sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Sem remédio

Ela está sem remédio e então, às quatro da manhã de uma quarta-feira, tem seis ideias para livros infantis e grava áudios longos para seu editor. Seu editor gosta de duas ideias e pergunta se está tudo bem MESMO. Ela está sem remédio e então, enquanto vê um filme, tem quatro ideias de podcasts e grava áudios longos para produtores de podcasts, mas é sábado nove da noite e eles respondem “escuto na segunda” e ela deita no chão da sala e, enquanto vê o filme que deveria servir para que relaxasse e se divertisse, começa a fazer abdominais pois não tem tempo a perder e precisa otimizar o tempo e esse filme parece realmente ótimo e renderia uma resenha, uma coluna e talvez esse mesmo filme dê uma ideia de livro ou podcast ou roteiro e abdominais, ela bem sabe, pioram sua cervicalgia então ela manda mensagens para seu reumatologista e também para sua professora de pilates que, por ser sábado à noite, não respondem de imediato. Então ela resolve ver o filme fazendo listas do que precisa resolver sobre a saúde de sua filha que está ótima, é bem verdade, a filha está maravilhosa, mas não vai ao dentista há mais de um ano, mas é pandemia, mas mesmo assim ela precisa escrever DENTISTA na lista pra que isso pare de gritar dentro do seu cérebro e ela também escreve tudo o que precisa decidir e resolver sobre a obra da sua casa e toda a sua vida profissional de hoje até 2022. E ela faz listas porque é a única forma de ela ficar vendo o filme.

Seu marido pede que ela apenas veja o filme e então ela volta a se sentar no sofá e, escondida, ela começa a cutucar uma bolha no dedão e que delícia cutucar a bolha até que está quase na carne e ela segue cutucando e sai um pouco de sangue. A pele morta e dura e pontuda e ela enfia a ponta da casca do dedão dentro da unha do dedão da mão. E essa dor é gostosa. Será que ela fez bem em ficar sem remédio? Claro que fez. Ela vai meditar e correr e fazer muita terapia e estudar muita psicanálise e vai ficar sem remédios porque eles incham e dão uma pança metade molenga metade inchada estranha e ela sabe que são os remédios que retêm liquido e retˆm também, em um limbo canalha, toda a sua intensidade e vontade de transar e vontade de fazer tantas coisas mas tantas coisas que sometimes são duas da tarde e seu corpo dói tanto que acabou o dia e dói tipo o corpo inteiro inflamado e latejando e ela precisa deitar e deitar é uma merda pois ela gosta de otimizar o tempo. Então ela deita com seu caderno de listas e anota ideias e grava áudios longos para pessoas que curtem algumas das ideias mas perguntam que horas ela vai fazer tudo isso uma vez que ela já não está conseguindo fazer o que tem pra fazer. Ela tira três dias de férias e vai parar no hospital porque parar é insuportável.

Ela está sem remédios e já sente o enjoo chegar e ela estava meio com saudade disso. Do mal-estar meio que permanente e meio que todo dia que faz com que ela não deseje enfiar 67 pães com queijos e doce de leite pra dentro do corpo. Com remédio ela não tem o mal-estar que tantas vezes a fez ir embora de todos os lugares. Mas o bem-estar que ela tem com os remédios faz com que ela queira passar chocolate na parede e comer a parede e ela estava cansada dessa fome que não é ela e desse corpo que consegue ir pra todos os lugares sem medo e sem emoção (e sometimes é tanta emoção que por isso dá medo) mas que não é exatamente o dela. E agora até a pressão voltou a baixar e isso é um saco realmente mas é melhor do que uma pressão absolutamente estável e um olhar passível e equilibrado e que não se importa. Ela se importa tanto que dá medo e que saudade desse medo. Foram três anos sem gritar e arrumar encrenca e brigar e odiar e parece ótimo isso, nossa que pessoa funcional e madura. Mas é uma merda porque, socorro, olhem em volta, precisamos gritar e brigar. E ela escutou Strokes bem alto no carro e ficou inteira arrepiada e, perdão matrimônio, agora ela vê algumas pessoas, de todos os credos e gêneros e idades, e fantasia com elas. Antes ela via as pessoas e falava “obrigada”. Ela está sem remédios e isso é assustador e lindo e vai durar pouco mas ela vai aproveitar. Ela agarra e cheira e beija tanto a sua filha como se depois de três anos pudesse sorver sua filha sem a bolha da correção psíquica e hormonal. Sua filha diz “chega, mamãe, para, tá muito” e nunca chega e nunca para e é uma devoção tão avassaladora que dá medo e dá enjoo e a pressão cai e tá tudo bem.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Pode ser chato saber disso, mas Monteiro Lobato era de um racismo delirante

 Devo muito aos livros infantis de Monteiro Lobato, e entendo o esforço dos que, por afeição, querem defendê-lo das acusações de racismo.

O problema é que, apesar de suas qualidades como escritor, de sua extraordinária coragem política e de suas simpatias à esquerda, Lobato era tremendamente, monstruosamente, escandalosamente racista.

Lê-se muito pouco da sua obra para adultos. Lembro o conto “Negrinha”, em que pelo menos se mostravam as crueldades de uma sinhá branca em cima de uma “menina de criação”.

Fui ver o que Monteiro Lobato escreve em “O Presidente Negro”, romance de 1926 que, mesmo depois da ascensão de Hitler, ele não viu problema em reeditar.

No livro, o narrador da história começa falando mal dos Estados Unidos, mas muda de opinião quando ouve de Jane, a bela filha de um cientista, o seguinte argumento: “Que é a América, senão a feliz zona que desde o início atraiu os elementos eugênicos das melhores raças europeias?”.

Ayrton, o narrador, observa que os Estados Unidos não tiveram tanta sorte racial assim. “Entrou ainda, à força, arrancado da África, o negro.” Jane concorda: “Entrou o negro e foi esse o único erro inicial cometido naquela feliz composição”. Ayrton acha que o problema pode ser solucionado.

No Brasil, graças à mestiçagem, “dentro de cem ou 200 anos terá desaparecido o nosso negro”.
Ao contrário de Ayrton, Jane não acha “felicíssima” essa saída; na verdade, “estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter, consequente a todos os cruzamentos de raças díspares”.

A separação entre as raças, ocorrida nos Estados Unidos, não desagrada a Jane: “O ódio criou na América a glória do eugenismo humano”.

Não se pense que o narrador fique horrorizado. Apaixonara-se pela loura filha do cientista e comenta: “Como era forte o pensamento de Miss Jane!”.

Ela contará a Ayrton o que vai acontecer nos Estados Unidos. Primeiro, a população negra começará a crescer, enquanto os brancos praticam o controle da natalidade. Mais que isso: graças ao ministério da eugenia, decidiram matar os defeituosos de nascença e esterilizar os deficientes mentais, os “tarados” etc.

Os negros americanos também vão esbranquiçando, apesar de manterem o “cabelo carapinha”. Ficam com “um pouco desse tom duvidoso das mulatas de hoje que borram a cara de creme e pó de arroz”, diz Jane. “Barata descascada, sei”, responde Ayrton.

Nas eleições de 2228, os brancos se dividem: há um partido de mulheres feministas e outro, de homens. Sai vencedor o líder dos negros já “esbranquiçados”.

Situação grave. Não necessariamente porque os brancos podem tentar um golpe ao estilo de Trump, mas porque a “massa negra” despertava de sua submissão “e tremia de narinas ao vento, como tigre solto na jungle”.

Para se defender, os brancos inventam um raio que “alisa a carapinha”, de modo que “o tipo africano melhorava”. Acontece que o raio também era capaz de...

Não conto o final. Registre-se apenas que “armado de mais cérebro”, “o nobre, o duro” branco irá superar o obstáculo para o “ideal da supercivilização ariana”, impondo “um manso ponto final étnico ao grupo que ajudara a criar a América”.

É ficção? Passemos então a um artigo de crítica de arte, publicado nas “Ideias de Jeca Tatu”, livro de 1919. Chama-se “A Caricatura no Brasil”.

Durante a época colonial, diz Lobato, os portugueses “despejavam” no Brasil tudo quanto fosse “elemento antissocial” do reino. “E como o escravo indígena emperrasse no eito”, continua o autor, “para aqui foi canalizada de África uma pretalhada inextinguível”.

Basta? Tem mais. Numa carta de 1928, Lobato diz que “um dia se fará justiça ao Ku Klux Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca —mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva”.

Não é o caso de censurar seus livros infantis. Mas também não há escândalo em adaptá-los. Faz-se isso o tempo todo: “Moby Dick”“As Viagens de Gulliver”, “Pinóquio” foram inúmeras vezes reescritos e facilitados para as crianças; o próprio Lobato fez isso, com “Dom Quixote”, por exemplo.

Mas não dá para ignorar, desculpar e fingir que não existe racismo em Monteiro Lobato. Mais fácil perdoar o Trump.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

domingo, 17 de janeiro de 2021

Não vejo a hora de chegar a minha vez de tomar a vacina do Butantan

 Não vejo a hora de chegar a minha vez de tomar a vacina do Butantan.

O que eu espero de uma boa vacina? Que ela me proteja da doença e, se não proteger completamente, que pelo menos amenize os sintomas e me livre de internação hospitalar e, sobretudo, daquela senhora que vem com a foice.

A Coronavac parece atender a ambas expectativas. Primeiro, porque tem cerca de 50% de eficácia, isto é, com a vacinação meu risco de adoecer cai pela metade. Não é pouco.

Depois, porque dos 4.600 que receberam injeção de placebo, 31 desenvolveram sintomas leves, enquanto nos vacinados apenas sete apresentaram sintomatologia. Esses eventos permitiram concluir que houve 78% de redução do risco de desenvolver sintomas que justificassem procurar atendimento médico.

Doença de intensidade moderada ou grave não ocorreu em ninguém no grupo vacinado, contra sete hospitalizações no grupo placebo. Quer dizer que a proteção contra essas internações é de 100%? Não. Essa conclusão não pode ser tirada a partir de números tão pequenos. Existe a possibilidade teórica de que, ao imunizarmos outros milhares ou milhões, apareçam quadros mais graves.

Em vez de anunciar 100% de proteção contra casos graves e mortes, os divulgadores do estudo deveriam ter dito algo semelhante a “os resultados sugerem que a vacina tem potencial para evitar internações e mortes”. Também, não seria pouco.

A existência de um presidente da República capaz de afirmar que o Ministério da Saúde não compraria a “vacina chinesa do Doria” talvez tenha feito pressão para enfatizar o lado positivo da Coronavac, mas devemos nos ater aos dados para evitar mal-entendidos.

É simples: quero tomar a vacina para reduzir à metade o meu risco de ficar doente; quase 80% o de apresentar sintomas leves e, possivelmente, o de ter doença que exija internação hospitalar. Não está bom? Vai desafogar os hospitais. Quando a epidemia chegou, se soubéssemos que teríamos uma vacina
como essa em menos de um ano, não ficaríamos felizes?

Você, leitor cético, dirá: mas as vacinas da Pfizer e da Moderna atingem 95% de eficácia. Tem razão, mas custam dez vezes mais. E, pior, precisam ser mantidas a -70º C e -20º C, respectivamente. Quando chegam ao ponto de vacinação podem ir para a geladeira comum, mas a da Pfizer perde a validade em cinco dias, e a da Moderna em 30. Quantos conseguiríamos vacinar em tempo tão limitado?

Apesar dessas dificuldades que inviabilizariam a distribuição por um país continental com as desigualdades regionais do nosso, um governo responsável teria comprado as que estivessem disponíveis, pelo menos para os habitantes dos grande centros que dispõem da infraestrutura necessária. Para combater uma epidemia com tantos mortos qualquer ajuda é irrecusável.

A Coronavac e a vacina da AstraZeneca que será produzida pela Fiocruz são de baixo custo e dependem de armazenamento em geladeiras comuns, existentes nos 38 mil pontos de vacinações espalhados pelo território nacional. Você sabia, caríssima leitora, que o nosso desprezado SUS dispõe de 38 mil pontos de vacinação em atividade? Pergunte quantos há em cada país europeu ou nos Estados Unidos, por exemplo.

É muito bom vivermos num país com centros de pesquisa da qualidade da Fiocruz e do Butantan, com pesquisadores capazes de produzir vacinas eficazes em tempo tão curto. O acesso à vacinação
é a única condição para atingirmos a desejada imunidade coletiva. Nenhuma epidemia viral é eliminada sem vacina.

O desafio agora é imunizarmos dezenas de milhões de brasileiros com a maior urgência possível, tarefa que exigirá um esforço centralizado no PNI (Programa Nacional de Imunizações), do Ministério da Saúde. Se essa coordenação falhar, cada estado fará o que bem entender. Será o fim do PNI, que há 45 anos vacina crianças e adultos no maior programa de imunizações gratuitas do mundo.

Agora, é absurdo pretender vacinar tanta gente sem campanhas de divulgação pelo rádio, TV, jornais e internet. Convencer os brasileiros não será tarefa fácil, com tantos criminosos bombardeando os incautos com notícias falsas, tantos ignorantes a prescrever cloroquina e tantos desvairados a pregar um mundo sem vacinas.

Se até hoje o governo federal não fez nenhuma campanha sequer para conter a epidemia, esperar que vá fazê-lo agora é desconhecer a índole de quem o comanda.


Texto de Drauzio Varella, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Tetinha

 Conheci o Tetinha na Redação de uma revista semanal de notícias. Eu trabalhava com a equipe de marketing, mas, porque estava arrependida da minha formação, me enfiava nas reuniões de pauta e achava aquele universo fascinante. Eu queria escrever para a publicação, e não inventar títulos idiotas para vendê-la. Tetinha era bem mais velho do que eu e gostava bastante de cultivar uma aura de lenda viva do jornalismo por onde passasse. Colecionava prêmios e era famoso por circular de vermelho trechos do texto de todo mundo e escrever em caixa-alta um NÃO cheio de exclamações dramáticas.

Não sei se me faltava experiência ou se faltavam, às incipientes redes sociais, as feministas. O fato é que, aos 25 anos, eu achava a sua empáfia a coisa mais sexy do mundo. Além de tudo, Tetinha era triatleta, tinha a voz grossa e dizia ter sido fiel à ex-esposa durante os 20 anos em que foram casados.

“Olha, querida, se você quer mesmo escrever, esquece esse mundinho ridículo da publicidade e começa com textos de verdade.” E foi o que eu fiz: abri mão de um bom salário e virei sua estagiária. Depois, sem dinheiro pra pagar o condomínio (em uma idade bastante ridícula pra pedir a ajuda da mãe), eu tive que voltar a trabalhar em agência por um tempo. O que foi ótimo, porque aproveitei a distância profissional e chamei o Tetinha para jantar.

Até esse dia, acho importante dizer, Tetinha ainda não tinha esse apelido. Ele era o sr. “um sobrenome muito másculo”, e eu passava mal só de imaginar uma noite inteira com ele. Quantas coisas aquele homem poderia me ensinar sobre a vida, sobre os livros e, principalmente, sobre os prazeres ainda não revelados ao meu corpo neófito na arte do amor? Sei que estamos em 2021, e chamar um cara de “pica das galáxias” e dizer que ele “põe o pau na mesa” não pega bem. Mas pense em mim lá por meados de 2005 e me perdoe: minha libido ainda via esse sujeito poderoso pelos olhos da admiração falocêntrica.

Depois do jantar fomos para o meu pequeno apartamento, e Tetinha, que ainda não tinha esse apelido (mas o teria em alguns minutos), começou a esfregar seu torso no meu enquanto nos beijávamos. Primeiro eu ri, achando que ele estava tão soltinho que acabara de inventar uma espécie de forró que se dança sentado; depois fiquei preocupada, achando que ele era alérgico a frutos do mar e estava convulsionando.

Como ele não ria nem parecia doente, segui no intuito de comer aquele senhor quando Tetinha, que ganharia o apelido em segundos, começou a encaminhar minha mão para algum lugar e… opa será que é o pênis? Opa é agora! E foi então que finalmente alcancei, com a ajuda de Tetinha (o apelido chegaria em 3, 2…), o seu mamilo intumescido. “É isso mesmo?!”, perguntei, confusa. E ele me explicou que não ligava muito pra sexo, o lance dele era a teta. E me pediu, quase chorando, que eu a manipulasse por algum tempo. Nem pra dizer peito. Ele disse TE-TA. Aquela voz outrora vigorosa, que tanto me ensinara sobre Hunter S. Thompson, Nanni Moretti e Keith Jarrett, agora me pedia pra fazer uma espécie de pinça com os dedos e friccionar seus mamilos como se eu quisesse obter uma pequena bolinha de ranho: “Desculpa, mas só vai funcionar se com a mão esquerda você fizer no direito e com a mão direita você fizer no esquerdo”. Por insistência, me submeti a isso, na esperança de que algum gênio ainda saísse daquela lâmpada emasculada.

Quando, por fim, Tetinha atingiu o clímax, eu já estava com tendinite nos dedões e minha vontade de rir era maior do que a de amar a complexidade humana. Levei-o até a porta e ele me pediu que, caso um dia eu fosse escrever sobre isso, que esperasse pelo menos 15 anos. Eu era só uma menina e obedeci.


Texto de Tati Bernardi, na Folha de São Paulo

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

A humanização do embrião encobre a desumanização dos corpos femininos

1. O  bombeiro adentra o prédio em chamas e vê uma mulher implorando por socorro. Passa direto e abre a porta de um freezer, de onde tira um recipiente com um embrião congelado.

Abraça-o contra o corpo enquanto o teto despenca. “Vai ficar tudo bem”, promete ao zigoto, que não esboça reação. Fora do prédio, o bombeiro é recebido com aplausos, abafando o último grito da mulher que sucumbe ao fogo.

Para conhecer esse herói, basta defender a descriminalização do aborto. Ele surgirá em meio ao incêndio provocado pela declaração, fazendo o que considera o seu dever: salvar vidas. Seu impulso protetor sufoca e mata mulheres todos os dias. A humanização do embrião é uma cortina de fumaça que encobre a desumanização dos corpos femininos.

2. Quando certa manhã acordou de sonhos intranquilos, a mulher em idade fértil encontrou-se em sua cama metamorfoseada numa incubadora neonatal.

Estava deitada de costas sobre sua carcaça —uma câmara com sensor de temperatura, lâmpadas ultravioleta e fonte de oxigênio. Havia se transformado em uma máquina cuja função era garantir um ambiente termoneutro para o pleno desenvolvimento de um bebê.

Não era um sonho. Não existiam mais sonhos que não fossem garantir um ambiente termoneutro para o pleno desenvolvimento de um bebê. Não havia sido projetada para presidir uma empresa ou disputar um campeonato de balonismo, mas não se deu por vencida. Foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. Os pedestres a encaravam como se ela fosse transparente —e ela era.

E o que mais chocava na visão de uma incubadora com uma bolsa atravessada esperando o ônibus era o vazio notório em seu ventre de acrílico.

3. Gol do Bruno Henrique, toca a campainha. São representantes do governo em busca de apoio na luta contra o aborto.

O cidadão de bem cede sua assinatura sem tirar os olhos da tela verde. Mas não se tratava de abaixo-assinado e, sim, de termo de compromisso que o obriga a se submeter a uma vasectomia e o inclui automaticamente na fila de adoção.

Agora, ele não tem escolha a não ser lidar com as consequências de seus atos. Já não pode decidir pelo próprio corpo e pela própria vida.

Só queria assistir ao jogo do Flamengo em paz.


Texto de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Amiga querida

 Numa cena de "Os Cafajestes", o filme de Ruy Guerra que, em 1962, sepultou as chanchadas da Atlântida e implantou o Cinema Novo, Jece Valadão enfiava um baseado no decote de uma atriz. A cena era atrevida para os padrões. E mais ainda porque a atriz era Germana de Lamare. Não porque fosse filha do pediatra Rinaldo de Lamare, autor do livro "A Vida do Bebê", um clássico do gênero, com dezenas de reedições. Mas porque ela era neta de Luiz Severiano Ribeiro Jr., magnata dos cinemas no Brasil e dono da Atlântida, a grande fábrica de chanchadas.

A ponta nos "Cafajestes", rodada meio de farra, foi sua única passagem pelo cinema. Como muitas meninas bem-nascidas da época, Germana fazia algum teatro, da geração de Dina Sfat e Ítala Nandi, mas nunca pensou numa carreira. Sua paixão era o jornalismo, mais exatamente o Correio da Manhã, de que era repórter, das poucas mulheres então no ramo, e de cujo 2º caderno seria editora.

Germana era amiga de José Celso Martinez Corrêa, para quem abriu seu apartamento na Vieira Souto como Q.G.. Em 1968, várias vezes saímos juntos do Correio, onde eu também trabalhava, para assistir aos ensaios de "Roda Viva", que ele iria estrear no Rio. Germana ficou 12 anos no jornal e, quando este fechou, em 1974, viu-se no espaço. Ir para outro nunca, ela dizia —para quem vivera o Correio da Manhã de Otto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony, Antonio Callado, Moniz Vianna e Paulo Francis, nem o New York Times teria graça.

Germana decidiu dar um trambolhão. Aos 37 anos, voltou a estudar. Prestou o vestibular de medicina e passou os oito anos seguintes em salas de aula, hospitais e enfermarias, dos quais saiu como psiquiatra.
A nova vida que ela começaria ali, pessoal e profissional, renderia sozinha outra coluna. E só poderia ser interrompida pela brutalidade da Covid, que a levou em dezembro último, aos 83 anos. Querida Germana.


Texto de Ruy Castro, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Canetas transformaram a trivialidade em ritual no meu círculo familiar

 Meu pai usava caneta-tinteiro, mas de um jeito bastante peculiar e só quando ele sentava à mesa dele. Para longe da mesa, ele levava uma esferográfica descartável, no bolso superior esquerdo do colete.

No meio da escrivaninha dele, estava um conjunto de prata e cristal, que incluía um prato para pequenos papéis e talvez selos, dois frascos para as tintas (os quais, por serem transparentes, tornavam as tintas reconhecíveis —azul escura e vermelha) e, plantada no meio, uma bainha protetora que se confundia com uma pedra semipreciosa, o que dava ao conjunto um aspecto, ao mesmo tempo, de péssimo gosto e mágico, como se a caneta fosse Excalibur, fincada numa montanha e disposta a ser solta só pela mão do futuro rei Arthur (que a pedra e a espada reconheceriam).

Na época, escrever era uma tarefa constante no trabalho de um médico. Não havia computador de mesa, obviamente, e, além das receitas, as anotações do médico, a cada consulta, eram cruciais.

Sempre pensei que a caneta-tinteiro do meu pai estivesse quebrada, porque ele sequer tentava carregá-la de tinta (o que deveria acontecer por um pistão que, à primeira vista, parecia funcionar normalmente). Mas, como disse, ele sequer tentava: servia-se da caneta-tinteiro como se fosse uma pena das antigas —as que a gente molhava na tinta a cada duas ou três palavras.

Só que, no caso, o mesmo mecanismo que, numa caneta-tinteiro, garante o fluxo regular da tinta também fazia que a pena, uma vez molhada, durasse mais e permitisse escrever facilmente por duas ou três linhas.

Em suma, ele usava sua caneta-tinteiro como uma superpena das antigas e, claro, conseguia conciliar o cuidado para evitar os borrões (gotas de excesso de tinta) com uma reserva suficiente para escrever sem ter que estar molhando a pena o tempo inteiro.

Enfim, gostava de vê-lo escrever desse jeito; era uma arte da qual só soube depois da morte dele, que ela não correspondia a nenhum problema real: a caneta Excalibur não tinha nenhum defeito.

Completando o quadro familiar: meu irmão escrevia com esferográficas, de tipo recarregável, que ele terminava e para as quais comprava recargas.

Minha mãe escrevia com esferográficas descartáveis; ela substituía a caneta assim que se formasse uma acumulação de tinta quase sólida, presa na esfera da ponta.

Também ela disseminava as canetas, para que cada gaveta, arquivo ou agenda tivesse uma caneta própria, imediatamente pronta ao uso.

Meu avô (materno, o único que conheci) usava três esferográficas bastante luxuosas, de prata, cada uma com uma história (presente recebido na primeira comunhão ou no fim do ensino médio ou no noivado etc.). Com essas canetas, ele se debruçava sobre La Settimana Enigmistica (a semana em enigmas), o equivalente italiano de Coquetel (na verdade, Coquetel era o equivalente brasileiro da Settimana).

Da escrita dele, o que me sobra é a lembrança do silêncio: a esfera rolando sobre o papel, o suavíssimo toque metálico da esfera ou talvez do próprio mecanismo da caneta, talvez o cheiro também suave das balas que ele chupava enquanto pensava e resolvia enigmas.

A escrita era sempre parte do encanto —como se, em cada caso, a caneta e os gestos transformassem a trivialidade cotidiana em algo sagrado, um rito. Nada demais, escrever é sempre um pouco isso: conferir ao acontecimento a dignidade do registro.

E eu? Eu escrevia com caneta-tinteiro, desde muito cedo.

Ao longo do tempo, os incidentes (bolso da camisa ou do paletô encharcados de tinta) foram raríssimos.
Em compensação, estava com o indicador, o médio e às vezes o polegar da mão direita cronicamente manchados de tinta azul. Não eram manchas intensas; pareciam-se mais com um halo —aquele amarelado de resíduo de combustão na ponta dos dedos dos grandes fumadores.

Mais ou menos dois anos atrás, decidi reunir uma coleção (idealmente completa) de todas as canetas com as quais escrevi na minha vida.

Aquelas às quais eu fui fiel não foram tantas, mais ou menos uma dúzia.

Como me veio a ideia?

Foi porque uma (Montblanc Slimline 1122) sumiu de uma gaveta. Claro, pensei que tinha sido roubada —embora não valesse grande coisa.

Foi a falta de uma caneta que me deixou com a vontade implacável de tê-las todas de volta. Ou talvez de estar de volta para o começo da minha vida, com todas as canetas e as tintas.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Deve haver alguma fraude atrás de tanta fralda nas farmácias por todo lado

 Assisti, com tristeza, ao fechamento da Gávea Shop, a padaria do Moraes Moreira —assim chamada não porque o cantor fosse o seu dono mas um assíduo frequentador.

Era a última padaria do bairro, ou pelo menos da região, a ostentar frangos giratórios e pães colegiais. “Onde tomaremos nossa média requentada?”, perguntavam os passantes. O que substituirá os frangos? A que assistiriam os cachorros que por ali passassem?

“Alguma padaria gourmet”, vaticinavam os pessimistas. Donuts substituirão a rosca; cookies, o mentirinha; macchiatos, a média. O sonho, não tinha dúvida, acabaria. Acabou.

Eis que, no lugar dos sonhos, surgiram 30 opções de protetor solar. Paredes e mais paredes de fralda descartável. Totens de rejuvenescedores dermocalmantes para reparação corporal. No lugar da Gávea Shop, brotou uma Farma Life.

O curioso é que já tinha sete farmácias nas redondezas. Numa distância de 200 metros: Venâncio, Pacheco, Belacap, Cristal, Raia, Drogasmil e outra Cristal. Todas elas oferecendo os mesmos remédios, dos mesmos laboratórios.

Nenhuma delas trabalha com homeopatia, manipulação ou fitoterapia. Quando tive pedra nos rins, procurei em todas elas um chá de quebra-pedra. Um cabelo-de-milho. Não encontrei. Mandaram, com desdém, procurar no Mundo Verde. Encontrei.

Não tem um dia nessa cidade em que não feche um bar, um teatro, uma padaria. Houve um tempo em que abriam, no seu lugar, igrejas e salões de beleza. Menos mal: lá não se falta assunto. Fala-se bem de Deus e mal dos outros, ou vice-versa. Na farmácia, nem isso. Só se troca um CPF e um “seu troco, senhor”, no máximo um obrigado, e olhe lá.

Às vezes suspeito de algum esquema. Deve haver alguma fraude atrás de tanta fralda. É a cara do Brasil descobrir que as farmácias estão para o Bolsonaro como as joalherias para o Cabral (inclusive explicaria a cloroquina).

Mas talvez seja apenas um sinal dos tempos. A drogaria diz muito sobre como estamos:
assépticos, hipocondríacos, solitários —não se vai em bandos à farmácia. Nela encontra-se tudo, menos o que você mais precisa: maconha, cerveja, psilocibina, ácido lisérgico, gás hilariante, quebra-pedra.

Ainda vão trocar o sol pela luz fria, a terra pelo porcelanato e trocar o nome do país pra BR LIFE, a primeira nação-farmácia.


Texto de Gregorio Duvivier, na Folha de São Paulo

As mudanças foram enormes de 1901 a 1921; agora, o passo é arrastado

Pode ser só impressão minha, mas acho que este século está andando muito devagar. Já estamos em 2021, e nos últimos 20 anos não aconteceu tanta coisa assim. Compare com o século 20. De 1901 a 1921, o mundo ficou irreconhecível.

As mulheres de espartilho, chapéu de plumas, sombrinha e vestidão preto até os pés deram lugar a melindrosas com saia acima do joelho, cabelo curtinho e cílios postiços.

Matronas de carruagem foram substituídas por aviadoras que fumavam nas horas vagas. E que votavam, também, em diversos países. A Austrália começou em 1902, a Finlândia, em 1906, a Inglaterra, em 1918 e os Estados Unidos, em 1920. 

Enquanto isso, em 2021 estamos comemorando a aprovação do direito ao aborto na Argentina, sem previsão no caso brasileiro. Política? Em 1910, só havia quatro repúblicas na Europa: França, Portugal, Suíça e San Marino.

Vinte anos depois, o quadro tinha mudado radicalmente. As dinastias seculares dos Romanov, na Rússia, dos Habsburgo, na Áustria, e dos Hohenzollern, na Alemanha, estavam enterradas.

Não falo do terremoto que foi a revolução bolchevique. Sua radical novidade, ainda fresca em 1921, foi também um fator de barbárie, e aquele falso futuro se esfacelou.

De qualquer modo, uma pessoa acostumada aos padrões de 1900 tinha tudo para ficar de cabelo em pé 20 anos depois.

O que temos agora? As democracias se veem desafiadas pelo populismo autoritário de TrumpBolsonaro e outros. Mas não se trata, por enquanto, de um abalo como os que se viram entre 1901 e 1921.

No começo do século 20, Pissarro e Monet ainda exploravam as nuances do impressionismo, e Picasso ainda era bem comportado. Em 1921, a arte já tinha explodido com o urinol de Duchamp. O cinema, surgindo do zero, já se estabelecera plenamente, com ChaplinFritz Lang e Cecil B. de Mille.

O que de novo tivemos no século 21? A Netflix, o aperfeiçoamento dos seriados, os efeitos de computador? Até os robôs marcam passo.

Em resumo, o mundo de 2021 não ficou muito diferente do de 2001. A maior revolução tecnológica destes tempos, a internet, já existia. Os celulares inteligentes, o streaming de música, o Waze, são subprodutos.

Continuamos demorando 11 horas de avião para chegar à Europa, continuamos pesquisando soluções para o câncer e o Alzheimer, continuamos consumindo plástico, carne e gasolina. Nem o papel acabou.

De significativo, nos últimos 20 anos deixamos de usar o talão de cheques. O hábito de fumar pertence claramente ao passado. Mas a legalização da maconha e outras drogas vai a passos de tartaruga. Verdade que o vegetarianismo cresce.

Tento me lembrar de outras mudanças, mas verifico que, para o bem ou para o mal, o século 21 ainda não começou.

Três acontecimentos importantes se deram até aqui: o atentado do 11 de Setembro, com o início da “guerra contra o terrorismo”; a crise de 2008, que se prolonga sem mexer muito com a hegemonia ideológica dos neoliberais; e agora, a pandemia.

Nada que se compare, creio, ao impacto da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Dá para prever, nos próximos dez anos, o crescimento do trabalho em casa, o declínio de uma infinidade de empregos (barbeiros, quem diria?), o fim do papel-moeda, uma revalorização da presença do Estado na economia, novas bolhas e estouros financeiros.

Mas, em matéria de mudança radical, acho que será preciso esperar mais um pouco.

Uma coisa das dimensões de 1914-1918 só vai vir com um verdadeiro apocalipse ambiental. Ou, Deus nos livre, com um conflito nuclear com China, Estados Unidos, Irã e Coreia do Norte pelo meio.

Hipóteses terríveis, mas que aí sim modificariam a face do mundo, se ainda houver mundo. Fora isso, a maior mudança que prevejo para o século 21 ainda está para acontecer.

Olhando um pouco além da política e da economia, o século passado ficará como o século das mulheres. Mudou-se (claro que ainda falta muito) um quadro de opressão com milênios de existência.

Cem anos foram pouco tempo, se pensarmos que desde a pré-história a humilhação, a violência, o mando masculino prosseguia quase inalterado.

Quem sabe o 21 marque um processo semelhante no que diz respeito aos negros e às demais etnias sob dominação dos brancos. O caminho da igualdade entre os sexos foi sendo aberto com pequenas e grandes modificações, com muitas e várias resistências; a igualdade entre as raças não tem por que não ir adiante.

São os meus votos, para este ano e para os próximos.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

O presidente mesmo disse que a melhor vacina é o vírus, você deve se informar

 Arrastava as sandálias sob um sol de maçarico quando um ambulante a interpelou.

“Imunização para Covid-19 na minha mão é mais barato.”

“Que isso? Contrabando de vacina?”

“Que vacina o quê, minha senhora, seringa é um perigo, transmite um monte de doença. Fora que hoje em dia cabe até microchip no buraco da agulha, os grandes conglomerados querem monitorar a nossa vida, fica esperta.”

“Amigo, se eu não matei o algoritmo do Instagram de tédio não é um microchip que vai fazer alguma diferença.”

“E os efeitos colaterais, mutação de DNA?”

“Até onde eu li, nenhuma vacina é capaz de alterar a cadeia genética, mas, se for o caso, eu puxei o temperamento explosivo do meu pai e herdei as varizes da minha avó, vai que eu resolvo isso também?”

“Pensa bem, porque o meu produto é 100% orgânico, sem química de laboratório. Imunização artesanal, coisa fina.”

“Engraçado porque eu só tô vendo uma garrafa PET vazia.”

“Não parece, mas essa garrafinha é artigo de luxo. Com uma baforada disso aqui, a senhora já garante seu IgG reagente em uma semana. Essa remessa foi produzida em casa, minha mulher testou positivo e tossiu aqui dentro. É cultivo familiar, eu que passei para ela, meu filho passou para mim e assim por diante.”

“Sei não, tanta gente pegando isso de graça.”

“Ah, mas um produto desses a senhora não encontra no supermercado, no shopping, nem no Neymarpalooza.”

“Pois bem, um amigo meu caiu nessa e tá intubado.”

“Mas aí ele que reclame com o fornecedor dele. Eu tenho toda a documentação certinha aqui comigo, PCR, sorologia, pode conferir. A senhora deveria se informar. O presidente mesmo disse que a melhor vacina é o vírus.”

“E também que a vacina pode te transformar em jacaré”.

“Mais um motivo para comprar comigo. Mais seguro.”

“Mais seguro? Prefiro virar um dos maiores predadores do reino animal, que passa a maior parte do tempo hibernando, pegando sol e boiando na água, do que botar minha vida em risco.”

“Quem perde é a senhora. Uma dose rende para mais de uma pessoa, é só tomar cuidado para não deixar passar a validade, o vírus sobrevive até 72 horas no plástico e... Ih, sujou. Disfarça, disfarça.”

“Que houve? É a polícia?”

“Pior. É o Atila Iamarino.”​


Crônica de Manuela Cantuária, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Em livro sobre seu câncer, Dimenstein vira tema de sua última reportagem

Foi por meio de um sonho premonitório que Gilberto Dimenstein intuiu que tinha câncer. A experiência foi tão impactante que ele passou por cima do ceticismo que sempre pautou a carreira jornalística e, mesmo se sentindo saudável e sem nenhum sintoma, resolveu investigar.

Após uma série de exames, descobriu um tumor no pâncreas. Três semanas depois, foi informado de que havia metástase no fígado.

Começava ali a jornada que se encerrou com a sua morte no dia 29 de maio último, aos 63 anos. Toda a trajetória do jornalista criador do site Catraca Livre está relatada no livro “Os últimos melhores dias da minha vida”, escrito em parceria com a mulher, a jornalista Anna Penido.

Lançada em novembro, a obra relata as dores do tratamento, mas fala, principalmente, de amor, de beleza, de gratidão e de aceitação diante da morte.

“Eu não sabia o que era o amor de verdade, nem que seria possível amar outra pessoa com tamanha profundidade. Nunca, nem remotamente, imaginei que experimentaria o nível de cumplicidade que passei a ter com a Anna”, diz ele em um trecho.

Jornalista premiado e que escreveu na Folha por 28 anos, Dimenstein virou o tema da sua última reportagem, sobre como foi receber o diagnóstico de um câncer agressivo, as perspectivas e as reflexões a partir de então e como viveu até o fim da vida.

Embora o seu tratamento oncológico tenha se baseado na ciência do começo ao fim, ele transitou também pelo mundo espiritual: foi da limpeza energética da casa e rituais do candomblé à cirurgia espiritual.

"De repente, todo o meu racionalismo iluminista começou a se misturar com especulações sobre o insondável. Compreendi que, por trás de muitas dessas experiências místicas, prevalecia a ideia de que precisamos nos conectar a uma força maior para acreditar no futuro."

Ao mesmo tempo, contou com o apoio de familiares, amigos, conhecidos e desconhecidos, espalhados por todos os continentes, que se uniram em orações de todos os credos.

Não foram dias fáceis. Mas mesmo com as desilusões pelos insucessos dos tratamentos e os desconfortos da quimioterapia, Dimenstein não se desconectou com o melhor que a vida podia lhe oferecer.

"Quanto mais o câncer me subtraía, mais eu conseguia agregar novas dimensões à minha existência. A diferença estava na maneira criativa com que olhava para a realidade à minha volta."

Nas brechas entre um ciclo de infusão e outro, em que o cansaço, a febre e a falta de apetite davam uma trégua, ele se entregava ao mundo encantado das compensações.

“Além de comer com prazer, brigava com a inércia. Dizia que eu também precisava dar uma canseira no câncer, já que ele me dava tanto cansaço. Então, pegava minha bicicleta e pedalava até a sorveteria. Pensava comigo mesmo: 'Como é bom estar vivo'”.

Na fase final da doença, amigos como o pianista e maestro João Carlos Martins tiveram efeito mais poderoso que antibióticos, segundo relata o jornalista. O neto Zeca, 3, também era antídoto para muitos dos seus desconfortos com a doença.

No livro, Dimenstein discorre sobre os efeitos da pandemia de coronavírus na sua vida, como a apreensão diante do confinamento, quando começou a pensar que nunca mais iria a cinemas, teatros e concertos, e a tristeza de não ter mais o neto e os filhos por perto, embora aplicativos como o Zoom os mantivessem sempre conectados.

Houve também tempo para se emocionar com as manifestações de solidariedade que a crise sanitária proporcionou, como jovens que deixavam comida na porta dos idosos ou o trabalho colaborativo entre os cientistas para acelerar a produção de uma vacina capaz de conter o vírus.

E sobraram decepções com os “doentes patológicos e patologistas presumidos” que se posicionavam contra o isolamento social.

“O presidente Jair Bolsonaro insistia em contrariar princípios básicos da ciência, descumprindo todas as recomendações das organizações e profissionais de saúde. Ou seja, o próprio líder da nação estimulava a disseminação do vírus, sandice que não encontrava paralelo em nenhum país civilizado”, escreveu.

Quando recebeu o veredito de que não havia mais saídas terapêuticas para o seu caso, Dimenstein relata que não se desesperou.

“Ganhei uma sensação de bem-estar, contentamento, falta de compromisso. Na ausência de um futuro possível, me sentia totalmente entregue ao destino. Não havia mais nada que precisasse fazer.”

Com o estado físico cada vez mais debilitado, a sua maior preocupação era a de não sentir dor. Decidiu, então, procurar uma médica especializada em cuidados paliativos, Ana Cláudia Arantes, autora do livro "A morte é um dia que vale a pena viver" (Sextante).

No ritual de despedida, Dimenstein pediu desculpas a pessoas com as quais achava que não havia sido correto. “A reconciliação com os meus remorsos me apaziguou e meus dias transcorriam cheios de contentamento no nível dos afetos.”

Tinha pavor de se imaginar preso a uma cama. Não queria morrer daquela maneira. Quando passou a sofrer alucinações e já não conseguia mais comer ou dormir, decidiu que era a hora de ser sedado. Antes, despediu-se da mãe, dos irmãos e ouviu deles o quanto o amavam.

Morreu em casa dormindo, cercado da mulher e dos filhos, embalado com sua música tema: “Clube da Esquina 2”. “Porque se chamava homem, também se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem”.

Os últimos melhores dias da minha vida
Gilberto Dimenstein e Anna Penido (Record, 2020); R$ 34,90


Por Claudia Collucci, na Folha de São Paulo

Com o brexit, não se sabe quem perderá mais na distância que vai se criar

 Chegamos ao fim do ano.

E, por mais que 2020 nos oferecesse uma nova “diversão” a cada dia ou quase, ou seja, por mais que o ano fosse cheio de distrações, eu não esquecia que o dia chegaria em que o Reino Unido de Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales se separaria da Comunidade Europeia.

Escolho essa nomenclatura completa e um pouco pernóstica como se faz nos lutos grandes e oficiais, quando parece oportuno dizer todos os nomes do ente querido que se separa de nós.

Não sei quem, da Europa ou da Inglaterra, vai perder mais na distância que vai se instaurar. Tampouco sei se a perda deveria ser calculada em moeda sonante, em influência geopolítica ou em capital cultural.

Perdas e ganhos, na história, sempre se calculam numa mistura dos três registros, e ainda estamos longe de ter aquela versão dominante, se não conclusiva, do brexit, que será estabelecida tanto
por historiadores quanto por ficcionistas e documentaristas, de ambos os lados (“Brexit” é um bom título, e aposto que haverá mais de uma série sobre o tópico, no futuro).

Deixando em aberto as apostas no tribunal da história, já posso antecipar que, para mim, concretamente, brexit é e restará o nome de uma grande derrota.

Quando cheguei a Londres, no começo dos anos 1960, já havia no ar um certo espírito europeu: o Tratado de Roma, que instituiu a Comunidade Econômica Europeia, tinha sido assinado em 1957.
Mas, cuidado, somente nos anos 1980 viria o acordo de Schengen, com a ideia da livre circulação das pessoas entre os países da comunidade.

Ser italiano em Londres em 1963 ou 1964 ainda era um exercício de paciência e de humildade. Se você precisasse alugar um apartamento, mesmo num bairro bem popular, Camden Town ou Earl’s Court, por exemplo, um dia ou outro, lendo os classificados, você esbarraria na frase final de um anúncio horrorosamente discriminatório: “no Italians”, ou, então, “Italians don’t need to apply” (italianos nem precisam se aplicar).

O que era? O barulho desnecessário? A fala alta? O excesso de cebola na fritura com a qual de fato deve começar qualquer molho que se respeite? Ou o fim de noite com acompanhamento de violões e
mandolins nostálgicos?

As hipóteses eram todas humilhantes. Tanto mais que, em alguma medida, eu mesmo subscreveria —ou seja, talvez eu mesmo me excluísse do condomínio que admitisse livremente todos os italianos que pedissem…

Aliás, os sentimentos de revolta e de indignação diante da exclusão do próprio grupo da gente sempre são efeitos de uma descoberta simples e dolorosa: nosso próprio grupo nos envergonha.

Enfim, o brexit aconteceu por razões que talvez tivessem pouco ou nada a ver com a aceitação dos italianos “mal criados” —até porque, naquela altura, o objeto de exclusão não eram mais os europeus comunitários mais barulhentos, mas os extracomunitários (ilegais e bem mais barulhentos do que os italianos).

Também as razões da exclusão já não eram tanto a distância cultural quanto os receios de decadência econômica, bem enraizados numa classe C que se sentia ameaçada pela modernização e pela chegada de novos imigrantes de fora da Europa (o filme “Eu, Daniel Blake”, dirigido por Ken Loach e lançado em 2016, retrata adequadamente essa época e esses medos).

Enfim, para mim, o mais doloroso não era e não foi o peso da exclusão, mas a consciência de um fracasso maior, mais amplo: o fracasso de um sonho que estava além da Europa unificada, esse
mundo no qual chegamos a sonhar que se falasse uma língua só (de fato, numa época, falou-se uma língua só, o latim).

Melhor dito, o fracasso de uma cultura que, mesmo no esplendor de sua complexidade, mesmo na melhor prática de sua razão, não conseguiu construir os pressupostos para que houvesse um
dia paz e convivência decente entre seus membros.

É como se fôssemos condenados a descobrir sempre e repetidamente, numa repetição do esforço de Sísifo, que ganhamos, sim, a cada dia (sempre conseguimos empurrar a pedra até lá em cima, nossa cultura não é para menos), mas isso não basta: ainda é preciso saber e talvez merecer viver lá em cima.

A Europa talvez seja isso: uma cultura que nunca consegue estar à altura de si mesma.


Texto de Contardo Calligaris, na Folha de São Paulo