domingo, 6 de novembro de 2016

Ocupação de escolas não vai acabar se governo não admitir autoritarismo

A ocupação de escolas, e já também de faculdades, não vai cessar, caso o governo não admita que cometeu um ato de autoritarismo, com a imposição de uma alegada "reforma do ensino" sem a discutir sequer com uma das várias partes diretamente envolvidas no assunto.
Novas ações do Movimento de Trabalhadores Sem-Terra entram em processo de gestação, que recebeu agora o estímulo de invasões policiais e prisões em áreas sem conflito. O Movimento dos Sem-Teto fará mais comprovações de que a ferocidade policial, outra vez aplicada em desocupação no centro de São Paulo, incentiva-o em vez de o intimidar.
A intenção do governo, agora silenciada mas não abandonada, de rever demarcações de reservas indígenas (chegará à revisão também de áreas de proteção ambiental), atenderá aos interesses fundiários representados pelo senador Ronaldo Caiado, mas já são motivo de planos de resistência.
A história registra como essas resistências são respondidas pela polícia e pelos ambiciosos de terra com seus os jagunços.
Em meado da semana encerrada, houve ao menos dois encontros reservados de representantes de diferentes movimentos ou setores (nenhum de estudantes).
Uma dedução possível é a de que ações conjuntas, e até mesmo uma conjugação mais geral, sejam ideias sob exame. Vê-se que é uma situação complexa. Muito mais a de fora da política do que a de seu interior alienado.
A contribuição do governador Geraldo Alckmin para tal situação é inequívoca. A cada episódio de sua PM ditatorialesca, Alckmin comparece com suas falazinhas de bom moço, cada sílaba bem escandida, a fisionomia neutra, ou indiferente. E nenhuma das ações de sua obrigação governamental.
A escolha dos seus secretários de Segurança é significativa. O atual Magino Alves, que só faz gaguejar o fugidio "vamos investigar" as ações truculentas e ilegais da PM; o anterior, Alexandre Moraes, está por dentro dos ataques a jato contra petistas, mas por fora do que a sua polícia apronta. E ele depois acoberta.
A desocupação policial de escola sem autorização judicial foi arbitrariedade dupla: usurpação de poder do Judiciário e ação policial indevida.
O ataque da PM a uma trupe de teatro financiada pelo governo é uma violência indecente, tanto quanto a cobertura recebida do secretário de Segurança e, portanto, do governador.
Na desocupação de um prédio, Marlene Bergamo, que está entre os melhores repórteres-fotográficos do país, saiu com um ferimento no abdome que é como uma cicatriz moral do governo que a atacou. Tudo isso na São Paulo de um Alckmin desejoso de ocupar a Presidência. Para quê?
Um governo federal que só pensa em impor um teto arbitrário e duradouro aos gastos do país carente não precisa, além dessas, de mais palavras sobre sua responsabilidade pelo horizonte que escurece. Mas, é verdade, não se poderia esperar outra obra de Temer e do grupo de que, fraco, se deixou cercar.


Reprodução parcial de texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo. Destaques do blogueiro. 

Comunhão parcialíssima de bens

É um mistério o que une os casais. Às vezes são as semelhanças, às vezes as diferenças, às vezes látex e cera quente, às vezes baião e maria-mole. Não à toa o deus do amor é uma criança com um arco e flecha, um déspota mimado e irresponsável, tipo um Kim Jong-un alado penetrando com suas ogivas nucleares 7 bilhões de corações.
Se a cola é desconhecida, não é menos obscuro o solvente. "O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio": assim começa a célebre crônica em que Paulo Mendes Campos desvela 62 possibilidades para o fim do amor: "em cafés engordurados", "nas encruzilhadas de Paris", "nos roteiros do tédio para o tédio"; "o amor acaba".
Tenho um amigo que resistiu estoicamente quando a mulher o largou por outro, mas não aguentou dois meses depois que ela voltou, se casaram e ela revelou o péssimo hábito de espalhar as roupas pelo chão do quarto. "Eu vou ao banheiro de noite e tropeço. Toda noite. Já pedi, implorei, mas ela não para", me contou, bêbado e sem esperança, prostrado sobre um balcão. Numa dessas madrugadas desviou de um sutiã, mas se enroscou numa saruel: rompeu dois ligamentos e a relação.
A minha história não é menos triste. Por uma década, eu e a minha mulher vivemos felizes. Tivemos dois filhos, viajamos o mundo, assistimos a "Família Soprano", "Breaking Bad" e "Mad Men". Eu achei que era pra sempre (ainda nem havíamos começado "Game of Thrones"), mas nos últimos meses meu casamento vem sendo ameaçado pelo carregador do iPhone. Segundo creio eu e o Código Civil brasileiro (Livro 4, "Do direito de família", a partir do artigo 1.511) a comunhão parcial de bens, regime em que nos casamos, faz com que tudo o que adquirimos desde que pusemos as assinaturas no livrão da juíza pertença aos dois, o que inclui nossa casa, nosso Honda Fit 2012, a TV na qual assistimos às nossas séries e –por que não?– nossos carregadores de iPhone.
Minha mulher, contudo, acredita que os carregadores de iPhone são bens pessoais e intransferíveis que não devem jamais ser compartilhados pelos cônjuges, algo tão íntimo como as escovas de dentes ou os rins –ou ainda mais íntimos, pois em casos de emergência casais se emprestam escovas e doam-se rins. O pior é que ela está convicta de que eu tiro o carregador dela das tomadas em que ela o coloca e, só para irritá-la, o escondo em rincões de difícil acesso, atrás do sofá grande ou do vaso de pacová, por exemplo.
Dia sim, dia não, a vejo bufando pela casa, arrastando móveis, rastejando pelos tacos e praguejando contra mim. Eu falo, "amor, pega o meu, lá no quarto", mas isso só parece aumentar sua revolta. "Eu não quero o seu! Eu quero o meu! Cada um tem um! Por que você pega o meu?! Eu nunca acho!"
Hoje pela manhã nós tivemos uma briga feia. Ela me acusou de ter colocado o carregador dela na tomada atrás da cama e entortado "o bagulhinho branco de dentro do USB", depois saiu de casa batendo a porta, não sei se rumo a uma loja Apple ou a um apart-hotel. Agora à tarde, enquanto escrevia esta crônica, recebi três ligações de um "Número Desconhecido", mas não atendi. Temo ser uma advogada anunciando que a minha mulher abriu o processo de divórcio e exige na Justiça a guarda dos nossos dois fios.


Texto de Antônio Prata, na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

À sombra das amoreiras

– E a Dolores, seu Gonçalo, ainda mora no Durasnal?
– Bah, seu Paulinho, coitada, morreu no ano passado, não soube? Segurei-lhe a mão antes dela deixar este mundo, recitando rezas em romani, que nunca aprendi, o senhor sabe, os ciganos não ensinam sua língua aos outros povos. É tradição desse povo tão sofrido.
– Ah, perdão. desculpe-me, seu Gonçalo, pela pergunta, mas ouvi falar aqui no bolicho, certa vez, que o senhor teve um namoro com ela, isso é verdade ou invenção do povo?
– É verdade, sim, nunca falei disso, mas hoje vou contar:
“Eu era um piá, voltava do colégio, num sábado, lembro como se fosse hoje. Morávamos na beira da estrada e tomei um susto quando vi o acampamento, lotado de barracas de lonas, grande algazarra de gente, música e dança, carroças coloridas, cavalos e arreios enfeitados, gente tocando violões, sanfonas, muitas mulheres preparando comida em fogões improvisados no chão, alarido de crianças. Meu pai, sentado na cadeira de balanço, pitava um palheiro e disse: ‘São ciganos, pediram para ficar uns dias e permiti. É gente boa, sem pátria, esculachados, perseguidos. Eu os admiro e acho que tu vais gostar deles.’
Pois não é que gostei mesmo? Na manhã seguinte, conheci a Dolores, ainda menina, que veio com a mãe pegar uns pães em nossa cozinha. Me encantei com ela, na hora, foi paixão juvenil. Uma moreninha de olhos gateados, cabelos negros que desciam pelas costas, um vestido de chita, uma faixa vermelha na cabeça, uma figura bem diferente das minhas colegas da escola. E ria pra mim! Eu ri também e começamos a brincar com os gatos, com os cachorros, com tudo, ela falava enrolado, eu nada entendia, só intuía. E não nos largamos mais.
Quando voltava a pé do colégio, ela estava me esperando na porteira. Queria me contar o que tinha feito. E íamos para debaixo das amoreiras, naquela primavera, comer as frutinhas roxas e doces. Um dia ela me deu um beijo com a boca sangrando de amora e eu fiquei sem fala. Mas nossas tardes de sonho e alegria não duraram muito. Uma tarde me deparei com o acampamento desmontado, as carroças já passavam a curva da estrada. Saí correndo e só via aquela mãozinha me abanando, corri, cheguei perto e pedi que voltasse. Seu Paulinho, ela voltou. Só que 50 anos depois, velha e doente, lendo cartas para sobreviver. Seu clã havia sido dizimado. Eu já morava na cidade, então permiti que ficasse na casinha que ainda estava erguida lá no Durasnal. Eu havia casado, tive filhos, depois fiquei viúvo. Decidi terminar minha vida sozinho, porém a ajudei. Quando cheguei na casinha, naquele dia, abri todas as portas e janelas, como gostam os ciganos, ela pegou minha mão e disse: ‘Si e kerdo. Me volvi tu’. (Está feito. Eu te amo). Lavei seu corpo com sal e a enterrei no lugar que mais gostava, debaixo das amoreiras. Acho que devíamos ter ficado juntos, mas o destino não deixou. A vida é assim, passa ligeiro, mas ficam as cicatrizes e as lembranças.”
(Reproduzo aqui o que ouvi de seu Gonçalo há muitos anos atrás. Nada inventei. Em virtude do tempo, posso ter omitido alguma coisa, mas o que me lembrei, contei.)

Do blog Campereadas, no Correio do Povo

Não é necessário esperar a velhice para ser você mesmo

Perguntei a homens e mulheres de 40 a 65 anos: "O que você quer ser e fazer quando envelhecer?".
As respostas mais frequentes foram:
1. Ter mais tempo para cuidar de mim mesmo e fazer as coisas que eu gosto;
2. Voltar a estudar (inglês, francês, filosofia, psicologia, história...);
3. Aprender uma coisa nova (tocar um instrumento, fotografar, surfar, dançar...);
4. Fazer coisas que sempre quis fazer, mas nunca tive coragem (escrever um livro, pintar um quadro, cantar...);
5. Viajar e sair mais com os amigos;
6. Curtir mais o marido, esposa, namorado, namorada, filhos, netos;
7. Caminhar, nadar, fazer ginástica e ir à praia todos os dias;
8. Ler muito mais e ir mais vezes ao cinema, teatro e shows;
9. Reformar e decorar a casa;
10. Simplificar a vida (guardar só o que uso, preciso e gosto).
É fácil perceber que eles desejam coisas que poderiam ter em qualquer fase da vida. Por que então esperar envelhecer?
Eles disseram que só mais velhos terão mais tempo e liberdade para fazer o que realmente gostam e querem.
Uma professora de 63 anos disse: "Tenho uma certa urgência de aproveitar o tempo da melhor forma possível. Não deixo mais para amanhã o que quero fazer hoje. Sei que a vida é muito curta, o tempo passa muito rápido. Não quero desperdiçar o meu tempo ou simplesmente deixar o tempo passar. O tempo para cuidar de mim passou a ser uma prioridade e, para isso, precisei me libertar e me desapegar de muitas coisas, pessoas e obrigações".
Ela disse que somente "depois de velha" descobriu como ser mais verdadeira, livre e feliz.
"Depois dos 60 anos passei a ter a coragem de ser eu mesma, de fazer o que eu tenho vontade de fazer. Me arrependo profundamente de não ter começado a minha libertação mais cedo. Perdi muito tempo da minha vida tentando agradar e cuidar de todo mundo e me esqueci de mim mesma".
Muitos acreditam que só mais velhos irão conquistar a liberdade e a sabedoria para aproveitar melhor o tempo e, assim, parar de tentar responder desesperadamente às expectativas e demandas dos outros.
Aprendi com meus pesquisados a me fazer duas perguntas fundamentais:
O que eu quero ser e fazer quando envelhecer? Por que não posso ser mais livre para "ser eu mesma" desde agora?


Texto de Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

É ilógico que o Congresso fique sujeito a um juiz de 1ª instância, e não ao STF

O esbravejar de associações de juízes e de procuradores contra um protesto do presidente do Senado não é, apenas, mais uma das tantas manifestações de corporativismo com que tais categorias se privilegiam. A reação desproporcional teve também a finalidade de depressa encobrir, com o barulho exaltado, uma ordem judicial vista como abusiva. É dar as costas à democracia.
Nem por ser quem é, Renan Calheiros está impedido de ter, vez ou outra, atitudes corretas. Se a forma como o faça for descabida, e no caso foi, não é o sentido da atitude que deve pagar. Mesmo porque, se falarmos em democracia, defender a soberania relativa do Congresso é tão democrático quanto invadi-lo policialmente não é.
Ainda não consta, embora não falte muito, que os cidadãos –quaisquer cidadãos –tenham perdido o direito de verificar se seus telefonemas, sua correspondência, sua casa e trabalho, enfim, sua intimidade, estão sendo violados. Mesmo a ordem judicial para a violação não cassa tal direito, pois se é desconhecida do vigiado. E não só por ordem judicial há violações à intimidade. É só constatá-lo nos anúncios de detetives particulares e seu instrumental de violações remuneradas.
É inesquecível o caso criado por Gilmar Mendes quando, gravado em telefonema no seu gabinete, acusou Lula de instaurar o estado policial. Um escarcéu. Nelson Jobim foi à Câmara, com prospectos de uma aparelhagem que o Exército comprara e, a seu ver, era a usada para gravar Mendes. Logo se viu que Jobim só mostrara o que era, de fato, uma propaganda na internet. E a gravação foi feita pelo próprio amigo telefônico a quem o ministro do Supremo pedira, para sua enteada, um emprego boca-rica no Senado.
Gravadores clandestinos do SNI foram encontrados por "varreduras" em muitos gabinetes da ditadura. Fernando Henrique foi gravado manipulando a "privatização" da Vale. Depois que Eduardo Cunha deixou a presidência da Telerj, evidências de gravações clandestinas tornaram-se epidêmicas no Rio. Até que foi descoberta, perto de uma instalação da FAB no centro, uma central onde foram presos um ex-técnico da Telerj e um sargento. Na Barra da Tijuca, foi localizada uma central chefiada por um coronel. Em São Paulo, usar apelidos e metáforas era frequente em muitos círculos. Nunca deixou de sê-lo por completo, mas mudou: agora é o permanente. A insegurança no país, pela bandidagem ou pelos novos poderes, torna as "varreduras" aconselháveis: hoje, até a palavra amigo é associada a crime.
Fazer "varredura" é ilegal? Não. Ou sim, desde que direitos, vários, ficaram à mercê do que pretenda um procurador ou um juiz das novas forças – poucos, ainda bem. A conclusão deles, de que "as 'varreduras' nas casas de três senadores e de um ex-presidente eram obstrução à Lava Jato", carece de sentido. Ninguém está obrigado a se sujeitar à hipótese de que esteja com suas conversas sob gravação. Impedir de ter a intimidade violada clandestinamente não é obstrução ilegal. Além disso, nem houve obstrução prática, por falta do que fosse obstruível.
Grampo ilegal foi posto na cela de Alberto Youssef por policiais federais, em Curitiba. Alguns dos que faziam campanha nas redes contra Dilma e o PT e pró-Aécio, o que hoje se pode ver como uma das primeiras evidências da missão político-ideológica que tinham. Têm. Mas a gravação clandestina e a propaganda ficaram nisso mesmo: certas ilegalidades são mais legais do que a lei, a depender do policial, procurador ou juiz que as cometa.
Como disse a presidente do Supremo, Cármen Lúcia, "cada vez que um juiz é agredido, eu e cada um de nós juízes é agredido". Sem ressalvas. Logo, não importa o que o juiz faça. Calheiros fez pequena agressão verbal ao juiz de primeira instância que mandou a PF apreender equipamentos do Senados e prender quatro da Polícia Legislativa.
Se um congressista só pode ser processado e julgado pelo Supremo, no mínimo é ilógico que o próprio Congresso fique sujeito a um juiz de primeira instância, e não a decisões do Supremo. Ainda mais se a ordem é de que a Polícia Federal, dependência do Executivo, arrebate bens patrimoniais do Poder Legislativo.


Texto de Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Morre Jorge Batlle, presidente do Uruguai de 2000 a 2005

Morre Jorge Batlle, presidente do Uruguai de 2000 a 2005

Político de 88 anos sofreu queda em casa e estava internado há dez dias
O ex-presidente do Uruguai Jorge Batlle (2000-2005) morreu nesta segunda-feira, aos 88 anos. Ele ficou dez dias internado, após uma queda que provocou um dano cerebral severo, informou a clínica onde estava internado. "Lamentavelmente, o esforço realizado por toda a equipe de saúde não foi o suficiente para reverter o quadro clínico com o qual ingressou o Dr. Batlle após o acidente que sofreu há alguns dias", assinalou um comunicado.
O ex-presidente, que na terça-feira faria 89 anos, foi hospitalizado em estado crítico no dia 13 de outubro com "traumatismo no crânio por queda" que lhe provocou um coágulo intracraniano.
Durante seu mandato, Batlle enfrentou a pior crise financeira da história recente do Uruguai, com uma forte corrida bancária e a disparada do dólar, no rastro da crise econômica argentina de 2001. Herdeiro de uma dinastia política que marcou a história do Uruguai, Jorge Batlle era filho de Luis Batlle Berres, que exerceu a presidência entre 1947 e 1951.

Reprodução do Correio do Povo

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

PEC 241 reduz deveres do Estado com saúde e educação

No Brasil, a vinculação de recursos tributários para a educação pública teve origem na Constituição de 1934. A ideia que fundamenta a vinculação é de que, para garantir direitos aos cidadãos, é necessário atribuir deveres ao poder público. O artigo 112 da Constituição de 1988 define que a União nunca aplicará menos de 18% da arrecadação de impostos na "manutenção e desenvolvimento do ensino". Em 2000, o mesmo princípio foi estendido para saúde, que inicialmente acompanhava o crescimento do PIB e, a partir de 2016, passou a estar associada à evolução da arrecadação total.
A exposição de motivos da PEC 241 diz a que veio: "(...) É essencial alterarmos a regra de fixação do gasto mínimo em algumas áreas. Isso porque a Constituição estabelece que as despesas com saúde e educação devem ter um piso, fixado como proporção da receita fiscal". Em um governo aberto ao debate democrático, a PEC do "teto de gastos" deveria chamar-se PEC da "desvinculação de recursos".
Sob a alegação de que despesas obrigatórias engessam o Orçamento, a emenda altera o mínimo destinado a essas áreas para o valor vigente quando da implementação da regra, ajustando-o apenas pela inflação do ano anterior. Hoje a União gasta com saúde e educação mais do que o mínimo constitucional. Se em 2017 a União se ativer a esse mínimo, tal valor real passaria a funcionar como piso constitucional por 20 anos, mesmo em caso de expansão da arrecadação.
O governo alega que trata-se de um mínimo, e não de um teto, o que não implicaria necessariamente em um congelamento real dos recursos destinados a essas áreas. No entanto, dada a previsão de crescimento dos gastos com benefícios previdenciários —que ocorrerá por muitos anos mesmo se aprovada a reforma da Previdência—, o teto global para as despesas de cada Poder tornaria inviável a aplicação de um maior volume de recursos nas áreas de saúde e educação públicas. Caso contrário, despesas com outras áreas —cultura, ciência e tecnologia, investimentos em infraestrutura ou assistência social, por exemplo— teriam de ser ainda mais comprimidas ou até mesmo eliminadas.
Na prática, isso significa o abandono do princípio básico que norteou essas vinculações desde 1934, qual seja, de que enquanto não chegarmos aos níveis adequados de qualidade na provisão de educação e saúde públicas, eventuais aumentos na receita com impostos devem ter uma parcela mínima destinada à provisão destes serviços.
Embora haja sempre alguma margem para aumento na qualidade dos serviços pela maior eficiência —sem elevação de despesas—, a evidência é que houve melhora nos indicadores de resultado de ambas as áreas com a destinação maior de recursos na última década.
Ainda assim, os gastos em educação e saúde per capita no Brasil se mantém em níveis muito abaixo da média dos países da OCDE. Com o crescimento populacional nos próximos 20 anos, o congelamento implicará em uma queda vertiginosa nesses indicadores. O envelhecimento da população, em particular, reduzirá muito as despesas com saúde por idoso, com consequências dramáticas sobre os mais vulneráveis.
Na contramão de países como Chile e EUA, que hoje caminham na direção de uma ampliação da gratuidade na provisão desses serviços, a proposta disfarça a desistência de levar o Brasil aos níveis de qualidade de ensino e atendimento em saúde públicos das economias mais avançadas. Em um país com níveis altíssimos de desigualdade social, não é difícil perceber as implicações.


Texto de Laura Carvalho, na Folha de São Paulo

Os impactos da prisão de Cunha

Chegou o dia que o Brasil tanto esperava e que Brasília tanto temia: Eduardo Cunha está preso. Tardiamente, é verdade. Contra Cunha, ao menos desde o ano passado, pesam muito mais do que convicções. Há provas contundentes, como os extratos de contas na Suíça associados à corrupção na Petrobras.
Que, a esta altura, sua prisão seja "preventiva" chega a soar irônico, após ele ter chantageado uma presidente aos olhos do país, ter conduzido o processo de impeachment que a derrubou e feito ameaças a torto e a direito. O ônus deste atraso cabe a Teori Zavascki. O ministro do Supremo demorou mais de quatro meses para afastar Cunha após o pedido do MPF, feito ainda com Dilma no governo, e negou seu pedido de prisão em junho último.
Cabe agora entender os impactos desta prisão. Para o governo Temer e para os próximos passos da Operação Lava Jato.
De um lado, uma eventual delação de Eduardo Cunha pode ter efeito explosivo para o PMDB e o governo. Ele já havia apontado para Moreira Franco, homem forte da guarda palaciana, insinuando que teria provas de seu envolvimento em esquema de propina no financiamento das obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Mas isso seria apenas o aperitivo.
É fato corrente nos bastidores que Cunha e Temer teriam uma parceria na gestão do porto de Santos, ligada ao grupo Libra –principal doador de Temer e favorecido por Cunha com uma emenda na MP dos Portos. O atual presidente chegou a ser alvo de dois inquéritos relacionados ao recebimento de propinas no porto, em 2002 e 2006, ambos arquivados. Suspeita-se que Cunha tenha gravações de conversas com ele sobre o assunto.
Se Cunha resolver falar e tiver condições de apresentar provas –e é claro se os procuradores da Lava Jato aceitarem sua delação –o governo Temer poderá ter seus dias contados. Neste caso, ironia da história, Temer seria derrubado pelas mesmas mãos que o colocaram no poder. Sem falar no Congresso, sobre o qual supõe-se que uma delação do ex-deputado tenha efeitos devastadores.
Mas, de outro lado, a prisão de Cunha pode ter ainda um impacto diferente, relacionado à ofensiva da Lava Jato contra o ex-presidente Lula. A obsessão de Sergio Moro e da chamada "força tarefa" em prender Lula já se tornou algo notório. Foram com muita sede ao pote, tanto na condução coercitiva em março, quanto na desastrada denúncia do power point.
Esses excessos reforçaram a percepção de seletividade e perseguição da Lava Jato contra Lula, principalmente ao considerar que a enorme maioria dos presos e indiciados do núcleo político são do PT. A prisão de Cunha neste momento pode ser entendida como uma preparação da opinião pública para uma eventual prisão de Lula. Neste caso, Moro estaria defendendo-se preventivamente da acusação de seletividade.
Nas últimas semanas, uma enxurrada de novas denúncias da Polícia Federal e do Ministério Público contra Lula –com base probatória que beira o ridículo– alimentaram boatos de uma prisão iminente.
Além disso, os que achavam que Lula era já um "cachorro morto" tiveram uma surpresa com a divulgação nesta terça (18) de uma pesquisa do Instituto Vox Populi, curiosamente pouco repercutida na grande imprensa. Mesmo em meio a um prolongado linchamento público, Lula aprece com 34% das intenções de voto para 2018, mais que o dobro de Aécio Neves, com 15%.
Por isso, é razoável supor que aqueles que têm o interesse de destruir a figura do ex-presidente precisem ir além. No caso de Sergio Moro, as iniciativas anteriores devem ter deixado a lição de que é preciso ter mais cuidado, calibrar os tempos e a narrativa. Nesse sentido, a prisão de Eduardo Cunha –necessária e tardia– pode ser convenientemente utilizada para dourar a pílula de uma arbitrariedade contra Lula. Afinal, passaria à sociedade a mensagem de que a Lava Jato não é seletiva, ocultando que dos tucanos citados permaneceram ilesos, bem como a cúpula do PMDB.
Os dados foram lançados. A prisão de Cunha foi uma jogada ousada de Moro. Resta saber como sua República de Curitiba conduzirá os próximos lances. 


Texto de Guilherme Boulos, na Folha de São Paulo

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Discurso da austeridade é infantilizador e caipira

Mal rompe a manhã e os tenores da gerontocracia brasiliense gorjeiam a guarânia que o Brasil é uma família, deve gastar só o que ganhou. A charanga do eixo Leblon-Faria Lima repica então que é preciso pôr a casa em ordem. Apertemos o cinto, entoam todos, tenebrosos, todo santo dia.
Como o país não é apê nas Perdizes, a sua economia não tem nada a ver com a da padoca na esquina, e os brasileiros não são a Fat Family, o discurso da austeridade é infantilizador e caipira. O deficit fiscal virou boi da cara preta, pega essa menina que tem medo de careta.
Contra a mistificação ideológica há agora a imaginação mitológica de "O Minotauro Global" (Autonomia Literária, 300 págs.), livro no qual o touro fabuloso do rei Minos enfrenta o boi que entorpece o pensamento.
Seu autor, Yanis Varoufakis, analisa a austeridade na teoria e na prática. Porque tem formação (doutorou-se em economia e matemática e foi professor em Cambridge), militância (começou na social-democracia e elegeu-se deputado pelo Syriza) e experiência (foi ministro das Finanças da Grécia).
Para chegar à austeridade, ele parte da hecatombe de 1929. A seu ver, a grande crise não foi dirimida pelo incremento de obras públicas –o New Deal, nos EUA– e sim pela militarização geral da economia, bem como pela imensa destruição de forças produtivas na 2ª Guerra.
Ao final do conflito, Keynes propôs na conferência de Bretton Woods a criação de uma moeda internacional para transações financeiras. Foi vencido pelos vencedores da guerra, e o dólar virou a moeda mundial, lastreada pelo ouro. Em 1971, Nixon acabou com a referência ao ouro.
Surgiu então, sob a égide do dólar solto e do domínio americano, o Minotauro. A besta-fera combina num corpo dois déficits, o comercial e o fiscal. Comercial porque os EUA terceirizaram parte da produção. E fiscal porque o seu orçamento esteve aquém do orçamento do Estado.
A explicação para o monstrengo está numa rua, Wall Street. Porque, por mais terras que percorra, o capital vai sempre aonde rende mais. E Wall Street criou miríade de produtos financeiros –resseguros, hedges, hipotecas subprime, alavancagens várias.
Em 2008, esse edifício de dinheiro fictício revelou o seu âmago: papel. Varoufakis mostra que a explosão não se deu porque Wall Street estava desregulada, ou tivesse sido tomada pela ganância. Estourou porque o Minotauro da economia global funciona assim.
A conta foi encaminhada aos mais fracos –aos países da periferia europeia, que tomaram emprestado dos bancos; aos governos que cevaram déficits para preservar os ganhos dos donos da dívida pública. Austeridade neles.
O Minotauro significou, aqui, as décadas perdidas da crise da dívida e da hiperinflação. O monstro segue no seu labirinto, impondo sacrifícios e disseminando a crença infantil de que o déficit será contido com decreto.
Varoufakis perdeu a parada para a União Europeia. O Syriza capitulou e ele se demitiu do ministério. Participa agora de coalizão da nova esquerda europeia, que faz propostas para tirar o Velho Mundo do buraco.
É difícil que a esquerda latino-americana faça algo assim? Que ela se articule e elabore uma opção para o continente? É complicadíssimo. Mas a alternativa é crer nas cantigas de ninar dos austerocratas. Ou esperar um Teseu que, demagogo e oportunista, prometa matar o Minotauro em 2018.


Texto de Mário Sérgio Conti, na Folha de São Paulo.

'Belos velhos' ensinam a construir projetos de vida

Recentemente, a Folha publicou uma matéria com o título: "Após recorde de 122 anos, a tendência é que as pessoas vivam até os 115 anos", mostrando que os avanços médicos das últimas décadas aumentaram não apenas a expectativa de vida, mas, também, a qualidade de vida.
Lutamos tanto para ter sucesso, dinheiro, fama e poder, mas o que é realmente importante na velhice? Quais são as características dos homens e mulheres que estão inventando uma "bela velhice"?
Na minha pesquisa "Corpo, envelhecimento e felicidade" tenho entrevistado brasileiros de mais de 90 anos.
Sara, 91, começou a nossa conversa dizendo: "Já sei, você quer saber quais são os meus projetos de vida". Surpresa com seu entusiasmo, concordei: "Isso mesmo, quero saber quais são os seus projetos".
Ela contou que está escrevendo um livro com histórias da sua família e quer publicar alguns casos engraçados na rede social Facebook.
Sara, 91 anos, está escrevendo suas memórias; Telma, 90 anos, estuda na Universidade da Terceira Idade; Anderson, 93 anos, toca pandeiro em um grupo musical; Regina, 90 anos, dança todas as sextas-feiras; Luiz, 92 anos, caminha diariamente 5 km; Ivone, 90 anos, viaja com as amigas; Ruth, 92 anos, não perde um só filme ou peça de teatro; Taís, 94 anos, conversa com as filhas pelo Skype; João, 92 anos, estuda filosofia; Maria, 91 anos, toca piano para os amigos; Irene, 90 anos, planeja uma viagem para o exterior com os netos.
Todos são independentes, lúcidos e têm boa saúde ou, como dizem, com problemas de saúde "administráveis" e "sob controle". Eles não se aposentaram de si mesmos. Todos têm seus projetos, grandes e pequenos, que dão significado às suas vidas.
Quanto mais observo os "belos velhos", mais tenho o desejo de conseguir chegar aos 90 anos (ou mais), com a mesma energia, entusiasmo e vitalidade. Eles estão me ensinando a construir os meus projetos de vida que irão dar algum sentido à minha existência. Com eles, perdi o medo de envelhecer.
Há quase 30 anos pesquiso homens e mulheres de todas as idades, mas, agora, prestando atenção nos que têm mais de 90 anos, sempre me pergunto: Quais são os meus projetos de vida? O que é realmente importante para construir uma "bela velhice"?


Texto de Mirian Goldenberg, na Folha de São Paulo

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Ao custo de sangue inocente, próximos cem dias serão cruciais para a Síria

O imobilismo político que marcou a reunião em Lausanne, Suíça, deu a impressão que o encontro foi realizado mais para tentar dar satisfação à comunidade internacional do que propriamente focado em busca de conclusões.
O que está em jogo, no momento, é como cada lado procurará manipular a validade das cartas do outro. Russos e americanos estão entrincheirados em suas estratégias e, sobretudo, em suas inflexibilidades.
Enquanto o regime e seus aliados preparam a ofensiva final para conquistar a parte oriental de Aleppo, o eixo EUA-Arábia Saudita, em desvantagem no tabuleiro, demonstra disposição para protelar possíveis soluções políticas à espera da nova administração americana.
Da perspectiva do eixo Moscou-Teerã, o regime retomou o controle dos principais pontos estratégicos do território à exceção da parte oriental de Aleppo, tem total controle sobre a capital Damasco e preservou a unidade das Forças Armadas.
Ademais, Bashar al-Assad segue visto como o principal líder do país. Para russos e iranianos, portanto, a realidade do terreno é que serve de fator determinante para o curso de quaisquer negociações diplomáticas.
Já o bloco antirregime utiliza a importância estratégica de Aleppo para inflar a importância de suas cartas, além de manipular, convenientemente, a composição de quem seriam os grupos armados tipificados, fantasiosamente, de "rebeldes moderados".
O principal impasse entre Moscou e Washington recai, precisamente, sobre a classificação da organização terrorista Jabhat Al-Nusra que, recentemente, alterou o seu nome para Jabhat Fateh Al-Sham.
No fundo, sem a inclusão da organização terrorista Jabhat Al-Nusra —que à cada período transmuta de nome— no grupo denominando de "rebeldes moderados", as cartas de sauditas e qataris, defensores desse posicionamento, se tornam inúteis —paradoxalmente, os americanos os endossam.
Os grupos armados que poderiam, talvez, ser tipificados como "rebeldes moderados" sequer chegariam a 10% da força militar de resistência ao regime.
Além disso, qual seria o conceito utilizado para definir o que é um "rebelde moderado"? Essa "moderação" é comparada a que ou a quem? Esmagadora maioria desses grupos utiliza fortes caracteres e denominações religiosas em suas flâmulas, como o próprio Estado Islâmico e a Al-Nusra —seriam estes "moderados"? Indivíduos radicalizados na ortodoxia do salafismo-wahabita poderiam ser "moderados"? Pois, é essa a matriz de EI e Al-Nusra.
Ao cabo, o encontro de Lausanne revelou o antagonismo existente entre os países presentes.
Os sauditas impõem como pré-condição a saída de Assad. Os americanos reafirmam a necessidade de não haver vácuo de poder, mas sem oferecer proposições concretas. Os iranianos defendem a conservação intacta do regime.
Os egípcios defendem a integridade territorial da Síria e das instituições. Os turcos advogam pela constrição do poder dos curdos e exclusão da Al-Nusra da lista dos "rebeldes moderados". Os russos concordam com parte dos pontos anteriores, mas fazem a ressalva de que o futuro de Assad e de qualquer rearranjo governamental pertencem ao povo sírio.
Desse imbróglio pode se extrair algumas conclusões.
Primeiro, confluência de interesses entre Moscou-Ancara. Segundo, a discrepância de visões entre os dois principais países árabes, Egito e Arábia Saudita. Terceiro, a incapacidade do eixo antirregime de forjar, após cinco anos, uma liderança crível e legitima para o povo sírio.
Os próximos cem dias serão cruciais e podem diluir a força das cartas de um dos lados. Resta saber quem irá determinar o formato do novo status quo —tudo isso, é claro, ao custo de sangue de gente inocente.


Texto de Hussein Kalout, na Folha de São Paulo.

domingo, 16 de outubro de 2016

Com novos protagonistas, coronelismo segue matando

Em 1956, revoltado pela falta de interesse despertada por relatórios que davam conta dos assassinatos que envolviam as eleições no interior do Brasil, Mário Palmério, deputado federal e educador, escreveu "Vila dos Confins": obra prima.
Ao longo da história, o leitor acompanha as peripécias de um jovem político para driblar atentados. "- Sou um deputado federal –que diabo! E não se mata gente assim sem mais nem menos... O município é meu". E para garantir tal posse valia tudo: tocaia à beira das estradas, traições, capangas armados, rondas noturnas dos chamados "bate-paus" até ser "acabado a tiros".
Tudo bem... Era ficção. Mas na vida real não faltaram descrições sobre homicídios ao vivo e a cores. O deputado e advogado Waldemar Pequeno, por exemplo, registrou episódio ocorrido, nos anos 30, com um amigo e com ele durante as eleições para a Câmara de Aimorés (MG). O amigo acolheu um moço que lhe pedira um prato de comida. "Servido este e uma xícara de café, retirara-se o homem para, protegido pela escuridão da noite, disparar a arma contra quem, alvo fácil à luz do lampião da sala, o havia agasalhado e alimentado".
Avisado que sua morte fora encomendada e que seria executado por "capanga peitado", Waldemar foi caçado por nove pistoleiros nas matas do Rio Doce. Ficou mais de uma semana alimentando-se do que encontrava e disputando frutas com pássaros. Conseguiu safar-se e se apresentou à casa de um juiz de Direito para escapar de ser morto.
Coisa do interior? Não. Houve "duelo" até no cenário da capital. Estrelando Tenório Cavalcanti e Antônio Carlos Magalhães. Numa ocasião, Cavalcanti, ainda no mandato de deputado federal, discursava na Câmara. Ele acusava o presidente do Banco do Brasil, Clemente Mariani, de desvio de verbas. Antônio Carlos, então deputado e baiano como Mariani, defendera o conterrâneo respondendo que "vossa excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que vossa excelência é mesmo é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão." Tenório Cavalcante, sacou o seu revólver e berrou: "Vai morrer agora mesmo!".
Colegas correram para tentar impedir o assassinato enquanto outros fugiram do plenário. Antônio Carlos, tremendo de medo, teve uma incontinência urinária. Mesmo assim, gritava: "Atira." Tenório, por fim, resolveu não atirar. Rindo da situação em que ACM se encontrava, recolheu o revólver, dizendo que "só matava homem".
Representante do coronelismo na Baixada Fluminense, Tenório ou "o homem da Capa Preta" provou que as práticas violentas do interior, podiam migrar para a periferia das grandes capitais. Junto à população local, ele protelava ou executava sentenças, com auxílio de "Lurdinha", nome de sua metralhadora.
A história das execuções sumárias vem de longe. Segundo sociólogos, elas se multiplicaram nos anos 60 e 70, com a criação de esquadrões da morte que agiam sob o lema "bandido bom é bandido morto". Policiais se transformaram, então, em agenciadores dos serviços para vereadores, deputados e prefeitos que, por sua vez, solucionavam problemas de seus financiadores. Delegados trabalhavam junto dando cobertura.
Assim, políticos ligados à teia do crime continuaram a fortalecer, pela violência, sua base política e eleitoral. Todos eles ávidos para ter acesso às populações encurraladas por degradantes índices de pobreza, educação, saúde e segurança. Se o coronelismo existe desde os tempos da República Velha, ele não morreu. Hoje, com novo nome, técnicas e protagonistas, ele segue matando. Foram mais de 90 execuções durante o último processo eleitoral.


Texto de Mary del Priori, na Folha de São Paulo.