Uma colagem de textos de terceiros que eu ache interessante. Este blog sucede as cópias de texto que eram feitas em Voltas em Torno do Umbigo e em Ainda a Mosca Azul. 11/01/2011.
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Para as famílias sem documentação, ansiedade e pobreza em Nova York
Sara Martinez nunca quis que suas duas filhas crescessem pobres e ansiosas em relação à vida da forma como ela cresceu no Equador. Mas foi o que aconteceu.
Martinez mora no Brooklyn, em Nova York, com sua filha mais nova, cidadã norte-americana que nasceu pouco tempo depois que ela, o marido, e a filha mais velha chegaram no país com vistos de turista, vindos do Equador em 2005. Martinez mais tarde mandou sua filha mais velha morar com amigos em outro Estado porque temia que a menina fosse descoberta pelas autoridades de imigração e deportada.
Martinez e o marido enfrentaram a deportação em 2011, depois de serem parados por um agente de patrulha de fronteira durante uma viagem da família a Rochester, Nova York. Enquanto suas filhas assistiam, chocadas, eles foram levados algemados e foram detidos por um dia antes de serem soltos. O casamento não sobreviveu, e ruiu sob o estresse contante de viver ilegalmente no país, disse Martinez.
Agora Martinez vive com a filha mais nova em um apartamento decadente de três quartos, com móveis de segunda mão que ganharam de amigos ou encontraram no Craigslist.
"Eu não tenho dinheiro, não tenho documentos, não tenho família, mas tenho minha fé e minha esperança de que algo vai mudar", disse Martinez, 50, enxugando as lágrimas durante uma entrevista em seu apartamento.
Ouvir a história de Martinez é se deparar exatamente com o tipo de dificuldades que o presidente Barack Obama pretende aliviar com as ações do executivo em relação à imigração, que dariam a muitos pais sem documentos - e cujos filhos são cidadãos ou residentes legais - a suspensão temporária da deportação, bem como vistos de trabalho, embora não confira o status de imigrante legal. O plano da Casa Branca também inclui alguns pais que chegaram com filhos ainda pequenos ao país.
A luta de Martinez para ficar no país contribuiu para separar sua família e ainda cobra um preço diário dela, uma vez que trabalha em uma igreja que não exige que ela apresente documentos, e ganha tão pouco que não consegue comprar roupas novas ou contratar um professor particular para sua filha, diz ela.
"Ela é exatamente o motivo pelo qual este país precisa de uma reforma na imigração", diz Jacqueline Esposito, advogada que defendeu Martinez e se tornou sua amiga. "Deveríamos eliminar os obstáculos de Sara, que tem muito a oferecer."
Há milhões de pais sem documentos como Martinez por todo o país, incluindo 250 mil a 350 mil no Estado de Nova York, de acordo com a Coalizão de Imigração de Nova York, uma organização de defesa de direitos.
"Não podemos mais esperar que o Congresso, que não faz nada, trate das necessidades de milhões de imigrantes que são essenciais para o tecido dos Estados Unidos", disse Steven Choi, diretor-executivo da coalizão. "Ao agir com determinação para implementar o alívio administrativo [como é chamado o programa do governo federal], o presidente demonstrará o enorme impacto positivo de dar às famílias imigrantes uma chance de viver sem medo, sair das sombras e contribuir para a economia de uma forma significativa."
Enquanto Martinez contava sua história, ela abraçou um retrato da senhora que a criou no Equador, uma vizinha que a adotou quando ela foi abandonada pela mãe aos três meses de idade. Martinez disse que não pôde ir ao enterro da senhora no Equador em 2012 porque temia não poder voltar mais para Nova York.
"Para nós, família é tudo", disse ela. "Às vezes, acho que não vale a pena, porque onde está minha família agora?" A filha mais nova de Martinez, que tem nove anos e está no quarto ano de uma escola pública, teme ter que se mudar para o Equador um dia. "Quero morar aqui porque conheço bem o lugar e tenho amigos", disse ela. "Se eu for para lá, não conheço ninguém."
Martinez pediu que o nome de suas filhas e ex-marido não fossem divulgados para proteger a privacidade deles.
Martinez cresceu em um casebre de um cômodo na cidade de Guayaquil, de frente para um rio. Ela acordava às 5h para entrar na fila do único banheiro, compartilhado com outras cinco famílias. Sua mãe adotiva trabalhava muitas horas por dia lavando roupas nas casas dos ricos para comprar os livros escolares para ela, e levava para casa restos de comida para alimentá-la.
Martinez estudou bastante, formou-se entre os melhores alunos da classe no segundo grau, e depois conseguiu um diploma universitário em administração de empresas. Ela trabalhou para uma madeireira por duas décadas, começando como secretária assistente e depois gerenciando o departamento de compras. Ela comprou uma casa de dois quartos e um banheiro para ela e sua mãe adotiva, e construiu mais um quarto quando se casou com um colega de trabalho, um contador, e sua primeira filha nasceu.
Quando ela tinha 40 anos, o marido, que havia perdido o emprego, disse que ia se mudar para o Brooklyn, onde seu irmão morava; ele tinha ouvido dizer que havia muitas oportunidades lá. Ela abandonou o emprego e foi com ele.
Eles se mudaram com o irmão do marido e ele conseguiu um emprego vendendo bijuteria. Ela disse que chorava constantemente, e chorou ainda mais quando descobriu que estava grávida. "Eu não sabia o que fazer", disse ela. "Se eu fosse embora, minhas filhas cresceriam sem o pai. Eu não queria que elas tivessem a vida que eu tive: sem amor, sem pai, na pobreza."
Martinez se matriculou em um curso de inglês em um centro de apoio à família. As assistentes sociais fizeram um chá de bebê para ela. À noite e nos fins de semana ela limpava casas, ganhando normalmente US$ 200 por semana ou menos. Foi o primeiro dos muitos empregos para os quais ela era muito qualificada.
Sua família entrou para uma igreja. O pastor os ajudou a alugar um apartamento próprio, servindo como fiador.
A nova vida saiu dos trilhos em 2011, depois de uma viagem a Rochester para visitar amigos no Natal. Quando Martinez e o marido tentaram entrar no ônibus para voltar para casa, um agente da patrulha de fronteira pediu para ver os documentos deles. Enquanto seu marido entrou em pânico, disse Martinez, ela falou a verdade. Começaram os procedimentos para deportação.
Martinez buscou ajuda com a Coalizão de Imigrantes de Nova York. Esposito, que então era diretora e advogada de imigração, disse que o grupo lutou para evitar que Martinez fosse deportada sob uma ordem do governo Obama que expandia o uso do arbítrio dos promotores nesses casos. Mas os apelos de Martinez foram rejeitados repetidamente, até que a representante Nydia M. Velázquez ligou para altas autoridades de imigração em sua defesa, disse Esposito. O caso de Martinez foi fechado.
"Tudo isso foi apenas uma decisão para não deportar Sara. Não para lhe dar qualquer chance de conseguir legalizar sua situação, basicamente deixando-a no limbo", explicou Esposito.
Desde então, Martinez disse que não pegou mais nenhum ônibus para a cidade por medo de ser parada novamente e ter seu caso reaberto. Seu ex-marido vai visitar a filha a cada duas semanas, mas ela não pergunta sobre a situação dele. O irmão dele foi deportado para o Equador há alguns anos, diz ela.
Sua filha mais nova teve depressão, e é pequena para a idade porque mal come, diz Martinez. A filha mais velha, hoje com 20 anos, ficou com muita raiva no início, mas prosperou em sua nova vida. Ela terminou o segundo grau e frequenta a faculdade em outro estado. "Ela está num lugar seguro", é tudo o que Martinez diz.
Reportagem de Winnie Wu, para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Eloise de Vylder.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Da esperança ao medo
Da esperança ao medo
Garota vive odisseia após falsas promessas
Por DAMIEN CAVE e FRANCES ROBLES
EL PARAÍSO, Guatemala - Meses atrás, traficantes de pessoas colocaram um anúncio na rádio em que perguntavam: "Você quer viver melhor? Venha comigo". Cecilia, uma menina irrequieta, estava louca para ir.
Seu padrasto tinha sido assassinado, forçando sua família a ir morar no casebre de uma tia, com apenas três camas para dez pessoas. Era tudo o que tinham -e o que o traficante de pessoas exigia. Ele ofereceu um empréstimo de US$ 7.000 para a jornada de Cecilia, tomando o imóvel como garantia. "Eu lhe dei a escritura original", disse Jacinta, sua tia, observando que o traficante deu um ano para eles pagarem a dívida, com juros.
A viagem durou quase um mês e transformou-se em sequestro. A liberdade só veio depois de um pagamento de mais US$ 1.000, feito enquanto os sequestradores brandiam uma arma junto à menina.
Agora em Miami, Cecilia, 16, é uma entre os mais de 50 mil menores desacompanhados que em menos de um ano chegaram ilegalmente aos Estados Unidos provenientes da América Central. Embora o número de recém-chegados venha diminuindo, o governo de Barack Obama se diz determinado a enfrentar o problema.
Mas será difícil desbaratar essas quadrilhas. Por trás da onda de jovens migrantes tentando a sorte no sonho americano, há um sistema capitalista cruel e desregulamentado, com capacidade comprovada de se adaptar. A indústria de tráfico humano na região movimenta bilhões de dólares, segundo especialistas, e tornou-se mais sofisticada do que nunca, empregando um crescente número de oportunistas que sequestram, estupram e roubam.
Milhares de migrantes são sequestrados e sofrem abusos ao atravessar o México. Outros, como Cecilia, são mantidos como reféns nos EUA.
Nebaj, município que inclui El Paraíso, fica nos confins do planalto da Guatemala. Esta é a terra dos ixil, indígenas maias famosos por tecerem saias vermelho-vivo -e por terem sido vítimas de uma campanha militar que matou milhares de pessoas durante a guerra civil da década de 1980 na Guatemala. A região há anos manda gente para o norte. Em aldeias de todo o município de Nebaj, são comuns histórias de terrenos perdidos para os coiotes e os bancos.
"Às vezes eu acho que o meu pai não estava pensando nas consequências de ir embora", disse Magdalena Raymundo, 25, em um barraco com chão de terra que divide com o marido, na zona rural de Nebaj. Ela e sua mãe devem cerca de US$ 13 mil a um banco por causa de uma viagem que seu pai e seu irmão empreenderam em 2006.
Jorge Gúzman, gerente de uma das duas agências do banco Banrural em Nebaj, disse que os empréstimos têm mais chances de serem aprovados se a família tiver um parente mandando dinheiro do México ou dos EUA. Os empréstimos deveriam servir para a construção ou para melhorias agrícolas, mas Gúzman admitiu que uma grande parte dos recursos é usada para pagar viagens para o norte.
O número de coiotes cresce, segundo muitos aqui, porque esse é o melhor trabalho na região. Uma viagem costuma render mais do que um ano de salário de um professor.
"Eles enxergaram uma oportunidade de negócio e convenceram pessoas na América Central de que, de alguma forma, as leis dos Estados Unidos permitiriam a permanência delas", disse Luis Fernando Carrera Castro, ministro de Relações Exteriores da Guatemala.
Cecilia, que não quis que o seu nome completo e o de seus parentes fossem divulgados, sabia que a viagem seria arriscada. Sua prima Ana, 21, já havia tentado duas vezes e foi deportada em ambas. Mas Cecilia acreditou nas promessas de um traficante. "Eu pensei que, quando chegasse aos EUA, iriam me dar documentos -o coiote disse isso", contou ela.
Então, numa manhã de maio, Cecilia colocou cinco calças e cinco camisas em uma mochila e partiu. O coiote a apanhou, com mais meia dúzia de pessoas.
Primeiro, eles foram de ônibus até a fronteira com o México. Em seguida, outro conjunto de coiotes levou o grupo pelo México, novamente de ônibus, até chegarem à cidade de Reynosa, na fronteira com McAllen, no Texas. Ela contou que lá passou cerca de uma semana em um galpão com cerca de cem pessoas, até que cruzou o rio Grande e, finalmente, desembarcou em uma casa perto de McAllen. Cerca de 85 pessoas se espremiam. Os novos guias eram rudes. "Eles pegaram todo o nosso dinheiro", disse Cecilia.
Depois de cerca de uma semana, outro coiote conduziu um pequeno grupo pelo deserto, para evitar os postos de controle. "Vi duas pessoas mortas no deserto", lembrou ela. "O coiote tinha comida para si, mas não para nós."
Um carro chegou para recolhê-los. Eles se espremeram, sete ao todo, e foram levados a Houston. O novo coiote começou a ligar para o pai dela, Jacinto, que havia ido para os Estados Unidos quando jovem, mas voltou à Guatemala há mais de uma década, com uma segunda família. "O homem disse que, se não lhes pagassem, não nos deixariam sair", disse Cecilia.
É um esquema comum. Apesar de milhares de crianças terem se apresentado aos funcionários das fronteiras americanas nos últimos meses, muitos traficantes retêm outras para fins de extorsão. As autoridades americanas observam que os culpados nesses casos provavelmente não têm nada a ver com os coiotes originalmente contratados pelos migrantes. "Se fosse hierárquico, poderíamos eliminar o topo, mirar a liderança. Seria simples desbaratar a organização", disse Brian Moskowitz, agente especial de Investigações da Segurança Doméstica em Houston. "Como há filiações tênues entre células e redes -que formam, rompem e alteram alianças- fica muito difícil."
Muitos advogados estimam que 20 mil pessoas sejam sequestradas no México a caminho dos Estados Unidos por ano. Em alguns casos, as mulheres são usadas como moeda em pedágios montados por cartéis de drogas. Nos Estados Unidos, os traficantes eventualmente compram migrantes para extorquir seus parentes. Poucas famílias chegam a chamar a polícia.
A mãe de Cecilia, aflita após passar semanas sem notícias dela, pegou um empréstimo em dinheiro vivo, na esperança de chegar aos Estados Unidos, encontrar sua filha e pagar o empréstimo original. Mas, na fronteira com o México, um coiote roubou tudo o que ela tinha e se recusou a levá-la para o norte, porque ela estava grávida.
Jacinto então passou a ser considerado responsável pelas dívidas, mas não tinha como pagá-las. Cecilia disse que seu sequestrador se tornou mais agressivo.
Antes de Cecilia viajar, seu pai lhe deu o número do telefone residencial de uma ativista de direitos humanos de Miami, para quem Jacinto havia trabalhado como cortador de grama na adolescência. Fazia anos que ele não via essa família, chamada Marín. "Recebi um telefonema, e era uma menina dizendo: 'É a Cecilia. Você pode me ajudar? Não me deixam sair se eu não pagar'", disse a sra. Marín, que não quis ver seu nome completo publicado. "Eu disse: 'Quem é Cecilia?'."
O coiote deixou claras as suas exigências: queria US$ 500 imediatamente, e alguém teria de ir a Houston para recuperar a menina. Uma série de ligações depois, Marín percebeu que Cecilia era filha do seu ex-empregado.
Ela aceitou pagar US$ 500, e o homem concordou em viajar com a menina para Miami. Mas, a cada divisa estadual que ele cruzava, ligava exigindo mais.
"É uma chantagem vil", disse ela, que, no entanto, aceitou encontrar o sequestrador em Naples, a duas horas de Miami. "Não tive escolha", disse Marín. "Eles iriam prostituí-la."
A viagem terminou perto de uma loja de conveniência, onde Marín e seus acompanhantes encontraram um jipe vermelho com placas temporárias. Havia dois homens no carro. O motorista levantou a camisa para mostrar a arma enfiada na calça. Ele queria US$ 1.500, mas Marín havia trazido apenas US$ 900. Sua irmã achou mais US$ 100 na sua bolsa.
"Quando ele mostrou a arma, eu fiquei furiosa", disse Marín. "Eu falei: 'Olha, senhor, eu não a conheço. Eu não contratei você. Leve-a!'." Ele pegou os US$ 1.000 e deixou Cecilia sair do carro.
Ao longo das semanas seguintes, o pai de Cecilia foi ameaçado pelo credor e sua mãe deu à luz, acrescentando mais um filho à casa lotada de onde em breve a família pode ser despejada. Cecilia descobriu que seu sonho de mandar US$ 1.000 por mês para casa não era realista. Mas, a julgar pelo que disse o traficante quando a liberou, até que Cecilia se deu bem. "Você deveria ser grata", afirmou. "Nós a tratamos bem."
Reprodução de reportagem do The New York Times, na Folha de São Paulo.
sábado, 24 de maio de 2014
Países da UE fecham cerco a imigrantes de dentro do bloco
Países da UE fecham cerco a imigrantes de dentro do bloco
Suíça, que não faz parte do grupo, também aprovou medidas para diminuir fluxo de cidadãos europeus
Imigração é um tema central nas eleições do Parlamento Europeu, cujo resultado deve ser conhecido no domingo
O estudante espanhol Ignacio Navarro, 23, pesquisava vagas de trabalho em Genebra. Desistiu quando os suíços aprovaram, em referendo, restringir vistos de trabalho para europeus.
Já o administrador Hugo Sánchez, de Valencia, voltou de Londres, após oito meses limpando quartos de hotéis, devido aos benefícios cortados para cidadãos da União Europeia. "Nunca imaginei ser visto desde a perspectiva de um imigrante ilegal", diz Sánchez.
A preocupação com a imigração na UE já não ultrapassa os limites do bloco. Como nos casos suíço e inglês, governos e partidos europeus têm tentado limitar a entrada de cidadãos do próprio bloco, onde a diferença de renda entre países do sul e do norte cresceu com a crise.
A imigração é um dos principais temas das eleições para o Parlamento Europeu, cujo resultado deve ser conhecido neste domingo (25). A expectativa é que partidos nacionalistas, com discurso anti-imigratório, terão desempenho expressivo em vários dos 28 países-membros.
Antes mesmo do polêmico referendo na Suíça, no qual uma apertada maioria de 50,3% votou pela restrição de trabalho aos europeus, o governo do Reino Unido já havia anunciado, sem consulta popular, plano para limitar a 75 mil os vistos de residência concedidos a cidadãos do bloco a que pertence. O mesmo querem fazer deputados da Bavária, na Alemanha.
Até a Espanha, o único país do bloco a abrir voluntariamente as portas a cidadãos romenos em 2008, voltou atrás e, em 2011, deixou de emitir vistos a eles.
Desde janeiro deste ano, romenos e búlgaros passaram a ter as portas abertas dentro da União Europeia, como parte do acordo dos países para integrar o bloco.
Ambas as nacionalidades foram o foco da proposta aprovada pelos suíços, que se estende aos demais europeus. Embora a Suíça não faça parte da UE, seu governo negociava com o bloco a livre circulação de pessoas.
"Não somos contra nenhum país específico, é apenas o número de imigrantes que já não é tolerável na Suíça. Nosso país tem 100 mil novos trabalhadores a cada ano. O que queremos é regular e, como país independente da UE, queremos ter o direito de fazer isso", disse à Folha o deputado e vice-presidente do Partido Popular suíço, Luzi Stamm, um dos autores da proposta.
Mas até dentro dos limites do bloco as restrições já se traduzem em cartas de expulsão a europeus. Em 2013, cerca de 2.700 cidadãos da UE, a maioria espanhóis, romenos e búlgaros, receberam do governo da Bélgica avisos de que deveriam deixar o país onde estavam vivendo, segundo o próprio governo.
Os belgas se apoiam em uma diretiva da UE, de 2004, segundo a qual "pessoas exercendo seu direito de residência não devem, contudo, tornar-se uma carga não razoável ao sistema de assistência social do Estado membro de acolhida durante período inicial de residência".
Após três meses, os países podem fixar condições para o direito à residência de cidadãos do bloco. Quem não estiver trabalhando há seis meses deve comprovar meios financeiros de se manter.
Reprodução da Folha de São Paulo.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Muros para impedir imigração nas fronteiras agora ferem e matam
Novos rolos de arame farpado estão no alto da cerca ao redor de Melilla, um dos dois territórios espanhóis na costa mediterrânea do norte da África. Juntamente com Ceuta, os enclaves compartilham a única fronteira terrestre da União Europeia com a África e são alvo de imigrantes desesperados para chegar à Europa. A Espanha há muito mantém um sistema de cerca de alta tecnologia ao redor dos enclaves, em uma tentativa de afastar os imigrantes, mas tinha removido o arame farpado no alto da cerca de Melilla em 2007, após causar sérios ferimentos naqueles que tentavam pulá-la.
Em novembro do ano passado, entretanto, em resposta aos crescentes ataques de imigrantes à cerca, as autoridades espanholas devolveram o arame farpado. A decisão enfureceu ativistas de direitos humanos e líderes religiosos por toda a Europa. Em uma carta ao ministro do Interior espanhol, o bispo Santiago Agrelo Martinez escreveu: "arame farpado com lâminas nas cercas em Ceuta e Melilla é um ataque à integridade física dos imigrantes: as lâminas cortam, ferem, mutilam...". O bispo apreciou a responsabilidade do governo espanhol de proteger as fronteiras do país, mas expôs o fato de que "lâminas causam apenas dor e morte".
O reforço da cerca ao redor de Melilla é apenas um exemplo do "boom" de construção de muros de fronteira. Segundo Reece Jones, um geógrafo da Universidade do Havaí, quase 30 novas barreiras de fronteira foram erguidas em todo o mundo desde 1998. Há novas cercas na fronteira dos Estados Unidos com o México e ao longo da fronteira da Grécia com a Turquia. A Índia ergueu barreiras em suas fronteiras tanto com o Paquistão quanto com Bangladesh. Israel construiu um muro ao redor da Palestina e completou recentemente uma cerca ao longo de sua fronteira com o Egito.
Por meio da tecnologia, barreiras ao comércio, viagem e comunicação continuam caindo, mas nosso mundo nunca esteve tão fisicamente dividido por geometrias de tijolos, arame farpado e aço. As ramificações políticas e econômicas dos muros são discutidas com frequência e bem entendidas. Assim como o trauma psicológico sofrido por aqueles que vivem à sombra dos muros. Em 1973, um psiquiatra alemão-oriental até mesmo cunhou um termo para a desordem: Mauerkrankheit, ou Doença do Muro.
Mas as objeções do bispo Santiago ao arame farpado recolocado em Melilla revelam algo ainda mais horrível: em uma tentativa de controlar nossas fronteiras, nós projetamos sistemas que ferem fisicamente aqueles que as desafiam. Os muros agem na carne.
Em janeiro de 2011, a cerca ao longo da fronteira da Índia e Bangladesh matou Felani Khatun, 15. O pai de Felani, Nurul Islam, arranjou o casamento dela com seu primo bengalês. Na manhã do casamento, Nurul pagou a dois contrabandistas de gado para que ajudassem ele e Felani a escalarem a cerca para Bangladesh, para que pudessem ir à aldeia onde o noivo estava esperando. Felani subiu a cerca com uma escada de bambu fornecida pelos contrabandistas, mas quando sua saia azul ficou presa no arame farpado, ela entrou em pânico e começou a gritar. O barulho alertou os soldados de fronteira indianos, que começaram a disparar seus fuzis na direção da cerca.
Uma bala perfurou o peito de Felani e ela ficou pendurada, mortalmente ferida, no arame farpado. Ela implorou por água por meia hora antes de finalmente sangrar até a morte. Felani ficou pendurada de cabeça para baixo, um símbolo fúnebre preso no arame, até o sol matinal dispersar a neblina e os soldados de fronteira a retirarem. Eles amarraram as mãos e pés dela a uma vara de bambu e a transportaram como um animal abatido.
O arame farpado também promove uma caligrafia cruel ao longo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, mas aqueles que tentam atravessá-la têm muito mais a temer do que apenas a violência do arame farpado. Os atendentes do Centro Médico da Universidade do Arizona tratam cerca de 40 imigrantes por ano por ossos fraturados e ferimentos na coluna sofridos por quedas dos muros de fronteira. Também há ferimentos de bala. Segundo uma investigação de 2013 pelo jornal "The Arizona Republic", os agentes de patrulha da fronteira americana já mataram 42 pessoas desde 2005. Algumas, como o adolescente José Antonio Elena Rodríguez, foram mortas no lado sul da fronteira por agentes americanos disparando pelo muro na direção do México.
Imigrantes do sexo feminino correm o risco de violência mais íntima. Os ativistas de fronteira falam sobre as "árvores de estupro" na áreas de fronteira do Arizona e Califórnia, onde os contrabandistas de pessoas, muitos ligados aos cartéis do narcotráfico mexicanos, fazem uma pausa em sua jornada para estuprar as mulheres que transportam. Quando terminam, os estupradores penduram os sutiãs e calcinhas de suas vítimas nos galhos como uma recordação mórbida de suas conquistas.
Aqueles que são autorizados a passar pelos muros acabam tendo que oferecer sua carne de um jeito ou de outro. Os trabalhadores palestinos pressionam seus corpos pelos corredores de aço e catracas toda manhã para chegarem aos seus empregos em Israel. Em outras partes da Cisjordânia, os agricultores levantam suas camisas diante dos jovens soldados israelenses antes de receberem permissão para trabalhar em seus próprios campos – suas barrigas expostas como prova de que não estão carregando bombas. Mesmo quando os muros não causam dor física, eles exigem ao menos alguma humilhação.
Em 1876, um vendedor de arame farpado, John Gates, prendeu algumas poucas cabeças de touro ferozes dentro de um curral de arame farpado na praça central de San Antonio. Reviel Netz escreve sobre a cena em seu livro "Barbed Wire: An Ecology of Modernity". Gates provocou deliberadamente os touros, que então investiram contra a cerca, apenas para serem repelidos pelas farpas que feriam suas carnes. "Os ferimentos exacerbavam a fúria deles", escreve Netz. Os touros continuaram se lançando contra o arame farpado até que a agonia deles levou a uma retirada instintiva e resignação. Finalmente, eles pararam de tentar atravessar a cerca.
O espetáculo sangrento provou que por meio da aplicação de dor, até mesmo a fera mais feroz pode aprender a respeitar uma fronteira. "Nossas peles", escreve Netz, "logo abaixo da superfície, contam com nervos especiais ativados por pressão acima de limiares muito baixos. É possível usar esses nervos contra nós. Cortando a fronteira de nossas peles, você pode proteger as fronteiras de sua propriedade, de sua prisão, de sua fronteira".
Nossos muros também fazem isso. Eles exploram a baixa tolerância de nossos corpos à dor. Sob os ideais elevados de segurança e soberania se encontra a triste verdade de que projetamos os muros para ferir as pessoas. Nós optamos por controlar o movimento por uma geografia sensível infligindo agonia à carne. Nós precisamos confrontar a desumanidade de como escolhemos defender nossas fronteiras e, como o bispo Santiago, ver a barbárie no arame farpado que desenrolamos.
Texto de Marcello Di Cintio, para o The New York Times, reproduzida no UOL. Tradução: George El Khouri Andolfato
terça-feira, 9 de julho de 2013
Israel mantém 2.000 refugiados africanos em cadeia no deserto
Israel mantém 2.000 refugiados africanos em cadeia no deserto
Imigrantes sem papeis não têm direitos reconhecidos por governo israelenese; temperatura em Saharonim chega a 40 graus
Na prisão de Saharonim, que fica no deserto do Negev, no sul de
Israel, se encontram homens, mulheres e crianças do Sudão e da Eritreia,
que tentaram entrar no país a pé, através da península egípcia do
Sinai.
Desde que Israel concluiu a construção da cerca que separa o Sinai do sul do país, em 2012, houve uma queda de mais de 99% no número de refugiados africanos que conseguem entrar no território israelense.
Os poucos que conseguem ultrapassar a cerca (desde o inicio de 2013 foram apenas 34) são imediatamente levados para a prisão de Saharonim.
No entanto, de 2007 a 2012, cerca de 60.000 cidadãos da Eritreia e do Sudão, que fugiram de seus países para salvar suas vidas, conseguiram entrar em Israel.
Essas pessoas vivem no país sem qualquer reconhecimento de sua condição de refugiados e sem que o Estado avalie as circunstâncias nas quais deixaram seus países e entraram em Israel. "Se entrevistassem essas pessoas, se as ouvissem, descobririam que a grande maioria delas é de refugiados políticos e que merecem receber o status e os direitos de refugiados", afirmou Sigal Rozen, da ONG israelense Hotline for Migrant Workers (centro de assistencia a trabalhadores estrangeiros, em tradução livre).
"Se verificassem a situação delas, as autoridades seriam obrigadas, pela lei internacional, a conceder o status de refugiado a dezenas de milhares de pessoas, então preferem nem avaliar", acrescentou a Opera Mundi.
A lei internacional proíbe que um país repatrie pessoas cujas vidas podem estar ameaçadas em seu país de origem. Esse é o caso do Sudão, assolado por uma sangrenta guerra civil e da Eritreia, controlada por uma das ditaduras militares mais cruéis do planeta.
Ódio racial
Sem documentos e sem direito de trabalhar legalmente, a população de refugiados africanos vive em condições precárias e se concentra principalmente na região sul da cidade de Tel Aviv.
Essa área da cidade, que é a mais pobre da grande metrópole israelense, virou cenário de ódio racial por parte dos habitantes originais contra os refugiados africanos.
Esse ódio, parte em consequência do incitamento conduzido por políticos de direita contra os refugiados africanos, e parte em decorrência das condições de vida nos bairros pobres e densos da cidade, vem se alastrando e, nos últimos dois anos, já causou algumas erupções violentas.
Em 2012, houve uma série de ataques por parte de israelenses racistas contra casas e pequenos negócios de africanos, deixando vários lugares depredados e pessoas feridas.
Entre os políticos de direita que incitam contra os africanos está a deputada Miri Regev, do partido governista Likud e chefe da Comissão de Interior do Parlamento. Regev chegou a qualificar os refugiados africanos como "câncer no corpo da nação".
"Politica de avestruz"
ONGs de direitos humanos acusam o governo israelense de conduzir uma "politica de avestruz" na questão dos refugiados africanos. "Em vez de enfrentar o problema e tentar resolvê-lo, simplesmente deixam os refugiados jogados nas áreas mais pobres de Tel Aviv, sem assistência médica ou social", disse Rozen.
O governo israelense qualifica os refugiados africanos como
"infiltradores", ou seja, pessoas que "se infiltram" pela fronteira,
supostamente para procurar trabalho no país, e não os reconhece como
refugiados.
O ministro do Interior, Gideon Saar, afirmou que "precisamos continuar agindo energicamente para barrar esse fenômeno, continuaremos com a política do governo de repatriar infiltradores para seus países de origem ou para terceiros países".
Nos últimos meses, porta-vozes oficiais vêm afirmando que o governo está conduzindo negociações com países africanos para que recebam os cidadãos eritreus e sudaneses que se encontram em Israel. Porém ainda não se sabe se algum país se dispôs a recebê-los.
De acordo com o ministro, Israel "é o único país ocidental que tem fronteira com a África e, se não agirmos de maneira clara e sem concessões, o país será inundado por infiltradores ilegais".
Endurecimento das leis
Segundo a Lei de Prevenção de Infiltração, aprovada pelo Parlamento de Israel em junho de 2012, qualquer refugiado africano que tente entrar sem documentos no país pode ser preso por um período de pelo menos três anos.
Nos últimos meses, o Parlamento também aprovou uma nova cláusula à mesma lei, que permite que qualquer imigrante sem papeis que for suspeito de contravenções seja imediatamente enviado à prisão de Saharonim.
Desde que Israel concluiu a construção da cerca que separa o Sinai do sul do país, em 2012, houve uma queda de mais de 99% no número de refugiados africanos que conseguem entrar no território israelense.
Os poucos que conseguem ultrapassar a cerca (desde o inicio de 2013 foram apenas 34) são imediatamente levados para a prisão de Saharonim.
No entanto, de 2007 a 2012, cerca de 60.000 cidadãos da Eritreia e do Sudão, que fugiram de seus países para salvar suas vidas, conseguiram entrar em Israel.
Essas pessoas vivem no país sem qualquer reconhecimento de sua condição de refugiados e sem que o Estado avalie as circunstâncias nas quais deixaram seus países e entraram em Israel. "Se entrevistassem essas pessoas, se as ouvissem, descobririam que a grande maioria delas é de refugiados políticos e que merecem receber o status e os direitos de refugiados", afirmou Sigal Rozen, da ONG israelense Hotline for Migrant Workers (centro de assistencia a trabalhadores estrangeiros, em tradução livre).
"Se verificassem a situação delas, as autoridades seriam obrigadas, pela lei internacional, a conceder o status de refugiado a dezenas de milhares de pessoas, então preferem nem avaliar", acrescentou a Opera Mundi.
A lei internacional proíbe que um país repatrie pessoas cujas vidas podem estar ameaçadas em seu país de origem. Esse é o caso do Sudão, assolado por uma sangrenta guerra civil e da Eritreia, controlada por uma das ditaduras militares mais cruéis do planeta.
Ódio racial
Sem documentos e sem direito de trabalhar legalmente, a população de refugiados africanos vive em condições precárias e se concentra principalmente na região sul da cidade de Tel Aviv.
Essa área da cidade, que é a mais pobre da grande metrópole israelense, virou cenário de ódio racial por parte dos habitantes originais contra os refugiados africanos.
Esse ódio, parte em consequência do incitamento conduzido por políticos de direita contra os refugiados africanos, e parte em decorrência das condições de vida nos bairros pobres e densos da cidade, vem se alastrando e, nos últimos dois anos, já causou algumas erupções violentas.
Em 2012, houve uma série de ataques por parte de israelenses racistas contra casas e pequenos negócios de africanos, deixando vários lugares depredados e pessoas feridas.
Entre os políticos de direita que incitam contra os africanos está a deputada Miri Regev, do partido governista Likud e chefe da Comissão de Interior do Parlamento. Regev chegou a qualificar os refugiados africanos como "câncer no corpo da nação".
"Politica de avestruz"
ONGs de direitos humanos acusam o governo israelense de conduzir uma "politica de avestruz" na questão dos refugiados africanos. "Em vez de enfrentar o problema e tentar resolvê-lo, simplesmente deixam os refugiados jogados nas áreas mais pobres de Tel Aviv, sem assistência médica ou social", disse Rozen.
O ministro do Interior, Gideon Saar, afirmou que "precisamos continuar agindo energicamente para barrar esse fenômeno, continuaremos com a política do governo de repatriar infiltradores para seus países de origem ou para terceiros países".
Nos últimos meses, porta-vozes oficiais vêm afirmando que o governo está conduzindo negociações com países africanos para que recebam os cidadãos eritreus e sudaneses que se encontram em Israel. Porém ainda não se sabe se algum país se dispôs a recebê-los.
De acordo com o ministro, Israel "é o único país ocidental que tem fronteira com a África e, se não agirmos de maneira clara e sem concessões, o país será inundado por infiltradores ilegais".
Endurecimento das leis
Segundo a Lei de Prevenção de Infiltração, aprovada pelo Parlamento de Israel em junho de 2012, qualquer refugiado africano que tente entrar sem documentos no país pode ser preso por um período de pelo menos três anos.
Nos últimos meses, o Parlamento também aprovou uma nova cláusula à mesma lei, que permite que qualquer imigrante sem papeis que for suspeito de contravenções seja imediatamente enviado à prisão de Saharonim.
"De acordo com a nova cláusula, se um imigrante eritreu é suspeito de
roubar uma bicicleta, pode ser enviado a Saharonim por tempo
indeterminado, nem é necessário um julgamento, basta a suspeita",
afirmou Sigal Rozen.
Rozen conseguiu entrar na prisão de Saharonim juntamente com alguns advogados da ONG e pôde ver de perto as condições no local.
Segundo o relato da organização, trata-se de um complexo que inclui construções e barracas. "As mulheres e crianças ficam nas construções, a maioria dos homens fica nas barracas", disse Rozen, que acrescentou que a temperatura no deserto do Negev pode chegar a mais de 40 graus.
O governo israelense continua endurecendo as condições dos refugiados para "desestimular" esse tipo de migração. Em junho deste ano, o Parlamento aprovou mais uma lei proposta pelo governo, proibindo que os "infiltradores" enviem dinheiro para o exterior até deixarem o país.
Segundo um comunicado do governo, o objetivo da nova lei é "reduzir o número de infiltradores".
Sequestro e estupro no caminho
A reportagem de Opera Mundi também conversou com Shahar Shoham, responsável pelo departamento de refugiados na ONG Médicos pelos Direitos Humanos/ Israel.
A ONG entrou com um recurso junto à Suprema Corte de Justiça exigindo que haja atendimento ginecológico para as mulheres africanas presas em Saharonim.
"Muitas dessas mulheres passaram por experiências terríveis no caminho para cá", disse Shoham, "houve muitos casos de sequestro e estupro, por gangues de beduínos no Sinai, e na prisão não há médicos ginecologistas".
O recurso foi apresentado à Corte há dois anos, porém até agora ainda não há ginecologistas em Saharonim. "Nossa ONG e todas as outras organizações que trabalham pelos direitos dos refugiados africanos, exigimos que seja feita uma avaliação transparente e justa da situação dessas pessoas, e que aqueles que merecem recebam o status e todos os direitos de refugiados", afirmou.
Para a ativista, Israel deve conceder aos refugiados do Sudão e da Eritreia o direito de "residência social". "Enquanto essas pessoas se encontram aqui, elas devem receber assistência médica e social, além do direito de trabalhar legalmente para que possam se sustentar", disse.
"Não há razão alguma para que os refugiados sejam mantidos na prisão, eles não cometeram crime algum, apenas fugiram de seus países para se salvar".
Rozen conseguiu entrar na prisão de Saharonim juntamente com alguns advogados da ONG e pôde ver de perto as condições no local.
Segundo o relato da organização, trata-se de um complexo que inclui construções e barracas. "As mulheres e crianças ficam nas construções, a maioria dos homens fica nas barracas", disse Rozen, que acrescentou que a temperatura no deserto do Negev pode chegar a mais de 40 graus.
O governo israelense continua endurecendo as condições dos refugiados para "desestimular" esse tipo de migração. Em junho deste ano, o Parlamento aprovou mais uma lei proposta pelo governo, proibindo que os "infiltradores" enviem dinheiro para o exterior até deixarem o país.
Segundo um comunicado do governo, o objetivo da nova lei é "reduzir o número de infiltradores".
Sequestro e estupro no caminho
A reportagem de Opera Mundi também conversou com Shahar Shoham, responsável pelo departamento de refugiados na ONG Médicos pelos Direitos Humanos/ Israel.
A ONG entrou com um recurso junto à Suprema Corte de Justiça exigindo que haja atendimento ginecológico para as mulheres africanas presas em Saharonim.
"Muitas dessas mulheres passaram por experiências terríveis no caminho para cá", disse Shoham, "houve muitos casos de sequestro e estupro, por gangues de beduínos no Sinai, e na prisão não há médicos ginecologistas".
O recurso foi apresentado à Corte há dois anos, porém até agora ainda não há ginecologistas em Saharonim. "Nossa ONG e todas as outras organizações que trabalham pelos direitos dos refugiados africanos, exigimos que seja feita uma avaliação transparente e justa da situação dessas pessoas, e que aqueles que merecem recebam o status e todos os direitos de refugiados", afirmou.
Para a ativista, Israel deve conceder aos refugiados do Sudão e da Eritreia o direito de "residência social". "Enquanto essas pessoas se encontram aqui, elas devem receber assistência médica e social, além do direito de trabalhar legalmente para que possam se sustentar", disse.
"Não há razão alguma para que os refugiados sejam mantidos na prisão, eles não cometeram crime algum, apenas fugiram de seus países para se salvar".
Reprodução de texto do Opera Mundi.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Imigrantes são presos em solitárias nos EUA
Dados do governo dos EUA revelam que cerca de 300 imigrantes são mantidos em solitárias nos 50 maiores centros de detenção do país sob o controle de autoridades da agência de Imigração e Alfândega.
Quase metade deles passa 15 dias ou mais na solitária, o ponto a partir do qual, para especialistas psiquiátricos, existe o risco de danos mentais graves. Cerca de 35 são mantidos por mais de 75 dias.
Os registros não indicam as razões pelas quais os imigrantes são detidos em isolamento, mas um assessor que ajudou a agência a rever os números estimou que dois terços dos casos envolvem infrações disciplinares como desobedecer regras, discutir com guardas ou participar de brigas. Imigrantes também são isolados com frequência por serem vistos como ameaça aos detentos ou carcereiros ou para finalidades de proteção, nos casos de um imigrante ser gay ou doente mental.
Os EUA estão sendo criticados por recorrerem à detenção solitária mais que qualquer outro país democrático. A agência de Imigração e Alfândega coloca apenas 1% dos imigrantes detidos em solitárias, mas a prática é surpreendente porque esses detentos estão presos por acusações civis, não criminais. A intenção não é que sejam punidos. Eles são detidos apenas para garantir que compareçam a audiências administrativas.
Depois de ter sido capturado por autoridades federais de imigração, o iemenita candidato a asilo Rashed BinRashed foi enviado a um centro de detenção em Juneau, no Wisconsin, por ter falsamente informado que seu país de origem era a Somália. Ele conta que foi posto numa cela solitária depois de ter se negado a ir à área de alimentação da prisão e ter recusado refeições porque queria jejuar durante o Ramadã. Ele foi mantido em detenção por quase três anos, mas ganhou sua causa no tribunal e hoje vive em Chicago.
Autoridades federais isolaram o imigrante mexicano gay Delfino Quiroz em uma solitária durante quatro meses, em 2010, dizendo que era para sua proteção. Delfino caiu em depressão depois de ouvir três outros detentos tentarem o suicídio.
"Está claro que a agência de Imigração e Alfândega está fazendo uso de força excessiva, já que são detenções civis", comentou Terry Kupers, que estuda a detenção solitária no Instituto Wright, uma escola de pós-graduação em psicologia, em Berkeley, na Califórnia. "Portanto, é uma violação dos direitos humanos."
A secretária de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano, disse que pediu às autoridades de imigração informações sobre imigrantes mantidos em confinamento solitário.
Ernestine Fobbs, porta-voz da agência, disse que os detentos só são isolados como "último recurso", acrescentando que a agência "leva muito a sério a saúde mental dos indivíduos em sua custódia".
As condições do confinamento variam, mas os detentos em solitárias passam entre 22 e 23 horas por dia sozinhos, às vezes em celas de dois metros por quatro metros sem janelas. De acordo com os detentos, os imigrantes geralmente têm direito a uma hora de recreação por dia. Em algumas prisões, a recreação se limita a andar de um lado a outro em um espaço interno com piso de concreto e cercado por grades de todos os lados.
Os dados federais, que autoridades começaram a rever um ano atrás a pedido de advogados de imigração, proporcionam a primeira visão pública do número de imigrantes mantidos em solitárias. As 50 instalações revistas pela agência contêm 85% da população média diária de 34 mil detentos da agência de Imigração.
A população de imigrantes detidos vem crescendo: desde 2005, subiu quase 85%. Os imigrantes ilegais podem ser detidos por tempo indeterminado. Com frequência, eles são mantidos presos por meses, até assinarem os papéis de deportação ou até que as autoridades de imigração determinem se eles podem permanecer no país ou se devem ser deportados.
A prisão solitária é vista como a maneira mais perigosa de encarcerar pessoas, sendo um elemento que contribui para cerca de metade dos suicídios em prisões.
O imigrante hondurenho Ronal Rojas-Castro passou oito meses detido depois de entrar ilegalmente nos Estados Unidos, em abril do ano passado. Ele tinha quebrado o tornozelo e foi posto na solitária, afirma, porque os guardas disseram que suas muletas poderiam ser usadas como arma. Foi mantido na escuridão completa por quatro dias, trajando apenas cuecas.
No ano passado, o relator especial das Nações Unidas sobre tortura, Juan Mendez, pediu a proibição do encarceramento solitário, exceto em situações limitadas, e apontou especificamente para os Estados Unidos por usarem a detenção solitária com imigrantes. "Os Estados Unidos está descumprindo suas obrigações sob os termos da convenção sobre tortura", disse ele.
Ian Urbina e Catherine Rentz para o The New Tork Times, reproduzido na Folha de São Paulo.
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