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domingo, 21 de agosto de 2016

Higiene, segurança, eficiência: não, obrigado

O mercado de peixe de Noryangjin é conhecido como o maior da Coréia do Sul e, para padrões de Seul, é uma construção antiga: um galpão de 1971. Em seus sessenta mil metros quadrados de corredores de concreto molhado sob luminárias em tons de sépia, há aquários com peixes e crustáceos, moluscos, lesmas marinhas, ovas e arraias. Muitos vivos – e alguns servidos assim, como o filhote de polvo que desce arrastando-se pela sua garganta. O preço é escrito à mão nos cartazes e vai mudando ao longo do dia.
Como poucos estão mortos (uma das atrações do mercado é justamente ver o vendedor cortar a cabeça do bicho ainda vivo antes de enfiá-lo convulsionando-se num saco plástico), Noryangjin é um mercado de peixes quase sem cheiro de peixe, apesar de barulhento e caótico como se espera. A graça para turistas coreanos e estrangeiros é, depois da barganha, levar as compras ao segundo andar – onde, como no mercado de Niterói, cozinheiros preparam o que você escolheu.
Mas, ao subir a escada na lateral da construção, encontro todos os restaurantes fechados como se abandonados às pressas, alguns com as mesas ainda postas, seus vidros pichados com mensagens em coreano que minha amiga traduz como "fechado pelo governo". E, nas paredes: "lutamos juntos".
Não demoramos para descobrir que, em março deste ano, os donos dos restaurantes e das bancas foram intimados pela Suhyup (Federação Nacional das Cooperativas de Pesca) a esvaziar o mercado e ocupar o prédio erguido ao lado, uma construção espelhada de meio bilhão de dólares que parece um aeroporto. Eles tiveram o fornecimento de luz e água cortados abruptamente e não houve negociação.
Fora dali, uma alegre baleia num cartaz nos indica o NOVO mercado de peixe para onde, apesar dos aluguéis mais caros e o espaço menor, não só os donos dos restaurantes, mas todos os comerciantes estão sendo coagidos a mudar-se. Porque é mais limpo, seguro e eficiente.
Entramos num shopping center de oito andares sem janelas com escadas rolantes, telões de LED anunciando ofertas e ar-condicionado. Mais um desses pesadelos sob luz fluorescente. A iluminação desses corredores de hospital é branca, assim como as paredes e os aventais dos poucos e melancólicos vendedores que aceitaram mudar-se para ali. Seus restaurantes ficam num corredor anódino depois de uma viagem de elevador. São todos genericamente iguais.
Higiene, segurança e eficiência: três belas desculpas usadas pelo capital para atropelar tradições e tentar desprover de qualquer caráter o melhor que as cidades do mundo tem para oferecer. Os velhos vendedores do velho mercado resistem, protestando a cada semana.
A seguir a ordem natural do novo século, vão perder.


Texto de J. P. Cuenca, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Coreia do Sul censura artista crítico ao governo

Coreia do Sul censura artista crítico ao governo

Por CHOE SANG-HUN

GWANGJU, Coreia do Sul - Quando 250 estudantes sul-coreanos morreram no naufrágio do navio Sewol, em abril deste ano, o artista Hong Sung-dam criticou a elite política e empresarial que considera ser responsável pelo desastre, expressando seu protesto em arte.
Mas sua tela de 10 m x 2 m, que inclui uma caricatura da presidente Park Geun-hye, foi retirada do mais conhecido festival internacional de arte da Coreia do Sul, numa espécie de censura normalmente reservada aos acusados de dar apoio à Coreia do Norte.
"É um insulto absurdo a um artista", disse Hong, falando do tratamento dado à sua pintura, em que a presidente é retratada como marionete controlada por seu pai, já morto, que liderou o país por quase duas décadas depois de arquitetar um golpe de Estado.
"O que fizeram comprova o que eu tentei mostrar na pintura. Sob a égide de Park Geun-hye, o país está revertendo às velhas práticas da era de seu pai, reprimindo a liberdade de expressão."
Desde o desastre do navio o governo de Park vem sendo criticado, primeiro pelo esforço de resgate mal feito e depois por resistir a uma investigação independente pedida pelas famílias das vítimas para apurar a reação à emergência e as falhas do sistema regulatório que, para muitos, ajudaram a causar o naufrágio.
A pintura mostra o navio ao centro, de ponta-cabeça. Duas figuras enormes o içaram da água, e, num final feliz imaginário, os passageiros estão emergindo da embarcação, sorrindo e acenando. A cena é cercada por uma série fantasmagórica de imagens politicamente carregadas da história sul-coreana, algumas delas relativas à época do governo militar.
Os líderes de Gwangju defenderam sua recusa em permitir que o quadro seja exposto no festival, a Bienal de Gwangju.
"Pedimos a exclusão da tela de Hong devido à sua intenção política explícita de parodiar a presidente", disse o vice-prefeito da cidade, Oh Hyeong-guk.
Para Hong, o pintor de 59 anos, a disputa em torno de sua tela representa o enfrentamento mais recente numa longa batalha com forças repressoras que, para ele, continuam em ação.
Em sua juventude ele estudou arte em Gwangju, que na década de 1960 era um centro de ativismo contra a ditadura de Park Chung-hee, o pai da presidente Park. A esperança de que a morte de Park Chung-hee levasse à democratização do país não demoraram a ser sufocadas quando o poder foi tomado por um de seus protegidos, o general Chun Doo-hwan. Gwangju explodiu em protestos. Em maio de 1980 o regime enviou tanques e soldados paraquedistas para a cidade, matando centenas de manifestantes.
A pintura "Sewol Owol" alude ao desastre do navio, o Sewol, e às mortes de 1980 em Gwangju ("owol" significa maio, o mês em que o massacre ocorreu). Hong testemunhou o massacre em Gwangju e viveu em Ansan, a cidade de onde vieram os estudantes que morreram no naufrágio do Sewol. Uma desses estudantes, uma colegial de família pobre, trabalhava em tempo parcial em seu ateliê.


Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O sucesso da Coreia

A Coreia do Sul é o mais bem-sucedido caso de industrialização tardia. O país, que hoje tem 50 milhões de habitantes, superou o subdesenvolvimento, atingindo renda per capita, infraestrutura, serviços públicos, consumo massificado e outras características que o colocam entre as nações mais prósperas do mundo.
Dado o sucesso, o capítulo sobre o país, dos professores da Unicamp Adriana Nunes Ferreira e Mariano Laplane, no livro "Padrões de Desenvolvimento Econômico, Estudo Comparativo de 13 Países: América Latina, Ásia e Rússia", organizado pelo economista Ricardo Bielschowsky, só poderia ser interessante.
Marcante na estratégia é o descomunal intervencionismo. O Estado vedou a entrada do capital estrangeiro, concedeu subsídios aos grupos nacionais e orientou os ciclos de investimento, mas também fixou metas de exportação, reprimiu sindicatos e por décadas dificultou que os excedentes se direcionassem ao consumo de luxo, às aplicações financeiras ou à exploração imobiliária.
Assim, a taxa de investimento manteve-se alta, chegando a quase 40% do PIB na virada dos anos 1980 para os 90, de modo a promover as vendas externas e o crescimento, cuja média de 1953 a 1993 superou 7%.
A trajetória coreana pode ser dividida em três fases. De 1953 a 1961, após a Guerra da Coreia e sob forte influência dos EUA, há as reformas agrária e da educação, além da privatização de estatais que na origem eram de capital japonês.
Mesmo mantendo um crescimento acelerado, o governo civil foi derrubado em meio a acusações de favorecimento nas privatizações. O período do nacional-desenvolvimentismo se inicia em 1962 com a instalação de uma ditadura militar que se estendeu até 1993.
O regime nacionalizou bancos, porém manteve as empresas em mãos privadas. Após uma fase de substituição de importação de bens de consumo leves, na década de 1970 foi a vez da indústria pesada: siderurgia, máquinas, automóveis, construção naval, química e eletroeletrônica.
Dados o restrito mercado interno e a escassez de recursos naturais, o país, para obter divisas e operar em escalas eficientes, buscou as vendas externas.
Nesse momento, governo e grupos privados mostram poder de readequar a estratégia de industrialização, percebendo que o dinamismo passaria a vir da eletrônica. Para tanto, foi importante a atuação como fornecedores de indústrias japonesas de eletrônicos de consumo.
No início dos 1980, a crise da dívida afetou bem menos a Coreia, que, em relação à América Latina, tinha um grau bem menor de abertura financeira. Com isso, o país não sofreu com a interrupção dos fluxos privados de financiamento externo.
Ainda assim, o ajuste passou pela privatização de bancos, que foram incorporados aos grupos econômicos ("chaebol") para novamente alavancar as exportações.
No fim da década, com dinamismo tecnológico e experiência em estratégias de comercialização e marketing, uma preocupação havia muito presente em razão da necessidade de exportar, os "chaebols" buscaram a internacionalização. Assim, o mundo conheceu a força das marcas Hyundai, Samsung, entre outras.
Ao longo do tempo, a ação estatal foi legitimada pelo crescente sucesso de suas empresas. Mas é claro que esse sucesso também conferiu mais independência aos grupos privados, bem como fez florescer a democracia a partir de 1994.
No terceiro período, houve a liberalização do sistema financeiro e dos fluxos de capitais com o exterior, alavancando um endividamento externo que expôs o país aos riscos que levaram à crise de 1997. O Estado teve de novo papel decisivo, promovendo a fusão de grupos em dificuldades com os mais fortes e incentivando a concentração dos conglomerados em seus núcleos de negócios.
Houve ainda privatizações e internacionalizações no sistema financeiro. Porém o Estado mantém as diretrizes de longo prazo no desenvolvimento tecnológico, o apoio creditício especializado, como o do Banco de Desenvolvimento da Coreia, e participações em firmas privatizadas.
Depois de aproveitar com grande êxito a proximidade com as potências dos EUA e do Japão, a Coreia enfrenta o desafio de lidar com a ascensão da China, que representa oportunidades para as maduras e inovadoras empresas coreanas, mas também é uma ameaça nos mercados doméstico e global.


Texto de Marcelo Miterhof, publicado na Folha de São Paulo.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Coreias mantêm impasse


Coreias mantêm impasse
Por EDWARD WONG

PANMUNJOM, Coreia do Sul - O tenente-comandante [capitão de corveta] Daniel McShane, recorrendo a um intérprete, apresentou uma solicitação: um coronel norte-americano desejava se encontrar com sua contraparte norte-coreana. Ele estava falando com um megafone, e um soldado norte-coreano, diante dele, gravava em vídeo a solicitação.
Há mais de um ano, essa vem sendo a maneira pela qual McShane, oficial da marinha norte-americana que serve no Comando das Nações Unidas em Panmunjon, transmite mensagens aos norte-coreanos. Antes, os oficiais dos dois lados se comunicavam por uma linha de telefonia fixa.
Mas, quando a ONU impôs novas sanções econômicas, em março de 2013, depois do terceiro teste nuclear norte-coreano, os norte-coreanos pararam de atender as ligações, cuja função era ajudar a administrar a Zona Desmilitarizada (DMZ) que separa os dois países. O pessoal do Comando da ONU insiste em ligar para ver se os norte-coreanos abandonaram o boicote. "Tentamos quatro vezes por dia", diz o tenente-comandante McShane. "O telefone toca, mas ninguém atende".
E assim segue a vida em Panmunjon, a cerca de 50 quilômetros ao norte de Seul e localizada na linha de frente do que tecnicamente continua a ser uma guerra entre as duas Coreias. O complicado sistema de comunicações -reflexo do relacionamento gélido entre o norte e o sul- aumenta o estresse em uma zona de fronteira que é uma estranha mistura de alta tensão e de preocupações mais prosaicas.
Com a maior parte das Forças Armadas das duas Coreias alinhada ao longo da fronteira, ninguém se dispõe a baixar completamente a guarda. "É um paradoxo. Há tensão tanto real quanto forçada, dos dois lados", disse John Delury, historiador da Universidade Yonsei, em Seul.
A Zona Desmilitarizada, que foi estabelecida pelo armistício que encerrou os combates na península em 1953, é uma área de barreira, pesadamente minada, entre o norte e o sul, e se estende por 240 quilômetros de costa a costa, com quatro quilômetros de largura. Panmunjon fica no extremo oeste da linha.
Esse trecho da fronteira é protegido pelo Batalhão de Segurança do Comando das Nações Unidas para a Área Conjunta de Segurança, força composta em 90% por sul-coreanos e em 10% por norte-americanos. O coração da Área Conjunta de Segurança é um grupo de três salões de conferência instalados em edificações separadas. A fronteira corre pelo meio desses salões. No edifício central, ela corre pelo meio de uma mesa de conferência. Dois soldados sul-coreanos ficam de guarda na sala durante o dia. A guarda regular norte-coreana fica do lado de fora. Houve uma ocasião em que um soldado sul-coreano na sala teve de lutar contra norte-coreanos que tentavam arrastá-lo para o lado norte da linha.
Nas imediações fica a Ponte Sem Volta. Em 1976, dois soldados norte-americanos tentaram cortar uma árvore próxima à ponte para melhorar a visibilidade. Vinte e oito norte-coreanos correram de seu posto de vigilância e os mataram, usando o machado que os norte-americanos portavam. O ataque se tornou lenda e ainda é relatado em grande detalhe. Delury diz que os oficiais têm seus motivos para reforçar a sensação de perigo. "No geral, os comandantes precisam manter o moral e a prontidão", diz.
"Precisam de um perigo claro e imediato".


Reprodução do The New York Times, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Cresce suicídio entre idosos na Coreia do Sul



SEUL - Quando uma mulher de 78 anos se matou em agosto bebendo pesticida na frente de uma prefeitura, sua história chamou a atenção para um problema que até recentemente fora abafado: na Coreia do Sul, onde o respeito pelos mais velhos é um dos esteios da ordem social, idosos estão cometendo suicídio em um ritmo alarmante.
A mulher, uma viúva que vivia sozinha, recebia uma pensão do Estado até julho, quando o governo municipal soube que seu cunhado há muito tempo desempregado havia encontrado um emprego em um estaleiro. As autoridades ignoraram seus apelos de que ela não podia mais pagar o aluguel, citando regulamentos que negam benefícios a pessoas cujos filhos adultos são considerados capazes de sustentá-las.
"Como vocês podem fazer isso comigo?", dizia o bilhete que ela deixou, segundo a polícia. "A lei deve servir às pessoas, mas não me protegeu."
Uma estatística envergonha os sul-coreanos: o índice de suicídios no país -medido para cada 100 mil pessoas- é o mais alto entre os membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Ele aumentou de 13,6, em 2001, para 31,2, em 2010. Mas ainda mais perturbador é o índice de suicídios entre os sul-coreanos maiores de 65 anos. No mesmo período, ele inchou de 35,5 para 81,9.
A tendência é resultado da ruptura do tradicional contrato social da época de Confúcio, no qual os mais velhos podem contar com o respeito e o apoio de seus filhos e netos.
Como um investimento nos cuidados que receberiam na velhice, os coreanos hoje idosos se dedicaram obsessivamente à educação e ao sucesso profissional dos filhos.
"Os filhos eram tudo o que eles tinham para o futuro -para tratamentos de saúde, apoio financeiro e uma vida confortável na velhice", disse Park Jiyoung, professora de assistência social na Universidade Sangji, em Wonju.
Mas a transição da sociedade coreana de agrícola para industrial espalhou a geração mais jovem para as cidades ou para o exterior, dissolvendo a base de apoio familiar de forma mais rápida do que a criação de uma rede de segurança financiada pelo Estado.
O sistema nacional de aposentadorias só começou em 1988, por isso muitas pessoas hoje na faixa de 80 anos não tiveram oportunidade de aderir.
O programa de assistência social do governo continua baseado no princípio de que cuidar dos idosos é responsabilidade das famílias. Mas a vida dos próprios filhos ficou mais precária, especialmente desde a crise financeira asiática dos anos 1990. O número de idosos que vivem sozinhos mais que duplicou desde 2000.
"Os velhos sentem-se traídos ou pensam que são um peso para seus filhos, principalmente os que têm doenças crônicas cujas contas médicas os filhos lutam para pagar", disse Park. "Sua crença na família como uma entidade com um destino comum os leva a afastar-se dela, removendo o peso."
Kim Sungwhan, diretor do distrito de Nowon, em Seul, foi um dos primeiros administradores a abordar a crise dos suicídios.
Ele treinou cerca de mil voluntários para reconhecer sinais de advertência e conectar idosos com tendências suicidas aos serviços sociais.
Kim Man-jeom, 73, foi uma dessas pessoas. Depois da morte de seu marido, no ano passado, ela caiu em depressão. Ficou decepcionada porque seus filhos não a convidaram para morar com eles, mas também temia tornar-se um fardo para a família.
"Quando vi uma gravata, pensei em me enforcar", disse.
A população da Coreia do Sul está envelhecendo mais depressa do que a de outros países desenvolvidos. Sociólogos dizem que o baixo índice de nascimentos deriva da relutância dos jovens casais a imitar seus pais e gastar suas economias na educação dos filhos, deixando pouco para sua velhice.
"Nossa sociedade deu ênfase à eficiência econômica ao custo da condição humana", diz Kim.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Imigração mudou identidade sul-coreana


Imigração mudou identidade sul-coreana

Por CHOE SANG-HUN

SEUL, Coreia do Sul - Jasmine Lee percebe o quanto ela tornou-se coreana quando começa a falar a língua ao telefone com a mãe, que é filipina e não compreende uma palavra do que ela diz. Mas ela é lembrada dos limites da assimilação quando os coreanos, impressionados por sua fluência, comentam: "Você parece mais coreana do que os coreanos".
Lee, 35, que nasceu Jasmine Bacurnay nas Filipinas, virou notícia em abril quando se tornou a primeira cidadã naturalizada -e a primeira coreana não étnica- a conquistar um assento na Assembleia Nacional da Coreia do Sul. Sua eleição refletiu uma das mais significativas mudanças demográficas na história moderna do país. Uma mudança que, segundo ela, "os coreanos entendem com o cérebro, mas ainda precisam abraçar com o coração".
Apenas uma década atrás, os livros escolares ainda diziam para os sul-coreanos se orgulharem de ser etnicamente homogêneos. Se a população de origem estrangeira ainda é pequena, comparada com a de países com uma tradição imigratória, ela é suficiente para desafiar como os sul-coreanos veem a si mesmos.
"Está na hora de redefinir o coreano", disse Kim Yi-seon, pesquisador chefe de multiculturalismo no Instituto de Desenvolvimento das Mulheres Coreanas, financiado pelo governo. "Tradicionalmente, ser coreano significava ser alguém que nasceu na Coreia, de pais coreanos, que fala coreano e que tem uma aparência e uma nacionalidade coreanas. As pessoas não pensam que alguém é coreano só porque tem a cidadania coreana."
Entre os fatores que conduzem essa tendência, está a entrada de mulheres do Sudeste Asiático que vieram casar com agricultores sul-coreanos, que têm dificuldades para atrair mulheres coreanas dispostas a adotar a vida rural. O número de migrantes por casamento cresceu para 211 mil, no ano passado, contra 127 mil, em 2007. A maioria dos imigrantes é constituída por mulheres do Vietnã e de outros países asiáticos mais pobres.
Nas cidades industriais, rapazes de Bangladesh e do Paquistão desempenham funções recusadas pelos coreanos como sujas e perigosas. Eles oferecem a mão de obra barata que a economia sul-coreana, voltada para as exportações, precisa para competir com a China. O número desses trabalhadores mais que duplicou, de 260 mil, em 2007, para 553 mil, no ano passado -sem contar os que têm visto expirado e trabalham ilegalmente.
Um em cada dez casamentos na Coreia do Sul envolve um cônjuge estrangeiro. Embora o número total de escolares na Coreia do Sul esteja em declínio (de 7,7 milhões, em 2007, para 6,7 milhões, neste ano), em consequência de um dos menores índices de nascimentos do mundo, o número de estudantes multiétnicos vem crescendo cerca de 6.000 por ano.
"Uma sociedade cultural não está apenas chegando. Ela já está aqui", disse Lee, que é membro do partido Saenuri, no governo.
Mas, depois da eleição de Lee, ativistas anti-imigração advertiram que "ervas venenosas" do exterior estavam "corrompendo a linhagem coreana" e "exterminando a nação coreana". Eles pediram que os partidos políticos se "purifiquem" expulsando Lee da Assembleia Nacional.
O primeiro-ministro Kim Hwang-sik condenou esses surtos de xenofobia como "patológicos" e pediu que os sul-coreanos assumam a transição para uma sociedade multicultural "não como uma opção, mas como um imperativo".
Mas o próprio governo é acusado de promover a xenofobia, ao exigir que estrangeiros que chegam à Coreia do Sul para ensinar inglês passem por testes de HIV, enquanto não exige o mesmo de sul-coreanos nos mesmos empregos.
"Em 1995, as pessoas me adoravam por dizer 'Olá' e 'Obrigada' em coreano", disse Lee.
"Mas, por volta de 2000, as pessoas começaram a olhar para mim com suspeita. No ônibus, perguntavam: 'Por que você está aqui?'"
Lee acha que a Coreia do Sul ainda tem um longo caminho a percorrer. "Em um recente programa supostamente destinado a promover a harmonia multicultural, os organizadores dividiram os participantes em um ônibus para coreanos e outro para 'famílias multiculturais'", disse.
"Eu imagino uma sociedade que não precise de um rótulo como 'multicultural'."


segunda-feira, 6 de junho de 2011

Suicídios de estudantes chocam a Coreia do Sul

Suicídios de estudantes chocam Coreia do Sul

Por MARK McDONALD

DAEJEON, Coreia do Sul -A universidade mais prestigiada da Coreia do Sul está abalada com o recente suicídio de quatro alunos e de um popular professor.
As pressões acadêmicas podem ser ferozes no Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia (Kaist, na sigla em inglês), e psicólogos escolares têm ampliado seus atendimentos desde os suicídios. O diretor da escola também revogou regras polêmicas que elevavam as taxas cobradas de alunos com notas baixas e exigiam que todas as aulas fossem em inglês.
Depois da morte do último aluno, no dia 7 de abril, o conselho discente do Kaist emitiu uma inflamada nota dizendo que "uma rajada de vento púrpura" havia soprado no campus.
"Estamos encurralados numa concorrência implacável que nos sufoca", disse o conselho. "Nós não pudemos dedicar nem mesmo 30 minutos aos nossos colegas perturbados por conta das tarefas extraclasse. Já não temos mais a capacidade de rir livremente."
Um estudo recente concluiu que os jovens sul-coreanos são -pelo terceiro ano consecutivo- o subconjunto mais infeliz entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Ministério da Educação em Seul disse que 146 estudantes cometeram suicídio no ano passado, incluindo três no ensino fundamental.
Na universidade, preocupados psicólogos disseram que poucos estudantes buscaram ajuda devido aos exames finais.
"Lembre-se que os alunos aqui ainda são muito jovens", disse Kim Mi-hee, psicólogo no centro de orientação do campus, estimando que cerca de 10% dos alunos do Kaist já buscaram ajuda. "Mas eles são tão inteligentes e brilhantes que realmente lidam muito bem com o estresse. Eles têm grande capacidade de percepção, então, quando recebem tratamento, evoluem rapidamente."
Mas ainda não há um psiquiatra de plantão em tempo integral, e os professores do Kaist não recebem nenhum treinamento para identificar alunos deprimidos ou excessivamente estressados.
A Coreia do Sul como um todo ocupa o primeiro lugar em suicídios na OCDE. Suicídios de cantores, modelos, atores adorados, atletas, herdeiras milionárias e outras figuras tornaram-se quase uma rotina no país.
Mas os suicídios dos quatro alunos do Kaist chocaram o país de forma profunda e pungente (o professor, que supostamente era alvo de uma auditoria por desvio de verbas de pesquisa, se enforcou em 10 de abril).
Mais de 80% dos sul-coreanos cursam o ensino superior, e a concorrência por um lugar numa boa universidade -cujo diploma é garantia de uma vida próspera- começa no ensino médio. Em média, cada família gasta mais dinheiro em aulas particulares e cursinhos do que qualquer outro país participante da OCDE, preparando seus filhos para o vestibular nacional.
Mas o Kaist não participa desse exame e recruta quase todos os seus alunos em colégios especiais voltados para as ciências. Apenas cerca de mil calouros são admitidos por ano. Uma entrevista, as notas do ensino médio e recomendações de diretores são os fatores que mais contam.
Os alunos do Kaist são vistos como os futuros líderes da badalada economia tecnológica sul-coreana. Uma vez admitidos, seus estudantes se tornam tesouros nacionais. Por isso, muitos sentem o enorme fardo (às vezes, insuportável) de corresponder às expectativas do país.
Suh Nam-pyo, diretor do Kaist, é um renomado engenheiro mecânico e ex-professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Ele determinou que os cursos fossem ministrados em inglês, embora nem todos os alunos e professores sejam fluentes na língua.
Ele também exigiu que os alunos pagassem taxas adicionais por cada centésimo de ponto que suas notas médias ficassem abaixo de 3 (num sistema que vai até 4,3). Todos os alunos pagam uma taxa simbólica, mas, fora isso, o ensino é gratuito. Um semestre ruim pode custar milhares de dólares à família do estudante.
Essa regra causou profunda humilhação e ansiedade. Os estudantes com dificuldades repentinamente se sentiram perdedores. Alguns críticos acusaram o programa pelos recentes suicídios dos alunos.
"Eles sempre foram os primeiros em suas escolas, mas, quando chegam ao Kaist, talvez sejam o número 40 ou o número 400 e percebem que talvez não consigam acompanhar", disse Oh Kyung-ja, professora de psicologia clínica na Universidade Yonsei. "A competição pode ser cruel."