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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Bengaleses são escravizados no exterior, oprimidos em casa

Embora muitas pessoas em Bangladesh neguem, praticamos nossa própria forma de escravidão.
Nos últimos meses, mais de 170 homens, na maioria bengaleses, foram resgatados das mãos de traficantes humanos nas florestas da Tailândia. Alguns dos homens relataram que haviam recebido ofertas de trabalho, mas quando apareceram, foram drogados, amarrados e arrastados para barcos onde apanharam e passaram fome. A notícia causou indignação entre os bengaleses, muitos dos quais culparam o governo do país por não proteger seus cidadãos. Outros expressaram espanto ao descobrir que este tipo de escravidão dos tempos modernos ainda existe. 
O fato de que esses homens foram tão facilmente atraídos para o trabalho cativo no exterior é prova da falta de esperança de suas vidas em seu país. Embora alguns dos homens digam que não sabiam que seriam enviados à Tailândia, a maioria deles estava pronta para embarcar no desconhecido. Eles estavam desesperados por trabalho.
Eu cresci em Bangladesh, onde, em cada casa de classe média, havia pelo menos uma kajer meye residente – uma empregada ou "menina serviçal" – normalmente com um ou dois filhos pequenos servindo à família. Ela trabalha desde a manhã até a noite, às vezes por bem pouco dinheiro, outras apenas por restos de comida e acomodações básicas.
Em nossa casa ela se chamava "Rahela's Ma", mãe de Rahela. Meus irmãos e eu crescemos com ela, e todos os dias a víamos cozinhar, buscar água, pentear nossos cabelos antes de ir para a escola, lavar nossas roupas no quintal. Nunca pensamos que era estranho que ela não tivesse um nome próprio. Víamos Rahela, também, uma criança de nariz escorrendo, sentada no chão da cozinha em roupas usadas grandes demais dadas por nossa família. Ela estava sempre chorando, uma vez que sua mãe vivia ocupada moendo cúrcuma e pimenta, coentro e cominho, e arrumando-os na galheteira que mais parecia uma palheta de artista.
Anos mais tarde, quando voltei para visitá-los, disseram-me que a mãe de Rahela havia morrido. Agora era Rahela que moía as especiarias, seus braços mal alcançavam o pilão. Ela tinha dez anos.
Há milhões de crianças trabalhando em Bangladesh; 400 mil entre 6 e 17 anos são empregados domésticos. Embora tenha havido muitos pedidos para proteger os direitos dessas crianças, a maioria delas continua, como diz Nishat Mirza da Save the Children, Bangladesh, "dentro do quarto, fora da lei". 
A relação de Rahela com meus pais pode ser definida como sendo trabalho não livre. Embora minha mãe, assim como dezenas de milhares de sul-asiáticos, negue veementemente, é uma forma de escravidão. 
No ano passado, o Índice Global de Escravidão colocou Bangladesh em 10º lugar na lista de países com o maior número de pessoas escravizadas; a Índia ficou em primeiro e o Paquistão em terceiro. A face moderna da escravidão pode se expressar de muitas formas: nas vidas dos trabalhadores domésticos, no trabalho cativo e forçado nas áreas rurais e urbanas, no trabalho mal remunerado nas fábricas, contínuos de escritórios, vendedores de flores nos semáforos, meninos que vendem chá em restaurantes e trabalhadores sexuais.
Nas confecções de Bangladesh, os trabalhadores podem não ter sido sequestrados ou vendidos, mas considerando as circunstâncias insalubres sob as quais trabalham, as jornadas longas e salários mensais de até US$ 50, é difícil saber como definir esta forma de "emprego". Em abril de 2013, depois que mais de mil pessoas morreram nos escombros da fábrica no prédio Rana Plaza nos subúrbios de Dhaka, o papa denunciou as condições sob as quais eles trabalhavam como "trabalho escravo". 
Defensores dos direitos humanos há muito lutam para melhorar as condições de trabalho, mas algumas tentativas foram um tiro pela culatra. Em 1993, quando o Congresso propôs a Lei de Proibição ao Trabalho Infantil, que teria tornado ilegal a importação de bens produzidos por trabalho infantil, dezenas de milhares de trabalhadores menores de 18 anos nas confecções de Bangladesh foram demitidos preventivamente.
Kabir Akon, um defensor dos direitos da criança que trabalha para o Bangladesh Legal Aid and Services Trust, diz que a complexidade de classes e castas é uma das principais razões pelas quais é tão difícil melhorar as condições de trabalho. A cultura da dependência, e a velha crença no destino ou karma, de que Deus nos fez assim, de que alguns são borolok e outros chhotolok – literalmente, pessoas pequenas e grandes – perpetua profundas divisões sociais.
Na maioria das casas de Bangladesh, empregados domésticos que trabalham por praticamente nada raramente reclamam; na prática, há uma ideia de gratidão e veneração em relação ao empregador. E muitos desses "empregadores" argumentam que estão criando empregos para pessoas que de outra forma seriam traficadas para o Oriente Médio ou o Sudeste Asiático, como aqueles homens na Tailândia.
Todos nós conhecemos histórias de horror sobre empregadas domésticas na Arábia Saudita, escaldadas com água fervente, e homens com as costas marcadas por ter apanhado. Certamente eles estariam melhor conosco, dizem a si mesmos esses empregadores de Bangladesh.
Devemos nos indignar com o que aconteceu a esses bengaleses na floresta tailandesa. Mas também devemos nos envergonhar pela terrível falta de dignidade que enfrentam em sua própria terra, que obriga muitos deles a uma vida de servidão no exterior.

Texto de Lipika Pelham para o The New York Times, reproduzido no UOL. Tradutor: Eloise De Vylder.

*Lipika Pelham é cineasta e autora do livro de memórias "The Unlikely Settler"

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Tragédia depois de tragédia

Tragédia depois de tragédia

Em seu livro "Diante da Dor dos Outros", Susan Sontag escreve: "Ser espectador de calamidades que ocorrem em outros países é uma experiência moderna levada à quinta-essência". Em Bangladesh, parece que somos espectadores e colaboradores de nossas próprias calamidades.
A intervalos de poucos meses, testemunhamos uma grande tragédia sabendo que, assim que a poeira dessa coisa terrível assentar, é só questão de tempo para outra virar manchete nas primeiras páginas de nossos jornais.
Tomemos agosto como exemplo. Houve a comemoração do Eid al-Fitr, que marca o fim do mês de jejum do Ramadã. Milhares de migrantes urbanos deixaram seu cotidiano precário e as promessas de uma vida melhor na capital do país, Dacca, e foram rever as famílias em seus vilarejos de origem no interior.
Para ir a esses vilarejos distantes, eles embarcaram em balsas para cruzar os grandes rios do país. Após poucos dias de visita, pegaram as mesmas embarcações para voltar a Dacca.
Uma delas, a MV Pinak-6, aguardava passageiros no porto em Mawa no distrito de Munshiganj, cerca de 30 quilômetros ao sul de Dacca. Por volta das 14h, teve início a viagem de duas horas pelo rio Padma.
Como as balsas de passageiros geralmente são precárias e os bengaleses ricos preferem ficar na cidade, aproveitando o tráfego menos congestionado, ninguém registrou o nome e o número de pessoas que embarcaram.
Os migrantes se apinharam nessa balsa específica, pois ninguém sabia quando a próxima chegaria e havia pressa para voltar a seus empregos.
Então se deu a tragédia: a balsa emborcou. Provavelmente centenas de pessoas morreram afogadas em poucos minutos. A Pinak-6 tinha licença para transportar 85 passageiros, mas ao que consta tinha mais de 200.
Além disso, sua licença para operar estava vencida. A viagem foi feita em maré alta e sob um alerta meteorológico de risco. Dez minutos antes da chegada prevista em Dacca, com a margem já visível, a balsa adernou e afundou rapidamente no leito do rio.
Apenas poucas dezenas de pessoas conseguiram nadar até terra firme ou foram resgatadas pelo pessoal local. Houve 110 sobreviventes na tragédia, mas muitos passageiros desapareceram nas águas sem deixar pistas.
Desastres com balsas são frequentes em Bangladesh, e o mais recente deles foi em maio deste ano. Com o passar do tempo, as histórias se embaralham e tornam-se banais.
Barcos com excesso de passageiros. Duzentas pessoas a bordo. Mulheres e crianças.
Pessoas esperando no ancoradouro notícias de seus entes queridos. Uma busca é iniciada e depois é interrompida pelas autoridades.
Os bengaleses certamente gostam de seus rios. O fato, porém, é que os leitos dos rios estão forrados de cadáveres que afundaram diante da indiferença coletiva.
E balsas não são as únicas formas de morrer em deslocamentos em Bangladesh. A Organização Mundial de Saúde calcula que pelo menos 17 mil pessoas morrem por ano nas estradas do país.
Uma delas, a rodovia Dacca-Sylhet, é considerada a mais perigosa do mundo depois que um projeto financiado pelo Banco Mundial para melhorá-la priorizou o aumento da velocidade em detrimento da segurança.
Agora que ela está recapeada, carros e caminhões disparam muito acima do limite de velocidade, aumentando o número de mortes em acidentes.
Muitos mortos não são motoristas, e sim quem não tem dinheiro para usar qualquer meio de transporte e é atropelado por veículos enquanto caminha no acostamento das estradas.
Nosso país tem descaso pelo desastre. Assumimos tranquilamente que, a cada ano, um certo número de pessoas morrerá por motivos totalmente evitáveis, seja em estradas que poderiam ser mais seguras ou em balsas lotadas que afundam.
Em algum momento, alguém ou um grupo de pessoas decidiu que o custo para modernizar, manter e regular nossa infraestrutura de transporte é maior que o custo de vidas humanas que serão perdidas se tudo continuar como está.
O que está em jogo aqui não é apenas a perda de vidas individuais, mas a própria base de nosso contrato social.
Estamos dizendo que não vale a pena gastar dinheiro com certas pessoas, pois há outras que sempre terão meios para evitar desastres, já que se deslocam pelo país em carros enormes e resistentes como tanques de guerra, em helicópteros privados ou em caros voos internos.
Quando a Pinak-6 afundou, lemos editoriais indignados e postagens revoltadas no Facebook. Porém, é mais provável que esse desastre seja esquecido como os anteriores. Nenhum ministro será demitido, nenhum controle entrará em vigor, nenhum processo será movido.
E ficaremos um pouco mais habituados com nossos desastres, dizendo: "Bem, poderia ter sido pior, como, por exemplo, um ciclone". Os mortos poderiam ser milhares, em vez de centenas. E assim vamos em frente, com nosso contrato social cada vez mais mesquinho e frágil.
Quando vemos outra pessoa sofrer, uma imagem que visa despertar empatia, também estamos reconhecendo que aquela pessoa não é nós.
Quanto maior a tragédia, mais nos sentimos distanciados dela, pois jamais estaríamos naquela balsa ou na fábrica de roupas que ruiu ou no acostamento da estrada invadido pelo carro.
Segundo a teórica de estética Elaine Scarry em "The Body in Pain" [O corpo com dor], quanto maior a dor alheia, maior é o nosso poder. Resta saber o que fazer com esse poder.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Surpresa: Bangladesh reduz pobreza a 31% do país em duas décadas

As senhoras Ashiknur, Hasina, Syhet e Zahanara sabem praticamente tudo sobre a vida de suas vizinhas e suas famílias. Não se trata (ou não só) da típica fofoca de bairro. Elas vão perguntando aqui e acolá. Sabem se alguém em uma casa encontrou trabalho, quanto recebem naquela outra, se nasceu um bebê ou morreu o avô, como a prole vai na escola. A compilação e manipulação eficaz dessa informação é de tremenda utilidade para lutar contra a pobreza. É um combate em que seu país, Bangladesh, protagonizou o que a ONU qualifica de "progresso invejável": os pobres diminuíram de 57% há duas décadas (1991-1992) para os 31% atuais.
Isso os coloca claramente a caminho de cumprir esse capítulo dos Objetivos do Milênio da ONU. Para o êxito contribuíram, explica a organização multilateral, o crescimento econômico de aproximadamente 6% nos últimos anos - promovido em boa medida pelo setor têxtil -, junto com uma maior expectativa de vida e uma taxa de fertilidade decrescente. Os anticoncepcionais estão na ordem do dia nesse país muçulmano.
Bangladesh, que estava entre os últimos da classe, tornou-se um aluno adiantado. É dos países que está obtendo melhores resultados nos chamados Objetivos do Milênio (OdM) que em 2000 os países se propuseram a cumprir até 2015.
Criado em 1971 depois de uma guerra cruel, o americano Henry Kissinger proclamou naquela época: "O lugar é e sempre será um caso perdido". Tinha muitos obstáculos para que dependesse eternamente da ajuda exterior. É tão superpovoado que exporta mão-de-obra e capacetes azuis para todo o mundo. E, situado no imenso delta do Ganges e Brahmaputra, os ciclones causam estragos periodicamente.
Apesar desses antecedentes, a ONU lhe colocou um "progride adequadamente" em seu último relatório sobre os Objetivos do Milênio: "Bangladesh cumpriu alguns dos OdM como paridade na escolarização primária e secundária, redução da mortalidade dos menores de 5 anos (...) e já fez avanços invejáveis em redução da pobreza (...) escolarização primária, redução da mortalidade infantil e materna". Apesar do prognóstico de Kissinger, a ajuda ao desenvolvimento que recebe caiu de 5,6% do PIB no início dos anos 1990 para 1,6% em 2010, segundo o estudo.
Depois de conquistas como essas, dissecadas em grossos relatórios - o dos OdM ocupa 160 páginas -, existem pessoas como Ashiknur e suas três companheiras. Ou esse mapa que elaboraram que disseca 300 lares: quantos são de família, quem é pobre, quem é ultrapobre, onde há latrinas (...). São um dos milhares de comitês de desenvolvimento comunitário que existem em Korail, a maior favela de Dacca. É uma espécie de cidade que compartilham com outros 70 mil moradores (quase tantos quanto Ciudad Real) que vivem em moradias de chapas metálicas que alugam em becos estreitos, onde se encontram uma marmita ao fogo, uma barbearia, um café ou uma mercearia. Elas são a vanguarda de uma complexa estrutura de gestão que desenha e aplica um projeto do Pnud e outras organizações denominado Colaboração para a Redução da Pobreza Urbana.
Durante uma recente visita a Korail, essas mulheres explicavam que foram encarregadas de fazer o primeiro crivo entre as filhas de suas vizinhas para escolher - dentre as meninas de 10 a 14 anos que deixariam a escola por falta de dinheiro - quais devem ganhar uma bolsa para continuarem no colégio. Para decidir, foram perguntar sobre suas notas. Também são elas que propõem quem deve receber um microcrédito para empreender um negócio, que rapazes mandar como aprendizes em comércios ou se convém incluir entre os ofícios a ensinar aos adolescentes o de reparador de telefones celulares (um grande negócio, em vista de que 64% dos bengaleses têm celulares), motorista (ainda um projeto) ou esteticista.
Dois anos depois de entregue a ajuda, a situação do beneficiário é revisada. Por exemplo, se a mulher conseguiu receitas regulares, os filhos estão escolarizados e o marido tem rendas esporádicas, sobem na escala de ultrapobres para simplesmente pobres.
As melhoras que impressionam a ONU foram possíveis porque, apesar das ferozes disputas políticas, os governos investiram em ajudas sociais para os pobres e porque existem poderosas ONGs (o multipremiado Banco Grameen é o mais conhecido fora de suas fronteiras, mas há muitas outras) que "funcionam como empresas" em termos de eficácia, explicava um observador estrangeiro.
Apesar das conquistas, Bangladesh está atrasado em alguns capítulos dos OdM, como redução da fome, criação de emprego ou salários decentes para as mulheres. E a vida na favela de Korail ainda é muito precária. No ano passado as autoridades estiveram prestes a desalojá-los. Mas se plantaram aos milhares no bairro diplomático de Dacca e conseguiram paralisar o despejo maciço.
As ligações de luz e água ainda são ilegais. Várias famílias devem compartilhar cada latrina, não há escola. A conquista de que mais se orgulham esses moradores de Korail é o que conseguiram sozinhos, à margem das cerca de 30 ONGs que trabalham no bairro. É o pavimento simples de cimento que lhes permite caminhar sem se molhar enquanto as águas fecais escorrem de ambos os lados.

Reportagem de Naiara Galarraga, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Varejo ignora desastre em Bangladesh


O desabamento do prédio de uma fábrica de roupas em Bangladesh que matou mais de 1.100 pessoas é um desses acontecimentos que parecem unir trabalhadores, governos e empresas no empenho para evitar outros desastres.
Grandes lojas europeias, como Carrefour, H&M e Marks & Spencer, concordaram com um plano para melhorar a segurança das confecções em Bangladesh. Mas elas vão enfrentar uma desvantagem competitiva de gigantes do varejo americanas, como Gap e Wal-Mart, que se recusaram a participar da iniciativa, citando temores de obrigações legais.
Alguns dizem que esses temores são exagerados e refletem a obsessão pelas indenizações legais nos Estados Unidos em detrimento dos trabalhadores cujas vidas correm perigo.
Advogados trabalhistas afirmam que as empresas deveriam ter adotado mais cedo um plano de segurança no trabalho, especialmente depois do incêndio em uma fábrica em Bangladesh que matou 21 trabalhadores, em 2010.
"Essa era a coisa certa a fazer três anos atrás -mas eles não fizeram", disse ao "Times" Ineke Zeldenrust, coordenador da Campanha Roupas Limpas, que combate as chamadas "sweatshops" -oficinas com péssimas condições de trabalho.
As empresas relutam em gastar dinheiro para tornar as fábricas mais seguras, apesar de a despesa com isso ser apenas uma fração dos US$ 18 bilhões em roupas exportados anualmente por Bangladesh, relatou o "Times".
A luta para proteger trabalhadores em Nova York se concentrou em uma lei que exigia que mais companhias privadas oferecessem licença de saúde para seus empregados. Embora a medida se destinasse a oferecer uma rede de proteção para os trabalhadores mais vulneráveis da cidade, na maioria imigrantes que trabalhavam como faxineiros e funcionários de restaurantes, a presidente da Câmara Municipal, Christine C. Quinn, bloqueou a votação durante três anos, relatou o "Times". Quinn afirmou que a economia estava "frágil demais para impor novos custos às pequenas empresas".
Quinn, que é candidata a prefeita, está trabalhando agressivamente para reforçar suas ligações com a comunidade empresarial. Ela finalmente chegou a um compromisso com os defensores do projeto, depois do "rufar de tambores constante de entrevistas na imprensa pedindo que ela permitisse a votação e apelos emocionados de sindicatos, autoridades e ativistas".
Regulamentos de segurança fracos não são apenas um assunto de países em desenvolvimento como Bangladesh. Uma aversão ao poder regulatório no Texas contribuiu para a enorme explosão em uma fábrica de fertilizantes na pequena cidade de West. Catorze pessoas morreram, 200 ficaram feridas e a explosão arrasou grande parte da cidade. Ela colocou sob um novo foco os perigos que representam os setores industriais do Estado, que já tem um triste histórico de mortes em locais de trabalho.
Mas a reação foi mista. "A atitude de 'laissez-faire' sobre a supervisão e a regulamentação do governo tem de ter algum impacto nas medidas de segurança", disse ao "Times" o senador estadual Rodney Ellis, democrata.
Outras autoridades, como Tommy Muska, prefeito de West, disseram ao "Times" que maior rigidez nas regras de segurança contra incêndio ou no zoneamento não teriam salvo sua cidade. O governador Rick Perry também insiste que não há necessidade de mais regulamentos. Os texanos, disse ele, "estão satisfeitos com esse nível de supervisão".

Texto de Nadia Taha, para o The New York Times, reproduzido na Folha de São Paulo. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

'Eu não tive escolha a não ser ir trabalhar', diz sobrevivente de tragédia em Bangladesh


Uma sobrevivente da fábrica que desabou recentemente em Bangladesh descreve o dia da tragédia e a pressão constante para trabalhar mais rápido sob condições horríveis. Sua história oferece um vislumbre das vidas difíceis e empobrecidas das pessoas que produzem roupas baratas para o Ocidente.
Mushamat Sokina Begum, 27 anos, estava em sua máquina de costura na fábrica no quinto andar quando o edifício Rana Plaza, onde ela trabalhava na cidade de Savar, perto da capital de Bangladesh, Dacca, desabou na manhã de 24 de abril, matando mais de mil pessoas. Begum foi retirada dos escombros três horas depois, com uma perna ferida. Ela falou com o editor da Spiegel Online, Hasnain Kazim, sobre suas esperanças para seu futuro e os de seus dois filhos.
Eu realmente não quero começar a trabalhar novamente. A maioria das pessoas aqui se sente da mesma maneira. Estamos com medo. Acabei de saber de outra fábrica onde há rachaduras nas paredes. E sei de outro edifício pouco seguro que também dizem pertencer a Mohammed Sohel Rana (o proprietário do edifício Plaza Rana). Na semana passada, houve outro incêndio numa fábrica e pessoas morreram. Coisas assim acontecem constantemente. Eu creio que Deus quer nos punir por algo. Eu só não sei pelo quê ainda.
Nossas condições de trabalho são horríveis. Basicamente nunca temos um dia de folga. Se há uma morte na família, os patrões dizem: "bem, ninguém pode fazer nada a respeito. Se alguém está morto, está morto. Por que você quer ir lá? Você não pode fazer nada, de qualquer forma. Se você realmente quer tirar o dia de folga, então tire. Mas não ganhará nada nesse dia."
Nós só recebemos dinheiro se estamos na fábrica. Não há férias pagas. Às vezes trabalhamos até as 23h, sempre sob pressão, sempre ouvindo que devemos trabalhar mais rápido para que os pedidos sejam terminado a tempo. Nós trabalhamos até bem tarde antes do prédio desabar – muito embora muitas de nós tenhamos filhos. Quanfo falamos para os nossos superiores que queremos ir para casa porque nossos filhos estão esperando por nós, eles dizem, "por que você está vindo para trabalhar se você tem filhos? Fique em casa e cuide deles! Mas se você quer ter filhos, você não pode trabalhar para nós!" Ouvimos comentários desse tipo o tempo todo.
Fora isso, o calor também é insuportável! Na sala onde eu trabalhava havia apenas quatro pequenas unidades de ar condicionado para várias centenas de pessoas. Nós ficávamos perguntando quando eles iriam pelo menos comprar ventiladores. Os gerentes respondiam: "A produção não está indo bem. Se tivermos lucro, então poderemos comprar ventiladores. Trabalharem mais, daí poderemos falar sobre isso."
É assim que eram as coisas na nossa empresa, que eu acho que se chamava Ether Texas. O nome estava escrito no meu cartão de funcionário, em inglês. Mas eu não sei ler nem escrever, então eu não lembro o nome. Eu só estava na empresa havia algumas semanas.
As condições de trabalho no nosso setor são ruins. Nossa fábrica não era muito limpa. Muitos dos funcionários fumavam e cozinhavam, muito embora não devessem. Havia um depósito de lixo atrás do prédio e ele fedia. Sempre havia funcionários nos vigiando. Eles nos repreendiam quando tínhamos que ir ao banheiro. Eles ficavam lá o tempo todo e nós não tínhamos autorização para fazer nenhuma pausa, nem mesmo para ir até a janela por um momento e tomar um pouco de ar fresco. De vez em quando eles nos batiam.
Nós aturamos tudo isso. Eu não quero reclamar – nós ganhávamos o suficiente para sobreviver. Os donos da fábrica são ricos e investem muito dinheiro nas máquinas. Nós somos apenas os trabalhadores pobres. Vivemos como podemos viver. Nós não temos uma escolha. Por que eu deveria ter inveja das pessoas ricas? Eu não espero ser rica um dia.
Mas deveríamos pelo menos receber nossos salários em dia. Infelizmente, muitos dos donos de fábricas pagam com atraso. Então entramos em greve de vez em quando, às vezes por várias semanas. Por que deveríamos trabalhamos se não recebemos dinheiro? Temos de pagar o aluguel até o dia 10 de cada mês. Isso é difícil de fazer quando não recebemos nosso salário.
Nós não recebemos nada para o mês de abril e agora que a fábrica já não existe, ninguém sabe se vamos receber o dinheiro algum dia. Até agora eu não vi nenhum representante da empresa nos oferecer o nosso salário ou qualquer indenização.
Como todas as mulheres na fábrica, eu trabalhava das 8h às 17h. Eu ganhava 4 mil taka (cerca de 39 euros) por mês. Depois das 17h, recebíamos horas extras. Ao todo, meu salário mensal podia chegar até 5.500 taka (53 euros). Eu não sinto nenhuma raiva das empresas estrangeiras de comércio e vestuário. Elas fazem os pedidos e pagam por eles, e parte deste dinheiro vem para nós. Seria terrível se os pedidos parassem de chegar e as fábricas fechassem. Como poderíamos ganhar a vida, então? Temos famílias grandes, e queremos mandar nossos filhos para a escola. Precisamos de empregos.
A vida numa cidade grande como Dhaka é incrivelmente cara. O aluguel é muito alto. Somos quatro em um cômodo: meu marido, eu e nossos dois filhos, de 11 e 9 anos de idade. Pagamos 1.850 taka (18 euros) por mês pelo quarto. Meus filhos dormem no chão, meu marido e eu temos uma cama. Há uma cozinha compartilhada com dois fogões no nosso andar. Há dois lavabos no corredor e um banheiro para todos.
No nosso andar, ao todo há sete famílias que vivem em oito quartos. Os proprietários vivem em dois quartos e os outros seis são alugados. Temos água encanada, gás e eletricidade. Gosto do nosso quarto. Não seria nada mal ter um quarto para nossos filhos, é claro, mas quem pode pagar isso? Meus filhos vão para a escola e isso custa 500 taka (4,80 euros) por mês por criança, além dos materiais escolares. A educação é mais importante do que um segundo quarto. Meu marido dirige um riquixá, transportando de mercadorias. Ele não ganha muito.
Nós, mulheres, temos poucas escolhas além da indústria têxtil. Claro que os acidentes nos assustam. Eu conheço muitas pessoas que dizem: preferimos voltar a viver na aldeia e não ganhar nada a que ir encontrar a morte nas fábricas da cidade. Na minha fábrica, que ficava no quinto andar, só havia três saídas. Duas delas estavam sempre fechadas. As outras fábricas em que trabalhei não eram muito melhores. Nós costumávamos reclamar e perguntar: "e se houver um incêndio?" Mas eles não se importavam. As melhorias que queríamos eram pequenas – mais espaço nas salas da fábrica, ventiladores, mais saídas e escadas. E queríamos ser tratadas de foram justa.
Pessoalmente, eu não tenho expectativas para o futuro. O que os trabalhadores devem esperar? Tudo depende dos caprichos dos donos das fábricas. Por exemplo, bastava chover um pouco para que houvesse lama e a água chegasse a meio metro de altura. Quantas vezes dissemos aos gerentes que eles tinham que fazer alguma coisa? Chegávamos ao trabalho molhadas e ficávamos doentes. Eles nos prometeram que iriam cuidar disso. Mas é claro que nada mudou. do curso nada mudou.
Seria bom ter a minha própria máquina de costura. Isso seria uma forma de garantir o meu sustento. Então eu poderia aceitar pedidos e trabalhar em casa – conheço mulheres que fazem isso. Mas eu não tenho dinheiro para comprar uma máquina de costura. O salário do meu marido está longe de ser suficiente. Eu gostaria de ganhar o bastante para pagar a educação dos meus filhos. Eu quero oferecer um futuro melhor possível para eles. Eles não deveriam ter que trabalhar na indústria têxtil, ou dirigir um riquixá como meu marido. Então eu preciso encontrar um emprego, porque senão meus filhos terão que trabalhar e eles não conseguirão à escola, o que significa que eles nunca encontrarão bons empregos. Esta é a minha maior preocupação.
Quero que meus filhos tenham menos preocupações do que meu marido e eu. Nós não temos boa escolaridade. Eu só frequentei a escola pouco tempo. Muito pouco. Quero proteger meus filhos do mesmo destino. O melhor de tudo seria se eles poderiam encontrar empregos no governo.
A pessoa que eu mais culpo por toda essa calamidade é o dono do prédio, Sohel Rana. Ele não tinha uma permissão para construir um prédio tão alto. Ele próprio estava no prédio no dia em que este desabou. Ele sobreviveu milagrosamente, mas em vez de ajudar a resgatar os outros, ele simplesmente desapareceu. Isso é algo que eu gostaria de perguntar a ele: por que você foi embora? Outras pessoas do bairro, pessoas sem nenhuma conexão com o prédio, vieram e ajudaram.
O dia do desastre não começou bem para mim. Meu pai tinha ficado doente à noite, tão doente que tivemos que levá-lo ao hospital. Eu também estava doente. Mas não tive escolha a não ser ir trabalhar, porque eles haviam ameaçado não me pagar se eu não fosse.
Naquela manhã, antes de o prédio desabar, muitas pessoas estavam do lado de fora. Ninguém ousava entrar. Todos tinham um pressentimento de que era perigoso. Cerca de 8h10, os gerentes vieram e ordenaram que começássemos a trabalhar. Eles disseram que não devíamos nos preocupar, tudo estava seguro. "Também estamos aqui", disseram eles, e havia um monte de encomendas e estávamos sob muita pressão para terminá-las. Eu tinha ligado a minha máquina de costura quando o prédio desabou atrás de mim. Corri em direção a saída, mas o chão cedeu sob meus pés. De repente, eu estava enterrada até a cintura numa pilha de concreto.
Mas se nós não tivéssemos subido para a fábrica, teríamos perdido nossos empregos. Então obedecemos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Tragédia de Bangladesh expõe descaso com mulheres, vitais para o país

Dos escombros de uma fábrica de roupas localizada nos arredores de Dacca, capital de Bangadlesh, centenas de corpos de mulheres são trazidos à luz, seus sáris e vestimentas coloridas contrastando com a palidez da morte. Enquanto isso, ainda na capital do país, extremistas islâmicos queimam ônibus, saqueiam lojas e atacam policiais. Sua principal exigência: um estado islâmico, no qual as mulheres viveriam separadas dos homens.

A ironia dessa situação é o fato de as mulheres serem as responsáveis por gerar recursos vitais para Bangladesh (a indústria de vestuário do país, cuja maioria esmagadora da força de trabalho é composta por mulheres e movimenta US$ 19 bilhões por ano, é a principal fonte de renda do país). São as mulheres que dão duro para sustentar muitas vidas além de suas próprias. São as mulheres que carregam o peso do péssimo desempenho do país em relação às práticas de segurança do trabalho.

Durante mais de duas décadas, duas mulheres se alternaram na liderança política do país. E, ainda assim, esse país, a minha terra natal, continua em falta com suas mulheres.


Os radicais islâmicos também estão exigindo que "blogueiros ateus" sejam enforcados. Os manifestantes, muitos dos quais nunca acessaram a internet, compilaram uma lista com 84 blogueiros que eles desejam ver executados. Mais nomes deveriam compor essa lista, mas o blogueiro Rajib Haidar já foi retalhado até a morte. Asif Mohiuddin, outro blogueiro, foi esfaqueado.
Inspirados pelos blogueiros, centenas de jovens foram às ruas para protestar contra o extremismo. Mas, nesse processo, eles desencadearam seu próprio extremismo: eles querem a pena de morte para todos os acusados por crimes de guerra. Aqui também reside a ironia: não ocorreu a eles que os direitos humanos se aplicam tanto aos culpados quanto aos inocentes, e que mesmo o pior dos criminosos merece um julgamento digno e dentro dos preceitos legais.

O que dizer da classe política? Em uma medida calculada mas perigosamente míope, o principal partido da oposição está se aliando aos radicais islâmicos. O governo, por sua vez, está dizendo uma coisa e fazendo outra: ele anuncia políticas para estimular a igualdade de gênero, mas deixa intactas as leis discriminatórias. Condena o extremismo islâmico, mas prende quatro dos blogueiros (incluindo Mohiuddin) e acusa um editor de jornal de "instigar ideias negativas contra o Islã".

E o governo não faz nada para coibir a corrupção desenfreada que coloca a vida de milhões de trabalhadores em risco, seja através de construções de má qualidade ou do desrespeito pelas normas de segurança. E enquanto a contagem de corpos em Rana Plaza chegava a 1.000 cadáveres (posteriormente, essa contagem chegou a 1.127), outra fábrica têxtil foi incendiada. Oito pessoas ou mais morreram.

O abismo de distância

Ao longo de uma vida inteira atuando na defesa dos direitos humanos, eu tenho visto a fragmentação e a diversificação do discurso, à medida que as sociedades e as comunidades ganham complexidade. Direitos políticos. Direitos das mulheres. Direitos trabalhistas. Essa abordagem pode ajudar a mobilizar os eleitores, mas não reflete a maneira por meio da qual os direitos se sobrepõem uns aos outros, se alimentam uns dos outros, avançam e recuam juntos.
Em Bangladesh, essa conexão nos olha diretamente nos olhos: os direitos trabalhistas estão conectados aos direitos das mulheres, os direitos das mulheres das mulheres à liberdade de religião, a liberdade de religião à liberdade de consciência, a liberdade de consciência à liberdade de expressão. A liberdade dos blogueiros para escrever o que quiserem. A liberdade das mulheres – e dos homens – para poderem trabalhar sem temer por suas vidas.
Os direitos humanos são universais: será que hoje Bangladesh possui a visão, a coragem e a vontade política para se comprometer totalmente aos direitos humanos como fez no momento de sua independência, há quatro décadas? Em 1971, os habitantes do meu país lutaram não apenas pelos religiosos, mas também por aqueles que não tinham religião. Em 1971, nós lutamos para acabar com a discriminação não apenas contra a nossa própria etnia, mas também contra o nosso gênero. Em 1971, nós lutamos por direitos para todos.

Mas atualmente os habitantes de Bangladesh não contam com direitos para todos. A tragédia de Rana Plaza e o surto de violência islâmica fazem parte de um encadeamento de males, alimentados pela corrupção, pelo oportunismo político e pelo desrespeito aos direitos humanos universais. Quando apenas os meus direitos são levados em conta – e não os dos outros –, nenhum direito humano está seguro.

Texto de Irene Khan, para o International Herald Tribune, reproduzido no UOL. Tradução de Cláudia Gonçalves.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Fábricas de Bangladesh têm "terceirizados dos terceirizados"


É impossível competir em feiura com Dacca. A capital de Bangladesh é o caos em forma de cidade, um amontoado de prédios inacabados, sem qualquer plano urbanístico, que tenta abrigar cerca de 14 milhões de habitantes.
Só a metade são moradores oficiais. O restante veio dos quatro pontos cardeais de um dos países mais pobres do planeta, com a esperança de dar uma mordida nos 6% de crescimento econômico, porcentagem que enche de orgulho o governo e transforma o antigo Paquistão Oriental em um dos exemplos mais bem-sucedidos do milagre econômico do subcontinente indiano.
Mas os migrantes rurais não se encontram nos reluzentes centros comerciais que servem como oásis de tranquilidade para a emergente classe média. Não, é preciso brigar com um tráfego impossível durante pelo menos uma hora para encontrá-los no cinturão industrial de Ashulia.
Ali, centenas de milhares de pessoas queimam tijolos com técnicas próprias da Idade Média, dão forma a caldeirões, pregam solas em sapatos e os mais afortunados tecem em alguma das inúmeras fábricas que compõem a Zona de Processamento de Exportações (EPZ na sigla em inglês), cenário das maiores tragédias da indústria têxtil do país.
Por 54 horas de trabalho por semana, e sempre sob a ameaça de desmoronamentos como o da Rana Plaza - mais de 500 mortos - ou incêndios como o da Tazreen Fashions, com 110 óbitos, a maioria dos trabalhadores ganha o salário mínimo mais baixo do planeta: 3 mil takas (R$ 76) por mês. No entanto, como aponta Jesmin, uma jovem que esteve empregada dentro e fora da EPZ, "embora não existam medidas de segurança adequadas e muitas vezes não se paguem as horas extras nem se concedam licenças maternidade, todo mundo quer trabalhar ali porque as condições de trabalho são muito melhores".
Não por acaso, das EPZ - criadas nos anos 1980 para promover as exportações, acelerar o crescimento econômico e criar empregos em bairros deprimidos - sai grande parte da produção têxtil do país e a segunda do mundo.

O setor contribui com aproximadamente 80% dos produtos exportados por Bangladesh - quase € 20 bilhões - e emprega 3 milhões de pessoas em cerca de 4.500 fábricas.
"O empresário os define com base em peças por hora. Sabem que nenhum ser humano poderia cumpri-los, mas dá na mesma. Para atingir a quota, temos de trabalhar duas ou três horas extras por dia sem receber", afirma Moni, empregada na Inmaculate.
"Cada vez é maior a pressão dos clientes estrangeiros para cumprir códigos de conduta que reduzem as margens de lucro", reconhece Hashi, que ganha 3.500 takas (R$ 86) em vez dos 4.200 que lhe correspondem pelo novo padrão, e que chegou a trabalhar três meses sem um dia de descanso e 15 noites seguidas na alta temporada. "Por isso, o pior trabalho é terceirizado para ateliês aonde nunca foi um inspetor."
Ahmed R., um adolescente de 13 anos que opera um antigo tear em um galpão de amianto, sabe bem disso. É preciso afastar-se vários quilômetros do centro para encontrar essas oficinas que nunca aparecem nos meios de comunicação e que, entretanto, sofrem condições de trabalho muito piores.
"Aqui produzimos tecidos que muitas vezes acabam na EPZ e chegam a Europa e América já confeccionados", reconhece o proprietário, que teme represálias e fala sob a condição do anonimato. "Muitos empresários bengaleses mentem sobre a origem do material."
Ahmed e seus companheiros de trabalho, alguns meninos de 12 anos, são os terceirizados dos terceirizados, o último elo de uma cadeia que acaba nas vitrines de todo o mundo. A maioria nunca ouviu falar da responsabilidade corporativa das grandes multinacionais, que de forma indireta acabam utilizando seus produtos.
"Poucas empresas controlam toda a cadeia de produção", reconhece Nazma Akter, presidente da Federação Têxtil Sommilito. "A pressão conseguiu que sejam feitas auditorias nas fábricas de onde sai o produto final, para evitar a péssima publicidade de tragédias como a da Spectrum [que produzia para a Inditex, entre outros, e cujo edifício desmoronou, deixando 64 mortos], mas poucos vão além."
A própria Inditex, que respondeu às perguntas de "El País" por meio de um endereço genérico de correio eletrônico, reconhece que não tinha consciência de que ali se fabricava material para o maior grupo têxtil espanhol. "Havia recebido de um fornecedor do grupo - sem nosso conhecimento e, portanto, sem nossa autorização - uma única ordem de trabalho de duas mil unidades."
Outras marcas internacionais tiveram problemas semelhantes, muitas vezes por culpa da opacidade de seus sócios locais. "As companhias estrangeiras têm grande responsabilidade, mas muitas vezes os empresários bengaleses faltam a suas promessas e subcontratam sem prestar contas a ninguém", aponta Amirul Haque Amin, presidente da Federação Nacional de Trabalhadores Têxteis de Bangladesh.
Pouco importam esses detalhes na fábrica em que trabalha Ahmed. No interior dela, o tremendo barulho das máquinas impede ouvir os próprios pensamentos, e o adolescente ri com vontade quando lhe perguntam se tem proteção para os ouvidos. Indica com o dedo os pés descalços e afirma que o que o preocupa são as agulhas que caem.
Ahmed trabalha em média 11 horas por dia e tem sorte quando lhe pagam em dia os 75 takas (R$ 1,90) que ganha por jornada. "Não é muito, mas ajuda a manter a família", afirma com orgulho indisfarçável enquanto posa diante da máquina que opera.
O amianto do telhado e as chapas de metal das paredes transformam o lugar em um forno insuportável, mas os cerca de cem homens que manipulam o maquinário parecem não sentir calor. A única corrente de ar que circula, e que levanta uma fina camada de poeira, provocando espirros constantes, é a que vaza pelos buracos deixados pela construção descuidada. "E a porta, que deixamos aberta para não asfixiarmos. O pior é na temporada de chuvas, quando não há como impedir que a água entre", comenta um dos trabalhadores, que no entanto relativiza seu trabalho. "Estão pior os que fabricam tijolos ou trabalham no campo."
O capataz da fábrica reconhece que a situação não é ideal. "Não nado em abundância como os empresários da EPZ. Tenho problemas para pagar os empregados porque meus clientes me pagam os pedidos tarde e mal. Afinal, o que importa são somente o preço, a qualidade e as datas de entrega. E não como se produz."
 
Zigor Aldama, para o El País, reproduzido no UOL. Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Incêndio expõe produção insalubre (em Bangladesh)


Incêndio expõe produção insalubre

Por JIM YARDLEY
ASHULIA, BANGLADESH

O alarme de incêndio rompeu a monotonia da fábrica Tazreen Fashions. Centenas de costureiras ergueram os olhos de suas máquinas, assustadas. No terceiro andar, Shima Akhter Pakhi estava pregando capuzes em blusões de moletom. Ela correu para uma escada.
Mas dois gerentes bloqueavam o caminho. "Ignorem o alarme", ordenaram. "É apenas um teste. De volta ao trabalho."
Algumas mulheres riram nervosamente. Pakhi e outras trabalhadoras voltaram para suas mesas de costura. Ela consegue costurar um capuz em um blusão em cerca de 90 segundos. Costurou seis peças, talvez sete.
Então prestou atenção.
Fumaça e gritos vinham de baixo. Os dois gerentes tinham desaparecido. A eletricidade foi desligada em todo o edifício de oito andares. Não havia por onde escapar. As escadas levavam até o fogo. Grades de ferro bloqueavam as janelas. Um homem telefonou para sua mãe para lhe dizer que ia morrer.
"Todos entramos em pânico", disse Pakhi. "Aquilo se espalhou tão depressa. Não havia eletricidade. Estava totalmente escuro."
A Tazreen Fashions Limited operava no início da cadeia de suprimento global que entrega roupas feitas em Bangladesh para lojas na Europa e nos Estados Unidos. Por todos os critérios, a fábrica não era um lugar seguro para trabalhar. O prédio estava em construção e montes de tecidos e linhas eram guardados ilegalmente no andar térreo, perto de geradores elétricos.
Mas a Tazreen estava fazendo roupas destinadas a algumas das maiores redes varejistas do mundo, como a Walmart, a Sears e a C&A.
Ao todo, 112 trabalhadores morreram no incêndio em novembro.
A tragédia expôs uma terrível desconexão entre as marcas de roupas globais, o sistema de monitoramento usado para proteger os trabalhadores e as fábricas que produzem as encomendas.
Depois do incêndio, a Walmart, a Sears e outras lojas fizeram a mesma declaração surpreendente: não sabiam que a Tazreen Fashions fabricava suas roupas.



Incêndio mostra lado obscuro do consumo

Mas então quem, afinal, é o responsável quando as coisas dão errado? A indústria global de confecções aspira a uma responsabilidade que vai das fábricas distantes ao comércio, e a Tazreen Fashions era uma das muitas confecções à margem desse sistema.
Os donos da fábrica tinham sido multados por violações durante inspeções realizadas a pedido da Walmart e da Iniciativa de Conformidade Social das Empresas, uma organização europeia.
Mas a Tazreen Fashions recebia encomendas de qualquer modo, esgueirando-se pelas brechas do sistema ao oferecer custos baixos e entregas rápidas, como os compradores -e os consumidores- exigem.
Grande parte dos negócios da fábrica vinha através das redes opacas de subcontratações com fornecedores ou compradores locais. Ativistas trabalhistas, verificando o local do desastre, encontraram etiquetas, encomendas, desenhos e artigos de roupas de muitas marcas globais.
A Walmart disse que tinha deixado de autorizar a produção na Tazreen e que um único fornecedor, mais tarde identificado como Success Apparel, havia subcontratado a fábrica sem autorização. Documentos mostram que um subcontratante para outro fornecedor da Walmart, a International Intimates, mandava fazer roupões e camisolas na Tazreen para a Walmart e a Sears.
Alguns críticos questionaram como uma empresa como a Walmart, uma das maiores compradoras em Bangladesh e conhecida por seu sofisticado sistema de fornecimento global, poderia não estar informada sobre as conexões.
O dono da fábrica, Delowar Hossain, disse que seus gerentes arranjavam o trabalho através de intermediários locais. "Não conhecemos os compradores", disse. "O homem local é importante. O comprador não me importa."
Bangladesh é o segundo maior exportador mundial de confecções, atrás da China. Bangladesh tem os menores salários de confecções do mundo, e muitas vítimas na fábrica da Tazreen eram jovens da zona rural que ganhavam apenas US$ 45 por mês em uma indústria que hoje alcança US$ 19 bilhões em exportações.
Em Bangladesh houve grande indignação pública com o incêndio. Cerca de 100 mil pessoas teriam participado do funeral de 53 trabalhadores cujos corpos não puderam ser identificados. Líderes da indústria prometeram apoio financeiro aos sobreviventes e às famílias dos mortos. O governo local começou a inspecionar as 4.500 fábricas de roupas do país. Já encontrou violações dos códigos anti-incêndio em quase um terço das que examinou.
Em Bangladesh os incêndios em fábricas são um problema persistente, e o Fórum Internacional de Direitos Trabalhistas diz que mais de 600 trabalhadores de confecções morreram em incêndios desde 2005.
Ao reconstruir o último incêndio mortal, o "New York Times" entrevistou mais de duas dúzias de sobreviventes, parentes das vítimas, autoridades de Bangladesh, donos e gerentes de fábricas de confecções, auditores e outros.
"Nós como consumidores gostamos de poder comprar quantidades cada vez maiores de produtos cada vez mais baratos, todo ano", disse Richard M. Locke, vice-reitor da Escola Sloan de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Alguém está pagando o custo disso, e não queremos saber quem é. As pessoas que arcam com o custo estavam nesse incêndio."
Investigadores de incêndio dizem que, se as linhas e tecidos que pegaram fogo estivessem guardados em uma sala fechada, à prova de fogo, como exige a lei, o incêndio poderia ter sido contido. Em vez disso, o fogo se espalhou rapidamente, subindo pelas escadas com a fumaça tóxica de acrílico queimado. Os investigadores descobriram que poucos extintores de incêndio foram usados. E, finalmente, os gerentes cometeram um erro catastrófico.
"Eles perderam tempo", disse Abu Nayeem Mohammad Shahidullah, diretor geral do serviço nacional de bombeiros. "O tempo era tão precioso, tão importante. Mas eles disseram que era um alarme falso."
No sexto andar, Hashinur Rahman ouviu os gritos e correu para uma escada. Ele e outros mal haviam saído do prédio quando seu celular tocou. Era um amigo no terceiro andar. Centenas de pessoas estavam presas. "Salvem-nos!", gritou o amigo.
Rahman disse que subiu até uma janela do terceiro andar e quebrou a grade de ferro. Ele e outros ajudaram muitas pessoas a sair, incluindo Pakhi.
Enquanto a notícia do incêndio se espalhava, pessoas corriam para a fábrica: mães, pais, maridos, esposas e curiosos. Golapi Begum correu, esperando encontrar seu filho, Palash Mian, 18, que trabalhava no quinto andar. Begum olhou para a fábrica e gritou. Então seu celular tocou. "Mãe, não tenho como salvar minha vida", disse seu filho ao telefone. "Fiquei louca. Passei a noite inteira diante do portão principal da fábrica. Gritava o tempo todo."
Ela o encontrou no dia seguinte, quando os socorristas alinharam os cadáveres resgatados. Ela apanhou o corpo e voltou para a sua aldeia, onde ele foi enterrado.
Colaborou Julfikar Ali Manik, em Ashulia, e Steven Greenhouse, em Nova York


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Justiça tribal leva garota de 14 anos a ser condenada por adultério e morrer durante chibatadas

Uma garota de apenas 14 anos, condenada a levar 101 chibatadas por ter se relacionado com um homem casado, morreu enquanto era castigada, em um vilarejo de Bangladesh. Hena Akhter, que apesar da pouca idade também era casada, na verdade, foi estuprada, segundo a família.

De acordo com a CNN, a jovem era constantemente assediada por um primo de 42 anos, que havia passado uma temporada trabalhando na Malásia. O pai de Hena, Darbesh Khan, chegou a denunciar o sobrinho, Mahbub Khan, que foi condenado a pagar uma multa a família.

No entanto, isso não o impediu de, certo dia, prender Hena em um banheiro e estuprá-la. A garota ainda conseguiu fugir, mas foi encontrada pela mulher do primo, que denunciou os dois ao conselho de anciãos local.

O tribunal improvisado –  ilegal pelas leis do país, mas ainda bastante comum em áreas pobres do país – condenou a jovem, baseado na lei islâmica, a levar 101 chibatadas por ter se relacionado com um homem casado. Mahbub Khan foi condenado a levar 201, mas conseguiu escapar depois das primeiras.

Hena desmaiou após ter levado 70 chibatadas e foi levada ao hospital coberta em sangue. Morreu após uma semana. “Ela era inocente”, diz a mãe de Hena, Aklima, que confiou na filha até os últimos instantes.


Visto no UOL Notícias. 

Absurdo e triste!