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domingo, 10 de abril de 2022

Banditismo evangélico corrói na surdina instituições republicanas


Eis que a farsa já pode receber o nome de fraude, de banditismo. Banditismo evangélico. Eis que escrevo aqui cheia de raiva desses evangélicos —é que minha mãe, à espera da morte neste exato momento, na inconsciência ou semiconsciência, em um leito de hospital, está muito provavelmente tentando se comunicar com o Deus dela, o Deus do embuste cristão-evangélico.

Até mesmo ela, criada nos bancos duros da Assembleia de Deus desde criança, até ela reconhecia há tempos que a promessa evangélica de paraíso carrega uma nódoa de falsidade, indecência, exploração e trapaça —desiludida com a Assembleia, mudou-se para a Metodista e depois para a Batista. Passou a criticar todas elas. Recolheu-se na sua própria fé octogenária, na sua própria Bíblia, na sua própria harpa de hinos, enfurnada em casa durante a pandemia.

Eis que, enquanto ela aguarda senão pelo Deus que a leve embora desse mundo que já lhe era insuportável, enquanto repousa num leito fatal e frio, eis que minha raiva se avoluma, num velório que não contará com nenhum desses falsários pastores evangélicos. Penso em proibir a presença deles, pois se até minha mãe já percebia a aberração em que se transformou o ethos das igrejas evangélicas no Brasil.

Agora mesmo essas igrejas, que já vinham tão desmoralizadas pela prática de coerção de seus fiéis por dinheiro (antigamente chamado dízimo), em troca da falsa promessa de felicidade em outro mundo, essas igrejas amargariam a derrocada final se o país tivesse governo, regramento e Justiça decente.

Que nada. O banditismo grassa de norte a sul, faz negócios no balcão da promiscuidade entre política e religião evangélica. A recente revelação de que o demitido ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, fazia tráfico de influência com recursos públicos da pasta já não seria o bastante para indiciá-lo por crime? Indiciar a ele e a seu superior imediato, o fascista Jair Bolsonaro.

O tráfico, segundo o tal pastor, atendia a solicitação direta de Bolsonaro. "Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim", disse Ribeiro sobre a prática espúria.

O tráfico consistia em intermediar, na base da propina em dinheiro ou barras de outro, liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) para municípios por meio de representantes evangélicos, numa rede de negociatas liderada por dois pastores da Assembleia de Deus, Gilmar Santos e Arilton Moura.

Crime de tráfico de influência está no Código Penal, no artigo 332: "Solicitar, exigir, cobrar ou obter, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vantagem, a pretexto de influir em ato praticado por funcionário público no exercício da função".

Sobre a pena que pune esse crime, o mesmo artigo diz: "Reclusão, de dois a cinco anos, e multa. Parágrafo único. A pena é aumentada da metade, se o agente alega ou insinua que a vantagem é também destinada ao funcionário".

O banditismo evangélico vai corroendo na surdina as instituições republicanas, cagando em cima de uma Constituição supostamente laica. Ora, o ethos político e o ethos moral são diferentes, ressaltam os estudiosos do tema, "e não há fraqueza política maior do que o moralismo que mascara a lógica real do poder". Mascarados, criminosos, bandidos. Pois esses moralistas, esses fascistas vestidos de pastores serão vetados!

Enquanto minha mãe se põe a morrer, toda pequena, encolhida e ainda crente, lá no seu leito final, minha raiva se avoluma como uma onda —consigo inclusive ouvir o mar se derramando na praia de Boa Viagem, Recife, eu sentada ao lado dela no culto enfadonho da Assembleia de Deus do bairro. Por vezes os pastores gritavam alucinados lá no púlpito, incorporando algum espírito ou bebendo o sangue de Cristo, diziam, assustando as criancinhas como eu. Um inferno. Falsários, criminosos.

Mas minha mãe cantava lindamente, à capela, muito afinada, entre as pregações e orações da liturgia aterradora. Eu admirava aquela mulher que sabia de cor os hinos, única hora em que a p*a do culto valia a pena, em que o sofrimento dela parecia se dissipar.

Tentou de tudo para que os filhos se convertessem ao credo dela. Não conseguiu. Mas não lamentava —sabia, decepcionada, da fraude, do crime. Espero que ela suba aos céus dela cantando um hino.

Não oro, não rezo, não acredito em nada. Deus para mim tem outro nome: "Propofol", alívio, esquecimento, anestesia contra a dor desse mundo brutal. Hoje derramam-se por aqui apenas essas lágrimas do mar triste do meu coração, do mesmo sal da antiquíssima Boa Viagem.

Perder mãe é ver perder-se um pouco de todo o resto. Naquela infância evangélica, ao menos um pai ateu nos esperava em casa, fazia o contraponto. Amém.


Texto de Marilene Felinto, na Folha de São Paulo

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Igreja atrai rebanho jovem e urbano


Igreja atrai rebanho jovem e urbano

Por MICHAEL PAULSON

LOS ANGELES - Um australiano musculoso e bronzeado, de 32 anos, com a palavra "faith" ("fé") tatuadas no bíceps, caminhou até o palco de um antigo teatro burlesco e gritou para o mar de braços esticados e celulares erguidos: "Vamos conquistar esta cidade juntos!".
Jovem, diversificada e devota de Jesus, a plateia do Belasco Theater havia saído de toda a cidade, e de todo o país, com a intenção de ajudar uma megaigreja pentecostal australiana a estabelecer seu primeiro posto avançado na Costa Oeste dos Estados Unidos, como parte do seu avanço mundial.
A igreja Hillsong tornou-se um fenômeno aproveitando -e inclusive moldando- as tendências de crescimento do cristianismo evangélico e da cultura jovem cristã. Seu sucesso já seria bastante incomum numa época em que as religiões estão em baixa na Europa e na América do Norte, onde o laicismo prevalece. Mas a Hillsong é surpreendente por ter como público-alvo os cristãos das grandes cidades, onde a fé parece fora de moda, e ainda assim ter seus cultos lotados.
Energizada por uma próspera e lucrativa gravadora que domina a música gospel contemporânea, a Hillsong tem uma vasta abrangência -segundo estimativas, contabiliza 100 mil pessoas nos seus templos a cada fim de semana, 10 milhões de seguidores nas redes sociais e 16 milhões de álbuns vendidos, com músicas bombando em igrejas do Uzbequistão a Papua-Nova Guiné.
Fundada há 30 anos, a Hillsong tem templos em Amsterdã, Barcelona, Berlim, Cidade do Cabo, Copenhague, Kiev, Londres, Nova York, Paris, Estocolmo, Austrália e, agora, Los Angeles.
"Sem dúvida alguma, são os produtores mais influentes de músicas de louvor", disse Fred Markert, líder no Colorado da organização cristã Jovens Com Uma Missão. Mas seus críticos, e há muitos, ridicularizam a Hillsong, tachando-a de cristianismo para hipsters, sugerindo que sua teologia é rasa, que seu entusiasmo por celebridades é inapropriado (Justin Bieber está entre seus fãs) e que suas posturas (oposição ao aborto e uma posição obscura sobre a homossexualidade) são opacas. "O que diferencia a Hillsong é a minimização do real conteúdo do Evangelho e uma apresentação bem mais difusa da espiritualidade", disse R. Albert Mohler Jr., do Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, Kentucky.
Para jovens cristãos em cidades onde a Hillsong possui templos, a entidade tornou-se um ímã, combinando a produção de um show de rock, a energia de uma casa noturna e a comunhão de uma megaigreja. Muitos fiéis se dizem atraídos pela música, mas ficam nos cultos para manter contato com outros jovens cristãos e porque acreditam que as igrejas podem ajudar a transformar as cidades por meio da oração e dos serviços sociais.
"Quero fazer parte de algo maior do que eu", disse Tricia Hidalgo, 29, que contou ter ouvido pela primeira vez as músicas da Hillsong na igreja que frequentava quando criança em Ontario, na Califórnia, e que largou o curso de magistério para se mudar para a Austrália e frequentar a escola bíblica da Hillsong.
Agora, Hidalgo é voluntária na igreja de Los Angeles.
A Hillsong é exemplo de um fenômeno crescente no cristianismo global: grandes igrejas com "marcas" fortes, dominando metrópoles laicas.
"Historicamente os evangélicos eram pessoas do campo, e as cidades eram os lugares onde morava o pecado", disse Ed Stetzer, do instituto LifeWay Research, de Nashville, que estuda práticas cristãs nos Estados Unidos. "Mas as cidades também são os lugares onde as pessoas estão."
A Hillsong, fundada por Brian Houston e sua mulher, Bobbie, é antiaborto e considera pecaminosas as relações sexuais entre gays. Mas, recentemente, seus líderes moderaram o tom.
Nos EUA, a Hillsong é uma igreja independente. Na Austrália, está associada às Igrejas Cristãs Australianas, que por sua vez são afiliadas às Assembleias de Deus. Por um período, Houston comandou a denominação.
Em 2000, Brian demitiu seu pai, Frank Houston, que estava colaborando com outra igreja, depois que Frank admitiu ter molestado um garoto décadas antes. Um dos filhos de Brian, Joel, é diretor de criação da Hillsong e pastor na filial de Nova York. Outro filho, Ben, é o pastor da Hillsong em Los Angeles -é ele que tem a palavra "fé" tatuada no braço.
Os cultos são normalmente realizados em casas de show com pouca luz. Há filas para entrar. Tom Wagner, um etnomusicólogo da Universidade de Edimburgo, disse que a música da Hillsong se caracteriza por uma orquestração rica, mas com harmonias simples.
"Eles são muito bons em compor músicas que pegam", disse. "Sabem o que funciona."


Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Líderes evangélicos saem em defesa de Israel e criticam Dilma


condenação do governo Dilma Rousseff à ação militar israelense em Gazagerou forte reação contrária de líderes evangélicos brasileiros, expondo os crescentes laços entre igrejas protestantes e o governo de Israel.
A mobilização evangélica teve início em 23 de julho, quando o governo federal divulgou uma nota condenando os ataques israelenses em Gaza e convocando o embaixador brasileiro em Tel Aviv para consultas.
No dia seguinte, cerca de 80 pessoas – em sua maioria evangélicos – foram ao Ministério de Relações Exteriores protestar contra a decisão.
Uma das organizadoras do ato, a pastora Jane Silva – que preside a Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios e a Comunidade Brasil-Israel – diz que líderes evangélicos de vários Estados e de diferentes igrejas compareceram à manifestação.
Com o apoio do deputado federal Lincoln Portela (PR-MG), um dos principais nomes da bancada evangélica no Congresso, Silva marcou uma audiência no Itamaraty para expressar a insatisfação do grupo. Eles foram recebidos pelo embaixador Paulo Cordeiro, subsecretário-geral do órgão para África e Oriente Médio.
"Ficamos ofendidos e magoados com a postura do governo brasileiro, que para nós não condiz com a posição da população cristã brasileira em relação ao conflito", diz a pastora à BBC Brasil.
"Quando o governo fala mal de Israel, fala mal de nosso Jesus. E Israel tem o direito de se defender e de existir."
O grupo entregou ao embaixador um manifesto em que critica o governo brasileiro por, entre outros pontos, ter condenado os ataques de Israel mas não ter censurado as ações do grupo Hamas, que controla Gaza.
"Nós amamos o povo palestino e temos orado pelas mães palestinas, os idosos, crianças, mas não aprovamos o terrorismo."
Após deixar o Itamaraty, o grupo foi recebido na embaixada de Israel. Também participaram do protesto alguns membros da comunidade judaica de Brasília.
Presente no ato, a psicóloga judia Kelita Cohen diz que o apoio dos evangélicos "foi mais uma ação política do que de devoção religiosa". "As comunidades cristãs partilham com a comunidade judaica da opinião de que a atitude do governo brasileiro não foi coerente."

Passagem bíblica

No Amazonas, houve outro protesto em defesa de Israel organizado por evangélicos – este, liderado pelo apóstolo René Terra-Nova, fundador do Ministério Internacional da Restauração. Segundo organizadores, a manifestação reuniu 30 mil pessoas.
E em seu programa de TV no último sábado, o pastor Silas Malafaia, principal líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, também tratou do tema.
Ao se referir à posição do governo brasileiro quanto aos ataques israelenses, Malafaia citou uma passagem bíblica segundo a qual "a nação que amaldiçoa Israel também é amaldiçoada".
Dizendo precisar "dar algumas dicas (sobre o conflito) para o povo de Deus", ele afirmou no programa que os atos de Israel são "a reação de um estado soberano sendo atacado por terroristas".
Na semana passada, a pomposa inauguração em São Paulo do Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, também deu mostras da crescente aproximação entre grupos evangélicos brasileiros e Israel.
No caso da Universal, a aproximação também se dá com o Judaísmo: na cerimônia, bispos da Universal vestiam quipá e talit, acessórios tradicionais judaicos, e o hino de Israel foi executado. Do lado de fora do templo, foram hasteadas as bandeiras da Universal, do Brasil e de Israel.
A BBC Brasil perguntou à Universal qual sua posição em relação às ações israelenses em Gaza, mas não obteve resposta.

'Soft power' religioso

O crescente alinhamento entre líderes evangélicos e Israel não é fenômeno exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, país que abriga a maior população protestante do mundo, os Sionistas Cristãos – como são conhecidos os evangélicos pró-Israel – exercem importante influência política.
Para estreitar os laços com o grupo, o governo israelense estimula visitas de grupos evangélicos à Terra Santa.
Em 2013, uma reportagem do Christian Science Monitor, uma das principais publicações mundiais sobre religiões, descreveu os bastidores de um evento anual organizado pelo governo israelense para homenagear líderes protestantes.
No encontro, o prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, disse aos presentes: "Vocês aqui são o melhor ataque e a melhor defesa que poderíamos ter (…). Aproveitem a cidade de Jerusalém (…) e voltem para casa como fortes embaixadores do Estado de Israel e da cidade de Jerusalém".
A reportagem diz que, após se consolidar nos Estados Unidos, o movimento evangélico pró-Israel agora ganha força em países emergentes com crescente população protestante, como Brasil e Nigéria.

Peregrinações em risco

Para a pastora Jane Silva, caso o Brasil atenda grupos que pedem o rompimento das relações diplomáticas com Israel, os maiores prejudicados seriam fiéis brasileiros. "O governo estaria punindo os próprios brasileiros", diz a pastora.
Segundo ela, muitos brasileiros visitam a Terra Santa todos os anos. "Só lá podemos ver o túmulo onde Jesus foi sepultado, onde ressuscitou, caminhar pelas ruas pavimentadas de milagres. Quando voltamos, logo começamos a programar a próxima visita."

Reprodução da BBC Brasil no UOL.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Na África, fé evangélica parece ser mais forte

Alguns meses atrás, em uma noite quente de sexta-feira em Acra, Gana, encontrei-me em uma sessão de orações que dura a noite inteira com uma igreja evangélica carismática. A oração ao longo da noite tornou-se extremamente popular na cidade, o que de certa forma perturba os que são contrários ao barulho noturno, equiparável ao de uma festa de fraternidade estudantil nos EUA.
Mas os frequentadores adoram essas orações, porque o período prolongado lhes permite rezar de modo mais intenso do que em apenas duas horas no serviço dominical. Nesta noite de sexta-feira, o foco de nossas orações era uma história do Livro de Atos dos Apóstolos.
O apóstolo Paulo, chegando a uma ilha em sua viagem para difundir o Evangelho, apanhou um pouco de lenha para fazer uma fogueira e uma serpente assustada picou sua mão. Quando os habitantes da ilha viram a cobra agarrada a sua mão, pensaram que ele morreria. Mas Paulo livrou-se da cobra e sobreviveu. O pastor aplicou a Escritura a nossas vidas: "Diga não em voz alta!", ele gritou. "Toda cobra que agarrar minha mão, meu casamento, minha carreira, meu destino, eu a sacudo. Eu a sacudo!" As 200 pessoas ao meu redor saltavam e balançavam as cabeças furiosamente, sacudindo cobras invisíveis no ar.
Estar na África é encontrar um Deus diferente do de uma igreja carismática nos EUA. As pessoas dizem que aqui o limite entre o sobrenatural e o natural é mais tênue. Certamente, a religião está em toda parte --e parece haver igrejas e cartazes de igrejas em todas as ruas-- e há poucos ateus. Os evangélicos americanos costumam dizer que a fé é mais intensa na África. Há certa verdade nisso. Comparada com a cristandade de Gana, a cristandade americana pode parecer pão molhado.
Não é apenas a intensidade que parece diferente. Nessas igrejas, a oração é arma de guerra. As novas igrejas cristãs carismáticas em Acra imaginam um mundo cheio de forças malignas que atacam seu corpo, sua família e seus meios de ganhar a vida.
J. Kwabena Asamoah-Gyadu, um professor no Seminário Teológico da Trindade em Legon, Gana, afirma que essas igrejas se espalharam tão rapidamente porque a religião tradicional africana imagina um mundo cheio de espíritos escuros dos quais as pessoas devem se proteger, e essas novas igrejas levam esse mal a sério, de uma maneira que muitos missionários cristãos primitivos não faziam. De fato, estive em um serviço cristão em Acra no qual milhares de pessoas gritavam: "Os feiticeiros vão morrer! Eles vão morrer! Morrer! Morrer!", enquanto o pastor rugia: "Esta é uma zona de guerra!"
Embora isso pareça muito diferente da cristandade evangélica americana com seus tons brandos, que enfatiza a graça divina mais que o julgamento, a guerra espiritual está profundamente inserida na tradição evangélica. O renascimento carismático depois dos anos 1960 nos EUA, às vezes chamado de "Terceira Onda" do cristianismo (o pentecostalismo clássico foi a primeira e o catolicismo carismático, a segunda), introduziu a ideia de que todos os cristãos interagem com forças sobrenaturais diariamente. Isso inclui os demônios.
Na verdade, encontrei livros americanos tratando de demônios em todas as livrarias das igrejas carismáticas africanas que visitei. Em uma igreja onde parei para olhar a prateleira de manuais contra o demônio, uma atendente inclinou-se para me mostrar um. Ela escolheu um americano. "Aqui está", disse ao me entregar "Free at Last" [Finalmente livre], de Larry Huch. "Este é bom."
Em muitas igrejas evangélicas americanas as pessoas lhe dirão que os demônios são reais, mas elas não os consideram especialmente importantes. Demônios não aparecem nos sermões das manhãs de domingo, e a maioria das pessoas não reza sobre opressão demoníaca. Seus encontros com o mau sobrenatural eram como as histórias de fantasmas que eu ouvia no acampamento de verão: mais excitantes que aterrorizantes.
Um homem me falou sobre um anjo que o protegeu expulsando o diabo: "Quando eu me virei totalmente, exatamente ali, a mulher, o veículo, as luzes brilhando, tinham desaparecido. Sumiram. Mas à luz dos meus freios eu vi o sujeito correndo morro acima".
Mas nem sempre. Uma pesquisa de 2012 descobriu que 57% dos americanos acreditam em possessão demoníaca. É improvável que seja divertido para todos eles.
Uma maneira de pensar em demônios (se você não acreditar no mal sobrenatural) é que eles são uma maneira de representar o ódio humano, a raiva e o fracasso, coisas que todos decidimos exorcizar em nossas resoluções de Ano Novo. O antropólogo Gananath Obeyesekere, que cresceu no Sri Lanka, fez doutorado na Universidade de Washington e acabou contratado por Princeton, comentou certa vez que todos os humanos lidam com demônios. (Ele estava citando "Os Irmãos Karamazov", de Dostoievski: "Em cada homem, é claro, há um demônio escondido".) A única questão, disse ele, é se os demônios estão localizados na mente, onde Freud os colocou, ou no mundo. É possível que identificar seu inimigo como externo e exótico torne mais fácil lutar contra ele.
Mas também é verdade que um agente externo lhe dá algo --e muitas vezes alguém-- para identificar como não humano. Na África Ocidental, os feiticeiros são pessoas, e às vezes outras pessoas os matam ou os expulsam de suas casas.
Em uma pesquisa realizada em abril pela Public Policy Polling, mais de um em cada dez americanos tinha certeza de que Barack Obama é o Anticristo --e o Anticristo, como se sabe, é associado à guerra no Oriente Médio. Se essas pessoas pensam que os demônios são reais, elas não querem dizer que Obama esteja desorientado, confuso ou enganado. Elas acreditam que ele é o mal real, inumano.
Esse é um pensamento terrível.

Texto de T. M. Luhrmann para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

(T. M. Luhrmann é editorialista colaborador, professor de antropologia em Stanford e autor de "When God Talks Back: Understanding the American Evangelical Relationship With God" [Quando os deuses respondem: compreendendo o relacionamento dos evangélicos americanos com Deus].)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Londres proíbe anúncio que oferece 'cura para gays'


Londres proíbe anúncio que oferece 'cura para gays'

Autoridades afirmam que campanha não refletia uma Londres 'tolerante e inclusiva'.


As autoridades de transporte de Londres proibiram um anúncio veiculado nos ônibus da cidade que sugeria que gays poderiam ser curados.
A campanha, uma paródia de uma iniciativa do grupo pró-gay Stonewall ('Algumas pessoas são gays. Aceite isso'), afirma que terapias poderiam mudar a orientação sexual.
Com o enunciado 'Não gay! Pós-gay, ex-gay e orgulhoso. Aceite isso!', a campanha seria veiculada nos ônibus na próxima semana.
Mas a autoridade de transporte londrina, Transport for London (TfL), baniu o anúncio após reclamações.
'Tolerante e inclusiva'
A Core Issues Trust, grupo cristão que está por trás da campanha banida, afirmou que a decisão constitui censura. O TFL, no entanto, argumentou que os anúncios não refletiam uma Londres 'tolerante e inclusiva'.
'Os anúncios não estão nem estarão em qualquer dos ônibus da cidade', disse um porta-voz da autoridade.
Desde abril, 1.000 ônibus londrinos exibem os anúncios promovendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a campanha 'Algumas pessoas são gays. Aceite isso'.
Já os pôsteres bancados pela entidade cristã Anglican Mainstream e contratados junto às empresas de ônibus pelo grupo cristão Core Issues seriam veiculados em cinco rotas centrais de ônibus, incluindo destinos altamente turísticos e centrais como a Catedral de St Paul, Oxford Street, Trafalgar Square e Piccadilly Circus.
'Canais corretos'
O porta-voz da Stonewall, Andy Wasley, ressaltou que 'não há anúncios promovendo vudu para curar gays em Londres', em uma crítica às entidades cristãs.
O prefeito Boris Johnson afirmou: 'É claramente ofensivo sugerir que ser gay é uma doença da qual as pessoas se recuperam e não estou disposto a ver isso circulando nos ônibus da cidade'.
Já o co-diretor da Core Issues Mike Davidson afirmou não ter se dado conta de que a censura estava em vigor na capital. 'Usamos todos os canais corretos e fomos aconselhados pelas empresas de ônibus a seguir seus procedimentos. Eles nos deram OK e, agora, vetaram'.

Notícia vista no G1