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sábado, 24 de maio de 2014

Países da UE fecham cerco a imigrantes de dentro do bloco

Países da UE fecham cerco a imigrantes de dentro do bloco
Suíça, que não faz parte do grupo, também aprovou medidas para diminuir fluxo de cidadãos europeus
Imigração é um tema central nas eleições do Parlamento Europeu, cujo resultado deve ser conhecido no domingo
LUISA BELCHIORCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA EM MADRI

O estudante espanhol Ignacio Navarro, 23, pesquisava vagas de trabalho em Genebra. Desistiu quando os suíços aprovaram, em referendo, restringir vistos de trabalho para europeus.
Já o administrador Hugo Sánchez, de Valencia, voltou de Londres, após oito meses limpando quartos de hotéis, devido aos benefícios cortados para cidadãos da União Europeia. "Nunca imaginei ser visto desde a perspectiva de um imigrante ilegal", diz Sánchez.
A preocupação com a imigração na UE já não ultrapassa os limites do bloco. Como nos casos suíço e inglês, governos e partidos europeus têm tentado limitar a entrada de cidadãos do próprio bloco, onde a diferença de renda entre países do sul e do norte cresceu com a crise.
A imigração é um dos principais temas das eleições para o Parlamento Europeu, cujo resultado deve ser conhecido neste domingo (25). A expectativa é que partidos nacionalistas, com discurso anti-imigratório, terão desempenho expressivo em vários dos 28 países-membros.
Antes mesmo do polêmico referendo na Suíça, no qual uma apertada maioria de 50,3% votou pela restrição de trabalho aos europeus, o governo do Reino Unido já havia anunciado, sem consulta popular, plano para limitar a 75 mil os vistos de residência concedidos a cidadãos do bloco a que pertence. O mesmo querem fazer deputados da Bavária, na Alemanha.
Até a Espanha, o único país do bloco a abrir voluntariamente as portas a cidadãos romenos em 2008, voltou atrás e, em 2011, deixou de emitir vistos a eles.
Desde janeiro deste ano, romenos e búlgaros passaram a ter as portas abertas dentro da União Europeia, como parte do acordo dos países para integrar o bloco.
Ambas as nacionalidades foram o foco da proposta aprovada pelos suíços, que se estende aos demais europeus. Embora a Suíça não faça parte da UE, seu governo negociava com o bloco a livre circulação de pessoas.
"Não somos contra nenhum país específico, é apenas o número de imigrantes que já não é tolerável na Suíça. Nosso país tem 100 mil novos trabalhadores a cada ano. O que queremos é regular e, como país independente da UE, queremos ter o direito de fazer isso", disse à Folha o deputado e vice-presidente do Partido Popular suíço, Luzi Stamm, um dos autores da proposta.
Mas até dentro dos limites do bloco as restrições já se traduzem em cartas de expulsão a europeus. Em 2013, cerca de 2.700 cidadãos da UE, a maioria espanhóis, romenos e búlgaros, receberam do governo da Bélgica avisos de que deveriam deixar o país onde estavam vivendo, segundo o próprio governo.
Os belgas se apoiam em uma diretiva da UE, de 2004, segundo a qual "pessoas exercendo seu direito de residência não devem, contudo, tornar-se uma carga não razoável ao sistema de assistência social do Estado membro de acolhida durante período inicial de residência".
Após três meses, os países podem fixar condições para o direito à residência de cidadãos do bloco. Quem não estiver trabalhando há seis meses deve comprovar meios financeiros de se manter.


Reprodução da Folha de São Paulo

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Muros para impedir imigração nas fronteiras agora ferem e matam


Novos rolos de arame farpado estão no alto da cerca ao redor de Melilla, um dos dois territórios espanhóis na costa mediterrânea do norte da África. Juntamente com Ceuta, os enclaves compartilham a única fronteira terrestre da União Europeia com a África e são alvo de imigrantes desesperados para chegar à Europa. A Espanha há muito mantém um sistema de cerca de alta tecnologia ao redor dos enclaves, em uma tentativa de afastar os imigrantes, mas tinha removido o arame farpado no alto da cerca de Melilla em 2007, após causar sérios ferimentos naqueles que tentavam pulá-la.

Em novembro do ano passado, entretanto, em resposta aos crescentes ataques de imigrantes à cerca, as autoridades espanholas devolveram o arame farpado. A decisão enfureceu ativistas de direitos humanos e líderes religiosos por toda a Europa. Em uma carta ao ministro do Interior espanhol, o bispo Santiago Agrelo Martinez escreveu: "arame farpado com lâminas nas cercas em Ceuta e Melilla é um ataque à integridade física dos imigrantes: as lâminas cortam, ferem, mutilam...". O bispo apreciou a responsabilidade do governo espanhol de proteger as fronteiras do país, mas expôs o fato de que "lâminas causam apenas dor e morte".

O reforço da cerca ao redor de Melilla é apenas um exemplo do "boom" de construção de muros de fronteira. Segundo Reece Jones, um geógrafo da Universidade do Havaí, quase 30 novas barreiras de fronteira foram erguidas em todo o mundo desde 1998. Há novas cercas na fronteira dos Estados Unidos com o México e ao longo da fronteira da Grécia com a Turquia. A Índia ergueu barreiras em suas fronteiras tanto com o Paquistão quanto com Bangladesh. Israel construiu um muro ao redor da Palestina e completou recentemente uma cerca ao longo de sua fronteira com o Egito.

Por meio da tecnologia, barreiras ao comércio, viagem e comunicação continuam caindo, mas nosso mundo nunca esteve tão fisicamente dividido por geometrias de tijolos, arame farpado e aço. As ramificações políticas e econômicas dos muros são discutidas com frequência e bem entendidas. Assim como o trauma psicológico sofrido por aqueles que vivem à sombra dos muros. Em 1973, um psiquiatra alemão-oriental até mesmo cunhou um termo para a desordem: Mauerkrankheit, ou Doença do Muro.

Mas as objeções do bispo Santiago ao arame farpado recolocado em Melilla revelam algo ainda mais horrível: em uma tentativa de controlar nossas fronteiras, nós projetamos sistemas que ferem fisicamente aqueles que as desafiam. Os muros agem na carne.

Em janeiro de 2011, a cerca ao longo da fronteira da Índia e Bangladesh matou Felani Khatun, 15. O pai de Felani, Nurul Islam, arranjou o casamento dela com seu primo bengalês. Na manhã do casamento, Nurul pagou a dois contrabandistas de gado para que ajudassem ele e Felani a escalarem a cerca para Bangladesh, para que pudessem ir à aldeia onde o noivo estava esperando. Felani subiu a cerca com uma escada de bambu fornecida pelos contrabandistas, mas quando sua saia azul ficou presa no arame farpado, ela entrou em pânico e começou a gritar. O barulho alertou os soldados de fronteira indianos, que começaram a disparar seus fuzis na direção da cerca.

Uma bala perfurou o peito de Felani e ela ficou pendurada, mortalmente ferida, no arame farpado. Ela implorou por água por meia hora antes de finalmente sangrar até a morte. Felani ficou pendurada de cabeça para baixo, um símbolo fúnebre preso no arame, até o sol matinal dispersar a neblina e os soldados de fronteira a retirarem. Eles amarraram as mãos e pés dela a uma vara de bambu e a transportaram como um animal abatido.

O arame farpado também promove uma caligrafia cruel ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas aqueles que tentam atravessá-la têm muito mais a temer do que apenas a violência do arame farpado. Os atendentes do Centro Médico da Universidade do Arizona tratam cerca de 40 imigrantes por ano por ossos fraturados e ferimentos na coluna sofridos por quedas dos muros de fronteira. Também há ferimentos de bala. Segundo uma investigação de 2013 pelo jornal "The Arizona Republic", os agentes de patrulha da fronteira americana já mataram 42 pessoas desde 2005. Algumas, como o adolescente José Antonio Elena Rodríguez, foram mortas no lado sul da fronteira por agentes americanos disparando pelo muro na direção do México.

Imigrantes do sexo feminino correm o risco de violência mais íntima. Os ativistas de fronteira falam sobre as "árvores de estupro" na áreas de fronteira do Arizona e Califórnia, onde os contrabandistas de pessoas, muitos ligados aos cartéis do narcotráfico mexicanos, fazem uma pausa em sua jornada para estuprar as mulheres que transportam. Quando terminam, os estupradores penduram os sutiãs e calcinhas de suas vítimas nos galhos como uma recordação mórbida de suas conquistas.

Aqueles que são autorizados a passar pelos muros acabam tendo que oferecer sua carne de um jeito ou de outro. Os trabalhadores palestinos pressionam seus corpos pelos corredores de aço e catracas toda manhã para chegarem aos seus empregos em Israel. Em outras partes da Cisjordânia, os agricultores levantam suas camisas diante dos jovens soldados israelenses antes de receberem permissão para trabalhar em seus próprios campos – suas barrigas expostas como prova de que não estão carregando bombas. Mesmo quando os muros não causam dor física, eles exigem ao menos alguma humilhação.

Em 1876, um vendedor de arame farpado, John Gates, prendeu algumas poucas cabeças de touro ferozes dentro de um curral de arame farpado na praça central de San Antonio. Reviel Netz escreve sobre a cena em seu livro "Barbed Wire: An Ecology of Modernity". Gates provocou deliberadamente os touros, que então investiram contra a cerca, apenas para serem repelidos pelas farpas que feriam suas carnes. "Os ferimentos exacerbavam a fúria deles", escreve Netz. Os touros continuaram se lançando contra o arame farpado até que a agonia deles levou a uma retirada instintiva e resignação. Finalmente, eles pararam de tentar atravessar a cerca.

O espetáculo sangrento provou que por meio da aplicação de dor, até mesmo a fera mais feroz pode aprender a respeitar uma fronteira. "Nossas peles", escreve Netz, "logo abaixo da superfície, contam com nervos especiais ativados por pressão acima de limiares muito baixos. É possível usar esses nervos contra nós. Cortando a fronteira de nossas peles, você pode proteger as fronteiras de sua propriedade, de sua prisão, de sua fronteira".

Nossos muros também fazem isso. Eles exploram a baixa tolerância de nossos corpos à dor. Sob os ideais elevados de segurança e soberania se encontra a triste verdade de que projetamos os muros para ferir as pessoas. Nós optamos por controlar o movimento por uma geografia sensível infligindo agonia à carne. Nós precisamos confrontar a desumanidade de como escolhemos defender nossas fronteiras e, como o bispo Santiago, ver a barbárie no arame farpado que desenrolamos.



Texto de Marcello Di Cintio, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradução: George El Khouri Andolfato

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Imigração mudou identidade sul-coreana


Imigração mudou identidade sul-coreana

Por CHOE SANG-HUN

SEUL, Coreia do Sul - Jasmine Lee percebe o quanto ela tornou-se coreana quando começa a falar a língua ao telefone com a mãe, que é filipina e não compreende uma palavra do que ela diz. Mas ela é lembrada dos limites da assimilação quando os coreanos, impressionados por sua fluência, comentam: "Você parece mais coreana do que os coreanos".
Lee, 35, que nasceu Jasmine Bacurnay nas Filipinas, virou notícia em abril quando se tornou a primeira cidadã naturalizada -e a primeira coreana não étnica- a conquistar um assento na Assembleia Nacional da Coreia do Sul. Sua eleição refletiu uma das mais significativas mudanças demográficas na história moderna do país. Uma mudança que, segundo ela, "os coreanos entendem com o cérebro, mas ainda precisam abraçar com o coração".
Apenas uma década atrás, os livros escolares ainda diziam para os sul-coreanos se orgulharem de ser etnicamente homogêneos. Se a população de origem estrangeira ainda é pequena, comparada com a de países com uma tradição imigratória, ela é suficiente para desafiar como os sul-coreanos veem a si mesmos.
"Está na hora de redefinir o coreano", disse Kim Yi-seon, pesquisador chefe de multiculturalismo no Instituto de Desenvolvimento das Mulheres Coreanas, financiado pelo governo. "Tradicionalmente, ser coreano significava ser alguém que nasceu na Coreia, de pais coreanos, que fala coreano e que tem uma aparência e uma nacionalidade coreanas. As pessoas não pensam que alguém é coreano só porque tem a cidadania coreana."
Entre os fatores que conduzem essa tendência, está a entrada de mulheres do Sudeste Asiático que vieram casar com agricultores sul-coreanos, que têm dificuldades para atrair mulheres coreanas dispostas a adotar a vida rural. O número de migrantes por casamento cresceu para 211 mil, no ano passado, contra 127 mil, em 2007. A maioria dos imigrantes é constituída por mulheres do Vietnã e de outros países asiáticos mais pobres.
Nas cidades industriais, rapazes de Bangladesh e do Paquistão desempenham funções recusadas pelos coreanos como sujas e perigosas. Eles oferecem a mão de obra barata que a economia sul-coreana, voltada para as exportações, precisa para competir com a China. O número desses trabalhadores mais que duplicou, de 260 mil, em 2007, para 553 mil, no ano passado -sem contar os que têm visto expirado e trabalham ilegalmente.
Um em cada dez casamentos na Coreia do Sul envolve um cônjuge estrangeiro. Embora o número total de escolares na Coreia do Sul esteja em declínio (de 7,7 milhões, em 2007, para 6,7 milhões, neste ano), em consequência de um dos menores índices de nascimentos do mundo, o número de estudantes multiétnicos vem crescendo cerca de 6.000 por ano.
"Uma sociedade cultural não está apenas chegando. Ela já está aqui", disse Lee, que é membro do partido Saenuri, no governo.
Mas, depois da eleição de Lee, ativistas anti-imigração advertiram que "ervas venenosas" do exterior estavam "corrompendo a linhagem coreana" e "exterminando a nação coreana". Eles pediram que os partidos políticos se "purifiquem" expulsando Lee da Assembleia Nacional.
O primeiro-ministro Kim Hwang-sik condenou esses surtos de xenofobia como "patológicos" e pediu que os sul-coreanos assumam a transição para uma sociedade multicultural "não como uma opção, mas como um imperativo".
Mas o próprio governo é acusado de promover a xenofobia, ao exigir que estrangeiros que chegam à Coreia do Sul para ensinar inglês passem por testes de HIV, enquanto não exige o mesmo de sul-coreanos nos mesmos empregos.
"Em 1995, as pessoas me adoravam por dizer 'Olá' e 'Obrigada' em coreano", disse Lee.
"Mas, por volta de 2000, as pessoas começaram a olhar para mim com suspeita. No ônibus, perguntavam: 'Por que você está aqui?'"
Lee acha que a Coreia do Sul ainda tem um longo caminho a percorrer. "Em um recente programa supostamente destinado a promover a harmonia multicultural, os organizadores dividiram os participantes em um ônibus para coreanos e outro para 'famílias multiculturais'", disse.
"Eu imagino uma sociedade que não precise de um rótulo como 'multicultural'."