Luís 15 teve uma disenteria brava em agosto de 1744. Ficou tão mal que quiseram dar-lhe a extrema-unção. A Igreja não permitiu porque o rei morava com a amante, a duquesa de Châteauroux. Para pasmo do povo, o bem-amado dispensou a linda concubina e recebeu a comunhão. Jurou fazer uma igreja para santa Genoveva se sobrevivesse.
Como os médicos não soubessem o que ele tinha, a corte convocou à sorrelfa um clínico judeu, Isaias Ulmann, que debelou a então desconhecida febre tifoide. Luís 15 se salvou, mas, devido ao antissemitismo, a cura foi atribuída à padroeira de Paris e não ao doutor alsaciano.
Não havia orçamento para pôr a igreja em pé e o rei apelou para o estratagema clássico dos governos com caixa esquálida: promoveu uma imensa jogatina, a loteria real. Mesmo com as bets, a santa ganhou, mas não levou, pois a igreja ficou pronta só na revolução, em 1789, e foi estatizada. Tornou-se o Panthéon, o mausoléu dos pais da pátria.
Na próxima terça-feira, 23 de junho, o historiador Marc Bloch entrará no templo laico do Quartier Latin. Até que enfim. Fuzilado pelos nazistas e colaboracionistas, ele aguardou 82 anos para ser reconhecido como um francês de truz.
O primeiro entronado na quase-igreja foi Mirabeau, jacobino de raiz. Meses depois de morrer, vieram a público suas cartas rastejantes a Luís 16, de quem queria ser ministro numa monarquia constitucional. Carimbado como traidor da revolução, arrancaram-no da tumba e jogaram numa vala comum.
O mesmo se deu com Marat, o amigo do povo, embora em sentido contrário. Um lacrimoso cortejo percorreu Paris dias depois de ele ser assassinado e o depositou no Panthéon. Não ficou cinco meses. A direita deu um golpe, arrancou-o aos gritos e o enterrou num cemitério vizinho.
A alternância no poder de progressistas e reacionários fez com que seis vezes tirassem e botassem uma cruz no topo do edifício neoclássico. Há hoje um acordo: a cruz encima a cúpula, mas o Panthéon é secular.
Marc Bloch chega lá por vias menos abruptas. Fundou com Lucien Febvre a revista Annales, que incorporou a economia à historiografia e a libertou dos guetos patrióticos. Escreveu "Os Reis Taumaturgos", pesquisa inovadora sobre o poder de cura dos monarcas medievais que inaugurou o estudo das mentalidades.
O livro impulsionou a obra do italiano Carlo Ginzburg, morto na última quarta-feira, ponta de lança da disciplina. A par do trabalho mental, foi soldado na Primeira Guerra, ganhando quatro condecorações por bravura. Além das medalhas, voltou das trincheiras com um ensaio pioneiro sobre fake news, "Reflexões de um Historiador sobre as Notícias Falsas da Guerra".
Professor da Sorbonne nos anos 1930 e 1940, ele teve sua entrada no Collège de France barrada por ser judeu. Com 53 anos, seis filhos e bronquite, voltou à batalha logo que a Wehrmacht invadiu a França. Era o capitão mais velho do Exército. Viveu por dentro a queda da França diante do nazismo —em apenas 46 dias— e a entusiasmada cooperação com o inimigo. Afastado da universidade por ser judeu, aderiu à Resistência e a dirigiu em Rennes. Escreveu na clandestinidade "A Estranha Derrota", uma análise crua da capitulação.
"Estas páginas serão publicadas?" é a frase que abre o relato. "Não sei", respondeu. O manuscrito não se perdeu porque um amigo o enterrou no quintal. Foi publicado pouco depois da Liberação por uma editora da Resistência e esquecido por décadas.
Motivo havia. Bloch expõe a moleza da cúpula militar diante da "blitzkrieg", a incompreensão da natureza do nazismo, o comodismo da direita, o desarmamento político do povo pelo Partido Comunista. Suas verdades ásperas destoavam da conciliação orquestrada por De Gaulle.
"A Estranha Derrota" só voltou à tona em 1972, com a publicação de "Vichy France: Old Guard and New Order", de Robert Paxton. Ao revelar a extensão do colaboracionismo francês, o pesquisador americano reabriu a chaga. Foi o colaboracionismo que matou Marc Bloch.
Uma milícia de cem franceses, chefiada por um tipo apelidado de Boca Torta, prendeu-o em casa, torturou-o durante dias e o pôs na frente do pelotão de fuzilamento. Seu último texto, "Testamento", se encerra com "morro como vivi, um bom francês".
A família de Bloch pediu ao Estado que interdite a extrema direita na cerimônia no Panthéon. Ou seja, que a Reunião Nacional não participe da homenagem na próxima semana.
Partido de extrema direita, ele está em primeiro lugar na preferência dos franceses para as eleições do ano que vem.
Reprodução de texto de Mario Sergio Conti na Folha de São Paulo.
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