Mostrando postagens com marcador catolicismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador catolicismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de julho de 2014

Francisco é o primeiro papa a visitar igreja evangélica pentecostal


Francisco é o primeiro papa a visitar igreja evangélica pentecostal

Pontífice pede desculpas por perseguição a fiéis ocorrida durante o fascismo na Itália
DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

O papa Francisco tornou-se, nesta segunda-feira (28), o primeiro líder da Igreja Católica a fazer visita a uma igreja evangélica pentecostal --ramo do protestantismo considerado grande "competidor" dos católicos na disputa por novos fiéis no mundo.
Francisco viajou de helicóptero à cidade de Caserta, no sul da Itália, e foi à Igreja Evangélica da Reconciliação, cujo prédio ainda está em obras. O papa também se reuniu privadamente com o pastor evangélico Giovanni Traettino, amigo de longa data.
No sábado (26), o papa já tinha estado em Caserta para celebrar uma missa em honra à padroeira santa Ana, evento que reuniu aproximadamente 200 mil católicos.
Falando nesta segunda a cerca de 350 fiéis na igreja evangélica, o pontífice pediu desculpas pela perseguição católica aos pentecostais durante o regime fascista na Itália (1922-1943), quando a prática de sua fé era proibida.
"Entre os que perseguiam e denunciavam pentecostais, quase como se fossem pessoas loucas tentando destruir a raça [humana], havia também católicos", discursou.
"Eu sou o pastor dos católicos e peço o seu perdão por aqueles irmãos e irmãs católicos que não compreenderam e foram tentados pelo Diabo", acrescentou o papa.
Francisco também citou o ineditismo da visita. "Alguém vai se surpreender: O papa foi visitar os evangélicos?'. Mas ele foi ver seus irmãos."
O papa defendeu ainda a "unidade na diversidade" dentro do cristianismo. "O Espírito Santo cria diversidade na igreja. A diversidade é bela, mas o próprio Espírito Santo também cria unidade, para que a igreja esteja unida na diversidade: (...) uma diversidade reconciliadora."
O protestantismo pentecostal é uma corrente surgida nos EUA, no início do século 20, com ênfase na experiência direta de Deus por meio dos dons do Espírito Santo, como os de curar e de falar línguas desconhecidas.
Antecessores de Francisco no papado, como João Paulo 2º, já haviam pedido perdão pela perseguição a protestantes históricos depois da Reforma, a partir do século 16.


Reprodução da Folha de São Paulo. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Igreja Católica importa padres para conter queda do número de fiéis 1


Diante da falta de padres, a Igreja Católica da Alemanha está recrutando um número crescente de pregadores no exterior, como Benjamine Gaspar, que é originário da Índia e agora conduz sermões em uma igreja localizada na cidade alemã de Bocholt.

Quando Benjamine Gaspar ouviu pela primeira vez o nome da diocese –Münster-- ele se ajoelhou e orou. Ele se lembra de que, em seguida, se levantou, sentou-se na frente de seu computador e procurou o nome da diocese na Wikipedia, onde ficou sabendo que Münster é uma cidade situada no noroeste da Alemanha, tem uma população de 300 mil habitantes, é a sede de um bispado e é conhecida como a "cidade das bicicletas".

Gaspar, 32, é um indiano católico. Quando ficou sabendo de sua mudança para Münster, em 2012, ele morava na cidade indiana de Chennai, onde circulava vestindo jeans, camisa polo branca e sandálias.

Desde o início, Gaspar parecia aberto e animado com sua aventura alemã. "Deus tem um plano", disse o padre Benjamine, como sua antiga congregação o chamava. "Deus sabe para onde nos envia". Atualmente ele trabalha para a Diocese Católica de Münster, na cidade de Bocholt, próxima da fronteira com a Holanda.

A época em que os missionários alemães se aventuravam pelo mundo se encerrou há muito tempo. Nos dias de hoje, a Igreja Católica da Alemanha tem enfrentado uma escassez de novos sacerdotes. Quase 10% dos sacerdotes católicos da Alemanha (ou cerca de 1.300) são estrangeiros --e muitos são originários da Índia. A Spiegel visitou Gaspar tanto em sua Índia natal quanto na Alemanha.

Chennai, Índia, maio de 2012

Benjamine Gaspar olha para o Oceano Índico, onde o horizonte é apenas uma linha brilhante sob o calor do meio-dia. Ele está prestes a embarcar em uma longa viagem.

Gaspar faz parte de uma comunidade chamada "Sociedade Missionária dos Mensageiros da Boa Nova", cujos membros pregam em igrejas do mundo inteiro. Para o jovem, seu compromisso com a igreja é também uma oportunidade de conhecer o mundo. "Minha família é cristã há dez gerações", diz Gaspar, que observa que, talvez, seus antepassados tenham encontrado o caminho para a fé cristã por meio dos missionários europeus. "O fato de eu ter podido me tornar padre e que agora eu esteja indo para a Alemanha é como um sonho transformado em realidade", diz ele.

O jovem sacerdote não decide para onde será enviado. A burocracia da Igreja Católica é que decide por ele. Suas habilidades linguísticas não são um fator decisivo. "Nós fazemos o nosso melhor, independentemente de para onde somos enviados", diz Gaspar. Deus não conhece fronteiras, acrescenta ele.

Mas as autoridades alemãs conhecem. Para obter um visto, o padre Benjamine tem de provar que fala pelo menos um pouco de alemão. É por isso que ele manobra sua moto pelas ruas movimentadas de Chennai todas as manhãs, passando por favelas e opulentas mansões coloniais durante uma jornada de cerca de 20 quilômetros entre o seminário e o Instituto Goethe.

O centro de idiomas funciona em um prédio moderno de concreto e vidro, com um terraço com vista para o mar turbulento. Durante seis horas por dia, Gaspar luta com a pronúncia e a sintaxe alemãs e, geralmente, após seu culto noturno na igreja, gasta mais tempo memorizando o vocabulário. Espera-se que em cerca de três meses o jovem sacerdote esteja pronto para se comunicar de forma eficaz durante seu dia a dia na Alemanha.

Desafios do idioma

O professor de Gaspar, Jerome Rajan, chama seu curso de alemão de "minha aula santa". Às vezes, metade dos assentos da sala de aula de Rajan estão ocupadas por sacerdotes tímidos e diligentes. Na verdade, a falta de padres na Alemanha é responsável pelos cursos de alemão lotados na Índia, país localizado a mais de 10 mil quilômetros de distância.

Os sacerdotes indianos tendem a falar Inglês fluentemente, a terem diploma de ensino médio e terem concluído sua formação em seminários. "Mas muitos vêm de famílias pobres", explica o professor, "e nem todos são tão bons em línguas como Benjamine". Para eles, diz Rajan, é um grande desafio alcançar os objetivos do curso e não decepcionar suas ordens nem suas famílias.

Será que o curso de alemão está verdadeiramente os preparando para a vida cotidiana como sacerdotes na Alemanha? Às vezes, Gaspar se mostra cético. A lição de hoje em seu livro de alemão tem o título de "caça à pechincha". Um dos exercícios enuncia: "eu comprei um novo relógio cuco de você há dois dias. Mas eu gostaria de devolvê-lo". Gaspar ignora o exercício e folheia o livro.

Ele tem uma agenda apertada, especialmente nos fins de semana, o que deixa pouco tempo para que ele pratique seu alemão. Em algumas congregações, a missa é rezada oito vezes aos domingos, e cada sacerdote pode conduzir até quatro cultos por dia. Durante um culto na congregação de Gaspar, entre 500 e 600 pessoas se sentam em cadeiras de plástico brancas simples. Quando a missa é conduzida em Tamil, a língua local, a frequência pode chegar a 2 mil pessoas. No verão, quando as temperaturas atingem 45 graus Celsius, a frequência nas missas é especialmente elevada nas primeiras horas da manhã, às 5h ou 6h.

A maioria dos fiéis é composta por mulheres jovens envoltas em luminosos saris nas cores azul cobalto e cor de rosa, e muitas delas carregam bebês em seus braços. Alguns homens usam as tradicionais calças de algodão chamadas de dhoti, que se assemelham a uma saia-envelope.

Os cristãos são minoria na Índia, onde compõem cerca de 2,3% da população. Mas, considerando-se o fato de que a Índia é um dos países mais populosos do mundo, esse total chega a 28 milhões de pessoas. O sul da Índia abriga um número particularmente grande de cristãos, cujas raízes remontam aos chamados cristãos Saint Thomas. Supostamente, o apóstolo Thomas teria chegado à Índia em 54 D.C., o que tornaria a igreja cristã na Índia mais antiga do que a da Europa.

Os cristãos de Chennai cantam em alto e bom som. O culto, realizado ao ar livre sobre a grama e sob a luz de holofotes, é permeado por um cheiro de incenso e de mangas maduras. A sequência mal difere de uma missa na Alemanha, uma vez que a liturgia da Igreja Católica é a mesma em todos os lugares. Gaspar abre os braços e abençoa as crianças.

"Eu estou muito animado com os cultos que vou conduzir na Alemanha", disse Gaspar. Ele ouviu dizer que a frequência à igreja na Alemanha está em declínio, mas não entende o porquê dessa tendência. Será que os alemães estão perdendo sua fé? Ou será que eles estão apenas perdendo sua fé na igreja? "Em todo caso, eu quero ajudar a mudar isso", diz ele.

Bocholt, Westfália, outono de 2013

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Gaspar faz o sinal da cruz quando o culto chega ao fim e olha para sua nova congregação em Bocholt. De pé em frente a um altar barroco gigantesco, ele cruza as mãos levemente sobre o peito. Ele acentua cada palavra que diz em alemão: "Eu. Desejo. A todos. Vocês. Um. Bom dia". Em seguida, ele sorri.

"Ele está realmente se esforçando", diz uma mulher de 84 anos de cabelo encaracolado todo branco. Para ela, o novo padre indiano é "simpático à primeira vista" e acrescentou que "o jovem se adaptou muito bem" à congregação. O sacerdote indiano trabalha duro e conduz a missa "de maneira muito devota", que agrada à senhora – ao contrário do padre africano, cujo sermão proferido em uma congregação vizinha há alguns meses não pode ser compreendido pelos fieis.

Gaspar sorri com alegria quando lhe contam sobre o diálogo com a velha senhora. Nem sempre é fácil conquistar as pessoas mais velhas da congregação, diz ele, "mas esse é o meu objetivo mais importante". Na verdade, os idosos são os seus clientes mais importantes. Há cerca de 70 idosos participando do culto de Gaspar nesta terça-feira de manhã. Quase todas são mulheres, todas têm mais de 60 anos e as cores predominantes de seus casaquinhos de verão são marrom e bege. Suas vozes finas rapidamente desaparecem na nave pedra.

"Uma grande oportunidade para a igreja"

Há alguns anos, a Paróquia de Nossa Senhora onde Gaspar trabalha foi unificada com outras quatro outras paróquias do entorno, e uma quinta paróquia será adicionada ao grupo em 2016. Atualmente, uma equipe de sete sacerdotes atende aproximadamente 16 mil católicos da região. "Nós precisamos urgentemente de apoio", diz o pastor, Matthias Conrad, de 70 anos. "Benjamine Gaspar é uma dádiva de Deus para nós". Conrad observa que os tempos estão mudando e diz que a necessidade de recrutar novos sacerdotes do exterior teria sido algo impensável no passado.

Jovens motivados como Gaspar, diz Conrad, são "uma grande oportunidade para a Igreja na Alemanha", pois eles trazem uma lufada de ar fresco para as congregações. "A vantagem de uma igreja global como a Igreja Católica é que você pode conhecer outras culturas". Para Conrad, atualmente a igreja é "uma grande rua de mão dupla". E ele acrescenta: "durante tempo demais a igreja foi uma rua de mão única, cujo fluxo partia da Europa em direção ao restante do mundo".

Gaspar, porém, tem expectativas realistas em relação a sua nova posição. "Ambos os lados simplesmente não podem esperar milagres", diz ele. Construir a confiança leva tempo, explica Gaspar, cujo visto alemão atual é válido por cinco anos. Ele não quer pegar ninguém de surpresa. Uma família convidou-o para almoçar alguns dias atrás. Foi uma grande oportunidade de trocar pontos de vista – oportunidade que ele gostaria de desfrutar mais vezes, diz Gaspar. "Às vezes, me deparo com ceticismo, mas também com muita gratidão e respeito".

Durante a apresentação de Gaspar à congregação, ele pediu que os fiéis o incentivassem. "Eu preciso de sua ajuda, de seu apoio, sua cooperação e, acima de tudo, do Espírito de Deus para que eu possa viver e trabalhar aqui como um sacerdote", leu ele, de maneira hesitante, uma declaração preparada previamente, apesar de ter praticado seu discurso diante do espelho.

"Eles vêm para chorar, raramente para rir"

Apesar de um membro da congregação editar os sermões de Gaspar, atualmente o padre é capaz de conduzir a missa da manhã sozinho. Em breve ele vai começar a conduzir funerais. "Eu ainda tenho muito a aprender, mas me sinto muito confortável nesta paróquia. Estas pessoas são quase como uma família para mim agora", diz Gaspar.

Ao resumir suas impressões iniciais, Gaspar diz: "ao contrário da Índia, os jovens daqui não parecem ter muitas preocupações – ou, pelo menos, eles não nos contam sobre essas preocupações na igreja". Só quando se trata de temas existenciais da vida é que os alemães buscam consolo com um padre, acrescenta ele. "Eles vêm para chorar, raramente para rir".

Na Índia, ele costumava passar as tardes visitando espontaneamente os membros de sua congregação em suas casas para lhes perguntar sobre seus filhos ou, talvez, sobre uma sogra doente. Em Bocholt, ele rapidamente aprendeu que existem regras sociais mais rígidas a serem observadas. "Eu já sabia que os alemães são pontuais, mas agora eu também sei que você sempre tem que ligar antes de visitá-los", disse Gaspar com uma risada entre dentes.

Gaspar geralmente roda por Bocholt e pela zona rural do entorno durante a noite em sua nova moto – um presente de boas-vindas dado a ele pela paróquia. O padre fica visivelmente emocionado quando conta a história de como seus colegas derem a moto a ele durante um culto. Isso o fez pensar sobre o artigo da Wikipédia que ele leu em Chennai e sobre aquela estranha denominação de "cidade das bicicletas".
 
 
Reportagem de Simone Salden, para a Der Spiegel, reproduzida no UOL. Tradutor: Cláudia Gonçalves 
 
Nota do blogueiro: Obviamente, quando o texto fala em "Saint Thomas", ele está falando em São Tomé, o apóstolo que duvidava da ressurreição de Jesus.
 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

'Se uma pessoa é gay e busca Deus, quem sou eu para julgá-la?', diz papa

Na mais ousada declaração de um pontífice sobre homossexualidade, o papa Francisco disse que os gays "não devem ser marginalizados, mas integrados à sociedade" e que não se sente em condição de julgá-los.
"Se uma pessoa é gay, busca Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?", afirmou Francisco aos cerca de 70 jornalistas que embarcaram a Roma com ele. "O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas integrados à sociedade."
As declarações foram em resposta a recentes revelações de que um assessor próximo seria homossexual e a uma frase atribuída a ele no início de junho, de que havia um "lobby gay" no Vaticano. Segundo ele explicou ontem, o problema não é ser gay, mas o lobby em geral.
"Vocês vêm muita coisa escrita sobre o "lobby gay". Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se encontra com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay de formar um lobby gay, porque nem todos os lobbies são bons. Isso é o que é ruim."
"O problema não é ter essa tendência [gay]. Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessa tendência, da tendência de pessoas gananciosas: lobby político, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema."
Questionado sobre o movimento carismático no Brasil, Francisco disse que, no início, chegou a compará-los com uma "escola de samba", mas que se arrependeu: diz que os movimentos "bem assessorados" são parte da "igreja que se renova".
Antes de aceitar perguntas, Francisco disse que "foi uma bela viagem" e elogiou o "povo brasileiro". "Espiritualmente me fez bem, estou cansado, mas me fez bem", afirmou.
"A bondade e o coração do povo brasileiro são muito grandes. É um povo tão amável, que é uma festa, que no sofrimento sempre vai achar um caminho para fazer o bem em alguma parte.
Um povo alegre, um povo que sofreu tanto. É corajosa a vida dos brasileiros. Tem um grande coração, este povo."
O papa elogiou os organizadores "tanto da nossa parte quanto dos brasileiros", com menções à parte artística e religiosa. "Era tudo cronometrado, mas muito bonito."
Sobre a segurança, uma grande preocupação principalmente no início, o papa lembrou que "não teve um incidente com esses jovens, foi super espontâneo".
"Com menos segurança, eu pude estar com as pessoas, saudá-los, sem carro blindado. A segurança é a confiança de um povo. Há sempre o perigo de um louco, mas com esse temos o Senhor. Eu prefiro esta loucura, e ter o risco da loucura, que é uma aproximação."
Francisco ressaltou ainda a estimativa oficial de 3,2 milhões de fiéis e a presença de peregrinos de 178 países.
Mesmo depois do domingo intenso, que incluiu um novo percurso de papamóvel e três pronunciamentos, Francisco, 76, respondeu às perguntas de pé por quase 90 minutos, não parando nem durante uma zona de turbulência e com aviso de atar os cintos ligado.
Enquanto falava, surpreendia ao colocar a mão no bolso de sua vestimenta papal com a naturalidade de uma roupa qualquer. Para ouvir melhor um jornalista, se inclinou para frente e apoiou as mãos sobre uma poltrona. Chegou até a se abaixar para pegar um fone de ouvido que caiu na sua frente, mas alguém foi mais rápido.
A seguir, a entrevista a bordo do "volo papale", em que ele defende maior participação da mulher, explica o processo de reforma do Vaticano e fala sobre a sua relação com Bento 16, entre outros temas:
Pergunta - Nestes quatro meses, o senhor criou várias comissões. Que tipo de reforma tem em mente? O sr. quer suprimir o banco do Vaticano?
Papa Francisco - Os passos que eu fui dando nestes quatro meses e meio vão em duas vertentes. O conteúdo do que quero fazer vem da congregação dos cardeais. Eu me lembro que os cardeais pediam muitas coisas para o novo papa, antes do conclave. Eu me lembro de que tinha muita coisa. Por exemplo, a comissão de oito cardeais, a importância de ter uma consulta externa, e não uma consulta apenas interna.
Isso vai na linha do amadurecimento da sinodalidade e do primado. Os vários episcopados do mundo vão se expressando em muitas propostas que foram feitas, como a reforma da secretaria dos sínodos, que a comissão sinodal tenha característica de consultas, como o consistório cardinalício com temáticas específicas, como a canonização.
A vertente dos conteúdos vem daí. A segunda é a oportunidade. A formação da primeira comissão não me custou pouco mais de um mês. Pensava em tratar a parte econômica no ano que vem, porque não é a mais importante. Mas a agenda mudou devido a circunstâncias que vocês conhecem.
O primeiro é o problema do IOR [banco do Vaticano], como encaminhá-lo, como reformá-lo, como sanear o que há de ser sanado. E essa foi então a primeira comissão.
Depois, tivemos a comissão dos 15 cardeais que se ocupam dos assuntos econômicos da Santa Sé. E por isso decidimos fazer uma comissão para toda a economia da Santa Sé, uma única comissão de referência. Notou-se que o problema econômico estava fora da agenda. Mas essas coisas atendem.
Quando estamos no governo, vamos por um lado, mas, se chutam e fazem um golaço por outro lado, temos de atacar. A vida é assim. Eu não sei como o IOR vai ficar. Alguns acham melhor que seja um banco, outros que seja um fundo, uma instituição de ajuda. Eu não sei. Eu confio no trabalho das pessoas que estão trabalhando sobre isso.
O presidente do IOR permanece, o tesoureiro também, enquanto o diretor e o vice-diretor pediram demissão. Não sei como vai terminar essa história. E isso é bom. Não somos máquinas. Temos de achar o melhor. A característica de, seja o que for, tem de ter transparência e honestidade.
Uma fotografia do sr. deu a volta ao mundo, quando o sr. desceu as escadas do helicóptero, carregando sua mala preta. Artigos de todo o mundo comentaram o papa que sai com sua própria mala. Foram levantadas hipóteses também sobre o conteúdo da mala. Por que o sr. saiu carregando a maleta preta, e não seus colaboradores? E o sr. poderia dizer o que tinha dentro?
Não tinha a chave da bomba atômica. Eu sempre fiz isso, Quando viajo, levo minhas coisas. E dentro o que tem? Um barbeador, um breviário (livro de liturgia), uma agenda, tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei a minha maleta. É normal. Temos de ser normais. É um pouco estranho isso que você me diz que a foto deu a volta ao mundo. Mas temos de nos habituar a sermos normais, à normalidade da vida.
Por que o senhor pede tanto para que rezem pelo senhor? Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele.
Sempre pedi isso. Quando era padre, pedia, mas nem tanto nem tão frequentemente. Comecei a pedir mais frequentemente quando passei a bispo. Porque eu sinto que, se o Senhor não ajuda nesse trabalho de ajudar aos outros, não se pode. Preciso da ajuda do Senhor. Eu de verdade me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também pecador. Peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Sinto que devo pedir. Não sei
Na busca por fazer essas mudanças, o sr. disse que existem muitos santos que trabalham no Vaticano e outros um pouco menos santos. O sr. enfrenta resistências a essa sua vontade de mudar as coisas no Vaticano? O sr. vive num ambiente muito austero, de Santa Marta. Os seus colaboradores também vivem essa austeridade? Isso é algo apenas do sr. ou da comunidade?
As mudanças vêm de duas vertentes: do que pediram os cardeais e também o que vem da minha personalidade. Você falou que eu fico na Santa Marta. Eu não poderia viver sozinho no palácio, que não é luxuoso. O apartamento pontifício é grande, mas não é luxuoso. Mas eu não posso viver sozinho. Preciso de gente, falar com gente. Trabalhar com as pessoas. Porque, quando os meninos da escola jesuíta me perguntaram se eu estava aqui pela austeridade e pobreza, eu respondi: "Não, por motivos psiquiátricos."
Psicologicamente, não posso. Cada um deve levar adiante sua vida, seguir seu modo de vida. Os cardeais que trabalham na Cúria não vivem como ricos. Têm apartamentos pequenos. São austeros. Os que eu conheço têm apartamentos pequenos.
Cada um tem de viver como o Senhor disse que tem de viver. A austeridade é necessária para todos. Trabalhamos a serviço da igreja. É verdade que há santos, sacerdotes, padres, gente que prega, que trabalha tanto, que vai aos pobres, se preocupa de fazer comer os pobres. Têm santos na Cúria. Também têm alguns que não têm muitos santos. E são estes que fazem mais barulho. Uma árvore que cai faz mais barulho do que uma floresta que nasce. Isso me dói. Porque são alguns que causam escândalos. São escândalos que fazem mal. Uma coisa que nunca disse: a Cúria deveria ter o nível que tinha dos velhos padres, pessoas que trabalham. Os velhos membros da Cúria. Precisamos deles. Precisamos o perfil do velho da Cúria.
Sobre resistência, se tem, ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: eu encontrei ajuda, encontrei pessoas leais. Por exemplo, eu gosto quando alguém me diz :"Eu não estou de acordo". Esse é um verdadeiro colaborador. Mas, quando vejo aqueles que dizem "ah, que belo, que belo" e depois dizem o contrario por trás, isso não ajuda.
O mundo mudou, os jovens mudaram. Temos no Brasil muitos jovens, mas o senhor não falou de aborto, sobre a posição do Vaticano em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para estes casamentos em relação ao aborto. Por que o senhor não falou sobre isso?
A igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Eu não queria voltar sobre isso. Não era necessário voltar sobre isso, como também não era necessário falar sobre outros assuntos. Eu também não falei sobre o roubo, sobre a mentira. Para isso, a igreja tem uma doutrina clara. Queria falar de coisas positivas, que abrem caminho aos jovens. Além disso, os jovens sabem perfeitamente qual a posição da igreja.
E a do papa?
É a da igreja, eu sou filho da igreja.
Qual o sentido mais profundo de se apresentar como o bispo de Roma?
Não se deve andar mais adiante do que o que se fala. O papa é bispo de Roma e por isso é papa, o sucessor de Pedro. Não é o caso pensar que isso quer dizer que é o primeiro. Não é esse o sentido. O primeiro sentido do papa é ser o bispo de Roma.
O sr. teve sua primeira experiência multidinária no Rio. Como se sente como papa, é um trabalho duro?
Ser bispo é belo. O problema é quando alguém busca ter esse trabalho, assim não é tão belo. Mas, quando o Senhor chama para ser biso, isso é belo. Tem sempre o perigo e o pecado de pensar com superioridade, como se fosse um príncipe. Mas o trabalho é belo. Ajudar o irmão a ir adiante. Têm o filtro da estrada.
O bispo tem de indicar o caminho. Eu gosto de ser bispo. Em Buenos Aires, eu era tão feliz. Como padre, era feliz. Como bispo, era feliz e isso me faz bem.
E ser papa?
Se você faz o que o Senhor quer, é feliz. Esse é meu sentimento.
Igreja no Brasil está perdendo fiéis. A Renovação Carismática é uma possibilidade para evitar que eles sigam para as igrejas pentecostais?
É verdade, as estatísticas mostram. Falamos sobre isso ontem com os bispos brasileiros. E isso é um problema que incomoda os bispos brasileiros.
Eu vou dizer uma coisa: nos anos 1970, início dos 1980, eu não podia nem vê-los. Uma vez, falando sobre eles, disse a seguinte frase: eles confundem uma celebração musical com uma escola de samba.
Eu me arrependi. Vi que os movimentos bem assessorados trilharam um bom caminho. Agora, vejo que esse movimento faz muito bem à igreja em geral. Em Buenos Aires, eu fazia uma missa com eles uma vez por ano, na catedral. Vi o bem que eles faziam.
Neste momento da igreja, creio que os movimentos são necessários. Esses movimentos são um graça para a igreja. A Renovação Carismática não serve apenas para evitar que alguns sigam os pentecostais. Eles são importantes para a própria igreja, a igreja que se renova.
A igreja sem a mulher perde a fecundidade? Quais as medidas concretas? O senhor disse que está cansado. Há algum tratamento especial neste voo?
Vamos começar pelo fim. Não há nenhum tratamento especial neste voo. Na frente, tem uma bela poltrona. Escrevi para dizer que não queria tratamento especial.
Segundo, as mulheres. Uma igreja sem as mulheres é como o colégio apostólico sem Maria. O papel da mulher na igreja não é só maternidade, a mãe da família. É muito mais forte. A mulher ajuda a igreja a crescer. E pensar que a Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! A igreja é feminina, esposa, mãe.
O papel da mulher na igreja não deve ser só o de mãe e com um trabalho limitado. Não, tem outra coisa. O papa Paulo 6° escreveu uma coisa belíssima sobre as mulheres. Creio que se deva ir adiante esse papel. Não se pode entender uma igreja sem uma mulher ativa.
Um exemplo histórico: para mim, as mulheres paraguaias são as mais gloriosas da América Latina. Sobraram, depois da guerra (1864-1870), oito mulheres para cada homem. E essas mulheres fizeram uma escolha um pouco difícil. A escolha de ter filhos para salvar a pátria, a cultura, a fé, a língua.
Na igreja, se deve pensar nas mulheres sob essa perspectiva. Escolhas de risco, mas como mulher. Acredito que, até agora, não fizemos uma profunda teologia sobre a mulher. Somente um pouco aqui, um pouco lá. Tem a que faz a leitura, a presidente da Cáritas, mas há mais o que fazer. É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. Isso é o que eu penso.
Queremos saber qual a sua relação de trabalho com Bento 16, não a amistosa, a de colaboração. Não houve antes uma circunstância assim. Os contatos são frequentes?
A última vez que houve dois ou três papa, eles não se falavam. Estavam brigando entre si, para ver quem era o verdadeiro. Eu fiquei muito feliz quando se tornou papa. Também, quando renunciou, foi, para mim, um exemplo muito grande. É um homem de Deus, de reza. Hoje, ele mora no Vaticano.
Alguns me perguntam: como dois papas podem viver no Vaticano? Eu achei uma frase para explicar isso. É como ter um avô em casa. Um avô sábio. Na família, um avô é amado, admirado. Ele é um homem com prudência. Eu o convidei para vir comigo em algumas ocasiões. Ele prefere ficar reservado. Se eu tenho alguma dificuldade, não entendo alguma coisa, posso ir até ele.
Sobre o problema grave do Vatileaks [vazamento de documentos secretos], ele me disse tudo com simplicidade. Tem uma coisa que não sei se vocês sabem: Em 8 de fevereiro, no discurso, ele falou: "Entre vocês está o próximo papa. Eu prometo obediência". Isso é grande.
O sr. falou com os bispos brasileiros sobre a participação das mulheres na igreja. Gostaria de entender melhor como deve ser essa participação. O que sr. pensa sobre a ordenação das mulheres?
Sobre a participação das mulheres na igreja, não se pode limitar a alguns cargos: a catequista, a presidente da Cáritas. Deve ser mais, muito mais. Sobre a ordenação, a igreja já falou e disse que não. João Paulo 2° disse com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada. Nossa senhora, Maria, é mais importante que os apóstolos. A mulher na igreja é mais importante que os bispos e os padres. Acredito que falte uma especificação teológica.
Nesta viagem, o sr. falou de misericórdia sobre o acesso aos sacramentos dos divorciados, existe a possibilidade de mudar alguma coisa na disciplina da igreja?
Essa é uma pergunta que sempre se faz. A misericórdia é maior do que o exemplo que você deu. Essa mudança de época e também tantos problemas na igreja, como alguns testemunhos de alguns padres, problemas de corrupção, do clericalismo A igreja é mãe. Ela cura os feridos. Ela não se cansa de perdoar.
Os divorciados podem fazer a comunhão. Não podem quando estão na segunda união. Esse problema deve ser estudado pela pastoral matrimonial. Há 15 dias, esteve comigo o secretário do sínodo dos bispos, para discutir o tema do próximo sínodo. E posso dizer que estamos a caminho de uma pastoral matrimonial mais profunda. O cardeal Guarantino disse ao meu antecessor que a metade dos matrimônios é nula. Porque as pessoas se casam sem maturidade ou porque socialmente devem se casar. Isso também entra na Pastoral do Matrimônio.
A questão da anulação do casamento deve ser revisada. É complexa a questão pastoral do matrimônio.
Em quatro meses de Pontificado, pode nos fazer um pequeno balanço e dizer o que foi o pior e o melhor de ser Papa? O que mais lhe surpreendeu neste período?
Não sei como responder isso, de verdade. Coisas ruins, ruins, não aconteceram. Coisas belas, sim. Por exemplo, o encontro com os bispos italianos, que foi tão bonito. Como bispo da capital da Itália, me senti em casa com eles. Uma coisa dolorosa foi a visita a Lampeduse [ilha que recebe imigrantes africanos], me fez chorar. Me fez bem. Quando chegam estes barcos, que os deixam a algumas milhas de distância da costa e eles têm de chegar (à costa) sozinhos, isso me dói porque penso que essas pessoas são vítimas do sistema sócio-econômico mundial.
Mas a coisa pior é o nervo ciático, é verdade, tive isso no primeiro mês. É verdade! Para uma entrevista, tive de me acomodar numa poltrona e isso me fez mal, era dolorosíssimo, não desejo isso a ninguém. O encontro com os seminaristas religiosos foi belíssimo. Também o encontro com os alunos do colégio jesuíta foi belíssimo. As pessoas, conheci tantas pessoas boas no Vaticano. Isso é verdade, eu faço justiça. Tantas pessoas boas, mas boas, boas, boas.
Tem a esperança de que esta viagem ao Brasil contribua para trazer de volta os fiéis? Os argentinos se perguntam: não sente falta de estar em Buenos Aires, pegar um ônibus?
Uma viagem do papa sempre faz bem. E creio que a viagem ao Brasil fará bem, não apenas a presença do Papa. Eles (os brasileiros) se mobilizaram e vão ajudar muito a igreja. Tantos fiéis que foram se sentem felizes. Acho que será positivo não só pela viagem, mas pela jornada, um evento maravilhoso. Buenos Aires, sim, sinto falta. Mas é uma saudade serena.
O que o senhor pretende fazer em relação ao monsenhor Ricca e como pretende enfrentar toda esta questão do lobby gay?
Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, a investigação prévia. E nessa investigação não tem nada do que o acusam. Não achamos nada. É a minha resposta.
Quero acrescentar uma coisa a mais sobre isso. Tenho visto que muitas vezes na igreja se buscam os pecados da juventude, por exemplo. E se publica.
Abuso de menores é diferente. Mas, se uma pessoa, seja laica ou padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o Senhor perdoa, o Senhor esquece.
E isso é importante para a nossa vida. Quando vamos confessar e nós dizemos que pecamos, o senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo.
O que é importante é uma teologia do pecado. Tantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E esse pecador foi transformado em Papa.
Vocês vêm muita coisa escrita sobre o lobby gay. Eu ainda não vi ninguém no Vaticano com um cartão de identidade dizendo que é gay. Dizem que há alguns. Acho que, quando alguém se vê com uma pessoa assim, devemos distinguir entre o fato de que uma pessoa é gay e formar um lobby gay, porque nem todos os lobbies são bons. Isso é o que é ruim.
Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-lo? O catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados por causa disso, mas integrados na sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é o lobby dessa tendência, da tendência de pessoas gananciosas: lobby político, de maçons, tantos lobbies. Esse é o pior problema.


Texto e entrevista a Fabiano Maisonnave, na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Filhas buscam redenção para mãe biológica escravizada


Filhas buscam redenção para mãe biológica escravizada
Por CAROL RYAN

DUBLIN - Samantha Long e sua irmã gêmea, Etta Thornton-Verma, nasceram em 1972 e foram adotadas aos nove meses. Elas decidiram localizar sua mãe biológica em meados dos anos 1990. "Nada nos preparou para o que descobrimos", disse Thornton-Verma, que vive em Nova York.
Em 1995, elas encontraram a mãe, Margaret Bullen, na lavanderia da Sean MacDermott Street -uma das famosas "lavanderias de Madalena", ou casas de trabalho para garotas na Irlanda,- onde ela havia labutado desde 1967, seis dias por semana, sem receber pagamento. "Ela só tinha 42 anos, mas estávamos olhando para o rosto de uma aposentada", disse Long. "Era trabalho duro, alimentação ruim e trabalho forçado."
Long estava entre os presentes no Parlamento irlandês no dia 5 de fevereiro, quando o governo divulgou um relatório de mil páginas que concluiu que houve um "significativo envolvimento do Estado" no encarceramento de milhares de mulheres e meninas em um sistema de trabalho escravo que perdurou até 1996.
Ela e sua irmã estavam entre os que se decepcionaram quando o primeiro-ministro irlandês, Enda Kenny, deixou de fazer um pedido de desculpas oficial pela atuação do Estado nesses locais.
As gêmeas descobriram que sua mãe havia passado a infância em instituições do Estado e foi transferida para uma das "lavanderias de Madalena" na adolescência. Ela engravidou duas vezes enquanto esteve sob os cuidados da ordem religiosa que dirigia o local. Conversas com a mãe levaram as filhas a acreditar que elas foram concebidas em um ato de abuso sexual. Tanto as gêmeas como outra garota nascida quatro anos depois foram tiradas de Bullen.
Bullen morreu em 2003 de síndrome de Goodpasture, uma doença associada à exposição a substâncias tóxicas usadas em lavanderias.
As "lavanderias de Madalena" eram uma rede de dez instituições dirigidas por quatro ordens religiosas. Elas foram usadas para deter mulheres consideradas desgarradas em um país profundamente católico e conservador, muitas vezes entregues pelas próprias famílias.
O relatório descobriu que um quarto das mulheres eram enviadas para lá pelo Estado. As lavanderias funcionavam como um sistema carcerário paralelo, ao qual os tribunais irlandeses costumavam enviar mulheres que recebiam penas leves por pequenos crimes.
Calcula-se que apenas mil das 10.012 jovens que, segundo o relatório, passaram pelas lavanderias estejam vivas. Existe um amplo apoio do público a seus pedidos de retratação oficial e de indenização. A declaração de Kenny deixou claro que elas terão que esperar o Parlamento discutir o relatório antes de tomar qualquer medida.


Texto do The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo, de 18 de fevereiro de 2013.