazar era rei da Babilônia, e ordenou um banquete. Taças de ouro, roubadas do templo dos hebreus, cobriam a mesa. Cortesãos e concubinas bebiam o vinho dessas taças, e "louvavam os deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra".
A história está na Bíblia (Daniel 5), e assim prossegue. No meio do banquete, dedos de mão humana surgiram do alto e inscreveram palavras hebraicas na parede.
"Mene, mene, tequel, parsim". Chamado pelo rei, o profeta bíblico traduz: "Deus contou os dias do teu reinado e determinou seu fim. Foste pesado na balança e achado em falta".
Naquela mesma noite Baltazar foi morto pelos exércitos de Dario.
A passagem bíblica é citada na peça "Vermelho", de John Logan, que reestreia em São Paulo no Tuca.
Antonio Fagundes é o pintor americano Mark Rothko (1903-1970), e seu filho Bruno Fagundes interpreta Ken, seu jovem ajudante. Sem perder por um minuto a atenção do espectador, a peça se limita a esses dois personagens, que dialogam sobre a arte e a morte (Rothko deu fim à própria vida cortando os pulsos).
No mesmo dia de seu suicídio, a Tate Gallery de Londres recebeu uma das maiores obras do pintor abstrato. Tratava-se de uma série de painéis encomendada pelo arquiteto Philip Johnson, por uma quantia que hoje seria equivalente a mais de US$ 2 milhões.
A obra serviria para decorar o chiquérrimo restaurante Four Seasons, num edifício projetado por Johnson e Mies van der Rohe, o Seagram Building. A peça de John Logan acompanha o trabalho e os pensamentos de Rothko enquanto cuida de atender à encomenda. Ele esbraveja o tempo todo contra Ken, o jovem assistente; a simpatia e o carisma de Antonio Fagundes nos impedem de detestá-lo.
Há a considerar que Rothko também diz muitas verdades. "Vocês hoje em dia", reclama o pintor, acham tudo "legal". A televisão torna tudo feliz, tudo é muito divertido, temos o direito constitucional ao entretenimento permanente...
Ele imita o otimismo americano dos anos 1950. "Como você está? Legal. Como foi seu dia? Legal. Como você se sente? Legal. O que achou do quadro? Legal. Vamos jantar? Legal..."
Rothko explode. (Traduzo da versão em inglês, na peça está melhor.) Não, nada está "legal". Coisa nenhuma está "legal"!
O mau humor do mestre expressionista se revela também numa discussão com seu ajudante. Rothko não se contenta quando este pronuncia, simplesmente, a palavra "vermelho". Afinal, há o vermelho da ferrugem, do rosto de quem se envergonha, do sangue coagulado...
Os dois personagens trocam ferozmente seus próprios exemplos daquela cor. "Papai Noel", diz o jovem. "Satanás", responde Rothko.
Só que o negro vai tomando conta dos quadros do pintor. Buscando, por meio de finas camadas de tinta superposta, criar uma pulsação, uma latência de cores e mais cores, a pintura de Rothko provavelmente só funciona bem se vista ao vivo, com iluminação própria. Nas reproduções, vemos grandes retângulos imprecisos, bonitos na superfície de seus tons, mas talvez algo estáticos e decorativos.
Ele pensava nos quadros quase como pessoas vivas, que "falam", que interpelam o espectador automático e desumanizado, pronto a achar tudo "legal".
"Quero estragar o apetite de todo filho da puta que estiver no restaurante", gaba-se Rothko ao pensar na sua encomenda de muitos milhões de dólares.
A contradição se torna clara, entretanto. Toda a missão agônica e espiritual daqueles painéis não resistiria ao comercialismo do projeto e aos próprios interesses financeiros de Rothko.
Não conto mais da peça, que de todo modo vive no detalhe dos diálogos, nos muitos matizes e tons da interpretação, e nos maravilhosos efeitos de luz a cargo de Ney Bonfante. Mas fico pensando se os quadros de Rothko, num restaurante finíssimo, não teriam servido como as palavras de Deus escritas na parede, durante o festim de Baltazar: "Os dias de teu reino estão contados, foste pesado na balança e achado em falta".
Dentro ou fora das paredes de um restaurante, toda grande arte está exposta à indiferença, ao turismo, à procura de status, ao comércio e à ostentação.
Talvez, para que a arte signifique alguma coisa, cada espectador tenha de encará-la como um aviso: "Estás em falta". Sem sentir essa falta, vale mais a pena olhar para o cardápio do restaurante.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

domingo, 17 de julho de 2016

Crítico de teatro Sábato Magaldi morre aos 89 anos

Crítico de teatro Sábato Magaldi morre aos 89 anos

Autor foi peça chave na leitura de Nelson Rodrigues
Um dos maiores críticos de teatro brasileiro, Sábato Magaldi morreu nessa quinta-feira, por volta das 23h, aos 89 anos, em São Paulo. De acordo com o jornal O Estado de S.Paulo, o escritor estava internado desde sábado no hospital paulista Samaritano, diagnosticado com choque séptico e comprometimento pulmonar.
Magaldi era membro da Academia Brasileira de Letras, ensaísta, crítico e autor livros que já se tornaram referência na área teatral. Nascido em 9 de maio de 1927, mineiro de Belo Horizonte, o autor tornou-se bacharel em Direito. O velório será realizado nesta sexta-feira, das 12h às 15h, no Crematório Embu das Artes, em São Paulo.
Peça chave na leitura de Nelson Rodrigues
Os estudos de Sábato Magaldi sobre a obra de Nelson Rodrigues são incontornáveis para quem tem - e também para quem não tem - planos de encenar peças do autor. É possível arriscar que todas as recentes montagens dos textos de Rodrigues foram guiadas pela divisão formal, em categorias, estabelecida por Magaldi, autor de um ensaio seminal sobre a presença do mito na dramaturgia do autor pernambucano (carioca por adoção).
Em seu livro Teatro da Obsessão, Magaldi chama a atenção, por exemplo, para a antológica montagem de Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno (1981) por Antunes Filho e o Grupo Macunaíma, feita sob o impacto da leitura do historiador e mitólogo romeno Mircea Eliade: a emergência de uma nova vida após o caos, o aniquilamento, a destruição do núcleo familiar. Nunca antes, na história do teatro brasileiro, Nelson Rodrigues fora visto dessa maneira, sendo quase sempre reduzido a um dramaturgo vulgar, sem vínculos com a tradição teatral erudita.
Pois é justamente a análise de Os Sete Gatinhos em Teatro da Obsessão que estabelece uma conexão inaudita entre Nelson Rodrigues e Édipo Rei de Sófocles, ao destacar o sacrifício do patriarca - ritualístico, em sua essência - para que a unidade familiar seja preservada. Classificada entre as "tragédias cariocas" do autor por Magaldi, Os Sete Gatinhos era tratada antes de Magaldi como um manual de perversões sexuais. Eram, enfim, desprezados a dimensão psicológica e o conteúdo mítico da peça.
Magaldi dividia o teatro de Nelson Rodrigues em três categorias: peças míticas, psicológicas e tragédias cariocas. Ao prefaciar o Teatro Completo de Nelson Rodrigues, o crítico explica que adotou o critério cronológico para facilitar ao leitor a tarefa de entender os procedimentos dramáticos do autor, mostrando como a irrupção no território mítico com Álbum de Família (1945) levou Rodrigues a evocar a tragédia grega e mergulhar no inconsciente primitivo.
Dois anos antes de Álbum de Família, a estreia da polêmica Vestido de Noiva (1943), sob a direção de Ziembinski, definiria o marco zero das "peças psicológicas" do autor, segundo a divisão formal de Magaldi. Nela, a fronteira entre a memória e alucinação é tênue, como observa o crítico, o que deu ao dramaturgo a oportunidade de mostrar seu desprezo - ele que era jornalista - pela realidade.
Ao agrupar as tragédias cariocas, talvez o núcleo com as peças mais populares de Rodrigues (A Falecida, Boca de Ouro, O Beijo no Asfalto, Toda Nudez Será Castigada, entre outras), Magaldi escreveu o ensaio definitivo sobre ele, equiparando-o em ao teatro de Shakespeare.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Nua, atriz expurga males da sociedade de consumo

Nua, atriz expurga males da sociedade de consumo

Christiane Tricerri estreia monólogo 'A Merda', do italiano Cristian Ceresoli
Personagem marcada pela feiura e por uma grande necessidade de aceitação despeja na plateia suas cicatrizes
BARBARA GANCIADE SÃO PAULO

"A Merda" de Christiane Tricerri lava a alma. Ela está nua em cena no monólogo, que estreia em São Paulo nesta quinta-feira (9). E vem fervendo. Empoleirada sobre um pedestal, em 60 minutos sua personagem se vale de uma frenética associação de ideias para provocar estímulos nada banais na plateia.
A nossa ignorância, a repulsa, as revelações mais escandalosas, do tipo que provocam o riso histérico para aplacar o desconforto, e as memórias coletiva e individual mais inóspitas que sua personagem furibunda e tão contemporânea faz questão de esbofetear na nossa cara.
Capaz de você sair do teatro de pernas bambas, como quem desce da montanha-russa mais radical do parque da Universal, de Orlando.
Tricerri está ainda mais vigorosa e peituda do que de costume, sua performance consegue criar empatia entre o espectador e a espécie de aberração que está ali feito um gárgula a vociferar sobre os detalhes mais desagradáveis da existência.
Trata-se de uma mulher marcada pela feiura, pela manipulação ensejada pelo trinômio mercado, governo e machismo e pelo desejo de não passar a vida em branco.
A personagem deseja ser... apresentadora de TV, claro. Na sua cabeça, vai montando o diálogo que terá durante o teste com a equipe da emissora que a chamar.
São três atos tragicômicos. Nessa gigantesca colcha de retalhos de cicatrizes, nós somos capazes de perceber no desespero da personagem a nossa própria inquietação.
A ação se passa na Itália, as referências são inúmeras, Tricerri canta estrofes da malfadada letra do hino da Itália da unificação, de autoria de Goffredo Mameli, que convoca os italianos a recuperarem o espírito vitorioso dos antigos romanos, conclamando que vistam o elmo de Cipião, o centurião que derrotou Aníbal, o Grande, na Antiguidade.
Foram 600 anos de derrotas, ocupações e sangue derramado depois de Cipião.
A ação se dá na contemporaneidade. O que significa que a personagem, mesmo jovem, deva ter sentido os respingos dos anos de chumbo das Brigadas Vermelhas, na década de 70, e depois ainda testemunhado os escândalos da Operação Mãos Limpas, nos anos 90, o banqueiro do Vaticano enforcado numa ponte londrina, o escândalo da Loja Maçônica P 2 em que 972 empresários e políticos foram indiciados pelo poder público, sendo um deles um tal de Silvio Berlusconi, que depois acabou se tornando primeiro-ministro da Itália (1994-2011).

LÁ COMO CÁ

Haja merda, não é mesmo?
E é aí que está a genialidade do texto do piemontês Cristian Ceresoli e a sacada da atriz, produtora e diretora Christiane Tricerri em trazer o monólogo "A Merda" para o palco quase sem adaptação.
A merda acaba sendo sempre a mesma. Compare: o futebol e a TV são os pilares ao redor dos quais giram os rituais da família, a glória do hino de Mameli permanece tão congelada no futuro quanto o nosso "gigante adormecido em berço esplêndido".
E, tanto lá como cá, há uma legião de jovens pirando na solidão dos seus quartinhos miseráveis, mas que vomitariam tudo o que a personagem de Tricerri joga no colo da plateia. Porque sou feia, pratiquei felação no fanho aleijado lá da escola; porque tenho coxas deformadas, deixei que abusassem de mim, e assim por diante.
A deglutição da sua própria carne, a digestão transformadora e a evacuação redentora de material que lhe foi tão inútil e incômodo, que esteve ali presente o tempo todo quase como um testemunho perverso do seu fracasso, do fracasso da Itália e, por fim, da humanidade, é a realização de uma fantasia.
É a eliminação do obstáculo material que está ali a nos impedir de realizar o sonho. "Cagando pelo cu, pelo cu" (a frase é repetida com sabor infantil para cutucar o fígado da plateia) é um ato libertador.
Estamos falando da verdadeira revolução pretendida pelo cineasta Pier Paolo Pasolini --que criticava o "genocídio cultural" da sociedade de consumo moderna. Aquela que talvez só veja encantamento na aceitação de que tudo é merda.

A MERDA
QUANDO dia 9/7, às 18h; qui. a sáb., às 20h30; até 15/8
ONDE Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 7,50 a R$ 25
CLASSIFICAÇÃO 18 anos

Reprodução da Folha de São Paulo

sábado, 11 de abril de 2015

Morre aos 91 anos a crítica teatral Barbara Heliodora, no Rio de Janeiro

Morre aos 91 anos a crítica teatral Barbara Heliodora, no Rio de Janeiro

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Brasil se despede de uma das suas damas do teatro


Brasil se despede de uma das suas damas do teatro

Maria Della Costa morreu nesse sábado, no Rio de Janeiro
A atriz Maria Della Costa, considerada uma das damas do teatro brasileiro, morreu aos 89 anos no sábado passado. Ela estava internada no Hospital Samaritano, em Botafogo, na zona Sul do Rio de Janeiro, e teve um edema pulmonar agudo. O corpo da atriz Maria Della Costa foi velado no Theatro Municipal do Rio. Familiares e amigos — entre eles atores como Nathalia Timberg — compareceram ao local para prestar as últimas homenagens a uma das maiores atrizes do teatro brasileiro. “Uma gaúcha poderosa e linda, sem nenhum tipo de estrelismo.” Essa é a lembrança que fica para o ator Ney Latorraca.

Depois seu corpo foi levado a Paraty, onde também foi velada na Câmara dos Vereadores da cidade e posteriormente enterrada no Cemitério Municipal de Paraty. Com a carreira iniciada aos 18 anos, em 1944, ela interpretou papéis em obras como “Anjo Negro”, de Nelson Rodrigues. Ao lado de seu segundo marido, Sandro Polloni, ela fundou em 1948 o Teatro Popular de Arte, no Rio de Janeiro, origem da Companhia Maria Della Costa, sediada em São Paulo, que se tornou, com a inauguração da própria casa de espetáculos em 1954, uma referência preciosa no teatro no Brasil. Na televisão, interpretou papéis nas novelas “Beto Rockfeller” e “Estúpido Cupido”, entre outras. No cinema atuou em diversos filmes: “O Cavalo 13” (1946) e “O Malandro e a Grã-fina” (1947), ambos sob a direção de Luiz de Barros; “Inocência” (1949); e “Caminhos do Sul” (1949). Ela não tinha filhos.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 24 de julho de 2014

'Caetana' leva o escritor Ariano Suassuna aos 87

'Caetana' leva o escritor Ariano Suassuna aos 87

Defensor fervoroso da cultura brasileira, o criador de 'Auto da Compadecida' deixa uma obra reconhecida por aproximar o erudito e o popular; governo de Pernambuco decreta luto de três dias
FABIO VICTOREDITOR-ADJUNTO DA "ILUSTRADA"

Morreu nesta quarta-feira (23) no Recife, aos 87 anos, o escritor e dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, em decorrência de uma parada cardíaca provocada por hipertensão intracraniana.
Ele estava internado no Real Hospital Português desde a segunda-feira (21), quando teve um AVC hemorrágico e foi submetido a uma cirurgia neurológica de emergência. Em coma desde terça (22), respirava por aparelhos.
O corpo do autor de "Auto da Compadecida" e "Romance d'A Pedra do Reino", imortal da ABL (Academia Brasileira de Letras), será enterrado no cemitério Morada da Paz, em Paulista, na região metropolitana do Recife.
O sepultamento está marcado para as 16h desta quinta. Até as 15h, o corpo será velado no Palácio Campo das Princesas, sede do governo de Pernambuco. O governador, João Lyra Neto (PSB), decretou luto de três dias.
Nascido em 16 de junho de 1927 em João Pessoa, quando a capital da Paraíba tinha o mesmo nome do Estado, vivia no Recife desde 1942.
Um dos autores mais populares do país, tornou-se ainda mais conhecido a partir dos anos 1990, quando passou a rodar o país com suas "aulas-espetáculos", misto de palestra, concerto e balé em que exibia com graça picaresca a erudição e o fervor pela cultura brasileira.
Sempre se revelou um palhaço frustrado e dizia que gostaria de morrer no palco.
Nas aulas, usava terno preto e camisa vermelha, cores do Sport Club do Recife, time do coração. Brincava que o traje era "sport fino".
A aproximação entre erudito e popular está na essência da obra de Suassuna --ou Ariano, como era chamado em Pernambuco.
Escreveu teatro, romance, poesia e ensaio, com 14 livros publicados e traduções para diversas línguas.
Trabalhava havia 33 anos num projeto que seria sua obra total: vários volumes reunindo romance, teatro, poesia e gravura.
Em dezembro, em entrevista à Folha, afirmou ter feito "um pacto com Deus" para, apesar dos problemas de saúde, conseguir concluir o primeiro volume deste romance monumental, que deveria ter ao todo sete volumes.
Era também artista plástico e foi por quase 40 anos professor de estética da Universidade Federal de Pernambuco.
A reelaboração estética das matrizes da arte popular nordestina (folhetos de cordel, violeiros, xilogravuras etc.), com influência da cultura medieval ibérica e de escolas clássicas como o barroco está na base do Movimento Armorial criado por Suassuna nos anos 1970, com manifestações no teatro, na literatura, na música nas artes visuais e na dança.

SAGRADO E PROFANO

As sementes armoriais estão nos primeiros trabalhos do autor no teatro. Estreou com a peça "Uma Mulher Vestida de Sol", de 1947.
Mas foi a veia picaresca de "O Auto da Compadecida", de 1955, que o revelou ao país.
O teatro de Suassuna é marcado pela confusão entre o sagrado e o profano, pela farsa e por palhaços e pícaros inesquecíveis, como João Grilo e Chicó, de "Auto da Compadecida" --adaptada para o cinema e para a TV.
Ambientada numa cidade sertaneja, narra as aventuras de dois amigos cujas falcatruas se mesclam às de padres e cangaceiros. Os dilemas morais e religiosos são levados a julgamento divino.
"O Santo e a Porca", "A Farsa da Boa Preguiça" e "A Pena e a Lei" são outras de suas peças de destaque.
Na literatura, seu grande feito foi "O Romance d'A Pedra do Reino", de 1971. Recria, num sertão mítico e épico, o episódio da Pedra Bonita, quando, no século 19, fiéis sebastianistas cometeram suicídio coletivo no sertão de Pernambuco.
Ariano dizia que, se fossem queimar todos os seus livros e tivesse de escolher um para ser salvo, seria "A Pedra do Reino". O juízo sobre o valor do romance não era só dele.
O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu: "Não é qualquer vida que gera obra desse calibre". O livro foi comparado a "Dom Quixote", de Cervantes, pelo político Carlos Lacerda (1914-1977), e à "Divina Comédia", de Dante, pelo crítico literário Hermilo Borba Filho (1917-1976).
Já Millôr Fernandes (1923-2012) afirmou que incluía a obra de Ariano "entre os dez maiores romances brasileiros" de todos os tempos.
Oitavo dos nove filhos do advogado e político João Suassuna com Rita de Cássia Dantas Vilar, Ariano nasceu no Palácio da Redenção, sede do governo da Paraíba, pois o Estado era, naquele 1927, governado pelo seu pai.
A figura paterna paira sobre sua vida e sua obra. É impossível interpretar seu trabalho sem conhecer a tragédia familiar ocorrida quando o autor tinha três anos.
João Suassuna foi assassinado em 1930 por um pistoleiro, no calor da revolução que explodiu no país naquele ano e culminou num golpe, como vingança pela morte de João Pessoa, estopim do levante. O assassino de João Pessoa, João Dantas, era aliado político do pai de Ariano.
"Como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930 passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo", disse Ariano, em seu discurso de posse na ABL, em 1990.
Só em entrevistas recentes, a primeira em 2011, 81 anos após o crime, Ariano mencionou que começava a cogitar perdoar o assassino do pai.

BRASIL REAL

O engajamento na cultura e nas causas populares o alinharam sempre à esquerda na política. Fez campanha para os petistas Lula e Dilma.
Costumava mencionar o embate desigual entre o Brasil real dos pobres e oprimidos e o Brasil oficial e citar a experiência socialista-religiosa do arraial de Canudos, no fim do século 19, como o episódio mais significativo da história do Brasil.
Virou secretário de Cultura de Pernambuco nos anos 1990 a pedido de Miguel Arraes (1916-2005), na terceira vez em que o líder esquerdista foi governador do Estado. Exerceria o cargo uma segunda vez, no primeiro mandato de Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes de cujo governo o escritor seria assessor especial. Apoiava Campos na atual corrida à Presidência.
A defesa intransigente da cultura nacional atraiu críticas dos que o viam como um nacionalista quixotesco. Teve rusgas com tropicalistas e com integrantes do mangue beat --mas acabaria indo ao velório de Chico Science (1966-1997) e chorando à beira do caixão do compositor que foi um dos principais nomes do movimento.

CAETANA

Na mitologia do sertão nordestino, a morte é chamada de Caetana. Como moça ou onça, a figura sedutora está presente na obra de Ariano.
Mas o fascínio ficava na ficção. Ao fazer 80 anos, disse numa entrevista, logo após mencionar a Caetana: "Não gosto dela não. Eu me recuso a morrer. Toda morte tem um componente de suicídio, e eu não me rendo".
O escritor deixa a mulher, Zélia, companheira de 66 anos (56 de casamento) e que ele dizia ser "a grande figura" de sua vida, cinco dos seis filhos (o primogênito morreu em 2010) e 15 netos.

Reprodução da Folha de São Paulo

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Encontrado manuscrito de obra inédita de Lope de Vega

Encontrado manuscrito de obra inédita de Lope de Vega

Análise métrica se encaixa com a utilizada pelo dramaturgo por volta dos anos 1613 e 1614

Uma cópia manuscrita da comédia inédita "Mujeres y criados", escrita há quatro séculos pelo dramaturgo espanhol Félix Lope de Vega e que acreditava-se perdida, foi descoberta na Biblioteca Nacional da Espanha (BNE), anunciaram nesta quarta-feira os especialistas.

"O manuscrito localizado, uma cópia do século XVII, não havia sido relacionado a esta obra de Lope de Vega até o momento", informou em um comunicado o BNE e a Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), à qual o grupo de pesquisa pertence.

A obra foi identificada graça ao trabalho de Alejandro García Reidy professor da Universidade americana de Syracuse e membro do grupo PROLOPE da UAB, responsável por investigar e editar este mestre da literatura espanhola.

"A análise métrica se encaixa perfeitamente com a utilizada pelo dramaturgo por volta dos anos 1613 e 1614 e do copista que transcreveu o manuscrito em 1631, identificado com Pedro Valdes", explicou Reidy.

Reprodução do Correio do Povo

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Cortázar (I): Peça usa 18 carros e recria caos viário

Peça usa 18 carros e recria caos viário
Dentro de uma vila, Grupo XIX encena situações de um congestionamento a partir de conto de Julio Cortázar
Cada carro é ocupado por três espectadores na criação em parceria com a Compagnia del Teatro Dell'Argine
GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULO

A última coisa que "Estrada do Sul" pode oferecer a seu espectador é uma experiência singular, a não ser que haja alguém em São Paulo, um índio ou um esquimó talvez, que nunca tenha estado na situação que o espetáculo reproduz, um engarrafamento elevado ao nível do absurdo.
De qualquer forma, para chegar à Vila Maria Zélia, onde a montagem é encenada, na zona leste, é preciso passar pelo risco de experimentar um tira-gosto. O trajeto até lá passa pela marginal, pela Radial Leste ou pela avenida Celso Garcia, exceto para quem mora na vizinhança.
O local escolhido para a encenação, que usa 18 automóveis, fica em uma ruela nos fundos da vila, tombada desde os anos 1990 por seu valor histórico. Ali, em um galpão, também funciona a sede do Grupo XIX, que habita aquelas cercanias com seus espetáculos itinerantes desde 2004, quando criaram o projeto da peça "Hygiene".
Cada carro de "Estrada do Sul" recebe três espectadores. Adaptado do conto "A Autoestrada do Sul", de Julio Cortázar, o espetáculo vai acontecer dentro e fora dos automóveis, com momentos que se deslocam entre o "olho no olho" com atores até as paisagens insólitas construídas por cima de capôs.
Segundo Luiz Fernando Marques, um dos fundadores do XIX, potencializa-se nos cerca de cem minutos de encenação uma pesquisa fundamental da companhia: ninguém vai ver o mesmo espetáculo, ninguém vai testemunhar os mesmo diálogos.

PEGA LADRÃO

Em um ensaio que o grupo abriu à Folha na última sexta, era possível encontrar cenas espalhadas por todos os lugares, com intersecções entre elas: assiste-se a uma briga à frente do automóvel e simultaneamente há a imagem de um casal conversando, espelhada pelo retrovisor.
O espectador estabelece recortes, portanto, assumindo quase o papel de um investigador. Há, aliás, um roubo temperando a trama, com diversos suspeitos. As pistas são jogadas por entre diálogos e monólogos, com resultado frustrante: sabe-se lá o que o espectador do carro vizinho também ouviu.
"As relações dentro dos carros ficam no campo pessoal e íntimo; nas cenas externas, estão mais em evidência as questões políticas", analisa Marques.
Não há, neste recorte, fidelidade total ao conto de Cortázar, a não ser pelo agravamento das situações. Os mantimentos e a água escasseiam-se, estabelecendo novos conflitos. O tempo demora a passar na mesma medida em que a permanência da situação se prorroga.
O espetáculo foi concebido em parceria com a italiana Compagnia del Teatro Dell'Argine, com direção e dramaturgia de Pietro Floridia, que já trabalhou em países como Bolívia, Marrocos, Senegal, Palestina e Líbano.
O que uniu os dois grupos foi a proximidade de suas metodologias, a investigação sobre itinerância, o uso de espaços não convencionais. A dramaturgia é amarrada por Floridia a partir de depoimentos e improvisos dos atores.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Jô Soares leva à cena abismo entre gerações

Jô Soares leva à cena abismo entre gerações
Na peça americana 'Três Dias de Chuva', filhos tentam entender atitudes e decisões dos pais
GUSTAVO FIORATTIDE SÃO PAULO

Durante o período de ensaio da peça "Três Dias de Chuva", o diretor Jô Soares fez um teste: inverteu a ordem da peça, colocando o segundo ato antes do primeiro. Com isso, verificou o sentido cronológico no enredo do espetáculo, que estreia amanhã no teatro Raul Cortez.
A experiência de fazer esse deslocamento tem um sentido simples e funcional: o primeiro ato de "Três Dias de Chuva", com texto do americano Richard Greenberg, transcorre nos anos 1990; o segundo faz um longo flashback para os anos 1960.
Na primeira parte, três jovens discutem a vida de seus pais; dois dos personagens (Otávio Martins e Carolina Ferraz) são filhos de um famoso arquiteto, que morre.
O terceiro papel (Petrônio Gontijo) é o de um amigo que, surpreendentemente, está no testamento como herdeiro.
No segundo ato, a peça retorna à vida dos pais desses jovens para resgatar os fatos que terão influência direta no futuro --ou na ação retratada no início do espetáculo.

INCOMPREENSÃO

Com a inversão temporal, a peça cria uma espécie de quebra-cabeça. Mais do que isso: mostra a incapacidade dos filhos de compreender o passado dos pais em sua totalidade. "Às vezes, muita coisa aconteceu de maneira totalmente diferente do que pensamos", considera Jô.
"Uma geração não consegue passar totalmente para a outra aquilo que viveu", completa Gontijo. O diretor diz que conheceu o texto por intermédio de Martins.
Na montagem, todos os intérpretes acumulam personagens. Segundo Martins, o próprio texto indica os papéis que devem ser feitos por um mesmo ator. "Isso, na verdade, é fundamental para a compreensão da história", conta.
Nos Estados Unidos, a peça foi encenada com Julia Roberts e Bradley Cooper no elenco. Na versão brasileira, retoma-se a atmosfera nova-iorquina.
O primeiro ato transcorre em um loft antigo, com tijolos aparentes. O segundo é o mesmo loft, só que novinho e recém-reformado.
A montagem conta com figurinos de Fabio Namatame e desenho de luz de Maneco Quinderé.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Protagonista de peça manipula os sonhos para escapar do real

Protagonista de peça manipula os sonhos para escapar do real
'Entre Nebulosas e Girassóis' mescla onírico e realidade para refletir sobre o amor e a solidão nos dias atuais
Espetáculo da Cia. de Teatro Adulto, que esteve no último Festival de Curitiba, estreia hoje em SP
GABRIELA MELLÃOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O protagonista de "Entre Nebulosas e Girassóis", peça que estreia hoje em São Paulo, manipula sonhos. Se fixar o olhar no vazio por um longo tempo ao se deitar, é capaz de inserir-se em um mundo paralelo. Assim, desfruta duas vidas: a real e a sonhada, na qual concretiza o amor platônico da primeira.
O espetáculo da Cia. de Teatro Adulto integrou a Mostra de Espetáculo Mineiros no último Festival de Teatro de Curitiba. Nasceu de um desejo da diretora Cynthia Paulino e dos artistas da peça de oferecer uma tradução singular do amor e da solidão na contemporaneidade.
A descoberta do amor é apresentada num universo encantado, por meio de uma linguagem de caráter lírico e belos relatos oníricos. O novo casal passeia pelo mundo, percorrendo passado e futuro. Também dança com primatas e chora o fim da Terra.
Pintada com cores de fantasia, a irrealidade surge soberana, diminuindo a força da vida mundana. "Tudo, o sibilar dos pássaros, as cores das folhas, as vozes nas ruas, parecia artificial e terrivelmente entediante, quando comparado ao mundo novo que eu arquitetava sobre os travesseiros", diz o sonhador em cena.
A concepção da obra também encontra-se fundida entre os planos de fantasia e de realidade. Como uma rachadura entre essas fronteiras, um rio separa os ambientes que compõem o cenário.
Do lado do sonho, há flores de papel coloridas, iluminadas com cores quentes. O outro, marcado por uma luz opaca e uma única cadeira negra, evoca a realidade sem vida do protagonista.
"O personagem inventa sonhos para fugir da mediocridade que perpassa sua existência", afirma o ator Luiz Arthur, que divide o palco com Rafael Neumayr, autor da peça, e a atriz Julia Marques.
Para a diretora, há um paralelo entre a trajetória do protagonista e a do homem hoje.
"Vivemos dentro de algo que, na maioria do tempo, não é vida de verdade. Falta paciência para a construção das relações, falta querer se envolver e dar tempo ao tempo."

ENTRE NEBULOSAS E GIRASSÓIS
ONDE Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245; tel. 0/xx/11/3234-3000)
QUANDO seg, e ter., às 20h; até 30/7
QUANTO de R$ 2,50 a R$ R$10
CLASSIFICAÇÃO 12 anos


Reprodução da Folha de São Paulo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gregos e Troianos


Gregos e Troianos


A classe artística é dividida. O cinema, apesar das divergências, sempre soube se posicionar em bloco. O caráter industrial das artes e ciências cinematográficas obriga o mais experimental dos cineastas a lidar com a tecnologia e o mercado. Além disso, o poderio dos blockbusters iguala o mais comercial dos filmes brasileiros ao mais autoral deles. Os ianques nivelam todo mundo por baixo.
Já no teatro, as versões brasileiras dos musicais da Broadway enfrentam as mesmas vicissitudes do empreendedor médio: alto custo da mídia, da produção, baixo valor do ingresso e dependência da isenção fiscal. Mas a falta de um inimigo comum acentua a cizânia.
Ouvi de um colega que os teatros de shopping deveriam ser boicotados por serem os responsáveis pelo vício do público em comédias ligeiras. Ficaríamos melhor sem eles? Pensei. Resolveríamos o descompasso com o espectador? Ou reduziríamos ainda mais o interesse vacilante da sociedade pelo que ocorre em cena?
Na minha adolescência, o teatro tradicional, feito por produtores como meu pai, era taxado de teatrão. Os grupos de pesquisa demonstravam insatisfação por ter que dividir os parcos recursos com a vertente considerada antiquada. O teatrão acusava as cooperativas de falta de consistência.
O Norte e Nordeste se queixam do monopólio do sul, a periferia reclama da capitalização dos grandes centros, os negros cobram uma reparação e os anônimos veem nos ditos famosos, muitas vezes cunhados de globais, a razão de ser de seu anonimato.
Como criar uma política pública justa diante de tamanha Babel?
Perguntei a Danilo Miranda, diretor do Sesc São Paulo, qual a sua opinião sobre o futuro da Lei Rouanet. Miranda acredita que ela será modificada, e precisa ser, segundo ele, para separar de maneira mais clara o que é marketing do que é investimento em cultura em troca de isenção fiscal das empresas.
A observação procede. Uma atenção maior do ministério para a linha tênue que separa a publicidade do patrocínio fortaleceria os fundamentos da Lei Rouanet e beneficiaria a todos democraticamente.
O Sesc São Paulo sempre teve uma visão ampla de educação, cultura e lazer. Focado na qualidade do que apoia e na população que pretende atingir, o Sesc oferece desde aulas de macramê, até um centro de pesquisa teatral como o CPT, de Antunes Filho.
Quando prefeita, Marta Suplicy se baseou no modelo do Sesc para construir uma rede de centros educacionais unificados, os CEUs, nos bairros carentes da capital.
Projetados para servirem apenas à comunidade, o circuito da periferia paulistana acabou entrando para o calendário das companhias nacionais de teatro.
Os prefeitos que sucederam Marta tiveram a honradez de dar continuidade ao projeto, ampliando sua política de ocupação. Hoje, os CEUs fomentam não apenas a cultura do seu entorno, como também o teatro que se produz no restante do país.
Minha mãe percorreu os CEUs com o espetáculo "Viver Sem Tempos Mortos", baseado na vida de Simone de Beauvoir. Poucas vezes a vi tão impressionada.
Foram oferecidas oficinas sobre o pós-Guerra e o existencialismo nos dias que precederam as apresentações lotadas, repletas de pessoas que nunca haviam pisado em um teatro. Sem demagogia, as educadoras elaboraram um trabalho exemplar de formação de plateia, tão fundamental quanto a do artista, mas raras vezes compreendido.
Quando "Viver Sem Tempos Mortos" submeteu seu projeto ao Ministério da Cultura, parte do órgão se mostrou avesso à sua aprovação. O assunto seria elitista demais para uma política de inclusão e um monólogo com uma atriz consagrada prescindiria do apoio da lei. O então ministro, Juca Ferreira, deu o parecer favorável.
A ideia de que a periferia deve consumir periferia e a elite, elite, subestima obra e plateia. O "Viver..." é a prova de que a ligação de Simone e Sartre não deixa de ser folhetim, assim como o Criolo prova que o hip-hop pode soar a Sinatra.
Marta é uma boa notícia para a cultura, um nome forte dentro e fora do partido.
Espero que a ministra leve sua experiência dos CEUs adiante e que conduza o ministério de forma a diminuir o arrivismo entre gregos e troianos.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Sérgio Britto, adeus


Da Folha.com

Morreu na manhã deste sábado (17) o ator e diretor Sérgio Britto, aos 88 anos. Ele estava internado desde novembro no Hospital Copa D’or, no Rio, por conta de problemas cardiorrespiratórios. O velório ocorrerá à tarde na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), no centro.
Em agosto, ele já havia sido internado no mesmo local, ao apresentar um quadro de bronquite e infecção respiratória.
Nascido em 29 de junho de 1923, o ator começou a carreira em 1945 e participou em 1948 de uma histórica montagem de “Hamlet” estrelada por Sérgio Cardoso. Renomado nome do teatro brasileiro, com dezenas de prêmios, trabalhou em mais de cem peças, passando de 90 as que subiu ao palco como ator.
À Folha, porém, Britto disse que só começou a se considerar ator em 1953, com as estripulias de “Uma Mulher e Três Palhaços”.
Na televisão, ele foi o diretor de “Ilusões Perdidas”, primeira novela da TV Globo, em 1965.
A mudança na carreira aconteceu quando ele deixou os papéis de galã, adequados ao seu então perfil atlético, e passou a fazer espetáculos difíceis como “Fim de Jogo” (1970), “Tango” (1972), “Autos Sacramentales” (1974) e “Quatro Vezes Beckett” (1985).
Britto relatou abertamente sua tentativa de suicídio, quando cortou os pulsos, aos 22 anos. Segundo ele, era uma tentativa de se libertar, livrar-se da medicina que estudou para agradar os pais –cursou até o sexto ano, na Faculdade da Praia Vermelha, e formou-se em 1948.
Em 2010, lançou a autobiografia “O Teatro e Eu” (Tinta Negra), em que fala dos grandes amigos, como Fernanda Montenegro, e dos colegas com quem se desentendeu, casos de Beatriz Segall, Laura Carneiro, Osmar Prado e outros.
Neste ano, o ator contracenou com Suely Franco na peça “Recordar é Viver”, dirigida por Eduardo Tolentino, em texto de Hélio Sussekind.
O corpo será velado na Assembleia Legislativa do Rio, mas ainda não há informações sobre o horário e local do enterro.


Visto no Jornale