quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Temer despencou e Lula cresceu em Datafolha; a jararaca está viva

Os números da pesquisa Datafolha foram claros. Em julho, 31% dos entrevistados achavam que o governo de Michel Temer era ruim ou péssimo. No início de dezembro, antes que se conhecesse o conteúdo da primeira colaboração da Odebrecht, eram 51%. Tudo bem, ele recebeu uma herança maldita, mas enquanto o PT paga sua conta com a Lava Jato há mais de um ano, o PMDB de Renan Calheiros, Romero Jucá, Moreira Franco e Eliseu Padilha só agora começou a receber a visita dos cobradores. Quem sabe um dia a economia começa a respirar, a Lava Jato sai da ribalta e são Jorge ajuda. Prometendo uma "Ponte para o Futuro", Temer oferecia esperança, pedindo confiança. A ponte virou pinguela e, como diz Fernando Henrique Cardoso, é a que temos.
A mesma pesquisa informou que entre março e dezembro Lula pulou de 17% para 25%, nas preferências para um primeiro turno na próxima eleição presidencial, com variações desprezíveis dependendo do cenário. Atrás dele vem Marina Silva em cerca de 15%, em queda em todos os cenários. Numa previsão de segundo turno, Marina derrota Lula e todos os outros. Nessas simulações, "Nosso Guia" (expressão cunhada pelo então chanceler Celso Amorim) derrota todos os outros, salvo Marina. A cruz de Lula é sua rejeição (44%), empatado com Temer (45%).
Pesquisa de opinião em 2016 para uma eleição que está marcada para 2018 vale pouco mais que um horóscopo, mas o sinal que vem do Datafolha é claro: o caminho de "todos os outros" será pedregoso. Marina Silva prevalece num segundo turno, contra Lula, Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra. Lula só perde para ela. Como ele mesmo disse, "a jararaca está viva".
Não só viva, como tonificada por um governo que anuncia uma reforma da Previdência que mais se parece a um rebanho de bodes. Se isso fosse pouco, falta-lhe a humildade de reconhecer que a prometida (e indefinida) reforma trabalhista foi um balão de ensaio para enternecer o andar de cima, que acabou enfurecendo o de baixo.
A jararaca poderá morrer com uma sentença judicial, mas o acordão do Supremo Tribunal que manteve Renan Calheiros na presidência do Senado foi um presente para o comissariado. Só o tempo e os autos dirão se as culpas de Lula são suficientes para torná-lo inelegível. Para quem se esgoelou na avenida Paulista gritando "Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro" as notícias são ruins.
Os brasileiros olham com desdém para a política argentina e desprezam os vizinhos encantados pelo fenômeno do peronismo. Afinal Juan Perón foi um general larápio deposto em 1955 que voltou ao poder, caquético, em 1973 e morreu em 1974 deixando o governo para sua mulher Isabelita, uma senhora que conheceu num cabaré panamenho.
O peronismo sobreviveu a dois golpes e na sua última encarnação chamou-se kirchnerisno. Quando Perón foi deposto em 1955, os militares fizeram uma exposição das joias e vestidos de sua mulher Evita, morta pouco antes. Coisa para classificar o luxo do casal Sérgio Cabral como "periferia chic". Vestidos? Christian Dior e Balenciaga. Joias? Uma tiara de brilhantes.
São muitas as teorias para explicar a resistência do peronismo. Seu oxigênio é a demofobia do andar de cima argentino. É uma gente finíssima, deu a duquesa de York à Inglaterra e a rainha Máxima à Holanda, só não entende um povo que vê em Evita uma princesa.


Texto de Elio Gaspari, na Folha de São Paulo

Temer é hoje o obstáculo maior à normalidade democrática

O bunker brasiliense recebeu o seu último bloco de concreto no Dia do Fico de Renan Calheiros na presidência do Senado. Judiciário, Legislativo e Executivo mandaram às favas escrúpulos legais e firulas democráticas. Entrincheiraram-se na defesa da cleptocracia.
A traição da Odebrecht pôs os cleptocratas em polvorosa. Baratas voam em todas as direções. Ratos gritam "pega ladrão!" e fogem com a rapina. Avestruzes enfiam a cabeça na areia e fingem que não é com eles. Urubus dão rasantes pela Praça dos Três Poderes Podres.
Moralmente, os cleptocratas não valem a tintura acaju que lhes colore o topete e o Viagra que lhes corre nas veias. Politicamente, formam uma casta parasitária e perdulária. Socialmente, são teleguiados por uma classe inútil, que não obstante vem sugando o sangue de um povo exangue.
Ao contrário dos hinos infatigáveis à reforma da Previdência, esse povo está exausto. Ele é o tio que trabalhou a vida toda e não tem onde cair morto. A colega demitida há anos que não arrumou mais emprego e afundou numa depressão suicida. O balconista com câncer que desmaia na fila de um plano de saúde abjeto.
Esse povo não tem quem o defenda. Planalto, Supremo e Congresso se uniram para salvar o sistema e incrementar a espoliação. Dentro das instituições, são raras e cavas as vozes discordantes. São Cassandras: suas palavras não atenuam o desastre em andamento.
Os poderes constituídos não se saciarão com o arrocho nos salários e a pauperização de hospitais e escolas. Querem que os mais fracos, os velhos, paguem para se apinhar em ônibus. Querem morder o 13º e as férias.
Querem reduzir o valor do trabalho e valorizar os papéis de quem vive de renda. Querem joias, apê, relógio, dinheiro vivo na mão do cunhado.
Não é por acaso que o projeto do Planalto preserva as aposentadorias de policiais e militares. O governo tem medo que as Forças Armadas passem para o lado dos que terão os seus direitos dizimados. Pretende que policiais e militares desçam o cacete em quem ouse protestar. Na ausência de legitimidade, a força é o seu recurso à mão.
Michel Temer assumiu o poder prometendo governo limpo, e logo virou chefe da cleptocracia. Afiançou que zelaria pelos modos republicanos, e não passa semana sem que articule a defesa do que há de mais venal na política –da proteção de batedores de carteira à anistia dos que se banharam em caixa dois.
Temer disse que também ele, e não só Dilma, encarnava a soberania conferida por eleições. Mas nem um voto lhe foi dado para transformar austeridade em sinônimo de crueldade. Falou que seria lembrado como o sujeito que colocou o Brasil nos trilhos, e agravou o descarrilamento iniciado no governo no qual foi vice-presidente.
Querer que Temer caia fora não é coisa de petistas. Dilma, é verdade, não figura na delação da Odebrecht da maneira vexatória com que Temer e sua turma nela fulguram. Mas não há sentido em tê-la de volta ao
Planalto. A não ser que seja eleita.
Temer é hoje o obstáculo maior à normalidade democrática e à racionalidade econômica. A sua manutenção no cargo é gasolina no incêndio. Ela fará com que crise se alongue e faça mais vítimas. Atiçará os arautos da força.
Só um presidente com voto pode dar alento à vida nacional. Eleito com base em ideias para tirar o Brasil do buraco, ele poderá governar de verdade, abreviando o suplício nacional. Fora, Temer.


Texto de Mário Sérgio Conti, na Folha de São Paulo

A arte de viver dentro da bolha

O romance "Arrecife", do mexicano Juan Villoro, desenrola-se em um resort do Caribe onde o principal atrativo oferecido aos turistas é flertar com o perigo. A programação inclui um conto de fadas às avessas: sequestros relâmpagos e emboscadas da guerrilha do narcotráfico em meio ao cenário de mar azul. Tais ações, no entanto, são comandadas por atores. É tudo mentirinha.
Esse tipo de "pós-turismo" retratado no livro não é ficção. Foi — como se diz mesmo? — baseado em fatos reais. Como existe aquele em que se organizam excursões para cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos e provar a adrenalina de ser perseguidos.
Como também existia — antes do fracasso da política das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) — o passeio guiado pelos becos das favelas do Rio. Era uma maneira de se sentir perto do mundo do crime e das drogas, mas são e salvo. Pobreza, violência e doença vistas como distração para pessoas que se aborrecem com suas vidinhas.
A jornalista Cecilia Olliveira mostrou semana passada que a fazenda Santa Eufrásia, em Vassouras, no Vale do Paraíba, construída na década de 1830 e tombada pelo Iphan, explora um estranho turismo. Apesar do clima agradável e da natureza e arquitetura preservadas, o fascínio ali é a escravidão. Trajando roupas de época como se fosse uma sinhá-velha e acompanhada por mulheres negras vestidas como mucamas, a proprietária recebe os visitantes que pagam até R$ 65 para ser servidos à mesa pelas "escravas". Não se sabe se consta a opção pacote premium, com direito ao tronco e chicotadas no lombo.
Nos romances distópicos, os personagens não têm consciência de viver num lugar imaginário e opressivo ou de quão alienados eles estão. Aquele é o mundo deles, a bolha que lhes basta. Na chamada vida real, as pessoas sabem o que fazem?


Texto de Álvaro Costa e Silva, na Folha de São Paulo

Líder dos problemas, saúde não mobiliza, não enche a Paulista

A saúde voltou a ocupar o lugar de onde nunca saiu de fato: a liderança dos principais problemas do país. Segundo pesquisa Datafolha publicada no domingo, 33% consideram a assistência médica a grande falha do país e 16%, a corrupção, que neste último ano havia ocupado o topo do ranking.
Não que neste período a saúde tenha melhorado. Ela só foi ofuscada momentaneamente pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT) e pelas inúmeras denúncias de desvios de recursos públicos que vieram à tona com a Operação Lava Jato.
De resto, a coisa continua de mal a pior. Faltam medicamentos, alguns básicos, em toda a rede de saúde, vários serviços estão reduzindo atendimento, as filas de espera por cirurgias eletivas estão a perder de vista. Sem contar as arboviroses (dengue, zika e chikungunya) que neste ano devem bater recorde histórico, ultrapassando a marca dos 2 milhões.
Isso tudo em momento em que as pessoas estão perdendo o emprego (e, consequentemente, seus planos de saúde) e indo bater na porta do SUS. Como desgraça pouca é bobagem, há também o temor com os impactos do congelamento de investimentos federais no SUS ao longo dos 20 anos de vigência da PEC 55.
O interessante é que, a despeito de liderar por anos o ranking das insatisfações dos brasileiros, a saúde não mobiliza, não enche a avenida Paulista. Talvez porque os grupos com poder de mobilização não se identificam com o SUS, pouco se importam com o seu sucateamento.
Na última quinta (8), médicos sanitaristas, economistas e outros especialistas da área debateram o assunto no Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo). Uma questão importante levantada foi a desigualdade, explicitada nas taxas de mortalidade infantil na capital paulista.
Um mapeamento da Prefeitura de São Paulo, por exemplo, aponta duas vezes mais mortes de crianças nos bairros da zona leste, mais pobres, do que em Pinheiros, de classe média alta, na zona oeste.
"Qualquer pesquisa de opinião coloca corrupção e saúde entre os temas de maior importância no Brasil. A desigualdade, porém, aparece como problema de menor importância, ao contrário do que ocorre na maioria dos países", lembrou Gastão Wagner, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas e presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).
Para ele, a total desconsideração pelo ser humano pode ser vista em cidades mais feias, sem áreas verdes, na segregação horrenda das favelas e comunidades das grandes cidades sem saneamento básico. "Isso seria resolvido com R$ 15 bilhões, segundo estudos, o que são trocados. Temos tradição de desrespeito à população", disse.
A médica sanitarista Ligia Bahia, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, defendeu a participação dos economistas em estudos e na defesa do SUS. "Precisamos que eles se metam na saúde. Não é possível que não falem em saúde, porque é de financiamento que mais falamos; é o maior problema."
Ela criticou a isenção fiscal de gastos com a saúde, que considera vergonhosa e uma das causas mais importantes dos problemas de caixa do SUS. "E nessa crise toda, o tema não chega às mesas de debates. O governo da Irlanda acabou recentemente com a dedução fiscal na saúde. Não se trata de ser de esquerda ou de direita. Na defesa pelo SUS, precisamos da economia", disse.
Além de economistas, o sistema público de saúde precisa também de bons gestores. A diferença que eles fazem pode ser vista nas ilhas de excelência do SUS. Muitas padecem da mesma falta de financiamento de outras unidades, mas conseguem se sobressair. O SUS precisa de gestores que, sobretudo, não fechem os olhos para o desperdício e para as fraudes.
O SUS também precisa de nós, mesmo que a gente ache, por ignorância ou preconceito, que não precisa dele. Faço minhas as palavras da Ligia. Não se trata de ser de esquerda ou de direita. Trata-se de exercer a cidadania, de ter consciência das suas obrigações e direitos, lutando para que sejam colocados em prática. E isso vai muito além de vestir uma camiseta verde e amarelo.


Texto de Cláudia Collucci, na Folha de São Paulo

sábado, 10 de dezembro de 2016

O fim da aposentadoria

Vamos parar de enrolar a população: o STF havia decidido com maioria de seis votos que qualquer réu em processo penal não poderia presidir o Senado ou a Câmara dos Deputados, ou seja, estar na linha sucessória do presidente da República. Não havia isto ou aquilo. Era réu e ponto. Aí veio o caso Renan e o STF amarelou, pipocou, mostrou os fundilhos. O decano Celso de Mello prestou-se a um papel vexatório. Foi na frente para indicar a virada de mesa.

O STF conseguiu transformar Renan Calheiros em salvador da pátria.
Nada de novo. O STF legitimou o golpe contra Dilma.
Em 2017, deve ajudar a derrubar Temer para entregar o poder aos tucanos.
Por enquanto, opera para que o trabalho sujo das reformas seja feito.
Entre elas, a reforma da Previdência, que mata o candidato à aposentadoria para resolver o rombo das contas.
André Gorz falou em adeus ao proletariado.
Temer dá adeus ao aposentado.
      Fica assim num resumo mais alentado. Nova lei: a ilegitimidade dá legitimidade para a aprovação de planos perversos. Parece que certas coisas só podem ser feitas por quem não foi eleito para o cargo ou, ao menos, não submeteu seu programa ao crivo do eleitor, esse ser com mania de pensar nos seus interesses como se fosse um empresário preocupado com seus negócios. O eleitor não é confiável. Tem essa mania de direitos adquiridos.
Aos fatos. O projeto do governo Michel Temer para a reforma da previdência é um tratado geral de maldade. Fica mais perverso ainda na medida em que é bancado por um presidente e por ministros que se aposentaram pouco depois dos 50 anos de idade e que até há pouco ganhavam acima do teto constitucional. Sejamos franco: o projeto praticamente acaba com a aposentadoria integral, mesmo pelo baixo teto do INSS, no Brasil. Para ter o benefício integral será preciso trabalhar 49 anos, dos 16 aos 65 anos. Jovens de classe média, que começam a ter carteira assinada pelos 23 anos, terão de trabalhar até os 72 anos para embolsar algo em torno de cinco mil reais por mês.
Na prática, cada um perderá pelo menos 20% do pouco que poderia receber. O governo montou uma máquina de chantagem para assustar a população: é isso ou o fim da previdência. Jornalistas globais, que ganham salários acima dos cem mil reais mensais, afirmam que se trata de medida cívica e salvacionista. Uma apresentadora chapa branca chegou a dizer: “Nós precisamos aprovar esse projeto”. Depois, corrigiu-se: “O governo preciosa…” Num país continental, com a expectativa média de vida no Nordeste incapaz de superar os 67 anos, será, para milhões de brasileiros, o fim da aposentadoria. A morte, que é ágil e econômica, chegará antes. Sem dúvida, é uma forma original e eficiente de resolver o chamado rombo da previdência.
As pensões de viúvos cairão pela metade. O homem deixará de ser ludens e demens para ser exclusivamente faber. Viverá para trabalhar até a morte. Só a loucura poderá salvá-lo do destino de peça na engrenagem econômica. Ao longo da vida de produtor da riqueza alheia será adestrado para consumir tudo o que não precisa. O sistema está treinado para rebater críticas à ideia de falsa necessidade alegando que o desnecessário para uns pode ser necessário para outros, inclusive 56 tipos diferentes de capas de celular. É possível que o governo esteja radicalizando para negociar. A idade mínima para aposentadoria dada a complexidade brasileira deveria ser de 60 anos.
Se alguém tinha dúvidas agora já sabe a razão do afastamento de Dilma Rousseff. O esclarecimento continuará com a reforma trabalhista. A modernidade requer sacrifícios de parte da plebe. Acontece que a elite não suportaria viver fora do seu padrão. Imagino o desconforto de Adriana Anselmo, ex-primeira dama do Rio de Janeiro, acostumada a joias caras pagas com dinheiro público. A infeliz terá de secar roupas íntimas numa basculante de presídio em Bangu. Reformas como essa da previdência sacrificam a maioria para poupar os poucos que só sabem viver nas alturas. Faz sentido. Pura perversão. Mas perversão precisa do aval da mídia para se tornar uma saída.
Adeus aos aposentados.
A morte nos salvará.


Reprodução do Blog do Juremir Machado da Silva no Correio do Povo

Sul-coreanos e japoneses podem dar lições de malandragem aos brasileiros

Com tantos casos de corrupção no Brasil, não falta quem atribua o fenômeno aos vícios originais de nossa cultura –como o patrimonialismo ou a herança católica.
Afirma-se (eu mesmo achei isso durante um tempo) que seria hipócrita reclamar de políticos desonestos quando estamos, na maior parte do tempo, dando nossos jeitinhos no Detran ou pagando consulta médica sem exigir recibo.
Alguns comportamentos cotidianos de fato me parecem chocantes. Faz muito tempo, mas não me esqueço de um parente que, numa festa de casamento, meteu algumas notas no bolso de um garçom para garantir uma oferta ilimitada de drinques e salgadinhos. Ouvi depois que se trata de uma prática comum.
Menos comum foi o que me contaram de uma freguesa de supermercado. Adepta de uma modalidade específica do café Melitta –parece que a Sul de Minas é a melhor de todas–, ela se incomodava com o fato de nunca encontrá-la nas prateleiras. Sempre havia quem comprasse tudo antes.
A solução foi pagar uma propina para alguém do supermercado, que se compromete agora a avisar pelo telefone quando a bendita marca chega no caminhão.
É esperteza e energia demais, a meu ver, para vantagens tão pequenas. Seja como for, não vejo relação de causalidade direta entre essa corrupção miúda e o desvio sistemático de verbas públicas.
De minha parte, estou cada vez mais convencido de que a cultura tem menos importância para a corrupção do que a arquitetura institucional de cada país.
Os que veem no Brasil a pátria insuperável da pilantragem e do jeitinho podem se divertir e se surpreender com dois filmes do Extremo Oriente lançados Neste ano.
"Um Dia Difícil", do sul-coreano Kim Seong-hun, é uma ótima mistura de comédia e suspense, e pode ser encontrado na internet. O herói da história é um policial capaz de dar lições ao mais refinado malandro nacional.
Dirigindo bêbado a caminho do velório de sua mãe, ele atropela uma pessoa na estrada. Esconde-se dos guardas de trânsito; dá uma carteirada para evitar o bafômetro; resolve enfiar o defunto no porta-malas do carro.
A confusão está apenas começando. Como se livrar do cadáver? Lembremos que ele tem outro à disposição, o de sua própria mãe.
O engenho do protagonista só tem rivais na inteligência e na brutalidade de seu adversário –um superior seu na hierarquia da polícia, altamente corrupto, com interesse especial em achar o corpo do atropelado.
Violência, improviso, comédia e corrupção fazem de "Um Dia Difícil" a contestação de qualquer teoria sobre o que o Brasil tem de tão particular assim nesse tipo de coisas. O filme até brinca com um conhecido estereótipo –o de que os coreanos são ótimos em matemática.
Bem, mas é a Coreia do Sul, país em que manifestações pela renúncia da presidente devido a escândalos com dinheiro público se sucedem semanalmente. O que dizer do Japão?
Sempre tivemos, graças a nosso contato com as primeiras gerações de imigrantes, a imagem dos japoneses como especialmente confiáveis, regrados e até inflexíveis. No maravilhoso "Depois da Tempestade", de Hirokazu Kore-eda (em cartaz em São Paulo), acompanhamos a história de um escritor fracassado, embrulhão para brasileiro nenhum botar defeito.
Sem ter como para pagar pensão para a ex-mulher, o protagonista arranja emprego como detetive particular, tirando dinheiro extra como chantagista, e gastando tudo no jogo. Ele mente o tempo inteiro, remexe nos guardados da mãe para encontrar algo de valor e dá uma simplíssima e magistral lição de como conseguir desconto numa loja de artigos esportivos.
Seria a malandragem em pessoa, não fosse o lindo conflito de consciência que vive nas relações com o filho pequeno. Nesse campo das relações entre pai e filho, "Depois da Tempestade" poderia ser visto como uma espécie de "Ladrões de Bicicleta" contemporâneo, em que o drama operário filmado por Vittorio de Sica em 1948 é substituído pela ambiguidade moral de um mundo em que o trabalho começa a desaparecer.
O arranjo, o expediente, o "bico", o "jeitinho" e o trambique serão, talvez, reflexo de uma situação urbana em que as organizações trabalhistas clássicas deram lugar à precariedade do cada um por si. Não espanta que tantos ex-sindicalistas, aliás, tenham sido rápidos nessa adaptação aos novos tempos.


Texto de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo

Câmara aprova nova lei da migração, que revoga o estatuto do estrangeiro

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O Arquivo

 

O ARQUIVO


Victor Giudice


No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.


Reprodução do Facebook de Marcelo Spalding.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É preciso lutar contra o design anticonsumidor de sites

Há uma péssima tendência tomando conta da internet. Trata-se do uso do design para criar sites que confundem ou até mesmo enganam o consumidor a comprar produtos e serviços que não estavam planejados. Ou que dificultam o cancelamento ou a desistência de compras efetuadas.
Hoje, quem adquire uma passagem aérea pela rede enfrenta um labirinto de páginas e informações que, além da passagem original, tentam vender uma série de serviços adicionais, de seguros, a reserva de veículos ou hotéis. Até aí tudo bem. A questão é que as páginas são desenhadas para confundir. Se o consumidor seguir seu "instinto" ou o padrão de navegação que parece "natural", levará mais tempo ou comprará mais do que precisa.
O oposto acontece com relação ao cancelamento de serviços. Para cancelar uma passagem (ou emitir uma gratuitamente com milhas), é preciso passar por um procedimento em geral excruciante, cuidadosamente desenhado para gastar o tempo do usuário, aumentando as chances de que desista do processo.
A regra é "facilite a entrada e dificulte ao máximo a saída". Infelizmente esse padrão contaminou não só companhias aéreas mas também empresas de telefonia, TV a cabo, lojas virtuais, call centers, serviços e aplicativos em geral.
Um caso emblemático é o da companhia aérea irlandesa Ryanair. Em certo momento, sua página perguntava ao consumidor: "De que país você é?". Quando o usuário respondia, ele automaticamente adquiria um seguro-viagem. Para não comprar, ele teria de buscar na lista de países a frase: "Não quero comprar seguro-viagem".
Para ajudar a combater essa tendência, um grupo de designers criou o projeto DarkPatterrns.org ("Padrões Obscuros"). Nele, há uma compilação de casos reais de truques para enganar o consumidor.
Essa é uma nova e essencial área para as organizações que defendem os direitos de consumidores e usuários da internet. Esse tipo de design abusa do chamado "princípio bovino". Com pequenas "cercas" e caminhos traçados, é possível conduzir grandes rebanhos. Em outras palavras, tratam usuários como gado, levando-os a percursos irracionais e ineficientes. O tempo gasto, multiplicado pelo número de pessoas afetadas, resulta em enorme peso morto.
Isso também depõe contra o próprio design. Há cada vez mais grupos a instituições propondo a criação de um código de ética para designers, sugerindo que recusem esse tipo de projeto. Há também propostas para a criação de selos que certifiquem serviços que estão livres do design anticonsumidor.
Em uma sociedade cada vez mais complexa, o design é uma ferramenta essencial para repensar as instituições (já até escrevi que o design é o novo MBA). É preocupante que ele seja usado para atuar contra os princípios que orientam sua razão de ser. Grandes designers humanistas, como o casal Ray e Charles Eames, estariam desapontadíssimos.

Texto de Ronaldo Lemos, na Folha de São Paulo

Morre, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar

Morre, aos 86 anos, o poeta Ferreira Gullar

Escritor estava internado no Rio de Janeiro
Um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, o poeta Ferreira Gullar morreu neste domingo, aos 86 anos. Ele estava internado no Hospital Copa D'Or, na zona Sul do Rio de Janeiro, e estaria com um quadro de insuficiência respiratória e pneumonia, apontada como causa da morte. Ainda não há informações sobre o velório.
Além de poeta, Gullar era ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista. Quarto dos 11 filhos de Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart, ele nasceu José de Ribamar Ferreira no dia 10 de setembro de 1930 em São Luiz, no Maranhão. Dividiu os anos da infância entre a escola e a vida de rua, jogando bola e pescando no Rio
Bacanga.
No começo, acreditava que todos os poetas já haviam morrido e somente depois descobriu que havia muitos deles em sua própria cidade, a algumas quadras de sua casa. Com 18 anos, passou a frequentar os bares da Praça João Lisboa e o Grêmio Lítero-Recreativo, onde, aos domingos, havia leitura de poemas.
Descobriu a poesia moderna apenas aos 19 anos, ao ler os poemas de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ficou escandalizado com esse tipo de poesia e tratou de informar-se, lendo ensaios sobre a nova poesia.
Pouco depois, aderiu a ela e adotou uma atitude totalmente oposta à que tinha anteriormente, tornando-se um poeta experimental radical, que tinha como lema uma frase de Gauguin: "Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés".
Ou seja, nada de fórmulas: o poema teria que ser inventado a cada momento. "Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema", diria ele mais tarde. Assim nasceu o livro que o lançaria no cenário literário do país em 1954: "A Luta Corporal".
Os últimos poemas deste livro resultam de uma implosão da linguagem poética e provocariam o surgimento na literatura brasileira da "poesia concreta", de que Gullar foi um dos participantes e, em seguida dissidente, passando a integrar um grupo de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro: o grupo neoconcreto. O movimento neoconcreto surgiu em 1959, com um manifesto escrito por Gullar, seguido da teoria do não-objeto. Esses dois textos fazem hoje parte da história da arte brasileira, pelo que trouxeram de original e revolucionário. São expressões da arte neoconcreta as obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica, hoje nomes mundialmente conhecidos.
Experiências
Gullar levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o "Livro-Poema" e, depois, o "Poema Espacial", e, finalmente, o "Poema Enterrado". Este consiste em uma sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra "rejuvenesça".
O poema enterrado foi a última obra neoconcreta de Gullar, que afastou-se do grupo e integrou-se na luta política revolucionária. Entrou para o Partido Comunista e passou a escrever poemas sobre política e participar da luta contra a ditadura militar que havia se implantado no país, em 1964. Foi processado e preso na Vila Militar. Mais tarde, teve de abandonar a vida legal, passar à clandestinidade e, depois, ao exílio. Deixou clandestinamente o país e foi para Moscou, depois para Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.
Voltou para o Brasil em 1977, quando foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, voltou a trabalhar na imprensa do Rio de Janeiro e, depois, como roteirista de televisão. Durante o exílio em Buenos Aires, escreveu "Poema Sujo", um longo poema de quase cem páginas e que é considerado sua obra-prima. Esse poema causou enorme impacto ao ser editado no Brasil e foi um dos fatores que determinaram a volta do poeta a seu país.
De volta ao Brasil, Gullar publicou, em 1980, "Na vertigem do dia" e "Toda Poesia", livro que reuniu toda sua produção poética até então. Voltou a escrever sobre arte na imprensa do Rio e São Paulo, publicando, nesse campo, dois livros "Etapas da arte contemporânea" (1985) e "Argumentação contra a morte da arte" (1993), onde discute a crise da arte contemporânea.
Outro campo de atuação de Ferreira Gullar é o teatro. Após o golpe militar, ele e um grupo de jovens dramaturgos e atores fundou o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência democrática ao regime autoritário. Nesse período, escreveu, com Oduvaldo Vianna Filho, as peças "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" e "A saída? Onde fica a saída?".
De volta do exílio, escreveu a peça "Um rubi no umbigo", montada pelo Teatro Casa Grande em 1978. Gullar afirmava que a poesia era sua atividade fundamental. Em 1987, publicou "Barulhos" e, em 1999, "Muitas Vozes", que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano.
Durante sua trajetória, obteve diversos prêmios e láureas, incluindo uma indicação ao Nobel de Literatura em 2002. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, mais importante premiação literária da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Um ano depois, também venceu o Prêmio Jabuti com o livro "Em alguma parte" - ele já havia conquistado a premiação em 2007, pelo livro "Resmungos", que reúne crônicas publicadas no jornal "Folha de São Paulo".
Ferreira Gullar foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2014, ocupando a cadeira nº 37. Também recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio da Faculdade de Letras da instituição.

Reprodução do Correio do Povo

Conto: o homem da câmera

Foi com um câmera IP e um protocolo FTP que tudo começou. É o tipo de dispositivo para quem não entende muito de configuração e procura uma ferramenta que cumpra o desejado numa conexão com roteador, eliminando cabos incômodos. Para a instalação basta seguir um tutorial disponível na própria rede. Foi assim que Julian começou.
No início, embaralhou-se com perguntas e respostas deste tipo:
– Eu preciso definir o IP da Cam fora da faixa do DHCP?
Não fica claro sem ele perguntou isso a um especialista ou se apenas leu algo assim quando se preparava para instalar a sua câmera. Julian é um cara tranquilo. Gosta de videogames. Curte bandas como System of a down e passa dias e noites trancado no seu quarto quando não se sente animado para sair. Ou seja, sempre. Na verdade, sair até lhe interessa muito. O problema é esse contato com o exterior, um mundo áspero e ameaçador que o intimida. Julian deveria, com essas características, ser um quase um profissional da rede, mas não é. Não tem persistência nem curiosidade suficientes. A vida tem passado lentamente e Julian a divide em duas etapas: quando teve espinhas e quando se livrou delas. Ou quando parou de ouvir Nirvana. Simples.
Na última vez em que um amigo o visitou, Julian estava com a janela do quarto fechada apesar do dia bonito que fazia. Justificou:
– A minha janela para o mundo é o computador.
– Você vê muita coisa?
– Não.
O amigo ficou esperando que Julian desenvolvesse o raciocínio. Isso não aconteceu. Normalmente as pessoas sentem necessidade de dar explicações sobre o que pensam e não sustentam um silêncio desse tipo por muito tempo. Ficam constrangidas. Sentem-se em dívida. Sofrem com a espera do interlocutor. Julian não é assim. A expectativa alheia não o atinge. Ao menos, para ser claro, não o afeta presencialmente. Pode ser depressão. Pode ser também excesso de lucidez. A última vez em que reuniu amigos – três – para bater papo foi quando completou 40 anos de idade. Os convidados arriscaram meia dúzia de perguntas e, diante das respostas lacônicas, bateram em retirada. A surpresa foi, já na saída, uma frase composta de sujeito, verbo e predicado:
– As praias estão cada vez mais sujas.
Diante do espanto dos amigos, Julian concedeu um murmúrio:
– Bobagem. Falei por falar.
A descrição do quarto de Julian mereceria um capítulo à parte. Numa obra mais alentada certamente não se dispensaria esse detalhamento. É um quarto de 15 metros quadrados. Talvez mais. Talvez menos. Ninguém mediu. Contistas costumam apresentar medidas aproximativas como se fossem exatas. Não se deve confiar totalmente. Paredes brancas. A janela dá para um edifício de paredes sujas. Mesmo assim, uma nesga de sol invade a peça pela manhã. Numa pequena estante de metal, meio enviesados, quase caindo, estão alguns vinis. Um deles é da banda Aerosmith. Há um pôster na parede, um pouco acima da cama. Uma imagem de Eric Clapton. Em certo sentido, nada de mais: um quarto pop. Um cinzeiro acumula baganas de todos os tipos.
Também são identificáveis uns três livros. Dá para ver a lombada de um deles com um título em letras azuis: Neuromancer. É um lugar, como se dizia antigamente, espartano. Tem um armário e uma cama de solteiro. O computador é um laptop que repousa sobre uma dessas mesas de escritório. Na frente da mesa, um banquinho de quatro pernas, desse que eram chamados de mochinhos, contrasta com a modernidade dos equipamentos. A câmera revela a melancolia da peça.
Em outras circunstâncias caberia esclarecer como Julian faz para se sustentar. Aqui, não vem ao caso. São questões, de algum modo, resolvidas na vida dele. É incrível como existem mil formas de sobrevivência, de organização do cotidiano e de passar o tempo. Julian instalou a câmera. Aos poucos, melhorou a tecnologia. O seu quarto pode ser observado integralmente a qualquer hora do dia a partir de qualquer ponto do planeta. Cada gesto que faz está em foco. Todos os seus movimentos estão sob o olho frio da lente. A janela para o mundo permanece aberta 24 horas por dia. Nunca é fechada. Na maior do tempo, a imagem é estática: Julian de barriga para cima na cama. Ele pode ser visto fumando, mexendo nos livros, coçando-se.
Cena rara: Julian rezando. Ele está com as mãos entrelaçadas. Mexe os lábios lentamente. Quantas pessoas fazem como Julian? Quantos se exibem assim na rede? Milhares? Milhões? Faz parte da sociedade do espetáculo esse desejo quase obsceno de mostrar-se mesmo nada tendo a exibir? Certamente. O caso de Julian, porém, é diferente. Por quê? Difícil dizer. Seria preciso conversar um pouco mais com ele para entender. As suas motivações são obscuras, contraditórias, vagas. Julian é exatamente isto: contraditório, obscuro, vago. Enfim, do ponto de vista de quem tenta decifrá-lo um tanto rapidamente. Ele se dá a ver como um animal num zoológico. Um urso triste.
Na sua jaula.
Um contador marca o número de pessoas que já tiveram acesso às imagens permanentemente disponíveis de Julian. Ele confere esse contador a cada hora. Passado um ano e dois meses, um acesso.
O meu.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Para Joaquim Barbosa, governo Temer corre o risco de não chegar ao fim

O ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Joaquim Barbosa assistiu praticamente em silêncio ao impeachment de Dilma Rousseff e aos principais fatos políticos deste ano no Brasil.
Depois de quase um ano sem dar entrevistas, Barbosa, que montou escritório em São Paulo e hoje dá palestra e faz pareceres jurídicos, recebeu a Folha no apartamento de dois quartos que alugou na cidade.
Para o ex-ministro, que comandou o julgamento do mensalão, o impeachment foi "uma encenação" que fez o país retroceder a um "passado no qual éramos considerados uma República de Bananas". Barbosa acha que o governo de Michel Temer corre o risco de não chegar ao fim.
*
 
Folha - O senhor escreveu há alguns meses em sua conta no Twitter que o afastamento de Dilma Rousseff foi um "impeachment Tabajara". Por quê?
Joaquim Barbosa - Tabajara porque aquilo foi uma encenação. Todos os passos já estavam planejados desde 2015. Aqueles ritos ali [no Congresso] foram cumpridos apenas formalmente.
O que houve foi que um grupo de políticos que supostamente davam apoio ao governo num determinado momento decidiu que iriam destituir a presidente. O resto foi pura encenação. Os argumentos da defesa não eram levados em consideração, nada era pesado e examinado sob uma ótica dialética.
Folha - O que sustentava esse grupo? Porque dez pessoas apenas não fazem um impeachment.
Era um grupo de líderes em manobras parlamentares que têm um modo de agir sorrateiro. Agem às sombras. E num determinado momento decidiram [derrubar Dilma].
Acuados por acusações graves, eles tinham uma motivação espúria: impedir a investigação de crimes por eles praticados. Essa encenação toda foi um véu que se criou para encobrir a real motivação, que continua válida.
O senhor acha que ainda há risco para as investigações que estão em curso?
Há, sim, porque a sociedade brasileira ainda não acordou para a fragilidade institucional que se criou quando se mexeu num pilar fundamental do nosso sistema de governo, que é a Presidência. Uma das consequências mais graves de todo esse processo foi o seu enfraquecimento. Aquelas lideranças da sociedade que apoiaram com vigor, muitas vezes com ódio, um ato grave como é o impeachment não tinham clareza da desestabilização estrutural que ele provoca.
O impeachment foi um golpe?
Não digo que foi um golpe. Eu digo que as formalidades externas foram observadas –mas eram só formalidades.
O impeachment não teve o apoio de setores econômicos?
A partir de um determinado momento, sob o pretexto de se trazer estabilidade, a elite econômica passou a apoiar, aderiu. Mas a motivação inicial é muito clara.
E qual é o problema do enfraquecimento da Presidência?
No momento em que você mina esse pilar central, todo o resto passa a sofrer desse desequilíbrio estrutural. Todas as teorias dos últimos 30 anos, de hipertrofia da Presidência, de seu poder quase imperial, foram por água abaixo. A facilidade com que se destituiu um presidente desmentiu todas essas teses.
No momento em que o Congresso entra em conluio com o vice para derrubar um presidente da República, com toda uma estrutura de poder que se une não para exercer controles constitucionais mas sim para reunir em suas mãos a totalidade do poder, nasce o que eu chamo de desequilíbrio estrutural.
Essa desestabilização empoderou essa gente numa Presidência sem legitimidade unida a um Congresso com motivações espúrias. E esse grupo se sente legitimado a praticar as maiores barbáries institucionais contra o país.
Durante alguns meses, em palestras, eu indagava à plateia: vocês acham que, concluído o impeachment, numa democracia dessa dimensão, o país sobreviverá por dois anos e meio à turbulência política que se seguirá?
E qual é a sua resposta?
Nós continuaremos em turbulência. Isso só vai acabar no dia em que o Brasil tiver um presidente legitimado pela soberania popular. Aceito de forma consensual, límpida, tranquila, pela grande maioria da população.
O sr. já disse que talvez o governo não chegue ao fim.
Corre o risco. É tão artificial essa situação criada pelo impeachment que eu acho, sinceramente, que esse governo não resistiria a uma série de grandes manifestações.
Que outros problemas o senhor vê no governo?
Os cientistas políticos consolidaram o pensamento de que o presidente depende do Congresso para governar. E não é nada disso. Uma das características da boa Presidência é a comunicação que o presidente tem diretamente com a nação, e não com o Congresso. Ele governa em função da legitimidade, da liderança, da expressão da sua vontade e da sua sintonia com o povo. Dilma não tinha nenhum desses atributos.
Aí ela foi substituída por alguém que também não os têm, mas que acha que está legitimado pelo fato de ter o apoio de um grupo de parlamentares vistos pela população com alto grau de suspeição. Ele [Temer] acha que vai se legitimar. Mas não vai. Não vai. Esse malaise [mal estar] institucional vai perdurar durante os próximos dois anos.
E na área econômica?
O Brasil deu um passo para trás gigantesco em 2016. As instituições democráticas vinham se fortalecendo de maneira consistente nos últimos 30 anos. O Brasil nunca tinha vivido um período tão longo de estabilidade.
E houve uma interrupção brutal desse processo virtuoso. Essa é a grande perda. O Brasil de certa forma entra num processo de "rebananização". É como se o país estivesse reatando com um passado no qual éramos considerados uma República de Bananas. Isso é muito claro. Basta ver o olhar que o mundo lança sobre o Brasil hoje.
E qual é ele?
É um olhar de desdém. Os países centrais olham para as instituições brasileiras com suspeição. Os países em desenvolvimento, se não hostilizam, querem certa distância. O Brasil se tornou um anão político na sua região, onde deveria exercer liderança. É esse trunfo que o país está perdendo.
Isso é recuperável?
No dia em que a sociedade despertar e restaurar a Presidência através de uma eleição em que se escolha alguém que representa os anseios da nação, isso limpa esse "malaise", essa perda dos grandes trunfos.
O que o senhor achou da aprovação da lei de abuso de autoridade na Câmara?
Tudo o que está acontecendo esta semana no Congresso é desdobramento do controvertido processo de impeachment, cujas motivações reais eram espúrias.
Ou seja: a partir do momento em que se aceitou como natural o torpedeamento do pilar central do sistema presidencialista, abriu-se caminho para o enfraquecimento de outras instituições.
A lógica é a seguinte: se eu posso derrubar um chefe de Estado, por que não posso intimidar e encurralar juízes? Poucos intuíram –ou fingiram não intuir– que o que ocorreu no Brasil de abril a agosto de 2016 resultaria no deslocamento do centro de gravidade da política nacional, isto é, na emasculação da presidência da República e do Poder Judiciário e no artificial robustecimento dos membros do Legislativo.
Tudo isso pode ainda ser revertido pelo Senado, pelo veto presidencial ou pelo STF. O importante neste momento é que cada um faça uma boa reflexão e assuma a sua parcela de culpa pela baderna institucional que está tomando conta do país.
E as medidas de combate à corrupção apresentadas pelo Ministério Público Federal e alteradas na Câmara?
Eu tenho resistência a algumas das propostas, como legitimação de provas obtidas ilegalmente. E o momento [de apresentá-las] foi inoportuno. Deu oportunidade a esse grupo hegemônico de motivação espúria de tentar introduzir [na proposta] medidas que o beneficiassem.
O que o sr. acha da Lava Jato?
Eu acompanho a Lava Jato muito à distância, pela imprensa. Para mim é a Justiça que está dando toda a aparência de estar funcionando.
O que o senhor acha da hipótese de Lula ser preso?
Eu nunca li, nunca me debrucei sobre essas acusações.
Sei que há uma mobilização, um desejo, uma fúria para ver o Lula condenado e preso antes de ser sequer julgado. E há uma repercussão clara disso nos meios de comunicação. Há um esforço nesse sentido. Mas isso não me impressiona. Há um olhar muito negativo do mundo sobre o Brasil hoje. Uma prisão sem fundamento de um ex-presidente com o peso e a história do Lula só tornaria esse olhar ainda mais negativo. Teria que ser algo incontestável.
Para finalizar: o senhor continua na posição de não ser candidato a presidente?
Eu continuo. Seria uma aventura muito grande eu me lançar na política, pelo meu temperamento, pelo meu isolamento pessoal, pelo meu estilo de vida. Eu não tenho por trás de mim nenhuma estrutura econômica, de comunicação. Nem penso em ter.


Entrevista a Mônica Bérgamo, na Folha de São Paulo