terça-feira, 2 de setembro de 2025

O julgamento do Brasil


No dia seguinte à eleição de Bolsonaro, muitos entre nós acordaram com uma ressaca moral que durou quatro anos. Ninguém anotou a placa do caminhão que nos atropelou com a notícia de que escolhemos o verdugo no lugar do professor.

Era doloroso demais ver o país no espelho representado por essa escolha. Uma eleição honesta, como têm sido todas as eleições pós-ditadura neste país, mostrou a verdadeira face do Brasil, majoritariamente autoritário e afeito a ignorar a própria história.

Numa desconfiança quase paranoica, nos perguntávamos quem na rua, na academia, na fila do supermercado estaria feliz e quem estaria contrariado com o desfecho da campanha. No consultório, o pânico era geral. De um lado, temiam os que esperavam que o presidente cumprisse as atrocidades prometidas nos palanques e entrevistas, de outro, os que imaginavam uma retaliação da oposição, receosos de uma guerra civil.

A esquerda, historicamente demonizada neste país, se calou diante da eloquência das urnas, revelando pendor democrático misturado com estupefação.

A urna eletrônica que elegeu Bolsonaro era a mesma que ele e seus comparsas insistiam em vilipendiar com a intenção de preparar o golpe, imitando o presidente que pensa que América é o nome do seu país, não de um continente. É esse megalomaníaco que serve de farol para a família B., sem escrúpulos de prejudicar uma nação inteira para fugir das consequências dos próprios atos.

A gestão indecente da pandemia, que atravessou boa parte do governo Bozo, foi crucial para que ele não fosse reeleito. A escalada autocrática a que assistimos na maior democracia do mundo nos dá uma boa noção do que nos esperava (espera?) caso seu desgoverno não revelasse tamanha incompetência. Mas é claro que esse projeto não aceita um não como resposta, porque foi feito para transformar cidadãos em súditos.

Nesta terça, 2 de setembro de 2025, o Brasil vai a julgamento. Sua memória, a frágil democracia, as mortes pela Covid que poderiam ter sido evitadas, a ascendência dos militares sobre o Executivo, a impunidade histórica. Tudo isso estará em questão pela primeira vez.

Mais do que julgar um governante desqualificado e seus comparsas pegos com a boca na botija, trata-se de voltar a olhar no espelho para saber se tivemos algum ganho de consciência depois de tanto padecimento. Porque a dor não ensina nada, só embrutece, salvo se nos dedicarmos a encontrar suas causas e enfrentá-las.

Assumir uma posição de resistência diante da ambiguidade nacional é o voto dos otimistas incorrigíveis.

Encontro-me nesse grupo, talvez porque já tenha visto grandes transformações na vida das pessoas comuns, talvez porque o nosso pessimismo é a matéria-prima da qual se alimentam nossos inimigos.

Em geral, é difícil dimensionar um acontecimento histórico enquanto o estamos vivendo. Mas não será simples naturalizar um evento de repercussões internacionais que pode representar o início de uma guinada contra as pretensões da extrema direita mundial.

De minha parte, espero acordar no dia 13 de setembro com a sensação de que venceu nossa versão mais digna.


Reprodução de texto de Vera Iaconelli na Folha de São Paulo

Luis Fernando Verissimo falava muito pouco, mas fazia o Brasil inteiro rir


Luis Fernando Verissimo surgiu no Caderno B do Jornal do Brasil ao mesmo tempo em que, nos Estados Unidos, Woody Allen, já famoso no cinema, se revelava como humorista pela New Yorker. O ano era 1974 e, para alguns, a identidade de estilos era óbvia.

Assim como Woody, Verissimo se punha na posição do observador que via o ridículo ou o absurdo com grande naturalidade. Também como Woody, ele não buscava a gargalhada, mas o riso silencioso. E seus personagens, assim como os de Woody, eram homens e mulheres nascidos não para, mas um contra o outro.

O texto era elegante e conciso, bem diferente do coloquialismo barroco de Nelson Rodrigues e da ferina objetividade de Millôr Fernandes, os dois cronistas mais ativos da época.

Mas Verissimo não devia nada a Woody Allen. A semelhança entre eles se dava por terem em comum as mesmas matrizes —os também americanos Robert Benchley, morto há 80 anos, e S. J. Perelman, que morreu em 1979.

Apesar de vigente nos Estados Unidos desde princípios do século 20, ninguém fazia esse humor no Brasil. Verissimo foi pioneiro —ele próprio se definia como um brasileiro que escrevia "em americano traduzido". Hoje, esse tipo de humor está presente, sem a mesma qualidade, na maioria dos que praticam a comédia stand-up por aqui.

Sem querer, e justamente por admirar o autor, atrasei em um ano a consagração de Verissimo. Em fins de 1975, o Jornal do Brasil criou a Domingo, a primeira revista semanal colorida dentro de um jornal, e seu editor-executivo —eu— quis Verissimo em suas páginas.

Com isso, ele deixou de publicar no jornal, de alcance nacional, e passou a sair só na revista, que, no começo, circulava apenas nos exemplares que se destinavam ao Rio de Janeiro. E assim, durante algum tempo, Verissimo foi um privilégio dos cariocas. Quando foi reincorporado ao jornal, o Brasil o descobriu —e se apaixonou.

Ele conseguiu a proeza de fazer o país rir com um personagem de forte sabor regional, o analista de Bagé. Outra de suas criações, a velhinha de Taubaté —a última pessoa no Brasil a continuar acreditando no regime militar— nos lavava semanalmente a alma. Minha favorita, no entanto, era uma que ele explorava pouco, a ravissante Dorinha Doravante, a socialite socialista, que escrevia ao cronista cartas deliciosamente cínicas.

Verissimo também desenhava (na minha opinião, muito bem) e construiu pequenas grandes sagas em quadrinhos.

A melhor delas, a da família Brasil, com aquele pai perplexo e sem chão, às voltas com a filha moderninha e com o genro hippie e parasita —um porta-voz de muitos de sua geração, que já não se reconheciam muito bem no mundo. Com seus toques de Jules Feiffer no desenho e Neil Simon nos diálogos, a família Brasil teria feito bonito em qualquer jornal do mundo.

Fomos colegas e contemporâneos no Jornal do Brasil, em O Estado de S. Paulo e na revista Playboy e, no decorrer de 40 anos, nos encontramos dezenas de vezes. Mas tudo que dissemos um para o outro, sobre jazz, futebol ou literatura, caberia numa única página.

Verissimo falava pouco. Eu o entendia —com a quantidade de material que tinha de escrever diariamente para jornais e revistas, falar devia parecer a ele uma queima de energia. E ele não abria mão da qualidade, como se pode ver em seus livros —em quase 100% saídos do que produzia para a imprensa.

Adepto de primeira hora do Partido dos Trabalhadores, Verissimo vinha sofrendo ultimamente com seu partido —assunto de que evitava tratar nas colunas. Sofria também cobranças, às vezes agressivas, dos que não pensavam como ele.

Esses agressores não entendiam que, com seu jeito único e intransferível de enxergar a fragilidade humana, Verissimo, na verdade, nunca pensou como ninguém.


Reprodução de texto de Ruy Castro na Folha de São Paulo.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Fãs, amigos e familiares lotam velório de Arlindo Cruz, na Império Serrano


Até as 17h deste sábado, só se ouvia Ludmilla e o seu "Numanice" nos rádios em frente à Império Serrano, na zona norte do Rio de Janeiro. Até que sintonizaram em "O Show Tem Que Continuar", e os fãs espremidos na entrada da escola de samba entoaram o clássico de Arlindo Cruz, sambista morto nesta sexta, aos 66 anos, enquanto aguardavam a abertura do velório do músico, às 18h. Em poucos minutos, o espaço lotou.

gurufim de Arlindo —uma homenagem com música, festa, bebida e dança— acontece na sua escola do coração, que por 11 vezes levou um samba de sua autoria para a avenida e está previsto para virar a madrugada, até 10h do domingo. Depois, às 11h, o sepultamento será no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, zona oeste da capital fluminense, numa cerimônia restrita a parentes e amigos próximos.

Além das dezenas de fãs —que cantavam e batiam palmas, acompanhando os atabaques em cânticos de candomblé, religião de Arlindo—, foram lá familiares e amigos próximos, como seus filhos Arlindinho e Flora, Regina Casé, Zeca Pagodinho, Hélio de la Peña, Marcelo D2, Marcos Salles, seu biógrafo e a escritora Conceição Evaristo. Alguns deles participaram de uma despedida mais reservada, antes da abertura para o público.

Arlindinho é requisitado pela imprensa e pelos fãs, que puxam selfies mesmo com o rosto abatido do filho. "Meu pai me ensinou que, desde o momento que colocamos o pé do lado de fora de casa, a gente está trabalhando. Essa é a vida do artista. Então, hoje é um dia de dor, mas também de trabalho. A cerimônia está do tamanho que ele merece, de tudo que ele plantou. Agora é seguir esse legado."

Babi, viúva do músico, chegou por volta das 19h, quando Arlindinho empunhou seu banjo e iniciou o gurufim. Ele e sua filha Maria Helena, neta de Arlindo, entoaram alguns sucessos do sambista, como "O Show Tem que Continuar", "Meu Lugar" e "O Bem".

"É a primeira vez que eu entro na quadra do Império Serrano. Eu desfilei no ano da homenagem, mas não vim para nenhum ensaio", diz Kauan Felipen, filho de Arlindo em outro relacionamento. "E é meio nostálgico, mesmo não tendo vivido aqui. Aqui é o lugar de origem dele, então é um lugar meio místico para mim, bem forte".

O gurufim, porém, não encobre a dor com alegria —desata o nó da garganta através da música. Em volta da grade, os fãs cantam com olhos marejados e narizes fungando na noite fria do Rio.

Uma roda de samba —ou pagode, já que nunca existiu diferença entre os gêneros para Arlindo— começou por volta das 19h30, seguindo com alguns clássicos da rua, como "Agora Viu Que Me Perdeu e Chora", "Pra Ser Minha Musa" e "Meu Poeta".

"Arlindo era o elo entre gerações", diz o cantor e compositor Mosquito. "Era um cara muito antenado, estava na rua o tempo inteiro. Um cara que conhecia a molecada e tinha um respeito pelos grandes. Era um cara generoso, sensível e sagaz ao mesmo tempo".

Perto das 21h, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes também foi ao velório com Cristina, sua esposa. Eles se juntaram à roda de samba e cantaram abraçados aos familiares do sambista. Com um copo de cerveja na mão, o prefeito atendeu os imperianos. Também esboçou um samba no pé quando a bateria da escola entra na quadra, às 22h20. "Não preciso falar nada. Arlindo é isso aqui, a alma do carioca", disse.

Um pouco antes, por volta das 22h, a viúva Babi voltou ao pé do caixão. Entre lágrimas, recebeu alguns amigos, como André Diniz, Milton Cunha e o músico Leandro Sapucahy, que produziu dois álbuns de Cruz. Para ele, os últimos anos, desde que o sambista sofreu um AVC em 2017, foram de sofrimento pela ausência de uma perspectiva de melhora no quadro de saúde dele.

"Apesar de achar que estávamos nos preparando, quando chega esse momento é difícil. O Arlindo foi muito generoso e importante na minha vida", disse Sapucahy. "Todo mundo fala do Arlindo Cruz poeta, mas acho que as pessoas hoje não tem noção do tamanho da perda. Arlindo era um amigo, que me confortava, que ligava todo dia, que trazia as pessoas para perto."

"O mestre descansou", diz Salles, o biógrafo. "E deixa uma obra e uma trajetória das mais importantes da história da música, da história do samba. Que todos aprendam e prestem atenção nas canções deixadas por Arlindo."

Como pedido pela família, a maioria das pessoas veste roupas claras, em sinal de luz, alegria e da energia positiva que o músico espalhou ao longo de sua vida.

O caixão foi posicionado em frente ao palco da quadra, onde foram espalhadas mais de uma dezena de coroas de flores —com mensagens de nomes como o presidente Lula e da primeira-dama Janja da Silva, além da Beija-flor de Nilópolis—, enquanto um telão mostra imagens do sambista. Sobre o caixão, bandeiras da Mocidade, Grande Rio, Império Serrano e do Flamengo.

Arlindo morreu por falência múltiplos dos órgãos. O sambista estava internado no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca. Desde 2017, lidava com as complicações de um acidente vascular cerebral.

Em 2023, Arlindo foi o homenageado da Império Serrano durante o Carnaval. Em um dos carros, havia uma imensa alegoria do artista, tocando banjo e usando uma coroa imperiana, símbolo da escola. O próprio músico participou, acompanhado da família e de uma equipe médica –ele sofreu um acidente vascular cerebral em 2017, que o deixou com graves sequelas.


Reprodução de reportagem de Gabriel Dias na Folha de São Paulo.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Lula acerta ao deixar aliança do Holocausto, usada para silenciar críticas a Israel, diz professor


No mês passado, o governo do presidente Lula retirou o Brasil da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

A decisão gerou uma avalanche de críticas, do governo de Israel à Confederação Israelita do Brasil (Conib), que viu no ato um "retrocesso moral".

Professor do programa de História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (Niej), e pesquisador de antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, em Israel, onde fez mestrado e já deu aulas, Michel Gherman diz que "acusar Lula de antissemita" por causa da decisão é um "absurdo".

Gherman, que é judeu, critica duramente a entidade, a quem acusa de ser usada por "um lobby evangélico, branco e de direita" que adota definições de antissemitismo que visam criminalizar críticas a Israel e silenciar a mídia e intelectuais em todo o mundo.

"Transformar a maior liderança política da história do Brasil em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro", afirma.

Ele afirma ainda que Israel "pode e precisa ser criticado" e diz que o genocídio em Gaza ameaça a legitimidade do país.

*

GOVERNO E ISRAEL

O governo Lula se retirou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), o que gerou polêmica na comunidade judaica. Foi uma demonstração de antissemitismo?
Setores amplos da comunidade judaica, inclusive progressistas, têm questionado a saída do Brasil da IHRA. Eu acho que isso se deve a um erro na forma como a decisão foi levada [a público pelo governo].

Mas é fundamental, antes de mais nada, entendermos o que significa a IHRA e por que alguns intelectuais e professores universitários, dentro e fora do Brasil, têm questões com essa organização. Eu sou um deles.

Quais seriam essas questões?
O antissemitismo é tão perigoso quanto o racismo. Ele é uma forma de racismo. Com antissemita não se conversa. Com racista não se conversa. Quando o antissemita senta, você se levanta da mesa. Ele não tem direito de expor suas opiniões porque coloca em risco grupos específicos. Tal qual o racista.

O debate sobre o racismo prepondera porque o grupo que está em risco no país é o dos afrodescendentes. Os judeus não estão em risco cotidiano no Brasil. Mas vamos pensar estrategicamente no que significa acusar um presidente [Lula] eleito três vezes pelos brasileiros de ser antissemita. No que significa acusar a liderança do maior partido de esquerda da América Latina de ser antissemita.

E o que significa?
Significa desconsiderá-lo como alguém com quem é possível conversar. Significa deslegitimá-lo, transformá-lo em alguém que você tem que se levantar da mesa quando ele se senta. É muito sério. É muito grave.

Este presidente [Lula] instituiu o Dia do Holocausto no Brasil [em 2024]. Visitou a sinagoga de Recife, a primeira das Américas. Nunca deixou de falar da importância da existência do Estado de Israel e do papel do Brasil em sua criação.

Na década de 1980, este presidente esteve em Israel quando ainda era apenas uma liderança política. Se encontrou com sindicalistas e com partidos progressistas do país.

E por que o acusam de antissemita?
Essa tentativa de dizer que Lula é antissemita já vem de algum tempo. Eu estudava na Universidade Hebraica de Jerusalém quando Lula visitou Israel e disseram que ele se negou a visitar o Museu do Holocausto. Ora! Eu conheço o guia que esteve com o Lula no museu. Tem fotos da visita.

A saída do Brasil da IHRA se transformou em mais uma oportunidade para setores que, antes de serem judeus e de estarem preocupados com o Holocausto, querem produzir um discurso anti-lulista. A quem interessa dizer que Lula é antissemita?

A quem?
Às pessoas que não querem ver uma liderança como ele novamente na Presidência da República. Lula é visto por setores importantes das classes médias brasileiras como alguém que não pode estar onde está.

E aqui, vamos falar a verdade: Lula erra. E erra muito. Quando ele fala que o que ocorre em Gaza só é comparável ao que Hitler fez com os judeus, é um erro. Houve outros genocídios desde então. Dores não são comparáveis. Ele pode ser criticado por isso.

Agora, transformar aquela que, segundo historiadores importantes, é a maior liderança política da história do Brasil, eleito presidente três, talvez até quatro [caso concorra e vença em 2026], em alguém que odeia os judeus pode interessar a muita gente. Mas não interessa aos judeus do Brasil. É um erro.

[Entidades judaicas] Chamam ele de antissemita e depois pedem um encontro? Querem conversar?

Eu queria insistir no questionamento sobre a saída do Brasil da IHRA.
Vamos lá. A IHRA foi criada em 1998 para manter a memória e combater o negacionismo histórico do Holocausto —fruto de um antissemitismo contemporâneo que produz a ideia de que o judeu é tão forte e tão poderoso que domina o mundo a ponto de criar a história de um genocídio contra si.

Ele cria a ideia de que, diante de um grupo tão poderoso, a destruição e o extermínio são as únicas possibilidades.

E por que a IHRA passou a ser questionada?
A partir da segunda década dos anos 2000, a IHRA passou a ser instrumentalizada por grupos conservadores, por lobistas dos EUA que defendiam não só a existência de Israel mas, fundamentalmente, as práticas políticas do governo de Israel. E esses grupos incorporaram na definição de antissemitismo da IHRA elementos que podem controlar o debate público.

O que isso significa?
Significa, por exemplo, que dizer que Israel tem políticos comparáveis aos nazistas será considerado antissemita.

Como historiador, eu digo que há, sim, possibilidade concreta de se comparar discursos de um Ben-Gvir [ministro da Segurança de Israel], de um [Bezalel] Smotrich [ministro das Finanças de Israel], com os [discursos] dos nazistas.

O nazismo é um fenômeno histórico. Ele não existiu para nunca mais se repetir. Ele foi derrotado militarmente, mas segue existindo como ideia. O judeu foi vítima do nazismo não porque era judeu, mas porque o nazismo decidiu que ele seria vítima.

Nada no judeu justifica o preconceito contra ele, e principalmente o seu extermínio. Da mesma maneira, nada no judeu justifica a ideia de que ele não pode produzir-se nazista. Isso é história!

Um judeu pode ser nazista?
É claro. O preconceito, a discriminação, a percepção de que a alteridade [colocar-se no lugar do outro] deve ser exterminada é produto de condições históricas específicas. Da mesma maneira que o judeu pode ser vítima disso, por que ele não pode ser algoz ou elemento? O que o judeu tem de especial que não pode produzir racismo contra outro grupo?

ARMA POLÍTICA

O senhor pode citar exemplos?
Os discursos de Ben-Gvir e de Smotrich afirmando que não há inocentes em Gaza podem, sim, ser comparados aos dos nazistas que produziram a ideia de que não havia inocentes nas aldeias judaicas do leste da Europa.

Eu seria antissemita ao dizer isso? É claro que não. O que as definições da IHRA andam produzindo é a perseguição contra intelectuais. Inclusive intelectuais judeus. E hoje conservadores, inclusive não judeus, são os maiores defensores da IHRA.

No Brasil, quem levou adiante o projeto de lei que implementa [as diretrizes da IHRA] foi o [ex] ministro [da Saúde, Eduardo] Pazuello.

Jair Bolsonaro era candidato em 2017 quando foi a um clube judaico e disse, por exemplo, que os quilombolas são animais e não servem nem para reproduzir. Que há raças boas e ruins. Eu não posso acusá-lo de ter um discurso com gramática nazista? Seria banalização?

Banalização é não falar sobre o nazismo. A sacralização de um fenômeno histórico produz a incapacidade de ele ser relevante. A história não é sagrada. Ela precisa ser estudada e comparada. Se o nazismo nunca mais vai se repetir, por que eu tenho que estudá-lo?

Como se deu o que senhor chama de instrumentalização do antissemitismo?
O antissemitismo é um fenômeno importante, histórico e perene, que segue existindo e ameaça a democracia. Mas setores da direita têm utilizado o antissemitismo como uma espécie de racismo contra brancos. E isso é muito perigoso.

ANTISSEMITISMO

Por que?
É como se fosse possível competir. "Ah, vocês estão falando dos negros, mas os judeus [também] foram perseguidos." A direita pretende, e esse é o risco, dizer que os brancos podem também ser vítimas de racismo colocando, para isso, os judeus como brancos.

A tomada da IHRA pela direita, portanto, tem a ver com dois elementos: o primeiro deles é na perspectiva de uma gramática racista contra brancos - aquilo que chamam de racismo reverso.

O segundo é o vínculo da direita, judaica ou não judaica, com a ideia de que criticar as práticas de Israel, criticar o governo de Israel de maneira radical é antissemitismo. Israel pode e precisa ser criticado. Quem considera que críticas a Israel são não legítimas não entende o que significa a existência de Israel como estado normal para um povo normal que lá vive.

Essa compreensão de que não se pode criticar Israel não só é equivocada, como ela produz antissemitismo. São definições [de antissemitismo da IHRA] que permitem a perseguição a intelectuais. Nos EUA, na Alemanha, isso já está acontecendo com muita frequência.

ALIANÇA DO HOLOCAUSTO

E no Brasil?
O governo brasileiro não poderia entrar na IHRA neste momento, principalmente por causa do uso político que a extrema direita faz da questão judaica e de Israel. Acusar o Lula de antissemita [porque o governo deixou a IHRA) é um absurdo.

Justificar a existência da IHRA como referência única no debate do Holocausto é absurdo. Ela deixou de ser vinculada exclusivamente à memória do Holocausto e é [hoje] vinculada a Israel e a definições questionáveis de antissemitismo.

O que eu estou propondo é que haja a possibilidade de o governo incorporar definições mais democráticas de antissemitismo e de memória do Holocausto que constituem menor risco à democracia. Que não são uma ameaça de silenciamento aos intelectuais e à mídia.

Eu justifico aqui a existência da Declaração de Jerusalém, que é assinada por intelectuais israelenses e palestinos contra o antissemitismo como fenômeno da modernidade.

O lobby que garante a IHRA como referência não é judaico. Ele é evangélico, branco e de direita.

Com raízes nos EUA?
O próprio Netanyahu fala que seus grandes aliados não são mais os judeus. O apoio que os judeus dos EUA dão ao Partido Democrata chega a 80% nas eleições. É histórico e perene.

É claro, portanto, que não estamos falando de um lobby de massas judeu a favor do Partido Republicano [de Donald Trump].Estamos falando de outra coisa.

E qual é a outra coisa?
É o sionismo cristão. É a ideia de Israel ser apoiado por grupos brancos e cristãos. É o famoso nacionalismo cristão citado pelo [teólogo] Ronilson Pacheco, com quem estou escrevendo um livro, e que parte de uma gramática e de uma perspectiva de conversão final dos judeus ao cristianismo.

E, nessa perspectiva do evangélico, se o Holocausto é sagrado, e não produto de um processo histórico, ele é sacrificial. Há uma relação vinculante entre as vítimas e o que aconteceu com elas. Por isso, é fundamental que ele seja separado dos outros genocídios. É isso que produz a ideia de vincular o Holocausto a Israel e ao sionismo.

A ordem pós-Segunda Guerra Mundial está sendo agora ameaçada pelo Trump, que coloca Israel no lugar que ele quer. Que é o lugar dos evangélicos de direita. Dos evangélicos brancos. De uma branquitude, e não dos judeus como povo que tem direito a um território.

GUERRA

O que ocorre em Gaza é um genocídio?
Vou me apropriar das palavras de um intelectual de altíssimo nível, o [professor de estudos sobre Holocausto da Universidade Brown, nos EUA] Omer Bartov: "Eu sou um pesquisador do genocídio, eu reconheço um quando eu vejo". Como disse a historiadora Hannah Yablonka, dos Museus dos Guetos em Israel, uma referência em estudos do genocídio: o que acontece em Gaza é produto de vingança, e não de estratégia. E vingança produz genocídio.

Por que é tão difícil, para muitos judeus, aceitar críticas a Israel sem entendê-las como antissemitas?
É preciso entender a dificuldade que pessoas com vínculos radicais com Israel, como eu, têm de dizer que o país está praticando genocídio.

Nós vivemos a vida inteira falando sobre "nunca mais" e memória do Holocausto. Quando falamos sobre genocídio, nos colocamos num lugar fundamentalmente difícil e dolorido.

Eu reconheço que o que acontece em Gaza é genocídio. Isso não significa que não me dói. Essa geração, e a geração dos meus filhos, que têm família em Israel, vão crescer sendo acusados de que o país com quem têm vínculos profundos praticou um genocídio.

Entender isso é fundamental. Os judeus que estão aqui no Brasil comendo em restaurante kosher, indo em sinagogas, indo para a praia, não são israelenses. Não têm poder de decisão. Essas pessoas precisam ter tempo para entender que nada justifica o tamanho da tragédia que o Exército israelense está produzindo em Gaza.

É como se fosse um negacionismo?
Esse é o risco. Se você começa a negar o genocídio dos outros, o seu genocídio vai ser negado.

Não é um debate político e ideológico. É um debate sério, sociológico, historiográfico e jurídico. E que precisa ser feito. É preciso que se exija de Israel que ele funcione a partir da lógica que o fundou. Israel precisa refazer-se a si próprio. Um país que ocupa territórios produzindo não-cidadania nos ocupantes está sob risco grave de legitimação.

E se isso não acontecer?
Se não funcionar efetivamente a partir da criação de um Estado palestino a seu lado, ou de alguma configuração que permita o retorno de direitos às populações que foram expulsas daquele território, Israel vai seguir existindo. Mas vai perder a sua legitimidade. Com tudo o que está acontecendo agora, a gente vê que isso é absolutamente concreto.


Reprodução parcial da coluna de Mônica Bérgamo na Folha de São Paulo.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Para Zambelli e elite, cidadania europeia é pedigree de branquitude


É digna de nota (de repúdio, diga-se) a forma com a qual a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) vê a sua dupla nacionalidade como escudo para esquivar-se da Justiça. "Como cidadã italiana, eu sou intocável na Itália, não há o que ele possa fazer para me extraditar de um país onde eu sou cidadã", afirmou Zambelli à CNN Brasil, mostrando que, além de mentir sobre como funciona o sistema eleitoral, mente sobre como opera a lei.

A rigor, Zambelli falseia: a Constituição italiana não veda a extradição de seus cidadãos (diferentemente da brasileira no caso de cidadãos natos), sendo possível tanto o cumprimento da pena na Itália, quanto a extradição de Zambelli ao Brasil com base em tratados internacionais ratificados por ambos e avaliado o caráter criminal da conduta nos dois países. Importa, no entanto, que Zambelli faz uso da cidadania europeia por razão que não a jurídica.

Para a elite brasileira, a cidadania europeia é pedigree identitário da branquitude, ou seja, é a reivindicação de uma linhagem superior a dos demais mestiços mambembes. Salvo nos casos raros em que se busca afirmar um laço genuíno, o passaporte europeu serve como definidor de privilégios em tempos de crescente nacionalismo racista anti-imigração nos EUA e na Europa. Branquitude não é um dado objetivo, mas sim contextual. Os privilégios simbólicos e/ou materiais a que pessoas brancas têm acesso (p.ex., impunidade perante a lei) estão condicionados a se estas são lidas como tais (aqui vale ler Cida Bento e Lia Schucman).

A asserção da branquitude europeia não vem sem contradições internas. Irrita a branquitude brasileira pisar nos EUA e ser vista como latina (e, portanto, não branca) e, assim, ser submetida às indignidades a que outros, com menos atenção, são submetidos diariamente.

Irritará Zambelli perceber que nem sua linhagem europeia a protegerá de ser responsabilizada por tentativa de golpe de Estado, mesmo na nação que se esforça para não prender pessoas brancas e que prende funkeiros pretos com alarde cinematográfico.


Reprodução de texto de Thiago Amparo na Folha de São Paulo.

domingo, 1 de junho de 2025

Defesa de liberdade de expressão por Musk, Bolsonaro e Trump era estelionato


A liberdade de expressão está sob ataque nos Estados Unidos. Trump está destruindo a autonomia universitária, prendendo estudantes por suas opiniões políticas e ameaçando recusar visto de entrada no país para quem criticar seu governo em redes sociais.

A culpa dessa ofensiva autoritária é de quem ficou do lado dos Elon Musks desse mundo, contra os Alexandres de Moraes desse mundo, dizendo que defendia a liberdade de expressão.

Se você fez escândalo quando as contas golpistas em redes sociais foram suspensas em 2022, lamento, foi você quem prendeu os jovens estudantes americanos pró-Palestina. Se você deu razão aos bolsonaristas contra Alexandre de Moraes, você declarou guerra a Harvard. Se você disse que Elon Musk tinha razão contra o STF brasileiro, ou se opôs aos "fact-checkers", você é pessoalmente responsável pelo estabelecimento de censura política na concessão de vistos americanos.

Lá, como aqui, a questão sempre foi simples: há movimentos poderosos que buscam destruir a democracia. O bolsonarismo aqui, o trumpismo lá. Quando as instituições democráticas reagiram, você ficou do lado de quem?

Do ponto de vista prático, é só isso que interessa, filho. Você achar que agiu por princípio não importa, seu apego à performance "acima da polarização" não importa. Se você ficou com Jair, Musk ou Trump, você trabalhou pelo autoritarismo de Trump e por coisas infinitamente mais violentas que teriam acontecido no Brasil se o golpe de Bolsonaro tivesse sido bem-sucedido.

Você o fez brincando de jogar "liberdade de expressão" no modo "easy", como se jogava 30 anos atrás, antes da emergência de movimentos autoritários de massa com penetração institucional fortíssima e capacidade real de ameaçar a democracia.

Alguns anos atrás, participei de um debate sobre Alexandre de Moraes com Glenn Greenwald, colunista desta Folha. Como advogado, Greenwald, que é judeu, defendeu os direitos de um militante neonazista. A pergunta que Glenn nunca me respondeu é a seguinte: até que mês de 1933 ele ainda defenderia os direitos dos nazistas se estivesse em Berlim? E se os "stakes" não fossem só o risco de um idiota ofender gente no Twitter, mas o risco de vitória de um movimento poderoso que destruiria a democracia?

Vale conferir o que estão fazendo os críticos do STF diante da ofensiva liberticida trumpista.

Na semana passada o deputado Nikolas Ferreira deu seu apoio à censura trumpista contra alunos que querem estudar nas universidades americanas ("comunistinhas de meia-tigela"). Google e Meta, as "vítimas" da regulação, participaram do seminário de comunicação do Partido Liberal, a principal organização autoritária brasileira, e ouviram de Jair Bolsonaro que "estão do lado certo". O próprio governo Trump, culpado dos crimes listados no primeiro parágrafo, ameaça punir o STF brasileiro pela defesa da democracia. Musk fazia parte do governo Trump até a semana passada.

O exemplo americano mostra que a defesa da liberdade de expressão pela extrema direita de Musk, Bolsonaro e Trump era estelionato. Se você caiu nessa, fica a dica: da próxima vez que te chamarem para defender o direito de marchar, não custa nada abrir a janela e checar se os fascistas estão marchando sobre Roma.


Reprodução de texto de Celso Rocha de Barros na Folha de São Paulo

A luta palestina no futebol


No dia 5 de junho, a seleção da Palestina de futebol enfrentará, como visitante, a do Kuwait, pelas eliminatórias asiáticas da Copa do Mundo de 2026, na América do Norte.

São mínimas as chances de classificação, a começar pelo fato de os palestinos não poderem jogar em casa, no seu estádio em Jerusalém, por causa do genocídio imposto pelo Estado de Israel, cuja seleção disputa as eliminatórias europeias, expulsa que foi da federação asiática de futebol em 1974, como punição aos seus crimes de guerra.

A partir de 1991, a Uefa admitiu a entrada de Israel como se fosse país europeu.

Na penúltima convocação da seleção palestina, em março, um vídeo comoveu os torcedores pelo mundo afora.

Crianças são mostradas, em meio aos escombros de Gaza arrasada, com fotos de três dos jogadores selecionados.

O vídeo termina com as crianças saindo de uma sala de aula improvisada para ir jogar futebol enquanto as demais fotos dos convocados são penduradas em uma das traves.

Segundo as informações da federação de futebol palestina, mais de 600 atletas já foram mortos pelos ataques terroristas das tropas do nazistoide Netanyahu, o que torna impossível competir em igualdade de condições.

E sem que a Fifa suspenda Israel das competições internacionais, diferentemente do que faz com a Rússia pela invasão na Ucrânia.

Aos que fazem da desonestidade intelectual seu modo de ser e argumentar, notem a rara leitora e o raro leitor que aqui não se defende a seleção do Hamas, mas a punição aos terroristas de qualquer origem.

Defender o genocídio é simplesmente criminoso, calar-se diante dele é cumplicidade —e é estarrecedor o silêncio de entidades como a Conib e as diversas federações israelitas espalhadas pelo Brasil.

"O que estamos fazendo em Gaza agora é uma guerra de devastação: matança indiscriminada, ilimitada, cruel e criminosa de civis. Não estamos fazendo isso por perda de controle em algum setor específico, nem por algum ímpeto desproporcional de alguns soldados em alguma unidade. Em vez disso, é o resultado de uma política governamental, ditada de forma consciente, perversa, maliciosa e irresponsável. Sim, Israel está cometendo crimes de guerra."

As palavras, publicadas no jornal israelense Haaretz, são de Ehud Olmert, que foi primeiro-ministro de Israel entre 2006 e 2009 e é ex-membro do Likud, o partido do terrorista Netanyahu.

Ou seja, de direita, além de ter cumprido pena durante 19 meses por corrupção, acusado de ter recebido suborno quando prefeito de Jerusalém.

Até ele tomou vergonha na cara.

A Fifa, e outras entidades aqui citadas, não!


Reprodução de parte da coluna de Juca Kfouri na Folha de São Paulo.

sábado, 31 de maio de 2025

Marcel Ophuls e a lenda da França resistente


Ao fim das quatro horas e meia de "A Tristeza e a Piedade", Anthony Eden, o primeiro-ministro inglês, se recusa polidamente a julgar a atitude dos franceses frente aos nazistas: "Como não sofremos os horrores da ocupação, não temos esse direito". Compreende-se: não era de bom-tom notar que a França em peso havia colaborado com a barbárie.

A Pátria das Luzes adotou por livre vontade leis racistas mais depravadas que as da Alemanha. Campos de concentração brotaram na Terra dos Direitos Humanos por iniciativa de Paris, não de Berlim. A Filha da Igreja deportou 75 mil judeus para Auschwitz, e só 5% sobreviveram.

O que passou, passou: não dá para mudar a história. O que às vezes muda é a percepção do passado. Por isso "A Tristeza e a Piedade", de Marcel Ophuls, é um filme único: reconfigurou a imagem que um povo fazia de si, trincou o espelho no qual os franceses se admiravam.

Judeu, Ophuls nasceu na Alemanha, de onde sua família fugiu para Paris quando os nazistas avançaram. Escapou de novo anos depois, dessa vez dos colaboracionistas —os "colabôs"—, e se exilou em Hollywood.

Em 1968, filmou o documentário cujo subtítulo o resume: "Crônica de uma Cidade Francesa sob a Ocupação"; no caso, Clermont-Ferrand, burgo médio no meio do hexágono, súmula do modo de ver e viver da França profunda.

Entrevistou dezenas de testemunhas da Ocupação, de incontáveis profissões. A cabeleireira conta que amava Pétain. O oficial alemão reclama que os partisans não usavam uniforme. Gay, o espião inglês revela que namorou um soldado da Wehrmacht. O trabalhador torturado pela Gestapo sabe quem o delatou, mas não diz seu nome porque "seria se igualar a ele".

O campeão de ciclismo não se lembra de ter visto alemães em Clermont-Ferrand, e em seguida o farmacêutico recorda que "a cidade estava cheia de alemães de capacete". O aristocrata explica por que se alistou na SS: queria enfrentar comunistas no front soviético. O comerciante Marius Klein admite que publicou um anúncio classificado informando que era católico: "Não queria que pensassem que sou judeu".

Mendès-France, socialista, judeu e ex-primeiro-ministro, conta a fuga da cadeia. Depois de dias de ginástica —"eu não era esportivo"—, subiu no muro do presídio para pular na rua. Como um casal de namorados estava embaixo, esperou, esperou, esperou: "Ele tinha ideias precisas e ela não se decidia". Depois de muita conversa, a moça concordou. Mendès-France gostaria de os reencontrar, para comentar a "audácia" dele e a "indecisão" dela naquela noite tão especial para os três. Suspira: "O amor, a sorte, a fuga". É sublime.

Intercalados por trechos de cinejornais alemães e franceses, os depoimentos formam um mosaico. A trilha sonora desmente as imagens, e uma fala contradiz a anterior. Não há parti pris, mas fica cristalino que o grosso dos franceses não se importava. Fora da família, que se danem todos, pensavam. Por isso colaboraram com os boches.

Até então, vigia a versão de De Gaulle. Desde que se exilara em Londres, apregoava que Vichy era uma fraude e a França era ele. O Partido Comunista abonava a mentira porque apoiara o pacto Stálin-Hitler, e só veio se integrar à Resistência um ano depois da Ocupação.

O documentário afrontou a lenda. O diretor da estação de TV que financiara parte de "A Tristeza e a Piedade" contou a De Gaulle como era o filme. O comentário do general, nunca admitido nem desmentido, teria sido "A França não precisa de verdades, precisa de esperança".

Proibido na televisão, o filme passou no cinema em 1971, mas só no Saint-Séverin, no Quartier Latin. Todos os dias, 500 pessoas ficavam fora da sala, tal o afluxo. Depois de décadas de polêmicas e pesquisas —como as do historiador americano Robert Paxton no livro "Vichy France"—, o documentário se impôs.

Ele chegou à televisão só em 1981. Em 1995, o presidente Jacques Chirac admitiu o papel ignóbil da França nas torturas, deportações e assassinatos. Marcel Ophuls morreu no sábado passado (24). Tinha 97 anos.

Ele dizia não acreditar na culpa coletiva, e sim na responsabilidade individual. Ao dar a palavra a indivíduos –heróis, homicidas, cúmplices–, "A Tristeza e a Piedade" mudou o modo de encarar a Ocupação.

Não mudou a história porque, repita-se, o que passou, passou para sempre. Tampouco ele influi no presente: como reza o aforismo de Santayana, comprovado diariamente por Israel em Gaza, "aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo".


Reprodução de texto de Mario Sergio Conti na Folha de São Paulo.

domingo, 25 de maio de 2025

Sobre racismo. Ruth Gilmore e Édouard Louis


"Quando lhe perguntam que significado a palavra 'racismo' tem para ela, a intelectual americana Ruth Gilmore responde que racismo é a exposição de algumas populações a uma morte prematura.

Essa definição funciona também para o machismo, a homofobia ou a transfobia, a dominação de classe e para todos os fenômenos de opressão social e política. Se considerarmos a política como o governo de seres vivos por outros seres vivos e a existência de indivíduos dentro de uma comunidade que não escolheram, então política é a distinção entre populações com a vida sustentada, encorajada, protegida, e populações expostas à morte, à perseguição, ao assassinato."


Copiado de O Pensador.

Israel do rio ao mar


Às vésperas de completar 600 dias, a guerra em Gaza só piora. As atrocidades de hoje são maiores que as de ontem e menores que as de amanhã. Mais de 51 mil palestinos já morreram, incluindo 15.506 crianças e 916 bebês de menos de um ano. São cifras defasadas: Israel matou mais 29 meninas e meninos na quinta-feira (22).

A contagem é feita pelo Ministério da Saúde local, que, se não diferencia vítimas civis das militares, dá o nome de todas. Como o Hamas o dirige, Israel diz que as cifras mentem, mas oculta quantos cadáveres produziu. Tampouco autoriza a entrada de jornalistas no enclave.

Nem por isso Gaza é indevassável. Há vídeos de repórteres que moram ali e fotos de satélite. As imagens dos últimos dias mostram a agonia de crianças esquálidas e olhos saltados. Moleques de nariz escorrendo que estendem panelas vazias a adultos perplexos. Ruínas e mais ruínas

Como fundo sonoro para os filmes da fome, Netanyahu e seus ministros proclamaram que tanques tomarão territórios; os palestinos serão chutados para os quintos; Gaza será governada por eles. Nada de dois Estados, será Israel do rio ao mar, do Jordão ao Mediterrâneo.

Até os governos europeus protestaram. Pode ter sido um revide extraoficial às críticas, ou os soldados israelenses estavam distraídos, o fato é que mandaram bala em diplomatas europeus que entraram em Gaza. A resposta oficial foi a cabala de sempre: quem contesta a matança é antissemita.

O aluvião de críticas refluiu graças a um terrorista norte-americano. Assim que ele fuzilou um casal de funcionários israelenses, Netanyahu gritou que seus críticos eram cúmplices de "assassinos em massa, estupradores, matadores de bebês e sequestradores". Gastou mais tempo difamando Macron do que censurando o assassino em Washington.

O discurso tétrico lembrou o verso de W.H. Auden que fala da "fria e controlada ferocidade da espécie humana". O poeta também foi lembrado por ser o autor de "Espanha, 1937", a "Guernica" literária da Guerra Civil Espanhola, o canto que cata os cacos dos combates e os atira ao futuro. Ele parece se referir a Gaza, às angústias de agora.

Aos 30 anos, Auden era uma das figuras mais estimadas da esquerda britânica. Como Hemingway, engajou-se nas Brigadas Internacionais e foi defender a República na Guerra Civil. Na volta, escreveu "Espanha, 1937", que logo estava em todas as bocas.

Houve quem o criticasse. Orwell, um dos primeiros, fixou-se no verso "a aceitação consciente da culpa quando é necessário assassinar". Amigos judeus dizem algo parecido: a morte de inocentes horroriza, mas é necessária para proteger Israel, temos consciência disso.

O autor de "1984" acusou Auden de escrever com essa dureza porque "nunca cometera um assassinato, nenhum de seus amigos fora assassinado, talvez nunca tenha visto o cadáver de alguém assassinado".

Orwell, que também fora à Espanha, tomara um tiro no pescoço e vira pilhas de mortos, disse que "não escreveria com leveza sobre homicídios". A primeira crítica, pois: Auden falava do que não sabia, compunha versos abstratos para falar de mortes concretas, fingia emoções.

"Eu não falaria levianamente sobre assassinatos", continuou. "Para mim, o homicídio deve ser evitado. Qualquer pessoa comum acha isso." Pegou pesado: "Os Hitler e os Stálin acham a morte necessária, mas não propagandeiam sua insensibilidade". Segunda crítica, então: "Espanha, 1937" era irresponsável, amoral, insensível.

Auden mudou-se para Nova York e estava lá no dia em que Hitler invadiu a Polônia e deflagrou a Segunda Guerra Mundial. Rascunhou no balcão de um bar da rua 52 talvez a mais famosa das suas obras, "1º de Setembro de 1939". Ela diz:

"O povo todo sabe, até eu,
O que toda criança aprende:
Aquele a quem se faz o mal
Revidará, e mais mal fará"

O povo todo sabe que os palestinos revidarão o mal de que são vítimas, e os israelenses se vingarão do mal que lhes é feito. Apesar do encadeamento categórico de maldade e revanche, o poema propõe: "Amemos uns aos outros ou morreremos". Na época, Auden se afastava do marxismo e se aproximava do cristianismo, o que pode explicar o verso.

O poeta veio a voltar atrás e abjurou tanto "Espanha, 1937" como "1º de Setembro de 1939". Justificou-se: eram poemas "desonestos", expressavam "sentimentos e crenças que seu autor nunca teve", uma evidente inverdade.

Nenhuma guerra satisfaz a todos, há vencedores e vencidos. A força faz com que uns ganhem e outros percam. A força, não a poesia.


Reprodução de texto de Mario Sergio Conti na Folha de São Paulo