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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mercados

O grande problema implícito na organização social em que vivemos está no seguinte:
1) A história mostra que a utilização dos "mercados" para organizar a produção é resultado de um mecanismo evolutivo. Foi gerado por uma seleção quase natural dos muitos sistemas que os homens experimentaram desde que saíram da África, há 150 mil anos, para combinar uma relativa eficiência na produção de sua subsistência material com o aumento paulatino da liberdade para viver sua vida;
2) Aprendemos o seguinte: a) que um Estado forte, constitucionalmente limitado e cujo poder incumbente é escolhido pelo sufrágio universal, é fundamental para regular e "civilizar" a organização dos mercados e mantê-los funcionando; b) que, deixados a si mesmos, eles têm uma tendência a impor flutuações cíclicas no nível de emprego; c) que a crença exagerada na eficiência dos mercados financeiros, que são essenciais ao desenvolvimento, leva o sistema produtivo à submissão àqueles e, com tempo suficiente, ao domínio do próprio Estado, como vimos em 1929 e em 2008, o que coloca em grave risco o seu funcionamento.
O mecanismo de seleção a que nos referimos continua a trabalhar na direção de libertar o homem para viver a sua humanidade, com redução do trabalho necessário à sua subsistência material e dando-lhe a segurança por meio de uma organização social que vai ensaiando como combinar três objetivos não plenamente conciliáveis: maior liberdade individual, maior igualdade de oportunidade e maior eficiência produtiva.
É importante lembrar que esses três valores estão implícitos na Constituição de 1988. Ela reforçou as instituições, para que realizassem a missão de construir uma organização social que produza maior igualdade de oportunidades para todos os cidadãos.
A história sugere também que o mecanismo do ingênuo "socialismo fabiano" de aproximação sucessiva é, talvez, o único capaz de produzi-la, uma vez que as alternativas propostas de substituição voluntarista e forçada da orga-nização social sugerida por cérebros peregrinos provou ser inviável.
O mundo está no limiar de uma nova e profunda revolução industrial, apoiada em novas tecnologias e no aumento dramático da velocidade de transmissão e acumulação de informação, que vai produzir uma redução do trabalho material e um gigantesco aumento do trabalho intelectual.
Para o Brasil, que está ficando mais velho sem ter ficado mais rico, as implicações de médio prazo desse processo civilizador precisam ser antecipadas mediante um dramático e apressado aumento da "qualidade" da nossa educação. Ela é essencial para salvar a economia e a democracia.


Texto de Delfim Netto, na Folha de São Paulo. 

Comentário: me parece que faz algum tempo que o Sr. Delfim Netto vem escrevendo, com pequenas variações, a mesma coluna. Mas é interessante essa ênfase na população brasileira ficando mais velha, sem ter ficado mais rica.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

EUA querem barrar negócio de US$ 20 bi entre cervejarias


EUA querem barrar negócio de US$ 20 bi entre cervejarias
Gigante AB InBev tem acordo para comprar mexicana Modelo, da Corona
Governo teme aumento de preço, pois empresa teria 46% do mercado; no Brasil, Ambev, do mesmo grupo, tem 68%

O Departamento de Justiça dos EUA entrou com processo para evitar que a AB InBev adquira a mexicana Modelo, sob a argumento de que o negócio seria prejudicial à concorrência e ao consumidor -com a consequente elevação do preço da cerveja.
Maior cervejaria do mundo em receita, a AB InBev, dona de marcas como Budweiser, Stella Artois, Brahma, Antarctica e Skol, anunciara em junho de 2012 que havia acertado pagar US$ 20,1 bilhões pelo controle da Modelo -que fabrica a Corona.
A gigante de bebidas já tem fatia de 50% da cervejaria mexicana, herdada quando comprou a Anheuser-Busch, em 2008.
O Departamento de Justiça dos EUA estima que, juntas, AB InBev e Corona teriam 46% das vendas de cerveja.
Como comparação, no Brasil, a Ambev, que faz parte da AB InBev, tem aproximadamente 68% do mercado. A empresa surgiu da fusão entre Brahma e Antarctica, anunciada em 1999 e aprovada pelos órgãos de defesa da concorrência.
"Se a AB InBev assumir controle total da Modelo, poderá aumentar os preços para o consumidor americano", disse William J. Baer, chefe da divisão antitruste do Departamento de Justiça dos EUA.
Procurada, a AB InBev diz que a decisão do governo dos EUA é "incoerente com a lei e com a realidade do mercado" e que vai recorrer.
O negócio é o maior a sofrer oposição do governo dos EUA desde 2001, quando a AT&T tentou comprar a T-Mobile USA -o negócio acabou cancelado.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Cópias? Não, obras-primas falsas


Cópias? Não, obras-primas falsas

Reproduções enganam especialistas

Por PATRICIA COHEN

MADEIRA BEACH, Flórida - Durante quase três décadas, Ken Perenyi ganhou uma pequena fortuna falsificando obras de artistas muito procurados dos século 18 e 19, como Martin Johnson Heade, Gilbert Stuart e Charles Bird King.
Então, em 1998, dois agentes do FBI bateram à sua porta, curiosos sobre duas telas vendidas pela Christie's e Sotheby's, que pareciam ser do artista James E. Buttersworth, mas na realidade eram recriações meticulosas feitas por Perenyi.
"Percebi que a vida que eu conhecia e adorava tinha acabado", contou Perenyi, 63, falando de sua carreira de falsificador. Uma de suas telas falsificadas chegou a ser vendida por mais de US$ 700 mil; hoje ele vende um trabalho quase idêntico por apenas US$ 5.000.
Embora muitas empresas vendam reproduções de obras famosas, poucos se comparam aos trabalhos de Perenyi ou a seu passado interessante.
Ele conta que suas falsificações financiaram um estilo de vida extravagante que incluía viagens pela Europa, restaurantes caros, roupas de Versace e "liberdade total". Perenyi dá detalhes sobre suas façanhas em um livro de memórias a ser lançado em breve: "Caveat Emptor: the Secret Life of an American Art Forger". O livro está sendo promovido como uma confissão e Perenyi, ciente de que seus delitos já prescreveram, sente-se seguro.
Perenyi estima que centenas de suas falsificações continuem em circulação. "Sinto falta da emoção forte de enganar os especialistas", contou ele. "Isso vicia."
A Sotheby's se negou a comentar o assunto. Um representante da Christie's observou que um trabalho que Perenyi descreve como sendo seu, um quadro de dois beija-flores, atribuído a Heade, faz parte do "catalogue raisonné" do artista -o compêndio definitivo de sua obra. O autor do catálogo, Theodore E. Stebbins Jr., curador de arte americana no Museu de Arte de Harvard, disse que, se o relato de Perenyi for convincente, ele vai reexaminar a tela.
O falsificador britânico John Myatt, que passou quatro meses na prisão em 1999, também vende "falsificações legítimas" a galerias pertencentes a uma editora britânica. Artistas como Myatt e Perenyi podem receber valores relativamente altos por suas falsificações. Perenyi vende suas reproduções por valores que vão desde US$ 2.500 por um beija-flor pequeno que ele assina com o nome de Heade até US$ 30 mil por uma paisagem romana grande copiada de Giovanni Panini.
Na Galeria Trinity, em St. Petersburg, na Flórida, onde é vendido o trabalho de Perenyi, o proprietário Allan Abrams disse que seus compradores geralmente são "casais mais velhos, formados por profissionais liberais que durante todas suas vidas quiseram um quadro de determinado artista, mas sabem que isto é o mais perto que chegarão". Abrams exige que os compradores assinem um recibo atestando estar cientes de que estão comprando uma reprodução.
Perenyi disse que desenvolveu sua técnica artística sozinho e aprendeu os detalhes trabalhando para um restaurador e um fabricante de molduras. Com pesquisas e tentativas e erros, descobriu como simular os sinais do tempo nas telas. Ele diz que um de seus melhores trabalhos foi uma flor ao estilo de Heade vendida pela Sotheby's em 1994 como trabalho recém-descoberto, por US$ 717.500.
Diante de uma de suas reproduções de John F. Herring, ele apontou para o brilho na pelagem do cavalo e os detalhes claríssimos do rosto do jóquei.
"Não quero puxar a sardinha para minha brasa", falou, "mas acho que o próprio Herring se orgulharia de assinar seu nome nesta tela."



segunda-feira, 5 de março de 2012

A espantosa boca-livre da banca europeia


A espantosa boca-livre da banca

O Banco Central Europeu promoveu ontem mais uma fenomenal boca-livre, doando a cerca de 800 bancos € 529,5 bilhões (US$ 712,8 bilhões, R$ 1,2 trilhão). Em dezembro, apenas três meses antes, portanto, outra colossal boca livre havia oferecido € 489 bilhões aos bancos (523 naquela ocasião).
Quando digo "doação", não estou exagerando: os juros cobrados pelo BCE (1%) não existem nem em operações de pai para filho nos tempos modernos. Em contrapartida, os bancos podem comprar, por exemplo, títulos da dívida de países encalacrados, que lhes rendem cinco, seis, sete, oito vezes mais -uma remuneração que muito dificilmente se encontra em qualquer outro negócio lícito.
As cifras do BCE já seriam, isoladamente, espantosas. Mas empalidecem diante dos dados apresentados anteontem ao Senado pelo presidente do Banco Central do Brasil, Alexandre Tombini.
No mundo rico em conjunto, o que Tombini chamou de "programas de expansão de política monetária não convencionais" promoveu um derrame de US$ 4,6 trilhões entre a quebra do Lehman Brothers, em 2008, e o ano passado.
US$ 4,6 trilhões (R$ 7,8 trilhões) é um desses números que ninguém consegue entender realmente, tal a sua sideral dimensão. Em todo caso, vale dizer que, se você quer ter uma ideia aproximada, basta imaginar tudo o que o Brasil produz por ano de bens e serviços, multiplicar por dois e, pronto, você estará perto do tamanho da boca-livre mundial ou da, digamos, Bolsa-Banca.
Um escândalo que, no entanto, passa em silêncio. Faz-se um baita escândalo, inclusive na mídia, em torno do pacote europeu para a Grécia, o mais recente deles de € 130 bilhões.
Os líderes europeus passaram meses e meses discutindo o programa, impondo condições, derrubando um governo legitimamente eleito. Já o BCE, em uma única penada, de um único dia, doa à banca quatro vezes mais -e não pede nada em troca, nadica de nada.
Na Grécia, como em outros países socorridos pela União Europeia/Fundo Monetário Internacional, cortam-se até gastos com saúde pública, conforme aliás pacote aprovado na véspera da nova boca-livre do BCE. A banca, no entanto, mesmo quando recebe doações tão suculentas, nem sequer se dá ao pudor de reduzir as remunerações de seus dirigentes.
Nesse cenário, é difícil discordar de Michel Rocard, ex-primeiro-ministro francês (socialista), e do economista Pierre Larrouturou, que, em artigo recente, afirmaram: "Estamos vivendo uma crise do capitalismo desregulado que pode ser suicida para nossa civilização".
Ou de Timothy Garton Ash, acadêmico da moda na Europa, quando escreve: "Não estou dizendo que necessitamos de uma alternativa ao capitalismo. O que necessitamos é um capitalismo alternativo, com mais Escandinávia e menos cassinos de baixa qualidade".
Alguma surpresa, ante tais análises de homens do establishment nada radicais, que surjam grupos como os "indignados" ou os vários "Ocupe Wall Street" (ou a Wall Street de cada capital financeira)? A única surpresa é a passividade dos demais.



quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Contas de mentiroso (sobre o mercado da arte)


Contas de mentiroso 

OS ECONOMISTAS gostam de lembrar a famosa febre das tulipas, que acometeu os investidores holandeses no século 17.
Variedades cada vez mais raras da flor eram negociadas no mercado; especulava-se sobre o seu preço futuro; bulbos virtuais e sementes derivativas entraram nos leilões, até o dia em que a bolha estourou.
Os preços no mercado de arte não param de subir, e no ramo das produções contemporâneas a febre parece ainda mais inexplicável.
A antropóloga Sarah Thornton animou-se a investigar essa mania, e o resultado foi traduzido agora no Brasil. "Sete Dias no Mundo da Arte" (ed. Agir) vendeu bastante nos Estados Unidos e traz alguns depoimentos interessantes sobre esse especial delírio de mercado.
O livro dedica seus capítulos a pontas diferentes do processo: o leiloeiro, o marchand, o colecionador, o crítico, o artista -e acompanha desde um rápido leilão de arte contemporânea na Christie's até um megaevento como a Bienal de Veneza, passando por um interminável seminário numa escola de arte.
Nova febre das tulipas? Bolha econômica?
Antigamente, diz um dos entrevistados por Sarah Thornton, as pessoas tinham um só automóvel. Depois, passaram a ter dois, três ou mais. E ele arremata, confiante: alguém acredita que exista uma "bolha" no mercado automotivo?
Nessa interpretação, o preço altíssimo das produções contemporâneas veio para ficar. Simplesmente surgiram milionários demais nos últimos dez anos e as obras-primas do passado não são em número suficiente para se distribuírem de Vladivostok a Lisboa, de Xangai a Nova York.
Claro que o que se compra não é simplesmente um rabisco, uma superfície vermelha ou um badulaque qualquer. O que se compra é o direito de pertencer a esse mundo -com suas festas, fofocas e celebridades.
Não é apenas divertido, mas também a maneira mais rápida de dar dignidade "cultural" a fortunas obtidas rapidamente demais e de forma suspeita.
Um traficante de armas ou um banqueiro golpista podem, em pouco tempo, dar seu nome a fundações beneméritas ou a grandes museus em sua cidade natal.
Por isso mesmo, comprar obras famosas numa galeria é coisa dificílima. Determinado artista se desvaloriza se for comprado pelas pessoas "erradas" e outro triplica de preço se cair nas mãos do colecionador "certo".
Cabe aos marchands, então, manipular suas listas de espera. Não vender, nesse mercado, é tão importante quanto vender.
De resto, o preço altíssimo de cada obra, raciocina um dos entrevistados do livro, "é correto pelo número final de usuários que o apreciarão. A lógica é a de que as pessoas que entrarem no meu museu/mausoléu ficarão excitadas com esta pintura. Há 10 milhões de pessoas na face da Terra capazes de pagar dez libras para vê-la, então ela vale 100 milhões de libras"."
Há mais. Os leilões dão a ilusão de que os preços sempre estão subindo, mas na verdade se esquecem depressa dos artistas que passaram de moda violentamente ou que não se beneficiaram da manipulação constante desse mercado.
Donos de muitas obras de um artista, por exemplo, compram outra a preços astronômicos num leilão, apenas para evitar que entre num "viés de baixa"... Diferentemente do que acontece na Bolsa de Valores, por exemplo, não há reguladores nesse mercado.
Essa mistura de racionalidade e de delírio, de fé e de cinismo, talvez não seja característica apenas da época atual.
No passado, piratas e criminosos de guerra usaram seus pintores e escultores para limpar o próprio nome. Celebraram Jesus Cristo e Maria Madalena do mesmo modo que agora se celebra o "pensamento crítico" e o "pós-feminismo".
O livro de Sarah Thornton dá uma pincelada em tudo isso -mas está longe de tratar o assunto como merece.
A autora está tão fascinada e comprometida com esse meio, que acaba perdendo, embora finja que não, o seu senso crítico.
Apresenta-se como antropóloga, mas faz um livro com aqueles velhos truques de descrever a cor da gravata do entrevistado.
Pior: ela dedica um capítulo bem publicitário à revista "Artforum", a Ferrari das revistas de arte, pelo que ela dá a entender. A orelha do livro informa que ela colabora para a mesma revista.
Se isso é "observação participante", e se Sarah Thornton faz antropologia social, podem me chamar de Andy Warhol.